Os arquivos do Semideus - Rick Riordan

Download Os arquivos do Semideus - Rick Riordan

Post on 24-Jul-2016

213 views

Category:

Documents

0 download

DESCRIPTION

 

TRANSCRIPT

  • DADOS DE COPYRIGHT

    Sobre a obra:

    A presente obra disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com oobjetivo de oferecer contedo para uso parcial em pesquisas e estudos acadmicos, bem comoo simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.

    expressamente proibida e totalmente repudivel a venda, aluguel, ou quaisquer usocomercial do presente contedo

    Sobre ns:

    O Le Livros e seus parceiros disponibilizam contedo de dominio publico e propriedadeintelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educao devemser acessveis e livres a toda e qualquer pessoa. Voc pode encontrar mais obras em nossosite: LeLivros.link ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.

    "Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e no mais lutando pordinheiro e poder, ento nossa sociedade poder enfim evoluir a um novo nvel."

  • Copyright 2009 Rick RiordanCopyright das ilustraes 2009 Steve JamesCopyright das ilustraes dos personagens no encarte 2009 Antonio CaparoEdio em portugus negociada por intermdio de Nancy Gallt Literary Agency e SandraBruna Agencia Literaria, SL.

    TTULO ORIGINALThe Demigod Files

    PREPARAOAna Jlia Cury

    REVISOMaria da Glria de CarvalhoMaria de Ftima Maciel

    REVISO DE EPUBJuliana Latini

    GERAO DE EPUBSimplssimo

    E-ISBN978-85-8057-089-2

    Edio digital: 2011

    Todos os direitos desta edio reservados

    EDITORA INTRNSECA LTDA.Rua Marqus de So Vicente, 99/30122451-041 GveaRio de Janeiro RJTel. / Fax.: (21) 3206-7400www.intrinseca.com.br

  • Para Otto e Noah,

    meus sobrinhos semideuses.

  • SUMRIO

    Carta do Acampamento Meio-Sangue

    Percy Jackson e a quadriga roubada

    Percy Jackson e o drago de bronze

    Entrevista com Connor e Travis Stoll, filhos de Hermes

    Entrevista com Clarisse La Rue, filha de Ares

    Entrevista com Annabeth Chase, filha de Atena

    Entrevista com Grover Underwood, stiro

    Entrevista com Percy Jackson, filho de Poseidon

    Mapa do Acampamento Meio-Sangue

    Mala de Annabeth Chase para o acampamento

    Percy Jackson e a espada de Hades

    Os doze deuses olimpianos + 2

  • Querido jovem semideus,

    Se voc est lendo este livro, s posso me desculpar. Sua vida est prestesa ficar muito perigosa.

    A essa altura, voc provavelmente j descobriu que no um mortalcomum. Este livro foi feito para dar a voc uma viso privilegiada do mundodos semideuses, que nenhuma criana humana seria autorizada a ter. Comoescriba snior do Acampamento Meio-Sangue, espero que as informaessupersecretas aqui contidas deem algumas dicas e ideias que possam mantervoc vivo durante seu treinamento.

    Os arquivos do semideus contm trs das mais perigosas aventuras dePercy Jackson, nunca antes registradas. Voc saber como ele conheceu osimortais e terrveis filhos de Ares. Conhecer a verdade sobre o drago debronze, h muito tido apenas como uma lenda do Acampamento Meio-Sangue.E descobrir como Hades adquiriu uma nova arma secreta e como Percy foiforado a ter uma participao no desejada na sua criao. Essas histriasno devem aterroriz-lo, mas importante voc saber quo periculosa a vidade um heri pode ser.

    Quron tambm me deu permisso para divulgar entrevistas confidenciaiscom alguns de nossos mais importantes campistas, incluindo Percy Jackson,Annabeth Chase e Grover Underwood. Por favor, tenha em mente que asentrevistas foram dadas confidencialmente. Passe essas informaes paraqualquer no semideus e voc poder encontrar Clarisse avanando na suadireo com a lana eltrica dela. Acredite em mim, voc no quer isso.

    Finalmente, inclu ilustraes para ajud-lo a se orientar. Voc encontrarretratos de vrias personalidades do Acampamento Meio-Sangue para quepossa reconhec-las quando as encontrar pessoalmente. Annabeth Chasepermitiu que mostrssemos sua mala para que voc pudesse ter uma ideia doque levar em seu primeiro vero. H ainda um mapa do acampamento, o qualespero que o ajude a no se perder nem ser engolido por monstros.

    Estude bem estas pginas, porque suas prprias aventuras esto apenascomeando. Que os deuses estejam com voc, jovem semideus!

    Um abrao afetuoso,

    Rick RiordanEscriba snior, Acampamento Meio-Sangue

  • PERCYJACKSON

    E AQUADRIGA ROUBADA

  • Eu estava no quinto tempo, na aula de cincias, quando ouvi sons vindos de fora.SCRAUC! AU! SCRECH! EIA!

    Era como se algum estivesse sendo atacado por uma galinha possuda. E, acredite, essa umasituao que j vivi. Ningum mais pareceu notar o tumulto. Estvamos no laboratrio, e todo mundoestava conversando, ento, no foi difcil olhar pela janela enquanto fingia que lavava meu bquer.

    Como eu suspeitava, havia uma garota no beco empunhando uma espada. Ela era alta e musculosacomo uma jogadora de basquete, tinha cabelos castanhos oleosos e usava jeans, coturnos e jaqueta debrim. Estava golpeando um bando de pssaros pretos do tamanho de corvos. Havia penas presas a suasroupas em vrios lugares. Um corte acima de seu olho esquerdo sangrava. Enquanto eu a observava, umdos pssaros lanou uma pena como se fosse uma flecha, que se alojou no ombro dela. Ela praguejou etentou acertar o animal, mas ele voou para longe.

    Infelizmente, reconheci a garota. Era Clarisse, minha antiga inimiga no acampamento parasemideuses. Ela costumava passar o ano inteiro no Acampamento Meio-Sangue. Eu no tinha ideia doque Clarisse fazia no Upper East Side no meio de um dia de aula, mas, obviamente, ela estava comproblemas. E no ia aguentar por muito mais tempo.

    Fiz a nica coisa que podia. Sra. White chamei , posso ir ao banheiro? Acho que vou vomitar.Sabe quando os professores ensinam que as palavras mgicas so por favor? Isso no verdade. A

    palavra mgica vomitar. Ela tira voc da sala de aula mais rpido do que qualquer outra coisa.

    V! respondeu a sra. White.Corri para a porta, tirando os culos de proteo, as luvas e o avental do laboratrio. Ento

    saquei minha melhor arma: uma caneta esferogrfica chamada Contracorrente.Ningum me parou nos corredores. Sa pelo ginsio. Cheguei ao beco a tempo de ver Clarisse

    acertar um pssaro demonaco com a lateral da espada como numa rebatida de beisebol. O pssaroguinchou e voou para longe em espiral, batendo na parede de tijolos e escorregando para dentro de umalixeira. Mesmo assim, ainda havia uma dzia deles em volta dela.

    Clarisse! gritei.Ela me lanou um olhar furioso, descrente. Percy? O que voc est fazendoEla foi interrompida por uma saraivada de penas que zuniram sobre sua cabea e espetaram-se na

    parede. Essa a minha escola. Que sorte a minha Clarisse resmungou, mas estava muito ocupada para reclamar mais.Destampei minha caneta, que se tornou uma espada de bronze de um metro de comprimento, e

    entrei na batalha golpeando os pssaros e desviando as flechas com a lmina. Juntos, Clarisse e euatacamos e atingimos os pssaros at que todos fossem reduzidos a pilhas de penas no cho.

    Ns dois respirvamos com dificuldade. Eu tinha alguns arranhes, mas nada alm disso.Arranquei do meu brao uma pena. Ela no tinha me perfurado muito. Se no fosse venenosa, eu ficaria

  • bem. Tirei um saquinho de ambrosia do bolso da jaqueta, onde sempre o mantinha para emergncias,parti um pedao ao meio e ofereci um pouco a Clarisse.

    No preciso da sua ajuda murmurou ela, mas pegou a ambrosia mesmo assim.Engolimos alguns pedaos, mas no muitos, j que a comida dos deuses pode queimar at as

    cinzas se ingerida em excesso. Acho que por isso que no h muitos deuses gordos. De qualquer forma,em poucos segundos nossos cortes e arranhes desapareceram.

    Clarisse colocou sua espada na bainha e bateu a sujeira da jaqueta. Ento a gente se v. Espere a! retruquei. Voc no pode ir embora assim. Claro que posso. O que est acontecendo? O que est fazendo fora do acampamento? Por que aqueles pssaros

    estavam perseguindo voc?Clarisse me empurrou, ou tentou me empurrar. Eu estava bastante acostumado com seus truques,

    ento apenas dei um passo para o lado e deixei que ela passasse direto por mim. Vamos l insisti. Voc quase foi morta na minha escola. Isso agora virou assunto meu. No virou, no! Deixe eu ajudar voc.Ela deu um breve suspiro. Senti que realmente queria me bater. Mas, ao mesmo tempo, havia

    desespero em seus olhos, como se ela estivesse com srios problemas. So meus irmos comeou ela. Eles esto aprontando comigo. Ah respondi, sem muita surpresa. Clarisse tinha muitos irmos no Acampamento Meio-

    Sangue. Todos implicavam uns com os outros. Acho que isso era esperado, j que so filhos e filhas dodeus da guerra, Ares. Que irmos? Sherman? Mark?

    No respondeu ela, parecendo assustada como eu nunca tinha visto. Meus irmosimortais. Phobos e Deimos.

    Sentamos num banco do parque enquanto Clarisse me contava a histria. Eu no estava muitopreocupado em voltar para a escola. A sra. White chegaria concluso de que a enfermeira teria memandado para casa, e o sexto tempo era aula de trabalhos manuais. O sr. Bell nunca fazia chamada.

    Ento me deixe entender isso direito. Voc pegou o carro do seu pai para dar uma volta eagora ele sumiu.

    No um carro rosnou Clarisse. uma quadriga de guerra! E ele me disse que pegasse.

    como um teste. Eu deveria traz-la de volta ao pr do sol. Mas Seus irmos roubaram o carro de voc. Roubaram a quadriga corrigiu ela. Normalmente, so eles que a guiam, entende? E no

    gostam que ningum mais o faa. Ento, roubaram a quadriga e me perseguiram com esses pssarosidiotas que disparam flechas.

    Os animais de estimao do seu pai?Ela assentiu, chateada. Eles guardam o templo. De qualquer forma, se eu no encontrar a quadrigaParecia que ela estava prestes a ter um ataque de nervos. Eu no a culpo. J vi seu pai, Ares, ficar

  • irritado, e no foi uma viso agradvel. Se Clarisse o decepcionasse, ele pegaria pesado com ela. Muito

    pesado. Vou ajudar voc ofereci. Por que faria isso? Eu no sou sua amiga devolveu ela, irritada.No pude argumentar diante daquilo. Clarisse tinha agido mal comigo um milho de vezes, mas,

    ainda assim, eu no gostava da ideia de ela ou qualquer outra pessoa estar na mira de Ares. Eu tentavadescobrir como explicar isso a ela quando ouvimos uma voz masculina.

    Ah, olhe s. Acho que ela andou chorando!Um garoto mais velho estava encostado num telefone pblico. Usava jeans surrado, camiseta preta

    e jaqueta de couro, e uma bandana cobria seus cabelos. Tinha uma faca presa ao cinto. Seus olhos eramda cor de chamas.

    Phobos. Clarisse cerrou os punhos. Onde est a quadriga, seu idiota? Voc a perdeu provocou ele. No pergunte a mim.

    SeuClarisse desembainhou a espada e partiu para o ataque, mas Phobos desapareceu bem no meio do

    golpe e a lmina acertou o poste do telefone pblico.Ele apareceu no banco ao meu lado. Estava rindo, mas parou quando encostei a ponta de

    Contracorrente em sua garganta. melhor voc devolver aquela quadriga eu disse a ele. Antes que eu me irrite.Phobos me olhou com desprezo e tentou parecer duro, ou to duro quanto algum pode ficar

    com uma espada na garganta. Quem o seu namoradinho, Clarisse? Agora voc precisa de ajuda para vencer suas batalhas? Ele no meu namorado! Com um puxo, Clarisse tirou sua espada do poste. No

    nem meu amigo. Esse Percy Jackson.Algo mudou na expresso de Phobos. Ele pareceu surpreso, talvez at nervoso. O filho de Poseidon? Aquele que deixou papai furioso? Ah, isso muito bom, Clarisse. Voc

    est andando com um arqui-inimigo? Eu no estou andando com ele!Os olhos de Phobos brilharam num vermelho bem vivo. Por favor, no! gritou Clarisse. Ela golpeou o ar como se estivesse sendo atacada por

    insetos invisveis. O que est fazendo com ela? eu quis saber.Clarisse se afastou para a rua, balanando sua espada furiosamente. Pare com isso! eu disse a Phobos.Apertei minha espada um pouco mais fundo em sua garganta, mas ele simplesmente sumiu,

    reaparecendo perto do telefone pblico. No se anime tanto, Jackson disse Phobos. S mostrei a ela aquilo de que ela tem medo.O brilho desapareceu dos seus olhos.Clarisse se curvou, respirando com dificuldade. Seu desgraado arfou ela. Eu vou eu vou pegar voc.

  • Phobos se virou para mim. E quanto a voc, Percy Jackson? O que voc teme? Sabe, vou descobrir. Eu sempre descubro.

    Devolva a quadriga. Tentei manter minha voz calma. Enfrentei seu pai uma vez. Vocno me assusta.

    Nada a temer alm do medo em si. No o que dizem? Phobos riu. Bom, deixe eucontar um segredinho a voc, meio-sangue. Eu sou o medo. Se voc quer a quadriga, venha pegar. Est

    sobre as guas. Voc vai encontr-la onde vivem os animaizinhos selvagens, exatamente o tipo de lugar aque voc pertence. Ele estalou os dedos e desapareceu numa cortina de fumaa amarela.

    Preciso dizer: conheci muitos deuses inferiores e monstros de que no gostei, mas Phobos ganhou oprmio mximo. No gosto de valentes. Nunca pertenci turma dos populares da escola, ento passeia maior parte da minha vida me defendendo de punks que tentavam amedrontar a mim e a meusamigos. A forma como Phobos riu de mim e fez Clarisse desmoronar s com o olhar Queria dar umalio nesse cara.

    Ajudei Clarisse a se levantar. Seu rosto ainda estava coberto pelo suor. Agora voc quer ajuda? perguntei.

    Pegamos o metr preparados para novos ataques, mas ningum nos incomodou. Enquanto viajvamos,Clarisse me falou sobre Phobos e Deimos.

    Eles so deuses inferiores explicou ela. Phobos o medo. Deimos o pnico. Qual a diferena?Ela deu de ombros. Deimos maior e mais feio, eu acho. Ele bom em enlouquecer multides. Phobos mais,

    digamos, pessoal. Ele consegue invadir a sua mente. da que vem a palavra fobia?

    Sim resmungou ela. Ele tem muito orgulho disso. Todas aquelas fobias nomeadas emhomenagem a ele. O idiota.

    E por que eles no querem que voc conduza a quadriga? Isso costuma ser um ritual apenas para os filhos homens de Ares, quando completam quinze

    anos. Eu sou a primeira menina a ter uma chance em muitos anos. Bom para voc. Diga isso a Phobos e a Deimos. Eles me odeiam. Eu tenho de levar aquela quadriga de volta ao

    templo. Onde o templo? Per 86. O Intrepid.

    Ah.Aquilo fazia sentido, pensei na hora. Na verdade, eu nunca estivera a bordo do antigo porta-

    avies, mas sabia que era usado como uma espcie de museu militar. Provavelmente, estava cheio dearmas e bombas e outros brinquedos perigosos. Exatamente o tipo de lugar que um deus da guerra

  • gostaria de frequentar. Talvez tenhamos cerca de quatro horas antes do pr do sol supus. Pode ser tempo

    suficiente, se acharmos a quadriga. Mas o que Phobos quis dizer com sobre as guas? Estamos numa ilha, pelo amor de Zeus.

    Pode estar em qualquer lugar! Ele disse alguma coisa sobre animais selvagens lembrei. Animaizinhos selvagens. Um zoolgico?Concordei. Um zoolgico sobre as guas pode ser o do Brooklyn, ou talvez algum lugar de

    difcil acesso, com pequenos animais selvagens. Algum lugar onde ningum pensaria em procurar uma

    quadriga. Staten Island sugeri. H um pequeno zoolgico l. Talvez respondeu Clarisse. Esse parece o tipo de lugar fora do comum em que Phobos e

    Deimos esconderiam alguma coisa. Mas se estivermos errados No temos tempo para estarmos errados.Descemos na Times Square e pegamos o trem nmero 1 para o centro de Manhattan, em direo

    ao cais das barcas.

    Embarcamos para Staten Island s trs e meia da tarde, com um monte de turistas que lotavam asgrades do deque superior, tirando fotografias conforme passvamos pela Esttua da Liberdade.

    Ele a esculpiu em homenagem me comentei, observando a esttua. Quem? Clarisse olhou para mim com desdm. Bartholdi respondi. O cara que fez a Esttua da Liberdade. Ele era filho de Atena e

    projetou a esttua de forma que se parecesse com a me dele. Bom, foi o que Annabeth me contou.Clarisse revirou os olhos. Annabeth era minha melhor amiga e tinha loucura por arquitetura e

    monumentos. Acho que, s vezes, sua fixao pelo assunto acabava me contaminando. Intil Clarisse considerou. Se no ajuda voc na batalha, uma informao intil.Eu poderia ter discutido com ela, mas, logo em seguida, a barca se inclinou como se tivesse batido

    em uma rocha. Os turistas escorregaram, derrubando uns aos outros. Clarisse e eu corremos para afrente do barco. A gua abaixo de ns comeou a borbulhar. Ento, a cabea de uma serpente marinhaemergiu na baa.

    O monstro era, no mnimo, to grande quanto o barco. Era cinza e verde, e possua uma cabea decrocodilo e dentes em formato de lminas afiadas. Cheirava como bom, como alguma coisa quetivesse acabado de sair do fundo das guas do porto de Nova York. Montado em seu pescoo, estavaum garoto forte que usava uma armadura grega de cor preta. Seu rosto estava coberto de feias cicatrizes,e ele segurava uma lana.

    Deimos! berrou Clarisse. Ol, irm! Seu sorriso era quase to terrvel quanto o da serpente. Que tal uma

    brincadeira?O monstro rugiu. Os turistas gritaram e se dispersaram. No sei exatamente o que viram, a Nvoa

    geralmente evita que mortais vejam monstros em sua forma verdadeira. Mas, seja l o que tenham visto,deixou-os aterrorizados.

    Deixe-os em paz! berrei.

  • Ou o qu, filho do deus do mar? Deimos desdenhou. Meu irmo me disse que voc um

    banana! Alm disso, eu amo pnico. Eu vivo em meio ao pnico!Ele incitou a serpente a golpear a barca com a cabea, e, com o impacto, ela espalhou gua para

    trs. Alarmes dispararam. Passageiros se atropelaram ao tentar fugir. Deimos gargalhava de felicidade. Chega murmurei. Clarisse, agarre aqui. O qu? Agarre meu pescoo. Vamos dar uma volta.Ela no protestou. Agarrou-se a mim e eu comecei a contar: Um, dois, trs PULE!Pulamos do deque superior direto para dentro da baa, mas ficamos embaixo dgua s por um

    instante. Senti o poder do oceano tomar conta de mim. Induzi a gua a fazer um redemoinho em tornode ns, aumentando a velocidade at que surgssemos no topo de uma tromba-dgua de dez metros dealtura. Ento nos conduzi diretamente ao monstro.

    Acha que consegue cuidar de Deimos? berrei para Clarisse. Eu pego ele! respondeu ela. S me faa descer dez metros.Avanamos rapidamente em direo serpente. Assim que ela exps sua presa, desviei a tromba-

    dgua para o lado e Clarisse pulou. Ela foi de encontro a Deimos e os dois caram na gua.A serpente veio atrs de mim. Rapidamente, virei a tromba-dgua para encar-la. Ento, reuni

    todo o meu poder e induzi a gua a subir cada vez mais. UOUUUU!Milhes de litros de gua salgada atingiram o monstro. Pulei em sua cabea, destampei

    Contracorrente e cortei com toda a minha fora o pescoo da criatura. O monstro rugiu. Sangue verdejorrou da ferida, e a serpente afundou nas ondas.

    Mergulhei e observei a criatura enquanto ela recuava em direo ao mar aberto. Isto bom nasserpentes marinhas: elas se tornam bebs gigantes quando esto feridas.

    Clarisse emergiu perto de mim; cuspindo e tossindo. Nadei at ela e a agarrei. Voc pegou Deimos?Clarisse balanou a cabea. O covarde desapareceu enquanto lutvamos. Mas tenho certeza de que o veremos de novo. E a

    Phobos tambm.Os turistas ainda corriam em pnico pela barca, mas no havia sinais de ningum ferido. O barco

    no parecia estar danificado. Decidi que no devamos ficar ali. Segurei Clarisse pelo brao e fiz comque as ondas nos levassem para Staten Island.

    No oeste, o sol se punha sobre a costa de Jersey. Nosso tempo se esgotava.

    Eu nunca tinha passado muito tempo em Staten Island. Percebi que era maior do que eu imaginava eno muito divertida para caminhadas. As ruas seguiam trajetos confusos e tudo parecia ficar no alto.Eu estava seco (nunca me molho no oceano, a menos que eu queira), mas as roupas de Clarisse aindapingavam. Ela deixava pegadas imundas pela calada e o motorista do nibus no nos deixou entrar.

    No vamos conseguir chegar a tempo observou ela. Pare de pensar assim. Tentei parecer otimista, mas eu tambm comeava a duvidar.

  • Gostaria que tivssemos tido reforos. Dois semideuses contra dois deuses inferiores j no era umadisputa justa, e eu no tinha certeza do que faramos quando encontrssemos Phobos e Deimos aomesmo tempo. Ficava relembrando o que Phobos tinha dito: E quanto a voc, Percy Jackson? O quevoc teme? Sabe, vou descobrir.

    Depois de nos arrastarmos at a metade da ilha, de passarmos por vrias casas de subrbio,algumas igrejas e um McDonalds, finalmente avistamos uma placa em que se lia ZOOLGICO.Viramos a esquina e seguimos pela rua sinuosa com algumas rvores em um dos lados at que chegamos entrada.

    A senhora da bilheteria nos observou com olhar de suspeita, mas, graas aos deuses, eu tinhadinheiro suficiente para pagar nossas entradas.

    Andamos pelo viveiro dos rpteis e Clarisse parou de repente. L est ela.Ela estava estacionada num cruzamento entre a fazendinha das crianas e o lago das lontras: uma

    enorme quadriga vermelha e dourada atrelada a quatro cavalos pretos. A quadriga era decorada comincrvel riqueza de detalhes. Seria bonita se todas as imagens no mostrassem pessoas morrendodolorosamente. Os cavalos soltavam fogo pelas narinas.

    Famlias com carrinhos de bebs passavam ao lado da quadriga como se ela no existisse. Achoque a Nvoa em torno dela devia estar muito forte, pois o nico disfarce da quadriga era um bilheteescrito mo colado no peito de um dos cavalos em que se lia VECULO OFICIAL DO ZOOLGICO.

    Onde esto Phobos e Deimos? sussurrou Clarisse, desembainhando sua espada.No os via em lugar algum, mas isso s podia ser uma armadilha.Eu me concentrei nos cavalos. Normalmente, consigo falar com cavalos, j que meu pai os criou.

    Ei, cavalos, labaredas legais essas. Venham aqui!, chamei.

    Um deles relinchou desdenhosamente. Certo, consegui entender seus pensamentos. Ele me chamoude alguns nomes que no posso repetir.

    Vou tentar pegar as rdeas Clarisse avisou. Os cavalos me conhecem, me d cobertura. Tudo bem.Eu no estava certo de como deveria dar cobertura a ela com a espada, mas mantive meus olhos

    bem abertos enquanto Clarisse se aproximava da quadriga. Ela andou em volta dos cavalos, quase naponta dos ps. E congelou quando uma senhora passou com uma garotinha de uns trs anos de idade.

    Cavalinho pegando fogo! disse a menina. No seja boba, Jessie a me respondeu com uma voz confusa. Isso um veculo oficial

    do zoolgico.A garotinha tentou argumentar, mas a me agarrou sua mo e elas continuaram andando. Clarisse

    chegou perto da quadriga. A mo dela estava a quinze centmetros do arreio quando os cavalosempinaram, relinchando e soltando chamas. Phobos e Deimos apareceram na quadriga, os dois agoravestidos com negras armaduras de guerra. Phobos deu uma risada, seus olhos vermelhos brilhando. Asfeies assustadoras de Deimos pareciam ainda mais terrveis de perto.

    A caada comeou! gritou Phobos. Clarisse tombou para trs enquanto ele chicoteava oscavalos e conduzia a quadriga diretamente para cima de mim.

    Bom, agora eu gostaria de poder contar a vocs que cometi um ato heroico, como permanecerparado diante um grupo feroz de cavalos lana-chamas munido somente com a minha espada. Mas a

  • verdade que eu fugi. Pulei uma lata de lixo e uma grade, mas no houve meio de eu ser mais rpidoque a quadriga. Ela foi de encontro grade logo atrs de mim, escavando tudo pelo seu caminho.

    Percy, cuidado! gritou Clarisse, como se eu precisasse que algum me dissesse aquilo.Saltei e pousei numa ilha de pedra no meio da rea das lontras. Fiz com que a gua formasse uma

    coluna para fora do lago e se jogasse sobre os cavalos, apagando temporariamente suas chamas edeixando-os confusos. As lontras no ficaram felizes com isso. Elas tagarelaram e gritaram, e entendique era melhor sair da sua ilha bem rpido, antes que mamferos marinhos enfurecidos comeassem ame perseguir tambm.

    Corri enquanto Phobos xingava e tentava controlar seus cavalos. Clarisse aproveitou a chance parapular nas costas de Deimos justamente quando ele comeava a empunhar sua lana. Os dois saltaramda quadriga no momento em que ela tombou para a frente.

    Pude ouvir Deimos e Clarisse comearem a lutar, espada contra espada. Mas eu no tinha tempopara me preocupar com isso porque Phobos estava me perseguindo novamente. Avancei rapidamenteem direo ao aqurio com a quadriga em meu encalo.

    Ei, Percy! provocou Phobos. Tenho uma coisa para voc!Olhei para trs e vi a quadriga derreter e os cavalos se transformarem em ao, envolvendo uns aos

    outros como se bonecos de barro estivessem sendo retrabalhados. A quadriga se remodelou em umacaixa preta de metal com a parte de baixo como a de um trator, uma pequena torre e um longo cano dearma. Um tanque de guerra. Reconheci por causa de uma pesquisa que tivera de fazer para a aula dehistria. Phobos dava risadas para mim do alto de um tanque da Segunda Guerra Mundial.

    Diga x! disse ele.Rolei para o lado quando a arma disparou.CA-BUUUM! Um quiosque de suvenires explodiu, e bichos de pelcia, canecas de plstico e

    cmeras descartveis voaram em todas as direes. Enquanto Phobos recarregava sua arma, eu melevantei e mergulhei no aqurio.

    Eu queria me cercar de gua. Isso sempre aumentava meu poder. Alm do mais, era possvel quePhobos no conseguisse fazer a quadriga passar pela porta. Claro que, se ele explodisse tudo, no fariadiferena

    Corri pelas salas iluminadas por uma estranha luz azul-clara vinda dos tanques de exposio depeixes. Spias, peixes-palhaos e enguias, todos me encararam medida que eu passava correndo poreles. Filho do deus do mar! Filho do deus do mar!, eu podia ouvir suas pequenas mentes sussurrarem. timo

    quando lulas o consideram uma celebridade.Parei no final do aqurio para escutar. No ouvi nada. E ento vrum, vrum. Um tipo diferente

    de motor.Olhei sem acreditar quando Phobos apareceu pilotando uma Harley-Davidson. Eu j tinha visto

    aquela moto: seu tanque de combustvel decorado com chamas, seus coldres com espingardas, seuassento de couro parecido com pele humana. Aquela era a mesma moto que Ares pilotava quando o vipela primeira vez, mas nunca imaginei que ela era apenas outra forma para sua quadriga de guerra.

    Oi, perdedor Phobos me cumprimentou puxando uma enorme espada da bainha. Horade ficar com medo.

    Empunhei minha espada, determinado a encar-lo. Ento, os olhos de Phobos incandesceram e

  • cometi o erro de olhar dentro deles.De repente, eu estava num lugar diferente. Era o Acampamento Meio-Sangue, meu lugar favorito

    em todo o mundo, e ele estava em chamas. A floresta pegava fogo. Saa fumaa dos chals. As colunasgregas do pavilho do refeitrio haviam tombado e a Casa Grande era uma runa ardente. Meusamigos, ajoelhados, imploravam. Annabeth, Grover e todos os outros campistas.

    Salve a gente, Percy!, eles choramingavam. Faa a escolha!

    Fiquei paralisado. Era o momento que sempre temi: a profecia que deveria ser cumprida quandoeu completasse dezesseis anos. Eu teria de escolher entre salvar ou destruir o Monte Olimpo.

    Agora chegara o momento e eu no tinha a menor ideia do que fazer. O acampamento queimava.Meus amigos me encaravam, pedindo ajuda. Meu corao estava disparado. Eu no podia me mover. Ese eu fizesse a coisa errada?

    Ento, ouvi as vozes dos peixes do aqurio.Filho do deus do mar! Acorde!

    Subitamente, senti o poder dos oceanos me dominar novamente, milhares de litros de gua salgadae centenas de peixes tentavam chamar minha ateno. Eu no estava no acampamento. Era uma iluso.Phobos me mostrara meu temor mais profundo.

    Pisquei e vi a espada de Phobos vindo na direo da minha cabea. Empunhei Contracorrente ebloqueei o golpe segundos antes que ele me partisse em dois.

    Contra-ataquei e acertei Phobos no brao. Icor dourado, o sangue dos deuses, ensopou sua camisa.Phobos rosnou e avanou sobre mim. Desviei facilmente. Sem o seu poder do medo, Phobos no

    era nada. Ele no era nem um guerreiro razovel. Eu o contive, golpeando seu rosto e deixando-lhe umcorte na bochecha. Quanto mais irritado ele ficava, mais desajeitadamente agia. Eu no podia mat-lo.Ele era imortal. Mas no era possvel saber disso levando em conta somente sua expresso. O deus domedo parecia amedrontado.

    Finalmente, chutei-o contra a fonte de gua. Sua espada foi parar no banheiro das mulheres.Agarrei-o pelos cordes da sua armadura e o levantei at a altura do meu rosto.

    Voc vai desaparecer agora ordenei. Vai sair do caminho de Clarisse. E se eu o vir denovo, vou lhe dar uma cicatriz maior e num lugar muito mais doloroso!

    Ele engoliu em seco. Haver uma prxima vez, Jackson! E se dissolveu numa fumaa amarela.Eu me virei para o tanque de exposio de peixes. Valeu, pessoal!Ento, observei a moto de Ares. Eu nunca havia pilotado uma superpoderosa quadriga Harley-

    Davidson de guerra. Quo difcil poderia ser? Subi na moto, acionei a ignio e sa do aqurio paraajudar Clarisse.

    No tive problemas para encontr-la, apenas segui o rastro de destruio. Grades foram derrubadas eanimais corriam livremente. Texugos e lmures estavam explorando a pipoqueira. Um leopardo gordoespreguiava-se num banco do parque, rodeado de penas de pombo.

    Estacionei a moto prximo fazendinha das crianas, e l estavam Deimos e Clarisse na rea dascabras. Clarisse estava de joelhos. Corri at ela, mas parei subitamente quando vi como Deimos havia

  • mudado sua forma. Agora ele era Ares: o grande deus da guerra, usando couro preto e culos de sol.Todo o seu corpo soltava fumaa furiosamente enquanto ele levantava o punho para Clarisse.

    Voc me decepcionou de novo! o deus da guerra elevou a voz. Eu a avisei do queaconteceria!

    Ele tentou acert-la, mas Clarisse arrastou-se para longe. No! Por favor! clamou ela. Garota boba! Clarisse! gritei. Isso uma iluso. Enfrente-o!A forma de Deimos vacilou. Eu sou Ares! insistiu ele. E voc uma garota desprezvel! Eu sabia que voc me

    decepcionaria. Agora vai sofrer minha ira.Eu queria avanar e lutar com Deimos, mas, de alguma maneira, sabia que no podia ajudar.

    Clarisse precisava fazer isso. Esse era o seu maior medo. Ela teria de super-lo sozinha. Clarisse chamei. Ela se virou e eu tentei sustentar seu olhar. Enfrente-o eu disse.

    Isso s fachada. Levante-se! Eu eu no consigo. Sim, voc consegue. Voc uma guerreira. Levante!Ela hesitou. E ento comeou a se erguer. O que est fazendo? Ares elevou a voz. Humilhe-se por misericrdia, garota!Clarisse deu um breve suspiro. No disse ela, calmamente. O QU? Estou cansada de ser amedrontada por voc. Ela empunhou a espada.Deimos atacou, mas Clarisse se desviou do golpe. Ela cambaleou, mas no caiu. Voc no Ares afirmou ela. Voc no nem mesmo um bom guerreiro.Deimos rosnou de frustrao. Ele atacou de novo, Clarisse estava preparada. Ela o desarmou e o

    atingiu no ombro, no to profundamente, mas o suficiente para ferir mesmo um deus inferior.Ele uivou de dor e comeou a incandescer. No olhe! avisei a Clarisse.Desviamos nossos olhos enquanto Deimos explodia em luz dourada, sua verdadeira forma divina,

    e desaparecia.Estvamos sozinhos, exceto pelas cabras da fazendinha, que mordiscavam nossas roupas em busca

    de migalhas.A moto se transformou novamente em uma quadriga puxada a cavalos.Clarisse me observou cautelosamente. Ela limpou a palha e o suor do rosto. Voc no viu isso. Voc nunca viu nada disso.Eu dei uma risada. Voc se saiu bem.Ela olhou para o cu, que ficava vermelho atrs das rvores. Suba na quadriga disse ela. Ainda temos uma longa viagem a fazer.

  • Alguns minutos depois, chegamos estao das barcas de Staten Island e relembramos o bvio:estvamos numa ilha. A barca no transporta carros. Ou quadrigas. Ou motos.

    timo resmungou Clarisse. O que fazemos agora? Conduzimos essa coisa pela PonteVerrazano?

    Ns dois sabamos que no havia tempo. Existiam pontes para o Brooklyn e para Nova Jersey,mas ambos os caminhos exigiriam horas para levar a quadriga de volta a Manhattan. Mesmo seconsegussemos induzir as pessoas a pensarem que aquilo era um carro normal.

    Ento, tive uma ideia. Vamos pegar um caminho direto. O que voc quer dizer? Clarisse franziu as sobrancelhas.Fechei os olhos e comecei a me concentrar. Siga em frente. V!Clarisse estava to desesperada que no hesitou. Ela gritou Eia! e chicoteou os cavalos. Eles

    avanaram em direo gua. Imaginei o oceano se tornando slido, as ondas se transformando numasuperfcie firme at Manhattan. A quadriga de guerra bateu na arrebentao, a respirao ardente doscavalos espalhava fumaa ao nosso redor. Andamos por cima das ondas diretamente at o porto deNova York.

    Chegamos ao Per 86 bem no momento em que o cu ganhava a cor roxa. O USS Intrepid, templo de

    Ares, era uma enorme parede cinza de metal diante de ns, a pista de decolagem pontilhada deaeronaves e helicpteros. Estacionamos a quadriga na rampa e descemos dela. Pelo menos uma vez eume sentia feliz por estar em terra firme. Concentrar-me em manter a quadriga sobre as ondas foi umadas coisas mais difceis que j fiz. Eu estava exausto.

    melhor eu sair daqui antes que Ares chegue eu disse.Clarisse concordou. Ele provavelmente mataria voc assim que o visse. Parabns cumprimentei-a. Acho que voc passou no seu teste de direo.Ela enrolou as rdeas na mo. Sobre aquilo que voc viu, Percy. Aquilo de que eu tenho medo, quer dizer No vou contar a ningum.Ela me olhou com desconforto. Phobos assustou voc? Sim. Vi o acampamento em chamas. Todos os meus amigos imploravam por ajuda, e eu no

    sabia o que fazer. Por um instante, no consegui me mover. Eu estava paralisado. Sei como voc sesentiu.

    Ela baixou os olhos. Eu, hum acho que eu devo dizer As palavras pareciam estar presas na sua garganta.

    No tinha certeza se algum dia na sua vida Clarisse dissera obrigada. No precisa se incomodar eu disse.Comecei a me afastar, mas ela me chamou. Percy?

  • Sim? Quando voc, hum teve aquela viso com seus amigos Voc era um deles dei minha palavra. S no conte a ningum, est bem? Ou vou ter de

    matar voc.Um sorriso fraco passou pelo rosto de Clarisse. A gente se v. A gente se v.Eu me encaminhei para o metr. Aquele tinha sido um longo dia, e eu estava pronto para voltar

    para casa.

  • PERCYJACKSON

    E ODRAGO DE BRONZE

  • Um drago pode arruinar seu dia.Confie em mim, como um semideus, j tive minha cota de experincias ruins. J apanhei, j fui

    arranhado, incendiado e envenenado. J lutei com drages de uma cabea, de duas, de oito, de nove ecom um tipo com tantas cabeas que se tivesse parado para cont-las com certeza estaria morto.

    Mas e aquela vez com o drago de bronze? Sinceramente, achei que eu e meus amigos viraramosrao de drago.

    A noite comeou bem tranquila.Era final de junho. Eu tinha retornado de minha mais recente misso havia umas duas semanas, e

    a vida no Acampamento Meio-Sangue estava voltando ao normal. Stiros perseguiam ninfas. Monstrosuivavam na floresta. Os campistas pregavam peas uns nos outros, e o nosso diretor, Dioniso,transformava em arbusto qualquer um que no se comportasse. Coisas tpicas de acampamento devero.

    Depois do jantar, os campistas ficaram conversando no pavilho do refeitrio. Estvamos todosempolgados porque a captura da bandeira daquela noite seria totalmente cruel.

    Na noite anterior, o chal de Hefesto conseguira uma grande vitria. Eles capturaram a bandeirade Ares com a minha ajuda, muito obrigado , o que significava que o chal de Ares viria atrs desangue. Bem eles sempre vm atrs de sangue, mas nessa noite estariam especialmente inspirados.

    Na equipe azul estavam o chal de Hefesto, Apolo, Hermes e eu, o nico semideus no chal dePoseidon. Por ora, a m notcia era que Atena e Ares, ambos chals de deuses da guerra, estavam contrans, na equipe vermelha, junto a Afrodite, Dioniso e Demter. O chal de Atena guardava a outrabandeira, e minha amiga Annabeth era a sua capit.

    Annabeth no algum que voc gostaria de ter como adversria.

    Logo antes do jogo, ela se virou para mim: Oi, Cabea de Alga. Quer parar de me chamar assim?Ela sabe que odeio esse nome, principalmente porque nunca consegui responder altura. Ela a

    filha de Atena, o que no me d muitas opes. Quer dizer, Cabea de Coruja e Sabidinha no soinsultos de verdade.

    Voc sabe que adora.Ela bateu em mim com o ombro, o que imagino que era para ter sido um ato amigvel, mas ela

    usava uma armadura grega completa, ento, meio que doeu. Seus olhos cinzentos brilharam sob o elmo.Seu rabo de cavalo louro descia em cacho sobre um dos ombros. Era difcil algum ficar bonito numaarmadura de combate, mas Annabeth conseguia.

    o seguinte ela baixou seu tom de voz: ns vamos destruir vocs esta noite, mas se vocescolher uma posio segura como o flanco direito, por exemplo Garanto que no ser tomassacrado.

    Uau, obrigado comecei , mas estou jogando para vencer.

  • Ela sorriu. A gente se v no campo de batalha.Annabeth correu de volta para seus companheiros de equipe, que riram e a cumprimentaram

    tocando as mos espalmadas no alto. Eu nunca a tinha visto to feliz, como se a chance de me acertarfosse a melhor coisa que j acontecera a ela.

    Beckendorf se aproximou com seu elmo embaixo do brao. Ela gosta de voc, cara. Com certeza murmurei. Gosta de mim como alvo. Que nada, elas sempre fazem isso. Se uma garota tenta matar voc, saiba que ela est na sua. Faz muito sentido.Beckendorf deu de ombros. Conheo essas coisas. Voc devia convid-la para os fogos.No consegui descobrir se ele estava falando srio. Beckendorf era conselheiro-chefe de Hefesto.

    Era um cara enorme com uma carranca permanente, tinha msculos como os de um jogador de futebolamericano profissional e as mos cheias de calos do trabalho nas forjas. Acabara de completar dezoitoanos e ia para a Universidade de Nova York no outono. Por ele ser mais velho, eu costumava ouvi-losobre as coisas, mas a ideia de convidar Annabeth para os fogos do Quatro de Julho na praia tipo, omaior programa do vero fez meu estmago revirar.

    Ento, Silena Beauregard, a conselheira-chefe de Afrodite, passou por ns. Beckendorf tinha umano to secreta queda por ela havia trs anos. Os cabelos dela eram longos e pretos e os olhos, grandes ecastanhos. Quando ela andava, os caras se viravam para olhar.

    Boa sorte, Charlie disse ela. (Ningum nunca chamava Beckendorf pelo primeiro nome.)

    Ela lanou para ele um sorriso brilhante e foi se juntar a Annabeth no time vermelho. Ah Beckendorf engoliu em seco.Dei um tapinha em seu ombro. Obrigado pelo conselho, cara. Que bom que voc to sbio com as garotas e tudo o mais.

    Venha. Vamos para a floresta.

    Naturalmente, Beckendorf e eu ficamos com o trabalho mais perigoso.Enquanto o chal de Apolo fazia a defesa com seus arcos, o chal de Hermes ocupava o meio da

    floresta para distrair os adversrios. Nesse meio-tempo, Beckendorf e eu exploraramos a rea do flancoesquerdo, localizaramos a bandeira do inimigo, derrubaramos os defensores e levaramos a bandeira devolta para o nosso lado. Simples.

    Por que o flanco esquerdo? Porque Annabeth queria que eu fosse para o direito disse eu a Beckendorf. O que

    significa que ela no quer que a gente v para o esquerdo.

    Ele assentiu. Vamos nos preparar.Beckendorf vinha trabalhando numa arma secreta para ns dois: uma armadura camuflada de

    bronze, encantada para se misturar ao ambiente. Se estivssemos diante de pedras, nossos peitorais,elmos e escudos ficariam cinza. Se estivssemos em frente a arbustos, o metal mudaria sua cor para um

  • verde-folha. No era invisibilidade verdadeira, mas teramos um disfarce muito bom, pelo menos distncia.

    Essa coisa levou uma eternidade para ser forjada ele me disse. No a estrague! Pode deixar, Capito.Beckendorf rosnou. Eu diria que ele gostou de ter sido chamado de capito. O restante dos

    campistas de Hefesto nos desejou boa sorte e ns nos embrenhamos na mata, ficando imediatamentemarrons e verdes como as rvores.

    Cruzamos o riacho que servia de fronteira entre as equipes. Ouvimos uma luta ao longe, espadas contraescudos. Notei um facho de luz vindo de alguma arma mgica, mas no vimos ningum.

    Nenhum guarda de fronteira? Beckendorf sussurrou. Estranho. Excesso de confiana supus.Mas fiquei incomodado. Annabeth era uma tima estrategista. No era do seu feitio ser

    desleixada com a defesa, mesmo que sua equipe fosse maior que a nossa.Avanamos territrio inimigo adentro. Eu sabia que precisvamos ser rpidos porque nossa equipe

    estava jogando na defesa, e isso no duraria para sempre. Os filhos de Apolo seriam superados maiscedo ou mais tarde. O chal de Ares no seria detido por uma coisinha como arcos.

    Ns nos arrastamos pela base de um carvalho. Quase morri de susto quando o rosto de umamenina emergiu do tronco.

    Shhhh! disse ela. E ento desapareceu atrs de uma raiz. Ninfas do bosque resmungou Beckendorf. Que irritante. No sou! disse uma voz abafada vinda da rvore.Continuamos a avanar. Era difcil dizer exatamente onde estvamos. Alguns limites se

    mantinham, como o riacho, certos rochedos e algumas rvores muito antigas, mas a floresta tendia a setransformar. Acho que os espritos da natureza ficavam inquietos. Caminhos mudavam. rvores semoviam.

    De repente, estvamos nas bordas de uma clareira. Percebi que estvamos encrencados quando vi amontanha de sujeira.

    Santo Hefesto murmurou Beckendorf. A Colina das Formigas.Quis voltar e correr. Eu nunca havia visto a Colina das Formigas, mas tinha ouvido histrias dos

    campistas mais velhos. O monte que chegava quase ao topo das rvores quatro histrias, no mnimo.Suas laterais eram perfuradas por tneis que se espalhavam para dentro e para fora onde milhares de

    Myrmekos murmurei.Era formigas em grego antigo, mas aquelas coisas eram muito mais que isso. Elas fariam

    qualquer exterminador ter um ataque cardaco.Os Myrmekos eram do tamanho de pastores alemes. Suas carcaas blindadas cintilavam em

    vermelho-sangue. Os olhos brilhavam como contas pretas e as mandbulas anavalhadas cortavam eestalavam. Alguns carregavam ramos de rvores. Outros levavam pedaos de carne crua, e eu no querianem pensar em de onde aquilo vinha. A maioria carregava pedaos de metal: armaduras antigas,espadas, pratos que foram encontrando no caminho do pavilho do refeitrio at ali. Uma formigaestava arrastando a lustrosa capota preta de um carro esporte.

    Elas adoram metal brilhante Beckendorf sussurrou. Principalmente ouro. Ouvi dizer

  • que elas tm mais ouro no ninho que Fort Knox. Ele soou invejoso. Nem pense nisso. Cara, no estou pensando nada prometeu ele. Vamos sair daqui enquanto nsSeus olhos se arregalaram.A quinze metros de distncia, duas formigas lutavam para arrastar um enorme pedao de metal

    em direo ao ninho. Era do tamanho de uma geladeira, todo feito de ouro e bronze reluzentes, comsalincias e pontas pela lateral e um ramo de fios preso na base. As formigas giraram a coisa e eu vi suaface.

    Quase morri de susto. Aquela uma Shhh! Beckendorf me puxou de volta para os arbustos. Mas aquela uma Cabea de drago disse ele em tom reverente. Sim. Estou vendo.O focinho era to longo quanto meu corpo. A boca estava aberta e mostrava dentes de metal,

    como os de um tubaro. A pele era uma combinao de escamas de ouro e de bronze e os olhos eramrubis to grandes quanto meus punhos. A cabea parecia ter sido cortada do corpo por mandbulas deformigas. Havia fios cortados, gastos e emaranhados.

    A cabea tambm devia ser pesada, porque as formigas se esforavam, mas s conseguiam mov-laalguns centmetros a cada puxo.

    Se elas levarem a cabea at o monte, as outras ajudaro disse Beckendorf. Precisamosimpedi-las.

    O qu? perguntei. Por qu? Este um sinal de Hefesto. Venha!Eu no sabia a que Beckendorf se referia, mas nunca o vira to determinado. Ele correu pela

    margem da clareira, sua armadura se confundindo com as rvores.Eu estava prestes a segui-lo quando alguma coisa pontuda e fria pressionou meu pescoo. Surpresa disse Annabeth, bem a meu lado.Ela devia estar usando seu bon mgico dos Yankees porque estava totalmente invisvel.Tentei me mexer, mas ela colocou a faca embaixo do meu queixo. Silena surgiu da floresta com a

    espada desembainhada. Sua armadura de Afrodite era rosa e vermelha, cores escolhidas para combinarcom as roupas e a maquiagem. Ela parecia uma Barbie Guerreira.

    Bom trabalho disse ela a Annabeth.Mos invisveis confiscaram minha espada. Annabeth tirou seu bon e apareceu diante de mim,

    com um sorriso presunoso. Garotos so fceis de seguir. Eles fazem mais barulho que um Minotauro apaixonado.Senti meu rosto quente. Tentei relembrar os fatos na esperana de no ter dito nada embaraoso.

    Era impossvel saber por quanto tempo Annabeth e Silena nos espionaram. Voc nosso prisioneiro anunciou Annabeth. Vamos pegar Beckendorf e Beckendorf!Por meio segundo eu o tinha esquecido, mas ele ainda avanava, diretamente para a cabea do

    drago. J estava a doze metros de distncia. Ele no notara as garotas, ou o fato de que eu no estavaatrs dele.

  • Vamos! disse eu a Annabeth.Ela me puxou de volta. Aonde voc pensa que vai, prisioneiro? Veja!Ela olhou para a clareira e, pela primeira vez, pareceu se dar conta de onde estvamos. Oh, ZeusBeckendorf saltou e atingiu uma das formigas. Sua espada tiniu contra a carapaa da coisa. A

    formiga se virou, estalando as pinas. Antes mesmo que eu pudesse avis-lo, ela mordeu a perna deBeckendorf e ele caiu ferido no cho. Uma segunda formiga borrifou uma gosma em seu rosto, eBeckendorf gritou. Ele deixou a espada cair e esfregava os prprios olhos loucamente.

    Eu me dirigi para alcan-lo, mas Annabeth me puxou de volta. No!

    Charlie! berrou Silena. No! disse Annabeth entre os dentes. J tarde demais! Do que voc est falando? eu quis saber. Ns precisamosEnto, notei mais e mais formigas se aproximando de Beckendorf dez, vinte. Elas o agarraram

    pela armadura e o arrastaram to rpido em direo colina que ele foi varrido para dentro do tnel esumiu.

    No! Silena empurrou Annabeth. Voc deixou que elas levassem Charlie!

    No h tempo para discusso disse Annabeth. Vamos!Pensei que ela fosse nos liderar numa ao para salvar Beckendorf, mas em vez disso ela correu

    para a cabea do drago, que as formigas haviam esquecido momentaneamente. Ela a agarrou pelos fiose comeou a arrast-la para a floresta.

    O que voc est fazendo? eu quis saber. Beckendorf

    Ajude-me Annabeth rosnou. Rpido, antes que elas voltem.Ah, meus deuses! disse Silena. Voc est mais preocupada com esse monte de metal do que

    com Charlie?Annabeth girou nos calcanhares e a sacudiu pelos ombros. Escute, Silena! Aqueles so Myrmekos. Eles so como formigas-de-fogo, s que cem vezes pior.

    Eles picam injetando veneno. Eles borrifam cido. Eles se comunicam com todos os outros eenxameiam qualquer coisa que os ameace. Se avanssemos at l para ajudar Beckendorf, seramosarrastados para dentro tambm. Vamos precisar de ajuda muita ajuda para traz-lo de volta.

    Agora, agarre alguns fios e puxe!

    No sabia o que Annabeth pretendia, mas eu j tinha vivido aventuras o bastante com ela parasaber que devia haver uma boa razo para fazer o que ela dizia. Ns trs rebocamos a cabea de metaldo drago para o meio da floresta. Annabeth no nos deixou parar at que estivssemos a quarenta ecinco metros da clareira. Ento, camos de cansao, suando e respirando com dificuldade.

    Silena comeou a chorar. Ele provavelmente j est morto.

  • No Annabeth retrucou. Elas no vo mat-lo agora. Temos cerca de meia hora. Como voc sabe disso? perguntei. Li sobre os Myrmekos. Eles paralisam a presa para que possam amaci-la antes deSilena gemeu. Precisamos salv-lo! Silena, vamos salv-lo, mas preciso que voc se controle disse Annabeth. Existe uma

    chance. Chame os outros campistas eu disse , ou Quron. Quron saber o que fazer.Annabeth balanou a cabea. Eles esto espalhados por toda a floresta. Quando tivermos todos aqui de volta, poder ser

    tarde demais. Alm disso, nem mesmo todo o acampamento seria suficientemente forte para invadir aColina das Formigas.

    E ento?Annabeth apontou para a cabea do drago. T. Voc vai assustar as formigas com um grande boneco de metal? um autmato informou ela.Isso no fez com que eu me sentisse muito melhor. Autmatos eram robs de bronze mgicos

    feitos por Hefesto. A maioria deles eram mquinas assassinas enlouquecidas, e isso quando eram asboazinhas.

    E da? s uma cabea. Est quebrado. Percy, esse no um autmato qualquer retrucou Annabeth. o drago de bronze. Voc

    no conhece as histrias?Eu a encarei, sem entender. Annabeth est no acampamento h muito mais tempo que eu. Ela

    provavelmente conhece toneladas de histrias que eu no conheo.Os olhos de Silena se arregalaram. Voc est falando do antigo guardio? Mas essa s uma lenda! Epa! Que antigo guardio?Annabeth inspirou profundamente. Percy, no tempo anterior ao pinheiro de Thalia, antes de o acampamento ter fronteiras

    mgicas para manter monstros afastados, os conselheiros tentaram inmeras maneiras diferentes para seproteger. A mais famosa foi o drago de bronze. O chal de Hefesto o fez com a bno de seu pai.Supostamente ele era to feroz e poderoso que manteve o acampamento a salvo por mais de umadcada. E ento h cerca de quinze anos, ele desapareceu na floresta.

    E voc acha que essa a cabea dele? Tem de ser! Provavelmente os Myrmekos o desenterraram quando procuravam metais

    preciosos. Eles no puderam mover a coisa toda, ento, cortaram a cabea com os dentes. O corpo nopode estar muito longe.

    Mas elas separaram totalmente a cabea. intil. No necessariamente.Os olhos de Annabeth se estreitaram e eu podia jurar que seu crebro fazia um esforo extra.

  • Ns poderamos reunir as partes. Se pudssemos ativ-lo Ele poderia nos ajudar a resgatar Charlie! Silena concluiu. Espere a disse eu. So muitos ses. Se ns o encontrarmos, se o reativarmos a tempo, se

    ele nos ajudar. Voc disse que essa coisa desapareceu h quinze anos?Annabeth fez que sim. Alguns dizem que seu motor pifou pelo uso, ento ele foi para a floresta para se desativar. Ou

    que seu programa perdeu o controle. Ningum sabe. Voc quer reativar um drago de metal descontrolado? Ns precisamos tentar! insistiu Annabeth. a nica esperana para Beckendorf! Alm

    disso, este pode ser um sinal de Hefesto. O drago deve querer ajudar um dos filhos de Hefesto.Beckendorf ia querer que ns tentssemos.

    No gostei da ideia. Por outro lado, eu no tinha sugesto melhor. Nosso tempo estava acabandoe Silena entraria em choque se no fizssemos alguma coisa logo. Beckendorf tinha dito algo sobre um

    sinal de Hefesto. Talvez estivesse na hora de descobrir. Certo concordei. Vamos em busca de um drago sem cabea.

    Procuramos por uma eternidade. Ou talvez tenha sido apenas uma sensao, porque o tempo todo fiquei

    imaginando Beckendorf na Colina das Formigas, amedrontado e paralisado, enquanto um bando deseres em armaduras o cercavam, esperando que ele estivesse mais macio.

    No era difcil seguir a trilha das formigas. Elas haviam arrastado a cabea do drago pelafloresta, deixando um sulco profundo na lama. E ns arrastamos a cabea de volta pelo caminho deonde as formigas tinham vindo.

    Devamos ter percorrido uns vinte metros e comecei a me preocupar com o nosso tempo ,quando Annabeth disse: Di immortales.

    Chegamos beira de uma cratera, como se alguma coisa tivesse aberto um buraco do tamanho deuma casa no cho. As laterais eram irregulares e pontilhadas de razes. Trilhas de formigas levavam aofundo, onde um enorme amontoado de metal brilhava no meio da sujeira. Fios saam de um tronco debronze em uma das extremidades.

    O pescoo do drago conclu. Voc acha que as formigas fizeram essa cratera?Annabeth balanou a cabea. Parece mais com uma exploso de meteoros Hefesto disse Silena. O deus deve ter desenterrado isso. Hefesto queria que ns

    encontrssemos o drago. Ele queria que Charlie Ela estava em choque. Venham convoquei. Vamos reconectar esse bad-boy.

    Levar a cabea do drago para o fundo foi fcil. Ela caiu direto pela descida e atingiu o pescoo comum sonoro e metlico BONK! Reconectar foi mais difcil.

  • Annabeth se enrolou com os fios e xingou em grego antigo. Precisamos de Beckendorf. Ele poderia fazer isso em segundos. A sua me no a deusa dos inventores? perguntei.Annabeth me olhou furiosa. , mas isto diferente. Sou boa com ideias. No com mecnica.

    Se eu fosse escolher algum no mundo para recolocar minha cabea no lugar, escolheria voc.Eu simplesmente soltei aquilo para passar confiana a ela, eu acho , mas, imediatamente

    depois, percebi que a frase soara bem estpida. Awmmm Silena fungou e secou os olhos. Percy, isso to fofo!

    Annabeth corou. Cale a boca, Silena. Passe a sua adaga para mim.Tive medo de que Annabeth fosse me esfaquear. Em vez disso, ela usou a adaga como uma chave

    de fenda para abrir um painel no pescoo do drago. Assim no vamos chegar a lugar algum disse ela.Ento, ela comeou a unir os fios de bronze celestial. Isso levou um longo tempo. Muito longo.

    Calculei que, quela altura, a captura da bandeira devia ter acabado. Imaginei quanto tempolevaria at que os outros campistas dessem pela nossa falta e viessem nos procurar. Se os clculos deAnnabeth estavam corretos (e eles sempre estavam), provavelmente Beckendorf teria ainda cinco ou dezminutos antes de as formigas o atacarem.

    Finalmente, Annabeth se levantou e expirou o ar de seus pulmes com fora. Suas mos estavamarranhadas e sujas. As unhas estavam estragadas. Havia uma linha marrom em sua testa, onde o dragocuspira graxa.

    Certo. Est pronto, eu acho Voc acha? Silena perguntou.

    Tem de estar pronto disse eu. Nosso tempo est acabando. Como ns, ahn, ligamosisso? Ele tem algum boto ou coisa parecida?

    Annabeth apontou para os olhos de rubi do drago. Eles se movem em sentido horrio. Acho que devemos gir-los. Se algum rodasse meus globos oculares, eu acordaria concordei. E se ele se enfurecer

    com a gente? Ento estamos mortos Annabeth respondeu. timo devolvi. Isso animador.Juntos, giramos os olhos de rubi do drago. Imediatamente eles comearam a brilhar. Eu e

    Annabeth nos afastamos to rpido que camos um por cima do outro. A boca do drago se abriu,como se testasse o maxilar. A cabea se virou e olhou para ns. Vapor emanou das orelhas e ele tentouse levantar.

    Quando descobriu que no podia se mexer, o drago pareceu confuso. Ele ergueu a cabea eobservou a sujeira. Finalmente, entendeu que estava enterrado. O pescoo se esticou uma vez, duas eo centro da cratera estourou.

  • O drago se levantou desajeitadamente, sacudindo montes de lama do corpo como um cachorro enos respingando dos ps cabea. O autmato era to incrvel que nenhum de ns conseguia falar.Quer dizer, claro que ele precisava de uma passadinha num lava a jato e havia alguns fios soltos aqui eali, mas o corpo do drago era maravilhoso, como um tanque ultramoderno com pernas. Suas lateraiseram chapeadas com escamas de bronze e de ouro, com pedras preciosas incrustadas. As pernas eramdo tamanho de trs caminhes e os ps tinham garras de ao. Ele no tinha asas a maioria dosdrages gregos no tem , mas a cauda era no mnimo to longa quanto a parte principal do corpo,que era do tamanho de um nibus escolar. O pescoo rangeu e estalou quando ele virou a cabea para ocu e soprou uma coluna de um fogo triunfante.

    Bom eu disse baixinho ainda funciona.Infelizmente, ele me ouviu. Aqueles olhos de rubi fixaram-se em mim e seu focinho estacou a cinco

    centmetros do meu rosto. Instintivamente, busquei minha espada. Drago, pare! Silena gritou.Eu estava impressionado por ela ainda ter voz. Falou com tanta deciso que o autmato desviou a

    ateno para ela.Silena engoliu em seco, nervosa. Ns o acordamos para defender o acampamento. Voc se lembra? Esse o seu trabalho!O drago inclinou a cabea como se pensasse. Imaginei que Silena tinha cerca de cinquenta por

    cento de chance de levar uma rajada de fogo. Eu considerava a hiptese de pular no pescoo da coisapara distra-la, quando Silena continuou:

    Charles Beckendorf, um filho de Hefesto, est com problemas. Os Myrmekos o levaram. Eleprecisa de sua ajuda.

    Ao som da palavra Hefesto, o pescoo do drago se ajeitou. Um tremor percorreu seu corpo de

    metal, jogando uma nova chuva de lama sobre ns.O drago olhou em volta como se tentasse encontrar o inimigo. Ns precisamos mostrar a ele disse Annabeth. Venha, drago! Por esse caminho at o

    filho de Hefesto! Siga-nos!Assim, ela desembainhou sua espada e ns trs samos do buraco. Por Hefesto! Annabeth gritou, o que foi uma ideia legal. Avanamos pela floresta. Quando

    olhei para trs, o drago de bronze estava bem na nossa cola, os olhos vermelhos brilhavam e fumaasaa de suas narinas.

    Ele era um bom incentivo para continuarmos correndo enquanto nos dirigamos para a Colina dasFormigas.

    Quando chegamos clareira, o drago pareceu ter sentido o cheiro de Beckendorf. Ele nos ultrapassou etivemos de sair do caminho para no sermos achatados. Ele batia contra as rvores, as articulaesrangiam e os ps deixavam crateras no solo.

    Ele avanou direto para a Colina das Formigas. No incio, os Myrmekos no entenderam o queacontecia. O drago pisou em alguns deles, transformando-os em suco de inseto. Ento, a redeteleptica das formigas pareceu se ativar, como se dissesse: Drago gigante. Mau!

    Todas as formigas na clareira se viraram ao mesmo tempo e rodearam o drago. Mais delas

  • transbordaram da colina, centenas. O drago cuspiu fogo e uma fileira inteira de formigas bateu emretirada, em pnico. Quem diria que formigas eram inflamveis? Porm, mais delas continuaram vindo.

    Para dentro, agora! Annabeth comandou. Enquanto elas esto concentradas no drago!Silena liderou a movimentao era a primeira vez que eu seguia uma filha de Afrodite numa

    batalha. Passamos pelas formigas correndo, mas elas nos ignoraram. Por alguma razo, elas pareciamconsiderar o drago uma ameaa maior. Vai entender.

    Mergulhamos no tnel mais prximo e eu quase vomitei com o fedor. Nada, nada mesmo, cheirato mal quanto uma toca gigante de formigas. Eu podia jurar que elas deixavam a comida apodrecerantes de com-la. Algum precisava seriamente contar para elas que existem geladeiras.

    Nossa jornada l dentro foi um borro de tneis escuros e ambientes mofados forrados comcarapaas de formigas velhas e piscinas de gosma. Formigas agitavam-se, passando por ns a caminhoda batalha. Mas apenas dvamos um passo para o lado e as deixvamos passar. O fraco brilho debronze da minha espada nos deu luz enquanto seguamos para as profundezas do ninho.

    Vejam! apontou Annabeth.Espiei uma sala lateral e meu corao falhou uma batida. Pendurados no teto estavam enormes

    sacos gosmentos larvas de formiga, eu acho , mas no foi isso que chamou a minha ateno. Ocho da gruta estava cheio de moedas de ouro, pedras preciosas e outros tesouros como capacetes,espadas, instrumentos musicais, joias. Brilhavam como se fossem objetos mgicos.

    Essa s uma sala Annabeth comentou. Provavelmente existem centenas de berriosaqui embaixo decorados com tesouros.

    Isso no importante Silena insistiu. Temos de encontrar Charlie.Outra primeira vez: uma filha de Afrodite que no estava interessada em joias.Seguimos em frente. Depois de mais uns seis metros, entramos numa caverna que cheirava to mal

    que meu nariz se fechou completamente. Os restos de refeies velhas estavam numa pilha to altaquanto dunas de areia: ossos, montes de carne estragada, at antigas refeies do acampamento. Achoque as formigas faziam incurses pilha de restos do refeitrio e roubavam nossas sobras. Na base deuma das pilhas, esforando-se para se manter ereto, via-se Beckendorf. Ele estava horrvel, em parteporque sua armadura camuflada agora era da cor do lixo.

    Charlie! Silena correu para ele e tentou pux-lo. Graas aos deuses disse ele. Minhas minhas pernas esto paralisadas! Isso vai passar disse Annabeth. Mas temos de tirar voc daqui. Percy, pegue-o pelo

    outro lado.Eu e Silena suspendemos Beckendorf e ns quatro comeamos a voltar pelos tneis. Eu podia

    ouvir sons distantes de batalha: metal rangendo, rugidos de fogo, centenas de formigas mordendo ecuspindo.

    O que est acontecendo l fora? Beckendorf quis saber. Seu corpo se enrijeceu. Odrago! Vocs no o reativaram, n?

    Acho que sim respondi. Pareceu a nica opo. Mas vocs no podem simplesmente ligar um autmato! Vocs tm de calibrar o motor,

    processar um diagnstico No h como prever o que ele vai fazer! Temos de ir at l!Acabou que no precisamos ir a lugar nenhum, porque o drago veio at ns. Tentvamos lembrar

    qual tnel levava sada quando a colina inteira explodiu, cobrindo-nos de sujeira. De repente,estvamos olhando para cu aberto. O drago estava exatamente acima de ns. Golpeava para a frente e

  • para trs e reduzia a Colina das Formigas a p enquanto tentava se livrar dos Myrmekos espalhadospelo corpo.

    Vamos! gritei.Cavamos para fora da sujeira e camos aos tropeos pela lateral da colina, puxando Beckendorf

    conosco.Nosso amigo drago estava com problemas. Os Myrmekos mordiam as articulaes da sua

    armadura, cuspindo cido sobre ela. O drago pisoteava, estalava e soltava chamas, mas no resistiriamuito mais. Fumaa saa de sua carcaa de bronze.

    Para piorar, algumas formigas se voltaram para ns. Acho que no gostaram de termos roubadoseu jantar. Eu retalhei uma e cortei sua cabea. Annabeth apunhalou outra bem entre as antenas. Assimque o bronze celestial penetrou a carapaa da formiga, ela se desintegrou completamente.

    Eu eu acho que consigo andar agora disse Beckendorf, e imediatamente caiu de cara nocho quando o soltamos.

    Charlie!Silena o ajudou a se levantar e o puxou com dificuldade enquanto eu e Annabeth abramos

    caminho entre as formigas. De alguma maneira, conseguimos atingir a margem da clareira sem sermosmordidos ou cuspidos, embora um de meus tnis estivesse soltando fumaa por causa do cido.

    Ainda na clareira, o drago tropeou. Uma grande nuvem de nvoa cida irritava sua couraa. No podemos deix-lo morrer! disse Silena. muito perigoso retrucou Beckendorf, triste. Sua rede eltrica Charlie implorou Silena , ele salvou sua vida! Por favor, por mim.Beckendorf hesitou. Seu rosto ainda estava muito vermelho por causa da saliva das formigas, e ele

    tinha a aparncia de quem ia desmaiar a qualquer momento mas se esforava para ficar de p. Preparem-se para correr! comandou ele. Ento, observou a clareira e berrou: DRAGO!

    Defesa emergencial, beta-ATIVAR!O drago se virou na direo do som da voz de Beckendorf. Ele parou de lutar contra as formigas,

    e seus olhos brilharam. O ar se encheu do cheiro de oznio, como antes de uma tempestade com raios etroves.

    ZZZZZZAAAAAAPPP!

    A pele do drago lanou descargas eltricas em ondas para cima e para baixo do seu corpo,conectando-o com as formigas. Algumas delas explodiram. Outras queimaram, ficaram pretas econtorceram as patas. Em poucos segundos, no havia mais formigas sobre o drago. As que aindaestavam vivas bateram em franca retirada, escapando de volta para a colina arruinada enquanto raioseltricos atingiam-nas no traseiro, apressando-as.

    O drago urrou triunfante. Ento, ele virou os olhos brilhantes para ns. Agora disse Beckendorf , ns corremos.

    Dessa vez no gritamos Por Hefesto!. Gritamos Socoooooorro!.O drago veio nos golpear, vomitando fogo e lanando raios sobre as nossas cabeas como se

    estivesse se divertindo muito. Como se para essa coisa? gritou Annabeth.

  • Beckendorf, cujas pernas agora estavam boas (nada como ser perseguido por um monstro enormepara o corpo ficar em ordem), sacudiu a cabea e arfou.

    Vocs no deveriam t-lo ligado! Ele instvel! Depois de alguns anos, autmatos ficamdescontrolados!

    Bom saber gritei. Mas como se desliga?Beckendorf olhou em volta freneticamente. L!Uma enorme formao rochosa estava nossa frente, quase to alta quanto as rvores. A floresta

    era cheia de pedras estranhas, mas eu nunca tinha visto uma assim. Tinha o formato de uma rampa deskate gigante, inclinada em um dos lados e com uma descida ngreme no outro.

    Corram acompanhando a base do despenhadeiro disse Beckendorf. Distraiam o drago.Mantenham-no ocupado!

    O que voc vai fazer? quis saber Silena. Voc ver. Vo!Beckendorf sumiu atrs de uma rvore enquanto eu virei e gritei para o drago. Ei, boca de jacar! Seu bafo tem cheiro de gasolina!O drago soltou fumaa preta pelas narinas. Ele avanou para cima de mim, sacudindo o cho. Vamos! Annabeth agarrou minha mo. Corremos para trs do despenhadeiro. O drago

    nos seguiu. Precisamos segur-lo aqui disse ela. Ns trs preparamos nossas espadas.O drago nos alcanou e cambaleou at parar. Ele inclinou a cabea como se no acreditasse que

    seramos to burros a ponto de lutar. Agora que nos alcanara, havia tantas maneiras diferentes de nosmatar que ele provavelmente no conseguiria decidir.

    Ns nos separamos quando a primeira rajada de fogo transformou o pedao de cho prximo ans num buraco de cinzas.

    Ento, vi Beckendorf sobre ns, no alto do despenhadeiro, e entendi o que ele tentava fazer. Eleprecisava de um alvo limpo. Eu tinha de prender a ateno do drago.

    I! Avancei. Enfiei Contracorrente na pata do drago e cortei uma garra.Sua cabea rangeu enquanto olhava para baixo, para mim. Ele parecia mais confuso que

    enraivecido, tipo: Por que voc arrancou meu dedo?

    Ento, ele abriu a boca, revelando uma centena de dentes pontiagudos. Percy! Annabeth me advertiu.Mantive minha posio. S mais um segundo Percy!E exatamente quando o drago ia me atacar, Beckendorf se lanou das rochas e aterrissou no

    pescoo do autmato.O drago empinou-se e soltou chamas, tentando sacudir Beckendorf, mas ele se segurou como um

    caubi ao mesmo tempo em que o monstro dava cabeadas a esmo. Eu observava, fascinado, enquantoBeckendorf abria fora um painel na base da cabea do drago e arrancava um fio.

    Instantaneamente, o drago congelou. Seus olhos ficaram opacos. De repente, ele era s umaesttua de bronze, mostrando os dentes para o cu.

  • Beckendorf deslizou pelo pescoo do drago. Ele desabou ao chegar cauda, exausto e respirandocom dificuldade.

    Charlie! Silena correu at ele e lhe deu um longo beijo no pescoo. Voc conseguiu!Annabeth veio at mim e apertou meu ombro de leve. Ei, Cabea de Alga, voc est bem? Sim eu acho.Eu pensava em quo perto cheguei de virar um semideus modo na boca do drago. Voc foi timo.O sorriso de Annabeth era muito melhor do que o daquele drago idiota. Voc tambm disse eu, trmulo. Ento o que fazemos com o autmato?Beckendorf secou a testa. Silena ainda cuidava dos cortes e machucados dele, que parecia bem

    distrado com toda aquela ateno. Ns eu no sei respondeu ele. Talvez possamos consert-lo, faz-lo proteger o

    acampamento, mas isso poderia levar meses. Vale tentar comentei.Imaginei termos aquele drago de bronze na nossa luta contra Cronos, o Senhor dos Tits. Seus

    monstros pensariam duas vezes antes de atacar o acampamento se tivessem de encarar aquela coisa. Por

    outro lado, se o drago decidisse ser um brbaro furioso de novo e atacasse os campistas isso seriamuito pior.

    Voc viu todo aquele tesouro na Colina das Formigas? Beckendorf perguntou. As armasmgicas? A armadura? Aquelas coisas realmente poderiam nos ajudar.

    E os braceletes Silena comentou. E todos os colares.Estremeci s de lembrar o cheiro daqueles tneis. Acho que essa uma aventura para depois. Seria necessrio um exrcito de semideuses somente

    para chegar perto daquele tesouro. Talvez ponderou Beckendorf. Mas que tesouroSilena estudou o drago paralisado. Charlie, essa foi a coisa mais corajosa que eu j vi voc pulando naquele drago.Beckendorf engoliu em seco. Hum . Ento voc quer ir aos fogos comigo?O rosto de Silena se animou. Claro, seu tolinho! Pensei que voc nunca fosse me convidar!De repente, Beckendorf pareceu estar muito melhor. Bom, vamos voltar, ento! Aposto que a captura da bandeira j acabou.

    Tive de ir descalo, porque o cido corroeu completamente meu sapato. Quando o joguei fora, percebique a gosma tinha ensopado minha meia e deixado meu p em carne viva. Eu me apoiei em Annabeth eela me ajudou a seguir pela floresta coxeando.

    Beckendorf e Silena caminhavam nossa frente, de mos dadas, e ns os deixamos vontade.Observando os dois, com meu brao em volta de Annabeth para me apoiar, me senti bastante

    desconfortvel. Silenciosamente, amaldioei Beckendorf por ele ser to corajoso, e no estou me

  • referindo a enfrentar o drago. Depois de trs anos, ele finalmente encontrou coragem para convidarSilena Beauregard para sair. Isso no era justo.

    Sabe Annabeth comeou a dizer enquanto nos esforvamos para andar , essa no foi acoisa mais corajosa que eu j vi.

    Pisquei. Ser que ela lia meus pensamentos? Hum o que voc quer dizer?Annabeth segurou meu pulso quando passamos desajeitados por um crrego raso. Voc encarou o drago para que Beckendorf tivesse a chance de pular isso foi corajoso.

    Ou muito idiota. Percy, voc um cara corajoso afirmou ela. Apenas aceite o elogio. to difcil assim?Nossos olhares se encontraram. Nossos rostos estavam, tipo, a cinco centmetros de distncia um

    do outro. Senti o peito meio esquisito, como se meu corao tentasse fazer polichinelos. Ento comecei , acho que Silena e Charlie vo aos fogos juntos. Acho que sim Annabeth concordou. continuei , hum, sobre issoNo sei o que eu teria dito, mas, justo naquele instante, trs irmos de Annabeth do chal de

    Atena brotaram dos arbustos com as espadas desembainhadas. Quando eles nos viram, comearam a rir. Annabeth! um deles a chamou. Bom trabalho! Vamos prender esses dois.Eu o encarei. O jogo no acabou?O campista de Atena gargalhou. Ainda no mas acabar logo, logo. Agora que capturamos voc.

    Cara, o que isso Beckendorf protestou. Ns nos desviamos do jogo. Havia um drago,e toda a Colina das Formigas nos atacou.

    A-h. Outro garoto de Atena se manifestou, claramente no impressionado. timotrabalho distraindo os dois, Annabeth. Funcionou perfeitamente. Voc quer que ns os levemos a partirdaqui?

    Annabeth se afastou de mim. Eu jurava que ia nos dar passe livre para a fronteira, mas eladesembainhou a espada e a apontou para mim com um sorriso.

    No disse ela. Eu e Silena podemos fazer isso. Vamos, prisioneiros. Mexam-se.Eu a encarei, pasmo. Voc planejou isso? Voc planejou essa coisa toda s para nos manter fora do jogo?

    Percy, srio, como eu poderia ter planejado isso? O drago, as formigas voc acha que eupoderia ter previsto tudo aquilo?

    Pode no parecer, mas essa era Annabeth. Era impossvel conhec-la totalmente. Ento, ela trocouolhares com Silena, e eu podia jurar que elas tentavam no rir.

    Voc sua comecei a dizer, mas no consegui pensar num nome forte o bastante paraxing-la.

    Protestei por todo o caminho at a priso, assim como Beckendorf. Era muito injusto sermos

  • tratados como prisioneiros depois de tudo por que passamos.Mas Annabeth apenas sorriu e nos prendeu. Enquanto se dirigia de volta para a linha de frente,

    ela se virou e piscou. Vejo voc nos fogos?Ela nem esperou pela minha resposta antes de se lanar para a floresta.Olhei para Beckendorf. Ela acabou de me convidar para sair?Ele deu de ombros, completamente enojado. Quem vai entender as garotas? Prefiro encarar um drago descontrolado.Ento, ns nos sentamos e esperamos as garotas ganharem o jogo.

  • Entrevista comCONNOR e TRAVIS STOLL,

    Filhos de Hermes

    Qual foi a melhor pea que vocs j pregaram em outrocampista?

    Connor: A manga dourada!

    Travis: Ah, cara, essa foi sensacional.

    Connor: Bom, ns pegamos uma manga e a pintamos com tintaspray dourada, certo? Escrevemos Para a mais gostosa nela ea deixamos no chal de Afrodite enquanto as garotas estavam naaula de arco e flecha. Quando voltaram, as garotas comearam abrigar pela manga, tentando descobrir qual delas era a maisgostosa. Foi muito engraado.

    Travis: Sapatos Gucci voaram pelas janelas. As filhas deAfrodite rasgavam as roupas umas das outras e atiravam batonse joias. Eram como um rebanho fantico de bonecas Bratzselvagens.

    Connor: Ento, elas descobriram o que tnhamos feito e vieramatrs de ns.

    Travis: Aquilo no foi legal. Eu no sabia que elas faziammaquiagem permanente. Fiquei parecendo um palhao por um ms.

    Connor: . Elas jogaram uma maldio em mim que, no importavao que eu vestisse, todas as minhas roupas ficavam doistamanhos menores e eu me senti um idiota.

    Travis: Voc um idiota.

  • Quem vocs mais gostariam de ter em sua equipe para a capturada bandeira?

    Travis: Meu irmo, porque preciso ficar de olho nele.

    Connor: Meu irmo, porque no confio nele. Alm dele?Provavelmente o chal de Ares.

    Travis: . Eles so fortes e fceis de manipular. A combinaoperfeita.

    Qual a melhor parte de estar no chal de Hermes?

    Connor: Voc nunca est sozinho. Srio, novas crianas estosempre chegando. Ento voc sempre tem com quem conversar.

    Travis: Ou zoar.

    Connor: Ou roubar. Uma grande famlia feliz.

  • Entrevista comCLARISSE LA RUE,Filha de Ares

    Com quem voc mais gostaria de arrumar uma briga noAcampamento Meio-Sangue?

    Clarisse: Com qualquer um que atravesse meu caminho, otrio.Ah, voc quer dizer especificamente? Muitas opes. Tem essegaroto novo no chal de Apolo, Michael Yew. Eu ia adorarquebrar seu arco na cabea dele. Ele pensa que o chal deApolo muito melhor que o de Ares s porque eles podem usararmas de longo alcance e ficar longe da batalha como covardes.Sou mais uma lana e um escudo. Algum dia, pode escrever,transformarei em p Michael Yew e todo o seu chal de bananas.

    Com exceo do seu pai, quem voc acha que o deus ou a deusamais corajoso ou corajosa do Conselho Olimpiano?

    Clarisse: Bom, ningum chega perto de Ares, mas acho que oSenhor Zeus bastante corajoso. Quer dizer, ele deu conta deTifo e lutou contra Cronos. Claro que fcil ser corajosoquando se tem um arsenal de raios superpoderosos. Sem quererofender.

    Voc j se vingou de Percy por ele t-la ensopado com gua deprivada?

    Clarisse: Ah, aquele intil anda se exibindo de novo, n? Noacredite nele. Ele exagerou a coisa toda. Acredite, a vinganase aproxima. Um dia desses, ele vai lamentar. Por que espero?Apenas estratgia. Aguardo os prximos acontecimentos e esperoo momento certo para atacar. No estou assustada, o.k.? E soucapaz de quebrar os dentes de quem disser o contrrio.

  • Entrevista comANNABETH CHASE,Filha de Atena

    Se voc pudesse desenhar uma nova estrutura para o AcampamentoMeio-Sangue, qual seria?

    Annabeth: Fico feliz que voc tenha perguntado. Precisamosseriamente de um templo. Aqui estamos ns, filhos dos deusesgregos, e no temos nem um monumento a nossos pais. Eu ocolocaria no monte logo ao sul da Colina Meio-Sangue, e eu oprojetaria de tal forma que todas as manhs o sol nascentebrilhasse pelas janelas e desenhasse smbolos dos deuses nocho: num dia uma guia, no outro uma coruja. Ele teriaesttuas para todos os deuses, claro, e braseiros de bronzepara queimar oferendas. Eu o faria com acstica perfeita, comoo Carnegie Hall, para que tivssemos concertos de lira eflauta l. Eu poderia continuar falando, mas acho que voc jentendeu. Quron diz que ns temos de vender quatro milhes decaminhes de morangos para pagar um projeto como esse, masacho que valeria a pena.

    Com exceo de sua me, quem voc acha que o deus ou a deusamais sbio ou sbia do Conselho Olimpiano?

    Annabeth: Ai, deixe-me pensar hum. A questo que osolimpianos no so conhecidos exatamente por sua sabedoria, edigo isso com o mximo de respeito possvel. Zeus sbio aseu modo. Quer dizer, ele mantm a famlia unida por quatromil anos, e isso no fcil. Hermes esperto. Ele at fezApolo de bobo uma vez, ao roubar o rebanho dele, e Apolo no nenhum negligente. Sempre admirei rtemis tambm. Ela nodesonra suas crenas. Ela apenas cuida dos prprios assuntos eno perde muito tempo discutindo com os outros deuses doconselho. Ela ainda passa mais tempo no mundo mortal que amaioria dos deuses. Ento, entende o que acontece. Mas nocompreende os garotos. Acho que ningum perfeito.

  • De todos os seus amigos do Acampamento Meio-Sangue, quem vocmais gosta de ter a seu lado numa batalha?

    Annabeth: Ah, Percy. Sem dvida. Quer dizer, claro que elepode ser chato, mas confivel. Ele corajoso e um bomlutador. Geralmente, desde que eu diga o que fazer, ele venceuma luta.

    Sabemos que voc chama Percy de Cabea de Alga de vez emquando. Qual a caracterstica mais irritante dele?

    Annabeth: Bom, eu no o chamo assim porque ele brilhante,chamo? Quer dizer, ele no burro. Na verdade ele beminteligente, mas ele age como burro s vezes. Fico pensando seele no age desse jeito s para me chatear. O cara tem muitascoisas a seu favor. Ele corajoso. Tem senso de humor. bonito, mas no ouse contar isso a ele.

    Onde eu estava? Ah, sim, ele tem muitas coisas a seu favor,mas ele to lento. Essa a palavra. Quer dizer, ele noenxerga coisas realmente bvias; por exemplo, o modo como aspessoas se sentem, mesmo quando voc d pistas a ele e totalmente explcito. O qu? No, no me refiro a algum oualgo em particular! S estou dando um depoimento geral. Porque todo mundo sempre pensa Argh! Deixa pra l!

  • Entrevista comGROVER UNDERWOOD,

    Stiro

    Que msica voc mais gosta de tocar na flauta?

    Grover: Ah, bem, isso um pouco embaraoso. Recebi umpedido uma vez de um rato almiscarado que queria ouvirMuskrat love, sobre o amor de ratos almiscarados. Bomaprendi a msica, e tenho de admitir que gostei de toc-la.Honestamente, ela no mais s para ratos almiscarados! Ela uma histria de amor muito doce. Fico com os olhos cheiosdgua quando toco essa msica. Percy tambm, mas acho que porque ele est rindo de mim.

    Qual desses dois voc preferiria encontrar em um beco escuro:um ciclope ou o sr. D furioso?

    Grover: B! Que tipo de pergunta foi essa? bem Eupreferiria encontrar o sr. D, obviamente, porque ele to ,legal. Sim, carinhoso e generoso com todos ns, stiros. Todosns o amamos. E eu no digo isso s porque ele sempre ouve eme faria em pedaos se eu falasse outra coisa.

    Na sua opinio, na natureza, qual o lugar mais bonito nosEstados Unidos?

    Grover: incrvel que ainda haja tantos lugares legais, masgosto de Lake Placid, no norte do estado de Nova York. Muitobonito, especialmente num dia de inverno! E as ninfas dobosque de l uau! Ah, espere, voc pode cortar essa parte?Junper vai me matar.

    Latas de alumnio so realmente to gostosas assim?

  • Grover: Minha velha vov cabra costumava dizer: Duas lataspor dia para no ter monstros, a garantia. As latas tmvrios minerais, so muito nutritivas e sua textura maravilhosa. Verdade, como no gostar? No tenho culpa se osdentes humanos no foram feitos para o trabalho pesado.

  • Entrevista comPERCY JACKSON,

    Filho de Poseidon

    Do que voc gosta mais nos veres no Acampamento Meio-Sangue?

    Percy: De ver meus amigos, com certeza. muito legal voltarao acampamento depois de um ano na escola. como voltar paracasa. No primeiro dia do vero, passeio pelos chals e Connore Travis furtam coisas da loja do acampamento, Silena discutecom Annabeth, tentando mudar o seu estilo, e Clarisse aindaenfia as cabeas das crianas novas nas privadas. bom quealgumas coisas nunca mudem.

    Voc frequentou muitas escolas diferentes. Qual a parte maisdifcil de ser o aluno novo?

    Percy: Fazer sua reputao. Quer dizer, todo mundo quer seencaixar num grupo, certo? Mesmo que voc seja um nerd, umpit-boy ou o que for. Voc precisa deixar claro desde oprincpio que no algum que eles possam importunar, masvoc tambm no pode ser um mala quanto a isso. Masprovavelmente no sou a melhor pessoa para dar conselhos. Noconsigo passar um ano sem ser expulso ou destruir algumacoisa.

    Se voc pudesse trocar Contracorrente pelo item mgico dealgum, o de quem voc escolheria?

    Percy: Essa difcil, porque eu realmente me acostumei aContracorrente. No consigo me imaginar sem aquela espada.Acho que seria legal ter um conjunto de armadura que setransformasse em roupas comuns. Vestir armadura muito ruim. pesada, quente. E no deixa voc exatamente na moda,entende? Ento, ter roupas que se metamorfoseassem em armaduraseria realmente til. Mas eu ainda no estou muito certo de

  • que trocaria minha espada por isso.

    Voc quase foi pego muitas vezes, mas qual foi o momento maisassustador?

    Percy: Vou ter de responder que foi minha primeira luta com oMinotauro, no alto da Colina Meio-Sangue, porque eu no sabiao que diabos estava acontecendo. Eu nem sabia que era umsemideus quela altura. Pensei que tinha perdido minha mepara sempre, e eu estava preso numa colina debaixo de umatempestade lutando contra esse sujeito meio touro enquantoGrover, desmaiado, gemia: Comida!. Foi aterrorizante, cara.

    Algum conselho para crianas que suspeitam serem semideusestambm?

    Percy: Rezem para estarem errados. Srio, pode parecerdivertido ler sobre isso, mas no uma boa coisa. Se vocpensa mesmo que um semideus, encontre um stiro depressa.Voc normalmente pode ach-los em qualquer escola. Eles riemde um jeito esquisito e comem qualquer coisa. Eles podem terum andar engraado porque tentam esconder seus cascos dentrode ps falsos. Encontre o stiro de sua escola e pea ajuda.Voc precisa chegar ao Acampamento Meio-Sangue logo. Mas, denovo, voc no quer ser um semideus. No tente fazer isso emcasa.

  • MAPA DOACAMPAMENTOMEIO-SANGUE

  • PERCYJACKSON

    E AESPADA DE HADES

  • Passar o Natal no Mundo Inferior no estava nos meus planos.Se soubesse o que estava por vir, teria inventado uma doena qualquer. Poderia ter evitado um

    exrcito de demnios, uma luta com um tit ou uma cilada que quase lanou a mim e aos meus amigosna escurido eterna.

    Mas no, eu tinha de fazer minha prova idiota de ingls. Ento, l estava eu, no ltimo dia dosemestre de inverno na Goode High School, sentado no auditrio com todos os outros calouros etentando terminar a minha redao eu-no-li-o-livro-mas-estou-fingindo-que-li sobre Um conto de duas

    cidades, quando a sra. OLeary surgiu no palco, latindo loucamente.

    A sra. OLeary meu co infernal de estimao. Ela um monstro preto e peludo do tamanho deuma caminhonete Hummer com caninos afiados, garras cortantes como ao e olhos vermelhosbrilhantes. Ela realmente doce, mas em geral fica no Acampamento Meio-Sangue, o lugar paratreinamento de semideuses. Eu estava um tanto surpreso em v-la no palco andando por entre as rvoresde Natal, os duendes do Papai Noel e o restante do cenrio da pea de fim de ano.

    Todo mundo levantou os olhos para ver. Eu estava certo de que as outras crianas entrariam empnico e correriam para a sada, mas apenas comearam a cochichar e a rir. Algumas garotas disseram:Awmm, fofinha!

    Nosso professor de ingls, o dr. Boring (no estou brincando, o significado chato e esse onome dele), ajeitou os culos e franziu o cenho.

    Tudo bem comeou ele , de quem o poodle?Suspirei aliviado, agradecendo aos deuses pela Nvoa o vu mgico que impede os humanos de

    verem as coisas como realmente so. Eu j a tinha visto distorcer a realidade muitas vezes, mas a sra.OLeary como um poodle? Essa foi impressionante.

    Hum, meu, senhor respondi em voz alta. Desculpe! Ela deve ter me seguido.Algum atrs de mim comeou a assobiar Mary tinha um carneirinho. Mais crianas aderiram

    ao coro. Chega! interrompeu o dr. Boring, rispidamente. Percy Jackson, essa uma prova final.

    No posso ter poodles AU!O latido da sra. OLeary sacudiu o auditrio. Ela abanou o rabo, derrubando mais alguns

    duendes. Ento, inclinou-se sobre as patas dianteiras e me encarou como se quisesse que eu a seguisse. Vou tir-la daqui, dr. Boring prometi. Eu j terminei mesmo.Fechei meu caderno de respostas e corri para o palco. A sra. OLeary se dirigiu para a sada e eu a

    segui enquanto as outras crianas ainda riam e gritavam pelas minhas costas: At mais, menino dopoodle!

    A sra. OLeary correu pela rua 81 Leste em direo ao rio. Devagar! gritei. Aonde voc est indo?Recebi alguns olhares estranhos dos pedestres, mas estvamos em Nova York, e, afinal, um garoto

  • perseguindo um poodle provavelmente no era a coisa mais esquisita que eles j tinham visto.A sra. OLeary se manteve bem minha frente, e se virava para latir de vez em quando como se

    dissesse: Mexa-se, lesma! Ela correu trs quadras para o norte, direto para dentro do parque Carl Schurz.

    Quando eu a alcancei, ela saltou uma cerca de ferro e desapareceu numa enorme parede de arbustospodados cobertos de neve.

    Ei, vamos l reclamei.Eu no havia tido a chance de pegar meu casaco na escola. J estava morrendo de frio, mas escalei

    a cerca e mergulhei na moita congelada.Do outro lado havia uma clareira: uns dois quilmetros quadrados de grama congelada

    circundada por rvores sem folhas. A sra. OLeary cheirava o entorno, balanando a cauda loucamente.No percebi nada fora do comum. minha frente, o Rio East, cor de ao, flua preguiosamente.Nuvens de fumaa branca saam dos telhados no Queens. Atrs de mim, o Upper East Side sedestacava, frio e silencioso.

    Eu no tinha certeza do porqu, mas minha nuca comeou a formigar. Peguei minha canetaesferogrfica e a destampei. Imediatamente, ela aumentou de tamanho at virar minha espada debronze, Contracorrente. Sua lmina reluzia fracamente na luz do inverno.

    A sra. OLeary levantou a cabea. Suas narinas tremeram. O que foi, garota? sussurrei.Os arbustos farfalharam e um cervo dourado surgiu entre eles. Quando eu digo dourado, no

    quero dizer amarelo. Aquela coisa tinha pelo metlico e chifres que pareciam de genunos catorzequilates. Ele emitia uma aura de luz dourada, quase brilhante demais para se olhar diretamente. Eraprovavelmente a coisa mais bonita que eu j tinha visto.

    A sra. OLeary lambeu os beios como se estivesse pensando hambrguer de cervo! Ento, os arbustos

    farfalharam de novo e uma figura encapuzada saltou para a clareira, uma flecha engatada em seu arco.Levantei minha espada. A garota mirou em mim depois parou. Percy?Ela jogou para trs o capuz prateado da sua capa. Seus cabelos negros estavam mais longos do

    que eu lembrava, mas eu conhecia aqueles brilhantes olhos azuis e a fita prateada que a marcava como aprimeira-tenente de rtemis.

    Thalia! exclamei. O que est fazendo aqui? Seguindo o cervo dourado ela respondeu, como se isso fosse bvio. o animal sagrado

    de rtemis. Entendi que era algum tipo de sinal. E, hum ela indicou a sra. OLeary com a cabea,nervosa. Voc quer me dizer o que aquilo est fazendo aqui?

    Aquilo meu bicho de estimao. Sra. OLeary, no!

    A sra. OLeary estava cheirando o cervo, invadindo completamente seu espao. O cervo tocou oco infernal no nariz. Logo em seguida, os dois estavam brincando de um estranho jogo de pega-pegapela clareira.

    Percy Thalia franziu o cenho. Isso no pode ser uma coincidncia. Voc e eu no mesmolugar e ao mesmo tempo?

    Ela estava certa. Semideuses no viviam coincidncias. Thalia era uma boa amiga, mas eu no a

  • via fazia um ano, e agora, de repente, ali estvamos ns. Algum deus est aprontando com a gente sugeri. Provavelmente. Bom ver voc, mesmo assim.Ela sorriu de m vontade. T. Se sairmos dessa inteiros, pago um cheeseburger para voc. Como est Annabeth?

    Antes que eu pudesse responder, uma nuvem passou pelo sol. O cervo dourado tremeluziu edesapareceu, deixando a sra. OLeary latindo para um monte de folhas.

    Preparei minha espada. Thalia armou seu arco. Instintivamente nos posicionamos de costas umpara o outro. Um caminho de escurido passou pela clareira e um garoto caiu dele como se tivesse sidocuspido, pousando na grama a nossos ps.

    Ai resmungou.Ele bateu a poeira de sua jaqueta de aviador. Tinha mais ou menos doze anos, cabelos escuros,

    usava jeans, camiseta preta e um anel de caveira prateado na mo direita. Uma espada pendia a seulado.

    Nico? chamei.

    Os olhos de Thalia se arregalaram. O irmo mais novo de Bianca?Nico nos olhou de cara feia. Duvido de que ele gostasse de ser anunciado como o irmo mais

    novo de Bianca. Sua irm, uma Caadora de rtemis, tinha morrido havia alguns anos, e esse ainda eraum assunto delicado para ele.

    Por que vocs me trouxeram para c? reclamou. Num minuto estou num cemitrio emNova Orleans. No minuto seguinte isso Nova York? O que em nome de Hades eu estou fazendoem Nova York?

    Ns no o trouxemos para c jurei. Ns fomos um calafrio desceu pelas minhascostas. Fomos trazidos juntos. Os trs.

    Do que voc est falando? Nico quis saber. Os filhos dos Trs Grandes disse eu. Zeus, Poseidon e Hades.Thalia respirou fundo. A profecia. Vocs no acham que CronosEla no concluiu o pensamento. Todos conhecamos a grande profecia: uma guerra estava a

    caminho, entre os tits e os deuses, e o primeiro filho de um dos trs maiores deuses a completardezesseis anos tomaria uma deciso que salvaria ou destruiria o mundo. Isso se referia a um de ns. Aolongo dos ltimos anos, o Senhor dos Tits, Cronos, tentou manipular cada um de ns separadamente.Agora ser que ele estava tramando alguma coisa ao trazer os trs juntos?

    O cho retumbou. Nico empunhou sua espada: uma lmina negra de ferro estgio. A sra. OLearysaltou para trs e latiu assustada.

    Percebi tarde demais que ela estava tentando me alertar.O cho se abriu sob Thalia, Nico e eu, e ns camos na escurido.

    Eu esperava continuar caindo para sempre, ou talvez acabar achatado como uma panqueca de semideus

  • quando atingssemos o fundo. Mas o que vi a seguir foi Thalia, Nico e eu de p num jardim, todos ostrs ainda gritando de terror, o que fez eu me sentir bastante idiota.

    O que onde estamos? Thalia perguntou.O jardim era escuro. Fileiras de flores prateadas brilhavam fracamente, refletindo enormes pedras

    preciosas que delineavam os canteiros: diamantes, safiras e rubis do tamanho de bolas de futebolamericano. rvores arqueavam-se sobre ns, as copas cobertas de flores de laranjeira e frutas docementeperfumadas. O ar era frio e mido, mas no como no inverno de Nova York. Parecia mais umacaverna.

    J estive aqui antes eu disse.Nico arrancou uma rom de uma rvore. O jardim da minha madrasta, Persfone. Ele fez uma cara azeda e largou a fruta. No

    comam nada.Ele no precisava me avisar duas vezes. Uma s prova da comida do Mundo Inferior e ns nunca

    seramos capazes de ir embora. Olhem para cima Thalia alertou.Eu me virei e vi Thalia mirando sua flecha em uma mulher alta de vestido branco.A princpio, pensei que a mulher fosse um fantasma. O vestido esvoaava em torno dela como

    fumaa. Os longos cabelos escuros flutuavam e ondulavam como se no pesassem nada. O rosto erabonito, porm mortalmente plido.

    Ento, percebi que o vestido no era branco. Tinha todas as cores misturadas flores vermelhas,azuis e amarelas brotavam no tecido , mas era estranhamente desbotado. Seus olhos eram do mesmojeito, multicoloridos mas esmaecidos, como se o Mundo Inferior houvesse sugado sua vontade de viver.Tive a impresso de que no mundo acima de ns ela seria bonita, at brilhante.

    Sou Persfone disse ela. Sua voz era fina e fraca. Sejam bem-vindos, semideuses.Nico esmagou uma rom embaixo de sua bota.

    Bem-vindo? Depois da ltima vez, voc tem coragem de me dar boas-vindas?

    Eu me mexi, inquieto, porque algum que fale desse jeito com um deus pode ser transformado emtufos de poeira.

    Hum, Nico Est tudo bem disse Persfone friamente. Tivemos uma pequena desavena familiar. Desavena familiar? gritou Nico. Voc me transformou num dente-de-leo!

    Persfone ignorou o enteado. Como eu estava dizendo, semideuses, bem-vindos ao meu jardim.Thalia baixou o arco. Voc enviou o cervo dourado? E o co infernal admitiu a deusa. E a sombra que coletou Nico. Era necessrio traz-los

    juntos. Por qu? perguntei.Persfone me observou, e senti como se frias florezinhas crescessem em meu estmago. O Senhor Hades tem um problema disse ela. E se sabem o que bom para vocs, iro

    ajud-lo.

  • Sentamos em um terrao escuro com vista panormica para o jardim. As criadas de Persfonetrouxeram comida e bebida, que nenhum de ns tocou. Elas seriam bonitas no fosse o fato de estaremmortas. Estavam vestidas de amarelo, e usavam coroas de margaridas e plantas venenosas na cabea. Osolhos eram vazios e as vozes sombrias como o bater das asas de morcegos.

    Persfone sentou-se em um trono prateado e nos estudou. Se estivssemos na primavera, poderia receb-los apropriadamente no mundo l em cima. Pena

    que no inverno isso seja o melhor que eu posso fazer.Ela soou amarga. Depois de tantos milnios, acho que ainda se ressentia de viver com Hades

    metade do ano. Parecia sem cor e deslocada, como a fotografia de uma antiga primavera.Ela se virou na minha direo como se lesse meus pensamentos. Hades meu marido e mestre, meu jovem. Eu faria qualquer coisa por ele. Mas neste caso

    preciso da ajuda de vocs, e rpido. Tem a ver com a espada do Senhor Hades.Nico desdenhou. Meu pai no tem uma espada. Ele usa um exrcito e seu elmo das trevas. Ele no tinha uma espada corrigiu Persfone.

    Thalia se levantou. Ele est forjando um novo smbolo de poder? Sem a permisso de Zeus?A deusa da primavera apontou. Em cima da mesa, uma imagem tremulou e ganhou vida: ferreiros

    esquelticos trabalhavam sobre uma forja de chamas negras, usando machados decorados com caveirasde metal para moldar uma extenso de ferro em uma lmina.

    A guerra contra os tits est muito prxima disse Persfone. Meu senhor, Hades, tem deestar preparado.

    Mas Zeus e Poseidon nunca permitiriam que Hades forjasse uma nova arma! Thaliaprotestou. Isso desequilibraria o acordo de diviso de poderes entre eles.

    Persfone balanou a cabea.Voc quer dizer que faria de Hades um igual? Acredite, filha de Zeus, o Senhor dos Mortos

    no tem planos contra seus irmos. Ele sabia que nunca entenderiam, e foi por isso que forjou a armaem segredo.

    A imagem sobre a mesa tremeu. Um ferreiro zumbi ergueu a lmina, ainda ardendo com o calor.Alguma coisa estranha estava presa na base no era uma pedra preciosa. Parecia mais

    Aquilo uma chave? perguntei.Nico emitiu um som engasgado. As chaves de Hades? Espere interrompeu Thalia , o que so as chaves de Hades?Nico parecia mais plido que sua madrasta. Hades tem um conjunto de chaves de ouro que podem trancar e destrancar a morte. Pelo

    menos essa a lenda. verdade afirmou Persfone. Como se tranca e destranca morte? perguntei. As chaves tm o poder de aprisionar uma alma no Mundo Inferior Persfone respondeu.

    Ou libert-la.

  • Nico engoliu em seco. Se uma daquelas chaves foi presa na espada Aquele que a utilizar pode ressuscitar os mortos Persfone completou. Ou, com um

    mero toque, pode ceifar a vida de qualquer coisa e mandar a alma para o Mundo Inferior.Estvamos todos em silncio. A gua borbotava de uma fonte tranquila. Criadas flutuavam

    nossa volta, oferecendo bandejas de frutas e doces que nos manteriam no Mundo Inferior para sempre. tima espada disse eu, afinal. Seria impossvel deter Hades concordou Thalia. Ento esto vendo comeou Persfone porque vocs devem ajudar a recuper-la.Eu a encarei. Voc disse recuper-la?

    Os olhos de Persfone eram bonitos e mortalmente srios, como botes venenosos. A lmina foi roubada quando estava quase pronta. No sei como, mas suspeito de um

    semideus, algum servo de Cronos. Se a lmina cair nas mos do Senhor dos TitsThalia ficou de p. Vocs permitiram que a lmina fosse roubada! Que coisa idiota, no? Provavelmente Cronos

    est com ela agora!Ento as flechas de Thalia germinaram em rosas de talos longos. O arco se fundiu em uma vinha

    de madressilvas pontuadas de flores brancas e douradas. Cuidado, caadora! Persfone alertou. Seu pai pode ser Zeus e voc pode ser a tenente

    de rtemis, mas ningum se dirige a mim com desrespeito em meu prprio palcio.

    Thalia trincou os dentes. Devolva meu arco.Persfone acenou. O arco e as flechas voltaram ao normal. Agora, sente-se e oua. A espada no pode ter deixado o Mundo Inferior ainda. O Senhor

    Hades usou as chaves restantes para fechar o reino. Nada entra ou sai at que ele encontre a espada, eele est usando todo o seu poder para localizar o ladro.

    Thalia sentou-se, relutante. Ento para que voc precisa de ns? A procura da lmina no pode ser do conhecimento de todos respondeu a deusa. Ns

    trancamos o reino, mas no anunciamos o porqu. E os servos de Hades no podem ser usados nabusca. Eles no podem saber que a lmina existe at que esteja terminada. Certamente no podem saberque est desaparecida.

    Se acharem que Hades est com problemas, eles podem desertar sups Nico. E podemse unir aos tits.

    Persfone no respondeu, mas se uma deusa pode parecer nervosa, ela pareceu. O ladro tem de ser um semideus. Nenhum imortal pode roubar a arma de outro imortal

    diretamente. Mesmo Cronos tem de respeitar a Antiga Lei. Ele tem um heri aqui em algum lugar. Epara pegar um semideus devemos usar trs.

    Por que ns? quis saber. Vocs so os filhos dos trs grandes comeou Persfone. Quem poderia resistir aos seus

  • poderes combinados? Alm disso, quando vocs recuperarem a espada de Hades, enviaro umamensagem ao Olimpo. Zeus e Poseidon no protestaro contra a nova arma de Hades se ela lhe forentregue por seus prprios filhos. Mostrar que vocs confiam em Hades.

    Mas eu no confio nele retrucou Thalia.

    Nem eu completei. Por que deveramos fazer alguma coisa por Hades, principalmentedar a ele uma superarma? Certo, Nico?

    Nico olhava fixamente para a mesa. Seus dedos batiam levemente na sua lmina negra de ferroestgio.

    Certo, Nico? incentivei.Levou um segundo at que ele se concentrasse em mim. Eu tenho de fazer isso, Percy. Ele meu pai. Ah, de jeito nenhum protestou Thalia. Voc no pode acreditar que isso seja uma boa

    ideia! Voc prefere que a espada v para as mos de Cronos?Esse era um bom argumento. O tempo est passando disse Persfone. O ladro deve ter cmplices no Mundo

    Inferior, e estar procurando por uma sada.Franzi o cenho. Pensei que voc tinha dito que o reino estava trancado. Nenhuma priso hermeticamente fechada, nem mesmo o Mundo Inferior. As almas esto

    sempre encontrando sadas, com mais rapidez do que Hades pode bloque-las. Vocs precisamrecuperar a espada antes que ela deixe nosso reino, ou tudo estar perdido.

    Mesmo que quisssemos fazer isso comeou Thalia , como encontraramos esse ladro?Uma planta em um vaso apareceu na mesa: um craveiro amarelo, doente, com algumas folhas

    verdes. O cravo inclinava-se para o lado, como se tentasse encontrar o sol. Isto vai gui-los informou a deusa. Um craveiro mgico? perguntei. A flor sempre aponta para o ladro. medida que sua presa se aproximar da fuga, as ptalas

    cairo.Foi s falar e uma ptala amarela ficou cinza e caiu flutuando para a sujeira. Se todas as ptalas carem, a flor morre explicou Persfone. Isso significar que o ladro

    alcanou uma sada e que vocs falharam.Olhei para Thalia. Ela no parecia muito entusiasmada com toda aquela coisa de persiga-um-

    ladro-com-uma-flor. Depois olhei para Nico. Infelizmente, reconheci a expresso em seu rosto. Eusabia o que era querer deixar o pai orgulhoso, mesmo que seu pai fosse difcil de amar. Neste caso, muito

    difcil de amar.Nico ia executar a misso, com ou sem a gente. E eu no podia deix-lo sozinho. Uma condio disse eu a Persfone. Hades ter de jurar pelo Rio Estige que nunca

    usar essa espada contra os deuses.A deusa deu de ombros. No sou o Senhor Hades, mas tenho certeza de que ele faria isso como pagamento pela sua

  • ajuda.Outra ptala caiu do craveiro.Eu me virei para Thalia. Eu seguro a flor enquanto voc acaba com o ladro?Ela suspirou. Tudo bem. Vamos pegar esse idiota.

    O Mundo Inferior no tinha entrado no esprito natalino. medida que descamos pela estrada dopalcio at o Campo de Asfdelos, o lugar ficava muito mais parecido com aquele da minha visitaanterior: realmente depressivo. Grama amarelada e choupos negros pouco desenvolvidos ondulavam aperder de vista. Sombras vagavam sem rumo pelas colinas, saindo do nada e indo para o nada,conversando entre si e tentando lembrar quem foram em vida. Bem acima de ns, o teto da cavernacintilava ameaadoramente.

    Eu carregava o craveiro, o que me fez sentir bem estpido. Nico nos guiava, j que sua lminapodia abrir caminho atravs de qualquer grupo de mortos-vivos. Thalia basicamente resmungava que eladeveria ter sido mais esperta em vez de sair em uma misso com dois garotos.

    Persfone no pareceu meio tensa? perguntei.Nico atravessou um bando de fantasmas, afastando-os com a lmina de ferro estgio. Ela sempre age assim quando estou por perto. Ela me odeia. Ento por que ela o incluiu na misso? Provavelmente foi ideia do meu pai.Pareceu que ele queria que aquilo fosse verdade, mas eu no tinha tanta certeza.Era estranho para mim o fato de que no fora o prprio Hades quem nos designara a misso. Se

    essa espada era to importante para ele, por que deixou que Persfone explicasse as coisas? Geralmente,Hades gostava de ameaar semideuses pessoalmente.

    Nico seguiu em frente. No importava quo cheios os campos estivessem e se voc j viu aTimes Square na noite de Ano-Novo, sabe do que estou falando , os espritos abriam caminho diantedele.

    Ele sabe lidar com multides de zumbis admitiu Thalia. Acho que vou lev-lo comigoda prxima vez que eu for ao shopping.

    Ela segurou firme seu arco, como se estivesse com medo que ele se transformasse em um ramo demadressilvas de novo. Thalia no parecia mais velha que no ano anterior, e de repente me ocorreu queela nunca envelheceria, agora que era uma caadora. E isso queria dizer que eu era mais velho que ela.Esquisito.

    Ento comecei , como a imortalidade est tratando voc?Ela revirou os olhos. No imortalidade total, Percy. Voc sabe disso. Ns ainda podemos morrer em combate.

    que ns nunca envelhecemos ou ficamos doentes, ento vivemos para sempre, contanto que nenhummonstro nos faa em pedaos.

    Isso sempre um perigo. Sempre.

  • Ela olhava em volta, percebi que observava atentamente os rostos dos mortos. Se voc est procurando Bianca falei rpido para que Nico no me ouvisse , ela deve

    estar nos Campos Elseos. Ela teve uma morte de heri. Eu sei respondeu ela, rispidamente. Ento se recomps. No isso, Percy. Eu s

    estava esquea.Fui tomado por um calafrio. Lembrei que a me de Thalia morrera numa batida de carro alguns

    anos atrs. Elas nunca haviam sido prximas, mas Thalia no teve a chance de se despedir. A sombra desua me poderia estar vagando por ali Era natural que Thalia parecesse exaltada.

    Desculpe disse eu. No me toquei.Nossos olhos se encontraram e eu senti que ela compreendeu. Sua expresso suavizou. Tudo bem. Vamos acabar logo com isso.Outra ptala caiu do cravo enquanto caminhvamos. No fiquei feliz quando a flor nos indicou a

    direo dos Campos da Punio. Eu tinha esperanas de que pudssemos ser conduzidos para osCampos Elseos para estar com pessoas bonitas e festejar, mas no. A flor parecia gostar da parte maisdifcil e cruel do Mundo Inferior. Pulamos um crrego de lava e seguimos caminho por entre horrveiscenas de tortura. No vou descrev-las porque voc perderia completamente o apetite, mas eu gostariade estar com algodo nos ouvidos para bloquear os gritos e a msica dos anos 1980.

    O craveiro se inclinou para uma colina nossa esquerda. L em cima disse eu.Thalia e Nico pararam. Eles estavam cobertos de fuligem por caminhar pelos Campos da

    Punio. Acho que eu no estava muito melhor.Um som alto e opressor vinha do outro lado da colina, como se algum puxasse uma mquina de

    lavar. Ento, a colina foi sacudida por um BOOM! BOOM! BOOM! e um homem xingou.

    Thalia olhou para Nico. Esse no quem eu estou pensando que , ? Acho que sim respondeu Nico. O maior especialista em enganar a morte.Antes que eu pudesse perguntar o que Nico queria dizer, ele nos levou at o topo da colina.

    O cara do outro lado no era bonito, e no estava feliz. Parecia um daqueles bonecos de troll com apele laranja, barrigo, braos e pernas mirrados e com um tipo de tanga-fralda envolta na cintura. Seuscabelos de rato estavam eriados para o alto como uma tocha. Ele pulava de um lado para o outro,xingando e chutando uma pedra duas vezes maior que ele.

    No vou! berrava. No, no, no!Ento, ele lanou uma sequncia de pragas em vrias lnguas diferentes. Se eu tivesse um daqueles

    potes em que voc coloca uma moeda para cada palavro, teria feito uns quinhentos dlares.Ele comeou a se afastar da pedra, mas, depois de dez passos, deu uma guinada, como se uma

    fora invisvel o puxasse. Cambaleou de volta e comeou a bater com a cabea na pedra. Tudo bem! gritou. Tudo bem, maldito seja.Ele coou a cabea e resmungou mais alguns palavres. Mas esta a ltima vez. Voc est me ouvindo?

    Nico olhou para ns.

  • Vamos. Enquanto ele no tenta de novo.Ns descemos a colina. Ssifo! chamou Nico.O cara de troll levantou os olhos, surpreso. Depois, arrastou-se para trs da pedra. Ah, no! Vocs no vo me fazer de idiota com esses disfarces. Eu sei que vocs so as Frias! No somos as Frias retruquei. S queremos conversar. Vo embora gritou ele. Flores no melhoram a situao. muito tarde para se

    desculpar! Veja comeou Thalia , ns queremos apenas L, l, l! berrou ele. No estou escutando!Brincamos de pega-pega com ele em torno da pedra at que finalmente Thalia, a mais rpida,

    agarrou o velho pelos cabelos. Parem choramingou ele. Eu tenho pedras para empurrar. Pedras para empurrar! Eu empurro sua pedra! ofereceu-se Thalia. Apenas cale-se e fale com meus amigos.Ssifo parou de resistir. Voc vai vai empurrar minha pedra? melhor que ficar olhando para voc. Thalia me olhou. Seja rpido com isso.

    Ento conduziu Ssifo at ns.Ela apoiou os ombros contra a pedra e comeou a empurr-la bem devagar colina acima.Ssifo fez cara feia para mim, desconfiado. Ele beliscou meu nariz. Ei! disse eu. Ento voc realmente no uma Fria concluiu, maravilhado. Para que a flor? Procuramos uma pessoa respondi. A planta est nos ajudando a encontr-la. Persfone! Ele cuspiu na poeira. Esse um dos seus artifcios de busca, no ? Ele se

    inclinou para a frente e senti um bafo desagradvel de velho-que-est-rolando-uma-pedra-por-uma-eternidade. Eu a fiz de boba uma vez, sabe. Eu fiz todos eles de bobos.

    Olhei para Nico. Traduo? Ssifo enganou a morte explicou Nico. Primeiro ele acorrentou Tnatos, o ceifador de

    almas, para que ningum pudesse morrer. Ento, quando Tnatos se libertou e estava prestes a mat-lo,Ssifo disse esposa que fizesse um funeral com os rituais errados, para que ele nunca descansasse empaz. Nosso Sissi posso cham-lo de Sissi?

    No! Sissi enganou Persfone, induzindo-a a deix-lo voltar para o mundo a fim de perseguir a

    esposa. E ele no retornou para c.O velho gargalhou. Continuei vivo outros trinta anos antes que eles finalmente viessem atrs de mim!Thalia estava na metade do caminho agora. Ela cerrava os dentes, empurrando a pedra com as

    costas. Sua expresso dizia: Apressem-se!

    Ento essa foi a sua punio eu disse a Ssifo. Rolar uma pedra at o alto da colinapara sempre. Valeu a pena?

  • Um retrocesso temporrio! gritou ele. Eu vou sair daqui em breve. E, quando eu sair,todos lamentaro!

    Como voc vai sair do Mundo Inferior? perguntou Nico. Est trancado, voc sabedisso.

    Ssifo forou um sorriso fraco. Isso foi o que o outro perguntou.Meu estmago revirou. Algum mais pediu sua opinio? Um jovem irritado Ssifo relembrou. No muito educado. Colocou uma espada na

    minha garganta. No se ofereceu para rolar minha pedra nem nada. O que voc disse a ele? quis saber Nico. Quem ele era?Ssifo massageou os ombros. Ele olhou de relance para Thalia, que estava quase no topo da colina.

    O rosto dela estava vermelho e encharcado de suor. Ah difcil dizer Ssifo respondeu. Nunca o vi antes. Ele carregava um pacote longo

    todo embrulhado em tecido preto. Esquis, talvez? Uma p? Quem sabe se vocs esperarem aqui eu possair procur-lo

    O que voc disse a ele? perguntei. No lembro.Nico desembainhou sua espada. O ferro estgio era to frio que produziu vapor no ar quente e

    seco dos Campos da Punio. Faa um esforo.O velho estremeceu. Mas que tipo de pessoa carrega uma espada como essa? Um filho de Hades disse Nico. Agora me responda!

    Ssifo ficou plido. Eu disse a ele que falasse com Melinoe! Ela sempre tem uma sada!Nico baixou sua espada. Acho que o nome Melinoe o incomodou.

    Voc est maluco? devolveu ele. Isso suicdio!O velho deu de ombros. J enganei a morte antes. Posso fazer isso de novo. Como era esse semideus? Hum ele tinha um nariz disse Ssifo. Uma boca. E um olho e Um olho? interrompi. Ele usava tapa-olho? Ah talvez respondeu ele. Tinha cabelos na cabea. E Ele arfou e olhou por

    cima do meu ombro. L est ele!Ns camos nessa.Assim que nos viramos, Ssifo escapou colina abaixo. Estou livre! Estou livre! Estou ARGH!A trs metros da colina, sua corrente invisvel estendeu-se ao mximo e ele caiu de costas. Eu e

    Nico agarramos seus braos e o rebocamos de volta.

  • Malditos sejam! Ele soltou xingamentos em grego antigo, latim, ingls, francs e muitasoutras lnguas que eu no reconheci. Nunca vou ajud-los! Vo para o Hades!

    J estamos nele resmungou Nico. Chegando! Thalia berrou.Levantei os olhos e devo ter falado alguns palavres. A pedra descia a encosta, bem na nossa

    direo. Nico pulou para um lado. Eu pulei para outro. Ssifo gritou NO! enquanto a coisa

    fazia o caminho at ele. De alguma forma, tomou coragem e parou a pedra antes que ela passasse porcima dele. Acho que tinha bastante prtica.

    Pegue-a de novo bradou ele. Por favor. No posso aguentar isso. De novo no ofegou Thalia. Agora com voc.Ele nos tratou com uma linguagem bem pior. Estava claro que no ia nos ajudar mais, ento o

    deixamos com sua punio. A caverna de Melinoe por aqui disse Nico. Se esse tal ladro realmente tem um olho s ponderei , pode ser Ethan Nakamura, filho

    de Nmesis. Foi ele quem libertou Cronos. Eu lembro disse Nico, sombrio. Mas se vamos lidar com Melinoe, temos grandes

    problemas. Vamos.Enquanto nos afastvamos, Ssifo gritava. Tudo bem, mas essa a ltima vez. Esto me ouvindo? A ltima vez!Thalia tremeu. Voc est bem? perguntei a ela. Acho que hesitou ela. Percy, o assustador que, quando cheguei ao topo, achei que

    tinha acabado. Pensei: Isso no to difcil. Posso fazer a pedra ficar. E quando ela rolou de volta,eu quase me entusiasmei a tentar de novo. Achei que pudesse conseguir numa segunda vez.

    Ela olhou para trs melancolicamente. Vamos disse eu. Quanto mais cedo sairmos daqui, melhor.

    Caminhamos pelo que pareceu uma eternidade. Mais trs ptalas do cravo murcharam, o quesignificava que metade dele estava oficialmente morta. A flor nos conduziu para uma extenso decolinas cinza e irregulares, semelhantes a dentes. Ento caminhamos naquela direo, por uma planciede rochas vulcnicas.

    Belo dia para ficar toa resmungou Thalia. Provavelmente, as Caadoras esto sebanqueteando em alguma clareira numa floresta exatamente neste instante.

    Imaginei o que minha famlia estaria fazendo. Minha me e meu padrasto, Paul, ficariampreocupados quando eu no chegasse da escola, mas no era a primeira vez que isso acontecia. Elesconcluiriam rapidamente que eu estaria em alguma misso. Minha me andaria de um lado para ooutro na sala, pensando se eu conseguiria voltar para abrir meus presentes.

    Ento, quem essa Melinoe? perguntei, tentando desviar meu pensamento de casa. Longa histria respondeu Nico. Longa e muito assustadora histria.Eu quase perguntei o que ele queria dizer quando Thalia se agachou. Armas!

  • Desembainhei Contracorrente. Tenho certeza de que eu parecia aterrorizante com um vaso decravo na outra mo, ento o coloquei no cho. Nico desembainhou a espada.

    Ficamos de costas um para o outro. Thalia preparou uma flecha. O que foi? sussurrei.Ela parecia estar ouvindo algo. Ento seus olhos se arregalaram. Um crculo de uma dzia de

    damones materializou-se em torno de ns.

    Tinham o corpo parte de mulher, parte de morcego. Suas caras eram achatadas e raivosas,possuam caninos e olhos salientes. Pelo cinza desbotado e uma armadura fragmentada cobriam seuscorpos. Tinham braos encolhidos com garras em vez de mos, asas de couro cresciam das costas e aspernas eram curtas, grossas e arqueadas. Elas seriam engraadas, no fosse o brilho assassino dos olhos.

    Queres informou Nico. O qu? perguntei. Espritos do campo de batalha. Elas se alimentam da morte violenta. Ah, maravilha disse Thalia. Afastem-se! ordenou Nico s damones. O filho de Hades est mandando.

    As Queres sibilaram. As bocas espumavam. Elas olharam para nossas armas, apreensivas, mas sentique no ficaram muito impressionadas com a ordem de Nico.

    Em breve Hades ser derrotado uma delas rangeu os dentes. Nosso novo mestre nosdar um reino livre!

    Nico piscou. Novo mestre?A damon lder deu o bote. Nico estava to surpreso que ela poderia t-lo feito em pedaos, mas

    Thalia atirou uma flecha queima-roupa na cara feia de morcego da criatura, e ela se desintegrou.O restante delas avanou. Thalia deixou o arco de lado e desembainhou as facas. Eu me esquivei

    enquanto a espada de Nico zuniu por cima da minha cabea, cortando uma das criaturas pela metade.Eu cortava e golpeava e trs ou quatro delas explodiram minha volta, mas outras continuavam aaparecer.

    Ipeto vai amaldio-los! uma gritou. Quem? perguntei, mas ento eu a atravessei com minha espada.Anote a: se voc acabar com um monstro, ele no poder responder a suas perguntas.Nico tambm desenhava arcos com sua espada, golpeando as Queres. A lmina absorvia a essncia

    delas como um aspirador a vcuo, e quanto mais ele as destrua, mais frio o ar ficava ao redor. Thaliagolpeou as costas de uma damon, atravessando-a com uma de suas facas, e com a outra espetou um

    segundo monstro sem ao menos virar-se para trs. Morra sofrendo, mortal!Antes que eu pudesse levantar minha espada para me defender, as garras de uma damon rasparam

    em meu ombro. Se eu estivesse usando uma armadura, tudo bem, mas ainda estava com meu uniformeda escola. As garras da coisa abriram um corte na minha camisa e rasgaram minha pele. Todo o meulado esquerdo pareceu explodir em dor.

  • Nico chutou o monstro para longe e o apunhalou. Tudo o que pude fazer foi cair e me encolher,tentado resistir terrvel queimao.

    O som de batalha se extinguiu. Thalia e Nico correram para o meu lado. Aguente firme, Percy Thalia pediu. Voc vai ficar bem.Mas a falha em sua voz me dizia que o ferimento era grave. Nico o tocou e eu berrei de dor. Nctar disse ele. Estou colocando nctar sobre a ferida.Nico tirou a rolha do frasco com a bebida dos deuses e pingou um pouco pelo meu ombro. Isso

    era perigoso, pois apenas um gole do lquido quase tudo o que um semideus pode suportar. Mas,imediatamente, a dor aliviou. Juntos, Nico e Thalia fizeram um curativo na ferida, e eu desmaieisomente algumas vezes.

    Eu no podia saber quanto tempo se passara, mas a ltima coisa de que me lembro de estarapoiado com as costas em uma rocha. Meu ombro estava enfaixado. Thalia me alimentava compequeninos pedaos de ambrosia sabor chocolate.

    As Queres? murmurei. Foram embora, por enquanto respondeu ela. Por um instante, voc me deixou

    preocupada, Percy, mas acho que vai resistir.Nico se agachou perto de ns. Ele segurava o craveiro. A flor s tinha mais cinco ptalas. As Queres vo voltar alertou. Ele olhava para o meu ombro com preocupao. Esse

    ferimento as Queres so espritos da doena e da peste, assim como da violncia. Ns podemosretardar a infeco, mas em algum momento voc precisar de srios cuidados. Quer dizer, do poderdivino. Ou ento

    Ele no completou o pensamento. Eu vou ficar bem.Tentei me sentar e imediatamente me senti enjoado. Devagar disse Thalia. Voc precisa descansar para poder se mexer depois. No h tempo. Olhei para o craveiro. Uma das damones mencionou Ipeto. isso

    mesmo ou minha memria est falhando? Ele um tit?Thalia assentiu, desconfortvel. O irmo de Cronos, pai de Atlas. Ele era conhecido como o tit do oeste. Seu nome significa

    o Perfurador, porque isso que ele gosta de fazer com seus inimigos. Foi lanado ao Trtaro com osirmos. Ainda deveria estar l.

    Mas e se a espada de Hades puder destrancar morte? perguntei. Ento talvez continuou Nico ela tambm possa evocar os condenados para fora do

    Trtaro. Ns no podemos deix-los tentar isso. Ainda no sabemos quem eles so lembrou Thalia.

    O meio-sangue que trabalha para Cronos disse eu. Possivelmente, Ethan Nakamura. Eele est comeando a recrutar alguns aliados de Hades para o seu lado, como as Queres. As damones

    acham que, se Cronos vencer a guerra, eles tero caos e maldade alm do combinado. E provavelmente esto certos disse Nico. Meu pai tenta manter o equilbrio. Ele reina

  • sobre os espritos mais violentos. Se Cronos escalar um de seus irmos para ser o senhor do MundoInferior

    Como esse Ipeto completei. ento o Mundo Inferior vai ficar bem pior continuou Nico. As Queres gostariam

    disso. E Melinoe tambm. Voc ainda no nos disse quem Melinoe.Nico mordeu o lbio. a deusa dos fantasmas uma das servas do meu pai. Ela controla os mortos que vagam sem

    descanso pela Terra. Todas as noites ela ascende do Mundo Inferior para aterrorizar mortais. Ela tem seu prprio caminho para o mundo, l em cima?Nico assentiu. Duvido que possa ter sido bloqueado. Normalmente, ningum nunca pensaria em atravessar

    sua caverna. Mas se esse semideus for corajoso o suficiente para fazer um acordo com ela Ele poder voltar ao mundo emendou Thalia e levar a espada a Cronos. Que a usaria para tirar seus irmos do Trtaro. E ns teramos um grande problema

    conclu.Tentei ficar em p. Uma onda de enjoo quase me fez desmaiar, mas Thalia me amparou. Percy comeou ela , voc no est em condies Tenho de estar. Observei enquanto mais uma ptala murchava e caa do cravo. Faltavam

    quatro para o fim dos dias. Me d a planta. Temos de encontrar a caverna de Melinoe.

    Enquanto caminhvamos tentei pensar em coisas positivas: meus jogadores de basquete favoritos, minhaltima conversa com Annabeth, o que minha me faria para o jantar de Natal qualquer coisa menosa dor. Mesmo assim, eu sentia como se um tigre-dentes-de-sabre estivesse mastigando meu ombro. Euno ia ser muito til numa luta, e me amaldioava por ter baixado a guarda. Nunca deveria ter sidoferido. Agora Thalia e Nico teriam de rebocar meu traseiro intil pelo restante da misso.

    Eu estava to ocupado me lamentando que no notei o som de gua em movimento at Nicodizer Oh-oh.

    Cerca de quinze metros nossa frente, um rio escuro corria com violncia por uma garganta derocha vulcnica. Eu j tinha visto o Estige, e este no parecia o mesmo rio. Era estreito, a correnteza,veloz. A gua era negra como nanquim. At a fumaa produzida era negra. A margem oposta maisdistante estava apenas a nove metros, muito longe para saltarmos, e no havia ponte.

    O Rio Lete Nico amaldioou em grego antigo. Nunca vamos atravess-lo.

    A flor apontava para o outro lado: na direo de uma montanha obscura e de um caminho para acaverna. Alm da montanha, os muros do Mundo Inferior assomavam como um cu de granito negro.Eu no imaginara que o Mundo Inferior pudesse ter uma fronteira, mas era o que aqueles murospareciam ser.

    Tem de haver um meio de atravess-lo falei.Thalia se ajoelhou prximo margem. Cuidado! alertou Nico. Esse o Rio do Esquecimento. Se uma gota da gua respingar,

    voc comear a esquecer quem .

  • Thalia recuou. Conheo esse lugar. Luke me falou dele uma vez. As almas vm aqui quando escolhem

    renascer, para esquecer totalmente suas vidas anteriores.Nico assentiu. Nade nessa gua e sua mente ser apagada. Voc ser como um beb recm-nascido.Thalia estudou a margem oposta. Eu poderia atirar uma flecha para o outro lado, talvez ancorar uma corda em uma daquelas

    pedras. Voc quer confiar seu peso a uma corda que no est amarrada? perguntou Nico.Thalia levantou as sobrancelhas. Tem razo. Funciona nos filmes, mas no. Voc pode evocar alguns mortos para nos

    ajudarem? Eu poderia, mas eles s apareceriam no meu lado do rio. gua corrente age como uma barreira

    para os mortos. Eles no podem atravess-la.Eu me encolhi. Que tipo de regra idiota essa? Ei, eu no inventei isso. Ele estudou meu rosto. Voc est horrvel, Percy. Deveria se

    sentar. No posso. Vocs precisam de mim para isso. Para qu? perguntou Thalia. Voc mal consegue ficar em p. gua, no ? Vou ter de control-la. Talvez eu possa mudar seu curso tempo suficiente para

    que a gente consiga atravessar. Nas suas condies? disse Nico. De jeito nenhum. Eu me sentiria mais seguro com a

    ideia da flecha.Cambaleei at a beira do rio.Eu no sabia se conseguiria fazer aquilo. Eu era filho de Poseidon, ento controlar gua salgada

    no era problema. Rios comuns talvez, se os espritos do rio quisessem cooperar. Mas rios mgicosdo Mundo Inferior? Eu no tinha ideia.

    Afastem-se pedi.Eu me concentrei na correnteza: a barulhenta gua negra que passava com velocidade. Eu a

    imaginei como parte do meu corpo. Poderia controlar o fluxo, faz-lo atender minha vontade.No tinha certeza, mas achei que a gua batia e borbulhava com mais violncia, como se pudesse

    sentir minha presena. Eu sabia que no conseguiria parar todo o rio de uma s vez. A gua represadainundaria o vale todo, explodindo em nossa direo assim que eu a liberasse. Mas havia outra soluo.

    Isso no vai ser fcil murmurei.Ergui meus braos como se levantasse alguma coisa acima da minha cabea. Meu ombro ferido

    queimou como lava, mas tentei ignor-lo.O rio se ergueu. A correnteza elevando-se das margens formava um grande arco. Era um

    barulhento arco de gua negra de seis metros de altura. O leito do rio nossa frente se tornou lodo seco,um tnel no meio da gua apenas largo o suficiente para duas pessoas caminharem lado a lado.

    Thalia e Nico me encararam maravilhados. Vo. No vou conseguir sustentar isso por muito tempo.

  • Pontos amarelos danavam em frente aos meus olhos. Meu ombro ferido quase gritava de dor.Thalia e Nico caminharam com dificuldade para o leito do rio e seguiram em frente pelo lodopegajoso.

    Nem uma nica gota. No posso deixar que nem uma nica gota dgua respingue neles.

    O Rio Lete lutou comigo. Ele no queria ser arrancado de suas margens. Queria despencar sobremeus amigos, apagar suas mentes e afog-los. Mas sustentei o arco.

    Thalia, do outro lado, subiu para a margem e se voltou para ajudar Nico. Venha, Percy! chamou ela. Ande!Meus joelhos vibravam. Meus braos tremiam. Dei um passo frente e quase ca. O arco de gua

    estremeceu. No posso! gritei de volta. Sim, voc pode! retrucou ela. Ns precisamos de voc!De alguma forma, consegui descer para o leito do rio. Um passo, depois outro. Acima, a gua.

    Minhas botas chapinhavam no lodo.Na metade do caminho, eu tropecei. Ouvi Thalia gritar No!. E perdi minha concentrao.Enquanto o Rio Lete desabava sobre mim, tive tempo para um ltimo e desesperado pensamento:

    Seco.Ouvi o bramido e senti o impacto de toneladas de gua medida que o rio retomava seu curso

    natural. MasAbri os olhos. Eu estava envolto em escurido, mas continuava completamente seco. Uma camada

    de ar me cobria como uma segunda pele, protegendo-me da gua. Eu me esforcei para ficar de p.Mesmo esse pequeno esforo para ficar seco algo que j fiz muitas vezes em guas normais foiquase mais do que eu podia aguentar. Avancei com dificuldade pela correnteza negra, cego e duas vezesmais dolorido.

    Subi para a margem do Lete, surpreendendo Thalia e Nico, que pularam um bom metro para trs.Cambaleei para a frente, ca diante de meus amigos e desmaiei, gelado.

    O gosto do nctar me fez despertar. Meu ombro parecia melhor, mas havia um zumbido desconfortvelem meus ouvidos. Meus olhos ardiam como se eu estivesse com febre.

    No podemos arriscar com mais nctar Thalia dizia. Ele vai explodir em chamas. Percy chamou Nico. Voc pode me ouvir? Chamas murmurei. Entendi.Eu me sentei devagar. Meu ombro tinha novas bandagens. Ainda doa, mas eu podia ficar de p. Estamos perto disse Nico. Voc consegue andar?A montanha assomava acima de ns. Uma trilha de poeira se insinuava por uns trinta metros at a

    entrada de uma caverna. O caminho era pavimentado com ossos humanos, para dar um climaaconchegante.

    Estou pronto disse eu. No gosto disso resmungou Thalia.Ela segurava com cuidado o craveiro, que apontava na direo da caverna. A flor tinha agora duas

    ptalas, como se fossem duas tristes orelhas de coelho.

  • Uma caverna assustadora comentei. A deusa dos fantasmas. D para piorar?Em uma espcie de resposta, o som de um assobio ecoou da montanha. Uma nvoa branca veio da

    caverna, como se algum tivesse ligado uma mquina de gelo seco.Na neblina, uma imagem apareceu: uma mulher alta com cabelos louros e desgrenhados. Ela vestia

    um roupo de banho e tinha uma taa de vinho na mo. Seu rosto era severo e desaprovador. Eu podiaenxergar atravs dela, ento sabia que era algum tipo de esprito, mas sua voz soava bastante real.

    Agora voc volta rosnou ela. Bom, tarde demais!Olhei para Nico. Melinoe? sussurrei.Ele no respondeu. Estava esttico, encarando o esprito.Thalia baixou o arco. Me? Seus olhos se encheram de gua. De repente, ela parecia ter uns sete anos.O esprito jogou no cho a taa de vinho, que se estilhaou e desapareceu na neblina. Isso mesmo, menina. Condenada a vagar pela Terra, e isso culpa sua! Onde voc estava

    quando eu morri? Por que fugiu quando precisei de voc? Eu eu Thalia chamei , ela apenas um fantasma. No pode machucar voc. Sou mais que isso rosnou o esprito. Thalia sabe. Mas voc me abandonou Thalia argumentou.

    Menina desprezvel! Fugitiva ingrata! Pare! Nico deu um passo frente com a espada desembainhada, mas o esprito mudou de

    forma e o encarou.Este fantasma era mais difcil de enxergar. Era uma mulher em um vestido de veludo negro fora de

    moda, com um chapu combinando. Usava colar de prolas e luvas brancas, e seus cabelos escurosestavam presos para trs.

    Nico parou onde estava. No Meu filho disse o fantasma. Morri quando voc era to pequeno. Eu assombro o

    mundo com pesar, pensando em voc e em sua irm. Mame? No, minha me murmurou Thalia, como se ela ainda visse a primeira imagem.Meus amigos estavam indefesos. A neblina comeou a ficar espessa em volta de seus ps,

    enrolando-se em suas pernas como se fosse uma videira. As cores pareciam sumir de suas roupas e dorosto, como se eles tambm virassem sombras.

    Chega disse eu, mas minha voz mal saiu. Apesar da dor, levantei minha espada e andei emdireo ao fantasma. Voc no me de ningum!

    O fantasma se virou para mim. A imagem tremeluziu e eu vi a deusa em sua verdadeira forma.Voc poderia pensar que depois de algum tempo eu no fosse mais me apavorar com a aparncia

    dos monstros gregos, mas Melinoe me pegou de surpresa. Sua metade direita era plida, da cor do gizbranco, como se tivessem drenado todo o seu sangue. A metade esquerda era negra como piche e semvida, parecia uma pele de mmia. Ela usava vestido e vu dourados. Seus olhos eram rbitas negras,

  • vazias, e quando eu olhei l dentro tive a sensao de ver minha prpria morte. Onde esto seus fantasmas? quis saber ela, irritada. Meus eu no sei. No tenho nenhum.Ela reclamou. Todo o mundo tem fantasmas Mortes que voc lamenta. Culpa. Medo. Por que no

    consigo ver os seus?Thalia e Nico ainda estavam hipnotizados, encarando a deusa como se ela fosse a me que h

    muito eles perderam. Pensei em outros amigos que eu tinha visto morrer: Bianca di Angelo, Zo Doce-Amarga, Lee Fletcher, para citar alguns.

    Estou em paz com eles respondi. Fizeram a passagem. No so fantasmas. Agora,liberte meus amigos!

    Ataquei Melinoe com minha espada. Ela se afastou rpido, rosnando de frustrao. A neblina aoredor de Thalia e Nico se dissipou. Eles olhavam para a deusa e piscavam como se s agora vissemquanto ela era medonha.

    O que isso? Thalia quis saber. Onde

    Era um truque Nico respondeu. Ela nos enganou.Vocs esto muito atrasados, semideuses informou Melinoe. Outra ptala caiu do craveiro,

    restando apenas uma. O acordo foi feito. Que acordo? perguntei.Melinoe sibilou e eu entendi que essa era a sua maneira de rir. So tantos fantasmas, meu jovem semideus. Eles desejam ser livres. Quando Cronos comandar

    o mundo, estarei livre para andar entre os mortais durante o dia e a noite, semeando o terror como elesmerecem.

    Onde est a espada de Hades? insisti. Onde est Ethan? Perto daqui assegurou ela. No deterei vocs. No ser preciso. Em breve, Percy

    Jackson, voc ter muitos fantasmas. E se lembrar de mim.Thalia armou uma flecha e mirou na deusa. Se voc abrir uma passagem para o mundo, acha mesmo que Cronos vai recompens-la? Ele

    vai lan-la no Trtaro com o restante dos servos de Hades.Melinoe mostrou os dentes. Sua me estava certa, Thalia. Voc uma menina cheia de raiva. Boa em fugir. Nada alm

    disso.A flecha voou, mas, assim que tocou em Melinoe, dissolveu-se em neblina, deixando para trs

    apenas o silvo de sua risada. A flecha atingiu as rochas e se partiu, inofensiva. Fantasma idiota resmungou Thalia.Eu podia jurar que ela estava realmente abalada. Os olhos pareciam avermelhados. As mos

    tremiam. Nico tambm estava impressionado, como se tivesse sofrido uma grande desiluso. O ladro ele conseguiu dizer. Provavelmente est na caverna. Precisamos det-lo

    antes queNaquele instante, a ltima ptala do cravo caiu. A flor ficou preta e murcha. Tarde demais disse eu.

  • Uma gargalhada masculina ecoou da montanha. Est certo quanto a isso rugiu a voz.Na boca da caverna estavam duas pessoas: um garoto com tapa-olho e um homem de trs metros

    vestido com um esfarrapado macaco de prisioneiro. O garoto eu reconheci: era Ethan Nakamura, filhode Nmesis. Tinha nas mos uma espada inacabada, uma lmina dupla de ferro estgio negro comdesenhos de esqueletos gravados em prata. Ela no tinha guarda, mas na base da lmina havia umachave dourada, exatamente como a que eu vira na imagem de Persfone.

    O homem gigante ao lado dele tinha olhos inteiramente prateados. Seu rosto era coberto por umabarba falhada e seus cabelos grisalhos eram completamente bagunados. Ele parecia magro e cansadoem suas roupas rasgadas, como se tivesse passado os ltimos milnios no fundo de um abismo, e mesmonesse estado debilitado parecia bastante assustador. Ele estendeu a mo e uma lana gigante apareceu.Lembrei o que Thalia dissera sobre Ipeto: Seu nome significa o Perfurador porque isso que ele gosta de fazer

    com os inimigos.

    O tit sorriu cruelmente. E agora vou destruir vocs.

    Mestre! interrompeu Ethan. Ele estava vestido com uniforme de combate e tinha uma mochilapendurada nas costas. Seu tapa-olho estava torto, e o rosto, sujo de ferrugem e suor. Ns temos aespada. Devamos

    Sim, sim o tit retrucou, impaciente. Voc se saiu bem, Nawaka. Nakamura, mestre. Que seja. Tenho certeza de que meu irmo Cronos vai recompens-lo. Mas agora temos uma

    matana para cumprir. Meu senhor insistiu Ethan. Seu poder no est completamente restabelecido. Devemos

    subir e convocar seus irmos do mundo l em cima. As ordens eram para fugirmos.O tit virou-se para ele. FUGIR? Voc disse FUGIR?O cho retumbou. Ethan despencou sentado e arrastou-se para trs. A espada inacabada de Hades

    caiu sobre as pedras. M-m-mestre, por favor IPETO NO FOGE! Esperei trs eras para ser evocado do abismo. Eu quero vingana, e vou

    comear matando esses fracotes.Ele apontou a lana para mim e atacou.Se estivesse no auge da fora, no tenho dvidas de que teria me perfurado em cheio. Mesmo

    fraco e tendo acabado de sair do abismo, o cara era rpido. Ele se moveu como um tornado e atacouto rapidamente que mal tive tempo de me esquivar antes que a lana se cravasse na pedra onde euestava.

    Eu me sentia muito tonto e mal podia segurar minha espada. Ipeto arrancou a lana do cho,mas quando se virou para mim, Thalia encheu seu flanco de flechas, do ombro ao joelho. Ele rugiu e sevirou para ela, parecia mais irado que machucado. Ethan Nakamura tentou desembainhar sua espada,mas Nico gritou: Melhor no.

  • O cho se abriu diante de Ethan. Trs esqueletos em armaduras emergiram e o atacaram,empurrando-o para trs. A espada de Hades continuava repousada nas pedras. Se eu pudesse s chegarat ela

    Ipeto golpeou com sua lana e Thalia se esquivou. Ela deixou cair o arco para desembainhar suasfacas, mas no resistiria muito no combate corpo a corpo.

    Nico deixou Ethan para os esqueletos e avanou na direo de Ipeto. Eu j estava frente dele.Parecia que meu ombro ia explodir, mas me lancei contra o tit e, com um golpe de cima para baixo,cravei a lmina de Contracorrente em sua panturrilha.

    AHHHHRRRR!Icor dourado jorrou da ferida. Ipeto girou e o cabo de sua lana me atingiu, me atirando longe.Eu bati contra as pedras, bem ao lado do Rio Lete. VOC MORRE PRIMEIRO! Ipeto berrou enquanto mancava na minha direo. Thalia

    tentou chamar a ateno dele atingindo-o com um arco eltrico produzido por suas facas, mas issotambm deve ter surtido o efeito de uma picada de mosquito. Nico desferiu um golpe com sua espada,mas Ipeto o atirou para o lado sem nem olhar. Vou matar vocs todos! Depois lanarei suas almasna escurido eterna do Trtaro!

    Eu estava vendo estrelas. Mal conseguia me mexer. Dois centmetros mais, e teria mergulhado decabea no rio.

    O rio.

    Engoli em seco, torcendo para que minha voz ainda tivesse fora. Voc voc ainda mais feio que seu filho provoquei o tit. Posso ver de quem

    Atlas herdou sua estupidez.Ipeto rangeu os dentes. Ele avanou mancando, sua lana erguida.Eu no sabia se teria foras, mas precisava tentar. Ipeto baixou a lana e esquivei-me para o lado.

    A ponta fincou-se no cho, bem prximo a mim. Eu me estiquei e agarrei a gola de sua camisa,contando com o fato de que ele estava ferido e sem equilbrio. Ele tentou manter-se de p, mas eu opuxei para a frente com todo o peso do meu corpo. Ele cambaleou e caiu, agarrado a meus braos, empnico, e juntos mergulhamos no Lete.

    BLOOOOOM! Eu estava imerso em gua negra.Rezei a Poseidon que minha proteo no se desfizesse, e, enquanto afundava, percebi que ainda

    estava seco. Eu sabia meu nome. E ainda segurava o tit pela gola da camisa.A corrente deveria t-lo feito escapar de minhas mos, mas, de algum modo, o rio formava um

    canal minha volta, deixando-nos em paz.Com o pouco de fora que me restava, subi para a beira do rio, puxando Ipeto com meu brao

    bom. Ns tombamos na margem eu perfeitamente seco e o tit pingando. Seus olhos inteiramenteprateados estavam grandes feito a lua.

    Thalia e Nico me observavam maravilhados. L na caverna, Ethan Nakamura derrubava o ltimoesqueleto. Ele se virou e ficou paralisado ao ver seu aliado tit cado de braos abertos no cho.

    Meu meu senhor? chamou ele.Ipeto se sentou e fixou o olhar em Ethan. Ento, olhou para mim e sorriu. Oi disse ele. Quem sou eu? Voc meu amigo soltei. Voc o Bob.

  • Isso pareceu agrad-lo bastante. Eu sou o seu amigo Bob!Claramente, Ethan podia ver que as coisas no estavam boas para o seu lado. Ele deu uma olhada

    para a espada de Hades repousada na poeira. Mas, antes que pudesse dar o bote, uma flecha de pratafincou-se no cho a seus ps.

    Nem pensar, garoto Thalia o alertou. Mais um passo, e eu prego seus ps nas rochas.Ethan correu direto para a caverna de Melinoe. Thalia mirou suas costas, mas eu disse: No. Deixe ele ir.Ela franziu as sobrancelhas, mas baixou seu arco.Eu no sabia por que quis poupar Ethan. Acho que j tnhamos lutado o bastante para um dia, e,

    na verdade, eu sentia pena dele. Ele estaria numa grande encrenca quando voltasse para falar comCronos.

    Nico recolheu a espada de Hades respeitosamente. Conseguimos. Ns realmente conseguimos. Conseguimos? perguntou Ipeto. Eu ajudei?Forcei um sorriso. Sim, Bob. Voc se saiu muito bem.

    Conseguimos uma viagem expressa para o palcio de Hades. Nico mandou um aviso, graas a algunsfantasmas que ele evocou de debaixo da terra. E em poucos minutos as Trs Frias em pessoa chegarampara nos transportar de volta. Elas no estavam muito animadas em carregar tambm Bob, o tit, masno tive coragem de deix-lo para trs, especialmente depois que ele notou o ferimento no meu ombro,disse Awn e curou-o com um toque.

    Enfim, na hora em que chegamos sala do trono de Hades, eu me sentia timo. O senhor dosmortos sentou-se em seu trono de ossos, com o olhar fixado em ns e acariciando a barba negra como seestivesse imaginando a melhor maneira de nos torturar. Persfone sentou-se a seu lado, sem falar nada,enquanto Nico explicava nossa aventura.

    Antes que lhe entregssemos a espada, insisti para que Hades fizesse o juramento de no us-lacontra os deuses. Seus olhos chamejaram como se ele quisesse me incinerar, mas finalmente ele fez apromessa, com os dentes cerrados.

    Nico repousou a espada aos ps do pai e fez uma reverncia, esperando por uma reao.Hades olhou para a esposa. Voc desafiou minhas ordens diretas.Eu no sabia sobre o que ele estava falando, mas Persfone no reagiu, mesmo sob seu olhar

    fulminante.Hades se voltou para Nico. Seu olhar abrandou s um pouco, como se pedra fosse mais macia que

    ao.

    Voc no vai falar sobre isso com ningum. Sim, senhor Nico concordou.O deus lanou-me um olhar penetrante. E se os seus amigos no segurarem as lnguas, eu vou cort-las fora.

  • Como queira falei.Hades fixou-se na espada. Seus olhos estavam cheios de raiva e de algo mais algo como apetite.

    Ele estalou os dedos. As Frias desceram voando do topo do seu trono. Devolvam a lmina s forjas ele disse. Fiquem com os ferreiros at que ela esteja pronta,

    e ento tragam-na de volta a mim.As Frias subiram em crculos com a arma, e fiquei pensando quanto tempo ia levar at que eu me

    arrependesse daquele dia. Havia brechas em juramentos, e calculei que Hades procuraria por uma. Voc sbio, meu senhor disse Persfone. Se fosse sbio rosnou ele , eu a trancaria nos seus aposentos. Se voc me desobedecer de

    novoEle deixou a ameaa pairando no ar. Depois estalou os dedos e sumiu na escurido.Persfone parecia ainda mais plida que o normal. Levou um tempo arrumando o vestido e depois

    se virou para ns. Vocs se saram bem, semideuses. Ela acenou e trs rosas vermelhas apareceram aos nossos

    ps. Esmaguem-nas e elas os levaro de volta ao mundo dos vivos. Vocs tm a gratido do meusenhor.

    Imagino resmungou Thalia. Forjar a espada foi ideia sua percebi. Por isso Hades no estava l quando voc nos deu

    a misso. Hades no sabia que a espada tinha sumido. Ele nem sabia que ela existia. Absurdo retrucou a deusa.Nico cerrou os punhos. Percy est certo. Voc queria que Hades forjasse uma espada. Ele disse que no. Ele sabia que

    era muito perigoso. Os outros deuses nunca confiariam nele. Isso afetaria o equilbrio de poder. E a ela foi roubada completou Thalia. Voc trancou o Mundo Inferior, no Hades.

    Voc no podia contar a ele o que havia acontecido. E precisava de ns para recuperar a espada antesque Hades descobrisse. Voc nos usou.

    Persfone umedeceu os lbios. O importante que agora Hades aceitou a espada. Ela ficar pronta e meu marido se tornar

    to poderoso quanto Zeus ou Poseidon. Nosso reino estar protegido contra Cronos ou contraqualquer outro que tente nos ameaar.

    E ns somos responsveis por isso conclu, infeliz. Vocs foram muito teis Persfone concordou. Talvez uma recompensa pelo seu

    silncio Deixe a gente em paz, antes que eu a leve para o Lete e a jogue l dentro. Bob vai me ajudar.

    No , Bob? Bob vai ajudar voc! concordou Ipeto alegremente.Os olhos de Persfone se arregalaram, e ela desapareceu em uma chuva de margaridas.

    Nico, Thalia e eu nos despedimos numa sacada com vista para os Asfdelos. Bob, o tit, ficou sentadol dentro, construindo uma casinha com ossos e rindo cada vez que ela desmoronava.

    Cuidarei dele disse Nico. Ele inofensivo agora. Talvez no sei. Talvez possamos

  • transform-lo em alguma coisa boa. Tem certeza de que quer ficar aqui? perguntei. Persfone far da sua vida um inferno. Eu preciso insistiu ele. Tenho que me aproximar do meu pai. Ele precisa de um

    conselheiro melhor.No pude argumentar contra isso. Bom, se voc precisar de alguma coisa Eu chamo prometeu ele. Ele apertou a mo de Thalia e a minha. Virou-se para ir

    embora, mas me olhou mais uma vez. Percy, voc esqueceu minha oferta?Um calafrio desceu pela minha espinha. Ainda estou pensando no assunto.Nico assentiu. Bem, quando voc estiver pronto.Depois que ele saiu, Thalia perguntou: Que oferta? Uma coisa que ele me disse no vero passado respondi. Uma possvel maneira de

    enfrentar Cronos. perigoso. E eu j vivi perigo demais num nico dia.Thalia concordou. Nesse caso, ainda h tempo para o jantar?No pude fazer nada alm de sorrir. Depois de tudo isso, voc est com fome? Ei, at os imortais precisam comer. Estou pensando em cheeseburgers na McHalls.

    E juntos pisamos as rosas que nos levariam de volta para o mundo.

  • Os doze deuses olimpianos + 2

    Uma breve lista de todos os Olimpianos!

    DEUS/DEUSA ESFERA DE CONTROLE ANIMAL/SMBOLO

    Zeus cu guia, raio-mestreHera maternidade, casamento vaca (animal maternal), leo, pavoPoseidon mar, terremotos cavalo, tridenteDemter agricultura papoula vermelha, cevadaHefesto ferreiros bigorna, codorna (salta engraado, como ele)Atena sabedoria, batalha, tcnicas coruja

    Afrodite amor pomba, cinto mgico (que faz os homens se apaixonarem porela)Ares guerra javali, lana sangrenta

    Apolo msica, medicina, poesia, tiro com arco,solteiros rato, lira

    rtemis donzelas, caada ursaHermes viajantes, comerciantes, ladres, mensageiros caduceu, elmo alado e sandliasDioniso vinho tigre, uvasHstia casa e famlia lareiraHades o Mundo Inferior elmo do terror

  • Becky Riordan

    RICK RIORDAN

    nasceu em 1964, em San Antonio, Texas, Estados Unidos, onde moracom a mulher e os dois filhos. Autor best-seller do New York Times,premiado pela YALSA e pela American Library Association, porquinze anos ensinou ingls e histria em escolas de So Francisco, e aessa experincia que ele atribui sua habilidade em escrever para opblico jovem. Alm de Percy Jackson e os Olimpianos, Riordan autor das sries Os heris do Olimpo, tambm inspirada na mitologiagrega, e As crnicas dos Kane, que visita deuses e mitos do AntigoEgito.

  • Clique abaixo para conhecer os livros

    Livro Um Livro Dois Livro Trs

    Livro Quatro Livro Cinco Livro Seis

  • Conhea os livros da srie "As crnicas dos Kane"

    Livro Um Livro Dois

    Conhea o livro da srie

    Livro Um

    Folha de rostoCrditosMdias sociaisDedicatriaSumrioCarta do Acampamento Meio-SanguePercy Jackson e a quadriga roubadaPercy Jackson e o drago de bronzeEntrevista com Connor e Travis Stoll, filhos de HermesEntrevista com Clarisse La Rue, filha de AresEntrevista com Annabeth Chase, filha de AtenaEntrevista com Grover Underwood, stiroEntrevista com Percy Jackson, filho de Poseidon

    Mapa do Acampamento Meio-SangueMala de Annabeth Chase para o acampamentoPercy Jackson e a espada de HadesEncarteOs doze deuses olimpianos + 2Sobre o autorSaiba mais sobre as sries do autor