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  • RBEn, 31 : 403-411, 1978

    PG I NA DO ESTU DANTE

    PACI ENTE PORTADOR DE ESQUI ZOFRENIA H EB EFRNICA: ESTUDO DE CASO

    * Ambrozina Baptista Coelho * Angela Velloso de Almeida * Ldia Maria Souza Ribeiro * Ldia Rocha dos Santos * Maria Angela C. Gonalves * Valria Cristina Pim Figliuzzi

    RBEn/ll

    COELHO, A. B. e Colaboradoras - Pgina do estudante. Rev. Bras. Enl.; DF, 31 : 403-411, 1978.

    INTRODUAO

    De que maneira e por que meio a desintegrao econmico-social e ecologica, o uso crescente da fora, a grande cidade e suas construes, a estrutura do ensino, a organizao da famlia, a TV, o cinema, os livros e os jornais podem atuar maleficamente na alma huma'la?

    A doena mental no Brasil um problema que j no pode permaneceI atrs dos altos muros dos hospitais psiqui tricos.

    H em nosso pas cerCa de 12 milhe de pesoas que sofrem perturba ..

    es de natureza psquica, necessitando de assistncia especializada.

    No Rio estima-se que a cada 20 minutos haja algum sendo internado e dado o atual volume do problema a qualidade de vida no Brasil est cada vez pior sendo necessrias franquezas e coragem para admitir e revelar o fato. De que maneIra e por que meio o desequilbrIo eCOlgico e econmico-socIal reflete-se em nossa atividade psquica , tornando-a pobre, conflitiva, instvel, insegura e s vezes louca?

    H cidades, cujo crescimento as tornam cada vez mais brutais, espec;.almente em relao s culturas sunal-

    Alunas do 6. perOdO do Curso de Graduao da Escola de Enfermagem Ana Nri -- UFRJ.

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    ternas. o caso de trabalhadores que so lanados nas cidades, condenados a um deplorvel estado de excluso social. So as pessoas de baixa renda. Os laos de parentesco e vizinhana que o integravam em seu meio de origem foram rompidos. Como resposta a todas estas agresses no raro eclodir nestes indivduos certa alterao em sua coerncia psquica que, na maioria das vezes, comea a surgir exatamente na rea da comunicao. Nesta corrida desenfreada, desintegram-se as que ficam para trs, seja pelo lcool, pela droga e a loucura.

    HISTRIA PESSOAL

    J . S . J . B. , sexo masculino, 22 anos, natural da Paraba, servente de obra, catlico e residente na obra onde tra,.. balha, o terceiro de uma prole de 8 filhos, sendo 4 mulheres e 4 homens, todos lavradores. Na Paraba moravam num stio, casa de estuque, cho batido, . em estado de miserabUldade total, carentt de ;qhalquer principiO de higiene compatvel com a sade.

    Nasceu de pr normal, desenvolvimento normal, nunca teve doena grave e

    ' nem foi submetido a cirurgia. Na

    infncia chupou dedo e foi uma criana medrosa; nega enurese.

    Nunca foi escola, analfabeto, mas reconhece o seu primeiro nome quand v escrito.

    Viveu e foi criado pelos pais e irmos mais velhos, tendo timo relacionamento com os mesmos e tambm com os vizinhos, menos com o irmo mais velho, porque este brigava com sua me, que doente mental, culpando-o pelo fato. Diz que ralhava com o pai, porque este bebia muito e ele tinha que carreg-lo nas costas para a casa.

    Trabalhou desde pequeno na "enxada" e com gado.

    Veio para o Rio h mais ou menos um ano para tentar a sorte, pois na

    Paraba trabalhava muito e ganhava pouco. Passou os primeiros meses com um primo na favela, ficando todo este tempo sem trabalho. Depois passou a trabalhar e morar numa obra de uma Construtora como pedreiro e servente . Tem muita facUldade em fazer amizades . Na Paraba saia com os pais

    e irmos para passeio, ia a bailes, festas em casa de famlia, cinema e ia igreja aos domingos. Atualmente sai com os

    ; amigos da obra. Emprega os feriados e . fins-de-semana na praia, festas, cinema e passeios.

    Tabagista, fuma dois maos de cigarros por dia. Nega convulses.

    Teve apenas uma namorada, tendo ela terminado o namoro. No sabe informar sobre a sua vida sexual, dizendo no lembrar dela e nem quando ocorreu a primeira relao sexual.

    HISTRICO FAMILIAR

    O paciente relata qUe os pais so vivos, "bem de sade". Me com mais ou menos 45 anos e o pai com mais de 65 anos. Diz que sempre gostou muito dos pais e sua relao com eles foi boa, nunca tendo problemas com Os mesmos, sendo sempre bem tratado por eles. Diz que se relacionava bem com todos os irmos, exceto com o mais velho, que o maltratava muito quando pequeno e que por isso tem raiva dele, resolvendo descontar as maldades que o irmo fez com ele logo que ficou adulto.

    Relatou serem todos sadios, sem prOblemas psiquitricos na familia, para depois informar que a me se encontra internada em hospital psiquitrico na Paraba. e que mais dois parentes "morreram por doena mental". Essas informaes foram confirmadas por um primo. A condio scio-econmica de sua famlia - precria, vivendo em casa de estuque, numa roa, onde

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    lavram a terra que j se encontra can tirar dele o "botijo" que se acha ensada. terrado. O paciente arranca vasos sani

    trios, tentando arrancar o "botijo", HISTRICO DA DOENA ATUAL Recolhe lixo do cho e diz ser dinheiro.

    Ao exame psquico, apresentou-se em O paciente informa que h cerca de pSSimas condies de higiene, aparn

    6 meses, vem sendo perseguido por um cia descuidada, embotamento afetivo, bicho muito grande, mais alto que ele, totalmente desorientado, em episdio metade animal, metade gente, que para de delirio de cunho persecutrio, aluciele representa. o diabo. Possui uma naes visuais, atitude indiferente, 'hi"corcunda" em seu espinhao e chifres povigil, hipotenaz e hipopragmtico . como o diabo". Diz que via tal apario No demonstrava vontade de conversar sempre que parava suas atividades na mas falava rapidamente, referindo-se obra, o que acontecia tarde ou noite. ao "co", chegando a apresentar fuga Diz que alm de ver. tambm sonha de idias. Diz que no sabe porque est com a apario e qUe esta no fala, aqui, que lugar esse, que quer ir emmas que o olha com cara de "enfezado" bora. Levanta-se, pede dinheiro, roupas ou ri e zomba dele. Relata que fica para ir embora, senta.;se e volta a falar muito assustado quando tal coisa lhe no "co" e de suas brigas com ele. aparece, que pedia ajuda aos amigos, mas que ningum quis se envolver com TRATAMENTOS o "bicho". As vezes tenta fugir. chegando certa vez a montar em sua "cor 1) Psicolgico: Psicoterapia de apoio cunda", sentindo-o com as mos, mas praxlterapia.

    foi jogado ao cho. Na vspera de ser 2) Quimioterpico: impregnao com internado (21/1/78) foi passear na Ro derivados da fenotiazina e butizo

    ' doviria e viu o bicho perseguindo-o, fenona. descobriu q.ue o bicho tinha uma "bo Tratamento de manuteno. tija" enterrada no cho. Diz que "boti 3J Biolgico : Eletroconvulsoterpia ja" quer dizer bolsa de dinheiro. Tentolt (E. T . C . ) . ento rrancar a "botija" do cho e que o' "bich()' ao v-lo fazendo isso no gos: TRATAMENTO PSICOTERAPICO tou e a:vanou em cillla dle."Pegou' en'" to um ferro que estava. pendurado na So feitas 4 sees de psicoterapia parede e comeou a < lutar contr o "ani';' de apoio por semana. nas quais. a dou" mal'. Diz que j estava todo machucado tora procura obter a ' confiana do pa quando um enfermeiro o amarrou e Q ciente. No- usada nenhuma tcnica levou para o hospita1. Nesse ponto de':' psicoterpica, profunda. a mdica so .. vemos informar que foi levado pela po mente escuta o qUe ele diz. tentando licia. No sabe para que foi levado para mostrar-lhe a realidade. l nem como l chegou. No se acha doente e s se sente machucado da bri PRAXlTERAPIA ga, apesar de no existir marca alguma que confirmem as agresses fisicas. Lo O paciente comeou a freqentar a go aps a internao, disse que no via terapia ocupacional depois de mais ou mais o diabo, pois se sentia protegido, menos duas semanas de internao. pois voltando a v-lo porm de tamanho. a comunicao com o mesmo era dificil. cores e "quantidades" diferentes. Vive No dia 04/8 compareceu ao grupo opelutando com o "diabo" pois este, tenta rativo apresentando-se mais comunica"

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    tivo, participando, sempre voltado para o tema mstico Deus; j ogou domin na atividade ldica.

    No dia 09/8 - No grupo operativo estava muito inquieto, mas participando de vez em quando. No participou da atividade expressiva, porque queria tomar banho, pois estava de licena para sair no fim-de-semana.

    perodo de 10/8 a 17/8 - Encontrava-se agitado, andando de um lado para outro, pegando coisas no cho dizendo que precisa guard-las, pois esto querendo roubar-lhe. Parece estar desligado do ambiente, no entanto, quando a terapeuta defendeu-o, pelo fato de outro paciente dizer que pessoas como ele no deveriam comparecer ao grupo operativo, Joo respondeu "muito obrigado por ter me defendido".

    No perOdo de 18/8 a 28/8 - Neste perodo, J . S . J . B . teve participao maior na terapia ocupacional . Nas atividades de terapia fez modelagem com barro: o que ele chama de panelinha de barro; s vezes desenha o que diz ser um "cordo de ouro". O paciente comeou a apresentar um comportamento diferente do anterior, pois anteriormente apanhava as coisas para guardar e atualmente ele pede "as coisas"; pede dinheiro, etc.

    No dia 28/8 durante as atividades com o barro, J . S . J . B . solicitou muito a terapeuta ocupacional, o que no ocorria, mostrando o projeto assim o terminava. Quando sugerido que escrevesse seu nome e a data em um papel para qu Seu trabalho fosse identificado, no soube escrever seu segundo nome e pediu ajuda. Quando a terapeuta ocupacional foi escrever seu segundo nome em outro papel, J S . J . B . pediu que ela o deixasse tentar e conseguiu escrever.

    No