Os Arquivos Perdidos - Os Legados do Nmero Nove

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LORE, Pittacus.

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  • Copyright 2012 by Pittacus LoreTodos os direitos reservados.

    TTULO ORIGINALThe Lost Files: Nines Legacy

    CAPAJulio Moreira

    REVISOUmberto Figueiredo

    GERAO DE EPUBIntrnseca

    E-ISBN978-85-8057-234-6

    Edio digital: 2012

    Todos os direitos desta edio reservados

    EDITORA INTRNSECA LTDA.Rua Marqus de So Vicente, 99, 3 andar22451-041 GveaRio de Janeiro RJTel./Fax: (21) 3206-7400www.intrinseca.com.br

  • C A P T U L OC A P T U L OU MU M

    H regras para quem quer car escondido em lugares visveis. A nmero 1, ou queSandor repete com mais frequncia, : No seja burro.

    Estou prestes a quebrar essa regra tirando a cala.A primavera minha estao preferida em Chicago. O inverno gelado e venta

    muito, o vero quente e barulhento, a primavera perfeita. A manh de hoje estensolarada, mas ainda persiste no ar um frio proibitivo, lembrana do inverno. Oar traz borrifos gelados do Lago Michigan, pinicando meu rosto e deixando midoo cho sob meus tnis.

    Todas as manhs, corro os trinta quilmetros da trilha que margeia o lago,fazendo intervalos sempre que posso, no por precisar disso, mas para admirar agua meio cinzenta, meio azulada do Lago Michigan. Mesmo quando est frio,sempre penso em mergulhar e nadar at o outro lado.

    Luto contra esse impulso da mesma forma que resisto vontade de acompanharo ritmo dos ciclistas que passam por mim com suas roupas de lycra cor de neon.Tenho que ir devagar. H mais de dois milhes de pessoas nesta cidade e sou maisrpido que todas elas.

    Mesmo assim, preciso correr.s vezes fao o percurso duas vezes para suar de verdade. Essa outra das

    regras de Sandor para se esconder em lugares visveis: sempre parecer mais fracodo que realmente sou. Nunca dar o meu mximo.

    bobagem reclamar. Estamos em Chicago h cinco anos graas s regras deSandor. Cinco anos de paz e tranquilidade. Cinco anos desde que os mogadorianosencontraram nossa pista pela ltima vez.

    Cinco anos de um tdio cada vez maior.Assim, quando uma vibrao de repente sacode o iPod preso em meu brao,

    sinto um n no estmago. O aparelho no deve dar sinal a menos que haja algumproblema por perto.

    Levo apenas um momento para decidir como agir. Sei que arriscado. Sei quevou contrariar tudo o que me disseram para fazer. Mas tambm sei que vale a pena

  • correr o risco; sei que, s vezes, preciso ignorar o treinamento. Corro para alateral da pista, ngindo que estou com cibras. Quando termino de me alongar,tiro a cala de corrida que tenho usado para me exercitar todos os dias desde quenos mudamos para Chicago e a eno na mochila. Por baixo da cala estou com umshort de corrida vermelho e branco, como o uniforme do St. Louis Cardinals aquiem Chicago, as cores do inimigo.

    Mas usar as cores dos Cards em territrio dos Cubs nem chega a ser umapreocupao, se comparada s trs cicatrizes que tenho no tornozelo. Rivalidadesdo beisebol e vinganas interplanetrias so coisas que no d para comparar.

    As meias curtas e os tnis de corrida no escondem as cicatrizes. Qualquer umque se aproxime de mim pode v-las, embora eu duvide que meus colegas de pistatenham o hbito de examinar os tornozelos dos outros. S quem vai perceber aquele corredor cuja ateno estou tentando atrair.

    Quando volto ao exerccio, meu corao est batendo mais depressa que decostume. Excitao. H muito tempo no sinto nada parecido. Estoudesrespeitando uma regra de Sandor, e isso emocionante. S espero que ele noesteja me observando pelas cmeras de segurana da polcia, que conseguiuhackear. Isso no seria nada bom.

    Meu iPod vibra de novo. Na verdade, no um iPod. No toca msica nenhumae os fones de ouvido so s uma encenao. Sandor montou o aparelho em seulaboratrio.

    meu detector de mogadorianos. Eu o chamo de iMog.O iMog tem suas limitaes. Capta padres genticos mogadorianos nas

    imediaes, mas s abrange alguns poucos quarteires e pode haver interferncias. alimentado por material gentico mogadoriano, que se decompe rapidamente;ento, no surpresa que o iMog seja meio instvel. Como Sandor explicou, oaparelho nos foi dado por um humano, amigo dos lorienos, logo que chegamos deLorien. Sandor passou um bom tempo tentando adapt-lo. A ideia era inserir oaparelho em uma carcaa de iPod para no chamar ateno. No existe nenhumalista de reproduo ou capa de lbum na tela do iMog s um solitrio pontobranco no fundo preto. Que sou eu. Eu sou o ponto branco. A ltima vez quesintonizamos o iMog foi depois do ataque mais recente, quando recolhemos cinzasmogadorianas de nossas roupas para que Sandor tentasse sintetiz-las, estabiliz-las ou fazer alguma outra coisa cientca qual nunca presto muita ateno. Nossa

  • regra que, se o iMog dispara, ns nos mudamos. Ele no emitia nenhum sinal htanto tempo, que eu j comeava a me preocupar com a possibilidade de ter paradode funcionar.

    Foi ento que, h alguns dias, o iMog disparou enquanto eu corria. Um solitrioponto vermelho se movia pela margem do lago. Naquele dia voltei para casacorrendo, mas no contei a Sandor o que tinha acontecido. Na melhor dashipteses, no haveria mais corridas no lago. Na pior, amos encaixotar nossascoisas. E eu no queria que nada disso acontecesse. Acho que foi a primeira vezque desrespeitei a regra de no ser burro. Quando comecei a esconder coisas demeu Cpan. O aparelho agora vibrava e apitava por causa do ponto vermelho quese movia alguns metros atrs de mim. Vibrava e apitava no ritmo do meu coraodisparado.

    Um mogadoriano.Arrisquei olhar para trs e no tive diculdade para identicar qual dos

    corredores era ele. Alto, cabelo preto bem curto, quase raspado, usando ummoletom dos Bears, daqueles comprados em bazar de caridade, e culos escurosgrandes. Passaria por humano se no fosse to plido, o rosto totalmentedesprovido de cor mesmo exposto ao frio.

    Aperto o passo, mas no me dou o trabalho de tentar fugir. Por que facilitar ascoisas para ele? Quero ver se esse mog consegue me acompanhar.

    Quando me afasto do lago e tomo o caminho para casa, percebo que posso tersido um pouco arrogante. Ele bom melhor do que eu esperava. Mas eu souainda melhor. De qualquer maneira, enquanto vou aumentando a velocidade, sintoo corao disparar por causa do esforo, e, at onde lembro, a primeira vez queisso acontece comigo.

    Ele est me alcanando, e minha respirao ca ofegante. Estou bem, porenquanto, mas no vou conseguir manter o ritmo para sempre. Dou outra olhada noiMog. Felizmente, meu perseguidor no chamou os amigos. Continuo vendo apenasum ponto vermelho. Somos s ns.

    Ignoro os barulhos da cidade nossa volta casais bem-sucedidos a caminhode um brunch, famlias felizes de turistas fazendo piadas sobre o vento e meconcentro no mogadoriano, usando minha audio naturalmente apurada paraouvir sua respirao. Ele tambm est cando ofegante, sua respirao estirregular. Mas os passos ainda acompanham os meus. Procuro identicar qualquer

  • rudo que indique que ele esteja tentando se comunicar, j preparado para corrermuito mais, caso ele d o alerta.

    Mas isso no acontece. Sinto seu olhar xo em minhas costas. Ele acha queainda no notei sua presena.

    Arrogante, exausto e burro. Ele tudo que eu esperava.O John Hancock Center se ergue sobre ns. O sol brilha com mais intensidade

    reetido nas milhares de janelas do arranha-cu. Uma centena de andares e, notopo, minha casa.

    O mogadoriano hesita quando entro pela porta principal do prdio, depois mesegue. Ele me alcana quando estou atravessando o saguo. Mesmo esperando porisso, co tenso quando sinto o cano frio de uma pequena arma mogadoriana entreminhas omoplatas.

    Continue andando, ele murmura.Sei que no poder me ferir enquanto eu estiver protegido pelo amuleto lrico,

    mas obedeo. Deixo ele pensar que est no controle.Sorrio e aceno para os seguranas na mesa da recepo. Com o mogadoriano

    atrs de mim, entramos no elevador.Enfim ss.O mogadoriano mantm a arma apontada para mim enquanto aperto o boto do

    centsimo andar. Estou mais nervoso do que previa. Nunca quei sozinho com ummogadoriano. Lembro a mim mesmo que tudo est acontecendo conforme planejei.Quando o elevador comea a subir, adoto a atitude mais casual que consigo.

    Fez uma boa corrida?O mogadoriano agarra meu pescoo e me empurra contra a parede do elevador.

    Preparo-me para sentir o ar faltando em meu corpo, mas, em vez disso, souinundado por uma sensao de calor que desce por minhas costas, e omogadoriano que cambaleia e d um passo para trs, sem flego.

    O amuleto lrico est funcionando. Sempre me surpreendo com sua eficincia. Ento, voc no o Nmero Quatro ele diz. Voc rpido. Qual seu nmero? Eu at poderia dizer. Encolho os ombros. No sei que diferena faria. Mas

    vou deixar voc deduzir.Ele me olha de cima a baixo, tentando me intimidar. No sei como o restante

  • da Garde, mas eu no me assusto com tanta facilidade. Tiro o iMog do brao e ocoloco no cho, com cuidado. Se o mogadoriano acha isso estranho, no deixatransparecer. Gostaria de saber qual a recompensa pela captura de um membro daGarde.

    Posso no saber qual o seu nmero, mas sei que tudo o que voc podeesperar uma vida inteira em cativeiro enquanto matamos o restante dos seusamigos. No se preocupe ele acrescenta , no vai demorar.

    Boa histria respondo olhando para o painel do elevador; estamos quase notopo.

    Sonhei com esse momento noite passada. Na verdade, no foi bem isso. Noconsegui dormir, agitado demais com o que estava por vir. Eu fantasiei sobre essemomento.

    Certifico-me de saborear cada uma das minhas palavras. O negcio o seguinte digo. Voc no vai sair daqui vivo.

  • C A P T U L OC A P T U L OD O I SD O I S

    Antes que o mogadoriano possa reagir, aperto uma srie de botes no painel doelevador. uma sequncia de nmeros que ningum na torre jamais teria razopara usar, uma sequncia programada por Sandor para iniciar as medidas desegurana que ele instalou no elevador.

    A cabine treme. A armadilha ativada.Meu iMog se ergue do cho, utua e se xa com um estalo na parede do fundo.

    Mais rpido que um piscar de olhos, o mogadoriano tambm se lana para o fundo,uma fora atraindo a arma que ele tem na mo e qualquer outro objeto metlico deseus bolsos. Ouo o rudo de algo sendo triturado quando a mo dele caesmagada entre a arma e a parede. Ele grita.

    O mogadoriano achava mesmo que no protegeramos nossa casa?O poderoso m instalado no elevador apenas um dos itens de segurana que

    meu Cpan plantou secretamente no John Hancock Center. Eu nunca havia visto om funcionar com a nalidade para a qual fora planejado, mas, denitivamente,j tinha me divertido bastante com ele. Passara horas com a porta do elevadoraberta, o m acionado, tentando atrair moedas de dentro do apartamento e faz-lasgrudar nas paredes da cabine. Como j comentei, as coisas estavam bem tediosasultimamente.

    Era uma brincadeira divertida, at os inquilinos dos andares de baixocomearem a reclamar.

    O mog tenta mover os dedos que agora certamente esto quebrados e tir-losde baixo da arma, mas intil. Ele tenta me chutar, mas rio e me esquivo. Isso omelhor que ele pode fazer?

    O que isso? grita o mogadoriano.Antes que eu possa responder, as portas do elevador se abrem e l est Sandor.Nunca entendi o gosto do meu Cpan por ternos italianos caros. No tem como

    serem confortveis. Mas l est ele, ao meio-dia de um domingo, jimpecavelmente vestido. A barba feita. Os cabelos perfeitamente penteados paratrs.

  • como se Sandor estivesse esperando visitas. Fico me perguntando se ele noesteve observando minha corrida pelo lago, e pensar nisso faz meu estmagorevirar.

    Vou ficar muito encrencado.Sandor est acoplando um silenciador no cano de uma reluzente 9mm. Ele olha

    para mim, sua expresso inescrutvel, depois encara o Mog. Est sozinho?O mog tenta se livrar do m mais uma vez. Est eu digo.Sandor olha para mim por um instante, depois repete a pergunta. Espera mesmo que eu responda? rosna o mogadoriano.Posso ver que Sandor est furioso. Mas a resposta do mog provoca um brilho

    bem-humorado nos olhos do meu Cpan. Ele mexe a boca, como se tentasse conterum sorriso. J assisti a vrios lmes de sua to querida coleo do James Bond, esei que o mogadoriano acaba de dar a deixa para uma fala perfeita:

    No diz Sandor. Espero que voc morra.Sandor ergue a arma antes de me olhar novamente. Voc trouxe ele aqui diz. Voc o mata.Engulo em seco. Eu planejei tudo aquilo. No pensava em outra coisa desde

    quando aquele ponto vermelho apareceu no meu iMog havia dois dias. Mesmoassim, nunca matei ningum antes. No sinto pena do desgraado. No isso. Mas algo importante. Tirar uma vida, ainda que seja a de um mogadoriano. Isso vaime transformar de algum modo?

    Tanto faz. Pego a arma de Sandor, mas ele a toma de volta. Assim no diz ele, e larga a arma.Eu no a deixo cair. Minha telecinesia se desenvolveu no ms anterior, e temos

    praticado desde ento.Respiro fundo, concentrando-me, preparando-me. Fao a arma levitar at a

    altura da cabea do mog. Ele sorri com desdm. Voc no tem cora...Com a fora da mente, aperto o gatilho.A arma faz um rudo surdo. A bala atinge o mogadoriano entre os olhos.

    Segundos depois, ele um monte de cinzas no piso do elevador.Sandor pega a arma no ar. Noto que ele est me estudando, mas no consigo

  • desviar os olhos dos restos do mogadoriano. Limpe essa sujeira diz Sandor. Depois, precisamos conversar.

  • C A P T U L OC A P T U L OT R ST R S

    Limpo o que sobrou do mogadoriano o mais depressa possvel, porque no queroter que explicar segurana do edifcio o que estava prendendo o elevador. Guardoum pouco das cinzas para Sandor, em um saco para congelados. Ele pode usar emum de seus experimentos.

    Por alguma razo, minhas mos no param de tremer.Imagino que seja porque estou correndo, que o tremor v parar quando eu

    terminar de limpar o elevador, mas isso no acontece. Na verdade, s ca pior.Saio do elevador, caminho trmulo at a sala de estar e, l, me jogo no sof brancode camura.

    Sim, matei o mog. Sim, foi mais fcil do que eu imaginava. Mas o que senti foidiferente do que eu esperava. Algo poderia ter dado errado.

    No consigo afastar a sensao de ter os dedos do mogadoriano em meupescoo. Mesmo sabendo que ele no podia me machucar, a sensao continua.Conforme a adrenalina vai passando, s consigo pensar em como foi estpidoatrair o mogadoriano. Queria um pouco de ao. Tentei ser discreto como osespies daqueles lmes do James Bond. Acho que consegui parecer duro, mas omog jamais vai poder contar isso a ningum.

    Eu olho para o lustre dourado no meio do teto da sala e minha cabea gira.Coloquei todo aquele lugar em risco. Tudo o que conseguimos construir nos anosque passamos em segurana, o nosso lar. Mais importante: o prprio Sandor. Noestou com disposio para comemorar. Estou com nsia de vmito.

    Agora mesmo, Sandor poderia estar fazendo nossas malas. E ns poderamosestar voltando para a estrada.

    Antes de Chicago, s o que fazamos era viajar. Sempre moramos em hotis emotis. Sandor nunca quis criar razes. Ele no muito bom com os afazeresdomsticos no cozinha nem faz faxina , e nossas necessidades eram supridaspor arrumadeiras carrancudas e pelo servio de quarto. Passamos dois meses noRitz-Carlton de Aspen. Aprendi a esquiar. Sandor passava o tempo seduzindo asbeldades da neve, perto da lareira. Ficamos uma poca na Amrica do Sul,

  • comendo os melhores bifes do mundo. A histria que contvamos era sempre amesma, que mantivemos aqui em Chicago: Sandor um investidor que teve sorteno mercado nanceiro e agora vive confortavelmente, e eu sou o sobrinho de quemele cuida.

    Gostei de Aspen. Era bom poder car ao ar livre sem me preocupar com o fatode ter um monte de pessoas ao meu redor e algumas delas poderem ser aliengenashostis.

    Depois de Aspen fomos para um motel barato nos arredores de Denver. Aprendia julgar o quanto Sandor achava que estvamos seguros pelo luxo de nossasacomodaes. Tnhamos dinheiro para viver em qualquer lugar, graas s pedraspreciosas que os nove Cpans haviam trazido de Lorien, e bons hotis signicavamque Sandor acreditava que estvamos seguros o bastante para melhorar um pouco opadro de vida; ratoeiras infestadas de insetos indicavam que, naquele momento,era mais importante no chamar a ateno. Para ser bem franco, eu gostava daquelelugar. Foi ali que Sandor inventou a cama vibratria, com potncia suciente parame jogar quase no teto.

    Ns nos mudvamos sempre que os funcionrios de um hotel passavam a nosconhecer bem demais. Quando nos tornvamos presena fixa, era hora de partir.

    Mas isso nunca funcionou. Os mogs sempre nos encontravam.A ltima parada antes de Chicago foi um hotel de caminhoneiros em

    Vancouver. Ainda no sei como escapamos daquela vez. Foi terrvel. Cincomogadorianos nos surpreenderam. Sandor havia criado armas para nos manterseguros bombas de luz para cegar os mogs e um helicptero de controle remotoequipado com uma arma letal e, mesmo assim, quase fomos derrotados. Sandorfoi ferido por uma adaga durante a luta e quase no teve foras para dirigir atWhite Rock, ao sul. L, passei uma semana sentado ao lado da cama dele, vendo-orecobrar a conscincia e em seguida perd-la novamente, ardendo com uma febreto alta que, se os lenis no estivessem encharcados de suor, acho que elepoderia t-los incendiado.

    Quando Sandor se recuperou, decidiu que no fugiramos mais. Vamos tentar algo diferente ele me disse. Temos dinheiro. Vamos us-lo

    direito.Eu no sabia o que ele queria dizer com aquilo. Vamos nos esconder vista de todos.

  • E ns usamos o dinheiro. A cobertura de dois andares que Sandor comprou noJohn Hancock Center poderia estar em um daqueles reality shows comcelebridades e suas casas luxuosas.

    Como se ter um aqurio de peixes no alto da cama king size fosse ajud-lasquando a invaso mogadoriana acontecer. No h nada errado com aqurios ebanheiras, mas nada disso tem utilidade sem armamento.

    Sei que Sandor ama Chicago e eu tambm gosto muito da cidade. Mas, svezes, sinto saudades daquele tempo na estrada. s vezes como se devssemosestar fazendo mais do que simplesmente treinar. Meia dzia de tevs de tela plana,um chef particular, o equipamento de ginstica; tudo isso me fez amolecer.

    Mas agora, vendo os raios de sol reetidos nos ngulos do lustre, percebo queno quero sair daqui. Apressei as coisas. Sim, quero assumir meu lugar com osoutros Gardes. Quero matar cada mogadoriano que puder encontrar. Porm, pormais inquieto que estivesse ultimamente, eu deveria tentar desfrutar ao mximominha casa enquanto ainda a tenho. Em algum momento a vida vai se resumir luta. Eu estou preparado?

    Respiro fundo e me recomponho. O pnico que sentia desapareceu, substitudopela sensao de medo. Caminho pelo corredor em direo ocina de Sandor,onde a realidade me espera.

  • C A P T U L OC A P T U L O Q U A T R O Q U A T R O

    Quando entro no cmodo, Sandor est diante da leira de monitores que ca atrsde sua mesa. Imagens de vrias cmeras espalhadas pela cidade podem ser vistasali, cenas capturadas naquela manh congeladas no tempo. No me surpreendedescobrir que estou em todas as telas, o mogadoriano do lago visvel atrs de mim.Sandor aperta algumas teclas e deleta os arquivos de vdeo, apagando minhaimagem do banco de dados de Chicago. Quando sair do sistema, no restarnenhuma evidncia do que fiz pela manh.

    Sandor se vira e olha para mim. Queria entender por que fez isso, parceiro. Realmente queria.Meu Cpan est me analisando; entre ns, vrias placas de circuito e peas de

    computadores esto espalhadas sobre a mesa. O amontoado de projetos porterminar ou abandonados deixa livre apenas um corredor estreito que vai da porta mesa; autmatos pela metade, armas complexas retiradas do nosso arsenal,motores de carro desmontados e dzias de outras coisas que no consigoidenticar. Sandor adora aqueles brinquedos, e acho que por isso que ele seidentica tanto com o Batman. s vezes, at me chama de menino prodgio,imitando o Bruce Wayne. Nunca entendi muito bem os quadrinhos so irreaisdemais , mas sei que quando Sandor fala assim est querendo fazer uma piadinha.

    Agora, porm, no estamos brincando. Aquele Sandor tentando agir comseriedade. Percebo isso pelo jeito como ele passa a mo pela barba e procura aspalavras. Ele odeia a barba, mas ela serve para esconder a cicatriz que osmogadorianos lhe deixaram em Vancouver.

    O fato de eu entender o que voc fez no torna tudo menos estpido eirresponsvel ele continua.

    Isso signica que temos que nos mudar? pergunto, querendo ir direto aoponto.

    Pela expresso dele, noto que Sandor nem pensou nisso. Est assustado, masnos mudarmos no passou por sua cabea.

    E abandonar tudo isso? Ele mostra as pilhas de equipamentos em

  • montagem. No. Trabalhamos muito para deixar este lugar como est, e novamos abandonar tudo ao menor sinal de problema. E o mogadoriano estavasozinho. No acredito que tenhamos sido desmascarados. Ainda no. Mas voc temque prometer que no vai mais trazer visitas para casa.

    Prometo respondo, fazendo um gesto de escoteiro que vi em algumprograma de televiso.

    Sandor ri. Isso me fez pensar ele diz j se levantando. Talvez voc esteja preparado

    para passar ao prximo nvel de treinamento.Contenho um gemido. s vezes sinto que tudo o que fao treinar,

    provavelmente porque s fao isso mesmo. Antes de desenvolver a telecinesiameus dias eram interminveis sequncias de exerccios de fora e aerbicos,interrompidos pelo que Sandor chama de prtica acadmica. Nada de Histriaou Literatura, s mais instrues que um dia vou poder usar em campo. Quantosgarotos sabem como tratar de um osso quebrado ou quais produtos de limpezapodem ser usados para improvisar uma exploso?

    Qualquer reclamao que eu poderia fazer nessa hora ca de lado quandoSandor afasta um monte de tralha e vai at minha Arca Lrica. Ele raramente aabre, e eu s o vi usar poucos itens que estavam nela. Espero pelo dia em que voudescobrir e aprender a usar tudo o que tem ali. Talvez devesse ter atrado ummogadoriano at nosso esconderijo antes.

    Est falando srio? pergunto, ainda esperando algum tipo de punio.Ele faz que sim com a cabea. Seus Legados esto se desenvolvendo. Chegou a hora.Abrimos a tranca da Arca juntos. Corro para perto de Sandor e tento pr as

    mos l dentro. Tantos brinquedinhos novos... Vejo uma bola verde com espinhose um cristal oblongo que emite um brilho fraco mas Sandor me empurra para olado com o cotovelo.

    S quando voc estiver preparado avisa ele, gesticulando para os mistriosbrilhantes que esperam por mim dentro da Arca.

    Sandor me entrega um cano prateado de aparncia comum, provavelmente oobjeto mais sem graa que est ali, e ento fecha a Arca, antes que eu possa vermais alguma coisa.

    Logo seus outros Legados tero se desenvolvido. Isso vai signicar que os

  • outros membros da Garde, pelo menos os que tiverem sobrevivido, tambm estarodesenvolvendo os deles.

    Tento no pensar no ataque de pnico que tive depois de matar o mogadoriano.Sandor est me olhando determinado, com um brilho nos olhos. Ele no estbrincando.

    Isso tudo pode ser divertido agora, mas no ser s um jogo para sempre. Seruma guerra. uma guerra. Se quer que eu trate voc como adulto, tem queentender isso.

    Eu entendo digo. E verdade. Acho que . Giro o cano entre as mos. Oque isto faz?

    Antes da resposta, a coisa se estende e se transforma em um cajado. Sandorrecua um passo quando, sem querer, derrubo no cho a carcaa vazia de umcomputador.

    Serve para bater em coisas diz Sandor, olhando preocupado para seusfrgeis equipamentos. Mogadorianos, de preferncia.

    Giro o cajado no alto da cabea. Por alguma razo, o gesto parece ser natural,como se a arma fosse uma extenso de mim mesmo.

    Incrvel... Tambm acho que hora de voc comear a ir escola.Agora meu queixo cai. Em todos esses anos de viagens, Sandor nunca se deu o

    trabalho de me matricular na escola. Quando nos instalamos em Chicago, tenteifalar sobre o assunto, mas ele no queria me distrair do treinamento. Houve umtempo em que eu seria capaz de matar para frequentar a escola, ser normal. Agora,a ideia de conviver com humanos da minha idade, de tentar me passar por umdeles, quase to assustadora quanto a de executar um mog.

    Sandor bate no meu ombro, satisfeito. Depois aperta um boto embaixo damesa.

    Uma estante cheia de manuais de eletrnica empoeirados faz um barulhoinesperado, o chiado de alguma engrenagem hidrulica, e ento desliza para o teto.Surge uma sala cuja existncia eu desconhecia.

    Venha para a Sala de Aula, menino prodgio diz meu Cpan.

  • C A P T U L OC A P T U L O C I N C O C I N C O

    O que Sandor chama de Sala de Aula no como as salas que vi na televiso. Noh carteiras, nem lugares para se sentar, de verdade, exceto por uma cadeira queparece um cockpit, presa parede. Sandor a chama de Palanque, e se acomoda noassento em frente a um painel repleto de botes e medidores piscando. O espaotem mais ou menos o tamanho da nossa ampla sala de estar, completamentebranco e todo revestido com o que parecem ser painis retrteis.

    Meus passos ecoam enquanto caminho at o centro da sala. H quanto tempo est trabalhando nisso? Desde que nos mudamos para c ele responde, acionando uma srie de

    pedais no Palanque.Sinto a sala vibrar e ganhar vida sob meus ps. Por que no me disse nada? Voc no estava preparado explica Sandor. Mas hoje provou que j est.

    hora de comear a ltima fase do treinamento.Eu havia atrado o mogadoriano at a cobertura porque queria mostrar a Sandor

    que estava preparado para mais ao. Queria mostrar a ele que sabia agir sozinho,que podia ser seu parceiro. No queria mais essa bobagem de menino prodgio.

    Mas o que tnhamos agora era s mais do mesmo. Eu achava que estava prontopara me formar, e, em vez disso, Sandor decidiu me inscrever no curso de frias.

    H poucos minutos minha preocupao era ter tomado uma deciso errada quepoderia alterar toda a minha vida. Agora, ouvindo Sandor me tratar como criana,sou obrigado a lembrar por que passei a noite toda acordado planejando a morte domogadoriano. Mesmo com toda aquela conversa de incentivo e conana, Sandorno me entende. Cheguei a me arrepender por ter posto em risco todo aquele lugars para provar que estava pronto, mas, quanto mais via Sandor brincar com seusaparelhos e pedais, menos eu lamentava o que tinha feito.

    Podemos comear? ele pergunta.Balano a cabea em sentido armativo, mas no estou prestando ateno. J

    cansei de brincar de lutar. Hoje de manh senti o gostinho do que uma luta de

  • verdade e, mesmo no tendo sido exatamente como eu esperava, ainda era melhorque aquilo. Inferno! At uma escola de verdade, com humanos fracotes, deve sermais emocionante.

    Fao parte da Garde. Tenho um destino a cumprir, uma vida para comear aviver. Quantas sesses de treinamento idiotas vou ter que enfrentar at que Sandorme deixe comear a viver de verdade?

    Um painel se abre na dianteira do Palanque e dispara trs bilhas de ao a umavelocidade assustadora. Eu as desvio com a telecinesia. O truque velho. Sandordispara objetos contra mim o tempo todo desde que desenvolvi esse Legado.

    Porm, antes mesmo que o primeiro trio chegue ao cho, mais dois painis seabrem nas paredes direita e esquerda de onde estou, e dos dois lados surgemmais tiros. No meio do fogo cruzado, uso a telecinesia para derrubar os projteisque chegam pelo lado esquerdo, e com um movimento instintivo do cajadodescrevo um arco e rebato os outros.

    Bom! grita Sandor. Use todas as armas que tem.Dou de ombros. s isso?Sandor dispara mais uma rajada de bilhas na minha direo. Dessa vez nem

    recorro telecinesia. Uso o cajado para rebater duas delas e com um giro rpidome esquivo das outras.

    O que acha do cajado?Giro a nova arma sem nenhum esforo, passando-a de uma das mos para a

    outra. um movimento natural, como se aquilo fosse parte de mim, uma parte queat ento eu no sabia que estava faltando.

    Eu gosto. Em Lorien havia campeonatos com essas coisas. Eles chamavam de Justas.

    Seu pai foi campeo quando era jovem. raro Sandor mencionar a vida antes da invaso mogadoriana, mas, antes que

    eu possa fazer perguntas, uma parte da parede se destaca e me ataca como umarete. pesada demais para ser detida com a telecinesia, ento jogo o corpo nadireo dela e rolo por toda a sua extenso.

    Caio de p, apoiado no cajado, e sou recebido por um objeto utuante ebarulhento que Sandor deve ter feito usando um helicptero de brinquedo e ummotor de liquidicador. Antes que eu possa entender o que aquilo, a coisa se

  • aproxima e me d um choque que me joga para trs, por cima do arete.A descarga eltrica no forte o bastante para machucar, mas provoca um

    formigamento que se espalha por minhas pernas e braos. Sandor ri, satisfeito poruma de suas criaes ter marcado um ponto.

    A risada dele me deixa zangado.Eu me levanto com um salto e imediatamente mergulho para me desviar de

    outra rajada de projteis. quando o utuador barulhento sai do alcance do meucajado. Concentro nele minha telecinesia.

    Atrs de mim, um pesado saco de pancadas pendurado por uma corrente sedesprende do teto, me atingindo com o peso de um homem adulto. Fico sem ar edesmorono no cho.

    Bato com o rosto no piso ao cair. Em vez de estrelas, vejo as gotas de sangueque escorrem do meu lbio cortado e formam uma poa no revestimento branco ereluzente. Limpo o rosto e comeo a me levantar usando um dos joelhos comoapoio.

    Sandor me olha por detrs do painel, uma das sobrancelhas erguida numaexpresso debochada.

    Chega?Ainda enxergando tudo vermelho, rosno e avano no utuador. A coisa no

    rpida o bastante e acaba espetada no meu cajado em meio a uma chuva defagulhas.

    Sacudo a arma para soltar o flutuador quebrado e olho para Sandor. Isso tudo o que voc tem?

  • C A P T U L OC A P T U L OS E I SS E I S

    O exerccio na Sala de Aula dura duas horas. Duas horas de bilhas voando,utuadores eletricados feitos com peas de objetos variados e tudo mais queSandor resolve atirar em mim. Em algum momento, minha mente se desliga e eus reajo. Estou pingando suor, meus msculos doem, mas passar algum tempo sempensar em nada um alvio bem-vindo.

    Quando tudo acaba, Sandor me d um tapinha nas costas. Vou para o banho efico embaixo do jato de gua quente at meus dedos enrugarem.

    Est escuro quando saio do meu banheiro. Sinto o cheiro do delivery de comidachinesa na cozinha, mas ainda no estou pronto para encontrar Sandor. Ele vaiquerer falar da sesso de treinamento, apontar o que eu poderia fazer diferente emelhor. E no vai mencionar a morte do mogadoriano esta manh. Como todas asvezes que discutimos, o assunto ser ignorado at nos acalmarmos e oesquecermos. No quero retomar essa rotina, ainda no, por isso co escondido nomeu quarto.

    As luzes do cmodo se acendem automaticamente, os sensores de movimentoque detectaram minha presena. Se tivesse amigos, sei que morreriam de inveja domeu quarto. Tenho uma cama king size de frente para uma televiso de tela planade 52 polegadas conectadas aos trs melhores video games que existem. O som incrvel, estreo, as caixas embutidas nas paredes. O laptop ca em cima daescrivaninha, ao lado da Beretta que Sandor me permite manter no quarto para ocaso de uma emergncia.

    Vejo meu reexo no espelho. Estou enrolado em uma toalha e d para notar osarranhes e os hematomas no tronco e nos braos, cortesia do treinamento de hoje.No uma imagem bonita.

    Apago as luzes e me aproximo das janelas que vo do cho ao teto. Encosto atesta no vidro frio e olho para baixo, para a cidade de Chicago. Da altura em queestou at possvel enxergar o vento chicoteando as luzes que piscam no topo dosprdios. O movimento l embaixo no para os carros passam e bolhas de pessoasdo tamanho de formigas vo andando entre eles.

  • Hoje cometi uma imprudncia porque acreditava que isso serviria para provaralguma coisa. Em vez disso, mergulhei ainda mais fundo na rotina de sempre.Sandor achou que estaria me recompensando com a sesso na Sala de Aula, mas,na verdade, foi apenas mais monotonia.

    Desvio o olhar da massa humana l embaixo e foco na superfcie escura do LagoMichigan. Se voar for um dos meus Legados, vou simplesmente decolar, me mudarpara um lugar onde no haja mogadorianos, nem Cpans me dizendo o que fazer,nada exceto o cu e eu.

    Mas no sei voar. Ainda no, pelo menos. Ento, eu me visto e vou jantar comSandor.

  • C A P T U L OC A P T U L OS E T ES E T E

    Algumas noites depois, sonho com Lorien.Sinto a energia me invadindo, percorrendo meu corpo, quase como nos

    exerccios na Sala de Aula, mas diferente. uma sensao atordoante, como umaoverdose de acar que no acaba. No sonho ainda sou criana, to novo que nome lembro dessa poca.

    E, nossa, como estou correndo!Corro pela mata, as pernas dando seu mximo. Duas criaturas que parecem

    lobos, mas tm enormes asas de falco brotando das costas me perseguem, estobem nos meus calcanhares. Os Chimra. Meus Chimra.

    Tinha chovido e meus ps descalos faziam barulho na terra molhada. Chego auma clareira recuada, coberta de um lodo branco e escorregadio. O Chimra maisprximo toca meu calcanhar, eu caio de barriga e vou rolando pelo lodo, que grudaem minhas roupas e meu rosto.

    O Chimra est sobre mim, me imobilizando, e respiro fundo tentandorecuperar o flego. Ele se abaixa e baba meu rosto com uma lambida.

    Dou uma gargalhada, do tipo que no me lembro de j ter dado. O outroChimra joga a cabea para trs e uiva.

    Rolo por entre as patas do bicho e co de p. Invisto contra ele com um grito deguerra gutural que quase rasga meus pulmes. Passo os braos em torno de seupescoo, enterro o rosto em seu pelo e tento jogar uma perna por cima de suascostas.

    O outro Chimra morde de leve o fundilho da minha cala e me puxa de voltapara o cho lamacento.

    Afundo os dedos na terra molhada e ento arremesso duas bolas de lama contraos Chimra, o barro se esparrama em seus focinhos. Eles uivam.

    Com um salto, co de p e volto correndo por onde vnhamos. Os Chimra meseguem enquanto disparo por entre as rvores. Posso no me lembrar de Lorien,mas o garotinho que sou no sonho conhece tudo muito bem. Eu simplesmente voujunto enquanto minha verso mais jovem atravessa descalo o capim na altura dos

  • joelhos, sabendo exatamente onde pisar e quando saltar para no tropear nasrazes.

    Uma fogueira surge na minha frente. Sentado ali, um homem forte, de barbapreta e cerrada, usa o fogo para preparar o jantar. As mangas arregaadas da roupadeixam mostra os antebraos musculosos. De algum jeito, reconheo aquelerosto. Meu av.

    Ao lado dele est um homem jovem que no reconheo de imediato. Est bem-vestido demais para o lugar. Sandor. Acho que nunca parei para pensar noquanto ele devia ser jovem quando vivemos em Lorien.

    Meu av me v chegar, v o sorriso maldoso em meu rosto, e tem o bom sensode sair do caminho. Sandor no presta ateno, est olhando concentrado para umaespcie de comunicador. Provavelmente, est mandando alguma mensagem parauma garota da cidade, convidando-a para ver os fogos de artifcio mais tarde.Certas coisas nunca mudam.

    Eu o agarro na altura dos joelhos e o derrubo no cho sujo, encardindo suaroupa com a lama que estava em mim. Sandor grita e o aparelho cai de sua mo.Eu me sento em seu peito e cruzo os braos.

    Dominado declaro. Ainda no, parceiro responde Sandor, e seus olhos brilham.Ele me segura pelas axilas e levanta, girando meu corpo.Ao longe, vindo da direo da cidade, ouo um estrondo abafado.Sem querer, meu av derruba nosso jantar no fogo.Acordo me sentindo ao mesmo tempo feliz e triste.

  • C A P T U L OC A P T U L OO I T OO I T O

    Faz uma semana desde que estive pela ltima vez no lago e meu iMog no voltou aapitar.

    Levanto-me quando o dia est nascendo e encontro Sandor j sentado bancadada cozinha, segurando uma xcara de caf. Isso incomum. Meu Cpannormalmente prefere dormir at o meio da manh, e s vezes s acorda quando jvoltei da corrida. Ele sempre foi uma criatura noturna, e depois que nos mudamospara Chicago isso s piorou. Sei que, s vezes, ele sai noite e volta para casacheirando a perfume e a bebida alcolica. No pergunto sobre essas sadas, damesma forma que ele no me pergunta sobre minhas corridas. Acho que ns doisprecisamos de alguns momentos de privacidade embora, aparentemente, elecostume vigiar os meus, considerando o vdeo do outro dia.

    Estudo seu rosto. As bolsas sob os olhos, a barba que esconde a cicatriz; tentoencontrar alguma semelhana com o jovem que vi no sonho, mas aquela pessoadesapareceu. Nunca pensei no fato de que Sandor tinha uma vida antes de vir parac. No me lembrava de Lorien ou, pelo menos, achava que no , mas sei queSandor lembra. E deve sentir saudades.

    Fico imaginando se ele ainda me enxerga como uma ameaa pegajosa elamacenta. Provavelmente, no.

    Sandor percebe que estou com a roupa de corrida. Combinamos que seramosdiscretos por algum tempo, mas no suporto passar nem mais um dia trancado emcasa, passando meu tempo entre a Sala de Aula, os video games e os lmes deespionagem que j vi tantas vezes.

    Vai correr? ele pergunta.Resmungo um sim, agindo casualmente enquanto me sirvo de suco de laranja. No acho que seja boa ideia.Olho para ele. Do que voc est falando? Preciso lembrar que na semana passada voc trouxe para casa um

    mogadoriano que encontrou no lago? Talvez seja hora de mudar um pouco as

  • coisas.Bato a porta do refrigerador com mais fora do que pretendia, e nosso vasto

    sortimento de temperos e embalagens de comida pronta sacode l dentro. No vou passar o dia todo trancado aqui declaro. Acha que eu tambm no estou cansado de olhar para essa sua cara azeda o

    tempo todo? Sandor pergunta com uma das sobrancelhas erguida. Pense bem... Ele estende o brao por cima da bancada e me d um carto de plstico. Trouxeisso para voc.

    uma carteirinha de associado de um lugar chamado Windy City Wall. Nocanto inferior do carto h uma foto do meu rosto srio ao lado do meu nome falsomais recente: Stanley Worthington.

    Achei que poderia ser bom voc sair e conhecer pessoas que no sejamespies mogadorianos. Ultimamente voc tem parecido meio... Ele para e coa abarba, sem saber como prosseguir.

    Obrigado respondo, e vou para a porta antes que ele consiga concluir opensamento, ansioso para escapar.

    Nenhum de ns gosta de conversas emocionadas e francas. Prero manter issoassim.

    O Windy City Wall um enorme centro de recreao que ca a cerca de vinteminutos do John Hancock Center. Devo ter passado por ali uma centena de vezes,mas nunca pensei na hiptese de entrar. Lugares assim so para humanos. Alm domais, eu j tinha aparelhos demais para treinar em casa.

    Depois de todos esses anos, por que Sandor escolheu me inscrever alijustamente agora? Devia ter esperado ele concluir o pensamento e me dizer comoeu tenho parecido ultimamente.

    Uma guia sorridente que est na mesa da recepo me leva para conhecer olugar. H quadras de basquete, uma piscina e um ginsio, que, co surpreso porconstatar, to bem-equipado quanto o nosso. Alm de todos os aparelhos comunsnesses lugares, h tambm uma variedade de pistas de obstculos, com redes epneus velhos que simulam situaes reais.

    E tambm, claro, tem a parede. enorme, no toa que ela d nome ao

  • centro (wall, em ingls, parede). Ocupa uma lateral inteira do galpo e sobe cercade doze metros, do piso ao teto. A rocha falsa e, obviamente, no h o cu azul,mas ainda assim tem algo de majestoso naquela parede. Quando a garota que meguia termina de falar, sigo diretamente para ali e paro em uma das las, atrs deum grupo de garotos que parecem pouco mais velhos que eu.

    No alto, um garoto que calculo ter 17 anos est empacado no meio da parede,olhando em volta e procurando desesperadamente um ponto em que se segurar. Eleno encontra nenhum, e depois de alguns segundos despenca. A queda amortecida pela corda de segurana e por um tapete acolchoado.

    a primeira vez?Olho por cima do ombro. Um garoto alto de cabelos claros e mais ou menos a

    minha idade est sorrindo para mim. Retribuo com um movimento de cabea. ... Esta a la do pessoal avanado. Acho que voc devia comear pelo mais

    fcil. No, acho que no.O garoto louro troca um olhar com outro, mais baixo, que est do seu lado. O

    mais baixo no parece forte como o amigo, mas compacto, o que deve fazer delemelhor escalador.

    Precisa de um colete diz o menor.Dou uma risada. A ideia de cair daquela parede, depois do treinamento a que

    fui submetido, ridcula. Sorrio para o menor, imaginando que ele esteja debrincadeira, apesar de ter notado que os dois vestem coletes.

    Eu no preciso. Ele duro! brinca o louro. No, falando srio, a regra diz o outro. Mesmo que voc fosse Sir

    Edmund Hillary, ia ter que colocar o colete.Olho para o garoto sem expressar reao. Nem imagino de quem ele est

    falando. Foi a primeira pessoa a escalar o Everest explica o mais baixo. Ah resmungo. A montanha.Os dois garotos do risada. , a montanha.O mais baixo cutuca o alto com o cotovelo.

  • Por que no arruma um colete para o novato?O alto me olha de um jeito estranho, depois vai depressa at as prateleiras de

    equipamento. Percebo que essa uma das conversas mais longas que j tive comgarotos humanas. Gostaria de saber como estou me saindo.

    Meu nome Mike o mais baixo se apresenta enquanto aperta minha mo. Meu amigo tambm Mike.

    Todo mundo nessa cidade Mike? Isso engraado diz o Mike baixinho, mas no ri. Qual o seu nome? Stanley.No hesito. Digo o nome falso com naturalidade, como se fosse verdadeiro,

    exatamente como Sandor me ensinou.O Mike alto volta e me entrega um colete. Eu o visto pela cabea e os dois me

    ensinam como ajustar as alas. Ento, Stanley... continua o Mike baixinho, praticamente me interrogando.

    Onde voc estuda? Em casa. Isso explica sua personalidade efervescente comenta o Mike baixinho.Acho que ele acabou de me ofender.Antes de conseguir dar uma resposta, eu a vejo. Ela est na la ao lado. Deve

    ter 16 ou 17 anos, tem cabelos lisos e pretos e olhos igualmente escuros. Tem porteatltico, diferentemente de algumas garotas magrrimas que vi correndo no lago.Ela bonita e est me encarando. H quanto tempo me observava? Ser que ouviutoda a conversa com os Mikes?

    Quando ela percebe que estou olhando, desvia o olhar apressada, e seu rostoca vermelho. No posso evitar, no consigo parar de olhar para ela. Depois de umtempo, ela me olha novamente e sorri, um sorriso nervoso e hesitante. A nicareao que tenho piscar.

    O Mike alto balana a mo diante do meu rosto. O que foi? disparo. sua vez, parceiro.Olho para a frente e vejo o instrutor batendo o dedo no relgio de pulso de um

    jeito sarcstico. Dou um passo adiante e ele prende os cabos de segurana no meucolete. Mal escuto o que ele diz sobre quais so os melhores apoios e onde devo mesegurar, porque minha cabea est ocupada demais tentando descobrir por que

  • aquela garota olhava tanto para mim. Instintivamente, tento ajeitar meu cabelobagunado. No sei o que pensar. Na televiso, sempre toca uma msica quandoum cara faz contato visual com uma garota bonita. Eu mataria por uma trilhasonora nesse momento.

    Ser que ela gosta de garotos de outros planetas que sabem escalar paredesmuito depressa?

    Bem, acho que vou descobrir.O instrutor sopra um apito e eu pulo na parede. No comeo da escalada co

    meio desajeitado. Devia ter prestado ateno quando ele falou sobre os apoios.Mesmo assim, encontro logo meu ritmo e comeo a subir pela parede.

    A garota est olhando? Sinto uma urgncia quase incontrolvel de verificar.Olho para baixo. Ela est. Sua posio agora exatamente ao lado dos dois

    Mikes, que a encaram ostensivamente. Ela os ignora e olha para mim. No. maisdo que isso. Ela me estuda como se eu fosse o livro mais interessante do mundo.

    De repente sinto as mos suadas.Isso no bom.Tarde demais, percebo que cheguei ao mesmo ponto complicado onde vi o

    primeiro escalador. Estou na metade da subida, mas no h nenhum apoio prximoo bastante para eu alcanar e continuar, e recuar est fora de questo.

    S consigo ver um apoio. Um humano no seria capaz de alcan-lo. Porm,com minha fora, eu provavelmente conseguiria. Teria que pular para chegar l.

    Flexiono as pernas com os ps rmes nos apoios, colocando todo o peso docorpo no quadril e nos joelhos, e ento me projeto para o alto.

    Toco o apoio, mas meus dedos suados escorregam.No consigo me segurar. Estou caindo. No posso acreditar nisso, estou caindo.

    Fui derrotado por uma parede humana e por minhas mos suadas.O tapete amortece a queda. No meu corpo que est doendo, meu ego. Fico

    deitado ali, no quero me levantar e encarar os olhares de todo mundo.O olhar dela.O Mike alto se aproxima. Parece que precisava do colete... ele comenta sorrindo.O Mike baixinho me ajuda a sair do tapete, dizendo que foi uma boa primeira

    tentativa. Eu nem estou ouvindo. Meus olhos varrem a sala procurando a garota.Ela desapareceu.

  • C A P T U L OC A P T U L ON O V EN O V E

    Saio do Windy City Wall de cabea baixa. Passei praticamente a vida toda noanonimato, mas nem quando estava fugindo de aliens assassinos eu quis tanto noser notado. Sei que ridculo todo mundo deve cair daquela parede o tempo todo, mas tenho certeza de que todos no ginsio esto rindo de mim secretamente.

    Volto pelo caminho mais longo e passo direto pelo meu edifcio. Continuorevendo a queda mentalmente. E me imagino da perspectiva dela: caindo, suado,esperneando inutilmente. Passo o dia todo atordoado e me censurando, e o sol jest descendo no horizonte quando finalmente decido ir para casa.

    Quando entro no apartamento, Sandor est na sala de estar, reclinado em umaconfortvel poltrona de couro e com um livro de engenharia avanada que parecemuito chato aberto em seu colo.

    Chegou bem na hora ele diz quando entro, balanando o copo de martnivazio.

    Ele no percebe meus ombros cados quando atravesso a sala at o bar todoequipado. Tiro o copo vazio da mo de Sandor usando a telecinesia. Depois, faolevitarem as garrafas de gim e vermute e misturo doses iguais das duas bebidascom gelo.

    Sou capaz de preparar um coquetel com a fora do pensamento, mas noconsigo escalar uma droga de parede.

    Quando termino o drinque, levo o copo para Sandor e me jogo no sof ao ladoda poltrona. Ele experimenta e faz um barulho com os lbios.

    Muito bom diz. Ento, como foi? Tudo bem resmungo. S isso? Tudo bem? Voc passou o dia todo fora.Hesito antes de contar mais alguma coisa, mas preciso desabafar com algum, e

    Sandor tem mais experincia que eu com os humanos e com garotas. Ca da parede.Sandor ri sem levantar os olhos do livro. Voc? Srio?

  • No estava prestando ateno. Quer dizer, acho que me distra. Da prxima vez voc consegue ele diz. No vai ter prxima vez.Fico em silncio, um dos braos cobrindo meu rosto. Sandor deve ter percebido

    que estou escondendo os detalhes, porque nalmente ele fecha o livro e se inclinapara a frente.

    O que aconteceu? Sua voz agora soa mais baixa. O iMog detectou algumacoisa?

    No. Fao uma pausa. Foi uma garota. Ah... ele responde, prolongando a exclamao.Mesmo com o rosto coberto, sei que est sorrindo. Sandor esfrega as mos. Ela era bonita? Era linda. Conrmo e olho para o outro lado. Eu ca porque ela... no sei.

    Ela estava meio... me observando... Analisando. Dando aquela olhada... Ah, cala a boca. Ento, uma garota bonita o viu cair e agora voc est constrangido.No tenho como voltar atrs.Ouvindo ele colocar a situao dessa maneira, tudo parece meio infantil e bobo,

    como nas sries de televiso com mulheres muito maquiadas, que cam fazendocara de sedutoras para os homens. Mas exatamente como ele disse.

    Sandor pe a mo em meu ombro e o afaga rapidamente. Isso s um pequeno contratempo, menino prodgio opina. Uma coisa eu

    posso armar com certeza: voc no vai impressionar sua garota choramingandoaqui dentro.

    Quem disse que quero impressionar?Ele ri. Por favor. Quem no quer impressionar as mulheres bonitas? Nesse exato

    momento, na cabea dela, voc s um cara que deu um passo maior do que aperna. Mas, se voc no voltar, logo vai se transformar no covarde que certo dia elaviu cair da parede. isso o que quer?

    No preciso nem pensar para responder. Vou voltar l amanh.

  • C A P T U L OC A P T U L OD E ZD E Z

    Na manh seguinte acordo cedo outra vez, volto Sala de Aula, desvio de projteise derrubo utuadores com meu cajado de cano, mas minha cabea est no WindyCity Wall. Sandor no facilita para mim, mesmo sabendo que quero economizarminha energia para uma segunda chance de impressionar aquela garota.

    Preste ateno! ele grita depois que um tentculo mecnico me derruba.Quando o treino acaba, tomo um banho demorado, ainda que s esteja me

    preparando para mais exerccios. Quero car legal. Passo at uma escova no cabeloembaraado. Sandor est sempre me atormentando para eu cort-los, dizendo quepareo uma menina, me recomendando todo tipo de produto para xao. Nuncadei ateno a suas dicas de esttica no solicitadas.

    Porm, agora que estou olhando para o espelho embaado do banheiro, eu mearrependendo de no t-lo escutado. Pareo um homem das cavernas. Mas agora tarde demais para fazer alguma coisa a respeito do meu cabelo. Alm do mais,imagino que chegar l com um corte novo e todo penteado com pomada ou sejal que o que for v parecer meio desesperado.

    Boa sorte diz Sandor com ar experiente quando me dirijo ao elevador.Borboletas se atropelam dentro do meu estmago quando corro at o centro de

    recreao. Passo pela porta e vou direto para as prateleiras de equipamentos desegurana, pego um colete e sigo conante at a la dos praticantes avanados.Olho em volta casualmente procurando pela garota.

    Ela no est l. Na verdade, o lugar est quase vazio.Ah! dia de aula. Sempre esqueo que os humanos tm horrios muito

    diferentes dos meus.Um pessoal com idade para estar na faculdade est usando a parede,

    despertando olhares de inveja dos homens mais velhos e molengas que,provavelmente, esto ali passando o tempo em sua hora de almoo. Junto-me aeles. Vou aproveitar para treinar um pouco.

    Passo uma hora explorando a parede. Dessa vez ouo com ateno o que oinstrutor diz, especialmente quando ele fala sobre onde esto os melhores pontos

  • de apoio. No nal, tinha conseguido escalar a parede meia dzia de vezes semcair. De acordo com o instrutor, se eu reduzisse meu tempo em alguns segundospoderia bater o recorde do lugar. No digo a ele que no dei tudo de mim, que comminha fora e minha velocidade de lorieno eu poderia facilmente quebrar todos osrecordes.

    Estou guardando meu melhor desempenho para quando a garota aparecer.Ainda falta uma hora para o trmino do horrio escolar. Achei que seria meio

    estranho se eu j estivesse ali quando os outros chegassem e resolvi que queriapoder fazer uma entrada impressionante. Eu me imagino caminhandoconantemente at a la, ignorando as provocaes dos Mikes e, depois, escalandoa parede em tempo recorde. Enquanto os Mikes cam ocupados tentando pegarseus queixos, que caram, eu me aproximo da menina e vejo aquele sorrisoencantador que me convida a falar com ela. E ento...

    Bem, ainda no planejei direito essa parte, da conversa.Compro uma garrafa de gua em uma mquina e saio do galpo. H um pequeno

    parque do outro lado da rua, em frente ao centro de recreao, e vou at um bancome sentar o lugar perfeito para car espiando. Estou confortvel no ar fresco etenho uma boa viso da entrada do Windy City Wall. Vou car ali escondido at opessoal sair da escola, e ento ser a hora da minha redeno.

    Pensar em espionagem me faz dar uma olhada no iMog. Um ponto vermelho emacabro aparecendo ali perto tudo de que no preciso no momento. Felizmente,a rea est limpa.

    Passo a hora seguinte tentando pensar em algum jeito de puxar conversa. Todosos caras nos lmes e na tev sabem a coisa certa a dizer quando se aproximam deuma garota. Devia ter pedido uma sugesto a Sandor antes de sair. Eleprovavelmente tem livros inteiros de frases de efeito para comear um papo.

    Quando vejo os dois Mikes, ainda no pensei em nada muito bom. No consigosair dos trocadilhos com escalada, mas todos parecem grosseiros, como se euquisesse subir nela.

    Tem algum sentado aqui? pergunta uma voz feminina, interrompendo aconversa que tento comear mentalmente.

    Distrado, aponto o lugar vazio a meu lado no banco.A prxima parede que quero escalar a que cerca seu corao. Que tal isso?

    Totalmente pssimo.

  • Oi diz a garota, j sentada.E a que percebo que no tem uma garota qualquer sentada a centmetros de

    mim no banco, mas sim a garota. O rosto dela est rosado por causa do ar frio denal de primavera, os cabelos pretos danam ao sopro da brisa suave. Ela sorripara mim. to linda, que de repente sinto vontade de vomitar. No era esse oplano.

    Meu nome Maddy ela diz e estende a mo.Fico olhando para ela sem saber o que fazer.No consigo pensar em nada para falar.Maddy me olha intrigada. Desculpe, no queria interromper seu... ah... resmungo.Eu estava resmungando? Devo ter parecido um maluco. Tento me recompor. No, no est interrompendo. Eu s estava pensando. Ah ela responde, e me olha com expectativa.Percebo que a mo dela continua ali, estendida entre ns, esperando que eu a

    aperte, e o que fao, meio afobado. O meu Stanley. um prazer conhecer voc, Stanley.Engulo em seco. Esse encontro foge completamente ao planejado. Ela no

    deveria me ver novamente at eu ter derrotado a parede e recuperado meu orgulho.Fao um gesto sem muito entusiasmo apontando o centro de recreao,

    tentando desesperadamente criar o cenrio que pouco antes estava imaginando. Eu ia escalar. Quer ir ver? Ver? ela pergunta levantando uma sobrancelha. Talvez a gente possa

    apostar corrida, se aceitar o desafio. Provoca.Lembro a humilhao do dia anterior e, de repente, no sei o que dizer.

    Felizmente ela me salva. Quer dizer, na verdade eu no posso car. S parei porque vi voc aqui

    sentado, sozinho, e pensei em dar um oi. Ah respondo de um jeito tolo. Oi. Oi ela repete.Segue-se um silncio constrangedor, quase como se Maddy tambm estivesse

    nervosa. O olhar dela se desvia do meu e a boca se mexe, como se ela tentasseencontrar alguma coisa para dizer. Fico pensando se ela tambm ensaia suas

  • conversas mentalmente.Quando volta a falar, as palavras so uma enxurrada de energia e nervosismo. Ontem vi voc no centro e notei que tambm no estava com ningum, o que

    completamente legal para quem gosta de fazer as coisas sozinho, mas sou novapor aqui e tem sido meio difcil conhecer as pessoas, ento pensei se nopodamos, bem... nos unir contra a solido.

    Olho para ela e pisco. No consigo acreditar na minha sorte. Desculpe Maddy continua, revirando os olhos. Normalmente no sou

    assim to idiota. Voc no idiota respondo. O.k., enganei voc. Ela ri com nervosismo. Isso mesmo, cale a boca,

    Maddy. Aqui... Ela abre a bolsa e pega um pedao de papel com seu nome enmero de telefone. Se no assustei voc, ligue para mim diz, levantando-se dobanco antes que meu crebro idiota consiga formular uma resposta.

  • C A P T U L OC A P T U L OO N Z EO N Z E

    Venta forte no topo do edifcio John Hancock, o que desestabiliza por um momentoo utuador que est sobre mim e Sandor. Estamos testando sua nova inveno,uma carcaa de torradeira com asas de ao que saem de onde deveriam estar asfrestas para as fatias de po. De luvas, passo os dedos pelos controles do planador,corrigindo seu curso por causa vento. O pequeno motor responde com um zumbidoagudo. Sempre testamos as novas criaes de Sandor, conscientes de que um diaelas podem ser nossas nicas aliadas contra uma horda de mogadorianos. Enquantoisso no acontece, bem provvel que eu acabe abatendo essa nova engenhocaestridente na Sala de Aula.

    Ento diz Sandor , quanto tempo faz que est com o nmero do telefonedela?

    Mantenho os olhos no planador. Cinco dias respondo. Os humanos tm uma regra sobre ligar para as garotas resmunga Sandor.

    Alguma coisa sobre esperar trs dias, a menos que voc queira parecerdesesperado.

    Eu resmungo. A esta altura voc est livre disso ele conclui. O que est esperando? Ligar para qu? pergunto, tentando no soar to azedo quanto me sinto.Acho que no consigo disfarar.Desde o encontro com Maddy no parque, tenho feito pouco alm de treinar e

    pensar nela. S conversamos por alguns minutos, mas posso dizer que ela solitria como eu. Maddy nova em Chicago e, embora eu esteja na cidade hcinco anos, pela vida social que tenho eu poderia muito bem ter acabado dechegar, como ela. Confesso, j imaginei uma vida social que fosse mais do quebrincar de robs com meu Cpan, mas nem sonhava que uma menina lindaapareceria, muito menos que se interessaria por mim.

    Agora que est acontecendo, o que posso fazer? Maddy no tem cicatrizes notornozelo. No foi recrutada para uma guerra intergalctica. Vai acabar fazendo

  • amigos na cidade, indo para a faculdade, levando uma vida normal. Eu? Eu tenhoque acertar contas com uma raa de monstros beligerantes pelo genocdio de meupovo. bom pensar em escapar de tudo isso, sonhar com uma namorada, em saircom ela. Mas um dia o sonho vai acabar e eu vou para a guerra. Como se aproximarde um humano se encaixaria em tudo isso? Ter uma namorada, ento...

    No se encaixa.Percebendo que estou distrado, Sandor tira o controle de minhas mos e traz o

    planador de volta. Ele apoia a mo nas minhas costas e caminhamos juntos at abeirada, de onde olhamos para a cidade l embaixo.

    Voc no pode deixar de ser de quem ele comea. Eu sei respondo, querendo abreviar qualquer tipo de conversa irritante que

    ele tenha em mente.No sei o que deu nele ultimamente. Escute Sandor continua. O fato de ter um destino no signica que

    tambm no tem uma vida para viver. No o que parece.Ele suspira. Talvez eu tenha errado mantendo voc to isolado. Peo desculpas, se for

    isso. Acho que esqueci como ser jovem.Sandor esfrega a barba, procurando as palavras. Fiz algumas... ... amizades desde que chegamos Terra. Amizades. Eu bufo. assim que chama aquelas garotas? Tanto faz Sandor responde e d uma tossidinha nervosa antes de me cutucar

    com o cotovelo. S estou dizendo que os humanos podem ser uma boa distrao. No preciso de distrao digo com sarcasmo e bato com o p no planador.

    Tenho video games. E robs de brinquedo. No esse o ponto continua Sandor. Distrao a palavra errada. Eles

    podem ser um lembrete, tambm. Um lembrete do que estamos fazendo, de porque estamos aqui e lutamos, de que tudo isso tem algum valor. Podemos ter nossavida, Nove. Quando vencermos essa guerra, e vamos vencer, voc vai poder serStanley pra valer, de verdade. Ou outra pessoa. Vai poder ser quem quiser.

    Meus olhos percorrem a cidade. L embaixo, em algum lugar, esto osmogadorianos. Mesmo que aquele que estava no lago fosse o nico em Chicago, houtros. E eles esto me caando.

  • Voc no pode deixar de ser quem , mas tambm precisa ter em mente quempoderia ter sido. O porqu de estar lutando.

    L embaixo, tambm em algum lugar da cidade, provavelmente fazendo o deverde casa no apartamento dos pais, est Maddy. Prero pensar nela a pensar nosmogadorianos.

    Telefone para ela diz Sandor. Seja Stanley, mesmo que s por poucotempo.

    Olho para ele e vejo quanto est se esforando para se aproximar de mim, meconvencer. E quero acreditar nele.

    Obrigado, Sandor.Ele bate nas minhas costas com fora. S no estrague tudo.Mais tarde, estou sentado na minha cama com a porta fechada, segurando o

    telefone. Dessa vez no me dou o trabalho de ensaiar no depois de isso terfuncionado to mal. Apenas respiro fundo e digito o nmero de Maddy.

    Ela atende no primeiro toque. Oi digo, testando as palavras. o Stanley.Ouo um suspiro aliviado do outro lado. Talvez ela tambm tenha cado

    pensando nesse momento, torcendo que eu ligasse. Estava comeando a achar que voc no ia ligar diz.Quase posso ouvir o sorriso na voz dela, e me sinto melhor instantaneamente.

  • C A P T U L OC A P T U L OD O Z ED O Z E

    Maddy escolhe o planetrio para o que Sandor comeou a chamar irritantementede nosso primeiro encontro.

    Tento diminuir a importncia da situao, explico que Maddy e eu s vamossair juntos, mas meu Cpan percebe que estou agitado e isso s o incentiva acontinuar com a provocao. Os dois dias que antecedem o encontro sopreenchidos por partes iguais de treinamento e conselhos no solicitados sobregarotas.

    Diga que ela bonita.Uso a telecinesia para impedir que uma bolsa pesada tombe sobre mim. Faa perguntas sobre ela.Abaixo para me esquivar de uma saraivada de projteis. Trate de parecer interessado no que ela diz, mesmo que no esteja.Giro o corpo para escapar de um planador e o acerto com um golpe de

    backhand do cajado. Est me ouvindo?Limpo o suor do rosto e olho para Sandor. Na verdade, no. Muito bom. Ele bate palmas uma vez e isso desliga a Sala de Aula. Ento

    voc est pronto.

    Maddy est me esperando em frente ao planetrio. Seu sorriso contido e nervosoquando me aproximo. Est vestida com um pulver leve e cala jeans, o que medeixa feliz por no ter seguido o conselho de Sandor e me vestido com se fssemos pera ou coisa assim. Em vez disso, preferi o moletom com capuz e os jeans desempre.

    Espero que no ache esse programa muito nerd ela diz enquanto compramosos ingressos.

    No, de jeito nenhum.

  • Nerd no a palavra que eu escolheria. Irnico, talvez? No posso explicar aela quanto eu acho estranha a compreenso que os humanos tm do cosmo queconhecem. Queria saber se outros aliens disfarados tiveram seu primeiro encontrono planetrio. Duvido.

    Meu pai costumava me levar ao planetrio o tempo todo quando eu eracriana. Passei a gostar.

    Ocupamos nossos assentos no auditrio com teto abobadado e esperamos pelocomeo do espetculo. Enquanto isso ela me conta mais sobre sua famlia. O pai um astrnomo renomado, a me professora de losoa. Eles se mudaram paraChicago para a me assumir um cargo na universidade, mas a famlia ainda viajafrequentemente, porque o pai bastante solicitado no circuito das palestrasacadmicas. Maddy fala deles com a voz triste, como se nunca estivessem porperto. Minha situao muito diferente da dela, mas, de algum jeito, sinto-mecomo se soubesse exatamente o que ela passa.

    Sinto falta deles ela confessa, e gesticula como se quisesse se desculpar. Quer dizer, eles no foram embora para sempre, mas parece que raramente os vejodesde que nos mudamos para c.

    No estranho ficar sozinha?Ela d de ombros. Pode ser legal. Ningum briga comigo por car acordada at tarde no meio da

    semana. Ento me olha com uma expresso bem-humorada. Ningum seincomoda se chamo garotos estranhos para vir ao planetrio.

    Dou uma risada, mas tambm me pergunto se ela pensa mesmo que souestranho. Espero que no. Acho que estou fazendo um bom trabalho sendo s oStanley.

    Ai, estou falando sem parar... Despejei toda essa histria e no sei nada sobrevoc.

    Fico desapontado por ela ter parado de falar. Diferentemente do que Sandorpensava, no precisei ngir interesse. Mas agora vem a parte em que precisomentir para ela.

    O que quer saber?Maddy pensa um pouco. nossa volta, outras pessoas ocupam seus assentos.

    Percebo que nossos ombros esto se tocando e que estamos dividindo o brao dacadeira.

  • Vamos comear por qual escola onde voc estuda.Sorrio, constrangido. Eu estudo em casa.Ela olha para mim de um jeito que me faz pensar que eu teria provocado a

    mesma reao se dissesse que era um alien do planeta Lorien. Lembro como osMikes me olharam no centro de recreao, como se eu fosse um antissocialesquisito. Podia ter inventado uma histria, acho, mas me sinto melhor sendohonesto com ela.

    Ah ela diz levantando uma das sobrancelhas e com um sorriso debochado. Voc parecia to normal!

    Na verdade, no assim to estranho respondo. Meu tio, bem, ele deixatudo bem interessante. Pensando bem, sim, talvez seja um pouco estranho. Ele no exatamente o que se poderia chamar de normal.

    Voc mora com ele? Moro. Onde esto seus pais?Eu devia ter uma mentira convincente j preparada para responder a essa

    pergunta. Sandor e eu costumvamos inventar uma histria quando estvamossempre nos mudando, mas isso faz muito tempo. Sandor dizia s pessoas que erameu tio, e que estava me levando em uma viagem pelo mundo ou coisa assim, parameus pais poderem ter uma segunda lua de mel, ou que eles se juntariam a ns emalgum momento. s vezes Sandor chegava perto da verdade e contava simpticagaronete que servia nosso jantar que ele me criava, porque meus pais haviammorrido em um acidente. Normalmente, essa histria rendia uma poro desobremesa maior do que o normal. Quero que esse Stanley que Maddy estconhecendo seja o mais parecido possvel com meu verdadeiro eu.

    Eles morreram quando eu era pequeno digo. No os conheci bem. Ah... Fica evidente que ela no sabe o que dizer.Felizmente, as luzes se apagam antes que a conversa se torne mais deprimente.

    Reclinamos os assentos quando a Via Lctea ganha vida sobre ns.Uma gravao comea a descrever a origem do cosmos e segue determinando a

    posio dos planetas em relao Terra. No estou ouvindo. Estou reclinando napenumbra com Maddy ao meu lado e meu crebro no capaz de processar muitomais do que isso. Quero lembrar esses detalhes. O cabelo dela tem cheiro de

  • baunilha, ou coco, ou alguma outra coisa feminina. Seja o que for, delicioso.Concentro-me no brao da cadeira, onde nossos ombros se encontram, imaginandoque cada mudana de posio dela uma mensagem cifrada para mim.

    Eu a olho. Maddy percebe e sorri, o rosto banhado pelo branco e pelo azul-claroda apresentao iluminada l em cima. Eu poderia passar o restante daquelapalestra tediosa s olhando para ela, se isso no fosse faz-la pensar que soumaluco. Em vez de olhar, ento, ignoro a trilha sonora do planetrio e co ouvindoos rudos da Maddy. Sua respirao lenta e regular, mas, com minha audioprivilegiada, percebo que seu corao est batendo depressa.

    Ah, espere. Talvez seja o meu corao.Fecho os olhos e co assim o restante do tempo. Quando termina, o planetrio

    continua mergulhado na penumbra, as estrelas ainda em exibio. As pessoascomeam a sair, mas ns camos sentados. No nal, somos s ns dois e asestrelas.

    Maddy se inclina para perto de mim e comea a sussurrar, apesar de estarmossozinhos. Ela fala sobre as constelaes que no foram mencionadas na gravao,guiando meus olhos do Cinturo de rion at Aqurio. Ri baixinho e me corrigequando confundo a cauda de Peixes com uma perna de Pgaso. J sei tudo o queest me dizendo, mas fica muito mais interessante quando ela narra.

    E em algum momento, sem sequer perceber o que estou fazendo, seguro a modela.

    s um momento. A mo morna e um pouco mida. Maddy rapidamenteescapa e se levanta.

    Desculpe comeo, percebendo que ultrapassei um limite. Quer dizer, euno tive a inteno...

    Tudo bem ela me interrompe balanando a cabea, aparentemente agitada,mas no aborrecida, nem assustada. Vamos, voc vai caminhar comigo at emcasa.

  • C A P T U L OC A P T U L O T R E Z E T R E Z E

    Sandor no est quando chego, o que me permite duas horas sozinho para revermentalmente vrias vezes o que comecei a chamar de o incidente das mosdadas. Acho que no pensei tanto em algo nem quando matei aquelemogadoriano. Ser que entendi errado o interesse de Maddy? Quando Sandor chegaem casa com uma embalagem engordurada de comida, ele nem me pergunta sobreo encontro. Em vez disso, quer falar sobre seu dia andando pela cidade.

    Dirigi pela cidade toda segurando esta coisa conta, mostrando uma versosuperaprimorada do meu iMog. Nada. Nem um sinal. Se aquele mog tinhaamigos o procurando, eles desistiram. Acho que estamos seguros.

    Que bom respondo distrado. Esconder-se onde todos podem ver ele diz satisfeito, levantando o copo do

    drink que acabou de preparar como se propusesse um brinde.Comeamos a comer os hambrgueres e ele nalmente se lembra de perguntar

    sobre Maddy. Conto tudo, no omito nenhum detalhe e at tento recriar alinguagem corporal dela. Pela primeira vez desde que chegamos a Chicago sintoque as orientaes do meu Cpan podem me ser teis.

    Hum... ele responde quando termino meu relato. Hum? S isso?Ele encolhe os ombros. As mulheres so criaturas misteriosas.Enquanto fala, ele me olha de um jeito estranho, meio apreensivo, meio

    desconfiado, como se eu fosse um animal esquisito que pudesse mord-lo. O que foi? pergunto. No consigo lembrar a ltima vez em que voc falou tanto. Isso bom.Fao um gesto de desdm. Voc no est ajudando.Nesse momento, o bolso de trs da minha cala vibra.Imediatamente, meu corao vai parar na garganta. Meu iMog est dando um

    sinal. Praticamente arranco o aparelho do bolso e olho logo para a tela.

  • Mas no tem nada nela. S o ponto branco e solitrio no centro.Foi o celular, percebo. O aparelho que vibrou foi o celular. Carrego o telefone

    por fora do hbito; ele raramente vibra, a menos que Sandor queira me pedir paralevar po na volta para casa depois da corrida.

    O sinal de nova mensagem est piscando. ela anuncio, nervoso demais at para abrir a mensagem. O que ela quer? Hoje foi divertido. Eu leio. Na prxima, voc escolhe o lugar.Sandor assobia e levanta a mo do outro lado da mesa, esperando que eu bata

    nela. Maddy tambm gostou do encontro. E se ela se divertiu, ento eu noestraguei tudo quando peguei sua mo. No tenho muito tempo para saborear essasconstataes, porque sou tomado por uma nova onda de ansiedade.

    Ela quer que eu planeje outro encontro. Qual o problema? Sandor pergunta, percebendo a tenso em meu rosto. No fao ideia de onde levar uma garota.Ele sufoca o riso. Ficamos sentados em silncio, pensando. Posso lev-la ao Windy City Wall sugiro. Agora, com certeza termino

    aquela parede.Sandor faz careta. Quer gastar uma sada escalando uma parede, em vez de conversar com ela?Ele tem razo. Sabe Sandor continua , se quer mesmo impression-la, eu tenho uma ideia.

  • C A P T U L OC A P T U L O Q U A T O R Z E Q U A T O R Z E

    Marco com Maddy no m de semana seguinte, o que transforma os dias da semanaem um oceano de ansiedade sem m. Estou nervoso, eltrico, mas no o tipo deenergia que posso canalizar para os treinos com Sandor. Os planadores me acertammais vezes do que deveriam, porque estou distrado pensando no que vou vestir enas conversas que teremos. D para perceber que Sandor est aborrecido enquantodesliga o equipamento na Sala de Aula.

    Acha que os mogadorianos se sensibilizar porque voc est com a cabea emuma garota? ele dispara.

    Fao que no, chateado, porque sei que ele est certo.Mais tarde, Sandor me chama na ocina. Ele est com os ps apoiados na mesa,

    amarrotando uma pilha antiga de plantas baixas. Seus olhos parecem distantes, epor um segundo penso que estou interrompendo algum agradvel devaneio. Eleolha para mim com um sorriso melanclico.

    Sabe, eu no era muito mais velho do que voc agora quando fui designadocomo seu Cpan diz. Era novo demais, considerando a idade em que um Cpannormalmente era designado a um Garde. Mas eu era bom. Havia ajudado osengenheiros, muito mais velhos e mais experientes, em alguns projetos detecnologia. Acho que quiseram me pr em ao o quanto antes.

    Eu esperava um sermo. J estava acostumado. Sandor irritado era umaentidade familiar. Por outro lado, um Sandor nostlgico era algo com que eu nosabia como lidar. to raro ele falar sobre Lorien, que co com receio deinterromper.

    Gostei de pensar que estava preparado ele prossegue. Foi uma grandehonra, certamente. Ainda que voc desse muito trabalho. Sandor pisca para mim,e no consigo conter um sorriso. Ligar-se a um Garde uma responsabilidade detempo integral. Por mais que eu quisesse estar preparado, tambm tinha outrosplanos. Eu tinha uma namorada. As coisas estavam cando srias, sabe? E eu meesforava muito para equilibrar tudo isso.

    O que aconteceu? digo, antes de me dar conta de que quo idiota era a

  • pergunta.A expresso de Sandor fica sombria, mas ele rapidamente disfara. Voc sabe o que aconteceu. Ele senta direito na cadeira e arranca uma folha

    de um bloco de anotaes. Em seguida me entrega o papel, nas linhas, suacaligraa precisa. uma lista de compras. J que no est sendo de grandeutilidade na Sala de Aula, pode muito bem ocupar seu tempo com alguma coisaprodutiva diz, o Sandor severo voltando tona.

    Pego a lista e me viro para a porta. Sandor me detm. Jamais encontrei o equilbrio ele diz. Talvez voc consiga. Enquanto isso

    no acontece, no esquea quais so suas verdadeiras responsabilidades. Certo,cara?

    No a primeira vez que saio para fazer compras para Sandor. No comida queele me manda buscar; isso seria fcil demais. Estou atrs de peas. claro quepoderamos encomendar pela internet tudo de que Sandor precisa para criar seusequipamentos, mas acho que ele gosta do desao de reunir um monte detranqueira terrquea que no funciona e transform-la em algo novamente til. Elej tentou me envolver em seus projetos, mas nunca deu certo. Gosto mais dedestruir suas invenes que de ajudar a constru-las.

    Passo a tarde visitando casas de penhor e bazares de artigos de segunda mo nocentro da cidade. Encontro algumas coisas que esto na lista de Sandor um velhotocador de CD e um fatiador eltrico de legumes, com lminas curvas, que receiover voando na minha direo na Sala de Aula. Tambm pego alguns itens que seique ele sempre precisa, uma placa de circuito queimada aqui, um cabo ali.

    Quando j estou na ltima loja da minha rota tenho a desconfortvel sensaode estar sendo observado.

    Instintivamente, dou uma olhada discreta no iMog. Nenhum sinal de perigo porperto. Quando estou guardando o aparelho no bolso, eu a vejo. Dois corredoresadiante, ao lado de uma arara de camisetas vintage. Maddy est l.

    No incio acho que estou vendo coisas. Tenho pensado tanto nela, que comeceia ter alucinaes. Mas Maddy levanta a mo e d um aceno tmido, e eupraticamente corro at ela.

  • Oi digo, tentando no parecer animado demais, provavelmente semconseguir. O que est fazendo aqui?

    Oi ela responde, olhando em volta como se estivesse to surpresa por estarali quanto eu fiquei por v-la. Estou, ah... Seguindo voc.

    Agora eu sorrio como um idiota. Srio? No! Ela revira os olhos. Meu pai gosta de telescpios antigos e coisas

    assim. Ento estou dando uma olhada por a... Ah respondo, desanimado. Tive esperana de que voc estivesse me

    seguindo mesmo...Maddy olha para as minhas sacolas das outras lojas, todas com compras de

    formato estranho. O que isso tudo? So para um projeto cientfico. Improviso, pensando depressa. Voc no estuda em casa?Encolho os ombros. Meu tio esquisito.Juntos, percorremos os corredores da loja. Maddy pega em uma arara um

    conjunto marrom, bem anos 70, de cala e jaqueta masculinas e levanta o cabidepara eu ver.

    Acho que voc deve usar algo assim no nosso prximo encontro ela diz,inclinando a cabea como se tentasse me imaginar dentro da roupa.

    Sandor provavelmente queimaria aquelas peas se eu ousasse profanar acobertura levando-as para l.

    Se eu aparecesse vestido assim voc nem sairia de casa. Provavelmente no. Aqui, pegue ela diz.Eu seguro o cabide com a mo que estava livre e, antes que perceba o que ela

    vai fazer, Maddy pega o celular e tira uma foto. Ela ri olhando minha caraassustada no topo da roupa mais horrvel que j vi.

    Perfeito! diz. Vai ser meu novo papel de parede. Agora voc me convenceu, vou ter que comprar esta roupa.Quando vou olhar o preo na etiqueta, ngindo interesse, uma traa sai voando

    da manga da jaqueta. Largo o cabide, como se tivesse achado aquilo nojentodemais, e Maddy comea a rir. Samos da loja depressa, sob o olhar do senhor de

  • idade que est no caixa. Espero no estar com pulgas comento quando chegamos calada. Na verdade, acho que estou vendo uma ela responde.E se aproxima, me inspecionando, depois me d um beijo apressado no rosto.Maddy recua e ri, dessa vez da minha cara de idiota, com certeza. Vejo voc no sbado, Stanley ela diz, descontrada, e acrescenta. Tome um

    banho.

  • C A P T U L OC A P T U L O Q U I N Z E Q U I N Z E

    A grande noite chegou.Sandor e eu estamos na garagem no subsolo do John Hancock. Perlados diante

    de ns, cada um deles protegido por um forro, esto os carros de fuga da coleode Sandor.

    Francamente, nunca achei que precisssemos de mais de um automvel.Sandor, porm, passou a colecion-los depois que chegamos a Chicago, equipandotodos eles com vrios de seus aparelhos. Acho que Cpans tambm precisam dehobbies. A sorte dele que ser Cpan garante recursos nanceiros ilimitados;odeio pensar em Sandor dirigindo uma lata velha.

    Ele levanta o forro de um reluzente conversvel vermelho-escuro e desliza amo com carinho pelo cap. Depois me olha mortalmente srio.

    Por favor, no quero me arrepender disso.Sorrio para ele com ironia, ansioso por me sentar ao volante. Esse sorriso no inspira muita confiana...Mesmo assim, Sandor abre a porta do motorista e eu entro no carro. Ele se

    debrua na janela quando estou ajustando o banco e os espelhos. Qual a velocidade permitida? pergunta. O limite menos quilmetros por hora, sempre recito. Tivemos essa conversa

    a semana toda, desde quando Sandor sugeriu que eu pegasse um dos carros. Usara seta sempre, nunca seguir no amarelo, no levantar a capota. Entendi.

    Acho bom responde Sandor, mais paternal que nunca.Ele parece um pouco ansioso por eu estar segurando o volante e tamborilando

    com os dedos com evidente animao, mas se afasta do carro. Divirta-se diz.Saio da garagem dirigindo com cautela. Sandor, que me observa e coa a barba

    com nervosismo, logo desaparece do retrovisor.Quando estou a alguns quarteires do edifcio John Hancock, aperto o boto

    para abrir a capota. O que Sandor no sabe no vai incomod-lo.

  • Pego Maddy no parque em frente ao centro de recreao. O conversvel anda comoem um sonho e vou encontr-la seguindo todas as regras impostas por Sandor.Exceto, claro, a da capota. O ar fresco da noite me envolve, e me sintoenergizado.

    Nunca me senti to livre.Maddy est sentada no banco quando eu chego, e olha duas vezes ao me ver

    atrs do volante. Aceno para ela. Quer dar uma volta? pergunto. Ah, uau... seu? Do meu tio respondo, dando de ombros como se o carro no fosse

    importante. Ele me empresta.Maddy olha para os dois lados da rua, um pouco apreensiva. Voc dirige bem? Posso confiar?Tudo bem, tecnicamente, no tenho carteira de motorista. Mas tenho uma

    falsicao muito convincente que Sandor fez na ocina. E tambm tenho muitaexperincia ao volante. Na nossa fase nmade, Sandor comeou a me ensinar adirigir assim que meus ps alcanaram os pedais, basicamente para ter ajudaquando estivesse cansado.

    claro que sim respondi.Por um momento ficamos nos encarando, ela testando bem-humorada quanto eu

    era convel e eu fazendo de tudo para parecer inocente. Ento no consigo evitarum sorriso endiabrado.

    Aha! ela exclama apontando. O sorriso de um demnio da velocidade.Antes que eu possa me defender, Maddy salta por cima da porta do passageiro e

    cai no banco ao meu lado. Ela olha para mim e sorri. Sempre quis fazer isso.No consigo desviar meus olhos dela. Nesse momento, Maddy est mais linda

    que nunca. Vejo como ela prende os cabelos num rabo de cavalo, para noembaraarem ao vento. Imediatamente me vejo dirigindo para sempre, saindo deChicago; no importa para onde, desde que Maddy v comigo. Mas alguma coisame incomoda, uma sensao que no consigo identicar, algo errado no que, docontrrio, seria um momento perfeito.

  • Ignoro esse sentimento. Pronta? pergunto. Pronta ela diz.O carro anda e no desvio meus olhos dela.E bato na traseira de uma van estacionada em la dupla. Denitivamente, ela

    no estava ali minutos antes. Uff Maddy geme quando somos jogados para frente. Tudo bem? pergunto, notando que minhas mos tremem incontrolavelmente

    no volante.Estou apavorado com a possibilidade de ela estar machucada, e morticado por

    ter agido como um total idiota. Eu... acho que sim... gagueja Maddy. nossa frente, as portas da van se abrem e trs homens saltam do automvel.

    Esto todos de preto, com chapu Fedora afundado na cabea, cobrindo os rostosplidos.

    S ento percebo que, no bolso da cala, meu iMog est vibrando loucamente.

  • C A P T U L OC A P T U L O D E Z E S S E I S D E Z E S S E I S

    No preciso da vibrao ininterrupta no bolso traseiro da cala para saber que ostrs homens em frente ao meu carro so mogs. Eu conheo o inimigo.

    Eles devem querer as informaes do seu seguro Maddy sugere, abrindo oporta-luvas para procurar os documentos.

    Por um segundo, tento me convencer de que tudo aquilo pode ser umacoincidncia, que eles no sabem exatamente quem ou o que eu sou. Mas noesto olhando para o estrago na van. Amassei muito o para-choque traseiro equebrei uma lanterna, mas eles no parecem se importar.

    Os trs olham para mim. Lentamente, um deles comea a enar a mo nointerior do sobretudo.

    No pode ser coincidncia. Bem que eu queria. Meu encontro est arruinadoantes mesmo de comear.

    Para o inferno com isso resmungo, e engato a r.Os mogs se separam, tentando bloquear o espao por onde ainda posso fugir.

    Como se eu no pudesse passar por cima deles! Piso no acelerador e arranco,obrigando um deles a sair do caminho. Quando engato a primeira e piso fundo denovo, noto que os outros j esto entrando na van.

    O que voc est fazendo?! grita Maddy. Acho que um deles estava armado! grito de volta, ultrapassando um sed

    que seguia devagar. Ficou maluco? Stanley, devagar!Eu fao o oposto. Piso fundo e avano um sinal vermelho. Canto pneu ao virar o

    volante para a esquerda de maneira brusca, quase derrapando na curva. Maddysacode presa ao cinto de segurana, e eu me encolho quando ela grita de dor.

    Pelo espelho retrovisor, vejo a van dos mogadorianos presa no trnsito. Perceboque no estava respirando e deixo o ar sair por entre os dentes.

    Eu quero descer! diz Maddy. Quero sair deste carro imediatamente!Comeo a reduzir a velocidade, tentando me misturar ao trfego. No vai ser

    fcil, considerando que o carro chama muita ateno. Espero que Sandor esteja

  • assistindo a tudo isso em uma das cmeras do sistema que ele invadiu e quemande um planador para me tirar dali.

    O iMog no meu bolso vibra com vigor renovado. Segure-se aviso, pisando no acelerador no instante em que a van surge de

    uma rua lateral, quase atingindo o para-choque do conversvel.A van nos persegue e tenta nos jogar para fora da pista. Outros carros buzinam

    quando passamos em alta velocidade. Maddy olha por cima do ombro, horrorizadacom o veculo que se aproximava e o rosto cruel do motorista.

    Esto bem atrs de ns. A voz dela quase um sussurro. A mo estapertando meu brao, as unhas cravadas na camisa. Por que isso estacontecendo?

    No respondo; no consigo pensar em nenhuma mentira capaz de explicaraquilo.

    Com dedos midos de suor, abro um painel escondido no volante. Sandor seprecaveu para situaes como essa.

    Segure-se aviso.Maddy olha para mim. Sua expresso de pavor no se deve apenas aos

    mogadorianos.Aperto o boto que libera o xido nitroso.O motor do conversvel ronca, depois falha por um momento, e co com medo

    de que o carro no v suportar a modicao feita por Sandor. Mas, em seguida,com um forte solavanco, ele dispara.

    Estamos muito alm do limite de velocidade. Tenho at medo de olhar para ovelocmetro. Mantenho os olhos xos na rua, no trnsito. Maddy est colada nobanco, apavorada. Percebendo nossa aproximao, os outros carros tentam sair docaminho. Os sinais vermelhos passam como raios. Ouo uma sirene e, por umafrao de segundo, vejo luzes azuis piscando no espelho retrovisor, mas ospoliciais cam para trs antes mesmo de conseguirem enxergar a placa doconversvel. Somos quase um vulto.

    Continuo dirigindo at que o iMog pare de vibrar, e entro com o carro em umaalameda isolada e desligo o farol.

    Meu corpo treme, inundado pela adrenalina. No acredito no que acabei defazer, fugir de um bando de mogadorianos em alta velocidade, escapar de umaperseguio que parecia sada de um lme. Sou um heri de lme de ao. Sinto

  • uma mistura de euforia e alvio.E no sei de onde vem a parte seguinte. Talvez seja pura adrenalina, talvez eu

    esteja cando completamente maluco. Mas, antes que consiga perceber o que voufazer, eu me inclino na direo de Maddy e a beijo.

    Acho que no devia ter feito isso. Seu desgraado! ela grita e me empurra.Depois abre a porta, derrubando as latas de lixo que estavam perto. A alameda

    no muito iluminada, mas vejo as marcas das lgrimas em seu rosto.Perplexo com a reao dela, no digo nada quando ela se afasta correndo.Sozinho no conversvel de Sandor, s me resta ponderar sobre a vida cheia de

    aventuras de um heri lorieno.

  • C A P T U L OC A P T U L O D E Z E S S E T E D E Z E S S E T E

    Abandono o conversvel na rua deserta e volto caminhando para o edifcio JohnHancock. Tento usar os becos e as ruas secundrias. Meu iMog no volta a vibrar.No sei de onde aqueles mogadorianos saram, mas sei que foram embora.

    Telefono para Sandor e conto o que aconteceu. Consigo peg-lo quando ele jestava saindo de casa para me procurar. Como suspeitava, ele me monitorou otempo todo e estava muito nervoso.

    Passa da meia-noite quando chego em casa. Sandor est me esperando naentrada do prdio.

    O que aconteceu? No sei respondo. Eles simplesmente apareceram. Uma perseguio em alta velocidade no meio de Chicago? Onde estava com a

    cabea? No tive alternativa.Sandor geme, fazendo um gesto de desdm. Est agindo como uma criana. Voc disse que no havia mogs na cidade protesto. Que estupidez ele continua. Foi loucura deixar voc usar o carro. Deixar

    voc sair de perto de mim. Tudo por causa de uma garota. A propsito, ela est bem retruco. Quem se importa? Sandor devolve furioso. Ela no tem importncia. Voc

    importante. Percebe o que ps em risco? Todos os anos de progresso que destruiuem uma noite, tudo por causa de uma paixo idiota?

    Dou um passo para trs. No fale assim dela.Sandor est agindo como um hipcrita. Foi ele quem me incentivou a ir atrs

    de Maddy no incio.Sandor passa as mos no rosto, exasperado. Onde deixou o carro?Explico mais ou menos a localizao da alameda.

  • Precisamos destru-lo ele anuncia. E nossa presena aqui precisa serminimizada. Vou cuidar disso. Voc... suba e ponha algumas coisas na mochila.

    O qu? Por qu? Vamos partir amanh de manh.

    Cheguei perto. Havia me aproximado muito de ter uma vida que seria mais queapenas Sandor e o treinamento.

    Ando pela cobertura, deixo meus olhos passearem por todos os luxos queacumulamos nos ltimos cinco anos. Cinco anos morando ali com paz e conforto tudo arruinado porque me senti entediado. Quando matei aquele mog no elevador,pensei que as coisas poderiam mudar. Pensei que assumiria meu destino ecomearia a guerra contra os mogadorianos. E pensei que isso me faria feliz.

    Em vez disso, as coisas s pioraram.A melhor sensao com relao morte daquele mog era a de saber que eu

    zera justia. Eu havia decidido quando e como ele morreria. A escolha havia sidominha.

    Porm, agora tinha ainda menos opes. Sandor quer voltar para a estrada, justoagora que eu j comeava a entender algumas coisas. No acho justo que ele tenhasempre que decidir tudo.

    Eu no devia poder opinar sobre nosso prximo passo?

    No consigo pegar as coisas para partir. Ainda me apego esperana de queSandor v mudar de ideia.

    Tento ligar para Maddy, mas as chamadas caem direto na caixa postal. E eu nosaberia o que dizer se ela atendesse. Que tipo de mentira poderia contar? Passoquase uma hora tentando criar uma desculpa para quase t-la matado, por t-laassustado e por no ter nem percebido que estava fazendo tudo isso.

    No fim, decido mandar uma mensagem simplesmente com: Desculpe-me.Sei que no vou dormir esta noite.Passo pela ocina de Sandor e pela Sala de Aula. Existem alguns mdulos

    automticos de treinamento j programados na interface da sala. Escolho um,

  • aleatoriamente, e me posiciono no centro da sala, empunhando o cajado.Quando a primeira bilha disparada da torre de tiros do Palanque, no a desvio

    com telecinesia nem a rebato com o cajado. Deixo que me atinja bem no meio dopeito. Respiro fundo quando a dor explode e irradia pelo esterno.

    Trincando os dentes, uno as mos atrs das costas e me inclino para a frente. Abola seguinte me acerta um pouco mais esquerda, machucando as costelas.

    Quando o terceiro tiro disparado, sou dominado pelo instinto. Eu o desviopara o lado com a telecinesia e giro para o lado oposto, antecipando o disparoseguinte. Giro o cajado no alto da cabea quando o programa acelera os disparos eas pesadas bilhas me atacam pelas costas. Um tentculo mecnico surge do cho etenta me prender.

    A mente alerta se desliga. Eu luto.No sei por quanto tempo permaneo nesse estado, me esquivando e atacando,

    agindo, em vez de pensar. Depois de um tempo sinto que estou suado, a camisacompletamente ensopada. ento que os padres da Sala de Aula mudam; osataques tornam-se menos previsveis, mais coordenados do que os do programa.

    Percebo que Sandor voltou e ocupou sua cadeira diante do painel de controle,os dedos deslizando pelas teclas.

    Nossos olhos se encontram quando salto por cima de um arete blindado. Oolhar dele de tristeza e decepo.

    No arrumou suas coisas ele diz.Estufo o peito e o encaro em dasao. V em frente tenho vontade de dizer,

    atire tudo o que puder contra mim. Eu aguento.Vou provar para Sandor que no sou mais seu menino prodgio. Acho que uma ltima sesso de treinamento antes de irmos embora no vai

    fazer mal nenhum diz ele.Um objeto brilhante do tamanho de uma bola de tnis se eleva do cho,

    emitindo uma luz estroboscpica que me deixa desorientado. Tenho diculdade deenxergar os projteis que so disparados em seguida, mas consigo par-los no ar,usando a fora da mente para mant-los a centmetros do meu peito machucado.

    Isso ainda no foi decidido digo de forma contida, enquanto desvio um dosprojteis na direo da bola brilhante, que explode. Os restos que caem no chopiscam e se apagam.

    O que que ainda no foi decidido? pergunta Sandor.

  • Nossa partida. No?Duas bolsas pesadas voam em minha direo, seguidas por outra saraivada de

    bilhas. Uso o cajado com toda a fora para rebater uma delas, meus msculosprotestando. A arma rompe a bolsa e espalha a areia no cho.

    Um dos projteis me atinge no quadril, mas paro os outros e os atiro de volta aolugar de onde vieram. As torres de tiro na parede comeam a zunir e estalarquando as bilhas entram pelos canos. Elas soltam fumaa e param de funcionar.

    Tenho direito a um voto digo. E meu voto para ficarmos. Impossvel Sandor declara. Voc no entende o que est em jogo. No est

    raciocinando com clareza.Trs planadores brotam do cho. Nunca combati tantos ao mesmo tempo. Um

    deles a torradeira com um motor, aquela que alguns dias antes testamos notelhado. Os outros eu nunca vi. So do tamanho de bolas de futebol, revestidoscom metal, com salincias na parte da frente.

    A torradeira utua na minha frente, distraindo-me dos outros dois que vmpelas laterais. Quando esto em posio, os que parecem bolas de futebol meatingem dom duas descargas eltricas.

    Recuo para o fundo da sala, os planadores me atacando. O ltimo choquedeixou um zumbido em meus ouvidos. Os aparelhos se aproximam, meperseguem. Saio correndo da sala.

    Sem perceber o que estou fazendo, subo pela parede. Minha inteno era us-lapara tomar impulso, saltar e aterrissar atrs dos utuadores, mas alguma coisa estdiferente. No sinto a gravidade. Meus ps esto plantados.

    Estou de p na parede. Com exceo de uma rpida vertigem, no nadadiferente de estar no cho.

    Meu Legado. Desenvolvi um dos meus Legados.Sandor olha para mim e est perplexo demais para ajustar o curso dos

    utuadores. A torradeira se choca contra a parede. De cima, rebato as duas bolascom o cajado, destruindo-as. Sandor grita triunfante.

    Est vendo? V o que capaz de fazer? Meu menino prodgio teve umupgrade!

    Upgrade? pergunto grunhindo.Corro pela parede at o teto. A sala ca de cabea para baixo. Disparo pelo teto,

  • que agora o cho para mim, e vou ganhando velocidade. Quando estou bem emcima de Sandor e do Palanque, salto, giro no ar e acerto o painel de controle commeu cajado.

    O painel explode numa cachoeira de fagulhas. Sandor se joga para o lado,gemendo ao cair em cima do ombro. Meu cajado entrou fundo na frente doPalanque, praticamente o dividindo ao meio. H uma srie de sons agudos eensurdecedores, e ento a Sala de Aula fica escura.

    No sou um dos seus aparelhos! grito na escurido. No pode mecontrolar simplesmente.

    Vejo ashes piscando em meu campo de viso enquanto os olhos tentam seajustar ao escuro. No consigo ver Sandor direito, mas posso ouvi-lo se levantandocom dificuldade.

    Eu no... No isso o que penso diz meu Cpan. Felizmente no posso verseu rosto, a dor em sua voz evidente. Tudo o que sempre z, todos esses anos... Ele para, em busca das palavras.

    Enquanto volto a mim, as lembranas da noite me vm cabea. Percebo o quefiz.

    Nove... Sinto a mo de Sandor em meu ombro. Eu...No quero ouvir. Afasto a mo dele com um movimento brusco e corro.

  • C A P T U L OC A P T U L O D E Z O I T O D E Z O I T O

    O sol comea a se erguer no horizonte. O ar ainda est frio, gelando minha pelesob a camisa ensopada de suor. Sa do edifcio John Hancock s com as roupas docorpo as mesmas que usei no encontro fracassado da noite anterior , meucelular e o iMog nos bolsos traseiros da cala.

    Parte de mim sabe que no m das contas vou precisar voltar para Sandor. Mas,neste momento, fao de tudo para ignor-la.

    Quero saber quanto tempo posso sobreviver aqui fora, sozinho. O dia est scomeando. Posso fazer o que quiser.

    Sinto-me como o Homem-Aranha quando uso meu mais novo Legado para carparado do lado de fora de um arranha-cu qualquer de Chicago, no quinquagsimoandar. Sob meus ps, do outro lado da janela, as luzes automticas do escritrio seacendem. Olho para as ruas l embaixo, para a cidade comeando a despertar.

    Graas ao Legado antigravidade, vejo Chicago por ngulos que nunca tinhaimaginado.

    Corro pelas janelas do arranha-cu e salto o vo estreito que separa asconstrues. No edifcio vizinho, subo ainda mais, pulo por cima de uma grgula eme equilibro na beirada do telhado. Caminho por ali, abrindo os braos como umequilibrista na corda bamba, mesmo sabendo que no existe a menor possibilidadede que eu perca o equilbrio. Centenas de metros acima do cho, e como se euandasse pela calada.

    Isso teria sido bem til naquele primeiro dia no Windy Wall.Noto do outro lado da rua um executivo se acomodando mesa do escritrio

    com seu caf. E aquele o sinal para eu interromper a experincia. No preciso deSandor para me dizer que seria uma pssima ideia ser visto passeando na lateraldos edifcios.

    Salto at o telhado. Fico ali por um tempo, sentado, vendo o sol nascer. Notenho lugar nenhum para ir. Isso tranquilizador. Quando o sol surgecompletamente e o barulho da cidade l embaixo aumenta at atingir os decibisda hora do rush, decido dar uma olhada no celular.

  • Trs mensagens de voz e quatro de texto. Todas de Sandor.Eu as apago.De repente, co muito cansado. No dormi nada na noite anterior. O dia est

    lindo e bem calmo ali no telhado. Comeo a sentir as plpebras pesarem.Deito encolhido numa sombra, perto da beirada. duro, mas meu corpo est

    exausto demais para reclamar de alguma coisa.Por alguma razo, comeo a pensar em meu sonho com Lorien. Penso em como

    me atirei em cima de Sandor, deixando ns dois todos sujos de lama, e em comoele me levantou no alto e sorriu. uma lembrana agradvel. Quero sonhar comisso de novo.

    Mas no sonho com nada. um sono profundo, e quando nalmente acordo o solest se pondo. Dormi o dia todo. Meu corpo est dolorido, tanto pelo esforo fsicoda vspera quanto por eu ter apagado deitado naquela superfcie dura.

    Gemendo e me alongando, eu me sento. Decido dar mais uma olhada no celular,mesmo sabendo o que me espera.

    Mais mensagens de voz e de texto enviadas por Sandor, os textos cada vez maisdesesperados, implorando por saber onde estou, se estou bem. A culpa deixa meuestmago revirado. Em algum momento mandarei notcias, decido. S preciso demais tempo.

    ento que vejo. Uma nica mensagem enviada pelo nico nmero que tenhoem meu celular alm do de Sandor.

    Maddy.Talvez a gente possa tentar de novo, se voc prometer no dirigir.Eu me levanto com um salto e dou um soco no ar, comemorando. Depois de

    tudo o que a z passar na noite anterior, mesmo depois do episdio com o beijo,ela ainda quer me ver de novo. Isso tem que signicar alguma coisa, certo? Comuma simples mensagem Maddy me fez ter certeza de que existe mesmo algumacoisa entre ns.

    Mesmo sabendo que nada para ns vai ser simples ou fcil, que a breveliberdade que tenho agora vai acabar e que vou ter que retomar meu destino mesmo tendo conscincia de tudo isso, eu ainda preciso v-la. Sei que posso

  • consertar as coisas entre a gente. E talvez possa viver nem que seja um nicomomento normal, perfeito.

    Passeio pelo alto dos prdios enquanto o sol se pe, uma sombra acima dostrabalhadores cansados na volta para casa. Trao meu percurso por paredes, janelase cabos eltricos, seguindo para a casa de Maddy.

    Sou cuidadoso ao me aproximar. Os mogadorianos me seguiram na noiteanterior, o que signica, obviamente, que esto atrs de mim. Preciso ter certezade que no h nenhum deles espreita. Podem estar em qualquer lugar. Percorroalguns quarteires por ali, o tempo inteiro no alto, sempre com um olho no iMog.

    No h nenhum sinal de perigo.Analiso o apartamento de Maddy do outro lado da rua. Sinto-me um invasor,

    um espio. Avistar os pais dela seria quase to ruim quanto avistar os mogs.Aparecer sem avisar pode no causar boa impresso com a famlia. No queroacabar tendo que atirar pedrinhas na janela do quarto dela.

    Subo pelo prdio em frente ao dela, tomando cuidado para continuarescondido, e observo as janelas. Maddy me disse que os pais viajam muito. Pareceque dei sorte e esse o caso esta noite. O nico movimento que identico noapartamento o de Maddy deitada no sof com seu laptop.

    A mim parece grosseiro car espiando alm do necessrio, ento deso para arua e me aproximo do prdio da maneira normal.

    Segundos depois de ter apertado o boto do interfone, a voz de Maddy surgefalhando e chiando do outro lado.

    Pronto? Oi digo para o aparelho. o Stanley.H uma pausa demorada, longa o bastante para eu pensar que aquela foi uma

    ideia estpida. Ela pode estar me olhando da janela agora, torcendo para que eudesista, desaparea na noite e a deixe em paz. Ou, pior ainda, pode estarchamando a polcia.

    Fico aliviado quando escuto o som da trava automtica da porta, que me deixaentrar.

    O apartamento dela ca no terceiro andar. Subo a escada. Ela me espera nocorredor usando uma cala larga de pijama, camiseta justa e um casaquinho aberto.

    Tudo bem? Maddy pergunta quando me v.Percebo que minha aparncia deve estar pssima. Estou com as roupas da

  • vspera, depois de passar pelo treino mais pesado de todos os tempos na Sala deAula, e dormi no alto de um prdio. Tarde demais, ajeito os cabelos com a mo etento dar uma alisada na blusa amarrotada.

    As ltimas vinte e quatro horas foram bem difceis falo com honestidade. Acho que sei o que quer dizer. Ela sorri para mim de um jeito nervoso.

    Ento... Desculpe por eu ter aparecido sem avisar falo, tentando contornar o

    desconforto. que... no sei quando vou poder ver voc de novo, e queria pedirdesculpas pessoalmente.

    Obrigada por ter vindo ela responde com um tom aliviado.Depois me abraa, o rosto encostado em meu peito.Eu me permito desfrutar o momento, tentando gravar na memria a sensao do

    corpo de Maddy colado no meu, em meus braos. No me leve a mal ela sussurra , mas voc no est cheirando bem.

    Como eu imaginava, os pais de Maddy esto viajando. Ela me convida para entrar,comentando em tom brincalho que quebrar a regra de no levar rapazes aoapartamento na ausncia deles no nada para quem j quebrou a regra de noparticipar de perseguies em alta velocidade. Dou risada, mas percebo ohematoma aparecendo por baixo do casaco de Maddy, causado pelo impacto docinto de segurana em seu ombro, e novamente me sinto culpado.

    Maddy insiste para eu tomar um banho. Ela me empresta uma cala demoletom do pai e uma camisa desbotada da NASA, e me manda para o banheiro.

    Eu demoro embaixo do chuveiro. A gua quente alivia as dores musculares. Porum tempo, co imaginando que sou apenas mais um adolescente tomando banhodepois de ter entrado escondido na casa da namorada enquanto os pais dela estoviajando. Maddy no minha namorada, mas poderia ser.

    estranho estar em uma casa como aquela. claro que o apartamento no tema opulncia da cobertura no John Hancock, mas compensa em aconchego.Diferentemente de onde Sandor e eu moramos, a casa de Maddy parece realmentehabitada. A moblia tem sinais de uso. H fotos dela com os pais em todos oslugares. Enfeites e lembrancinhas lotam as estantes, souvenires de viagens de

  • famlia. H toda uma histria ali. Eu sinto inveja.Maddy est me esperando no quarto dela quando saio do banho. Percebo que a

    primeira vez que vejo o quarto de um adolescente normal. H fotos de Maddy comos amigos, trofus da escola, psteres de astros do cinema nas paredes. muitodiferente do meu quarto, funcional, ocupado apenas por video games e roupa suja.

    Ela d uma batidinha na cama e me sento a seu lado. Percebo que est tentandodescobrir o que fui fazer na casa dela, por que cheguei naquele estado.

    Diga a verdade ela comea. Voc fugiu de casa? Mais ou menos respondo, meio envergonhado.Deito na cama de barriga para cima e cubro os olhos com um brao. Maddy se

    deita ao meu lado e tenta olhar para mim. Quer falar disso?Eu quero. Mas at onde posso contar? Briguei com meu tio. Por causa do carro? Sim. Quer dizer, no realmente. O carro foi meio a gota dgua. O problema j

    vem de algum tempo.Maddy faz um rudo encorajador, e percebo que ela est segurando minha mo.Ento, as palavras comeam a jorrar. Eu me sinto como se meu tio mapeasse toda a minha vida. Como se eu no

    tivesse nenhum controle sobre decises que me afetam. E quando tento agirsozinho, algo terrvel acontece. Como ontem noite.

    Penso no hematoma no ombro de Maddy. Como que percebendo minha culpa,ela afaga minha mo para me incentivar a prosseguir.

    Quero me afastar de tudo. Da minha vida inteira. Mas sinto que, qualquer queseja a minha escolha, vou acabar me arrependendo.

    Tiro o brao de cima dos olhos e tento enxerg-la no escuro. Isso faz algum sentido?Tenho a impresso de ver lgrimas nos olhos de Maddy. Ela balana a cabea,

    concordando. Sim responde em voz baixa.Ficamos deitados na cama, de mos dadas. Depois de um tempo, como

    aconteceu na Sala de Aula, minha mente desliga. Isso o que eu mais queria.Amanh vou ter que esclarecer as coisas com Sandor, mas, por ora, tudo est

  • perfeito. Normal.Ns dormimos.

  • C A P T U L OC A P T U L O D E Z E N O V E D E Z E N O V E

    Em algum momento, sinto Maddy se levantar e sair do quarto.Eu co naquele estado entre o sono e a viglia, vagamente consciente de que j

    de manh. A cama de Maddy muito confortvel, e no quero me levantar.Sonolento, me permito imaginar quantos dias os pais de Maddy vo passar fora dacidade. Talvez eu possa estender um pouco mais esse perodo de frias.

    Sinto um movimento ao lado da cama. Maddy voltou, provavelmente.Dedos tocam meu brao. So estranhamente frios.Abro os olhos de repente. Dois homens magros e plidos esto parados ao lado

    da cama, os dois de cabelo preto quase raspado.Os mogadorianos me encontraram.Quase mais assustador que os dois rostos feios olhando para mim o espao

    vazio ao meu lado na cama.Maddy. O que fizeram com ela?Sou tomado de assalto por uma srie de medos. Aqueles mogs podem me

    capturar, mas no podem me ferir. No enquanto eu estiver protegido pelo encantode Lorien. Maddy, por outro lado... Podem fazer o que quiserem com ela. Por ummomento, espero que isso seja s um pesadelo excessivamente real. Quando elesse inclinam juntos para prender meus braos e pernas, me imobilizando, vejo queno sonho. Eu me contoro para soltar os ps e chuto o peito do mog com toda afora possvel para o meu corpo ainda adormecido. Ele se desequilibra para trs,cai na escrivaninha de Maddy e derruba suas coisas. A bolsa cai no cho e tudo oque havia nela se espalha perto do trofu de natao novinho e quebrado. Quandoo mog tenta se levantar, acaba derrubando tambm o laptop.

    Destru o quarto dela. Destru a vida dela.O outro mog segura meus pulsos e me prende na cama. Ele grunhe enquanto eu

    me debato, seu rosto to prximo do meu que posso sentir o hlito podre. De fato,seu rosto est to perto que consigo acert-lo com uma cabeada.

    O golpe quebra o nariz do mogadoriano. As mos em meus pulsos perdem forae consigo me libertar. Levanto as pernas e dou uma cambalhota para trs. Meus ps

  • tocam a parede e basta isso para que meu ponto de vista passe a ser outro oLegado antigravidade entra em ao. Estou cara a cara com um mog, ainda que meucorpo esteja perpendicular ao dele, e acerto seu rosto com um soco.

    Os dois mogadorianos cam perplexos com o fato de, de repente, eu estarcorrendo pelo teto. Bom. Isso deve me dar um ou dois segundos de vantagem.Preciso encontrar Maddy e nos tirar dali. Fico imaginando se ela teria uma mala deemergncia pronta e escondida em algum lugar, mas em seguida me dou conta deque ter sempre mo uma mochila pronta para cair na estrada no tpico daspessoas comuns. Penso em pegar a bolsa dela, mas, quando vejo que est tudoespalhado no cho, dzias de documentos com a foto dela sorrindo por que elatem tantas carteirinhas, alis? , sei que no temos tempo. Sandor vai ter que fazeruma nova identidade para ela no caminho.

    Abro a porta do quarto com um chute, sem descer do teto, e salto a parte maisalta do batente. H outro mogadoriano esperando l fora, mas ele no contavacomigo vindo do alto. Os que esto atrs de mim gritam para alert-lo. tardedemais.

    Com um grito, agarro o surpreso mog por baixo do queixo com as duas mos.Depois pulo do teto, puxando a cabea dele para trs. A fsica do movimento impossvel. Ouo os ossos dele estalando quando bato com sua cabea no cho, atesta a poucos centmetros dos calcanhares.

    O mog se desintegra numa nuvem de cinzas. As fotos da famlia de Maddy nocorredor cam cobertas de poeira. Sinto-me culpado mais uma vez. A casa eraperfeita quando cheguei na noite passada, e agora, ao levar a luta para l, acabeipor envolv-la e a sua famlia perfeita em uma guerra intergalctica. Maravilha.

    Corro parede acima, at o teto, e me dirijo sala de estar gritando o nome dela.Os dois mogs do quarto me seguem, um deles com a mo no rosto arrebentado.

    H outros trs na sala. Dois esto nas laterais do sof onde Maddy est sentadacom a cabea entre as mos. No sei se ela est ferida, se est chorando ou as duascoisas.

    Maddy! eu grito. Temos que correr!Ela se encolhe ao som da minha voz, e essa sua nica reao.O terceiro mogadoriano est na porta do apartamento. Ele sorri quando me v.

    uma expresso repugnante; seus dentes so cinzentos, podres, completamentedesalinhados. Ele maior que os outros. Deve ser o lder. Tem na cintura uma

  • espada que parece bem ameaadora, mas nem tenta sac-la. Parece j satisfeito porestar bloqueando a nica sada.

    O que ele no percebe que sempre haver outras sadas se voc souber andarpelas paredes.

    Eu me abaixo e, sem gritar, arranco o ventilador de teto dos os. Adoraria termeu cajado agora, mas o ventilador vai ter que servir.

    Com exceo do lder, todos os mogadorianos vm na minha direo. Salto doteto com o ventilador na mo e acerto o topo da cabea do mog mais prximo. A pde madeira se quebra ao meio ao partir seu crnio. O corpo se decompeimediatamente em cinzas, misturando-se a fragmentos do ventilador no carpete deMaddy.

    Dois eliminados, faltam quatro.Descrevo um crculo enquanto giro o que resta do aparelho. Meus oponentes so

    forados a recuar enquanto ganho impulso. Solto o ventilador, que passa voandoentre os dois mogs. Ambos riem, certos de que errei o arremesso, mas eles nuncaforam meu alvo. Atrs dos dois, a janela da sala se quebra em uma chuva de vidroe madeira que cai na rua l embaixo.

    A est a nossa sada.Um dos mogs consegue me agarrar pelas costas. O outro aquele cujo nariz eu

    quebrei esquece as regras e me agride com um soco. Uma sensao morna seespalha por meu rosto, enquanto um hematoma se espalha pelo dele. Omogadoriano cambaleia. Acerto o estmago do outro com uma cotovelada e mesolto.

    Maddy!, eu grito, correndo at ela. Um dos mogadorianos tenta me segurar.Abaixo bem um dos ombros, como se me preparasse para passar por baixo de umadas bolsas na Sala de Aula, e invisto contra os joelhos dele. O mog rola por cimade mim e cai na mesa de centro.

    Na porta, ouo a risada abafada do lder. No sei por que ele acha engraado verseus comandados apanhando. Pelo menos, tem esprito esportivo.

    Agarro Maddy pelos ombros e a ponho em p. As mos dela cam penduradasao lado do corpo e vejo seu rosto plido. Os olhos esto vermelhos e distantes, semfoco. No quero nem imaginar o que os mogs zeram para deix-la nesse estado.Maddy um peso morto em meus braos.

    Vamos! grito, segurando seus ombros para sacudi-la.

  • Ento, algo estranho acontece. Sinto uma energia se acumulando no centro demeu peito e se espalhando para os membros. Meus dedos formigam. Parece queMaddy tambm sente algo uma corrente eltrica, uma onda de energia , porqueseus olhos recuperam o foco.

    O que... o que est fazendo? ela pergunta com voz trmula.No sei como compreendi, nem mesmo exatamente como z aquilo, mas tenho

    certeza de que um novo Legado acaba de se apresentar, considerando a sensaopela qual sou tomado.

    Confie em mim digo. Faa o que eu fizer, est bem?Seguro Maddy pela mo e corro at a parede mais prxima. O mog de nariz

    quebrado tenta nos impedir, mas chuto uma mesa lateral, que bate nas pernas delee o derruba. Na parede, experimento aquela onda de energia outra vez e,instintivamente, sei que estou compartilhando com ela meu Legado antigravidade.Deve ter sido isso que senti h um segundo. Agora consigo compartilhar meuspoderes com outra pessoa, mas no fao a menor ideia de quanto tempo isso vaidurar. Pulo, ainda segurando a mo dela, e sinto a mudana de eixo quandocomeo a subir pela parede. No incio tenho a impresso de que Maddy vai apenasme deixar arrast-la, mas logo ela comea a me seguir, tambm desaando agravidade alguns passos atrs de mim. Sorrio para mim mesmo ao ouvir suaexclamao de espanto. Maddy no acredita no que est fazendo.

    Estamos quase chegando grito por cima do ombro.Estamos nos aproximando da janela. A liberdade est l embaixo. Percebo que

    no somos mais seguidos. Eles vo nos deixar escapar?De repente, Maddy planta os ps. Paro com um solavanco, ainda segurando a

    mo dela. Viro para encar-la, esperando descobrir que um dos mogadorianos aagarrou.

    Mas ela apenas parou. Maddy?V-la com o olhar baixo, o rosto plido como o de um fantasma, no faz

    nenhum sentido para mim. Alguma coisa me avisa que devo correr, mas noconsigo soltar sua mo. Olho para baixo e vejo que ela est segurando, assustada,uma arma de choque. De onde surgiu aquilo?

    Sinto muito ela diz, e me atinge com uma descarga eltrica.A corrente passa por ns dois. Camos do teto, sacudidos por espasmos e nos

  • contorcendo no cho.E chegam os mogs.

  • C A P T U L OC A P T U L O V I N T E V I N T E

    Recobro a conscincia na parte de trs de uma van. Estou sentado no banco, asmos amarradas nas costas, os tornozelos amarrados. Percebo que estamos em altavelocidade. Minha coluna bate de maneira desconfortvel contra o metal da lateraldo veculo.

    Maddy est sentada na minha frente. Aquela expresso distante, sem foco,voltou ao seu rosto. Os olhos esto xos no piso da van. Os mogadorianos nem sederam o trabalho de amarr-la. Comeo a entender por que, mas afasto essa ideia.No estou pronto para pensar nisso agora.

    Ao lado de Maddy est o mog grandalho que guardava a porta do apartamento.Ele gira um pequeno objeto entre as mos, estudando-o.

    meu iMog.O mogadoriano percebe que estou consciente e o observo. Seus lbios se

    retraem e sou forado a encarar de perto aquele sorriso repugnante. Brinquedo bonitinho ele diz, mostrando meu iMog. A tela est cheia de

    pontos vermelhos. Pena que dessa vez no o ajudou em nada.Ele esmaga o equipamento entre as mos e joga o que sobrou dele no piso da

    van.O mog se diverte enquanto me debato contra as amarras. As argolas de metal

    que me imobilizam no cedem nenhum milmetro, continuam apertando meuspulsos e tornozelos. Olho com ateno a parte de trs da van; os bancos dos doislados so presos ao piso, uma tela de metal nos separa do motorista, e nada maisque chame minha ateno.

    No h como fugir.Penso em me jogar em cima dele. Talvez consiga me aproximar o bastante para

    mord-lo. Porm, no estou apenas com os braos e os tornozelos presos tambmestou acorrentado ao banco. Eles tomaram todas as precaues.

    Vai ter que ir comigo o mog comenta, sentindo minha resignao.Encaro o inimigo rangendo os dentes. Ele responde com um sorriso. Fale, onde est seu Cpan?

  • Rio de Janeiro respondo, escolhendo o primeiro lugar que me vem mente.Ele debocha. Acha que somos burros? Sim, eu acho. Muito burros. Hum. Encontramos voc, no foi? Um dos meus comandados est

    desaparecido. No ltimo contato ele disse que estava margem do lago emChicago, seguindo um garoto cuja descrio correspondia sua. Se meucomandado desapareceu, voc deve t-lo levado para algum lugar. Portanto, vocdeve ter um esconderijo seguro na rea. Ele chuta os pedaos do meu iMogquebrado. Deve ter tido alguma vantagem sobre ele.

    Tento manter minha expresso vazia, mas, por dentro, estou gritando. A culpa toda minha.

    Onde est seu Cpan? repete o mog. Onde fica seu esconderijo? Ento no sabe? pergunto. Que falta de sorte, cara. Acho que est sozinho

    nessa.Ele suspira. Quanta coragem! O que me pergunto se vai continuar valente quando eu

    matar todos os outros que antecedem seu nmero, seja ele qual for.Penso depressa. Tento deduzir o quanto eles sabem. J tinham minha descrio,

    sabiam que eu gostava do lago e deduziram que tnhamos um jeito de identicarque eles se aproximavam. O que mais podiam saber? O que contei a Maddy sobreminha vida?

    Maddy. Olho para ela. S pode ser. Ela os estava ajudando. Mas, por qu? E hquanto tempo? Eles a teriam encontrado depois da perseguio de carro? Teriamusado algo para coagi-la? Ser que ela um deles? Descarto a ltima hiptese. MeuiMog teria me alertado.

    Lembro a confuso que a luta com os mogadorianos deixou no quarto deMaddy, o contedo de sua bolsa espalhado pelo cho. Vrios documentos. Muitomais do que o normal. No calor da batalha, no pensei em nada disso. Ascarteirinhas, parecidas com aquela que eu tinha para frequentar o Windy CityWall, mas diferentes. Percebo que eram carteiras de associao de centros derecreao espalhados por toda Chicago.

    Meu estmago se revira quando penso em como Maddy olhou para mimnaquele primeiro dia. Muito interessada, no incio, mas nervosa quando viu que eu

  • havia notado sua presena. E depois ela desapareceu antes que eu pudesse meaproximar e conversar.

    Vocs estavam me procurando digo, perplexo.O mogadoriano se reclina no banco, passando o brao sobre os ombros de

    Maddy. Ela estremece e tenta se afastar, mas ele a segura.A maneira como ela apareceu na loja de objetos usados. Tirou uma foto minha.

    Depois os mogs naquela van, na noite do nosso encontro. Como ela cou furiosa aonal da perseguio de carro. Nada daquilo era coincidncia. Por mais que eu noqueira aceitar, de repente o interesse de Maddy por mim comea a fazer sentido.

    Vocs, lorienos, gostam de agir como se fossem poderosos e melhores quetodos os outros, mas se comportam exatamente como os humanos. Basta aparecerum rostinho bonito, e perdem a capacidade de julgamento.

    Ele aperta a bochecha de Maddy. Tento me lanar para a frente, mas s consigosacudir as correntes e ferir meus pulsos. O mogadoriano disfara o sorriso.

    Um perfeito cavalheiro ele comenta. to idiota que no percebe o queaconteceu? Ela o traiu, menino. A garota trabalha para ns. Estamos com ela halgum tempo, mas no sabamos como us-la. Humanos. Uns inteis, sabe? Masquando pedimos a ela que encontrasse voc, o trabalho foi magnco. No , meubem? Ele a abraa mais forte, com um carinho debochado.

    Sei que tudo o que diz verdade, to real quanto o choque que ela disparoucontra mim h algumas horas, mas no quero acreditar. Tem que haver umaexplicao.

    Ignoro o mog, tento atrair o olhar de Maddy. Por qu? pergunto a ela.Maddy comprime os lbios, quase como se tivesse que se esforar para no falar

    nada. O mogadoriano responde por ela. O pai dela, o tal astrnomo, viu algo que no devia ele diz. Esses

    primitivos e seus telescpios de vez em quando tm sorte. Fomos forados a deteros pais da mocinha.

    Percebo o sofrimento no rosto de Maddy enquanto o mogadoriano concluialegremente sua explicao.

    Ela fez uma troca. Voc pelos pais.

  • C A P T U L OC A P T U L O V I N T E E U M V I N T E E U M

    O mogadoriano passa as horas seguintes tentando arrancar de mim algumainformao, alternando entre a provocao e o terrorismo. Fico no mais absolutosilncio e, depois de um tempo, ele desiste. Mas sei que ainda no acabou.Seguimos viagem calados.

    Eu encaro Maddy. Ela no me olha nem uma vez.Se o que o mog me disse verdade e deve ser, ou Maddy teria se defendido ,

    ela me enganou desde que a vi pela primeira vez. A conexo que senti entre nsera uma farsa, algo em que me permiti acreditar porque estava desesperado esozinho. Fui muito estpido ao pensar que uma garota como Maddy se interessariapor mim.

    No entanto, quanto mais observo o rosto dela, mais consigo me convencer deque, talvez, no tenha sido apenas um truque mogadoriano. Ela parece apavorada,como se estivesse presa em um pesadelo que se recusa a terminar. Mas no sterror que a impede de olhar para mim. culpa.

    Ela no se sentiria culpada se nunca houvesse existido nada entre ns. Ousentiria?

    Sandor estava certo. Eu me comportei como uma criana.Sei que a atitude mais responsvel seria continuar em silncio, manter a

    expresso distante at identicar uma oportunidade de fuga. Mas preciso saber averdade.

    Alguma vez gostou de mim? pergunto a Maddy.Ela se encolhe quando eu falo. O mogadoriano aplaude, encantado, mas eu o

    ignoro. Lentamente, Maddy levanta a cabea e olha para mim. Eu... s... sinto muito gagueja. Lamento no ter tido a chance de conhecer

    voc melhor. Que romntico... debocha o mog. Em seguida ele pega Maddy pelos ombros

    com violncia e cobre a cabea dela com um capuz preto. Voc o prximo,garoto apaixonado diz, enfiando outro capuz na minha cabea.

    No tive a chance de perguntar a Maddy o que ela quis dizer com aquilo.

  • Sentado no escuro, tento me colocar no lugar dela. O que eu faria se osmogadorianos raptassem Sandor e me forassem a trabalhar para eles?

    Eu os teria matado, claro. Mas Maddy no tinha essa opo.Percebo que no a culpo. Como ela poderia ter agido de outra maneira? Maddy

    no fazia ideia do que realmente estava em jogo.Ainda posso consertar tudo isso. Posso fugir, e vou levar Maddy comigo. No

    interessa o que ela fez. Sei que ela no o verdadeiro inimigo.

    A van para e os mogadorianos nos empurram para fora. Tropeamos na escurido,caminhando primeiro por um terreno acidentado, que imagino ser uma oresta,depois por um piso de grade que faz nossos passos ecoarem. No sei para onde osmogadorianos nos levaram, mas parece ser um lugar grande, escuro emovimentado, porque a atividade reverbera nossa volta.

    Por um tempo acompanho os passos de Maddy atrs de mim, mas em umdeterminado ponto os mogadorianos a levam em outra direo. Eles me empurrampara frente, fazendo-me arrastar os ps sem jeito por causa dos tornozelosacorrentados. Sigo por passarelas estreitas e corredores sem fim.

    Finalmente, paramos. O mogadoriano da van puxa meu capuz, arrancandotambm alguns os de cabelo. Estamos em uma sala escura, sem moblia nem nadaque possa identic-la alm de uma grande janela recortada em uma parede.Outros mogs esto reunidos ali, a maioria me olhando de esguelha, outros olhandopela janela, animados.

    Achei que gostaria de ver isso diz o lder, segurando meu cotovelo para mepuxar at a janela.

    A sala uma espcie de observatrio. Do outro lado da janela, abaixo de ns,vejo Maddy andando por uma grande sala vazia. Ao v-la ali sozinha, sinto meuestmago ferver.

    Uma porta no lado oposto da sala se abre com um rangido, e um homem e umamulher de meia-idade caminham lentamente. Os dois esto magros e sujos. Ohomem est especialmente maltrapilho, uma das mangas da camisa socialamarelada foi rasgada e est enrolada na testa, uma bandagem improvisada. Amulher precisa ampar-lo enquanto os dois se aproximam de Maddy.

  • Prometi que ela teria os pais de volta quando nos trouxesse voc resmunga omog. Devo dizer que foi um trabalho benfeito.

    Maddy atravessa a sala correndo e quase derruba os pais quando os abraa. Elesa abraam tambm e, mesmo de longe, noto que todos esto chorando. Encosto atesta no vidro, desejando poder estar l embaixo com eles.

    Porm diz o mogadoriano , nunca falei que os deixaria ir embora.Ouo a besta antes de v-la, um rugido feroz que faz tremer as paredes nossa

    volta. Os mogadorianos que esto minha direita e esquerda se animam quandoa criatura aparece. Sandor me falou sobre o piken e o papel que desempenharamessas criaturas na destruio de Lorien, mas eu nunca tinha visto umapessoalmente. O piken grande como um caminho; o corpo lembraria o de umtouro, no fosse pelas duas patas extras e pela leira de espinhos retorcidos queacompanha a curvatura da coluna. A cabea, estreita, parece a de uma serpente, e aboca babada um rasgo repleto de presas tortas.

    O pai de Maddy o primeiro a ver o piken. Ele tenta se colocar entre a famliae a besta, mas est muito fraco. Cai apoiado em um dos joelhos antes mesmo de acriatura comear a rode-los.

    Maddy est olhando para cima, para a janela do observatrio. No sei ao certose pode me ver. Ela balana os braos e grita. difcil ouvir exatamente o que dizdo outro lado do vidro grosso, mas acho que : Voc prometeu!

    Ela repete muitas vezes.Ento, quando o piken se aproxima, as palavras mudam. Dessa vez no tenho

    dificuldade para ler seus lbios: Stanley!, Maddy est gritando. Ajude-nos!Eu vomito.Sinto o gosto da bile. Caio de joelhos, humilhado, desviando o olhar da cena

    grotesca l embaixo.Os mogadorianos riem e aplaudem. Para eles, aquilo como um esporte.O grando bate no meu ombro como se fssemos amigos. Se serve de consolo diz , logo, logo ser voc l embaixo.

  • C A P T U L OC A P T U L O V I N T E E D O I S V I N T E E D O I S

    Minha vida se resume a flexes e silncio.Os mogs me trancaram em uma pequena cela e parecem ter me esquecido. Aqui

    no h noite nem dia, pelo que posso notar, e eles s me alimentam quandoquerem. Registrar a passagem do tempo impossvel. Por isso fao exes. Nocho, nas paredes, no teto onde possvel nesta minscula priso.

    Penso em Sandor. Acredito que ele ainda est l fora procurando por mim. Umdia, vai me encontrar. Vamos sair daqui e eu vou matar todos os mogadorianos quese atreverem a cruzar meu caminho.

    Antes, eu me considerava em boa forma, mas estou cando maior e mais forte.Pelo jeito como os mogs que me trazem a comida mantm uma distncia cautelosa,percebo que eu os intimido.

    Fico contente. Eles que pensem no que vai acontecer quando eu sair daqui.Espero que sonhem com isso como eu sonho.

    s vezes, o grande mogadoriano que me capturou, ou um dos outros queparecem importantes, param na frente da minha cela para perguntar qualquercoisa. Onde escondi meu aparelho de transmisso? O que sei sobre a Espanha?

    Eu nunca respondo. No falo desde o primeiro dia neste lugar. Resmungo erosno, e mostro os dentes. Deixo que pensem que enlouqueci, que o cativeiro metransformou em alguma espcie de animal. Talvez seja verdade.

    Quando durmo, tenho pesadelos. So to reais quanto a viso que tive deLorien, mas no trazem conforto. Neles, um enorme mogadoriano coberto detatuagens e cicatrizes horrorosas aponta na minha direo uma arma dourada emforma de um martelo gigantesco. Na parte plana h um olho preto pintado, umolho que pulsa quando apontado para mim, deixando a sensao de que minhasentranhas esto sendo arrancadas.

    De algum jeito, sei quem o monstro gigantesco. Setrakus Ra. Meu inimigo.Dormir ruim, mas, s vezes, car acordado ainda pior. H dias em que

    parece que no consigo respirar. como se a priso inteira estivesse nas minhascostas. A necessidade de escapar torna-se primordial nesses momentos, e eu me

  • jogo contra o brilhante campo de fora azul que me mantm na cela, deixando meucorpo ser atirado de volta para o pequeno espao at me sentir exausto demais paracontinuar.

    Ento, surge a nusea. Aprendo a combat-la. A cada vez que me choco com ocampo de fora a dor diminui um pouco.

    Tento no pensar em Maddy.Certo dia, os mogadorianos me tiram da cela. Se tivesse que arriscar um

    palpite, diria que estava ali havia meses.Eles me levam a uma cela diferente, onde me colocam atrs de outro campo de

    fora azul. O mogadoriano grande, da van, est na sala, sentado no que eureconheo imediatamente como uma Arca Lrica.

    Minha Arca Lrica. Ns o encontramos em Ohio o mog conta sem nenhuma emoo.

    Bisbilhotando na redao de um pequeno jornal que estvamos vigiando.Procurando voc. O mog aperta um boto e um painel no fundo da cela selevanta.

    Meu corao para quando vejo o que h ali atrs.Sandor. Meu Cpan est pendurado no teto de cabea para baixo. Foi muito

    espancado, est com os dois olhos roxos, os lbios inchados, o tronco coberto demarcas. Pior de tudo, talvez, eles arrancaram tufos de seus cabelos sempreimpecveis e deixaram seu terno elegante em frangalhos.

    No mais o homem de que me lembro. Os mogadorianos o destruram. Meusolhos se enchem de lgrimas, mas consigo segur-las.

    Sandor respira fundo quando me v. Gostaria de saber quanto estou diferentedepois desses meses no cativeiro. difcil armar, com o rosto dele to inchado ecoberto de hematomas e ferimentos, mas Sandor parece quase feliz.

    Sinto vergonha de mim mesmo tanto por ser culpado pela captura dele,quanto por estar impotente.

    Meu menino prodgio ele sussurra.O mog olha para mim. Est segurando uma adaga que parece perigosa. Essa sua coisinha de voto de silncio est divertida ele diz. Mas termina

    hoje.Ele se aproxima e desliza de leve a lmina pelo peito de Sandor. No acredito que saiba de qualquer coisa reete o mog que me capturou.

  • Nada que j no saibamos, pelo menos acrescenta, dando de ombros. Mas voutorturar seu Cpan mesmo assim. At que voc me pea para parar.

    Ele quer me dobrar. No digo nada. Lembro as aulas de Sandor sobre o quefazer, caso o inimaginvel acontecesse e eu fosse capturado. No d nada a eles,ele me ensinara. A menor informao pode prejudicar os outros Gardes que aindaesto escondidos. No permita que eles o enfraqueam.

    Espero que no seja tarde demais para fazer Sandor se orgulhar de mim.Olho nos olhos dele. Ele sustenta meu olhar at o mogadoriano comear a feri-

    lo; cortes precisos, cirrgicos, cortes que devem doer muito, mas no soprofundos o bastante para matar. Meu Cpan fecha os olhos com fora, o gritoabafado pela mordaa.

    Quando o mogadoriano termina, Sandor j desmaiou de dor. H uma poa desangue no cho, debaixo dele.

    Eu continuo em silncio.No dia seguinte, tudo recomea.Mantenho o corpo ereto e a boca fechada. Quando Sandor consegue olhar para

    mim, acredito ver uma ponta de orgulho em seus olhos.Isso continua por dias. Depois de cada sesso, os mogadorianos me devolvem

    cela, onde tremo incontrolavelmente at a rotina recomear.Quando eles decepam os dedos de Sandor, tenho que virar o rosto.Na sesso seguinte, o mogadoriano murmura desanado uma cano enquanto

    corta o corpo de Sandor. Meu Cpan oscila entre a conscincia e a inconscincia.Espero ele fazer contato visual comigo antes de, finalmente, falar.

    Lamento por tudo digo, e minha voz soa spera aps meses de silncio.O mog se vira para me olhar, surpreso. O que disse?Quase incapaz de se mover, Sandor balana a cabea de maneira praticamente

    imperceptvel, como se me absolvesse da culpa por todos os erros que nos levaramat ali. No encontro paz no perdo, mas talvez Sandor a encontre no ato deperdoar.

    Ele fecha os olhos.E algo em mim se rompe. Reunindo toda a minha energia, eu me atiro contra o

    campo de fora, ignorando a dor. H um zumbido, um estalo, depois o som de umapequena exploso, e descubro que estou cado no cho da sala, olhando para os

  • mogadorianos cujos rostos monstruosos expressam o choque diante do queconsegui fazer. Desativei o campo. Passei por ele.

    Sei que s tenho um segundo para agir antes que o elemento surpresa perca seuefeito. Afasto a tontura e a nusea e tento usar a telecinesia para tirar a adaga damo do mogadoriano, mas nada acontece. O campo, de algum modo, deve teranulado meus Legados. Por ora, vou ter que contar apenas com a parte de mim que humana. Comum.

    Os mogadorianos correm na minha direo, mas estou pronto para enfrent-los.Dou um chute no estmago do primeiro, ele ca sem ar e eu o atiro longe; puxooutro pelos tornozelos, tirando seu apoio. A cabea dele faz um estalo alto ao baterno cho e em um pulo estou de p. Os dois foram nocauteados, mas no por muitotempo.

    Pego a adaga que o mogadoriano da van deixou cair e tento decidir qual delesvou matar primeiro, quando escuto um gemido atrs de mim. Sandor.

    No ele murmura.Viro-me para olh-lo, e o encontro novamente de olhos abertos. Tenho a

    impresso de que ele est usando toda a energia que lhe resta para falar. No eles diz meu Cpan. No vai adiantar. Vai haver mais. Ento...? pergunto. A voz ca presa na garganta. Isso no justo. No

    como deveria. O que eu fao? Voc sabe o que tem que fazer ele diz. No posso. No vou conseguir. Voc sempre soube que eu morreria por voc. Que morreria por Lorien.Quase discuto com ele, mas no h tempo. Os mogs atrs de mim comeam a se

    mexer. Sei que ele est certo. E sei o que devo fazer.Pego a adaga e a enterro fundo no corao de Sandor.Meu Cpan est morto.Fico praticamente alheio enquanto eles me tiram de perto de Sandor e me

    arrastam de volta para a cela. Esto gritando comigo, gritando como loucos, maisfuriosos do que jamais os vi mas como se falassem outro idioma. No sei o queesto dizendo, nem me interessa saber.

    O que z foi um gesto de misericrdia. O ltimo que me restava. No haveroutro se eu tiver mais uma chance.

  • C A P T U L OC A P T U L O V I N T E E T R S V I N T E E T R S

    Os mogadorianos me deixam apodrecer na cela; o nico contato se resume a umaou outra bandeja de comida empurrada por baixo da porta. Tento passar pelocampo de fora novamente, vrias vezes, mas no funciona. Deve ter sidoreforado. Esto com medo de mim.

    No posso culp-los. s vezes tambm tenho um pouco de medo de mim.Eu me agarro lembrana de Sandor e de Maddy, revivendo mentalmente seus

    ltimos momentos. Sinto a raiva ferver e minha mente se desliga. Quando volto amim, estou suando, os ns dos meus dedos sangram e a parede de pedras da celaest lascada. Perdoei Maddy, mas no me perdoei.

    No h mais nada a fazer alm de esperar, lembrar e me fortalecer.E ento, um dia acontece.Posso dizer que tem algo errado. Ouo um estrondo que vem de baixo da cela e

    faz com que poeira caia do teto. O barulho dos mogadorianos correndo em grupos,passando pela frente da cela, falando alto e apavorados. O que ruim para os mogspode ser bom para mim.

    Sinto uma descarga de energia como no sentia desde a primeira vez queSandor me deixou treinar vontade na Sala de Aula. No consigo parar de abrir efechar as mos.

    Chego perto da porta, o mais perto possvel sem acionar o campo de fora.Sinto-me como um touro de rodeio segundos antes de ser libertado da baia.

    Quando o campo de fora tremula e desaparece, quase no consigo acreditar. Aluz azulada fez parte do meu mundo por tanto tempo, que preciso de um momentopara me acostumar sua ausncia.

    Ouo uma voz do outro lado da porta. No de um mogadoriano; a voz de umadolescente. No sei o que ele est perguntando e no me importo.

    Cale a boca e se afaste, garoto!Arranco a porta e a jogo no corredor. Sou mais forte do que me lembrava. Parte

    do teto desaba com o impacto da porta e eu vejo dois garotos, o maior deles usandotelecinesia para proteger-se e proteger o amigo dos escombros.

  • Um Garde. At que enfim.Uma criaturinha com ar estpido aponta uma arma para mim. Suas mos

    tremem muito. O Garde me olha atentamente, depois coloca no cho as duas Arcasque est carregando. Uma delas a minha.

    Que nmero voc ? ele pergunta. Eu sou o Quatro.Eu o analiso. Por alguma razo, esperava que o Garde fosse maior. Quatro deve

    ter a minha idade, mas parece ser bem mais novo. Mais novo e mais fraco.Aperto a mo dele. Sou o Nove. Fez um bom trabalho se mantendo vivo, Nmero Quatro.Quatro e o outro garoto, um humano chamado Sam, me explicam o que esto

    fazendo ali enquanto vasculho o contedo da minha Arca. No estou ouvindo,realmente, at que eles chegam histria de Sam: o pai desaparecido,possivelmente capturado por mogs. Gostaria de poder salv-lo. Queria poder salvartodo mundo. Mas no posso. E quem estava l para salvar Maddy? Quem estava lpara salvar Sandor?

    Pego uma pedra de dentro da Arca. Lembro-me de Sandor usando-a quandoestava desmontando um aparelho especialmente complicado. A pedra lhe permitiuenxergar atravs da coisa, ver suas engrenagens. Deve servir para Sam enxergaratravs das paredes e talvez encontrar o pai. Ele s precisar de um pouco decombustvel.

    Pressiono o polegar contra a testa de Sam, compartilhando meu poder com ele.Voc tem cerca de dez minutos. V!Ele desaparece pelo corredor.E ento que os mogs finalmente chegam.Eles invadem o corredor. Pego meu cajado de dentro da Arca e corro ao

    encontro deles. Subo pela parede, disparo pelo teto, alcano uma velocidade queno me lembro de ter alcanado antes. Eles no me veem chegar, at que pulo nomeio do grupo e empalo dois deles com o cajado.

    Esperei muito tempo por isso.Sinto uma espcie de vertigem quando corro entre os caras maus, quebro uma

    cabea aqui, esmago um esterno ali. Giro entre as leiras inimigas, rodando ocajado enquanto me movimento. O mog que me capturou e torturou Sandor est noprimeiro grupo? No importa; todos vo morrer do mesmo jeito. Vou peg-lo, agoraou mais tarde.

  • No percebo que estou rindo at sentir na boca o gosto amargo das cinzas dosmogadorianos.

    E as saboreio.A luta termina depressa demais. Volto correndo pela parede e em segundos me

    junto a Quatro e a Sam, deixando para trs uma nuvem de cinzas. Quero mais.Temos que ir, anuncia Quatro.No quero. Quero destruir aquele lugar. Mas alguma coisa me diz que devo

    ouvir o garoto, que temos que ficar juntos. Esse seria o desejo de Sandor.Temos que lutar para sair dali. Minha mente se desliga quando a luta se torna

    mais feroz. Em algum momento percebo que Quatro e eu nos separamos de Sam.Lamento pelo menino mais um humano atingido pelos efeitos colaterais.

    Minha piedade rapidamente sufocada pela necessidade de destruircompletamente aquele lugar.

    Cravo o cajado no pescoo de um piken. Estou montado no animal quando eledesaba e o sangue respinga em mim, misturando-se camada de cinzas dosmogadorianos. Sinto seu sabor se misturando ao gosto metlico do meu prpriosangue.

    Estou sorrindo. Quatro olha para mim horrorizado, como se eu no fosse muitomelhor que os monstros que estamos matando.

    Voc maluco? ele pergunta. Est gostando disso? Passei um ano trancafiado respondo. Este o melhor dia da minha vida! verdade. Nunca me senti to bem. Porm, tento disfarar o prazer que sinto

    com tudo aquilo. No quero assustar Quatro.Apesar de me condenar, Quatro no hesita em segurar minha mo quando

    precisamos do meu Legado antigravidade para escapar. uma luta demorada ebrutal. Quando nalmente vislumbramos a luz do dia, co decepcionado. Queriaque aquilo nunca acabasse. Olho para Quatro. Ele est bem machucado, mas matouvrios mogadorianos e pikens na fuga, mesmo no tendo o meu entusiasmo.

    Talvez ainda possamos fazer dele um guerreiro.Escapamos da base mogadoriana e respiro com avidez meus primeiros sopros

    de ar fresco em mais de um ano. Imediatamente, sou dominado pela nsia devmito. O cheiro de animais mortos insuportvel.

    Quatro e eu corremos para as rvores. Ele quase no chega l, e desmoronaencostado a um tronco. Est sicamente esgotado e, a julgar pelas lgrimas,

  • mentalmente tambm. Est se culpando por ter abandonado Sam.Sei uma ou duas coisinhas sobre culpa, mas no sei o que dizer ao garoto.

    Levante a cabea, campeo, da prxima vez vamos acabar com eles. Tudo em quepenso parece vazio, ento fico calado.

    Com o tempo ele vai aprender a se distanciar das emoes. Emoes podemmatar voc. E tambm os outros.

    Estou tratando as costas do Quatro com uma pedra de cura quando o cucomea a escurecer, como se anunciando uma terrvel tempestade. Quatro chega apensar que Seis chegando para nos ajudar.

    No . Setrakus Ra.Apesar de v-lo em minhas vises, no estou preparado para seu tamanho.

    maior do qualquer mogadoriano que j vi, completamente repulsivo, mesmo delonge. Os trs pingentes lricos que vejo brilhando em seu pescoo me fazemcerrar os punhos com fora, as unhas cravadas nas palmas.

    De repente entendo perfeitamente para que Sandor me treinou. Esta a minhabatalha. Matar Setrakus Ra o destino que tenho perseguido.

    Juntos, Quatro e eu atacamos.

  • C A P T U L OC A P T U L O V I N T E E Q U A T R O V I N T E E Q U A T R O

    Ele est bem?, pergunto.Ele precisa descansar, diz uma voz em minha cabea, como a de um Chimra.

    Falar com animais, essa nova. O dia foi repleto de surpresas. Aconteceu tantacoisa, que nem tive tempo para pensar sobre meu Legado descoberto recentemente.Terei tempo para isso mais tarde, quando as coisas se acalmarem.

    Se elas se acalmarem.Quatro est deitado no banco de trs do SUV, praticamente encolhido. Seu

    Chimra, cujo nome foi tirado de um frgil atleta humano, est deitado ao ladodele, lambendo seu rosto com delicadeza. Lembro o sonho que tive, um sonho noqual eu brincava com meu Chimra em Lorien, mas empurro a recordao para ofundo da mente, junto com todas as outras coisas que quero esquecer.

    A guerra comeou. S tenho um objetivo.O covarde Setrakus Ra fugiu para a base mogadoriana antes que consegussemos

    peg-lo. Com Quatro sofrendo os efeitos devastadores do campo de fora e semnenhuma possibilidade de voltarmos ao interior da base, decido que hora de umaretirada estratgica.

    O dia de Ra vai chegar. Quando disse a Quatro que o esfaquearia uma vez paracada dia que seu povo havia passado torturando Sandor, falei srio.

    Dou a partida. a primeira vez que dirijo desde aquela noite fatdica comMaddy. Penso em como ela agarrou meu brao enquanto eu ultrapassava farisvermelhos, mas tambm afasto essa memria.

    Ento, qual vai ser nosso prximo passo? pergunto a Quatro. Vamos para o norte ele diz. Acho que o norte uma boa opo. Voc manda, chefe.Eu j sabia para onde iramos, mas mais fcil no ter que convencer Quatro.Vai ser bom rever Chicago. Tenho certeza absoluta de que os mogadorianos

    nunca encontraram nossa casa, nosso esconderijo seguro eles teriam anunciado adescoberta com orgulho, teriam usado isso para me desmoralizar ainda mais. Oapartamento ainda deve estar l, na cobertura do John Hancock Center, um lugar

  • seguro onde poderei planejar nosso prximo passo.Um lugar repleto de lembranas dolorosas que terei que ignorar.Dirijo para o norte, pisando fundo no acelerador. irnico. Finalmente tenho

    minha liberdade. Mas houve um preo. Agora posso escolher meu destino.E j o escolhi.O dia de hoje car marcado nos livros de Histria dos mogadorianos como um

    dia sombrio. O dia em que eles me deixaram escapar. Em qualquer recanto sinistrodo universo onde se renam os mogadorianos que conseguiram fugir, o dia de hojeser discutido em voz baixa, como a data em que a aniquilao de sua raa tornou-se uma certeza.

    Eu vou matar todos eles.

  • Sobre o autor

    Pittacus Lore o Ancio a quem foi conada a histria dos nove lorienos. Passouos ltimos doze anos na Terra, preparando-se para a guerra que decidir o destinodo planeta. Seu paradeiro desconhecido.

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    Eu sou o Nmero Quatro O poder dos seis

    Os arquivos perdidos: Os Legados da Nmero Seis

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