OS PRINCÍPIOS ARQUITETÔNICOS DO ?· simetria, harmonia, ritmo, ordem e composição. ... O tratado…

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  • VEREDAS FAVIP - Revista Eletrnica de Cincias - v. 1, n. 1 - janeiro a junho de 2008

    OS PRINCPIOS ARQUITETNICOS DO RENASCIMENTO ITALIANO

    R E S U M O

    A teoria da arquitetura, desde o primeiro livro de que se tem notcia, o De Architectura Libri Decem Dez Livros da Arquitetura do Romano Vitrvio, transformou-se juntamente com a sociedade. Suas categorias estticas e suas tipologias se referiam antigidade Romana sem oferecer, contudo, modelos prticos diretos. A concepo cientfica do perodo renascentista e sua linguagem humanstica criou, atravs de tericos arquitetos, o que hoje denominamos Princpios Arquitetnicos do Renascimento. O primeiro terico que defendeu a idia da fundamentao destes princpios foi Leon Battista Alberti, que concluiu seu tratado, o De Re Aedificatoria, em 1452. Ao longo do Renascimento, estes princpios tomaram mais fora, tendo sido aplicados por outros tericos arquitetos como Filarete, Giorio Martini, Serlio e Palladio. O mais importante fator destes princpios est no fato de sintetizarem conceitos abstratos como simetria, harmonia, ritmo, ordem e composio. Baseando-se em propores humanas e na natureza, os tericos do Renascimento estabeleceram um ideal arquitetnico que refletiria o ideal da natureza nas concepes da arquitetura.

    Palavras-chave: Arquitetura. Teoria da Arquitetura. Renascimento Italiano.

    A b S T R A C T

    A R C H I T E C T U R A L P R I N C I P L E S I N T H E I T A L I A N R E N A I S S A N C E

    Since the first book already known, the architectures theory, the De Architectura Libri Decem - Ten Architecture Books - by a Roman writer called Vitrvio, it suffered changes by the society. Its aesthetic categories and typologies referred to the Antique Roman, without offering, however, direct practical models. The Renaissance scientific conception and its period and humanistic language created, through theoretical architects, what nowadays is denominated Renaissance Architectural Beginnings. The first theoretical whom defended the idea of the principles basis it was Leon Battista Alberti, which concluded its agreement, the De Re Aedificatoria in 1452. Throughout the Renaissance those principles took more force, applied by other theoretical architects as Filarete, Giorio Martini, Serlio and Palladio. Those principles most essential issue is the fact it synthesizes abstract concepts as symmetry, harmony, rhythm, order and composition. Based on human proportions and in the nature, the Renaissances theoretical had established an architectural ideal that should reflect the ideal of the nature in the architecture conceptions.

    Keywords: Architecture. Architectures Theory. Italian Renaissance.

    Felippe de AndrAde Abreu e limAArquiteto e urbanista formado pela UFPE. Mestre em Teoria e Histria da Arquitetura e do Urbanismo pela UFPE. professor de teoria, histria, crtica e fundamentos da arquitetura e do urbanismo. tradutor, escritor e profissional liberal. Traduziu e publicou o primeiro tratado de arquitetura do Renascimento no Brasil, intitulado: A Obra e o Tratado de Arquitetura de Giacomo Barozzi da Vignola. Recife, Edies Bagao, 2005. Atualmente faz doutoramento em Histria, Crtica e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo na FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de So Paulo), sob orientao do Professor Dr. Luciano Migliaccio. E-mail: fellipe@usp.br.

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    1. inTrOduO

    A linguagem arquitetnica do Renascimento evo-luiu junto com a viso esttica da sociedade. Neste caminho, os tratadistas do Renascimento citam, en-faticamente, Vitrvio como sendo o livro referncia para o estudo da histria da teoria da arquitetura, bem como a base epistemolgica para conceituao dos princpios arquitetnicos que viriam a ser aper-feioados.

    2 . A V i S O d e V i T r V i O d A ArQuiTeTurA

    Como mencionou Elvan, a viso de Vitrvio da arquitetura como imitao da natureza, que impli-cava a observncia de princpios racionais no sentido que ento se dava ao termo seria endos-sada por Alberti e por outros tericos posteriores. Mesmo que o conceito de imitao da natureza, e da prpria natureza, no se enuncie de modo claro na arquitetura de ento, a tese era atraente, pois tem um substrato filosfico bastante difundido entre os humanistas dos sculos XIV em diante. (SILVA, 2005, p. 230).

    Outro fator de fortalecimento da teoria da ar-quitetura, alm dos financiamentos para tradues dos textos antigos e criao de novos livros, foi a conceituao da profisso, feita por Alberti. Para este erudito, o desenho a ferramenta fundamen-tal que est em seu domnio, considerando omnia materia exclusa, ou seja, abstraindo toda a matria. A arte e, conseqentemente, a arquitetura tornaram-se cincia durante o Renascimento, incorporando a viso humanista do mundo, tomando o ser humano como referncia para a cincia e afastando-se da cultura medieval1 . O magister operis medieval estava definitivamente separado do artista intelectual da Renascena. O ponto fundamental reconhecermos que Alberti converte a ars aedificandi em uma cincia pragmtica, coordenada pela razo e pela lgica cien-tfica, do mesmo modo como se tentava fazer com temas filosficos, jurdicos ou teolgicos; uma ao que resultou uma transposio qualitativa perceptvel na anlise histrica.

    A arte de ento foi responsvel pela mudana do gosto esttico social e este colaborou para a afirma-o de princpios estticos na arquitetura. Esta arte demonstrava a perfeio do homem, baseada nas medidas perfeitas, nas medidas divinas, manifestadas atravs das leis da cincia: da matemtica e da geo-metria. Como fundamento maior desta cincia estava o nmero de ouro , que traria luz uma relao entre o divino e o humano.

    Imagem 1. Leonardo da Vinci. O Homem Vitruviano. A proporo das partes igual ao nmero de ouro ().

    Apesar da dificuldade em sintetizarmos os prin-cpios arquitetnicos do Renascimento, podemos entend-los como uma viso esttica social, baseada em conceitos matemticos e geomtricos que tm como objetivo demonstrar a racionalidade artstica (ABREU E LIMA, 2004)2 . Contudo, autores como Geoffrey Scott por exemplo, criticam a arquitetu-ra do Renascimento como sendo uma arquitetura de formas. Num primeiro momento ele menciona que:

    O Renascimento no criou nenhuma teoria da arquite-tura. Produziu tratados sobre arquitetura: Fra Giocondo, Alberti, Palladio, Serlio, e muitos outros, construram e escreveram obras. Porm o estilo que elaboraram era

    1 At hoje, segundo nossa opinio, o arquiteto se reconhece como um homem culto e detentor de um conhecimento alm do superficial.2 Consideramos dois autores como fundamentais para compreenso deste tema. WITTKOWER, Rudolf. Arquitectural Principles. In: The

    Age of Humanism. SILVA, Elvan. A Forma e a Frmula.

    Os princpios arquitetnicos do renascimento italiano

  • 6 VEREDAS FAVIP - Revista Eletrnica de Cincias - v. 1, n. 1 - janeiro a junho de 2008

    demasiado vivo para admitir uma anlise, demasiado popular para requerer defesa. Nos deram regras, mas no princpios. No necessitavam de teoria por que se dirigiam ao gosto. Os perodos de incansvel produo, absortos no prtico e no concreto, no facilitam um pensamento de tipo universal. (SCOTT, 1970, p. 41; traduo e grifos nossos).

    A afirmao de que o Renascimento no produ-ziu nem princpios arquitetnicos nem uma teoria prpria , hoje, completamente refutada por todos os especialistas. John Summerson, por exemplo, diz que:

    O tratado de Alberti, ainda que utilizando exaustiva-mente o texto de Vitrvio, uma obra muito original que formula os princpios da arquitetura luz da prpria filosofia do autor e de suas anlises de edifcios romanos. (2002, p. 150; grifo nosso).

    A observao dos tratados da arquitetura do Re-nascimento faz-nos perceber que havia princpios para nortear o processo projetual, pois, como vimos, o antropocentrismo do Renascimento emergiu, tor-nando o homem a referncia para si mesmo. A sociedade perfeita, formada por homens perfeitos, deveria expressar uma arquitetura que espelhasse esta harmonia. Com a redescoberta do texto vitruviano que exaltava a natureza e o ser humano, os tratadis-tas do Renascimento tiveram nas runas romanas o contedo material para testar as propores e as me-didas descritas por Vitrvio. Para esclarecermos os princpios da arquitetura do Renascimento, devemos, ento, tomar por base as tratadsticas de Vitrvio e Alberti. Vitrvio foi a base epistemolgica para a teoria da arquitetura no Renascimento e Alberti foi o precursor desta teoria no sculo XIV. Ao longo do De Architectura Libri Decem, Vitrvio menciona que:

    A arquitetura depende da ordem (ordinatione), da sime-tria (eurythmia et symmetria et decore et distributione), da propriedade (dispositione), da economia e do ritmo.3

    A parte II do Livro I do tratado de Vitrvio influenciou enormemente os tratadistas do Renas-cimento, pois defendeu que existe uma diferena entre arquitetura e construo. Esta distino se apia, alm da emoo, na categoria da beleza, manifestada atravs de uma harmonia universal que manifestada na natureza e no homem. O redescobrimento dos textos antigos4, anteriores mesmo ao prprio Vitrvio, que mencionam a harmonia existente no ser humano, foi esclarecedor para os tratadistas formularem novos princpios, ou melhor, criarem uma linguagem arquitetnica nova baseada em princpios eternos.

    Vitrvio via na natureza a fonte de inspirao para a arquitetura. Esta viso, baseada nas regras e propores da matemtica e da geometria euclidia-na, foi adotada por Alberti e manifestou-se no seu tratado de arquitetura. Esta nova forma de difu-so do conhecimento, diferente do conhecimento oral medieval, favoreceu percepo da arquite-tura como cincia. O tratado de arquitetura podia transmitir mais que regras de construo. Alis, o tratado deveria ser algo muito mais complexo que apenas materiais e tcnicas construtivas, abordando desde a casa at a cidade.

    A viso vitruviana de que h princpios racionais que devem basear o pensamento arquitetnico, levou Alberti a considerar a matemtica e a geo-metria como a base dos princpios do desenho na arquitetura. Surge, exatamente neste perodo, a diferenciao entre construo e arquitetura. A idia de que h algo alm da matria e que pousa no campo esttico. Esta uma nova maneira de se perceber o mundo, que, em verdade, produto das foras sociais. A separao entre construo e arquitetura surgia de maneira conceitual a partir de ento, colaborando para concretizao e conceitu-ao de uma complexa teorizao da arquitetura. Roger Scruton, por exemplo, escreve sobre este tema que:

    3 Texto Original: Architectura autem constat ex ordinatione, quae graece dicitur, et ex dispositione, hanc autem Graeci vocitant, et eurythmia et symmetria et decore et distributione, quae graece dicitur (Vitrvio. Livro I, Parte II). (Traduo Nossa). Os textos em Grego so includos no texto em latim, por Vitrvio.

    4 Os textos antigos que influenciaram os tratadistas do Renascimento foram, basicamente: Teteto, Crtias e Fdon, de Plato (traduzidos por volta de 1415). De Divina Proportione e Summa Arithmetica de Paccioli (1494). De Revolutionibus de Coprnico (1543). Todos estes textos mencionam a existncia do nmero de ouro grego , como sendo um nmero que manifesta toda a harmonia universal. Leonardo da Vinci, entre 1452 e 1519, desenha o Homem Vitruviano, provando que a relao entre as diversas partes do corpo humano so relacionadas proporcionalmente ao nmero de ouro , que equivale aproximadamente a 0.618.

    Fellipe de Andrade Abreu e Lima

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    A idia de uma separao fundamental entre a constru-o como arte e a construo como ofcio era - para os primeiros tericos do Renascimento - completamente inconcebvel. E no teria sentido, pois, aos pensadores daquela poca (sculo XIV), a natureza esttica da ma-nifestao arquitetnica no exclua sua configurao material (SCRUTON, 1983, P. 31).

    Ao longo do Renascimento, esta idia se transformou e a arquitetura se tornou, cada vez mais, uma arte fundamentada em princpios, graas s contribuies de tratadistas como Alberti. A diferenciao conceitual entre arquitetura e construo contribuiu, por sua vez, para que estes princpios arquitetnicos se alicerassem em conceitos esttico-matemticos, baseados em propores ureas, mdulos e relaes entre as partes do edifcio. Sobre este assunto, Wittkower menciona que:

    Alberti se mostra explcito em relao ao carter da igreja ideal. Esta deve ser o ornamento mais nobre de uma cidade e sua beleza deve superar toda imaginao. esta beleza dominadora que desperta sensaes subli-mes e inspira piedade s pessoas (op. cit. p. 15; traduo nossa).

    O cenrio urbano tambm inserido neste contexto que passava a valorizar a esttica dos edifcios e a procurar atingir a perfeio. Alberti foi o pioneiro neste rol de autores, preconizando um tratamento diferenciado arquitetura no contexto urbano. Com o advento desta nova teoria da arquitetura ensinada e divulgada por Alberti, os princpios arquitetnicos se tornam cada vez mais especializados, ou melhor, mais conceituais e matemticos. Pevsner observa que a essncia da arquitetura passou, durante o Renascimento, a ser considerada como fazendo parte da filosofia e da matemtica (as divinas leis das ordens e das propores) e da arqueologia (os monumentos da Antigidade), o papel do terico e do diletante assumia um novo significado (PEVSNER, p. 172).

    Deste modo, na relao entre ordem arquite-tnica e mdulo que se encontra a razo de ser dos mencionados princpios da arquitetura do humanis-mo. Baseados em relaes matemticas da natureza, ou seja, fazendo uso de relaes numricas entre as partes, os primerios tratadistas do Renascimento, seguindo as orientaes mencionadas por Vitrvio, defenderam que o espao urbano deveria estar rela-

    cionado com o edifcio, e este com os seus espaos e medidas internas, todos articulados em razo de um mdulo pr-estabelecido. Assim sendo, a materialida-de da arquitetura estaria, de algum modo, refletindo uma ordem maior, ou seja, uma ordem da natureza e da divindade.

    O redescobrimento das ordens da Antiguida-de fortaleceu a busca por estas relaes harmnicas entre as partes da arquitetura, j que o tratado de Vitrvio havia mencionado a necessidade de se criar todos os elementos arquitetnicos derivando de um mdulo, que, por sua vez, seria baseado nas pro-pores humanas. Esta valorizao da antiguidade pelos humanistas foi um fato propulsor das edies de livros da era clssica. Favorecida ainda pela re-cente inventa imprensa de Guttenberg, a difuso do conhecimento arquitetnico tomou Vitrvio como a referncia Romana, j que o perodo medieval no havia produzido nenhum manual capaz de ser editado e traduzido.

    Ento, em 1487, Vitrvio foi um dos primeiros autores a aparecer em letra de forma. O impacto foi tremendo. Os arquitetos fizeram enorme uso do novo meio de co-municao: Alberti, Serlio, Francesco di Giorgio, Palladio, Vignola, Giulio Romano escreveram tratados que deviam algo a Vitrvio. Esses homens no eram mais mestres-pedreiros, ainda que brilhantes; eles eram intelectuais. A arquitetura no era mais a continuao de uma tradio prtica, conservada nos galpes dos pedreiros; era uma tradio literria. O arquiteto no estava meramente er-guendo uma edificao; ele estava seguindo uma teoria (NUTTGENS, 1984, p. 169; traduo nossa).

    A valorizao dada pelos humanistas Vitrvio era um fenmeno natural, na medida em que estes estavam mais comprometidos com a valorizao de todas as manifestaes da sabedoria da antiguidade. A consolidao da cultura clssica Greco-romana era o projeto dos tericos que se ocupavam da cincia e da filosofia.

    A primeira edio impressa do De Architec-tura de Vitrvio data de 1487. A imprensa tinha sido inventada h apenas trs dcadas. Contudo, o texto era conhecido pelos eruditos durante toda a Idade Mdia. Nikolaus Pevsner afirma que eram conhecidas e usadas na Idade Mdia vrias cpias manuscritas(op. cit. p. 261); e John Hale afirma que O De Architectura era conhecido em toda a Ida-de Mdia da Itlia (Petrarca e Boccaccio possuam exemplares) (1988, p. 376). Alberti se baseia em

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    Vitrvio para desenvolver estes princpios arquite-tnicos, que, por sua vez, faz referncia harmonia das propores do corpo humano. Ambos, Vitrvio e Alberti se basearam nas relaes entre as partes do corpo humano para determinao das propores harmnicas que compem seus princpios arquite-tnicos. Vitrvio, por exemplo, escreveu, no captulo segundo do Livro I, que:

    Simetria a concordncia correta entre as partes da obra e a relao entre partes diferentes com o esquema todo da obra. Assim, existe um tipo de simetria no corpo hu-mano entre o brao, o p, o dedo, a mo e outras partes pequenas. Isso deve ser a mesma coisa com um edifcio perfeito. No caso de templos, simetria se encontra no dimetro de uma coluna, nos trglifos, na modulao ou em outras partes variadas que esto relacionadas umas com outras.5

    Alberti tambm fez do corpo humano a base ma-

    terial para a conceituao dos princpios arquitetni-cos. No captulo quinto do Livro VII, escreveu:

    Do mesmo modo que em um organismo animal, os ps ou qualquer outra parte do corpo esto estritamente rela-cionados entre si, como todo o corpo, como tambm as partes do edifcio, e, sobretudo em um templo, devem-se conformar todas as partes do seu corpo de modo que corresponda inteiramente umas s outras, a ponto de poder facilmente perceber-se as relaes mtricas de uma com as outras.6

    No nos cabe neste estudo demonstrar as pro-pores matemticas usadas por Alberti nos seus projetos nem mencionar todos os trechos do seu tratado que se referem s propores harmnicas da arquitetura.7

    O importante mencionarmos que as propores 1:2, 2:3 e 3:4 foram descritas no Livro IX como sen-

    Imagem 2. Leon Battista Alberti. Arranjo da planta da Igreja de San Sebastiano, em Mntua. A srie de razes usadas foi a seqncia de Nicmaco. O espao central mede 7+6+8+6+7=34, ou seja, 34:21=1.618. Um dos exemplos que apresenta uma relao que segue o nmero .8

    5 Texto original: Item symmetria est ex ipsius operis membris conveniens consensus ex partibusque separatis ad universae figurae speciem ratae partis responsus. Uti in hominis corpore e cubito, pede, palmo, digito ceterisque particulis symmetros est eurythmiae qualitas, sic est in operum perfectionibus. Et primum in aedibus sacris aut e columnarum crassitudinibus aut triglypho aut etiam embatere, ballista e foramine , quod Graeci vocitant, navibus interscalmio, quae dicitur, item ceterorum operum e membris invenitur symmetriarum ratiocinatio. Vitrvio. De Architectura Libri Decem. Livro I, Parte II. (Traduo e Grifo Nossos). As palavras em grego esto no texto original. (VITRVIO apud ABREU E LIMA, Fellipe de Andrade, 2007).

    6 Texto original: Sed quemadmodum in animante caput, pes: et qualecunque velis membrum ad caetera membra atque ad totum reliquum corpus referendum est: ita et in aedificio maximeque in templo conformandae universae partes corporis sunt: ut inter se omnes correspondeant: ut quavis uma illarum sumpta eadem ipsa caeterae omnes partes dimetiantur. (Traduo e Grifo Nossos).

    7 O estudo das relaes matemticas usadas por Alberti nos seus projetos so descritas em: ACKERMAN, 1951, p. 198, e, MARCH, Lonel, 1998.

    8 Livro IX, Captulo VI do tratado de Alberti. Neste captulo, Alberti se baseia nas relaes harmnicas entre as propores das partes do corpo humano e na msica para escolha das propores ideais da arquitetura.

    Fellipe de Andrade Abreu e Lima

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    do as mais fiis s leis da harmonia universal, mesmo que em outros momentos Alberti tenha utilizado estas medidas de forma tmida e obscura.

    Ao longo do De Re Aedificatoria, Alberti faz refe-rncias ao corpo humano e sua perfeio. J que se pretendia fazer uma arquitetura perfeita, deviam, os arquitetos, inspirarem-se na natureza. Sendo o homem a mais perfeita manifestao da natureza, a arquitetura deveria ser inspirada no homem e, diretamente, nas suas propores e medidas. H relaes entre o antropocentrismo, caracterstico do humanismo e o advento de uma linguagem arquite-tnica baseada nas propores humanas. Alis, em verdade, um mesmo tema que no podemos separar. O renascimento da matemtica grega via no homem a manifestao de Deus; conseqentemente, da harmonia universal. O uso de crculos, quadrados e tringulos pitagricos era a concretizao da cincia matemtica que expressava a razo divina, j que eram medidas perfeitas. Com o homem inscrito nas formas geomtricas, tudo se harmonizou.

    Tendo em vista o exposto, podemos concluir que as transformaes econmicas, polticas e sociais na Itlia do sculo XV incluram e fortaleceram o res-gate da cultura greco-romana. Como conseqncia destes movimentos, mencionamos o humanismo. Os desenvolvimentos cientficos produzidos culmi-naram num movimento arquitetnico baseado em princpios matemticos e geomtricos, intitulado desde ento: os princpios arquitetnicos do Renasci-mento. Os ideais estticos destes princpios estavam materializados nos elementos arquitetnicos: colu-nas, capitis, por exemplo, e na articulao espacial destes, atravs do ritmo, proporo e simetria.

    REFERNCIAS

    ABREU E LIMA, Fellipe de Andrade. Estudo dos conceitos de ordem e relao, esttica pitagri-ca e frmula nas tratadsticas de Leon Battista Alberti e Andrea Palladio. Trabalho Final de Gra-duao, UFPE/CAC/DAU. Recife, 2004.ACKERMAN, James. Art Bulletin, 1951.HALE, John. Dicionrio do renascimento italia-no. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.MARCH, Lonel. Architectonics of humanism. London: Academy Editions, 1998.

    NUTTGENS, Patrick. The story of architecture. New Jersey: Prentice Hall, 1984. PEVSNER, Nikolaus. Perspectiva da arquitectura europeia. Ulisseia, Lisboa, p.172.SCOTT, Geoffrey. Arquitectura del humanismo. Barcelona: Barral, 1970. SCRUTON, Roger. Esttica da arquitetura. So Paulo: Martins Fontes, 1983. SILVA, Elvan. O Imaginrio do ofcio na arquite-tura. Tese de Doutorado. Departamento de Socio-logia do Instituto de Filosofia e Cincias Humanas da UFRGS. Porto Alegre, 2005. SUMMERSON, John. A linguagem clssica da arquitetura. So Paulo: Martins Fontes, 2002.WITTKOWER, Rudolf. Arquitectural principles in the age of humanism.

    Os princpios arquitetnicos do renascimento italiano

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