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  • * Scio efetivo do Instituto do Cear.

    Como entusiasta da histria eclesistica do Brasil, h muito de-sejava aprofundar-me na vida do grande missionrio italiano, o jesuta PADRE GABRIEL MALAGRIDA que, durante mais de trinta anos pe-regrinou pelo Norte e Nordeste brasileiros; ele percorreu, de ps descal-os, mais de dez mil quilmetros em sua misso apostlica, catequizan-do ndios, convertendo prostitutas, alm de construir igrejas, semin-rios, mosteiros e abrigos.

    Um precursor, digamos assim, do nosso conhecido Padre Ibiapina.Este meu interesse pelo conhecimento de sua histria foi desper-

    tado durante os anos em que residi em Belm, no Par (1956/1962), onde desempenhava minhas atividades na empresa Par Refrigerantes S.A., quando pude sentir a venerao do povo paraense pelo grande mrtir da Inquisio em Portugal.

    Depois de conhecer a sua majestosa catedral, visitei um dia o seu bissecular seminrio, cuja fundao data de 16 de junho de 1749 e, sem dvida alguma, a principal obra do padre Malagrida naquele Estado, durante o episcopado do bispo dominicano dom Miguel Bulhes.

    Situado na praa Dom Caetano de Brando, em plena Cidade Velha, fica defronte da Catedral de Nossa Senhora de Belm, tendo ao seu lado a igreja de Santo Alexandre e a residncia arquiepiscopal.

    Na poca de minha visita, era seu reitor o cnego Milton Pereira, mais tarde promovido a bispo auxiliar da Arquidiocese de Belm, pos-teriormente bispo de Garanhuns, em Pernambuco, e finalmente arcebispo de Manaus, onde faleceu no exerccio do cargo.

    Padre Gabriel Malagridaa grande vtima do Marqus de Pombal

    Fernando Cmara*

  • Revista do Instituto do Cear - 200866

    Grandes nomes do Episcopado brasileiro ocuparam a Mitra do Par, destacando-se, em primeiro lugar, dom Antnio Macedo Costa, a maior expresso da Igreja no Brasil Imprio e uma das vtimas da Ques-to Religiosa; dom Jernimo Tom da Silva, ilustre cearense de Sobral, que sucedeu a dom Antnio Macedo Costa, tanto no bispado paraense como no arcebispado da Bahia, onde pontificou por trinta anos (1894/1924); dom Antnio de Almeida Lustosa, mais tarde arcebispo de Fortaleza, sendo considerado pelo saudoso papa Joo Paulo II um sbio e um santo; dom Jaime de Barros Cmara, depois cardeal-arce-bispo do Rio de Janeiro; dom Mrio Villas Boas, insigne orador sacro; e muitas outras figuras de renome nacional.

    A famlia

    Feitas estas consideraes, voltemos, porm, figura do grande missionrio da Amaznia, que era natural da Itlia, como j foi dito, tendo nascido em 18 de setembro de 1689, na vila de Menggio (Co-mune di Menaggio), situada na margem ocidental do famoso Lago di Como, que fica ao Norte daquele Pas.

    Seu pai, dr. Diogo Malagrida, era mdico de grande talento e es-prito humanitrio, casado com d. ngela Rusco, e o casal gozava da estima e considerao das mais ilustres famlias italianas da regio, sendo amigo ntimo do duque de Parma, o qual se hospedava em sua residn-cia todas as vezes que ia tratar de negcios na vila de Menggio.

    Outro seu amigo era o duque de Savia, fundador da Universi-dade de Turim, onde quis coloc-lo como professor de sua Faculdade de Medicina, cargo que gentilmente recusou para continuar morando em sua vila natal, cuidando sempre dos humildes e necessitados.

    Quando visitava os enfermos mais distantes, muitas vezes levava o pequeno Gabriel, a quem chamava de anjo de minha famlia.

    O casal ngela e Diogo Malagrida teve onze filhos, sendo o quarto o futuro padre Gabriel Malagrida; outros dois irmos tambm abraaram o sacerdcio: Carlos Ambrsio, falecido em 13 de maio de 1734, aos 38 anos de idade, como professor de Teologia em Roma, e Miguel Malagrida, cnego em Menggio.

    Desde cedo, o jovem Gabriel j demonstrava pendores para as letras e aos doze anos de idade foi matriculado no colgio dirigido pelos padres So-

  • Padre Gabriel Malagrida 67

    mascos, na cidade di Como. Tornou-se logo um aluno exemplar que passava horas lendo seus livros, privando-se sempre dos recreios ou passeios, chegan-do mesmo a conquistar prmios por suas atividades literrias.

    No descuidava, porm, de sua vida religiosa, praticando atos de piedade crist e mortificaes, inclusive jejuando trs vezes durante a semana. Estava constantemente a servio do Senhor, ajudando a Santa Missa, doutrinando os pobres, e certa vez subiu ao plpito para pregar ao povo e isto o fez com tanta eloqncia que muito impressionou o arcipreste de Menggio, Nicolau Tedeschi.

    A vocao religiosa

    Ainda se encontrava no colgio de Como quando sentiu o chamado de Deus para a vida religiosa. Depois de muita reflexo, consultou o seu confessor, um santo e prudente sacerdote, e este o aconselhou a ingres-sar na Companhia de Jesus, dos padres jesutas, onde ele melhor desem-penharia a sua misso evanglica.

    Transferiu-se, a seguir, para o seminrio de Milo, ali fazendo os cursos superiores e, no dia 27 de setembro de 1711, aos 22 anos de idade, ingressou no noviciado jesuta em Gnova.

    A Companhia de Jesus

    Com este designativo castrense, foi fundada por Incio de Loiola, um militar que, ferido no cerco de Pamplona, na Espanha, tor-nou-se religioso depois Santo e dizia mesmo que no havia abando-nado a luta, mas apenas passado a servir s ordens de Deus, fazendo um voto de obedincia passiva ao papa.

    Adotando por lema PARA MAIOR GLRIA DE DEUS, achava que a vida religiosa era um afastamento do mundo; e, ao invs de conventos fundou colgios, formando, entre o seu clero, professores que abraariam os estudos para os quais tivessem mais pendor, tornan-do-se, tambm, grandes nomes que iriam evangelizar as terras onde imperava o paganismo. Era a Providncia Divina que se manifestava atravs dos inacianos, como eram conhecidos naquela poca, para en-frentar os grandes males que a Igreja Catlica vinha sofrendo com a Reforma do ex-monge agostiniano Martinho Lutero.

  • Revista do Instituto do Cear - 200868

    Vrios foram os missionrios jesutas que se destacaram na evan-gelizao dos povos: Francisco Xavier, no Oriente, Manoel da Nbrega, Anchieta, Antnio Vieira, e outros, no Brasil.

    Outro nome iria ser acrescentado na relao desses abnegados catequistas, o do nosso Gabriel Malagrida que, aps dois anos de novi-ciado, em que se dedicou de corpo e alma orao e s mais rigorosas mortificaes, muitas vezes recriminadas por seus prprios superiores, voltou aos estudos literrios que havia iniciado em Como, tornando-se em pouco tempo um respeitado professor.

    Missionrio e professor

    Ordenado sacerdote aos 24 anos de idade, foi logo designado para missionar em uma aldeia na diocese di Como, juntamente com seu colega, padre Mariani, o que fez com muita abnegao e sucesso.

    Todavia, no deixou de fazer o seu lamento:Aos povos da Itlia no cansam os meios de chegar salvao;

    alm-mar, pelo contrrio, inmeras naes jazem ainda nas trevas da idolatria: vamos acudir essas almas desamparadas.

    Resolveu escrever ao Geral da Companhia de Jesus, padre Mi-guel ngelo Tamburini, fazendo um veemente apelo para ir servir na catequese dos selvagens nas misses existentes no Novo Mundo.

    O Padre Geral louvou o seu gesto prometendo no futuro atender as suas splicas e, tendo conhecimento de seus dotes culturais, o desig-nou para o cargo de professor de Humanidades do colgio de Bstia, na ilha de Crsega, no Mar Mediterrneo.

    Ali soube desempenhar a nova funo com muita dedicao e talento e, embora envolvido nas lides culturais, mantinha seu pensa-mento sempre voltado para as misses no Brasil. Insistiu com seu pe-dido ao Padre Geral e, com muita alegria, recebeu a autorizao neces-sria para ir juntar-se aos jesutas que catequizavam no Maranho.

    Embarcou imediatamente em Gnova com destino a Lisboa, onde tomaria um navio para nosso Pas. Depois de longa e cansativa viagem, desembarcou pelos idos de 1721 em So Lus, seu novo campo de atividades apostlicas.

    No reinado de dom Joo III, de Portugal, a ento capitania do Maranho fora doada a Joo de Barros, mas nem ele nem seus filhos

  • Padre Gabriel Malagrida 69

    empenharam-se em coloniz-la. O mesmo procedimento teve seu su-cessor, Lus de Melo da Silva, ficando a mesma abandonada at 1612 quando foi ocupada pelos franceses, os quais, depois de trs anos, fo-ram expulsos pelos portugueses.

    Em 1641 volta a ser ocupada, agora pelos holandeses, que ali permaneceram at 1644, quando foram definitivamente expulsos pelos lusitanos. Posteriormente aquele imenso territrio foi dividido em dois: Maranho e Gro-Par.

    Os primeiros missionrios que estiveram no Maranho foram os padres Francisco Pinto e Lus Figueira, ambos jesutas, os quais partiram de Pernambuco em 1607 e depois de um ano de viagem, vencendo cerra-das florestas, onde padeceram toda espcie de privaes e sofrimentos, chegaram ao seu destino. No ano seguinte tentaram uma misso na re-gio da Ibiapaba, mas aconteceu o martrio do padre Francisco Pinto pe-los selvagens, obrigando seu companheiro a retirar-se para Pernambuco.

    Outro grande missionrio que ali esteve, em 1652, foi o famoso orador sacro padre Antnio Vieira, o qual, fugindo dos aplausos da Corte, preferiu abraar a vida missionria aqui no Brasil.

    Cabia agora ao padre Gabriel Malagrida dar continuidade ao tra-balho destes arautos da f em terras maranhenses. Todavia, os seus no-vos superiores no lhe concederam logo a incumbncia de evangeliza-o dos gentios. Mandaram-no, juntamente com o padre Lus Maria Bucharelli, anunciar a Palavra de Deus aos habitantes de So Lus, e mais tarde, reconhecendo sua oratria, designaram-no pregador no co-lgio existente em Belm.

    Fez a longa e cansativa viagem de So Lus ao seu novo destino a p, carregando nas costas um alforje contendo seu brevirio e todo o necessrio para a celebrao da Santa Missa, enfrentando as adversi-dades possveis naquela regio infestada de ndios selvagens e ferozes animais. certo que no lh