PACTA 9ª Edição

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<ol><li> 1. PACTAMais que uma Revista, uma janela para o Mundo 9Edio,Abril.RevistadoNcleodeEstudantesdeRelaesInternacionais Eu no vejo nenhuma falha governativa. Embaixador ucraniano Oleksandr Nykonenko +Ex Lege +Cadernos do Tiaguisto E muito mais! </li><li> 2. Contedos * Ex Lege 3 * Cadernos do Tiaguisto 5 - Diz-me Como Rezas e Dir-te-ei Se s... * Da Casa 6 - A apropriao jurisdicional dos oceanos: Alguns argumentos estratgicos * Entrevista Embaixador da Ucrnia 9 * Actalidade 13 - Para Alm do Euro - Brasil, a CELAC e a Falsa Integrao - O IV Reich - Deutschland, Deutschland ber Alles * Crtica 19 - A Europa do Sul e a Construo da Unio Europeia - The Politics of Europeanization * Experincia Erasmus 20 * Cronologia 21 s A Equipa Coordenadores da PACTA: Miguel Brito, n 210962 Sofia Ramos, n 212430 Colaboradores: Tiago Nobre, n 216492 Edio de imagem: Miguel Brito Responsaveis pelas redes sociais: Sofia Ramos, Tiago Nobre Segue-nos em: https://www.facebook.com/PACTARI http://ae.iscsp.utl.pt/ 2 </li><li> 3. Editorial Neste primeiro artigo de 2014, e no contexto das Relaes Interna- cionais escala global, a propsi- to de um estudo que estou a levar a cabo como Membro Integrado e Investigador do Instituto do Orien- te, lembrei-me de fazer uma breve incurso no sistema jurdico-poltico que caracteriza a Repblica Popular da China. Trata-se do quadro nor- mativo do Estado que tem permitido a este pas crescer exponencialmente, tanto do ponto de vista econmico como num plano de afirmao geoestratgica que, ao longo dos ltimos anos, o catapultou para um dos lugar- es cimeiros nas relaes entre os Estados mais poderosos do planeta. Mas a China, luz do seu sistema consti- tucional, um Estado de Direito democrtico? Vamos ob- servar os traos marcantes do texto constitucional para encontrar uma resposta fundamentada pergunta que constitui o desafio deste artigo: a China um Estado de Direito democrtico? 1. A Constituio da Repblica Popular da China foi elaborada em Pequim (Beijing), capital deste pas, em 04.12.1982 e at hoje foi revista trs vezes: em 12.04.1988, em 29.03.1993 e em 15.03.1999. um texto curto (com 138 artigos). Do ponto de vista da sua estrutura obedece a uma sistematizao onde se destaca um prembulo, que permite compreender o atual contexto evolutivo de um dos pases do Mundo com uma histria mais longa e rica, para alm de 4 captulos. O Captulo I referencia os princpios gerais de na- tureza constitucional e, portanto, aqueles que eleva posio mais alta do seu edifcio jurdico. Destacam-se onze(11)princpiosquesoverdadeiramenteestruturan- tes do sistema e, como tal, essenciais caracterizao do Estado, pela sua expresso de enquadramento econmi- co, social e administrativo. A esto os princpios da so- berania popular da representatividade democrtica, da separao de poderes, do controlo poltico democrtico, do centralismo democrtico, da descentralizao e do di- reito autonomia regional, da igualdade, da legalidade, da propriedade pblica dos meios de produo, do pla- neamento econmico e do Estado Social. Alm disso, a China proclama uma poltica externa independente e ac- olhe os cinco (5) princpios estruturantes do Direito In- ternacional, que consagra nas suas relaes diplomticas e nas trocas econmicas e culturais com outros pases: o princpio do respeito mtuo pela soberania e pela inte- gridade territorial, o princpio de no agresso mtua; o princpio de no ingerncia nos assuntos internos; o princpio de igualdade e reciprocidade de vantagens; e o princpio de coexistncia pacfica. OCaptuloIIdedicadoaosdireitosedeveresfundamen- tais dos cidados e a est includa e arrumada a temtica desenvolvoda dos Direitos do Homem, onde ressaltam: o direito nacionalidade; o direito igualdade; o direito de voto; o direito liberdade de expresso; o direito liberdade de crena religiosa; o direito liberdade pes- soal; o direito dignidade pessoal; o direito ao domic- lio; o direito liberdade de comunicao; o direito de Mais uma edio de Pacta, a nona neste nosso formato. Passou o primeiro trimestre do ano de 2014 que se revelou importante, polmico e cheio de novidades na cena internacional. Este mesmo trimestre foi marcado, sobretudo, pela questo da Crimeia. A histria a fazer os seus ajustes, agresso externa, ou o direito autode- terminao de um povo dentro de um Estado diferente? Como sempre trazemos-vos os habituais contedos com o selo de qualidade da Pacta. Trazemos o melhor da- quilo que se faz e se investiga no ISCSP, e aquilo que se faz pelos outros centros de investigao do nosso pas. Continuamos com os Cadernos do Tiaguisto, a coluna Ex-Lege e a j habitual Book Review. Para melhor percebermos o que se passa na Ucrnia decidimos entrevistar o Senhor Embaixador da Ucrnia em Portugal, Oleksandr Nykonenko e trazer alguma luz sobre os factos com que todos os dias nos depara- mos. A todos obrigado pelo continuado apoio, e o nosso pedido de desculpas pelo atraso nesta nossa edio. Prometemos ser breves e voltar em Maio. Miguel Brito Coordenador da Revista Pacta 3 Ex Lege </li><li> 4. 4 crtica, de apresentao de queixas e de indemnizao; o direito ao trabal- ho; o direito ao descanso; o direito reforma; o direito segurana social, assistncia social e sade; o direito educao; o direito investigao e cultura; o direito igualdade; o di- reito famlia. Encontram igualmente autonomia os deveres fundamentais, onde se reala um dever do Estado, de proteger os direitos e interesses leg- timos dos seus cidados, e vrios de- veres dirigidos aos cidados chineses: o dever de no atentarem contra o Es- tado ou contra as legtimas liberdades e direitos dos outros cidados; o dever de preservar a unidade do pas e das nacionalidades; o dever de obedin- cia Constituio e lei (artigo 53. CRPC); o dever de defesa da seguran- a, honra e interesses do Estado; o de- ver de defesa da Ptria e de resistncia agresso; o dever de pagar impostos. O Captulo III contempla a estrutu- ra orgnica da Repblica Popular da China: o Congresso Nacional Popu- lar; o Presidente da Repblica Popu- lar da China; o Conselho de Estado; a Comisso Militar Central; os con- gressos populares locais e os governos populares locais; os rgos de governo prprio das zonas nacionais autno- mas; os tribunais populares e as pro- curadorias judiciais do Estado. O ltimo Captulo dedicado Es- trutura do Estado e organizao do poder poltico, onde ressalta um es- quema de exerccio da vontade popu- lar, distribudo de forma descentral- izada do ponto de vista territorial, que ao mesmo tempo reconhece a autori- dade e a supremacia dos rgos repre- sentativos do Estado. Aliam-se, assim, rgos centrais aos rgos locais que correspondem a formas de adminis- trao central e de administrao lo- cal que so nucleares na concepo do sistema. No plano do poder local as- sinalam-se no texto constitucional as provncias, as municipalidades direta- mente dependentes do Governo Cen- tral, os distritos, as cidades (divididas ou no em bairros), as circunscries municipais, os cantes, os cantes de nacionalidades, as vilas, as comisses de moradores (que congregam os res- identes das reas urbanas), os habi- tantes das aldeias (que congregam os residentes das reas rurais). Para alm disso, existe um mbito autonmico regional, com as chamadas zonas na- cionais autnomas (ou zonas autno- mas nacionais), que funcionam com rgos de governo prprio nas respe- tivas reas administrativas, onde se podem assinalar as regies autno- mas, as prefeituras autnomas e os distritos autnomos. Paralelamente, o Estado pode criar regies adminis- trativas especiais (como o caso da Regio Administrativa Especial de Hong-Kong e da Regio Administra- tiva Especial de Macau) sempre que o entender necessrio. 2. Dos traos marcantes do sistema constitucional da Repblica Popular da China, que no cabe nesta sede en- contrar maior desenvolvimento, veri- fica-se o que se segue. Em primeiro lugar o povo que ex- erce o poder poltico atravs de rgos representativos, como o caso do Congresso Nacional Popular e dos congressos populares locais dos vri- os nveis, que so formados por meio de eleies democrticas. E se essa a forma de representatividade direta as- segurada na Lei Fundamental, h out- ros rgos importantes que assegu- ram uma forma de representatividade indireta, como o caso do Presidente (e do Vice-Presidente) da Repbli- ca Popular da China, que so eleitos democraticamente mediante escolha dos representantes do povo que tm acento no Congresso Nacional Popu- lar. o povo quem dirige os assuntos do Estado e, bem assim, quem ad- ministra os assuntos econmicos, cul- turais e sociais da Nao atravs dos diversos canais e pelas vrias formas previstas na Constituio e na lei. Em segundo lugar os diversos rgos do Estado exercem e participam na atividade tripartida em que se des- dobra a figura tradicional do poder poltico: o poder legislativo, o poder executivo e o poder judicial. O pod- er legislativo compete ao Congresso Nacional Popular e sua Comisso Permanente, no plano nacional, e aos congressos populares locais nas regies autnomas, nas prefeituras autnomas e nos distritos autnomos. O poder executivo assegurado em trs diferentes nveis: pelo Governo Central Popular, igualmente designa- do por Conselho de Estado, ao nvel nacional; pelos governos populares locais nas regies autnomas, nas prefeituras autnomas e nos distritos autnomos; e pelos rgos de governo prprio das zonas nacionais autno- mas. O poder judicial exercido pelos tribunais populares, que so os rgos judiciais do Estado, e pelas procura- dorias populares, a quem est confia- da a misso de vigilncia sobre a apli- cao das leis. A separao do poder poltico relativamente s funes do Estado reforada pelo carter inde- pendente dos seus rgos jurisdicio- nais. Em terceiro lugar h formas de con- trolo poltico democrtico, na medida em que os rgos eleitos diretamente pelo povo, como o caso do Congres- so Nacional Popular e dos congressos populares locais dos vrios nveis, so responsveis perante o povo e esto sujeitos sua fiscalizao. Alm disso, todos os principais rgos do Estado respondem perante o Congresso Na- cional Popular. Em quarto lugar garantido o respei- to da lei: o sistema jurdico-poltico chins consagra o respeito pela Con- stituio e pela lei, s quais subordina toda a legalidade e atuao do Esta- do, em torno daquilo a que chama o sistema jurdico socialista. Em quinto lugar, est previsto um catlogo e um quadro de proteo dos Direitos do Homem. Os direi- tos fundamentais inscritos no texto constitucional abarcam os principais domnios,comalgumasexceesmais marcantes, como o caso do direito vida, que no tem acolhimento legis- lativo. Para alm disso encontram-se planos muito abrangentes de proteo do indivduo, encarado na perspetiva da sua ligao ao Estado, atravs do vnculo jurdico-poltico da nacional- idade. O que lhe permite conferir uma ampla proteo no s no interior do territrio chins como no estrangeiro. Uma primeira leitura do texto permite </li><li> 5. 5 depreender que ali se encontram inse- ridos direitos fundamentais das vrias geraes: na I. gerao, que integra os direitos pessoais e individuais, encon- tramos o direito inviolabilidade da liberdade pessoal ou o direito invio- labilidade da dignidade pessoal; na II. gerao, que contempla os direitos ci- vis e politicos, identificam-se o direito nacionalidade, o direito de voto, o direito inviolabilidade do domic- lio ou a liberdade e o sigilo da corre- spondncia; na III. gerao, onde se evidenciam os direitos econmicos, sociais e culturais, destacam-se o di- reito ao trabalho, o direito ao descan- so, o direito reforma e proteo da segurana social ou o direito famlia. Em concluso, o quadro normativo constitucional acabado de assinalar, mesmo observado por um leitor bal- izado por condicionalismos culturais prprios da civilizao europeia, per- miteapontarparaaexistnciadesinais que so essenciais caracterizao do quadros normativos tpicos dos mod- ernos Estados de Direito democrti- cos, de que a Repblica Popular da China um caso paradigmaticamente exemplar, na sua conceo, optando pela eleio de um modelo que a colo- ca entre iguais face s melhores e mais recentes constituies que comungam a matriz tpica dos pases ocidentais. Antnio Pinto Pereira Professor Auxiliar com Agregao do Instituto Superior de Cincias Sociais e Polticas da Universidade de Lisboa e Investigador e Membro Integrado do Instituto do Oriente lugar-comum ler-se que a Histria est cheia de ironias; de curiosos mo- mentos que parecem ter sido planea- dos por mos mais ou menos (in)vi- sveis. Como se as helnicas Moiras, ou a ultra-invisvel Mo de Adam Smith interferissem no delinear do curso da Histria. Se a Histria da Humanidade comporta um certo grau de Ironia, por o Homem ser naturalmente irnico, se no faccioso e tendencioso, nas suas escolhas. H registos sobre a existncia de uma entidade poltica sobre controlo directo dos Circasses (no se lhe podendo chamar Estado) que datam pelo menos do sculo XIII. No sculo XIV, um ano antes da sua morte, o Papa Joo XXII escreve mesmo ao Governador dos Circasses a agradecer os esforos de Cristianizao entre o seu povo. Os Circasses, localizados no Cucaso Norte, eram ento uma confedera- o de principados maioritariamente Cristos. No sculo XVI, aps a assinatura do tratado da Paz de Ama- sya de 1556 (documento assinado entre o Imprio Oto- mano e o Imprio Persa), os Circasses iniciam o seu pro- cesso de islamizao que seria catalisado pelas campanhas de conquista do Imprio Russo. Os (ento j) islamizados Circasses, grupo tnico nativo do Cucaso Norte de origem turcfona, foram expulsos das suas terras e deportados em condies sobre-humanas em 1864. Os intentos mais pacifistas do czar Alexandre I de trazer os frutos da civilizao a povos considerados imberbes, logo foram suplantados pela Russificao intensiva do czar Nicolau I e pelo militarismo agressivo do czar Alexandre II. Em Maio de 1862 surge o plano para deportar os Cir- casses. Em Maio de 1864 o plano posto em marcha. E, cu- riosa encruzilhada do Destino, 150 anos depois da barbrie DIZ-ME COMO REZAS E DIR-TE-EI SE S Cadernos do tiaguisto </li><li> 6. 6 o mundo rene-se nas mesmas terras para celebrar a glria desportiva inver- nia. DeixemosoCucasoNorte,porinstan- tes. No sculo XIII, quando o Imprio Seljuq dominava a Anatlia (Turquia), uma tribo turcfona migrou voluntari- amente at aos Balcs, instalando-se na Bulgria, Cristianizando-se e ganhan- do o nome de Gagauz. Ao contrrio dos Circasses, tambm de origem tur- cfona, os Gagauz nunca foram sober- anos nas suas terras. Os Gagauz, ao longo da sua Histria, foram-se submetendo ao jugo dos Bl- garos, dos Moldavos, dos Russos, dos Romenos, da Unio Sovitica e (de novo) dos Moldavos. Os Gagauz, o tal grupo turcfono Cristianizado, foram donos e senhores do seu destino ape- nas em 1906, quando proclamam uma Repblica sua que durou apenas cinco dias. Repito, cinco dias! Os Circasses, o tal grupo tnico tur- cfono Islamizado, apesar da vassala- gem devida ao Imprio Otomano no ps-Paz de Amasya, mantiveram um elevado grau...</li></ol>