Para ver e quase tocar - PUBLICO

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Notcia da exposio Tesouros da FotografiaPortuguesa do SculoXIX 2015

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  • PPaarraa vveerr ee qquuaassee ttooccaarrJOS MARMELEIRA 24/04/2015 - 11:22 (actualizado s 11:22)

    No Museu do Chiado, o espectador vai confrontar-se com a memria de umpas e com a perenidade da imagem fotogrfica. Numa exposio de tesourosda fotografia do sculo XIX portugus. Para ver e quase tocar.

    um lbum de famlia que Emlia Tavares folheia. No interior, estofotografias de crianas, mulheres e homens. Tm os cabelos penteados,vestidos a rigor, os rostos virados para a cmara. Avs, bisavs, pais, mes,filhos, netos, primos afastados, cujas alegrias, tristezas, sofrimentos easpiraes a fotografia ter um dia fixado. Chegamos ltima pgina, umasurpresa. Aqui est uma caixinha de msica. Faz parte do livro. As pessoasouviam esta msica enquanto viam as fotografias, diz a curadora do MuseuChiado.

    Este pequeno e comovente objecto pode ser um portal para Tesouros daFotografia Portuguesa do Sculo XIX, momentos significativo de 2015 nodomnio das artes visuais. O propsito desta mostra, que inaugura naquinta-feira (dia 30), no modesto: reunindo um conjunto impressionantede autores e obras provenientes de acervos de coleces pblicas e privadas,visa revisitar o legado da fotografia produzida em Portugal entre 1840 e 1900.Um escopo quase inesgotvel e que se desdobar pelo espao da GaleriaMunicipal Almeida Garrett, no Porto, a partir do dia 23 de Maio.

    At l, as duas comissrias, Emlia Tavares e Margarida Medeiros,continuaro a abrir caixas, a confirmar informaes, a pensar sobre a

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  • fotografia para a mostrar. No piso 1 do Museu do Chiado, a exposio vaiganhando forma, com mistrios e incertezas. De algumas imagens, ssabemos as datas atravs dos processos usados, e pouco mais. Algumas so defactos desconhecidas. No sabemos o que foi fotografado, nem quemfotografou. O comentrio de Emlia Tavares ressoa no entusiasmo deMargarida Medeiros: Conseguimos, ao fim de muitos dias, encontrar umadata provvel de uma fotografia do Jardim do Prncipe Real, sem rvores, semgrades. E descobrimos uma fotografia do Mosteiro de Jernimos junto gua,antes de ganhar aquela parte ao rio. E imagens com o claustro fechado. Creioque nunca foram mostradas.

    O trabalho de constante descoberta. Afinalno faltam tesouros, como o ttulo,convincente, sugere. um bocado ambguo,atalha Emlia Tavares. Tem a ver com a faltade visibilidade deste patrimnio fotogrfico.Est a ser cada vez mais estudado, felizmente,mas essa actividade poucas vezes transparecepublicamente. Em termos de divulgao hmuito pouco investimento. As instituies tmesse patrimnio, zelam por ele, mas a verdade que depois no h uma mostra pblica.Portanto, o termo tesouro , tambm nosentido de um certo entesouramento quetambm confundido como preservao.

    Uma cmara escuraFeita a ressalva, as imagens e os objectos daexposio so, de facto, tesouros, do melhorque a fotografia portuguesa produziu ao longo

    do sculo XIX. E para a sua reunio no Museu do Chiado contribuiu,decisivamente, a colaborao de vrias instituies pblicas e colecionadoresparticulares. Sem dvida, sublinha Margarida Medeiros. Vamos ter dez aquinze acervos pblicos e cinco particulares. Algumas fotografias nunca forammostradas, nomeadamente as dos colecionadores. E ainda havia mais paramostrar. H coisas incrveis, por exemplo, no Arquivo de DocumentaoFotogrfica da Ajuda e no Centro Portugus de Fotografia, no Porto.

    O espanto no protege todas as fotografias da eroso do tempo, pelo que ascomissrias asseguraram a criao de uma sala especial. Dada a suafragilidade, algumas vo estar numa cmara escura especial. Tm sidociosamente guardadas e, por exigncia dos seus proprietrios, vo estarprotegidas, com iluminao prpria. Desse conjunto, destaca-se umafotografia da autoria do ingls Frederick William Flower. Realizada, entre1849-1859, com o recurso tcnica do calotipo, mostra-nos o negativo de um

    Tesouros da FotografiaPortuguesa do SculoXIX(http://lazer.publico.pt//347141)Artista(s):vrios autoresLisboa. MNAC - Museu doChiado. Rua Serpa Pinto,4. T. 213432148. De 29/4 a28/6. 3 a Dom das 10h s18h (ltima entrada17h30).

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  • lugar habitado por pinheiros mansos, em Coimbres, Vila Nova de Gaia. uma imagem a que a qualidade artesanal da tcnica, antecessora do processofotogrfico convencional, oferece um tom sinistro, irreal, nocturno.

    A evoluo tcnica da fotografia uma sucesso de passos, oraacelerados, ora lentos e o seuimpacto na percepo do real, narelao com o distante e inacessvel,no domnio da cincia e da arte,surge como critrio unificador daexposio. No seguimos aordenao clssica, retrato,paisagem, natureza-morta, esclareceMargarida. A fotografia faz explodiressas categorias, que pertenciam pintura. Quisemos mostrar asaplicaes da fotografia. H muitos

    lbuns que lidam com a impresso fotogrfica, com a questo da aplicao dafotografia gravura. Procurmos mostrar uma transversalidade. Mostrar afotografia como um meio de aplicao tcnica que tem uma componenteartstica e no artstica.

    (http://imagens9.publico.pt/imagens.aspx/917399?tp=UH&db=IMAGENS)

    Para as geraes mais jovens,que j no tm relao fsica

    com as imagens, pode ser umchoque. Essa relao fsica com

    imagens originrias deprocessos e tcnicas to

    diferentes, com diferenas detom e resoluo to intensas,

    faz parte de outro mundo

    Emlia Tavares

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  • No limiar que separava essa duas componentes, as imagens registavam,testemunhavam. Como a que revela, em primeiro plano, dois camponeses,enquanto ao fundo se vislumbra a estrutura de uma ponte. A fotografia,annima ou assinada por Emlio Biel, documentava o choque entre escalas emundos. H uma preocupao em muitas das encomendas e projectos [dosfotgrafos] em testemunhar a transformao da paisagem pelodesenvolvimento industrial, sobretudo atravs do caminho-de-ferro, salientaEmlia Tavares. A relao, o confronto entre dois pases, um mais antigo, ooutro que se quer modernizar, est muito presente na exposio.

    Quando as pessoas eram borresUm dos temas que merece um ncleo prprio a fotografia patrimonial comimagens da reconstruo de monumentos como o Mosteiro dos Jernimos, ouprovenientes do lbum do Convento do Lorvo, de Carlos Relvas. A novatcnica afirmava cedo a sua vocao arquivstica e memorial na condio deinstrumento que ajudaria a recriar e difundir, ao longo do sculo seguinte,uma ideia de identidade nacional e histrica.

    Noutro registo, mais prximo da fotografia da paisagem, est uma imagem daautoria de Joo Francisco Camacho. Um homem descansa no interior de umaescarpa rochosa, junto ao mar, na Ilha de Madeira. Quem ? Um viajante? Umeremita? Ou prprio? No se sabe. uma imagem belssima, acode EmliaTavares. Ele comeou por fotografar na Madeira, onde tem um atelier, e, nadcada de 60, acabou por se fixar em Lisboa. No seu trabalho, h um interessemuito particular pela imagem fotogrfica, pelo potencial que a fotografia temde testemunhar, de fazer a representao da realidade de uma outra forma.

    (http://imagens7.publico.pt/imagens.aspx/917407?tp=UH&db=IMAGENS)

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  • Mas difcil perceber o fim da produo das suas fotografias. Interrogaooportuna: nesta poca, os fotgrafos portugueses ou em Portugal escreviamsobre o que faziam? No, infelizmente era muito raro. Entre ns, haviapoucos casos assim, ao contrrio do que acontecia nos Estados Unidos,Inglaterra e Frana onde existia outra dinmica comercial e artstica.

    A fotografia foi, entretanto, fazendo oseu caminho, servindo de auxlio aotrabalho de pintores, como AlfredoKeil, que nela procuravamenquadramentos, constrates e posespara as suas telas, ou produzindoretratos que supostamente tornaramimortais os retratados. Estava aindadistante a massificao que a Kodakviria a permitir no sculo XX, mas aproduo fotogrfica proliferava emestdios e ateliers. Era dirigida a umpblico desejoso de proteger damorte os seus entes queridos eutilizada pelas classes maisabastadas que capturavam, distncia, o mundo dos outros. neste ambiente que assomamretratos de conjunto como orealizado por J. M. Silva ou as

    fotografias que Carlos Relvas faz dos mendigos, transformando-os em serespitorescos. O sculo XX estava, todavia, porta e com ele uma outrafotografia, outros protagonistas. Nas cenas de rua vemos j essa essafotografia do annimo, da multido que entra em fora com a imprensa. Osmeios tcnicos viriam permitir fotografia a capacidade do instantneo, decaptar de forma mais eficaz o dia-a-dia dia. Mas nesta fase ainda h poucasfotografias de rua. Por causa dos limites da tcnica, as pessoas, quando emmovimento esto desfocadas, como borres.

    Com imagens inditas ou annimas, daguerretipos nunca antes vistos,paisagens e pessoas irreconhecveis, tcnicas esquecida e depois recuperadas,Tesouros da Fotografia Portuguesa do Sculo XIX toma a forma de umaexposio anacrnica, teimosa. Que expe um corpo, nem que seja de papel.Para as geraes mais jovens, que j no tm uma relao fsica com asimagens, pode ser um choque. Este um mundo arqueolgico. Essa relaofsica com imagens originrias de processos e tcnicas to diferentes, comdiferenas de tom e resoluo to intensas, faz parte de outro mundo. Mas aexposio permite s pessoas entenderem como foi a evoluo da fotografia eterem conscincia de que estas imagens sobreviveram mais de cem anos. H

    (http://imagens8.publico.pt/imagens.aspx/917418?tp=UH&db=IMAGENS)

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  • aqui uma ideia de perenidade que est associada desde o primeiro momento fotografia.

    (http://imagens6.publico.pt/imagens.aspx/917416?tp=UH&db=IMAGENS)

    Frederick William Flower, entre 1849-1859, negativo de um lugar habitado por pinheirosmansos, em Coimbres, Vila Nova de Gaia: a qualidade artesanal da tcnica, antecessora doprocesso fotogrfico convencional, oferece um tom sinistro, irreal, nocturno

    Os comentrios a este artigo esto fechados. Saiba porqu.

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