ovisungo brinca a - no jardim suspenso ... o projeto ovisungo brinca a! foi uma grande oportunidade

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  • Relatrio final do projeto

    OVISUNGO BRINCA A Coletivo gua Benta

    contemplado pelo edital Projetos de Mediao em Artes do Centro Cultural So Paulo.

    Perodo: de julho a dezembro de 2015.

    Acabounossourucum!Ondetemurucumnessacapitalsemfim?OoutroquetnhamosveiodeCabreva.Bom,vamosfazerscomasargilasento.No vai ficar to colorido mas vamo ver se conseguimos alguma outra tinta natural vermelha.A ao seria na sexta. Era tera feira e o comentrio de uma semana antes despertou em Dona Marli a graa de vir presentearnos com urucum para que pudssemos continuar a experimentaodemaquiagenscomtintasnaturais.Delicadezasquefazembrotarsorrisosdeprofundasrazes.

    InstrumentosnoJardimSuspenso

    crditos:ThalaVieira

    Instalaodepoemas

    crditos:JooLopes

  • O projeto OVISUNGO brinca a uma mediao em artes integradas no

    Centro Cultural So Paulo, possibilitou ao Coletivo gua Benta o aprofundamento e

    experimentao em torno da pesquisa sobre culturas negras e indgenas iniciada no final

    de 2013. O interesse em estudar cantos e gestualidades de trabalho nos conduziu aos

    vissungos, cantos de origem africana regies de Angola e Congo trazidos pelos

    negros que foram escravizados no Brasil. O primeiro registro escrito desta cultura data

    de 1929 . Neste ano, em visita a Minas Gerais, o pesquisador Aires da Mata Machado 1

    Filho transcreveu em partituras alguns cantos entoados em diversas situaes do

    cotidiano. Eram cantos de trabalho, cantos de carregar defuntos, cantos do amanhecer

    dodia,cantigasdecaminho,entreoutras.

    A continuao desta pesquisa que evoca nossa ancestralidade negra possibilita

    o reconhecimento e valorizao da rica contribuio de matriz africana para a cultura

    brasileira. Realizar esse trabalho no CCSP parte de um processo maior de

    fortalecimentodasculturasindgenaseafrobrasileirasemnossopas.

    Investigando o tema dosvissungos, chegamos ao termo umbundoovisungo que

    significa cantos, hinos. Decidimos adotar essa nomenclatura para a pesquisa a fim de

    ampliar o repertrio de canes pois percebemos a necessidade de trabalhar tambm

    outroscantosdeorigempopular,taiscomococosecirandas.

    Muitos pesquisadores da rea de cultura popular afirmam que o coco uma

    expresso nascida de influncias africanas e indgenas. Foi neste ponto que o enorme

    universo da cultura indgena tambm nos chamou ateno e percebemos que estudar

    cultura popular no Brasil significaria entender as confluncias e disputas sociais e

    simblicasentreosdiferentespovosqueformamnossaidentidade.

    O projeto Ovisungo brinca a! foi uma grande oportunidade de colocar em

    prtica algumas destas descobertas e dialogar diretamente com o pblicoparticipante

    que foi constantemente convidado a criar conosco, compartilhando conhecimentos,

    experincias,epoesiassobreresistnciacultural.

    Quais seriam os cantos que fazem parte do cotidiano das pessoas que

    frequentam o CCSP? Como trabalhar o universo simblico negro em nossa sociedade,

    nesse espao cultural e de estudo? Quais temas abordar diretamente, quais vivenciar

    atravsdamsica,docanto,demscaraseintervenesvisuais?

    1MACHADOFILHO,AiresdaMata.ONegroeoGarimpoemMinasGerais.Ed.JosOlympio,1943.

  • Neste projeto comeamos a experimentar linguagens artsticas novas para o

    coletivo, isso tambm nos permitiu propor diferentes formas de dilogo e troca. At o

    final de 2014 s tnhamos trabalhado com teatro e msica. Ovisungo brinca a!

    possibilitou irmos alm destas linguagens, integrou literatura, artes plsticas, fotografia,

    maquiagemevdeo.

    Construmos um processo onde nossa ao principal de cantos e batuques era

    mantida enquanto trocvamos as demais aes mais ou menos a cada ms. Essa

    dinmica nos possibilitou trabalhar com grupos de diferentes faixas etrias: crianas,

    adolescentes,adultoseidosospessoascomrefernciasculturaisdiversas.

    Com o desenvolvimento das aes e intervenes, a importncia do trabalho e

    a presena do Coletivo gua Benta no espao pblico foi se mostrando cada vez mais

    significativa e necessria. A linguagem da cultura popular apropriada pelo grupo, os

    cantos e batuques, instalaes fotogrficas que trabalhavam o repertrio simblico

    negro e as relaes que construmos a partir de jogos, convites a brincar, permitiram a

    criao de espaos empricos e subjetivos. Essa ambincia possibilitou a construo de

    relaes que nasciam com o tom afetivo, tendo como transporte principal a oralidade e a

    experinciaprticacomoformadetrocadeconhecimento.

    Ocupar o Centro Cultural com este tipo de atividade fugia do lugar comum

    frequente naquele espao, permitia a afetao e a experimentao, a criao. A maioria

    das intervenes em dana e msica realizadas pelos frequentadores est mais ligada s

    tendnciasdaculturademercado,principalmenteritmosdopopamericano.

    Percebemos que nossas intervenes despertavam interesse pela sonoridade

    familiar para muitas pessoas e pelo fato de estarmos no CCSP, espao que amplia as

    possibilidades de encontro, uma referncia de espao cultural da cidade. Sempre

    ouvamos as pessoas: Eu adoro esses ritmos! De onde vocs so? Vocs fazem isso

    porquevocsquerem?

    Quando informvamos que se tratava de um projeto do prprio CCSP as

    pessoas ficavam ainda mais surpresas e receptivas. Era notvel que achavam

    interessante ter aquela vivncia proporcionada tambm pela instituio e o contato

    direto,atroca,oaprendizado.

    Sons, dialetos africanos, palavras, imagens, vdeos, poemas, argilas, urucum,

    papelo, tinta despertando o interesse por nossas razes negras, fazendo brotar sorrisos,

    ampliando as possibilidades, os campos de pesquisa e o reconhecimento. A

  • identificao com a sonoridade, a proximidade, relaes que incentivam a emancipao,

    a crtica esclarecedora, a mudana vinda de encontros: Isso porque estudar e compartilhar saberes relativos a essas (que so tambm nossas) culturas parte do processo de identificar aspectos

    delas em nosso cotidiano e em nossa formao cultural, ao mesmo tempo que tambm lidar com outras

    visesdemundo,costumes,valores,noesdeconhecimento,crenaehumanidade. 2

    Ao Prtica de Ovisungo

    AodeprticadeOvisungocrditos:BrunoLima

    Essa ao iniciouse com um cortejo nas imediaes do Centro Cultural, mas

    logo, percebemos que o cortejo s no bastava. As pessoas se mantinham distantes,

    numa posio de observador. O interesse no tinha motivao para a ao. Percebemos

    que precisvamos criar outros meios de dialogar. Comeamos, ento, a caminhada em

    busca dos significados de mediao. O dilogo com a equipe da DACE Diviso de

    Ao Cultural e Educativa foi muito importante nesse momento para que

    2TrechodorelatrioEncontrosCafusosdoColetivoCafusascontempladoporestemesmoeditaldeMediaoCulturalem2014.Podeserencontradonoendereo:http://www.centrocultural.sp.gov.br/pdfs/mediacao_em_arte_encontros_cafuzos_2014.pdf.Datadeacesso:07/03/2016.

    http://www.centrocultural.sp.gov.br/pdfs/mediacao_em_arte_encontros_cafuzos_2014.pdf
  • comessemos a colocar em prtica a inteno de interveno e troca, convidando o

    pblicoparticipanteparaacriao.

    Buscamos um contato mais ntimo, fazendo uma abordagem que despertava a

    curiosidade das pessoas. Passamos a nos aproximar usando poemas, cantos e ritmos dos

    Ovisungos. Era como se chegssemos oferecendo algo para iniciar a troca. Em seguida,

    convidvamos os interlocutores a declamar um poema, cantar e tocar conosco. Tivemos

    muitas conversas sobre cotas raciais, preconceitos, afirmao da cultura negra,

    formaoeducacionalbrasileira,entreoutras.

    Ao compartilhar as canes de nosso repertrio, perguntvamos se o

    participante lembrava alguma msica deste contexto afrobrasileiro, indgena, popular,

    folclorista. s vezes quando as pessoas diziam que no conheciam nenhuma mas que

    demonstravam vontade de cantar, pedamos que cantasse alguma msica que fazia parte

    desuavida,quesuameouavcantava.

    Vivenciamos momentos muito poticos, uma menina em especial nos marcou

    cantando uma msica que sua me cantava e abriu um vozeiro: Ningum ouviu! Um

    soluar de dor. No canto do Brasil... famoso Canto das trs raas dos compositores

    MauroDuarteePauloCsarPinheiro,muitoconhecidonavozdacantoraClaraNunes.

    Oferecemos instrumentos musicais e fizemos rodas de batuques e cantos.

    Compreendemos esse fazer como chama na memria e incentivo de continuidade.

    Tambm tivemos momentos em que sentimos a necessidade de improvisar livremente

    sobre ritmo e canto. Entendemos o improviso como uma importante ferramenta

    metodolgica na mediao, onde tudo est em movimento e tomando forma

    possibilitando um espao de aprendizagem/troca valorizando o inesperado, abrindo

    espao