Participação e deliberação na internet: Um estudo de caso do Orçamento Participativo Digital de Belo Horizonte

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Esse artigo busca avaliar trocas discursivas realizadas no frum online do oramento participativo digital (OPD) de Belo Horizonte, Brasil. Para tanto, formulado um modelo de anlise das discusses entre os cidados participantes do programa baseado nas teorias de democracia deliberativa. So analisadas as mensagens dos usurios (n=375) postadas na ferramenta de comentrios do site do OPD. Os resultados apontam que os aspectos discursivos concernentes reciprocidade e reflexividade se mostraram relativamente escassos; entretanto, o respeito pelos outros interlocutores, bem como a construo da justificativa dos pontos de vista expressos no frum, alcanaram ndices elevados, mesmo no havendo empowerment da ferramenta ou incentivo por parte da Prefeitura. Conclui-se que a internet pode, efetivamente, oferecer ambientes voltados para o estabelecimento de trocas discursivas qualificadas e que, mesmo nos casos onde h baixos ndices de deliberatividade, h progressos importantes do ponto de vista do aprendizado a que so expostos os usurios.

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<ul><li> 1. Participao e deliberao na internet:Um estudo de caso do Oramento ParticipativoDigital de Belo HorizonteRafael Cardoso SampaioPrograma de Ps-Graduao em Comunicao e Cultura ContemporneasUniversidade Federal da BahiaRousiley Celi Moreira MaiaFaculdade de Filosofia e Cincias HumanasUniversidade Federal de Minas GeraisFrancisco Paulo Jamil Almeida MarquesInstituto de Cultura e ArteUniversidade Federal do CearResumo: Esse artigo busca avaliar trocas discursivas realizadas no frum online do oramentoparticipativo digital (OPD) de Belo Horizonte, Brasil. Para tanto, formulado um modelo de anlise dasdiscusses entre os cidados participantes do programa baseado nas teorias de democracia deliberativa.So analisadas as mensagens dos usurios (n=375) postadas na ferramenta de comentrios do site doOPD. Os resultados apontam que os aspectos discursivos concernentes reciprocidade e reflexividadese mostraram relativamente escassos; entretanto, o respeito pelos outros interlocutores, bem como aconstruo da justificativa dos pontos de vista expressos no frum, alcanaram ndices elevados, mesmono havendo empowerment da ferramenta ou incentivo por parte da Prefeitura. Conclui-se que a internetpode, efetivamente, oferecer ambientes voltados para o estabelecimento de trocas discursivasqualificadas e que, mesmo nos casos onde h baixos ndices de deliberatividade, h progressosimportantes do ponto de vista do aprendizado a que so expostos os usurios.Palavras-chave: internet; democracia; oramento participativoAbstract: This paper aims to examine how political conversations take place on the online forum offeredas part of the Digital Participatory Budget (OPD) in a Brazilian city, Belo Horizonte. The authors proposean analytical model based on deliberative theories in order to investigate the discussions over thisparticipatory program. The main sample consists of the messages posted by the users (n=357) on thecommentaries section. The results show that reciprocity and reflexivity among interlocutors are rare;however, the respect among the interlocutors and the justification levels in several arguments were highduring the discussion. The authors conclude that, even in a situation in which there is no empowermentoffered by of the digital tools, the internet can effectively provide environments to enhance a qualifieddiscursive exchange. In spite of low levels of deliberativeness, the case study shows that there areimportant gains concerning social learning among the participants.Keywords: internet; democracy; participatory budgetingOPINIO PBLICA, Campinas, vol. 16, n 2, Novembro, 2010, p.446-477</li></ul><p> 2. SAMPAIO, R. C; MAIA, R. C. M. e MARQUES, F. P. J. A. Participao e deliberao...447Introduo1Nas ltimas dcadas, h uma discusso crescente a respeito de formas dedemocracia que privilegiem a soberania popular. Busca-se superar a idia de que ocidado ordinrio, no-organizado, seja aptico ou que no tenha capacidade deintervir de maneira qualificada no sistema poltico. Essas correntes tratam do idealde democracias mais participativas e, especialmente, mais deliberativas(HABERMAS, 1996).De tal maneira, inmeros experimentos discursivos tm sido realizadosvisando-se uma deliberao pblica inclusiva, igualitria e com efeitos reais nosistema de produo da deciso poltica. o caso de diversos Deliberative Polls,organizados por James Fishkin, Citizens Juries, Consensus Conferences,AmericaSpeaks e outros tantos (GOODIN, DRYZEK, 2006). Todas estas iniciativas sevoltam para testar experincias de insero dos cidados na discusso sobre acoisa pblica, aperfeioando-se, assim, um conjunto relevante de mecanismosparticipativos plausveis de serem empregados em democracias de massa.No caso do Brasil, a experincia mais proeminente o oramentoparticipativo (OP). Iniciado na dcada de 1990 em diversas cidades do Brasil, o OP um programa que procura partilhar o poder de deciso com os cidados emquestes que os concernem diretamente. De um lado, a esfera da cidadania tem aoportunidade de realizar discusses e negociaes abrangentes, buscando indicarquais seriam suas necessidades mais candentes. De outro lado, o Estado abre,ainda que parcialmente, o espao decisrio que se encontra sob sua tutela desde oadvento das democracias modernas, incentivando a participao e a deliberaodos cidados. O objetivo final,argumenta-se, seria alcanar resultados polticosmais justos e legtimos (FUNG, 2007).Na ltima dcada, um nmero crescente de instituies polticas brasileirastem realizado experincias de oramentos participativos, enfatizando o emprego dainternet. A fim de compreender o perfil participativo delineado em tais iniciativas,bem como suas conseqncias polticas, prope-se avaliar, neste artigo, o casomais proeminente de OP online no Brasil. Verifica-se, especificamente, se aintroduo da internet teve efeitos positivos sobre os meios e modos pelos quais sedesenvolve a deliberao pblica dos cidados.O propsito desse artigo realizar a avaliao da discusso realizada nosfruns online do oramento participativo digital de Belo Horizonte, buscandocompreender alguns dos fatores que podem ter gerado impacto sobre os resultadosdessa deliberao entre cidados. Assim, na primeira seo, fazemos uma brevereviso de conceitos habermasianos da deliberao pblica e esforamo-nos em1 Este artigo baseado nos resultados da pesquisa de mestrado desenvolvida pelo primeiro autor eorientada pelos dois outros autores. 3. OPINIO PBLICA, Campinas, vol. 16, n 2, Novembro, 2010, p.446-477ampliar a discusso conceitual em torno do tema. Em seguida, apresentamos umconjunto de estudos em deliberao online, assim como os principais quesitosvalorizados para se apreender metodologicamente as manifestaes discursivas noambiente digital. Na terceira parte, indica-se o objeto emprico a ser estudado,caracterizando seu contexto e suas ferramentas digitais. Na quarta seo, delineia-sea metodologia de apreenso daquelas manifestaes concernentes deliberaoonline. Finalmente, so demonstrados os resultados e algumas concluses quepodem ser extradas do caso em tela.448Deliberao PblicaH diferentes tradies de democracia deliberativa, que so inspiradas emfilsofos como Aristteles e Hannah Arendt, em pragmatistas como John Dewey eGeorge Mead ou mesmo em liberais, como John Rawls. Para nossos fins,trataremos a idia de Democracia Deliberativa proposta pelo filsofo alemo,Jrgen Habermas. Alm de ser o modelo aplicado por grande parte dos estudos dedeliberao online, h particularidades do modelo que nos sero importantes, comoser verificado abaixo.Habermas (1996) defende uma verdadeira soberania popular e atravs deseu modelo deliberativo explica como o poder comunicativo se relaciona com oadministrativo. O objetivo do autor apresentar as condies para a gneselegtima da lei, em um esforo heurstico dedicado a pensar formas mais robustasde prticas democrticas. A chave fundamental destacada por Habermas seria atroca de razes entre os agentes do jogo poltico, fomentada pela instaurao deprocessos discursivos que tenham a capacidade de reverberar sobre a estruturaestatal.Nas trocas discursivas, os participantes tematizam exigncias de validade etentam resgat-las ou critic-las atravs de argumentos e sua fora medida emum contexto criado pela solidez das razes. Por serem submetidas a avaliaes ecrticas, acredita-se que as expresses racionais tambm podem ser corrigidas emelhoradas atravs de trocas discursivas (HABERMAS, 1996, p.173-4).A deliberao seria, assim, a busca, atravs de prticas discursivas, damelhor soluo, ou ainda, daquela mais vlida, justa e verdadeira. Ela propetrazer tona modos de lidar com conflitos que, de outra forma, dificilmenteencontrariam soluo. Os processos de formao da opinio e da deliberaoinfluenciam as preferncias dos participantes, pois permitem filtrar os temas, ascontribuies, as informaes e os argumentos em disputa. Assim, idealmente,apenas as razes vlidas conseguem atravessar os filtros de negociaes e dosdiscursos racionais, ganhando importncia para as tomadas de decises. 4. SAMPAIO, R. C; MAIA, R. C. M. e MARQUES, F. P. J. A. Participao e deliberao...Ademais, a deliberao apresentaria uma vantagem extra, porque, mesmonos casos em que no se alcance o melhor resultado, esta possibilidade continuaaberta para ser obtida no futuro, pois a deliberao est continuamente sobavaliao dos envolvidos.Mas o modelo discursivo habermasiano, no obstante sua importncia,possui concorrentes. Na busca por alternativas ao modelo de deliberao deHabermas, h toda uma linha de pensamento que afirma que a razo no pode sero nico elemento a compor a deliberao. Segundo John Dryzek (2007), os modelosde deliberao baseados na excessiva racionalidade e justificao (RAWLS, 2005;GUTTMAN, THOMPSON, 2004) seriam muito exigentes, pois tendem adesconsiderar aspectos como a coero, o engodo, a estratgia e a manipulao,comuns no processo deliberativo.De tal maneira, o processo deliberativo pode incluir a negociao e at abarganha, pois tais atividades podem ajudar os participantes a entenderem melhoros pontos de vista dos outros e at os seus prprios. E, se a idia de bem comumestiver ligada melhor soluo para o maior nmero de pessoas, a barganha e anegociao devem ser importantes partes da comunicao mtua para forjar edescobrir esse bem (MANSBRIDGE, 2007, p. 264).Mark Warren, por sua vez, tambm tenta ampliar as possibilidades para arealizao da deliberao. O autor afirma que natural a expectativa de que osparticipantes adentrem a comunicao com intenes estratgicas, pois isso defineuma questo poltica na qual os participantes discordam e que h apostas que osmotivam a tentar vencer argumentativamente. As instituies devem canalizar ainteno estratgica em falas, na esperana de que os participantes s possamalcanar seus caminhos atravs das falas, o que os levaria a tentar a persuaso.Segundo a concepo deste estudioso, mesmo se houver falas no deliberativasoriginalmente, elas podem ser capturadas para produzir dinmicas deliberativas nafuno (WARREN, 2007, p. 278).449Deliberao onlineSegundo Dryzek (2007), a democracia deliberativa constitui a rea maisativa na teoria poltica contempornea e h tambm um interesse crescente emincrementar o componente discursivo na execuo cotidiana das atividadespolticas. Essa tendncia tambm se refletiu nos estudos de internet e poltica, quedevotaram grande importncia s anlises sobre como as ferramentas digitais decomunicao e informao poderiam auxiliar a criao de uma democracia maisdeliberativa ou, simplesmente, como ajudariam aos cidados a se engajarem emuma deliberao pblica de qualidade. 5. OPINIO PBLICA, Campinas, vol. 16, n 2, Novembro, 2010, p.446-477Uma vez que a internet permitiria s pessoas conversarem entre si e ouvirem vriospontos de vista, no havendo limitaes de tempo ou espao, ela poderia ser usadapara expresso poltica, deliberao e at para a tomada de decises (DAVIS,2005).Entretanto, diversos estudos de deliberao online apresentaram resultadosnegativos em termos de deliberatividade e uma escassez atinente disposio dosusurios em participarem da troca de razes. Nesse sentido, Jankowski e Van Os(2003), ao estudarem os fruns da cidade digital de Hoogeveen (Holanda),concluram que a discusso analisada pouco sinalizou para a identificao de umdebate com caractersticas deliberativas. As discusses foram dominadas por umpequeno grupo de participantes; mostraram-se restritas em relao variedade detemas; apresentaram-se limitadas quanto expresso de interesses mtuos ereciprocidade.Para Wilhelm (2000), a deliberao est ligada diversidade de idias e defontes. Seus estudos mostram que os fruns online da Usenet2 so, pelo contrrio,muito homogneos, ou seja, estariam mais propensos a reunirem pessoas comopinies similares (like-minded people). Essa tendncia levaria, segundo o autor, auma fragmentao (balkanization) dos discursos. Isto , determinados tipos defruns seriam inadequados para promover uma exposio dos usurios aperspectivas polticas distintas. Os estudos de Wilhelm (2000) tambm apontamque as threads tm pouca durao, que os participantes vm e vo e a maioriaapenas testemunha o desenvolvimento dos debates (lurkers), no se inserindo nadiscusso.Davis (2005), tambm ao examinar os fruns da Usenet, enftico aodescartar a possibilidade de uma efetiva deliberao online. Davis afirma que falta discusso online uma efetiva busca por solues, fundamento da idiadeliberacionista. A internet tem servido apenas para expresso pblica deposicionamentos particulares, que no necessariamente se confrontam. O espaopblico ideal deveria ofertar no apenas a chance de se discutir tpicos, mas,tambm, das pessoas se educarem a respeito dos temas. Por sua vez, os cidadosdeveriam estar dispostos tambm a se escutarem e a buscarem solues para seusdilemas de natureza poltica.Entretanto, nas trs pesquisas apresentadas (e em diversas outras),percebe-se que h, por um lado, um foco excessivamente voltado para avaliar ocomportamento dos indivduos em tais fruns avaliados; por outro lado, a internet vista apenas como uma ferramenta. Tais pesquisas concluem, de maneira2 Usenet (Unix User Network) um meio de comunicao, onde usurios postam mensagens de texto("artigos") em fruns que so agrupados por assunto (newsgroups). Os artigos postados nos newsgroupsso retransmitidos atravs de uma extensa rede de servidores interligados. Fonte:. Acesso em: [2 Mar. 2010].450 6. SAMPAIO, R. C; MAIA, R. C. M. e MARQUES, F. P. J. A. Participao e deliberao...generalizante, que os usurios no tm interesse em entrar em discusses dequalidade e que os new media no apresentam instrumentos ou formas adequadaspara sustentar tais discusses.A fim de examinar os fruns do oramento participativo digital, defendemosuma perspectiva diferenciada, englobando trs quesitos que precisam serconsiderados ao se fazer um estudo de deliberao online: (I) o contexto no qual adiscusso se desenvolve; (II) a estrutura ou o design das ferramentas digitais decomunicao e (III) as estratgias metodolgicas empregadas para se apreender adeliberao.Para Janssen e Kies (2005) o contexto definido, basicamente, pordiferenas culturais identificadas entre os usurios, pelo tipo de ator poltico ahospedar o debate, pela ideologia dos participantes e pelo tpico de debate. Taiscaractersticas permitiriam uma apreenso mais qualificada da deliberao online,considerando os participantes e tambm o ator poltico a fomentar a discusso.A estrutura comunicativa, ainda segundo Janssen e Kies (2005), trata decaractersticas das ferramentas digitais do frum online, nos quais eles destacam:necessidade de identificao ou no daquele que apresenta argumentos, aberturado frum a diferentes pblicos, liberdade de estabelecimento da agenda dediscusso, moderao e empowerment. Atravs de tal anlise, possvel se avaliarconstrangimentos e incentivos que o gerenciamento do frum online pode exercersobre os participantes e tende a indicar a postura do agente poltico que hospeda odebate.A esse segundo quesito, possvel acrescentar a forma como taisferramentas foram desenvolvidas (WRIGHT, STREET, 2007) e sua efetivafuncionalidade. Assim,...</p>