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OS LTIMOS SETE MESES DE ANNE FRANK por WILLY LINDWER

O Dirio de Anne Frank - interrompido em 1 de Agosto de 1944 - constitui um documento de alto pundonor humano e o libelo acusatrio nele contido ainda choca todos os leitores pela sua autenticidade. Agora em Os ltimos Sete Meses de Anne Frank revelada a parte final, e pouco conhecida, da breve existncia da pequena judia que, vtima das perseguies nazis, viria a falecer no campo de concentrao de Bergen-Belsen em Maro de 1945. Seis mulheres partilharam este cativeiro e o testemunho que prestaram foi recolhido pelo jornalista Willy Lindwer. Com palavras simples e comovedoras, as sobreviventes falam delas e do calvrio de Anne. A descrio da sua vida nos ltimos sete meses surge, assim, como o complemento natural do inesquecvel Dirio e proporciona novos esclarecimentos acerca de uma das pginas mais tenebrosas da histria da Humanidade. OS LTIMOS SETE MESES DE ANNE FRANK

LIVROS DO BRASIL, S. A. Rua dos Caetanos. 22 - 1200 Lisboa

Ttulo - OS LTIMOS SETE MESES DE ANNE FRANK Autor- WILLIAM LINDWER Colecco-VIDA E CULTURA-N 124

Preo C O L E C,C O V I D A E C U L T U R A

Z'ILLl' Ll \ D ER

OS LTIMOS SETE MESES DE

Traduco de EDUARDO SAL * Capa de A. PEDRO * Ttulo da edio orignal DE LAATSTE ZEVEN h1AANDEN Vrouven in het spoor van Anne Frank * Copyright ; 1988, Willy Lindwer * Reservados todos os direitos pela legislao em v;gor * Lishoa - t 992 * VEND.AINTERDITA NA REPOBLICA FEDERATIVA DOBRASIL ANNE FRANK

i EDIO LIVROS DO BRASIL. LlSBOA Rua dos Caetanos, 22 A MINHA AV RlVKA, EECUTAOA NA POLNJA PELOS NAZIS FOROU ESTE LlVRO? Este volume reproduz rntegralmente as revelaes feitas para o meu filme doeumentrio difundido pela televiso holandesa em Maio de 1988 e pela belga em Dezembro do mesmo ano. Aquando da

montagem, apercebi-me de que apenas uma parte muito reduzida poderia ser utifizada, enquanto cada um dos testemunhos, tomado separadamente, comportava material com interesse suficiente para se conservar na sua totalidade. A presente obra no constitui somente um complemento da pelcula, pois tornou-se sobretudo um documento histrieo sobre a coragem notvel das mulheres interrogadas. Este trabafho prolongou-se por mas de dois anos, durante os quais numerosas entrevistas precederam as gravaes definitivas. As mulheres que aqui fafam tiveram de superar uma emoo considervel, mas a necessidade de contar a sua histria acabou por prevalecer.

CI Estou enormemente interessado na publicao integral desses encontros, pois ela esclarece a motivaco, as razes que insistem em se exprimir. semelhan5a d filme, o Iivro reconstitui um perodo da Segunda Guerra Nlundial, revelado por aquelas que conviveram com Anne Frank nos ltimos sete meses da sua vida. A histria delas , tambm. a de Anne. Estabeleceu-se em cada uma um lao particular de contiana, de amizade. imensa a minha admirao pela sua coragem extraordinria. Ensinaram-me a compreender melhor o fardo suportado pelos sobreviventes dos campos de concentrao. Perteno geraco do ps-guerra, mas descendo de uma famlia judia que atravessou a Ocupao pelo preo de duros sofrimentos. O tema era-me familiar, apesar de que a confrontao com Auschwitz constituiu uma experincia perturbadora.

Agradeo muito particularmente a A. H. Paape. director do Instituto Nacional Holands de Documen- tao sobre a Guerra, em Amesterdo, e jornalista Rene Sanders, que colaborou neste projecto, assim como a Bob Bremer, director de programas da tele- viso holandesa. Estou igualmente grato Sr. Elfriede Frank e ao Fundo Anne Frank, em Basileia, pela sua cordial colaborao. Quero tambm exprimir o meu reconhecimento a minha mulher, Hannah, que me apoiou nos momentos crucais e muito trabalhou no filme e no livro.

Amstelveen, 12 de Junho de 7988 WlLLY LINDWER

C9 rrRDzco Anne Frank tornou-se uma das figuras mais vigorosas da Segunda Guerra Mundial, qual o seu nome est ligado indissoluvelmente, muito para alm dos Pases Baixos. 0 seu Dirio, redigido entre 12 de Junho de 1942 e 1 de Agosto de 1944, perodo em que esteve escondida no Anexo, publicado em mais de cinquenta pases, foi incansavelmente montado no teatro, programado na televiso ou pro- jectado nos ecrs dos cinemas. O Anexo foi convertido em museu e h nume- rosos anos que atrai a Amesterdo centenas de milha- res de visitantes do mundo inteiro.

Anne escreveu a ltima pgina do seu Dirio na tera-feira, 1 de Agosto de 1944. A 4 do mesmo ms, o Sicherheitsdienst [SD) invadiu o Anexo ao nmero 263 da Prinsengracht e todos os

ocupantes foram detidos e levados. O relato autobiogrfico de Anne Frank termina a. A priso, deportao e extermnio constituem os

[13] ltimos captulos no escritos do Dirio. A clandestinidade e o Anexo, nas pginas do 0irio, so varridos pela terrvel realidade dos campos de concentraco alemes onde foi perpetrado o maior genocdio de todos os tempos. Anne, a irm Margot e a me encontraram a a morte. Esses derradeiros meses da curta vida de Anne Frank suscitaram, at agora. reduzido interesse, sem dvida por se saber pouco a seu respeito. Apenas se Ihes referem um captulo do livro de Ernst Schnabel, Anne Frank, Spur eines Kindes, 1958 (Anne Frank, rasto de uma criana) e a introduo de 0e Dagboeken van Anne Frank, 1986 (Os Dirios de Anne Frank), publicados pelo Instituto Nacional Holands de Documentaco sobre a Guerra. Desconhece-se quase tdo desses sete meses e da maneira como Anne suportou a horrvel provaco de Westerbork(') e de Auschwitz-Birkenau, para sucumbir finalmente doena, fome e esgotamento em Mareo de 1945, em Bergen-Belsen, poucas semanas antes da libertaeo desse campo.

Passados mais de quarenta anos. poucs pessoas esto dispostas a evocar esse perodo e capazes de o fazer: sobreviventes. Durante muito tempo no

[) Campo de passagem nos Pases Baixos

C puderam falar. Para algumas a situao mantm-se. A pouco e pouco, aceitam e experimentam ento a neeessidade de revelar-uma vitria sobre si prprias e vontade de testemunhar para a posteridade. Essas mulheres so as ltimas testemunhas daquele perodo irreal. insondvel, da Histria da Humanidade. No filme e no livro, deportadas que, como Anne, se encontravam

em Westerbork, Auschwitz-Birkenau e Bergen-Belsen, recuperam a voz e descrevem o que acontecia nos comboios e nas casernas. Conheceram Anne e sua famlia. Algumas eram amigas de escola. Ao reproduzir as entrevistas integralmente, o livro proporeiona uma imagem do meio e da histria de cada uma e situa a poca num contexto mais amplo. Anta Mayer-Roos s citada no tilme porque as suas declaraes j foram objecto de uma publicao. Existem verses um pouco diferentes dos ltimos sete meses da vida de Anne Frank. Talvez a exactido histrica no seja primordial. mais importante descrever o que essas mulheres conheceram, interrogarmo-nos sobre os limites da resistncia humana. O medo da morte, a sua presena eontnua, o olhar destitudo de sentimentos ante a extinco dos outros. Os pormenores nfimos. porm essenciais, o desaparecimento de todas as normas. Na sua tese publicada em 1952. o Dr. Eli Cohen escreveu: "No podemos exigir queles que nunca

[15) viveram l que imaginem em que consiste na realidade um campo de concentraa.,.

Aps meses de pesquisas e diversas entrevistas, encontrei, em parte graas ao Instituto Nacional Holans de Documentao sobre a Guerra, mulheres decididas a revelar, diante da cmara e do microfone, as suas experincias pessoais. Todas conheceram ou contactaram com Anne e a famlia Franlc. Atravessaram uma grande provao e, cada uma sua maneira, nsobreviveram, ou tentaram aceitar. um sofrimento que ficou enraizado para sempre. So as porta-vozes de Anne. Pareeeu-nos importante ampliar os conhecimentos do grande pblico, evocar a terrvel angstia do campo de concentrao depois da vida no Anexo. A clandestinidade constitua um meio de escapar morte certa da deportao. Ainda existem entre ns testemunhas das atrocidades de Auschwitz. So as ltimas pessoas que podem revelar, a partir da sua prpria experincia, em particular aos jovens, o que aconteceu histria. O fascismo, neonazismo, discriminao racial e anti-semitismo esto sempre na ordem do dia. Ainda h quem conteste a autenticidade do prprio Dirio de Anne Frank. Algumas das

reaces suscitadas pelo filme representam a prova! por isso que essas mulheres querem faiar hoje, a fim de combater a injust;a da nossa ociedade. O seu destino raramente foi evocado at ao presente. O que contribu para aumentar o horror. Este livro descreve o que elas sentiam no momento das mais intensas privaes. O homem estava reduzido ao estado de animal. A eonscincia humana anquilada. um milagre que conseguissem sobreviver. Auschwitz e Bergen-Belsen tinham sido concebidos para destruir. Elas arcaro toda a sua vida com o enorme fardo dos ltimos sete meses.

( 16 g - Aime Frank RESLTlO HISTFICO Em 1933. Otto Frank tomou a deciso de abandonar Francoforte onde vivia e existia uma importante comunidade judaica, para

se instalar. com a famlia, em Amesterdo. pois previa que a subida ao poder de Hitler no prometa nada de bom. Anne, nascida a 12 de Junho de 1929, vivia, com os pais e a irm Margot. trs anos mais velha, no nmero 37 da Praa Merwede daquela cidade holandesa. Filha de pais abastados, conheceu uma infncia :lespreocupada. alterada pela invaso alem aos Pases Baixos, em Maio e 1940 e. em 1941, pelas medidas cada vez mais penosas a que os judeus se achavam submetidos. Por exemplo: a obrigaco de os filhos serem obrigados a frequentar exclusivamente as escolas judaicas. No entanto. no liceu judeu (criado pelos ocupantes alemes sob os auspcios do Conselho Judaico para Amesterdo), Anne atravessava um perodo ainda relativamente agradvel. marcado por uma vida social muito activa, pois Edith e Otto Frank

[21] esforavam-se por preservar as filhas da opresso da Ocupao. A situao prolongou-se at Julho de 1942, data em que Margot re