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A CRISE ASITICA E SUAS CONSEQUNCIAS PARA O BRASIL

Thaiza Regina Bahry

Resumo: este artigo busca analisar as consequncias, sobre as contas pblicas e

o setor externo da economia brasileira, das medidas adotadas pelo governo para evitar que

o Brasil fosse contagiado por uma crise nas mesmas propores que a sia. A anlise

concentra-se no perodo de julho de 1997 a junho de 1998. Inicialmente realiza-se uma

descrio da crise que atingiu alguns pases asiticos a partir de julho de 1997,

apresentando, paralelamente, o ponto de vista de diferentes autores sobre os fatores que

desencadearam-a. Logo a seguir, mostram-se as medidas adotadas pelo governo brasileiro

para evitar que o pas fosse fortemente contagiado por tal instabilidade. E, por fim,

analisam-se quais foram os efeitos destas medidas sobre algumas variveis

macroeconmicas: taxa de cmbio, transaes correntes, reservas cambiais, taxa de juros,

contas pblicas e inflao.

Introduo

Os pases asiticos foram por muitos anos admirados como as economias

emergentes de maior sucesso, dado seu rpido crescimento e os ganhos no padro de vida

de sua populao. Entretanto, a partir de julho de 1997 tais pases foram atingidos

sucessivamente por uma crise, que surpreendeu a todos pela sua intensidade. Outro fator

surpreendente foi a facilidade de contgio.

Com a crise desencadeada na sia, as expectativas dos agentes mudaram e as

dvidas relativas a estabilidade cambial dos pases com elevados dficits em transaes

correntes acirraram-se. Assim, os capitais destinados a tais pases sofreram retrao. Neste

sentido, no Brasil, que possua um elevado dficit em transaes correntes e era

extremamente dependente do capital externo para financiar este dficit, o governo teve que

adotar medidas para conter a fuga de capitais e evitar que o pas fosse assolado por uma

Este artigo parte da dissertao de mestrado intitulada Os Reflexos da Crise Financeira de 1997 na

Economia Brasileira.

2

crise nas mesmas propores que o continente asitico. Assim, a partir de uma descrio da

crise asitica e das medidas adotadas pelo governo brasileiro frente a ela, busca-se analisar

quais as consequncias destas medidas sobre as contas pblicas e o setor externo brasileiro.

A CRISE ASITICA

O paradigma asitico de desenvolvimento encontra-se melhor descrito na teoria

formulada por Kame Akamatsu, na dcada de 30, que ficou conhecida como modelo dos

gansos voadores. Conforme esse modelo, os pases avanavam gradativamente em seu

desenvolvimento tecnolgico medida que adotavam padres de pases que estavam sua

frente no processo de desenvolvimento. Em outras palavras, havia um ciclo internacional de

produto, no qual os pases-lderes passavam padres de produo aos seus seguidores,

medida que seu capital se intensificava, suas capacidades tecnolgicas aumentavam e as

habilitaes e salrios dos trabalhadores aumentavam. Nas ltimas dcadas, sucessivas

economias da sia passaram da agricultura para manufaturados simples, destes para a

produo de automveis e produtos qumicos e depois para indstrias de alta tecnologia.

Entretanto, apesar das elevadas taxas de crescimento a que estava acometida, a sia, a

partir de julho de 1997, foi assolada por uma onda de instabilidade financeira, pela qual

diversos pases foram atingidos sucessivamente.

A crise atingiu primeiramente a Tailndia. Os sinais de advertncia de que esse

pas poderia sofrer uma crise eram amplamente reconhecidos: havia um crescimento

vagaroso das exportaes, a moeda estava sofrendo uma apreciao real, o dficit crescente

em conta corrente vinha sendo financiado com capitais externos de curto prazo, havia um

Aluna do Curso de Doutorado em Desenvolvimento Econmico da Universidade Federal do Paran. E-mail:

thaizare@sociais.ufpr.br

mailto:thaizare@sociais

3

boom especulativo de ativos reais, rpido crescimento do crdito domstico e um aumento

da inflao domstica.

Em 14 de maio de 1997, o bath sofreu um ataque especulativo, apesar, conforme

BELLO (1997, p.83), de o dficit pblico, a inflao e o nvel de reservas da Tailndia

encontrarem-se em nveis aceitveis.1

O ataque ocorreu porque a valorizao do dlar e, por

conseqncia do bath2

, a partir de 1995, levou a Tailndia a grandes dficits comerciais, o

que se refletiu no balano de transaes correntes. Esse fato praticamente estagnou as

exportaes do pas, que estavam em grande parte voltadas para o Japo. Ao mesmo tempo,

a ameaa de elevao das taxas de juros internacionais promoveu uma corrida em direo

moeda, tanto por parte das empresas e instituies domsticas, que possuam alto montante

da dvida em dlares, como por parte dos investidores estrangeiros. Dessa forma, o sistema

bancrio tailands, que j se encontrava frgil devido s altas taxas de juros praticadas para

segurar o bath, o que incapacitou muitas empresas de pagarem suas contas, entrou em

colapso.

Assim, em 2 de julho de 1997, quando o governo tailands anunciou que passaria

a adotar um regime de taxa de cmbio flutuante administrada, aps 13 anos de atrelamento

ao dlar norte-americano, o bath caiu 23%. Depois da Tailndia outros pases asiticos

foram afetados pela crise, apesar de possurem um dficit em conta corrente em nveis

bastante inferiores ao daquele pas, o que pode ser observado na tabela 1.

1

O dficit pblico encontrava-se em 3% do PIB, a inflao mdia em aproximadamente 5% a.a, e as reservas

em US$38 bilhes, representando seis meses de exportaes.

2

A moeda tailandesa encontrava-se atrelada ao dlar.

4

TABELA 1 - SALDO EM TRANSAES CORRENTES DE ALGUNS PASES ASITICOS - 1993-

1996

(% PNB)

Pases 1993 1994 1995 1996

Tailndia -5,4 -5,6 8 -7,9

Filipinas ... ... -4,4 -4,7

Malsia -4,6 -5,9 10 -4,9

Indonsia -1,8 -1,9 -3,3 -3,3

Hong Kong 7 1,6 -2,3 ...

Coria do Sul 0,1 -1,2 -2 -4,9

Japo 3,1 2,8 2,2 ...

FONTES: CUNHA, Andr Moreira. O Pacfico Asitico: da integrao econmica dos anos 80 e 90

crise financeira. ENCONTRO NACIONAL DE ECONOMIA POLTICA. 3. : Niteri, 1998.

In: Anais. Niteri : EDUFF, 1998. v. 1, p. 317-334. FLIGENSPAN, Flavio Benevett. Uma

viso global da economia brasileira durante a vigncia do Plano Real: avanos, impasses e

um cenrio de crescimento com excluso. Indicadores Econmicos FEE, Porto Alegre,

1998. p.102-143.

NOTA: Sinal convencional utilizado:

... dado no disponvel.

As Filipinas foram o primeiro pas afetado pelo contgio3

, tendo em vista seu

nvel de reservas em termos de meses de importao. Por outro lado, a Indonsia, que

adotava uma banda de flutuao de 8 a 12%, foi levada a abandon-la em julho, em virtude

da presso especulativa, aps ter vendido US$ 5 bilhes dos US$ 26 bilhes de reservas

que possua.

Em outubro houve um agravamento da crise, quando as fortes quedas na Bolsa

de Hong Kong acabaram provocando um movimento de baixa em todos os mercados,

levando a ajustes econmicos defensivos, caracterizados pela elevao da taxa de juros,

principalmente nos demais mercados estrangeiros.

Na Coria do Sul, no foi a moeda sobrevalorizada ou o dficit em conta

corrente que desencadeou a crise. Nos ltimos anos, a taxa cambial do won coreano no era

3

O efeito contgio ocorre quando a crise em um determinado pas afeta outros. Isso se d porque a crise da

moeda em um pas afeta os fundamentos de outro, ou devido algumas caractersticas imperfeitamente observadas, comuns

5

fixa, sendo ajustada gradativamente de forma a manter a competitividade dos seus

produtos. Em 1996, ocorreu um colapso no mercado de semicondutores, que era um dos

seus principais produtos de exportao, o que provocou uma elevao no dficit em conta

corrente do pas. O ataque especulativo deu-se devido s preocupaes com os grupos

empresariais que contraram grandes dvidas e ao custo do pacote necessrio para resgatar

os bancos. Os problemas comearam em 1997, pois as instituies empresariais e

financeiras haviam contrado emprstimos externos de curto prazo que excediam as

reservas do pas em grande valor. Mas, como a dvida externa total do pas era apenas 30%

do seu PIB, ficava claro que era um problema de falta de liquidez temporria. Na Coria os

bancos seguiam o que poderia ser chamado de modelo desenvolvimentista japons, isto , o

governo orientava os bancos a conceder emprstimos para algumas empresas e agia

implicitamente como avalista de tais emprstimos.

Com relao ao Japo, os problemas que desencadearam a crise tiveram origem

no incio da dcada de 80. Com a valorizao do dlar, o Japo passou a ser o maior

beneficirio dos dficits comerciais dos EUA. Entretanto, em 1985, as principais economias

do mundo resolveram promover desvalorizaes graduais na moeda norte-americana. Isso

acabou promovendo o choque do cmbio, conhecido como endaka, isto , iene forte,

levando a reduo do crescimento japons e da taxa de lucro dos setores exportadores.

Diante disso, o governo japons comeou a praticar uma poltica monetria

expansionis