os rubaiyat de omar khayyam

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  • Os Rubaiyat de Omar Khayyam verso em portugus de Afredo Braga

  • 1

    Nunca murmurei uma prece,

    nem escondi os meus pecados.

    Ignoro se existe uma Justia, ou Misericrdia;

    mas no desespero: sou um homem sincero.

    2

    O que vale mais? Meditar numa taverna,

    ou prosternado na mesquita implorar o Cu?

    No sei se temos um Senhor,

    nem que destino me reservou.

    3

    Olha com indulgncia aqueles que se embriagam;

    os teus defeitos no so menores.

    Se queres paz e serenidade, lembra-te

    da dor de tantos outros, e te julgars feliz.

    4

    Que o teu saber no humilhe o teu prximo.

  • Cuidado, no deixes que a ira te domine.

    Se esperas a paz, sorri ao destino que te fere;

    no firas ningum.

    5

    Busca a felicidade agora, no sabes de amanh.

    Apanha um grande copo cheio de vinho,

    senta-te ao luar, e pensa:

    Talvez amanh a lua me procure em vo.

    6

    No procures muitos amigos, nem busques prolongar

    a simpatia que algum te inspirou;

    antes de apertares a mo que te estendem,

    considera se um dia ela no se erguer contra ti.

    7

    Alcoro, o livro supremo, pode ser lido s vezes,

    mas ningum se deleita sempre em suas pginas.

    No copo de vinho est gravado um texto de adorvel

    sabedoria que a boca l, a cada vez com mais delcia.

  • 8

    H muito tempo, esta nfora foi um amante,

    como eu: sofria com a indiferena de uma mulher;

    a asa curva no gargalo o brao que enlaava

    os ombros lisos da bem amada.

    9

    Que pobre o corao que no sabe amar

    e no conhece o delrio da paixo.

    Se no amas, que sol pode te aquecer,

    ou que lua te consolar?

    10

    Hoje os meus anos reflorescem.

    Quero o vinho que me d calor.

    Dizes que amargo? Vinho!

    Que seja amargo, como a vida.

    11

    intil a tua aflio;

  • nada podes sobre o teu destino.

    Se s prudente, toma o que tens mo.

    Amanh... que sabes do amanh?

    12

    Alm da Terra, pelo Infinito,

    procurei, em vo, o Cu e o Inferno.

    Depois uma voz me disse:

    Cu e Inferno esto em ti.

    13

    No vamos falar agora, d-me vinho. Nesta noite

    a tua boca a mais linda rosa, e me basta.

    D-me vinho, e que seja vermelho como os teus lbios;

    o meu remorso ser leve como os teus cabelos.

    14

    Tenho igual desprezo por libertinos ou devotos.

    Quem ir dizer se tero o Cu ou o Inferno?

    Conheces algum que visitou esses lugares?

    E ainda queres encher o mar com pedras?

  • 15

    Na sombra azulada do jardim

    o ar da primavera renova as rosas

    e ilumina os meigos olhos da minha amada.

    Ontem, amanh... to grande o prazer agora.

    16

    Bebo, mas no sei quem te fez, grande nfora;

    podes conter trs medidas de vinho, mas um dia

    a Morte te quebrar. Numa outra hora perguntarei

    como foste criada, se foste feliz, ou por que sers p.

    17

    Como o rio, ou como o vento,

    vo passando os dias.

    H dois dias que me so indiferentes:

    O que foi ontem, o que vir amanh.

    18

    No me lembro do dia em que nasci;

  • no sei em que dia morrerei.

    Vem, minha doce amiga, vamos beber deste copo

    e esquecer a nossa incurvel ignorncia.

    19

    Khayyam, enquanto erguias a tenda da Sabedoria,

    caste na fogueira da dor; agora s cinzas.

    O Anjo Azrail cortou as cordas da tua tenda

    e a Morte vendeu-a por uma ninharia.

    20

    intil te afligires por teres pecado;

    tambm intil a tua contrio:

    alm da morte estar o Nada,

    ou a Misericrdia.

    21

    Cristos, judeus, muulmanos, rezam,

    com medo do inferno; mas se realmente soubessem

    dos segredos de Deus, no iam plantar

    as mesquinhas sementes do medo e da splica.

  • 22

    Na estao das rosas procuro um campo florido

    e sento-me sombra com uma linda mulher;

    no cuido da minha salvao: tomo o vinho

    que ela me oferece; seno, o que valeria eu?

    23

    O vasto mundo: um gro de areia no espao.

    A cincia dos homens: palavras. Os povos,

    os animais, as flores dos sete climas: sombras.

    O profundo resultado da tua meditao: nada.

    24

    Eu estava com sono e a Sabedoria me disse:

    A rosa da felicidade no se abre para quem dorme;

    por qu te entregares a esse irmo da morte?

    Bebe vinho; tens tantos sculos para dormir.

    25

    Admito que j resolveste o enigma da Criao;

  • e o teu destino? Aceito que desvendaste a Verdade;

    e o teu destino? Est bem, viveste cem anos felizes

    e ainda tens muitos para viver; e o teu destino?

    26

    Ningum desvendar o Mistrio. Nunca saberemos

    o que se oculta por trs das aparncias.

    As nossas moradas so provisrias, menos aquela ltima.

    No vamos falar, toma o teu vinho.

    27

    Olha, um dia a alma deixar o teu corpo

    e ficars por trs do vu, entre o Universo

    e o desconhecido. Enquanto no chega a hora,

    procura ser feliz. Para onde irs depois?

    28

    Os sbios mais ilustres caminharam nas trevas da ignorncia,

    e eram os luminares do seu tempo.

    O que fizeram? Balbuciaram algumas frases confusas,

    e depois adormeceram, cansados.

  • 29

    A vida um jogo montono que d dois prmios:

    A Dor e a Morte.

    Feliz a criana que expirou ao nascer;

    mais feliz quem no veio ao mundo.

    30

    Na feira que atravessas no procures amigos

    ou abrigo seguro. Aceita a dor que no tem remdio

    e sorri ao infortnio; no esperes que te sorriam:

    Seria tempo perdido.

    31

    O mundo gira, distrado dos clculos dos sbios.

    Renuncia vaidade de contar os astros

    e lembra-te: vais morrer, no sonhars mais,

    e os vermes da terra cuidaro da tua carcaa.

    32

    Aquele que criou o Universo e as estrelas

  • exagerou quando inventou a dor.

    Lbios vermelhos como rubis, cabelos perfumados,

    quantos sois no mundo?

    33

    Velho mundo sob o passo do cavalo branco e negro

    dos dias e das noites, s o palcio triste onde mil Djenchids

    sonharam com a glria e mil Bahrams com o amor,

    e a cada manh acordavam chorando.

    34

    Sono sobre a terra, sono debaixo da terra.

    Sobre a terra, sob a terra: homens deitados.

    Nada em toda a parte. Deserto.

    Homens chegam, outros partem.

    35

    Enquanto o rouxinol lhe entoava um hino,

    murchou a bela rosa por causa do vento sul.

    Lamentaremos por ela ou por ns?

    Quando morrermos, outra rosa desabrochar.

  • 36

    Se no tiveste a recompensa que merecias,

    no te importes, no esperes nada;

    j estava tudo nas pginas daquele livro

    que o vento da eternidade vai virando ao acaso.

    37

    Quando me falam das delcias que na outra vida

    os eleitos iro gozar, respondo:

    Confio no vinho, no em promessas;

    o som dos tambores s belo ao longe.

    38

    Bebe vinho, ele te devolver a mocidade,

    a divina estao das rosas, da vida eterna,

    dos amigos sinceros. Bebe, e desfruta

    o instante fugidio que a tua vida.

    39

    Bebe o teu vinho. Vais dormir muito tempo

  • debaixo da terra, sem amigos, sem mulheres.

    Confio-te um grande segredo:

    As tulipas murchas no reflorescem mais.

    40

    Baixinho a argila dizia

    ao oleiro que a torneava:

    J fui como tu, no te esqueas,

    no me maltrates.

    41

    Oleiro, vai com cuidado, trata bem a argila

    com que Ado foi conformado.

    Vejo no torno que moves a mo de Feridun,

    o corao de Khosru... o que fizeste?

    42

    A tulipa rubra nasce no campo que foi regado

    pelo sangue de um altivo rei.

    A violeta brota do sinal de beleza que palpitava

    na face de uma doce adolescente.

  • 43

    H tanto tempo giram os astros no espao;

    h tanto tempo se revezam os dias e as noites.

    Anda de leve na terra, talvez aonde vais pisar

    ainda estejam os olhos meigos de um adolescente.

    44

    As razes do narciso que se inclina suave,

    bebem a vida nos lbios mortos de uma mulher.

    Pisa leve a relva macia, ela nasce das cinzas

    de rostos to belos quanto as tulipas.

    45

    O oleiro ia modelando as alas e os contornos

    de uma nfora. O barro que ele conformava

    era feito de crnios de sultes

    e mos de mendigos.

    46

    O bem e o mal se entrelaam no mundo.

  • No agradeas ao Cu

    pela sorte que te coube, nem o acuses:

    Ele indiferente.

    47

    Se em teu corao cultivaste a rosa do amor,

    quer tenhas procurado ouvir a voz de Deus,

    ou esgotado a taa do prazer,

    a tua vida no foi em vo.

    48

    Vai com prudncia, viajante.

    A estrada perigosa, a adaga do destino

    acerada. No colhas as amndoas doces,

    so venenosas.

    49

    Um jardim florido, uma bela mulher, e vinho.

    Eis o meu prazer e a minha amargura,

    o meu paraso e o meu inferno.

    Mas quem sabe o que Cu e o que Inferno?

  • 50

    Com a tua face como a rosa, com o teu rosto belo,

    como o de um dolo chins, no sabes

    o que o teu olhar faz do rei da Babilnia?

    Um bispo do xadrez, que foge da rainha.

    51

    A vida passa. O que resta de Bagdad e Balk?

    A aragem mais leve fatal rosa j desabrochada.

    Bebe o vinho, e contempla a lua:

    lembra-te das civilizaes que ela j viu morrer.

    5