pajelança e encantaria amazônica

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PAJELANA E ENCANTARIA AMAZNICA

Pajelana e encantaria amaznica

Raymundo Heraldo Maus

Universidade Federal do Par, Pesquisador do CNPq

Gisela Macambira Villacorta

Mestranda em Antropologia da UFPA, Bolsista da CAPES

Trabalho apresentado no Simpsio de Pesquisa Conjunta As outras religies afro-brasileiras (PQ01), nas VIII Jornadas sobre Alternativas Religiosas na Amrica Latina, a realizar-se em So Paulo/SP, de 22 a 25 de setembro de 1998.

Texto provisrio, sujeito a mudanas e reformulaes.

Pede-se no citar sem autorizao dos autores.

1 - Introduo

Neste artigo consideramos a pajelana como uma forma de xamanismo, embora essa manifestao religiosa no apresente a caracterstica clssica do xamanismo siberiano, na viso de Mircea Eliade (1951, apud Lewis 1977), isto , a viagem pelo mundo dos espritos. No caso do paj amaznico que estamos considerando, ocorre, ao invs, o fenmeno da incorporao, sendo seu corpo tomado por entidades conhecidas como encantados ou caruanas. , assim, possudo por essas entidades, que o paj realiza seus trabalhos ou sesses xamansticas, ocupando-se, nelas, principalmente com a cura de doentes.

Nosso objetivo tambm no tratar das diversas formas de pajelana indgena, encontradas na Amaznia entre diferentes grupos tribais. Tratamos aqui do que pode ser chamado de pajelana rural ou cabocla, isto , uma forma de pajelana praticada sobretudo por populaes rurais ou de origem rural no indgenas. Essas denominaes, apesar de largamente utilizadas, apresentam problemas. Em primeiro lugar, o termo paj considerado pejorativo entre as populaes por ns investigadas, preferindo os xams a denominao de curadores ou, mais raramente, de surjes da terra. Por outro lado, o termo pajelana no costuma ser usado por essas populaes: ele freqentemente utilizado pelas populaes citadinas, especialmente por pessoas intelectualizadas que tendem a no participar ou pelo menos a esconder sua participao nesse sistema de crenas e prticas. Os atores falam, por exemplo, em medicina invisvel (em oposio medicina ocidental) embora, realmente, a pajelana no se limite apenas s prticas curativas.

Entretanto, esse termo tem sido usado, para designar o sistema de crenas e prticas de que estamos tratando, desde pelo menos o sculo XIX, por folcloristas, jornalistas, ficcionistas, antroplogos e outros escritores. Para distingui-la da pajelana indgena, alguns estudiosos, como Salles (s.d. e 1967), tm usado o termo pajelana rural. O problema que essa forma de pajelana no se limita, de fato, s populaes rurais. verdade que, nos dias de hoje, ela est cada vez mais restrita s reas e populaes rurais ou de origem rural. No passado, entretanto, a pajelana no indgena era muito praticada nas principais cidades amaznicas, como Belm e Manaus. Por isso, tem sido utilizado tambm o termo pajelana cabocla, como, por exemplo, em Maus (1990 e 1995), para salientar o fato de que se trata de uma forma de pajelana praticada sobretudo pelo caboclo amaznico. Esse uso est em sintonia com o tratamento dado ao tema por Eduardo Galvo - o primeiro antroplogo que fez um estudo mais completo sobre a pajelana no indgena -, sobretudo nos seus trabalhos mais conhecidos sobre a questo e, especialmente, no artigo intitulado A vida religiosa do caboclo da Amaznia (Cf. Galvo 1953 e 1955). Mais recentemente, por outro lado, a expresso pajelana cabocla usada por Zeneida Lima, o nico paj amaznico que at hoje publicou livro atualmente em 4a edio - sobre a pajelana (Cf. Lima 1998/1991). Por essas razes, reconhecendo, embora, as imprecises e a inevitvel carga de preconceito presente nesses termos, optamos por utilizar aqui as expresses pajelana rural ou cabocla, com o objetivo de distingui-la da pajelana indgena.

O assunto tem sido tratado por um nmero considervel de estudiosos. Para dar uma pequena idia dessa bibliografia, vale mencionar, inicialmente, o trabalho de diversos folcloristas, desde o sculo passado, tratando sobre pajelana ou crenas e mitos relacionados, entre os quais se destacam, segundo Figueiredo (1996), Jorge Hurley, Antnio de Pdua Carvalho, F. J. de Santa-Anna Nery e Jos Verssimo. Mais recentemente, destaca-se o estudioso, historiador e folclorista Vicente Salles, j citado acima. Entre os antroplogos, alm dos estudos pioneiros de Eduardo Galvo, devem ser referidos os de Charles Wagley que fez trabalho de campo junto com Galvo e, em seu estudo de comunidade (Wagley 1956), dedica um captulo ao assunto da religio; Napoleo Figueiredo e Anaza Vergolino (Figueiredo 1976; e Figueiredo & Vergolino e Silva 1972); Chester Gabriel que, em seu trabalho mais vasto sobre a umbanda (Gabriel 1980), trata tambm do tema da pajelana; Raymundo Heraldo Maus, um dos autores deste artigo, que publicou vrios trabalhos sobre religio e medicina popular entre as populaes rurais amaznicas (Maus 1985, 1987, 1988, 1990 e 1995); Dborah de Magalhes Lima que, em sua dissertao de doutorado sobre o caboclo amaznico (Lima-Ayres 1992), tem um captulo sobre a religio; e Mark Cravalho, cuja dissertao de doutorado (Cravalho 1993) um estudo bastante completo sobre o tema, a partir de uma perspectiva de antropologia psicolgica. Mais recentemente, o historiador Aldrin Moura de Figueiredo elaborou sua dissertao de mestrado, estudando a constituio do campo de estudos sobre a pajelana, desde os primeiros folcloristas que abordaram o assunto, at Eduardo Galvo (Figueiredo 1996).

Esses diversos trabalhos tratam sobre a pajelana cabocla em vrias reas da Amaznia brasileira, como Belm, Manaus, a regio bragantina, o alto rio Cairari na regio guajarina -, o baixo e o mdio Amazonas, a regio do Salgado e o mdio Solimes. Analisando a temtica em reas bastante diversas, possvel perceber, nesses estudos, que existe um conjunto bsico de crenas e prticas caracterstico da pajelana cabocla, mas, ao mesmo tempo, que existem muitas variaes, o que permite pensar que no estamos lidando com um fenmeno completamente uniforme, mas que possvel tambm falar, at certo ponto, em vrias pajelanas caboclas na Amaznia.

2 Religies e sistemas de cura

H alguns anos atrs mais precisamente, em janeiro de 1986 ocorreu um fato inusitado, no Rio de Janeiro, que resultou num grande debate nacional, atravs da mdia, com lances de sensacionalismo, e que coloca em questo as relaes entre a medicina erudita dos mdicos formados em Universidades e os sistemas de cura alternativos, no caso particular, a pajelana indgena. Um conhecido cientista, o bilogo Augusto Ruschi, desenganado pela medicina oficial, foi tratado de complicaes hepticas provocadas por envenenamento por um sapo dendrobata segundo o prprio Ruschi , por dois pajs indgenas: Raoni, conhecido lder Kayap, que pouco antes do fato havia se auto-proclamado como xam, e Sapaim, respeitado paj Kamayur. O debate permitiu o confronto entre tendncias diferentes do pensamento cientfico dominante, com a manifestao de opinies tanto daqueles a maioria que consideravam a experincia como um exemplo de farsa e charlatanismo, como daqueles que, adotando uma posio francamente naturalista como o prprio Ruschi -, acreditavam na eficcia de uma medicina indgena de tradio milenar, graas ao conhecimento de ervas de nossa rica flora, embora tambm recusassem os aspectos mgicos e religiosos envolvidos na terapia empregada pelos pajs indgenas.

Para discutir a relao entre formas diferentes e concorrentes de sistemas de cura, pode ser interessante recorrer citao de Malinowski, retirada do primeiro captulo de seu clssico Magia, Cincia e Religio:

No existem povos, por mais primitivos que sejam, sem religio nem magia. Assim como no existem, diga-se de passagem, quaisquer raas selvagens que no possuam atitude cientfica ou cincia, embora esta falha lhes seja freqentemente imputada. Em todas as sociedades primitivas, estudadas por observadores competentes e de confiana, foram detectados dois domnios perfeitamente distintos, o Sagrado e o Profano; por outras palavras, o domnio da Magia e da Religio e o da Cincia (Malinowski 1988: 19).

A posio de Malinowski, embora ainda contaminada por um certo evolucionismo, mas claramente influenciada pela sociologia da religio durkheimiana, representa, com certeza, um grande avano em relao s concepes anteriores, que tendiam a no reconhecer a presena de um pensamento mais nitidamente cientfico entre as sociedades tribais, idia que, de nossa parte, podemos ampliar para nela incluir as populaes rurais (caboclas) e as classes populares das sociedades complexas. No obstante, como mostra Fernandes (1982: 57-61), a prpria distino entre magia e religio, to cara aos cientistas sociais do final do sculo XIX e princpio do XX, preconceituosa, evolucionista e etnocntrica: muito freqentemente, a magia a religio dos outros, que queremos desqualificar. Do mesmo modo, no estaria a tambm um aspecto relevante das origens das acusaes de magia e curandeirismo feitas por mdicos ocidentais s diversas formas de medicinas populares e alternativas que competem com a medicina oficial? Essas acusaes, tomando a medicina universitria como padro inconteste de cincia moderna, sempre desconhecem que tambm o mgico e o religioso um elemento que desempenha papel importante nas prticas e concepes de qualquer forma de medicina, seja ela erudita ou popular (primitiva).

No o caso, aqui, de discutir a questo da eficcia das diferentes formas de teraputica, populares ou oficiais, o que tem sido feito por tantos autores, muitos deles orientados, no caso do xamanismo, pelos conhecidos trabalhos de Lvi-Strauss (1970 a, 1970 b). Nossa preocupao mostrar que, no caso particular do xamanismo de que estamos tratando a pajelana cabocla amaznica -, como outras formas de xamanismo, situamo-nos no domnio tanto de uma antropologia da sade ou da medicina, quanto no de uma antropologia da religio. Lidamos aqui com fenmenos que tanto podem ser rotulados como mgico-religiosos como