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ISSN Impresso 1809-3280 | ISSN Eletrnico 2177-1758www. esmarn.tjrn.jus.br/revistas

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PARADIGMAS CONTEMPORNEOS: O NAVIO NEGREIRO DO SCULO XXI

CONTEMPORARY PARADIGMS: THE SLAVE SHIP OF THE XXI CENTURY

Denis Henrique Schmeisch * Arthur Ramos do Nascimento **

RESUMO: O trfico de pessoas e a escravido da fora de trabalho humana no representam um fenmeno recente no contexto da histria mundial. O trfico de vidas humanas insere-se em uma lgica de dominao e de barganha, em que a vida de um indivduo trocada por sua liberdade, ou na reduo de uma pessoa condio de uma coisa passvel de ser apropriada por outrem. No se limitando apenas ao trfico, a coisificao do outro, que tambm ocorre no trabalho anlogo ao do escravo, produz mazelas, fazendo com que os cantos funerais tornem as faces desses desgraados ttricas figuras frente vilania do mundo. Como mtodo de desenvolvimento do discurso, foi utilizado O navio negreiro, de Castro Alves, como base para criticar a perpetuao da prtica de escravizao do homem. Observe-se que naquele tempo o poeta denunciava prtica to hedionda e torpe e v-se hoje, em pleno sculo XXI, a banalizao da vida. Da mesma forma que, naquele sculo, o poeta conclamava os intelectuais e a populao para abraar a abolio da escravatura, a sociedade encontra-se, hoje, em tal situao que exige e urge uma (re)nova(da) conscincia abolicionista. Colocando a discusso em nvel nacional, sobre a histria e a construo do sistema jurdico brasileiro, oportuno observar a necessidade de criao de um novo movimento abolicionista. Nesse sentido, cumpre indagar, como fez o poeta: Por que foges assim [...]? Por que foges [...]? (ALVES, 2015). Palavras-chave: Dignidade da pessoa humana. Trfico de pessoas. Direito e arte. Trabalho escravo. O navio negreiro.

ABSTRACT: Human trafficking and slavery of human labor are not a recent phenomenon in the context of world history. The Trafficking of human lives is part of a logic of domination and bargaining, in which the life of an individual is exchanged for its freedom, or reducing a person to the condition of a thing that can be appropriated by others. Not limited only to trafficking, the thingfication of the other, which also occurs in the analogue slave labor which produces illness, causing funeral songs and it becomes the faces

* Acadmico do curso de Direito da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Dourados Mato Grosso do Sul Brasil.

** Acadmico do curso de Direito da UFGD. Dourados Mato Grosso do Sul Brasil.

Revista Direito e Liberdade RDL ESMARN v. 17, n. 1, p. 35-68, jan./abr. 2015.

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of these wretched, gloomy figures against villainy in the world. As speech development method was used Navio Negreiro of Castro Alves, as a basis for criticizing the perpetuation of mans enslavement practice. It is observed that at the time the poet has denounced the hideous and vile practice, and we find ourselves today in the XXI century, living with the banalization of life. In the same way in that century the poet urged the intellectuals and the population to embrace the abolition of slavery, we find ourselves today in such situation that require a new abolitionist consciousness. Disposing the discussion at the national level, on the history and construction of the Brazilian legal system, it is worth to observe the necessity to create a new abolitionist movement. And in this sense, we ask as the poet did: Why do you run away like that (...)? Why to run away (...)?. Keywords: Human dignity. Human trafficking. Law and arts. Slavery. The slave ship.

SUMRIO: 1 INTRODUO; 2 CARACTERSTICAS DO TRFICO E DO TRABALHO ESCRAVO: DA COLONIZAO CONTEMPORANEIDADE; 2.1 TRFICO DE PESSOAS E ESCRAVIDO CONTEMPORNEA: aspectos nacionais; 2.2 COMPETNCIA PARA JULGAR OS CRIMES ANLOGOS AO TRABALHO ESCRAVO; 2.3 PEC DO TRABALHO ESCRAVO: uma dcada de atraso; 3 TRFICO DE PESSOAS; 3.1 O TRFICO DE PESSOAS COMO MECANISMO DA ESCRAVIDO; 4 CONCLUSO; REFERNCIAS.

1 INTRODUO

O mundo do trabalho sempre um espao de conflitos e de eferves-cncia de debates. Talvez, em toda a seara do direito, poucos ramos jurdicos sejam to dinmicos e vinculados s mudanas sociais. H que se observar que o direito do trabalho a parte especializada do direito que se prope a regular as relaes de trabalho, especialmente (no Brasil) as relaes de emprego, demonstrando a importncia desse tpico como principal forma de enriquecimento lcito para a maior parte da populao.

Muito se tem apresentado ao mundo sobre salrio-mnimo, retrocesso e vedao ao retrocesso no direito do trabalho, bem como se tem debatido nesse sentido sobre a busca por melhores condies para a realidade dos trabalhadores. Isso, de fato, um ponto relevante e importante dos discursos jurdicos contemporneos. H, entretanto, que se salientar que o mundo do trabalho no um lugar ou tpico que se resume a conflitos sindicais e

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greves. de crucial pertinncia que se compreenda que ele envolve, neces-sariamente, uma discusso sobre a defesa e a garantia dos direitos humanos elementares. Nesta proposio, h que se destacar as graves formas de ofensa dignidade da pessoa humana, na figura do trabalhador, em situaes de gritante e clara coisificao do homem. preciso mergulhar, descer mais ainda o olhar humano para enxergar um quadro de amarguras, um canto funeral e ttricas figuras, que se apresentam em uma cena infame e vil de terrvel horror.1

Insere-se tal temtica com grande pertinncia social para o desenvol-vimento de debates jurdicos. O trfico de pessoas e a escravido da fora de trabalho humana no representam um fenmeno recente no contexto da histria mundial. Presenciaram-se tais ocorrncias em diversos momentos no transcurso do tempo, notadamente no ambiente greco-romano e o retorno a tal prtica no perodo colonial das Amricas. O trfico de vidas humanas inclui-se em uma lgica de dominao e de barganha, em que a vida de um indivduo trocada por sua liberdade, ou na reduo de uma pessoa condio anloga a de uma coisa (um objeto), sendo, portanto, passvel de ser apropriada por outrem. Motivaes econmicas e a construo de uma sociedade baseada na mo de obra escrava foram impulsionadoras para a oportunizao da reduo condio de escravizado, que no mais se sus-tentaria nos tempos atuais. Com o desenvolvimento dos direitos humanos, observou-se a situao de lesa-humanidade, configurada pela dominao absoluta de um indivduo sobre o outro. Ainda que tambm sustentada por novas motivaes econmicas (capitalistas), h uma forte contribuio para a promoo dos direitos humanos e o combate contra o trabalho escravo e o trfico de pessoas.

Juridicamente, observa-se uma preocupao em se construir bases no direito internacional dos direitos humanos, uma lgica de no aceitao s formas de precarizao do trabalho ou da coisificao do indivduo.

1 Em referncia ao trecho de O navio negreiro: Desce do espao imenso, guia do oceano!/ Desce Desce mais [...] inda mais [...] no pode olhar humano/ Como o teu mergulhar no brigue voador!/ Mas que vejo eu a [...] Que quadro damarguras!/ canto funeral! [...] Que ttricas figuras! [...]/ Que cena infame e vil [...] Meu Deus! Meu Deus! Que horror/ (ALVES, 2015).

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Observem-se os importantes trabalhos produzidos pela Organizao Internacional do Trabalho (OIT), Organizao das Naes Unidas (ONU), entre tantas outras pessoas do direito internacional pblico, no combate contra essas questes. A escravizao de pessoas possui implicaes que vo alm da mera infrao jurdico-legal do direito de liberdade. H, aqui, total envolvimento em uma questo multidisciplinar que inclui diversas searas da existncia humana (social, poltica, jurdica, econmica etc.).

A escravido contempornea e o trfico de pessoas constituem um tema de maior importncia no mbito dos debates jurdicos. O assunto rompe as fronteiras tradicionais disciplinares, invocando uma apreciao inter e transdisciplinar. No se pode restringir o debate apenas aos limites do direito penal ou do direito trabalhista, necessitando igualmente de um aporte constitucional, sociolgico, histrico, econmico e poltico. No sem razo que a OIT, a ONU e tantos outros personagens da sociedade in-ternacional tm se movimentado para combater essa prtica, compreend-la e preveni-la. O trfico de pessoas envolve, alis, aspectos do desenvolvimento econmico, fluxos migratrios, globalizao, dumping social, entre tantos outros fenmenos da ps-modernidade.

Como mtodo de desenvolvimento do discurso, foi utilizado O navio negreiro, de Castro Alves, como base para criticar a perpetuao da prtica de escravizao do homem. Observe-se que o poeta denunciava prtica to hedionda e torpe e a realidade testemunha hoje, em pleno sculo XXI, a con-vivncia de uma preocupao com a tutela do trabalhador e a coisificao do homem pelo seu semelhante. Da mesma forma que, j naquele sculo, o poeta conclamava os intelectuais e a populao para abraar a abolio da escravatura, hoje, tal situao exige e urge uma (re)nova(da) conscincia abolicionista como de conhecimento, o poeta foi um conhecido abolicio-nista e grande entusiasta do que viria a se defender como direitos humanos.

Colocando a discusso em nvel nacional, sobre a histria e a cons-truo do sistema jurdico brasileiro