os movimentos sociais e as politicas .resumo: o artigo analisa tendências e movimentos sociais e

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OS MOVIMENTOS SOCIAIS E AS POLTICAS EDUCACIONAIS DIANTE DAQUESTO DA EMANCIPAO HUMANA:

AS TENDNCIAS REAIS E AS NOVAS ILUSES REPOSTAS

Csar Nunes1

Ronney Feitoza2

RESUMO: O artigo analisa tendncias e movimentos sociais e polticos sobre educao e suas matrizes. Debatem-se aspectos das polticas educacionais recentes e contrape-se a perspectiva da educao, a partir da exposio da mediao scio-analtica e poltica da concepo crtico-dialtica. Resgatam-se as bases histricas e silhuetas polticas do con-ceito de emancipao e suas possveis interpretaes no campo da educao. Apontam-se projetos e possveis sujeitos, frentes e dispositivos na marcha da sociedade civil brasileira recente.

PALAVRAS-CHAVE: Educao. Emancipao poltica. Filosofi a. Escola.

THE SOCIAL MOVEMENTS AND THE EDUCATIONAL POLICIES REGARDING THE MATTER OF HUMAN EMANCIPATION: THE REAL TENDENCIES AND THE NEW ILLUSIONS REPLACED ANSWERS

ABSTRACT: This paper analyses the tendencies and social and politic movements on edu-cation and its matrixes. We debate on some aspects of recent educational politics, con-trasting with the perspective of education, departing from the exposition of social-analytic mediation, and politic of critic-dialectic conception. We rescue the historical basis and the politic shapes of the concept of emancipation and its possible interpretations in the

1 Livre Docente em Filosofi a e Educao, Prof. Associado da FE da Unicamp. End.: Av. Bertrand Russell, 801. Cid.

Univ. Zeferino Vaz CEP: 13083-865 Campinas, SP. E-mail: cnunes@unicamp.br AP - Brasil

2 Dra. em Educao Popular, Comunicao e Cultura pela UFPB, Profa. da FE da Universidade Federal do Amazonas.

End.: Av. General Rodrigo Otvio Jordo Ramos, 3000. Campus Universitrio Aleixo. CEP: 69077-000 - Manaus,

AM Brasil. E-mail: ronneyfeitoza@yahoo.com.br

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educational fi eld. Finally, we identify projects and possible agents, fronts and emancipator devices in the march of the recent Brazilian civil society.

KEY WORDS: Education. Political emancipation. Philosophy. School

Qualquer observador atento haver de perceber a pluralidade de dis cur sos mess in icos sobre a funo soc ia l da educao, sobretu do nessa estril conjuntura mundial, e os mltiplos posicionamentos polticos diante do tema. Entre as variadas prescries receiturias, recentemente revitalizadas, encontra-se a anunciao da questo da revoluo educacional. O que podemos entender desse conceito e sua potencialidade poltica? A resposta a essa questo tem que ser dada frente aos fatos sociais, aos movimentos e universos polticos que a condensam de sentido.

No tocante avaliao das matrizes de nossa organizao educacional e escolar no de todo uma atitude passadista voltar aos consistentes estudos de Nagle (1976), sobre as matrizes polticas e pedaggicas de nossa tradio educacional republicana: a pendular dialtica entre o entusiasmo pela educao e o otimismo pedaggico. Cumpre lembrar que o legtimo pndulo de Nagle s se resolve com um outro princpio: a determinao poltica, que se torna matricial para o esclarecimento das demais disposies. Assim, para a compreenso da potencialidade poltica e fecundidade epistemolgica e didtica da proposio de um reconhecimento revolu-cionrio na dinmica da educao requer-se novamente o retorno poltica e fi losofi a. No se trata aqui de uma mera considerao demirgica, de base idealista, dessa palavra ou propsito pedaggico, trata-se da decifrao de sua natureza poltica e radicalidade histrica. A questo que nos move nos permite perguntar se esse ideal de considerar a educao a grande revolu-o possvel, aparentemente uma unanimidade nacional, seria forte o sufi ciente para superar a arraigada e efi ciente tradio poltico-pedaggica e terico-metodolgica autoritria que engendra o ncleo de nossa formao poltica e cultural.

Um primeiro questionamento nos remete s matrizes de nossa organizao poltica. O Estado, classicamente, precede a sociedade. Entre ns a pauta foi quebrada. O arcaico estado portugus mercantilista constituiu uma marca que atravessa nossa alma cultural, desde a produo de uma feitoria de explorao, pautada na crueldade extrativista e administrativa, abenoada pelas necessidades salvacionistas de uma Igreja tridentina acuada pelo avano das teses modernas e da confi gurao religiosa reformista. La yspada y la cruz iban dizimando la famlia selvaje - cantava Neruda, ecoando ainda hoje nessas selvas, campos e montanhas, chacos e pantanais. Fomos constitudos s avessas

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Os Movimentos Sociais e as Polticas Educacionais diante da Questo da Emancipao 73 Humana: As Tendncias Reais e as Novas Iluses Repostas

da modernidade, distante de suas grandes linhas, jurados e crismados sob o ideal de sermos apologetas de combate modernidade. E assim se v em processos conseqentes, a reforma pombalina, o conchavo imperial escravocrata, a tradio republicana positivista, num primeiro ciclo determinado pelo modelo econmico plantation, pr-capitalista.

E a industrializao do Brasil, como se d, a partir do conbio entre o campo e a cidade, pari-da a frceps por um estado beirando o absolutismo, sustentado sobre o crescimento econmico desvinculado de responsabilidades sociais distributivas. Hoje celebramos mais de setenta anos de um modelo de desenvolvimento capitalista, que nos coloca em duas posies distintas: o 10 PIB do mundo e o 69 IDH do planeta, na mesma escala decimal de Nambia e Suazilndia, com a desproporcional comparao histrica. O Estado Novo, a repblica populista e a inolvidvel ditadura militar completaram o quadro econmico e suas conseqentes margens sociais.

Num terceiro tempo, de nossa sumarssima reconstruo de marcos polticos, temos que tomar a distncia correta para entender como se tem manejado o processo de integrao da economia brasileira ao mundo globalizado, dos capitais internacionalizados, efetivado a partir de 1990. A nossa subserviente integrao era dos capitais, ao tempo da desempregabilidade estrutural, das potentes tecnologias e novas estratgias de poder, da massifi cao do consumo e da virtualizao do conhecimento e da cultura necessita ser desvendada. Nosso terreno no-vamente a considerao da organizao poltica, a tenso dos movimentos sociais emergentes e a proposio sempre nova de um processo revolucionrio.Ao procurar debater a educao no nosso pas, ns, educadores, podemos cair, no diramos num erro, mas numa inusitada contradio, de que, pela nossa motivao e compromisso, compreendamos a educao numa perspectiva idealista. O idealismo uma concepo de mtodo em fi losofi a que supe, muitas vezes, que as idias, as concepes, as representa-es simblicas determinem ou condicionem a realidade. Precisamos de algum idealismo, no sentido tico e esttico, de recuperar a capacidade de projetar utopias, ainda que reais e his-tricas. Mas precisamos, tambm, em momentos como o que estamos vivendo, ter a coragem, muitas vezes dolorida, de apresentar os confl itos, para compreendermos a nossa identidade como profi ssionais, e decifrarmos a educao e a escola, qual uma grande esfi nge mitolgica. No dizer do mitlogo, a esfi nge tinha rosto de gente, corpo de leo e garras de guia. Ao ousar uma leitura de tais caractersticas poderamos dizer que a esfi nge parecia humana, o rosto era humano, mas era to animalesca quanto o leo e to traioeira como a guia, e a prpria esfi nge dizia: decifra-me ou eu te devoro!

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Essa decifrao do nosso tempo e da nossa escola uma tarefa muitas vezes difcil. Embora no queiramos nos transformar em historiadores calculistas nem em arquivistas de

fatos, no podemos deixar de ter a conscincia histrica, buscar alcanar a conscincia do nosso tempo e da nossa poca, pela qual passam os caminhos e as possibilidades da nossa profi sso e da nossa interveno social. Lembramo-nos aqui de Sartre, fi lsofo que no ps-guerra se trans-formou na conscincia trgica do mundo contemporneo, notadamente do sculo XX. No seu livro clssico Crtica da razo dialtica (2002), ele afi rma que, para no sermos ingnuos, devemos saber, em primeiro lugar, o que fi zeram de ns, pois somos o resultado das aspiraes dos nossos pais, da sociedade e do mundo. Em segundo lugar, continua Sartre, preciso que cada homem escolha e decida o que vai fazer com o que fi zeram de si. Este segundo momento seria aquele da afi rmao da opo, tica, esttica e poltica, de interveno no nosso tempo e na nossa histria.

Se achssemos que somos unilateralmente determinados pelo passado, seramos cticos, pessimistas, porque o passado seria uma roda, uma usina de repetio eterna e uniforme. Mas no somos determinados assim to peremptoriamente. O passado nos condiciona, temos que conhec-lo, porque pesa na nossa perspectiva subjetiva, poltica e social. Mas temos que seguir adiante. Por outro lado, se achssemos que poderamos mudar o mundo num idlico amanh, sem compreender o peso do passado ou as coordenadas reais do presente, cairamos na posio ingnua de acreditar que as coisas se alteram pelo nosso bem querer. Mas no assim. As con-dies objetivas e as condies subjetivas devero integrar-se articuladamente, na luta pela superao dos problemas e na luta pela construo das nossas utopias. Muito mais quando se trata de defender as necessrias perspectivas emancipadoras.

Discutir a concepo terica e disposio poltica da emancipao humana, em suas rela-es com a Educao3, requer afi rmar idias em t