Os Arquivos Perdidos - Os Legados do Número Nove

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LORE, Pittacus.

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<ul><li><p>Copyright 2012 by Pittacus LoreTodos os direitos reservados.</p><p>TTULO ORIGINALThe Lost Files: Nines Legacy</p><p>CAPAJulio Moreira</p><p>REVISOUmberto Figueiredo</p><p>GERAO DE EPUBIntrnseca</p><p>E-ISBN978-85-8057-234-6</p><p>Edio digital: 2012</p><p>Todos os direitos desta edio reservados </p><p>EDITORA INTRNSECA LTDA.Rua Marqus de So Vicente, 99, 3 andar22451-041 GveaRio de Janeiro RJTel./Fax: (21) 3206-7400www.intrinseca.com.br</p></li><li><p>C A P T U L OC A P T U L OU MU M</p><p>H regras para quem quer car escondido em lugares visveis. A nmero 1, ou queSandor repete com mais frequncia, : No seja burro.</p><p>Estou prestes a quebrar essa regra tirando a cala.A primavera minha estao preferida em Chicago. O inverno gelado e venta</p><p>muito, o vero quente e barulhento, a primavera perfeita. A manh de hoje estensolarada, mas ainda persiste no ar um frio proibitivo, lembrana do inverno. Oar traz borrifos gelados do Lago Michigan, pinicando meu rosto e deixando midoo cho sob meus tnis.</p><p>Todas as manhs, corro os trinta quilmetros da trilha que margeia o lago,fazendo intervalos sempre que posso, no por precisar disso, mas para admirar agua meio cinzenta, meio azulada do Lago Michigan. Mesmo quando est frio,sempre penso em mergulhar e nadar at o outro lado.</p><p>Luto contra esse impulso da mesma forma que resisto vontade de acompanharo ritmo dos ciclistas que passam por mim com suas roupas de lycra cor de neon.Tenho que ir devagar. H mais de dois milhes de pessoas nesta cidade e sou maisrpido que todas elas.</p><p>Mesmo assim, preciso correr.s vezes fao o percurso duas vezes para suar de verdade. Essa outra das</p><p>regras de Sandor para se esconder em lugares visveis: sempre parecer mais fracodo que realmente sou. Nunca dar o meu mximo.</p><p> bobagem reclamar. Estamos em Chicago h cinco anos graas s regras deSandor. Cinco anos de paz e tranquilidade. Cinco anos desde que os mogadorianosencontraram nossa pista pela ltima vez.</p><p>Cinco anos de um tdio cada vez maior.Assim, quando uma vibrao de repente sacode o iPod preso em meu brao,</p><p>sinto um n no estmago. O aparelho no deve dar sinal a menos que haja algumproblema por perto.</p><p>Levo apenas um momento para decidir como agir. Sei que arriscado. Sei quevou contrariar tudo o que me disseram para fazer. Mas tambm sei que vale a pena</p></li><li><p>correr o risco; sei que, s vezes, preciso ignorar o treinamento. Corro para alateral da pista, ngindo que estou com cibras. Quando termino de me alongar,tiro a cala de corrida que tenho usado para me exercitar todos os dias desde quenos mudamos para Chicago e a eno na mochila. Por baixo da cala estou com umshort de corrida vermelho e branco, como o uniforme do St. Louis Cardinals aquiem Chicago, as cores do inimigo.</p><p>Mas usar as cores dos Cards em territrio dos Cubs nem chega a ser umapreocupao, se comparada s trs cicatrizes que tenho no tornozelo. Rivalidadesdo beisebol e vinganas interplanetrias so coisas que no d para comparar.</p><p>As meias curtas e os tnis de corrida no escondem as cicatrizes. Qualquer umque se aproxime de mim pode v-las, embora eu duvide que meus colegas de pistatenham o hbito de examinar os tornozelos dos outros. S quem vai perceber aquele corredor cuja ateno estou tentando atrair.</p><p>Quando volto ao exerccio, meu corao est batendo mais depressa que decostume. Excitao. H muito tempo no sinto nada parecido. Estoudesrespeitando uma regra de Sandor, e isso emocionante. S espero que ele noesteja me observando pelas cmeras de segurana da polcia, que conseguiuhackear. Isso no seria nada bom.</p><p>Meu iPod vibra de novo. Na verdade, no um iPod. No toca msica nenhumae os fones de ouvido so s uma encenao. Sandor montou o aparelho em seulaboratrio.</p><p> meu detector de mogadorianos. Eu o chamo de iMog.O iMog tem suas limitaes. Capta padres genticos mogadorianos nas</p><p>imediaes, mas s abrange alguns poucos quarteires e pode haver interferncias. alimentado por material gentico mogadoriano, que se decompe rapidamente;ento, no surpresa que o iMog seja meio instvel. Como Sandor explicou, oaparelho nos foi dado por um humano, amigo dos lorienos, logo que chegamos deLorien. Sandor passou um bom tempo tentando adapt-lo. A ideia era inserir oaparelho em uma carcaa de iPod para no chamar ateno. No existe nenhumalista de reproduo ou capa de lbum na tela do iMog s um solitrio pontobranco no fundo preto. Que sou eu. Eu sou o ponto branco. A ltima vez quesintonizamos o iMog foi depois do ataque mais recente, quando recolhemos cinzasmogadorianas de nossas roupas para que Sandor tentasse sintetiz-las, estabiliz-las ou fazer alguma outra coisa cientca qual nunca presto muita ateno. Nossa</p></li><li><p>regra que, se o iMog dispara, ns nos mudamos. Ele no emitia nenhum sinal htanto tempo, que eu j comeava a me preocupar com a possibilidade de ter paradode funcionar.</p><p>Foi ento que, h alguns dias, o iMog disparou enquanto eu corria. Um solitrioponto vermelho se movia pela margem do lago. Naquele dia voltei para casacorrendo, mas no contei a Sandor o que tinha acontecido. Na melhor dashipteses, no haveria mais corridas no lago. Na pior, amos encaixotar nossascoisas. E eu no queria que nada disso acontecesse. Acho que foi a primeira vezque desrespeitei a regra de no ser burro. Quando comecei a esconder coisas demeu Cpan. O aparelho agora vibrava e apitava por causa do ponto vermelho quese movia alguns metros atrs de mim. Vibrava e apitava no ritmo do meu coraodisparado.</p><p>Um mogadoriano.Arrisquei olhar para trs e no tive diculdade para identicar qual dos</p><p>corredores era ele. Alto, cabelo preto bem curto, quase raspado, usando ummoletom dos Bears, daqueles comprados em bazar de caridade, e culos escurosgrandes. Passaria por humano se no fosse to plido, o rosto totalmentedesprovido de cor mesmo exposto ao frio.</p><p>Aperto o passo, mas no me dou o trabalho de tentar fugir. Por que facilitar ascoisas para ele? Quero ver se esse mog consegue me acompanhar.</p><p>Quando me afasto do lago e tomo o caminho para casa, percebo que posso tersido um pouco arrogante. Ele bom melhor do que eu esperava. Mas eu souainda melhor. De qualquer maneira, enquanto vou aumentando a velocidade, sintoo corao disparar por causa do esforo, e, at onde lembro, a primeira vez queisso acontece comigo.</p><p>Ele est me alcanando, e minha respirao ca ofegante. Estou bem, porenquanto, mas no vou conseguir manter o ritmo para sempre. Dou outra olhada noiMog. Felizmente, meu perseguidor no chamou os amigos. Continuo vendo apenasum ponto vermelho. Somos s ns.</p><p>Ignoro os barulhos da cidade nossa volta casais bem-sucedidos a caminhode um brunch, famlias felizes de turistas fazendo piadas sobre o vento e meconcentro no mogadoriano, usando minha audio naturalmente apurada paraouvir sua respirao. Ele tambm est cando ofegante, sua respirao estirregular. Mas os passos ainda acompanham os meus. Procuro identicar qualquer</p></li><li><p>rudo que indique que ele esteja tentando se comunicar, j preparado para corrermuito mais, caso ele d o alerta.</p><p>Mas isso no acontece. Sinto seu olhar xo em minhas costas. Ele acha queainda no notei sua presena.</p><p>Arrogante, exausto e burro. Ele tudo que eu esperava.O John Hancock Center se ergue sobre ns. O sol brilha com mais intensidade</p><p>reetido nas milhares de janelas do arranha-cu. Uma centena de andares e, notopo, minha casa.</p><p>O mogadoriano hesita quando entro pela porta principal do prdio, depois mesegue. Ele me alcana quando estou atravessando o saguo. Mesmo esperando porisso, co tenso quando sinto o cano frio de uma pequena arma mogadoriana entreminhas omoplatas.</p><p>Continue andando, ele murmura.Sei que no poder me ferir enquanto eu estiver protegido pelo amuleto lrico,</p><p>mas obedeo. Deixo ele pensar que est no controle.Sorrio e aceno para os seguranas na mesa da recepo. Com o mogadoriano</p><p>atrs de mim, entramos no elevador.Enfim ss.O mogadoriano mantm a arma apontada para mim enquanto aperto o boto do</p><p>centsimo andar. Estou mais nervoso do que previa. Nunca quei sozinho com ummogadoriano. Lembro a mim mesmo que tudo est acontecendo conforme planejei.Quando o elevador comea a subir, adoto a atitude mais casual que consigo.</p><p> Fez uma boa corrida?O mogadoriano agarra meu pescoo e me empurra contra a parede do elevador.</p><p>Preparo-me para sentir o ar faltando em meu corpo, mas, em vez disso, souinundado por uma sensao de calor que desce por minhas costas, e omogadoriano que cambaleia e d um passo para trs, sem flego.</p><p>O amuleto lrico est funcionando. Sempre me surpreendo com sua eficincia. Ento, voc no o Nmero Quatro ele diz. Voc rpido. Qual seu nmero? Eu at poderia dizer. Encolho os ombros. No sei que diferena faria. Mas</p><p>vou deixar voc deduzir.Ele me olha de cima a baixo, tentando me intimidar. No sei como o restante</p></li><li><p>da Garde, mas eu no me assusto com tanta facilidade. Tiro o iMog do brao e ocoloco no cho, com cuidado. Se o mogadoriano acha isso estranho, no deixatransparecer. Gostaria de saber qual a recompensa pela captura de um membro daGarde.</p><p> Posso no saber qual o seu nmero, mas sei que tudo o que voc podeesperar uma vida inteira em cativeiro enquanto matamos o restante dos seusamigos. No se preocupe ele acrescenta , no vai demorar.</p><p> Boa histria respondo olhando para o painel do elevador; estamos quase notopo.</p><p>Sonhei com esse momento noite passada. Na verdade, no foi bem isso. Noconsegui dormir, agitado demais com o que estava por vir. Eu fantasiei sobre essemomento.</p><p>Certifico-me de saborear cada uma das minhas palavras. O negcio o seguinte digo. Voc no vai sair daqui vivo.</p></li><li><p>C A P T U L OC A P T U L OD O I SD O I S</p><p>Antes que o mogadoriano possa reagir, aperto uma srie de botes no painel doelevador. uma sequncia de nmeros que ningum na torre jamais teria razopara usar, uma sequncia programada por Sandor para iniciar as medidas desegurana que ele instalou no elevador.</p><p>A cabine treme. A armadilha ativada.Meu iMog se ergue do cho, utua e se xa com um estalo na parede do fundo.</p><p>Mais rpido que um piscar de olhos, o mogadoriano tambm se lana para o fundo,uma fora atraindo a arma que ele tem na mo e qualquer outro objeto metlico deseus bolsos. Ouo o rudo de algo sendo triturado quando a mo dele caesmagada entre a arma e a parede. Ele grita.</p><p>O mogadoriano achava mesmo que no protegeramos nossa casa?O poderoso m instalado no elevador apenas um dos itens de segurana que</p><p>meu Cpan plantou secretamente no John Hancock Center. Eu nunca havia visto om funcionar com a nalidade para a qual fora planejado, mas, denitivamente,j tinha me divertido bastante com ele. Passara horas com a porta do elevadoraberta, o m acionado, tentando atrair moedas de dentro do apartamento e faz-lasgrudar nas paredes da cabine. Como j comentei, as coisas estavam bem tediosasultimamente.</p><p>Era uma brincadeira divertida, at os inquilinos dos andares de baixocomearem a reclamar.</p><p>O mog tenta mover os dedos que agora certamente esto quebrados e tir-losde baixo da arma, mas intil. Ele tenta me chutar, mas rio e me esquivo. Isso omelhor que ele pode fazer?</p><p> O que isso? grita o mogadoriano.Antes que eu possa responder, as portas do elevador se abrem e l est Sandor.Nunca entendi o gosto do meu Cpan por ternos italianos caros. No tem como</p><p>serem confortveis. Mas l est ele, ao meio-dia de um domingo, jimpecavelmente vestido. A barba feita. Os cabelos perfeitamente penteados paratrs.</p></li><li><p> como se Sandor estivesse esperando visitas. Fico me perguntando se ele noesteve observando minha corrida pelo lago, e pensar nisso faz meu estmagorevirar.</p><p>Vou ficar muito encrencado.Sandor est acoplando um silenciador no cano de uma reluzente 9mm. Ele olha</p><p>para mim, sua expresso inescrutvel, depois encara o Mog. Est sozinho?O mog tenta se livrar do m mais uma vez. Est eu digo.Sandor olha para mim por um instante, depois repete a pergunta. Espera mesmo que eu responda? rosna o mogadoriano.Posso ver que Sandor est furioso. Mas a resposta do mog provoca um brilho</p><p>bem-humorado nos olhos do meu Cpan. Ele mexe a boca, como se tentasse conterum sorriso. J assisti a vrios lmes de sua to querida coleo do James Bond, esei que o mogadoriano acaba de dar a deixa para uma fala perfeita:</p><p> No diz Sandor. Espero que voc morra.Sandor ergue a arma antes de me olhar novamente. Voc trouxe ele aqui diz. Voc o mata.Engulo em seco. Eu planejei tudo aquilo. No pensava em outra coisa desde</p><p>quando aquele ponto vermelho apareceu no meu iMog havia dois dias. Mesmoassim, nunca matei ningum antes. No sinto pena do desgraado. No isso. Mas algo importante. Tirar uma vida, ainda que seja a de um mogadoriano. Isso vaime transformar de algum modo?</p><p>Tanto faz. Pego a arma de Sandor, mas ele a toma de volta. Assim no diz ele, e larga a arma.Eu no a deixo cair. Minha telecinesia se desenvolveu no ms anterior, e temos</p><p>praticado desde ento.Respiro fundo, concentrando-me, preparando-me. Fao a arma levitar at a</p><p>altura da cabea do mog. Ele sorri com desdm. Voc no tem cora...Com a fora da mente, aperto o gatilho.A arma faz um rudo surdo. A bala atinge o mogadoriano entre os olhos.</p><p>Segundos depois, ele um monte de cinzas no piso do elevador.Sandor pega a arma no ar. Noto que ele est me estudando, mas no consigo</p></li><li><p>desviar os olhos dos restos do mogadoriano. Limpe essa sujeira diz Sandor. Depois, precisamos conversar.</p></li><li><p>C A P T U L OC A P T U L OT R ST R S</p><p>Limpo o que sobrou do mogadoriano o mais depressa possvel, porque no queroter que explicar segurana do edifcio o que estava prendendo o elevador. Guardoum pouco das cinzas para Sandor, em um saco para congelados. Ele pode usar emum de seus experimentos.</p><p>Por alguma razo, minhas mos no param de tremer.Imagino que seja porque estou correndo, que o tremor v parar quando eu</p><p>terminar de limpar o elevador, mas isso no acontece. Na verdade, s ca pior.Saio do elevador, caminho trmulo at a sala de estar e, l, me jogo no sof brancode camura.</p><p>Sim, matei o mog. Sim, foi mais fcil do que eu imaginava. Mas o que senti foidiferente do que eu esperava. Algo poderia ter dado errado.</p><p>No consigo afastar a sensao de ter os dedos do mogadoriano em meupescoo. Mesmo sabendo que ele no podia me machucar, a sensao continua.Conforme a adrenalina vai passando, s consigo pensar em como foi estpidoatrair o mogadoriano. Queria um pouco de ao. Tentei ser discreto como osespies daqueles lmes do James Bond. Acho que consegui parecer duro, mas omog jamais vai poder contar isso a ningum.</p><p>Eu olho para o lustre dourado no meio do teto da sala e minha cabea gira.Coloquei todo aquele lugar em risco. Tudo o que conseguimos construir nos anosque passamos em segurana, o nosso lar. Mais importante: o prprio Sandor. Noestou com disposio para comemorar. Estou com nsia de vmito.</p><p>Agora mesmo, Sandor poderia estar fazendo nossas malas. E ns poderamosestar voltando para a estrada.</p><p>Antes de Chicago, s o que fazamos era viajar. Sempre moramos em hotis emotis. Sandor nunca quis criar razes. Ele no muito bom com os afazeresdomsticos no cozinha nem faz faxina , e nossas necessidades eram supridaspor arrumadeiras carrancudas e pelo servio de quarto. Passamos dois meses noRitz-Carlton de Aspen. Aprendi a esquiar. Sandor passava o tempo seduzindo asbeldades da neve, perto da lareira. Ficamos uma poca n...</p></li></ul>