Os ndios Fanticos Realistas Absolutos e a Figura Do Monarca Portugus Disputas Polticas, Recrutamento e Defesa de Terras Na Confederao Do Equador

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O presente artigo tem por objetivo analisar a participao dos ndios dos aldeamentos de Barreiros e Cimbres, em Pernambuco, e Jacupe, em Alagoas, no contexto poltico e nos conflitos armados referentes Confederao do Equador (1824). De maneiras diferentes, os indgenas das citadas aldeias se envolveram ativamente nos debates sobre projetos polticos a partir de seus prprios interesses e expectativas, que se relacionavam defesa das terras das aldeias e administrao desses espaos. Relacionando suas questes mais especficas a uma revolta de grandes propores, os indgenas aldeados construram seu protagonismo em momentos cruciais do processo de formao do Estado nacional brasileiro no sculo XIX.

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  • CLIO REVISTA DE PESQUISA HISTRICA n 33.1 ISSN 0102-94

    OS NDIOS FANTICOS REALISTAS ABSOLUTOS E A FIGURA DO MONARCA PORTUGUS: disputas polticas,

    recrutamento e defesa de terras na Confederao do Equador

    Mariana Albuquerque Dantas1

    (Universidade Federal Fluminense)

    Resumo: O presente artigo tem por objetivo analisar a participao dos ndios dos aldeamentos de

    Barreiros e Cimbres, em Pernambuco, e Jacupe, em Alagoas, no contexto poltico e nos conflitos

    armados referentes Confederao do Equador (1824). De maneiras diferentes, os indgenas das

    citadas aldeias se envolveram ativamente nos debates sobre projetos polticos a partir de seus prprios

    interesses e expectativas, que se relacionavam defesa das terras das aldeias e administrao desses

    espaos. Relacionando suas questes mais especficas a uma revolta de grandes propores, os

    indgenas aldeados construram seu protagonismo em momentos cruciais do processo de formao do

    Estado nacional brasileiro no sculo XIX.

    Palavras-chave: indgenas, Confederao do Equador, Estado nacional.

    Abstract: This article aims to analyze the participation of indigenous groups from the villages of

    Barreiros and Cimbres in Pernambuco, and Jacupe in Alagoas on the context of the political and

    armed conflict called Confederao do Equador (1824). In different ways, the Indians villagers are

    actively involved in discussions on political projects from their own interests and expectations, which

    were related to the defense of the lands of the villages and the management of these spaces. Relating

    theirs more specific questions to a revolt of major proportions, the indigenous groups built their

    crucial role in the formation process of the Brazilian state in the XIX century.

    Key words: indigenous groups, Confederao do Equador, National State.

    Os anos que antecederam a Confederao do Equador, proclamada em 2 de julho de

    1824, foram marcados por profundas transformaes e intensos debates no Brasil e em

    Portugal sobre o sistema poltico a ser institudo no Reino luso e, aps a Independncia, na

    sua antiga colnia. No contexto dessas discusses, a ecloso da revolta estava relacionada aos

    conflitos e disputas entre os que eram favorveis a um governo centralizado na corte no Rio

    de Janeiro e os que defendiam maior autonomia de governo em Pernambuco. Tais disputas se

    somaram e conferiram intensidade s contendas ocorridas nas cidades, vilas e povoados entre

    os potentados locais. Conflitos por terras, mo de obra e poder ganharam novos contedos em

    decorrncia dos debates e disputas sobre os destinos polticos do Brasil. Antigas disputas nas

    localidades passaram a ter novos significados.

    O objetivo do presente artigo analisar a participao de indgenas de trs

    aldeamentos que se envolveram com mais intensidade no contexto de disputas e

    enfrentamentos que levaram ecloso da revolta. Fazendo parte das tropas de represso, os

    indgenas dos aldeamentos de Jacupe, em Alagoas, e Barreiros, em Pernambuco,

    Recebido em 30/06/2015. Aprovado em 21/07/2015

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    participaram dos conflitos armados ocorridos durante a Confederao. Esses aldeamentos

    estavam situados na regio dos conflitos armados, na fronteira entre as duas provncias. Tal

    como ocorrera em 1817, a represso partira dali, e os grupos indgenas contriburam com as

    tropas imperiais atravs de sua fora blica. A ajuda conferida foi estratgica, definindo os

    rumos dos primeiros embates. Enquanto os ndios do aldeamento de Cimbres, em

    Pernambuco, no participaram diretamente dos conflitos, que ocorreram longe de seu

    territrio. Mas se posicionaram politicamente, realizando um levante a favor de D. Joo VI na

    localidade em que viviam no agreste pernambucano.

    O enfoque da anlise parte da compreenso das redes de relacionamentos entre ndios

    e no ndios construdas tanto nas localidades em que viviam, quanto com lderes da represso

    revolta. Partindo de uma leitura sobre as dinmicas dos aldeamentos, na qual se utiliza uma

    escala micro de anlise2, torna-se possvel perceber as motivaes e interesses indgenas ao se

    envolverem nos embates armados e se posicionarem politicamente.

    Para esses grupos, suas escolhas e aes polticas estavam relacionadas ao acesso

    coletivo ao territrio dos aldeamentos e importncia conferida figura do monarca

    portugus que lhes havia concedido as terras. Constitudas no perodo colonial, as aldeias

    foram apropriadas pelos indgenas como espaos de sua ressocializao frente a uma nova

    situao caracterizada por violncia, trabalhos forados e imposies de diversas ordens.

    Diante dessa nova realidade, as aldeias, ainda que concebidas como espaos de concretizao

    dos projetos da monarquia portuguesa e da Igreja catlica para colonizao e catequese,

    representaram a garantia de acesso terra e a um certo grau de proteo, como argumenta

    Maria Regina Celestino de Almeida.3 Reunidos e reduzidos em sua multiplicidade tnica em

    territrios bem delimitados, os indgenas aldeados e inseridos na sociedade colonial

    protagonizaram transformaes identitrias e culturais, processos que podem ser

    compreendidos para a atual regio Nordeste atravs do conceito de territorializao.4

    Motivados pela defesa de suas terras coletivas, os ndios das trs supracitadas aldeias

    se envolveram nos embates iniciados pelas elites na dcada de 1820. Atuavam, assim, de

    acordo com seus prprios interesses em momentos crticos da formao do Estado nacional

    brasileiro, usando a violncia empregada nos conflitos armados como um instrumento poltico

    para frear, acelerar ou precipitar a mudana social ou poltica.5 Articulando suas motivaes

    s das elites envolvidas nas disputas em torno dos diferentes projetos polticos para o Brasil,

    os indgenas construram seu protagonismo nos debates e conflitos realizados em mbito

    pblico. Contudo, suas escolhas eram limitadas pelas mesmas redes de relacionamentos com

    polticos e proprietrios locais, que possuam as ferramentas legais para recrut-los e tambm

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    fazer uso de sua mo de obra. Como veremos a seguir, os indgenas de Jacupe, Barreiros e

    Cimbres construram suas prprias interpretaes sobre o contexto poltico de ecloso da

    Confederao e elaboraram suas estratgias, ainda que com srias limitaes, participando

    efetivamente dos conflitos do perodo.

    ndios na represso armada s tropas confederadas

    Grande mudanas politicas advindas com a Revoluo Liberal do Porto em 1820

    tiveram reflexos profundos nas provncias do Brasil, em especial em Pernambuco, onde

    rivalidades partidrias que deram corpo Insurreio de 1817 floresceram novamente. As

    tenses se intensificaram devido maior autonomia administrativa concedida s provncias

    atravs da eleio de Juntas e anistia oferecida aos rebeldes de 1817, que voltaram a alguns

    cargos de poder em Pernambuco.

    Houve uma sucesso de Juntas Governativas em Pernambuco entre os anos de 1821 e

    1823 que originaram e intensificaram rivalidades polticas, levando a tenses e conflitos na

    provncia. A escolha dos membros das Juntas de Governo era feita atravs de aclamaes

    militares e populares, diferentemente do que ocorria com os governadores capites-generais

    que eram escolhidos pela corte e, recorrentemente, enviados de Portugal. Segundo Denis

    Bernardes, a necessidade de uma aclamao dupla fazia com que as Juntas tivessem pouca

    estabilidade, o que justificava a queda e posse sequenciados de algumas delas.6 A que ganhou

    mais destaque foi a Junta Governativa presidida por Gervsio Pires Ferreira, que props uma

    nova maneira de governar ao levar ao pblico os debates sobre questes que, anteriormente,

    eram discutidas em segredo. Buscava-se a legitimidade das decises atravs da transparncia

    das aes da Junta, sendo esta uma experincia que marcou a populao de Pernambuco que

    se engajou na Confederao.7

    Essa postura da Junta levou a srios desentendimentos com a Corte no Rio de Janeiro,

    que desejava ter mais poder de influncia em Pernambuco. A Junta, por sua vez, rebatia as

    imposies feitas pelo governo central. Embora houvesse essa tenso, os membros da Junta

    embasavam suas aes na legitimidade conferida ao seu governo pelas Cortes de Lisboa e na

    manuteno do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. Portanto, no visavam, naquele

    momento, independncia ou mesmo separao de Pernambuco do Reino portugus.8

    Agitaes ocorridas em Recife e as diferenas entre a Junta e a Corte contriburam para a

    perda de fora poltica da Junta e para o seu alinhamento ao Rio de Janeiro.

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    A Junta presidida por Gervrio Pires foi sucedida pela liderada pelo capito-mor e

    morgado do cabo, Francisco Paes Barreto, conhecida como o Governo dos Matutos. Essa

    ltima Junta foi marcada por convulses polticas e divergncias entre seus membros.9

    Houve forte oposio a esse governo por parte de polticos que haviam participado de 1817, o

    que levou o morgado do cabo a pedir demisso do cargo de presidente da Junta e eleio de

    Manuel de Carvalho Paes de Andrade para substitu-lo, revelia das determinaes da Corte

    no Rio.10

    A Confederao do Equador eclodiu como uma reao s interferncias de D. Pedro

    I na poltica de Pernambuco e outorga da Constituio de 1824, ambos encarados como atos

    de despotismo por polticos da provncia.11

    Logo em seguida foram baixados decretos visando represso da Confederao. Foi

    composta uma comisso militar presidida pelo Brigadeiro Francisco de Lima e Silva para

    processar os lderes e foi estabelecido o bloqueio dos portos de Pernambuco. Nesse perodo, a

    comarca do So Francisco foi desmembrada da provncia, sendo transferida para Minas

    Gerais, como represlia ao governo rebelde.12

    Entre julho e agosto de 1824, as foras

    confederadas estabelecidas no sul sofreram ataques e derrotas na luta contra as tropas de

    Barra Grande, em Alagoas. Nessa regio as tropas de Lima e Silva se uniram s de Paes

    Barreto, nas quais se incluam portugueses refugiados, contingentes alagoanos e ndios de

    Jacupe e de Barreiros.13

    Os conflitos armados continuaram na fronteira entre Pernambuco e

    Alagoas at a derrota militar dos rebeldes.

    As primeiras derrotas sofridas pelas foras rebeldes ocorreram no sul da provncia, na

    fronteira com Alagoas, entre julho e agosto de 1824. Nesse momento, os ndios do

    aldeamento de Barreiros e os de Jacupe tiveram importncia central ao comporem as tropas

    da represso, sendo os ltimos liderados pelo seu capito Christovo Dias.

    A estratgia principal do Exrcito Cooperador da Boa Ordem, como se intitulou o

    conjunto das tropas da represso comandado pelo Brigadeiro Lima e Silva, era articular um

    cerco a Recife pelos portos e pelo sul atravs de apoio dado pela provncia de Alagoas, que

    no havia aderido Confederao.14

    Estacionadas em Barra Grande, na fronteira entre as duas

    provncias, estava uma tropa imperial composta de cerca de 900 homens, que ocupavam a

    margem sul do rio Una. Piquetes foram montados e situados de maneira a fazer oposio aos

    agrupamentos dos rebeldes ao longo do rio. Alm destes, tambm havia um grupo de 200

    ndios de Jacupe nas imediaes do engenho Ilhetas, cuja funo era a de ameaar a

    retaguarda das tropas confederadas e interceptar-lhes a comunicao com o Recife. A ao

    dos indgenas contribuiu para ocupar a vila de Sirinham, de onde, ajudados por mais homens

    da tropa imperial, impediram a chegada de gente e munio a partir do Recife.15

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    Alguns ndios de Barreiros tambm participaram dessa ao, ajudando a montar o

    ataque contra a retaguarda das tropas confederadas. Segundo Frei Caneca, os ndios haviam

    sido seduzidos a participar da represso, sendo tratados como desertores, j que Barreiros

    fazia parte da provncia de Pernambuco e, portanto, estava sob as ordens da Confederao. Os

    que permaneceram na aldeia demonstravam inteno em se reunir s foras da represso,

    quando estas chegassem a Barreiros.16

    O indgenas de Jacupe obtiveram sucesso em seus piquetes, pois foram responsveis

    pela morte do lder da resistncia confederada naquela regio, o major Pitanga, e pelo

    desmantelamento de seu contingente militar em 17 de julho. Esta vitria alm de ser um

    resultado militar positivo para a represso, foi um sucesso sobre um conhecido personagem

    que fora um rebelde em 1817 e participara dos conflitos da Independncia, o clebre

    Pitanga, como o caracterizou uma fonte da poca. 17 Durante 1824, envolveu-se na

    Confederao ao lado do partido do presidente Manuel de Carvalho Paes de Andrade e foi

    incumbido da defesa do porto de Tamandar18

    , prximo Barra Grande. No seu posto de

    defesa caiu mortalmente ferido aps o ataque da tropa dos ndios de Jacupe, ajudados pelas

    foras compostas pelos ndios de Barreiros e outras da represso.

    O xito contra esse importante personagem das rebelies com tendncias liberais em

    Pernambuco foi o primeiro das tropas imperiais contra os confederados, demonstrando a

    importncia do aporte militar dado pelos ndios de Jacupe e de Barreiros ao governo de D.

    Pedro I. A partir desta vitria, as investidas contra os confederados se intensificaram em

    direo aos engenhos da zona da mata rumo ao Recife, onde os rebeldes se renderam em

    novembro de 1824, aps intensa resistncia armada.19

    Aps o fim dos conflitos, o lder dos ndios de Jacupe, Christovo Dias, foi indicado

    para receber uma medalha de distino pelo comandante das tropas imperiais, Brigadeiro

    Francisco de Lima e Silva. A medalha era conferida pelo Imperador e constitua uma

    homenagem aos oficiais que mais se distinguiram durante a campanha de represso.

    Inicialmente foram concedidas nove medalhas pelo Imperador, sendo estas entregues ao

    Brigadeiro Lima e Silva que deveria distribu-las entre seus oficiais. Figuraram entre estes os

    que recebiam ordens diretamente do Brigadeiro, como os majores Seara e Lamenha,

    comandantes das tropas de Pernambuco. Como havia muitos a quem o Brigadeiro queria

    condecorar com a medalha, ele indicou catorze indivduos para a homenagem e depois

    adicionou uma lista com mais outros quatro. Entre eles estava Christovo Dias, que foi

    descrito como muito afeito a Sua Majestade Imperial, sendo tambm Cavaleiro de Cristo.20

    Vemos assim que Dias estava inserido no alto escalo militar da provncia, sendo indicado a

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    receber uma condecorao em reconhecimento aos seus importantes feitos militares em

    comandar os ndios de Jacupe.

    Diante do elevado nmero de indgenas que foram recrutados para participar da

    represso, cerca de 200 apenas de Jacupe, surge o questionamento sobre as motivaes de

    sua participao e o poder de comando da sua liderana, o capito Christvo Dias. Os ndios

    de Jacupe e seu capito lutaram ao lado da represso contra as tropas da Confederao, foram

    ao campo de combate e conseguiram a primeira vitria a favor do governo imperial. Podemos

    afirmar que eles se posicionaram diante das contendas entre os polticos provinciais, e se

    colocaram ao lado do governo de D. Pedro I, embora tenhamos poucas informaes sobre as

    circunstncias de seu posicionamento.

    Assim tambm o fizeram os ndios de Barreiros, que se reuniram s foras imperiais.

    Frei Caneca informou que foram seduzidos a atacar os Constitucionais pela retaguarda.21

    O uso do termo seduzidos indica a necessidade de convencer os indgenas a fazer a escolha

    por um lado ou outro das disputas.22

    Esse convencimento provavelmente foi conseguido

    atravs de negociaes nos termos que poderiam atender as expectativas deles em participar

    das contendas locais. Assim, mesmo que classificado como um grupo subordinado, nos

    momentos de conflitos era fundamental tanto para os lderes da revolta quanto para os das

    tropas imperiais convencer os indgenas e tomar muito cuidado para que no fossem

    seduzidos pelos adversrios.

    possvel que a participao dos ndios de Jacupe e de Barreiros nos conflitos

    armados de 1824 tenha sido motivada por interesses coletivos e, por isso pode ser entendida

    como uma escolha poltica dos grupos. Tambm h a possibilidade de o envolvimento na

    revolta ter ocorrido atravs de recrutamento forado, j que esse tipo de prestao de servio

    militar era comum durante o sculo XIX. No obstante, significativo que um nmero

    elevado de ndios de Jacupe no tenha resistido a um possvel recrutamento forado. Como

    tambm importante a j citada afirmao de Frei Caneca que os ndios de Barreiros foram

    seduzidos a participar da represso. Essas informaes nos indicam a possibilidade de que

    os ndios dos dois aldeamentos tenham combatido por vontade prpria. A ttica de negociar

    com os ndios os termos de sua participao em embates armados iniciados por no ndios foi

    recorrente no Brasil desde o perodo colonial, como no caso da guerra de conquista da Baa de

    Guanabara no sculo XVI,23

    e no dos conflitos ocorridos durante a expulso dos holandeses

    de Pernambuco no sculo XVII.24

    Foi comum tambm a concesso de mercs e privilgios s

    lideranas indgenas que se destacavam.25

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    Outra questo pode ser levantada em relao s motivaes indgenas. Embora no

    tenhamos mais informaes sobre Christovo Dias, se continuou em seu cargo de capito dos

    ndios, se era indgena ou no, a sua caracterizao na fonte como muito afeito a Sua

    Majestade Imperial nos d um indcio sobre o posicionamento poltico de seus liderados no

    momento. O apoio represso e a defesa do Imperador podem indicar o tipo de

    relacionamento que os indgenas de Jacupe mantinham com o governo centralizado no Rio

    de Janeiro e na figura do monarca em 1824.

    As terras dos ndios de Jacupe foram doadas pelo rei no final do sculo XVII, com o

    intuito de que nelas fossem aldeados os indgenas que compunham os teros dos paulistas

    Domingos Jorge Velho e Christovo Arrais aps a vitria sobre o Quilombo dos Palmares,

    bem como os grupos que j viviam naquela regio.26

    Essas terras foram concedidas numa rea

    muito prxima da densa mata atlntica que foi tombada no sculo XIX para uso exclusivo do

    rei, mais precisamente para a retirada de madeira nobre para a construo de navios em todo o

    reino. Eram matas, portanto, que foram protegidas do avano dos canaviais dos engenhos

    vizinhos, que a cada dia precisavam de mais terras para a produo de acar. Consta que ao

    longo do tempo, a populao pobre vizinha utilizava aquelas matas para coletar, caar e

    cultivar em pequenos roados produtos para a sua subsistncia, tal como fizeram os ndios de

    Jacupe.27

    Como afirma Marcus Carvalho, aqueles ndios viviam portanto, em terras da

    coroa, uma vez que a rea ainda no havia sido ocupada pela agricultura de exportao.28

    Podemos concluir que as referidas matas proporcionavam proteo e subsistncia aos ndios e

    s pessoas pobres que viviam na regio.

    Em Barreiros, o histrico de doao de terras aos ndios foi parecido, pois tambm

    receberam lotes no final do sculo XVII em recompensa ajuda conferida represso do

    Quilombo dos Palmares.29

    Em outro momento, os ndios de Barreiros tambm j haviam se

    aliado aos representantes em Pernambuco do governo do prncipe regente D. Pedro I, quando

    foram solicitados para exercer servio militar. Em setembro de 1821, quando o governo na

    provncia estava dividido entre a Junta de Goiana e o governador Lus do Rego Barreto, ao

    Diretor dos ndios de Barreiros foi ordenado que levasse os seus comandados a Recife,

    provavelmente para compor foras para defesa do governo de Lus do Rego, que havia sido

    escolhido pelo regente.30

    Este foi um momento em que os enfrentamentos e oposies

    partidrias se acirravam entre defensores do prncipe regente e os que juravam apenas

    obedecer s Cortes de Lisboa, gerando conflitos polticos nos quais os ndios de Barreiros

    participaram ao lado do governo de Lus do Rego. No de causar surpresa que, em 1824,

    durante os conflitos da Barra Grande, estes mesmos ndios tenham ajudado na represso s

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    tropas dos confederados. Este apoio, no entanto, lhes custaria caro j que os ndios que se

    juntaram s tropas imperiais sofreram um ataque do governo confederado, quando foram

    queimadas suas palhoas como represlia.31

    Acreditamos ser possvel afirmar, ento, que os 200 ndios comandados pelo capito

    Christovo Dias para combater os rebeldes confederados em 1824, bem como os de Barreiros,

    optaram faz-lo tendo em vista o histrico de relacionamento com o governo portugus,

    construdo a partir da doao de terras para a fundao das aldeias e de uso das matas do

    tombo real. Mesmo que o governo do Brasil em 1824 no fosse o mesmo do final do sculo

    XVII e muito menos fosse formalmente ligado ao de Portugal, a figura do Rei e,

    posteriormente, do Imperador, sendo este descendente direto da dinastia lusa, representava um

    grande aliado dos indgenas.

    Mais uma vez, possvel inferir a importncia da figura do monarca para os indgenas

    que se envolveram em conflitos armados iniciados pelas elites polticas provinciais, tal como

    ocorreu na Insurreio de 1817. Compreendido como ltima instncia de defesa,32

    o rei podia

    ser entendido pelos indgenas como o representante de um regime no qual adquiriram seus

    direitos especficos sobre as aldeias e matas adjacentes no caso de Jacupe. As relaes entre

    grupos indgenas e a figura do monarca eram baseadas em trocas que envolviam prestao de

    servios, obedincia e recebimento de mercs. Essa foi uma condio construda ao longo de

    sculos de vivncias nas aldeias, nas quais os diversos grupos indgenas sofreram uma

    reduo drstica de seus territrios e imposio de leis e condutas, mas tambm reelaboraram

    identidades relacionadas queles espaos e adotaram para si a condio de sditos do rei.

    Com o estatuto de sditos, possuam direitos e obrigaes muito especficos, constituindo

    uma condio distinta aos ndios inseridos no projeto colonial em relao aos demais

    vassalos. Os direitos adquiridos, especialmente o sobre terras coletivas, passaram ento a ser

    defendidos pelos indgenas durante o perodo colonial, e tambm ao longo do sculo XIX.33

    Em sua anlise sobre estudos recentes da historiografia latino-americana, Maria

    Regina Celestino de Almeida demonstra que ndios de diferentes regies prestavam servios e

    obedincia ao rei e pagavam tributos e, por isso, reivindicavam ter seus direitos garantidos,

    principalmente no que se refere s terras coletivas e autonomia poltica nos pueblos. Para

    defender tais direitos, indgenas iniciaram enfretamentos armados e jurdicos ao longo do

    perodo colonial, que se estenderam pelo sculo XIX envolvendo vrias comunidades

    indgenas. O rei era percebido, ento, como um justiceiro distante, no sendo o seu poder e

    a sua legitimidade questionados. Quando se insurgiam, no o faziam contra o rei ou o sistema

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    poltico implantado, mas para defender seus direitos como sditos diante das disputas com

    poderes locais que os desrespeitavam.34

    Para os ndios de Barreiros e Jacupe, possvel que o Imperador representasse

    tambm essa figura longnqua de justia e ltimo nvel ao qual podiam recorrer em sua

    defesa. Portanto, defender o Imperador em campo de batalha frente s tropas confederadas

    significava manter e proteger as terras doadas e o usufruto sobre as matas do entorno do

    Jacupe, de onde tiravam seu sustento.

    Contudo, a ao dos indgenas era limitada por seu lugar social desprivilegiado em

    relao s elites proprietrias e tambm pelo prprio contexto de guerra e violncia. As suas

    alianas e os seus posicionamentos polticos poderiam trazer-lhes grandes prejuzos, como

    ocorreu com os ndios de Barreiros que tiveram suas palhoas queimadas por tropas do

    governo confederado. Os posicionamentos indgenas na provncia foram diversos. Enquanto

    os ndios de Jacupe e Barreiros escolheram apoiar as tropas de represso, que representavam

    d. Pedro I, os de Cimbres deixaram claro o seu apoio a D. Joo VI. Nesse sentido, alm de

    perceber as diferenas de escolhas polticas, importante entender tambm que as alianas e o

    posicionamento poltico dos grupos indgenas podiam ser reelaborados de acordo com as

    mudanas ocorridas nos cenrios local, provincial e nacional.

    Os ndios que levantaram o estandarte de D. Joo VI

    Em 1824, os ndios da vila de Cimbres fizeram um levante a favor de d. Joo VI,

    sendo descritos pelas fontes da poca como indivduos por natureza fanticos realistas

    absolutos.35 Os ndios de Cimbres no participaram diretamente dos combates ocorridos em

    1824, tendo em vista que seu aldeamento estava situado longe da regio dos conflitos. No

    obstante, expressaram seu posicionamento poltico em funo das intensas relaes de disputa

    e alianas vivenciadas com no ndios na localidade em que habitavam. Para compreender as

    nuances relativas s escolhas indgenas no contexto ps-independncia necessrio nos

    atermos s disputas ocorridas em Cimbres por terras e ao contexto poltico local.

    Autores de histria de Pernambuco e de seus municpios fazem referncia a uma

    chacina que os ndios de Cimbres sofreram em 1824 promovida por representantes locais do

    governo confederado. Sobre esse episdio violento, Pereira da Costa informa que uma fora

    autorizada pelo governo, composta por uma guerrilha da prpria vila e uma companhia de

    Ordenanas de Moxot (localidade vizinha), foi enviada para combat-los sob a justificativa

    de que teriam cometido roubos e assassinatos. Citando uma fonte de 1863, Pereira da Costa

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    informa que alguns ndios foram mortos e tiveram seus cadveres esquartejados e deixados

    aos ces. Outros tantos foram imprensados como sacos de algodo. Ainda foram presos cerca

    de oitenta ndios, sendo remetidos ao Recife, e seus filhos pequenos repartidos como escravos

    entre os habitantes da cidade.36

    Nelson Barbalho, repete as mesmas informaes de Pereira da Costa e conclui que no

    seria possvel saber se esse episdio teria ocorrido a mando de Manoel Jos de Serqueira ou

    de Francisco Xavier Pais de Melo Barreto, os polticos mais influentes de Cimbres e inimigos

    entre si.37

    Os constantes embates entre esses dois grandes potentados locais esto no cerne do

    posicionamento poltico dos ndios de Cimbres em 1824.

    Durante aquele ano, antes do supracitado massacre, foi instaurada uma devassa para

    apurar a culpa dos ndios sobre roubos nas casas e nas estradas e se eram pessoas inimigas

    da causa da independncia do Brasil, correndo com palavras de seduo dos povos.38 As

    onze testemunhas da devassa relataram os mesmos acontecimentos, diferindo em poucos

    detalhes uns relatos dos outros. De maneira geral afirmaram que alguns ndios seriam

    recorrentes ladres de gado e dinheiro. Alm dessas acusaes, as testemunhas fizeram

    consideraes mais gerais sobre o posicionamento poltico dos indgenas naquele momento,

    indicando, inclusive, quais seriam os responsveis por iniciar os problemas na regio. Duas

    das testemunhas afirmaram que os ndios do vivas a D. Joo VI e que isso prova no

    adotarem a causa da Independncia do Brasil. Outras trs reafirmaram que eles s querem o

    rei portugus e que no querem saber de Constituio. Os ndios de Cimbres eram

    contrrios a nossa causa do Brasil e com isto provam serem nossos inimigos. Este

    movimento, segundo as testemunhas, foi encabeado por trs capites indgenas, Manoel da

    Cruz, Manoel Batista e Bento Rodrigues. Este ltimo voltaria a ser citado em outras situaes,

    constituindo-se como uma das lideranas do aldeamento. Alm disso, as testemunhas

    informaram que o capito-mor dos ndios, Manoel Jos, no fora aceito na aldeia por ter sido

    empossado pelo governo provisrio de 1824. A concluso da devassa foi a de que todos os

    ndios citados deveriam ser presos.39

    As acusaes das testemunhas da devassa do pistas para tentar compreender como

    esse grupo de ndios citados entendiam os novos contextos polticos provincial e nacional e

    como se colocavam diante destes. O Governo Provisrio ao qual o documento se refere foi o

    instaurado em dezembro de 1823 com a renncia do ento presidente Francisco Paes Barreto.

    Nesse momento, os ndios de Cimbres se mostraram contrrios ao Governo Provisrio

    dos rebeldes de 1823, uma vez que no aceitaram o capito-mor Manoel Jos que fora

  • CLIO REVISTA DE PESQUISA HISTRICA n 33.2 ISSN 0102-94

    59

    indicado naquela situao. E tambm eram contrrios Independncia e ao governo de D.

    Pedro I, opondo-se Constituio e desejando a volta de D. Joo VI. Ou seja, em meados de

    1824, aquele grupo indgena se posicionou contrariamente ao governo centralizado na corte

    no Rio de Janeiro, bem como aos seus adversrios polticos em Pernambuco.

    No entanto, esse posicionamento no era hegemnico entre os ndios de Cimbres. O

    capito-mor rejeitado, Manoel Jos Leite, era aliado dos rebeldes, tanto que fora indicado por

    eles. O grupo, portanto, vivia cises internas, que eram alimentadas pelas disputas em torno

    de cargos administrativos e militares, como o de capito-mor da aldeia.4041

    Tal como fizera Bento Rodrigues, os ndios Joo Jos, Vicente Cabeludo e Joo

    Barbosa, citados na devassa de 1824, se opuseram primeira eleio paroquial para a

    nomeao de deputados s cortes em Portugal ocorrida em Cimbres, protestando somente

    defender o seu rei Dom Joo VI a quem ainda hoje exclusivamente so adictos.42 De acordo

    com Domingos de Souza Leo, o mesmo autor da devassa que tambm era Juiz Ordinrio, os

    ndios

    so por natureza fanticos realistas absolutos [...] porque a sua ferocidade

    filha da mesma estupidez exaltada diariamente pela fcil embriagues, a

    licena e impunidade em que vivem fazem desanimar a qualquer patriota

    que os pretenda caridosamente iluminar.43

    O capito-mor das Ordenanas da vila de Cimbres, Manoel Jos de Serqueira, tambm

    deu o seu parecer sobre os ndios, ressaltando os crimes que teriam cometido, afirmando que

    seu sistema roubar. O capito-mor esperava a pronta obedincia dos ndios diante de suas

    ordens, como ocorreu em 1817, quando foi feito o recrutamento de cem ndios para compor as

    tropas de represso. Mas ao contrrio percebeu que no podia contar com eles novamente

    pois, segundo ele, mesmo que se ponham a marchar, formam entre eles uma desconfiana,

    da voltam roubando, desolando tudo, a fim de acharem a terra destituda de homens, para se

    apoderarem das famlias. Ainda em 1824, informou que chegaram cerca de cem ndios de

    Palmeira (Alagoas) e que estariam esperando o momento do ataque, j que continuavam

    realizando furtos. Pediu orientaes ao governo provincial sobre as providncias a serem

    tomadas em relao aos europeus e ndios existentes na vila. 44

    A relao deste capito-mor com os ndios de Cimbres crucial para compreender o

    comportamento poltico dos ltimos. Aps a devassa empreendida em 1824, o capito-mor,

    Manoel Jos de Serqueira tentou realizar um recrutamento forado na aldeia do Ararob de

    cerca de 300 ndios, no intuito de corresponder a um pedido do tenente coronel Manoel

    Ignacio Bezerra de Mello, de auxlio para o Exrcito. Serqueira enviou uma solicitao ao

  • CLIO REVISTA DE PESQUISA HISTRICA n 33.2 ISSN 0102-94

    60

    capito-mor dos ndios, repassando o pedido de 300 ndios. O capito-mor dos ndios, por sua

    vez, respondeu informando que no dava a sua gente por respeito de um, no haviam de ir

    tantas almas para os reinos dos infernos.45

    A negativa audaciosa do capito-mor dos ndios, sobre o qual no temos mais

    informaes, no foi retrucada imediatamente, mas quase um ms depois quando Serqueira

    soube que os ndios haviam iado o estandarte de Joo sexto. Por j esperar essa reao,

    Serqueira pediu auxlio tropas de companhias vizinhas, que fizeram patrulhas nas estradas

    at chegar na vila de Cimbres e enfrentar os ndios. De sua tropa, segundo ele, no houve

    muitas baixas. J do lado dos ndios, muitos morreram, embora no se saiba seu nmero

    exato, porque vrios foram morrer nos matos. Estima, no entanto, cerca de 20 mortos.

    Informa que prendeu 60 indgenas, em sua maioria casados, e outros 25 foram recrutados,

    sendo estes solteiros. Entre presos e recrutados, totalizou 85 ndios.46

    Outros 32 ndios se

    renderam e chegaram ao quartel de Serqueira, que os teria prendido se tivesse oportunidade

    pois ladres e revolucionrios todos so. Alm destes, dois capites dos ndios tambm

    foram presos. 47

    Mais personagens estavam envolvidos na escolha poltica dos ndios e no episdio da

    tentativa de recrutamento forado, complexificando a atuao dos indgenas de Cimbres. Foi

    relatado pelo capito-mor da vila de Flores, Joaquim Nunes, que os ndios de Cimbres se

    reuniam com portugueses, levando-o a supor que planejavam nesses encontros a trama dos

    ndios. As reunies ocorriam naquela vila e em localidades prximas.48 De acordo com

    Joaquim Nunes, esses marinheiros ainda tentavam escravizar nossa ptria e a todos os

    bons cidados mesmo diante dos esforos do governo da provncia em garantir a liberdade. 49

    Um grupo de portugueses figurou, ento, como aliado dos indgenas do Ararob em

    defesa de D. Joo VI, conferindo mais fora e articulao local ao levante, pois envolveu no

    indgenas habitantes da vila de Flores e localidades prximas, ainda que apenas os ndios

    tenham sentido a fora da violenta represso do capito-mor de Cimbres.

    Colocando em perspectiva os fatos relatados nas fontes, podemos perceber que a

    devassa realizada por Domingos de Souza Leo, juiz ordinrio de Cimbres, para apurar a

    culpa dos ndios sobre assassinatos e roubos foi sucedida pela descoberta das reunies feitas

    entre ndios e portugueses na vila de Flores e em locais prximos. Na devassa surgiram

    denncias sobre o apoio explcito dos ndios a d. Joo VI, a sua oposio independncia do

    Brasil, constituio e eleio paroquial para nomear os deputados para as Cortes de Lisboa

    ocorrida anos antes. A aliana com portugueses denunciada pelo capito-mor de Flores ajuda

  • CLIO REVISTA DE PESQUISA HISTRICA n 33.2 ISSN 0102-94

    61

    a montar o quadro de oposio dos indgenas de Cimbres ao novo regime poltico implantado

    no Brasil, s novas instituies e ao representante poltico mximo.

    possvel que nessas reunies com os portugueses, os indgenas estivessem

    organizando um tipo de levante, a julgar pela sua prpria movimentao na aldeia e na vila.

    Nesse sentido, a tentativa violenta de recrutamento empreendida por Manoel Jos de

    Serqueira e o consequente enfrentamento com os ndios, resultando em mortes, fugas e

    prises, podem ser compreendidos como aes repressivas em relao ao posicionamento

    poltico dos indgenas. Esvaziar a aldeia e recrutar atravs de prises levaria a uma

    desmobilizao na aldeia de grande parte de sua populao masculina. A ao de Serqueira

    teve, ento dois objetivos: angariar braos para suas tropas e esvaziar a aldeia.

    Diante do exposto, acreditamos ser esse o episdio sobre o qual Pereira da Costa e

    Nelson Barbalho tratam como massacre. Apesar de as fontes da poca no relatarem, da

    mesma forma que Barbalho e Pereira da Costa, a violncia exercida pelo representante em

    Cimbres do governo rebelado da provncia, os fatos relacionados ao episdio e o nmero de

    ndios presos e recrutados nos leva a concluir que Manoel Jos de Serqueira foi o responsvel

    pela represso ao levante dos indgenas. Por outro lado, a resistncia de cerca de 300

    indgenas ao recrutamento forado indica uma relao conflituosa entre Serqueira e os ndios

    de Cimbres, provavelmente marcada pela experincia de 1817.

    Cabe agora o questionamento sobre as motivaes e expectativas indgenas na

    configurao de seus apoios e suas rivalidades polticas em 1824. O posicionamento poltico

    indgena foi construdo inserido num quadro complexo de disputas locais pelas terras do

    aldeamento e por cargos polticos, que ganharam novos significados com o contexto

    institucional e poltico delineado entre os anos de 1820 e 1822 e com a ecloso da

    Confederao do Equador em 1824.

    Disputas em Cimbres e na serra do Ararob: indgenas e autoridades locais

    Durante as dcadas de 1810 e 1820, os indgenas de Cimbres vivenciavam relaes

    tensas com as autoridades locais, principalmente o capito-mor da vila e seus genros, bem

    como com a cmara da vila. Os primeiros viam na aldeia a possibilidade concreta de recrutar

    homens para fazer parte de suas tropas, principalmente quando havia solicitaes de ajuda por

    parte de outras autoridades de vilas prximas. Alm disso, o recrutamento forado era visto

    como um importante meio de controle social sobre populaes que se constituam enquanto

    ameaa para a populao no indgena.50

    J a cmara de Cimbres interferiu diretamente na

    administrao da aldeia, ao impor um capito-mor, e, em seguida, propor a sua extino.

  • CLIO REVISTA DE PESQUISA HISTRICA n 33.2 ISSN 0102-94

    62

    Diante desse quadro de intervenes na aldeia e de prestao de servios forados, os

    indgenas elaboraram alianas e inimizades com no ndios da vila, situao a partir da qual

    estabeleciam seus posicionamentos polticos.

    A vila de Cimbres e o aldeamento do Ararob passavam por graves conflitos entre

    dois polticos inimigos, Francisco Xavier Pais de Melo Barreto e Manoel Jos de Serqueira,

    em decorrncia da disputa pelo cargo de capito-mor das Ordenanas de Cimbres. O

    provimento de tal cargo implicava em influncia e poder de mando numa das principais reas

    do interior de Pernambuco. E tudo isso envolvia diretamente os indgenas que ali viviam.

    O cargo de capito-mor de Cimbres foi ocupado at 1821 pelo sogro de Melo Barreto

    e Serqueira, o portugus Antnio Santos Coelho da Silva, que era um dos homens mais ricos

    de Pernambuco. Santos Coelho era dono da Fazenda Jenipapo, a mais opulenta do Ararob, e

    quando da sua morte seus bens foram avaliados em 250 contos de ris. A maior produo das

    suas terras era de algodo, criando apenas o gado necessrio para alimentar os moradores de

    suas propriedades, que constavam em 10 fazendas, onde trabalhavam 516 escravos.51

    Exercer a funo de capito-mor das Ordenanas de Cimbres tambm implicava em

    ter que lidar com os indgenas da vila, como ocorreu com Santos Coelho que enfrentou

    ameaas de levantes e resistncia aos recrutamentos entre os anos de 1818 e 1821.52

    Ao que tudo indica, as relaes entre ndios de Cimbres e autoridades locais era

    marcada por violncia. Aps a experincia de recrutamento vivenciada pelos indgenas em

    1817, sob o mando de Manoel Jos de Serqueira, eles demonstraram no mais estar dispostos

    a contribuir com as tropas das Ordenanas da vila. Por outro lado, os conflitos por terra se

    intensificavam, pois o aldeamento j apresentava vrios moradores no indgenas em seu

    interior, principalmente porque tinha se transformado em vila desde 1762 de acordo com a

    legislao pombalina53

    , o que restringia ainda mais a rea de ocupao indgena.

    No ano de 1822 os antagonismos entre ndios de Cimbres e autoridades locais se

    intensificaram frente discordncia dos primeiros em relao s aes adotadas pela Cmara

    Municipal no que se referia ao aldeamento. Nesse ano, os ndios de Cimbres, representados

    por seus capites, alferes, outros oficiais e soldados, enviaram uma petio Junta do

    Governo de Pernambuco solicitando a restituio de seu antigo capito-mor, Alexandre

    Pereira da Costa, ao cargo, pois no reconheciam o seu substituto, Francisco Alves Feitosa.

    Em sua argumentao, afirmaram que tal posto competia verdadeiramente a Costa, embora

    este tenha pedido demisso. Costa havia se demitido do cargo alegando que j estava em

    idade avanada.54

  • CLIO REVISTA DE PESQUISA HISTRICA n 33.2 ISSN 0102-94

    63

    Na perspectiva dos ndios que fizeram a petio, a Feitosa faltava idoneidade e o

    conhecimento da lngua para saber ler e escrever e assim guardar os segredos necessrios da

    Junta Governativa. Alm disso, ele no era verdadeiramente ndio. Segundo os indgenas,

    para assumir tal cargo era necessrio observar o que determinava o Diretrio, ainda em vigor

    na provncia, sendo o indivduo encarregado do cargo um homem instrudo, amante da

    nao, que s tenha em vista o bem geral de todos os cidados e tambm sendo obediente s

    cortes. Relembram que, de acordo com o Diretrio, era preciso que o Ouvidor da Comarca

    chamasse todos os ndios sua presena para eleger o capito-mor pela maioria de vozes,

    sendo assim um indivduo escolhido diretamente pelos indgenas. A petio foi assinada por

    quatro capites e outro indgena sem patente militar.55

    Ao defender um indivduo para o cargo de capito-mor, os indgenas suplicantes

    demonstraram seu interesse em interferir diretamente na maneira pela qual eram

    administrados, requerendo para isso uma pessoa que fosse verdadeiramente ndio e que, por

    isso, deveria compreender as suas necessidades. Ao contrrio do que algumas autoridades

    alegaram em 1824, descrevendo os ndios de Cimbres como simples fanticos realistas

    absolutos, da petio pode-se perceber que as escolhas polticas indgenas eram muito mais

    complexas do que possvel supor a partir de uma classificao pouco explicativa como a

    usada na documentao da poca.

    Eles utilizaram conceitos como os de nao e cidado, e tambm defenderam

    obedincia s cortes, em referncia s Cortes de Lisboa. Alm disso, defenderam a Junta

    Governativa de Gervsio Pires, j que o capito-mor dos ndios de Cimbres deveria saber ler e

    escrever para guardar os segredos dela. Faziam, portanto, referncia a um contexto poltico no

    qual estavam sendo discutidos projetos sobre a constituio do Reino Unido de Portugal,

    Brasil e Algarve. Em Portugal, desde a Revoluo Liberal do Porto (1820) e da reunio das

    Cortes de Lisboa (1821), o debate poltico se concentrou no retorno da sua posio de

    destaque no quadro do Reino transatlntico, no retorno de d. Joo VI antiga metrpole e na

    preparao de uma constituio a qual o monarca deveria jurar. Em Pernambuco, aps a

    experincia da violenta represso de 1817 e do retorno de alguns de seus lderes com a anistia

    de 1821, o contato com Lisboa se mostrou mais intenso por meio das disposies das cortes,

    inclusive a de criar juntas governativas. Alm disso, a necessidade de alcanar maior

    autonomia poltica para a provncia parecia ser algo possvel, principalmente durante o

    governo da Junta de Gervsio Pires. Apesar do clima de autonomia regional impulsionado

    pelo primeiro liberalismo portugus, em Pernambuco no havia a pretenso de independncia

  • CLIO REVISTA DE PESQUISA HISTRICA n 33.2 ISSN 0102-94

    64

    poltica da provncia ou do Brasil. At ento, toda a negociao era feita com Lisboa, em

    detrimento do Rio de Janeiro e do governo do prncipe regente d. Pedro I.56

    Portanto, em 1822 os indgenas de Cimbres que escreveram a petio estavam fazendo

    referncia a esse contexto poltico de conexo entre as diferentes partes do Reino Unido. Ao

    defender esse vnculo, tratando das cortes e da junta em seu documento, provvel que o

    objetivo tenha sido manter o direito de interferncia na administrao da aldeia, tal como

    vinham fazendo at o momento. Eles estavam, assim, interpretando as questes polticas em

    debate a partir do seu prprio ponto de vista e de seus interesses. Os indgenas estavam

    defendendo o regime poltico no qual acreditavam que poderiam manter o acesso sobre o

    territrio da aldeia e o poder de interferncia sobre a sua administrao. Jogavam, portanto,

    com as questes polticas do momento para alcanar seus objetivos.

    Apesar do esforo e mobilizao dos indgenas de Cimbres em torno da petio com

    argumentos sobre o provimento do cargo de capito-mor e, consequentemente, sobre a

    administrao do aldeamento, a cmara da vila elegeu Francisco Alves Feitosa para a funo,

    indivduo indesejado pelos ndios.57

    No satisfeitos com a eleio, alguns ndios junto com o

    seu antigo capito-mor, Alexandre Pereira da Costa, dirigiram-se ao Ouvidor da Comarca

    para queixar-se de que no reconheceriam nem obedeceriam Feitosa. Depois de classific-lo

    como misturado ndio ou mameluco, o Ouvidor ponderou que Feitosa, embora no fosse

    idneo ou bom para o posto que lhe foi conferido, no deixava de ser mais digno ou melhor

    do que seu antecessor. No entanto, para garantir o sossego e a cultura dos ndios, sugeriu que

    fosse feita uma eleio para o cargo, sendo escolhido um oficial de primeira linha de aes

    discretas, mas de suficiente fora que se encarregaria dos ndios de acordo com a Diretoria,

    referindo-se ao Diretrio do ndios. Dessa maneira, o ouvidor entendia que o capito-mor

    poderia punir os indgenas quando merecessem, e tambm os compelir ao trabalho e servio

    agrrio e totalmente remov-los da habitual inrcia e ociosidade em que esto; origem, por

    certo, imediata de sua geral dissoluo e dominante embriaguez.58

    De acordo com as fontes sobre o provimento do cargo de capito-mor dos ndios de

    Cimbres, podemos ver que havia expectativas diversas em relao ao indivduo que deveria

    ocup-lo e s suas aes. Para os ndios, ele deveria tambm compartilhar da identidade

    indgena, sendo necessrio que o fosse verdadeiramente, de acordo com seus prprios

    critrios. provvel que a condio tnica gerasse um sentimento de coletividade que

    ajudaria o capito-mor a entender e defender os interesses de seus subordinados. Ao mesmo

    tempo em que era fundamental que se mostrasse obediente e amante da ordem poltica e dos

    seus representantes, como as cortes, a junta governativa e a nao. Para as autoridades no

  • CLIO REVISTA DE PESQUISA HISTRICA n 33.2 ISSN 0102-94

    65

    indgenas locais, no entanto, o capito-mor deveria representar a garantia de tranquilidade e

    subordinao dos indgenas, sendo necessariamente um homem de armas e que impelisse os

    seus comandados ao trabalho e a sair da indolncia.

    Durante essa disputa sobre quem deveria assumir o cargo de capito-mor, a aldeia de

    Cimbres passou por um forte golpe. No mesmo ano de 1822 a Cmara Municipal tentou

    extinguir o aldeamento e reverter ao seu patrimnio parte das terras dos ndios. O juiz

    presidente da cmara era Francisco Xavier Pais de Melo Barreto,59

    que esteve ao lado dos

    rebeldes de 1817, ou seja, apoiou a Insurreio Pernambucana, e por isso estava alinhado s

    noes liberais discutidas na provncia e na Corte. Isso teria feito os ndios de Cimbres se

    aliarem ao maior inimigo poltico de Melo Barreto, Manuel Jos de Serqueira, que como seu

    sogro, era defensor da monarquia lusa.60

    Os indgenas passaram a ser apelidados de

    corcundas, ou partidrios da monarquia portuguesa tal como era o seu novo aliado.61 A

    proposta da Cmara no obteve sucesso, tendo em vista que a extino do aldeamento de

    Cimbres apenas tenha se concretizado na dcada de 1870, num mesmo movimento que

    suprimiu as demais aldeias da provncia de Pernambuco.62

    No foram encontrados elementos

    que ajudem a inferir as causas que levaram ao adiamento da proposta de extino feita em

    1822. No obstante, no momento, cabe assinalar que essa perspectiva acirrou as disputas e

    tenses entre ndios e autoridades locais, contribuindo para as escolhas polticas dos

    primeiros.

    Inseridos no contexto de disputa entre dois grandes inimigos polticos da regio, os

    indgenas se posicionaram de acordo com seus interesses e limites de atuao poltica. Melo

    Barreto se identificava com a Independncia do Brasil e com a oposio monarquia lusa,

    sendo um dos responsveis pela proposta de extino do aldeamento de Cimbres em 1822. Os

    indgenas, ento, passaram a apoiar o seu opositor, Serqueira, mostrando-se favorveis s

    cortes de Lisboa e Junta governativa liderada por Gervsio Pires. Cabe lembrar que a

    aliana com Serqueira foi desfeita em 1824, quando ele mudou seu posicionamento poltico,

    passou a dar apoio ao governo rebelde em Pernambuco, e tentou recrutar os indgenas de

    maneira forada. A aliana entre ndios e Serqueira um indcio das relaes de dependncia

    mtua entres estes agentes histricos que, no entanto, variaram e se transformaram de acordo

    com as mudanas polticas de cada situao.

    No contexto da Confederao, os indgenas da aldeia de Cimbres estavam imersos em

    relaes de violncia, de recrutamento forado e de tentativas de invaso de suas terras, tendo

    a Cmara da vila papel central nesse movimento de esbulho. Articular reunies e alianas

    com portugueses, realizar levantes e defender d. Joo VI podem ter sido assumidas como

  • CLIO REVISTA DE PESQUISA HISTRICA n 33.2 ISSN 0102-94

    66

    estratgias pelos indgenas para fazer frente a essa situao local de conflitos e disputas

    polticas.

    Assim, entendemos que ao acompanhar as dinmicas locais de formao de alianas e

    rivalidades entre indgenas e autoridades locais, torna-se possvel compreender as escolhas

    indgenas dentro dos seus limites de ao, bem como lanar um olhar crtico sobre categorias

    construdas sobre esses ndios pelas fontes da poca. Eles possuam um posicionamento

    poltico muito mais complexo do que poderia sugerir o ttulo de fanticos realistas

    absolutos em 1824, ou a sua caracterizao como uma populao notria pelo fanatismo

    monrquico63. Tais classificaes alm de naturalizar as aes dos indgenas, nega-lhes seu

    potencial de participao e interferncia no mbito pblico como agentes histricos ativos.

    Podemos afirmar, ento, que os conflitos polticos eram ressignificados pelos indgenas a

    partir do seu interesse em interferir na administrao do aldeamento e em enfrentar as

    tentativas de recrutamento forado.

    Levando em considerao as diferentes estratgias indgenas no intuito de dar

    continuidade aos seus direitos sobre as terras coletivas, o espao do aldeamento ganha

    centralidade nas vivncias indgenas, pois garantia certo grau de autonomia aos seus

    habitantes para manter seus costumes e fazer frente s aes dos potentados locais. Alm da

    relativa autonomia, manter as terras coletivas poderia significar alguma proteo para os

    indgenas em relao aos trabalhos agrcolas em fazendas vizinhas e ao servio militar atravs

    de recrutamentos forados. possvel que os indgenas tenham desenvolvido estratgias para

    se esquivar desses trabalhos e servios, tendo em vista que foram descritos, na maioria das

    fontes, como vagabundos, ladres de gado, desconfiados, nocivos a eles prprios e ao

    pblico, indolentes, de moral repreensvel64

    e violentos.

    Numa sociedade como a da provncia de Pernambuco, ter a posse de terras coletivas

    conferia aos ndios um lugar especfico dentro da hierarquia social baseada em redes de

    relacionamentos entre proprietrios de terras e trabalhadores despossudos. A definio de

    Richard Graham sobre o clientelismo elucidativa sobre as relaes entre potentados locais e

    sua clientela. No meio rural, membros das elites ofereciam proteo e terras para cultivo e

    subsistncia de pessoas pobres, que passavam a ser identificadas como agregados ou

    moradores das grandes propriedades. Em troca, estes indivduos, alm do trabalho, deviam

    obedincia e outros tipos de obrigao aos proprietrios das terras, como servio militar nos

    momentos de conflito, apoio poltico e garantia de voto durante as eleies.65

    As relaes

    entre moradores e/ou agregados e os proprietrios era mediada pela terra, da qual emanava o

    poder das elites locais.

  • CLIO REVISTA DE PESQUISA HISTRICA n 33.2 ISSN 0102-94

    67

    A perspectiva de Graham vem sendo criticada devido sua generalizao, fazendo do

    clientelismo o elemento central e definidor da poltica brasileira no sculo XIX, ampliando

    em demasia o poder e interferncia dos senhores de terras. De acordo com Jos Murilo de

    Carvalho, seria lgico para Graham afirmar que o Estado constitua-se enquanto clientela dos

    grandes proprietrios.66

    Apoiado nas crticas feitas por Jos Murilo de Carvalho e em estudos

    recentes sobre famlia, relaes de parentesco e alianas, Ivan de Andrade Vellasco

    complexifica o conceito de clientelismo ao ressaltar as margens para o estabelecimento de

    trocas entre agentes histricos em posies desiguais, gerando reciprocidade e

    interdependncias.67

    Levando em conta a caracterizao de Graham sobre o clientelismo em meio rural,

    cujas relaes eram centradas no acesso terra, e na compreenso de um quadro mais

    complexo desses relacionamentos, nos quais existiam espaos para trocas entre desiguais,

    reafirmamos que a posse coletiva do territrio dos aldeamentos conferia uma posio

    diferenciada aos indgenas na sociedade brasileira oitocentista. Nessa sociedade, ter a posse

    de terras coletivas poderia conferir aos indgenas uma menor dependncia s redes de

    clientelismo locais, significando um tipo de proteo s ingerncias dos grandes fazendeiros

    vizinhos. Dentro das aldeias poderiam prover sua prpria subsistncia, manter a vida em

    comunidade e resistir de maneira coletiva aos recrutamentos forados negando-se a sair de

    seus territrios, como ocorreu em Cimbres em 1824. Por isso, concordo com Maria Regina

    Celestino de Almeida ao defender que numa ordem social rigidamente hierrquica e

    escravocrata, como eram a do Rio de Janeiro e a de Pernambuco oitocentistas, o direito sobre

    as terras dos aldeamentos deveria ser realmente atraente, constituindo-se ainda num espao de

    proteo.68

    No entanto, tal proteo no deve ser entendida unicamente como uma resistncia

    indgena a uma ordem estabelecida, uma vez que esses sujeitos histricos estavam inseridos

    nas redes de interdependncia de maneira desigual em relao aos grandes proprietrios de

    terras. Um elemento central na intermediao dessas relaes era o Diretor de ndios. Ainda

    que nos anos de 1824 e 1825 a funo de Diretor j estivesse oficialmente extinta no Brasil,69

    em Cimbres ela continuava existindo, tendo em vista que havia um Diretor do aldeamento que

    era Manoel Jos de Serqueira. A mo de obra indgena, bem como o uso e aproveitamento de

    suas terras coletivas eram de responsabilidade administrativa do Diretor de ndios, que muitas

    vezes estava completamente inserido nos jogos polticos locais, tirando proveito prprio e

    para seus aliados do trabalho dos ndios e sendo complacente ou participando dos esbulhos de

    seus territrios. A discusso sobre o uso da mo de obra indgena em fazendas e engenhos na

  • CLIO REVISTA DE PESQUISA HISTRICA n 33.2 ISSN 0102-94

    68

    dcada de 1820 se intensificava, tendo em vista que era considerada como a substituta natural

    do trabalho escravo em Pernambuco, intensificando ainda mais as disputas locais.70

    Eram, portanto, constitudas relaes complexas entre ndios e no ndios,

    estabelecendo laos de dependncia e tambm de conflitos que conferiam a tnica do

    cotidiano nos aldeamentos, nas fazendas vizinhas e nas vilas. Embora os aldeamentos tenham

    conferido certo grau de proteo e os indgenas os tenham defendido at finais do sculo XIX,

    estes mesmos agentes histricos realizavam alianas com proprietrios locais, que podiam

    mudar diante das disputas polticas e de acordo com suas prprias motivaes, fazendo-os

    construir e desconstruir laos de dependncia mtua.

    Concluses

    A Confederao do Equador foi um momento-chave no processo de formao do

    Estado brasileiro no Oitocentos, no qual estavam em debate e em conflito projetos polticos

    divergentes relacionados centralizao do poder na Corte no Rio de Janeiro e maior

    autonomia poltica para as provncias. Diante do exposto nas sees anteriores, percebemos

    que acompanhar as dinmicas sociais locais, bem como as relaes de aliana ou inimizade

    entre ndios e no ndios vivenciadas nos aldeamentos e nas vilas, contribuiu para

    desconstruir imagens naturalizadas sobre as escolhas polticas dos indgenas envolvidos nos

    conflitos. Alm disso, tornou-se possvel compreender as motivaes e expectativas dos

    indgenas ao se envolver numa revolta iniciada pelas elites, que nos casos aqui analisados

    estavam relacionadas defesa dos territrios coletivos e administrao desses espaos da

    forma que melhor conviesse aos interesses dos ndios. Assim, articulando as questes mais

    amplas sobre os debates polticos em torno da ecloso da Confederao aos aspectos mais

    localizados referentes s dinmicas vivenciadas nas aldeias, percebemos como os indgenas se

    envolveram nos conflitos, posicionaram-se politicamente, participando ativamente na

    constituio do Estado nacional no sculo XIX.

    1 Doutora em Histria pela Universidade Federal Fluminense.

    2 REVEL, Jacques. Jogos de escala: a experincia da microanlise.. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 1998, pp.

    15-38. 3 ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses indgenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do

    Rio de Janeiro. 2 Ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2013, pp. 114-115. 4 OLIVEIRA, Joo Pacheco de. Uma etnologia dos ndios misturados? Situao colonial, territorializao e

    fluxos culturais. In: A Viagem da Volta: Etnicidade, Poltica e Reelaborao Cultural no Nordeste Indgena. 2a. ed. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2004, pp. 24-29.

  • CLIO REVISTA DE PESQUISA HISTRICA n 33.2 ISSN 0102-94

    69

    5 IRUROZQUI, Marta. Presentacin. In: Revista de Indias. Dossier: Violencia poltica en Amrica Latina,

    siglo XIX. Madrid. Vol. LXIX, n 246. 2009, p. 11. 6 BERNARDES, Denis. O patriotismo constitucional: Pernambuco, 1820-1822. So Paulo: Hucitec: Fapesp;

    Recife, PE: UFPE, 2006, p. 318. 7 Idem.

    8 BERNARDES, Denis. Pernambuco e o Imprio (1822-1824): sem constituio soberana no h unio. In:

    JANCS, Istvan (org.). Brasil: formao do Estado e da Nao. So Paulo: Hucitec; Ed. Uniju, Fapesp. 2003,

    p. 240. 9 LEITE, Glacyra Lazzari. Pernambuco 1824: a Confederao do Equador. Recife: Fundaj, Editora Massangana.

    1989, p. 90. 10

    Idem, pp. 95-97. 11

    Idem, pp. 95-100. 12

    MELLO, Evaldo Cabral de. A outra independncia: o outro federalismo pernambucano de 1817 a 1824. So

    Paulo: Ed. 34, 2004, p. 221. 13

    Idem, p. 233. 14

    LEITE, Glacyra Lazzari. Op. Cit. 1989, pp. 122-123. 15

    AN. Srie Guerra. IG1247. 21/08/1824. Ofcio do tenente engenheiro, Conrado Jacob de Niemeyer. s/fl.

    16 AN. Publicaes do Arquivo Nacional. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas do Arquivo Nacional, 1924. Vol.

    22. Voto de frei Joaquim do Amor Divino Caneca a favor da invaso de Alagoas. p. 104. Sem data. 17

    AN. Publicaes do Arquivo Nacional. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas do Arquivo Nacional, 1924. Vol.

    22. p. 357. 28/09/1824. 18

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    subsdios para a Histria da poesia popular em Pernambuco. Recife: CEPE, 2004, pp. 108-109. 19

    LEITE, Glacyra Lazzari. Op. Cit. 1989, pp. 123-127. 20

    AN. Publicaes do Arquivo Nacional. Vol. 22. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas do Arquivo Nacional,

    1924, pp. 344-351; 357. 28/09/1824. 21

    AN. Publicaes do Arquivo Nacional. Vol. 22. Voto de frei Joaquim do Amor Divino Caneca a favor da

    invaso de Alagoas, p.104. Sem data. 22

    De acordo com o Grande Dicionrio Portuguez, publicado em 1874, o termo seduzir significa enganar, persuadir ou enganar com arte e astcia, conduzir a obrar mal com insinuaes, p . 437. VIEIRA, Dr. Fr. Domingos. Grande diccionario portuguez ou thesouro da linga portuguesa. Porto: Editores E. Charron e

    Bartholomeu H. de Moraes. 5 volume, 1874.

    https://archive.org/stream/grandediccionari05vieiuoft#page/2/mode/2up. Visitado em 4 set 2014. 23

    ALMEIDA, Maria Regina Celestino de Almeida. Op. Cit. 2013, pp. 45-78. 24

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    83. 25

    RAMINELLI, Ronald. Nobreza indgena os chefes potiguares, 1633-1695. In: OLIVEIRA, Joo Pacheco de. (org.). Op. Cit., 2011., pp. 57-65. VIEIRA, Geysa Kelly. Op. Cit., pp. 69-77. 26

    Carta do governador de Pernambuco, Caetano de Mello e Castro, ao rei. 18 de fevereiro de 1694. Apud:

    LINDOSO, Dirceu. A utopia armada: rebelies de pobres nas matas do Tombo Real. Rio de Janeiro: Paz e

    Terra, 1983, p. 183. 27

    Idem, pp. 106-108. 28

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    COSTA, F. A. Pereira da. Op. Cit. Vol. 8, p. 44. 30

    Apeje. ACG 1. 12/09/1821. Ata 13a. do Conselho do Governo fl.24.

    31 AN. Publicaes do Arquivo Nacional. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas do Arquivo Nacional, 1924. Vol.

    22. Voto de frei Joaquim do Amor Divino Caneca a favor da invaso de Alagoas, p.104. Sem data. 32

    CARVALHO, Marcus. Op. Cit., p. 61. 33

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    Apeje. JO2. 12/03/1824. Carta de Domingos de Souza Leo, juiz ordinrio da vila de Cimbres, para o

    presidente da provncia, Manoel de Carvalho Paes de Andrade. Fl.98-99.

  • CLIO REVISTA DE PESQUISA HISTRICA n 33.2 ISSN 0102-94

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    Apeje. JO 2. Devassa sobre a culpa dos ndios da vila de Cimbres (contra Vicente Cabeludo e outros.) Devassa

    iniciada 9 de janeiro de 1824 e finalizada em 19 de maro de 1824. Fl.100-109. 39

    Apeje. JO 2. Devassa sobre a culpa dos ndios da vila de Cimbres (contra Vicente Cabeludo e outros.) Devassa

    iniciada 9 de janeiro de 1824 e finalizada em 19 de maro de 1824. Fl.100-109. 40

    Apeje. JO2. 12/03/1824. Carta de Domingos de Souza Leo, juiz ordinrio da vila de Cimbres, para o

    presidente da provncia, Manoel de Carvalho Paes de Andrade. Fl.98-99 41

    Apeje. Ord 3. 05/04/1824. Ofcio do capito mor dos ndios de Cimbres, Manoel Jos Leite Barbosa fl.322-

    322v. 42

    Apeje. JO2. 12/03/1824. Carta de Domingos de Souza Leo, juiz ordinrio da vila de Cimbres, para o

    presidente da provncia, Manoel de Carvalho Paes de Andrade. Fl.98-99. 43

    Idem. 44

    Apeje. Ord. 3. 28/04/1824. Ofcio do capito mor de Cimbres, Manoel Jos de Serqueira, para o presidente da

    provncia, Manoel de Carvalho Paes de Andrade. fl.332-332v. CARVALHO, Marcus J. M. de. Op. Cit. 1996, p.

    60 45

    Apeje. Ord.3. 27/06/1824. Ofcio do capito mor e diretor de Cimbres, Manoel Jos de Serqueira, ao

    presidente da provncia, Manoel de Carvalho Paes de Andrade. fl.364-365v. 46

    Idem. 47

    Apeje. Ord.3. 27/06/1824. Ofcio do capito mor e diretor de Cimbres, Manoel Jos de Serqueira, ao presidente

    da provncia, Manoel de Carvalho Paes de Andrade. fl.364-365v. 48

    Apeje. Ord. 3. 6/06/1824. Ofcio do capito mor da vila de Flores, Joaquim Nunes de [?], para o presidente do

    governo, Manoel de Carvalho Paes de Andrade. fl.362-363. 49

    Idem. 50

    SILVA, Edson. Xukuru: memrias e histria dos ndios da Serra Ororub (Pesqueira/PE), 1950-1988. Tese

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    BARBALHO, Nelson. Op. Cit. vol.12, pp.195-196. 52

    Apeje. Ord.1. 31/10/1818. Ofcio do sargento-mor, Manoel Jos de Serqueira, ao capito-mor, Antnio dos

    Santos Coelho da Silva. Fl.328. Apeje. Ord.2. 16/04/1819. Ofcio do capito mor de Cimbres, Antnio dos

    Santos Coelho da Silva, ao governador e capito general Luis do Rego Barreto.fl.40-40v. BARBALHO, Nelson.

    Op. Cit. vol.12, p.101. Apeje. Ord.2 fl. 75. 02/07/1819. Ofcio do capito-mor de Cimbres, Antnio dos Santos

    Coelho da Silva, que informa da priso dos ndios rebeldes de Cimbres por ordem do general, Luiz do Rego.

    Apeje. Ord.2. 19/07/1819. Ofcio do capito-mor de Cimbres, Antnio dos Santos Coelho da Silva, ao

    governador, Lus do Rego Barreto. Fl.77. 53

    Apeje. Relao dos novos estabelecimentos das vilas e lugares dos ndios do Governo de Pernambuco da parte do Sul, executados por Manoel de Gouvea Alvares, cavaleiro professo na Ordem de Cristo, Ouvidor Geral

    da Comarca das Alagoas in Correspondncia de Lus Diogo Lobo da Silva a Francisco Xavier de Mendona Furtado. 23 de novembro de 1763. 54

    Apeje. CM 3. 14/03/1822. Ofcio da Cmara da vila de Cimbres ao Governo da Junta Provisria de

    Pernambuco. Fl.317. 55

    Apeje. CM3. 28/04/1822. Petio de oficiais e soldados indgenas Junta do Governo de Pernambuco sobre o

    provimento do cargo de capito-mor dos ndios de Cimbres. Fl.326-328. 56

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    Apeje. CM 3. 25/06/1822. Ofcio da Cmara Municipal de Cimbres ao Governo da Junta Provisria de

    Pernambuco. Fl.323. 58

    Apeje. OC 2. 19/08/1822. Ofcio de Thoms Antonio Maciel Monteiro para a junta provisria do governo da

    provncia de Pernambuco. Fl.210-211. 59

    COSTA, F.A. Pereira da. Op. Cit. Vol. 6, p. 241. 60

    Idem, pp. 87-89. 61

    BARBALHO, Nelson. Op. Cit. vol.13, p. 99. 62

    SILVA, Edson. Op. Cit., p. 21. 63

    MELLO, Evaldo Cabral de. Op. Cit., p. 63. 64

    Apeje. OC2. 11/09/1822. Ofcio do ouvidor da comarca, Thoms Antonio Maciel Monteiro, para os

    presidentes e membros da Junta Provisria do Governo da provncia de Pernambuco. Fl.249-249v.

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