Os anos 60 da nossa economia*

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  • Alfredo de Sousa Anlise Social, vol. xxx (133), 1995 (4.), 613-630

    Os anos 60 da nossa economia*

    No tive oportunidade de assistir a esta conferncia de Alfredo deSousa. por isso ainda mais pretensioso editar este texto. Espero quesejam atenuantes duas circunstncias: creio ter feito muito poucasalteraes e, sobretudo, a gravao era suficientemente clara parapoder sentir a presena do autor.

    O ano que entretanto passou no diminuiu a falta que nos fazAlfredo de Sousa. Como o texto mostra, apesar da minha interfern-cia, ser difcil preencher o seu lugar. Egoisticamente, tenho pena dej no poder discordar de alguns pontos da anlise, mesmo que fossesobretudo para ouvir uma explicao interessante, veemente, apaixo-nada, se calhar.

    Agradeo a Jaime Reis o ter pensado que eu poderia causar omnimo dano ao texto e, com a pouca legitimidade que me assiste, a RuiVilar e Manuel Braga da Cruz o patrocnio e a publicao deste texto.

    Lus MIGUEL BELEZA

    APRESENTAO

    A dcada de 60 para 70 foi talvez a mais importante na histria econ-mica portuguesa dos ltimos duzentos anos. Foi certamente aquela em quea economia portuguesa cresceu mais rapidamente desde sempre, foi aquelaem que se operaram algumas das maiores transformaes sociais em Por-tugal e foi tambm aquela dcada em que se lanaram as sementes da maiortransformao poltica do pas, pelo menos no sculo XX. Temos a sorte determos hoje connosco o professor Alfredo de Sousa para nos falar sobre esseperodo do ponto de vista econmico.

    * Transcrio da gravao, infelizmente no revista pelo autor, da conferncia proferidana Culturgest, em 29 de Maro de 1994, no ciclo de palestras sobre histria econmica esocial portuguesa, organizado pelo Prof. Jaime Reis, que apresentou o autor e moderou odebate que se seguiu.

    A Anlise Social agradece viva e aos filhos do Prof. Alfredo de Sousa a autorizaopara a publicao deste texto e ao Prof. Miguel Beleza discpulo e amigo do Prof. Alfredode Sousa a preparao da sua edio. 613

  • Alfredo de Sousa

    Tenho um certo acanhamento em apresentar o professor Alfredo deSousa, visto ele ser to conhecido, mas de qualquer maneira gostava de dizeruma ou duas coisas acerca do nosso conferencista: ele doutorado emEconomia pela Sorbonne e tem o grau de agrg das universidades france-sas; as suas publicaes so muito numerosas e certamente numerosas demais para as enunciar aqui, mas muitos dos seus escritos recentes sobreeconomia portuguesa so conhecidos de todos. O professor Alfredo de Sousafoi reitor da Universidade Nova de Lisboa e director-fundador, por assimdizer, da Faculdade de Economia da mesma Universidade, qual tive ahonra de pertencer, e foi tambm, alm de autor e professor e reitor, diga-mos que o pai espiritual de todo um conjunto de economistas portuguesesque hoje em dia marcam a economia portuguesa. Tenho muito prazer emconvidar o professor Alfredo de Sousa a falar sobre a dcada de 60.

    Muito obrigado, Sr. Professor pelas suas palavras, que so palavras deamigo. com muito prazer que estou aqui entre vs a tentar dar um pezinhode historiador que no sou e a partilhar convosco algumas reflexes sobreaquilo que se passou na economia e na sociedade portuguesa na dcada de60. Algumas reflexes estend-las-emos at 1973.

    A dcada de 60/70 teve trs grandes acontecimentos, em meu entender.

    O primeiro foi a assinatura do acordo EFTA, o Tratado de Estocolmo, em1959. Foi uma assinatura um tanto ou quanto paradoxal porque, como selembram, foi nos anos 50 a transformao constitucional portuguesa quetransformava as colnias em provncias ultramarinas. Portugal era um paspluricontinental, plurirrcico, pluritnico e plurilingustico, embora tivesseuma lngua dominante o portugus e que, portanto, propugnava quePortugal deveria voltar-se no final da sua evoluo de cinco sculos para oespao atlntico e africano. A existncia do ncleo de tecnocratas, quasetodos eles vindos da Faculdade de Direito, que convencem Salazar e o restodos seus seguidores a assinarem um tratado de integrao europeia queera, ao fim e ao cabo, do que se tratava , paradoxal e mostra que haviagente que, embora do lado do regime, no tinha a mesma viso do futuro quetinham os mais altos prceres do dito. um paradoxo que Portugal, estandovocacionado, politicamente marcado e constitucionalmente orientado para oultramar, acaba por assinar em 1959 o Tratado de Estocolmo, pelo qualPortugal fazia parte da EFTA. Convm dizer que a EFTA foi uma manobrada Inglaterra para torpedear o Mercado Comum, que hoje a UnioEuropeia, e macacamente, como s muitas vezes os Ingleses fizeram, pedi-ram que a sede fosse em Paris. Mas Portugal faz parte da EFTA e esta era,

    614 como sabem, uma zona de trocas livres cujos pases participantes guardavam

  • Os anos 60 da nossa economia

    autonomia do seu regime pautai para o exterior. A Inglaterra continuava,portanto, a ter os seus acordos pautais e alfandegrios com a Commonwealth,Portugal com as provncias ultramarinas, mas os pases da EFTA trocavamentre si livremente bens sobretudo bens industriais e alguns serviossem pagamento de direitos aduaneiros. Isto implicava um regime complicadode certificados de origem, e o facto que Portugal entra sem ser um pasindustrial. Para isso foi preciso um arranjo especial, o famoso anexo G doacordo de Estocolmo, mediante o qual coisas como o vinho do Porto engar-rafado, o vinho verde e algumas conservas foram consideradas produtos in-dustriais para ficar dentro do esprito do acordo. Concederam-se grandesfacilidades aduaneiras a Portugal e ficmos com a autorizao de imporalgumas restries a produtos e at a investimentos estrangeiros, dado onosso atraso enorme em relao aos outros pases. Para verem este atraso, aEFTA inclua a Inglaterra, os trs pases escandinavos, a ustria e a Sua.Portugal, em termos de nvel de vida, ficava extremamente longe; da aquelasproteces especiais. Foi esta realidade que teve para Portugal, mesmo nadcada de 60 e at bastante mais tarde, influncias muito grandes. Em pri-meiro lugar, inseriu Portugal volens nolens numa zona poltica democrticajuntamente com os pases citados, os pases fundadores. Depois, juntaram-semais outros. Portugal fica inserido numa rede de relaes polticas que lhe extremamente favorvel. Mas, fundamentalmente, aquilo que se oferece aPortugal so mercados novos onde Portugal ainda no tinha penetrado, no-meadamente o mercado austraco e os trs mercados escandinavos. Para aInglaterra j exportvamos, mas, de facto, eram mercados novos que noofereciam resistncia aduaneira, quase sem pagamento de direitos. Simples-mente eram mercados ricos e, consequentemente, exigentes, o que foi muitoprofcuo para Portugal, porque a maior parte das nossas indstrias txteis, porexemplo, que s vezes at tinham capacidade de design e artigos engraados,estavam mais habituadas a exportar para frica, onde o grau de exigncia daqualidade e do desenho era relativamente pequeno, e no sabiam exportarpara pases mais ricos.

    Quando, confrontados com preos, sentiram a tentao de exportar paraos pases escandinavos e outros pases da EFTA, evidente que lhes foramexigidas grandes modificaes: a qualidade do produto, a constncia do pro-duto e a sua entrega atempada. Isso introduziu pela primeira vez um mercadoexigente em Portugal e, consequentemente, foi o ponto de partida para amaior disciplina dos produtores portugueses. Quer dizer que Portugal bene-ficiou imenso em quantidade de novos mercados e em qualidade sobretudonas exportaes.

    por isso que parece paradoxal que, mais tarde, j na dcada de 80, aindstria portuguesa sofre inicialmente um menor abalo do que a indstriaespanhola quando, mais tarde, ambos os pases entraram na Comunidade

  • Alfredo de Sousa

    Europeia. So consequncias que se acumulam. Por outro lado, a EFTAtrouxe bastantes investimentos a Portugal: investimentos bedunos, os suecoseram sobretudo conhecidos por isso, para a indstria txtil, de calado, eraminvestimentos que exigiam capital fixo relativamente modesto, era mais umcapital varivel, aproveitamento da mo-de-obra, e, portanto, logo que houvealgumas dificuldades no 25 de Abril, esses capitais levantaram a tenda eforam embora, e assim se chamam bedunos, sobretudo no txtil e na elec-trnica. Mas houve tambm investimentos mais srios de longo e mdioprazo no s de escandinavos, mas tambm de ingleses e de outros partici-pantes, em indstrias em geral metalo-mecnicas e qumicas. Portanto, Por-tugal acabou por beneficiar de investimentos estrangeiros de que de outraforma no beneficiaria. E beneficiou tambm de auxlios directos, como ofundo de desenvolvimento EFTA, de que Portugal ainda no ano passadoestava a receber uns ltimos ps. A EFTA teve um papel muito importantepara Portugal no sentido poltico, no sentido da internacionalizao da suaeconomia e na ajuda ao desenvolvimento.

    Mas mais importncia tem a guerra colonial como segundo acontecimento,em meu entender, bastante poderoso na formao da histria econmica esocial portuguesa. Para vos dar uma ideia do que acontecia com o ultramar, sea memria no me trai as estatsticas recordo bem , Portugal chegou ater, em determinadas pocas da dcada de 60, 250 000 homens de guarnioultramarina, e ramos nessa altura 9 milhes, o que representou um esforoenormssimo. Hoje suponho que temos um exrcito de 38 000 homens, oucoisa assim. Em primeiro lugar foi um esforo financeiro muito grande, 40%do oramento de facto. Melhor dito, tendo j sido aumentados os impostos,40% das despesas eram dedicados ao esforo de defesa era assim que sechamava eufemisticamente , isto , com o exrcito, a marinha e a aviao,com os transportes e os abastecimentos, para sustentar a luta militar.

    E aqui, nesta altura, que se comea a notar que as despesas de infra--estruturas em Portugal, nomeadamente na rede viria, na rede de comunica-es e no alojamento social, comeam a ser cada vez menores, comeam ater proporo oramental cada vez menor. tambm nesta altura que a eco-nomia portuguesa comea a ter um ritmo de crescimento, embora formidvel,como vamos ver, menor do que o da economia espanhola. tambm nestaaltura que a construo de infra-estruturas fsicas e de comunicao emEspanha se acelera, ao contrrio de Portugal, em que desacelera. Nos anos50 as estradas portuguesas eram conhecidas por serem, se no as melhores,pelo menos as mais bonitas da Europa. Nos anos 60, dez anos depois, come-mos a afastar-nos desse Standard, sobretudo relativamente aos Espanhis.H atrasos nas infra-estruturas, h um dfice oramental, que, curiosamente,nunca aparecia a pblico porque, segundo a definio salazarista, no dfice,

    616 na estrutura oramental, os emprstimos feitos por emisso de ttulos pbli-

  • Os anos 60 da nossa economia

    cos eram contados como receitas, e no como dfice. Portanto, no haviadfice por emisso de dvida, como tecnicamente correcto e hoje se faz. Odfice estava um pouco mascarado, mas existia e, sem dvida, criava pres-ses inflacionistas, at porque uma parte dos pagamentos aos militares ficavac, e era uma parte de mo-de-obra que se afastava sem contrapartida pro-dutiva e ficava c a despesa, o que provocava efeitos inflacionistas. Para vosdar uma ideia, a inflao acelerou de 2,5% em 1960 at 12,5% em 1973.Houve uma grande acelerao sobretudo a partir de 1965-1966, quando seacumularam as tenses inflacionistas.

    Outro elemento importante da guerra colonial foi a mobilizao da mo--de-obra, sobretudo jovens na idade casadoira, e teve, consequentemente,efeito sobre o adiamento de casamentos e sobre a taxa de natalidade.

    Vamos ver que a emigrao tem efeitos maiores. Foi aqui que comeoua desacelerar a taxa de crescimento demogrfico natural da populao portu-guesa (o servio militar durava normalmente nesta altura trs anos). Tevecomo efeitos econmicos sobretudo o atraso do investimento pblico e, emltimo lugar, o isolamento diplomtico. A partir de 1962, Portugal estava defacto isolado na cena poltica, principalmente nas Naes Unidas. O grupodos independentes que vinha j dos anos 50, a ndia do nosso velho amigoNeru, o Tito da Jugoslvia, o Sukarno da Indonsia, consegue isolar Portugalnas Naes Unidas. Ento a maior parte dos pases do Terceiro Mundocortaram relaes diplomticas com Portugal. Portugal s mantinha relaesdiplomticas em frica com a frica do Sul e as duas Rodsias nessa altura.Os pases do Mdio Oriente para onde Portugal exportava desapareceramtambm das relaes diplomticas e, consequentemente, comerciais. S con-seguamos exportar para o Paquisto porque era uma maneira de este chateara ndia e, por isso, recebia algumas exportaes portuguesas, sobretudo mi-litares: equipamento militar, balas, algumas coisas que se fabricavam emPortugal. De resto, perdemos os mercados do Oriente para onde exportva-mos, e perdemos os mercados africanos, e fomos imediatamente substitudospela Espanha e pelo Brasil, como tem acontecido sempre. A guerra colonialteve efeitos demogrficos, econmicos, financeiros e comerciais externos, ediplomticos e polticos, como evidente. Este o segundo elemento queconsidero importante na dcada de 60. Mas o maior, em meu entender, foia emigrao. A maior parte dos nossos emigrantes saram das zonas ruraisonde havia estruturas sociais e econmicas mais repulsoras que no amesma coisa que repulsivas , o que derivava de vrias coisas: do sistemade propriedade Portugal era ainda h poucos anos o nico pas da Europaque entre as profisses aceites para bilhete de identidade ou efeitos legaistinha a de proprietrio. No lembra a ningum, proprietrio no profisso,quanto muito, um estado financeiro. Mas em Portugal havia, e normalmenteproprietrio no se referia a bens em ttulo, mas a bens imveis. Nas nossas 617

  • Alfredo de Sousa

    expresses correntes temos coisas muito curiosas: os bens ao luar reconhe-cveis, ter onde cair morto, ter algo de seu. Tudo isto mostra o apelo quaseontolgico dos Portugueses propriedade. Se olharem para a formao socialdos grandes capites industriais do Norte, o conde de Vizela e outros assim,verificam que comearam por ser industriais normalmente artesos bemsucedidos e depois grandes industriais e em seguida trataram de conseguirgrandes quintas, ser proprietrios rurais e depois comendadores. Por exem-plo, o conde de Vizela tinha um ttulo pontifcio que comprou. Em doaesde beneficncia construiu duas igrejas, parece-me. H dentro de todos nsainda o facto de ter alguma coisa de seu, um pedacinho. E reparem quealguns reformados esto agora a voltar para o interior para recultivaremleirazinhas que l deixaram. Isto um apelo ontolgico terra. Nas socieda-des rurais, sobretudo mais longe das cidades costeiras, havia subitamenteduas classes: os que tinham a terra e os que no tinham a terra, e acabou-se.Leiam os romances do Camilo e do Ea e vo ver aquele que no tem nadaa casar com a morgada, um pobre a casar com uma menina que ia herdargrandes terras, etc. Era o drama quotidiano, havia uma separao de classesque, dado o apego que havia terra, era muito difcil de vencer, at porque,expliquemos em termos modernos, praticamente no havia bancos para em-prestarem dinheiro para comprar terra, isso no existia. Esta, para os que notinham terra, era uma estrutura repulsora. Por outro lado, eram zonas atrasa-das com falta de oportunidades. Havia poucas indstrias no interior do pas,poucos servios, eram desmunidas tambm de servios, havia as escolasprimrias e pouco mais. Alm disso, havia um excedente demogrfico ntido.Por uma razo simples ou por vrias razes, entre as quais porque no haviasegurana social e a melhor maneira de as pessoas que no tinham terras seprotegerem nas zonas rurais era terem muitos filhos, que algum haveria decuidar dos velhos. Isto so fenmenos que desapareceram depois em todas associedades, mas nos vinte e trinta anos a seguir Segunda Guerra Mundialainda funcionava como motivao fundamental. Havia um excedentedemogrfico, falta de oportunidades e estruturas repulsoras. A maneira queum indivduo pobre sem terra tinha de sair, por muito esperto que fosse, erair para fora. E, normalmente, a tradio era emigrar para o Brasil, ou, se opai conseguia fazer sacrifcios, ia para Coimbra ou para o Porto estudar. Seno tinha recursos, ia para o seminrio e ficava padre, ou saa do curso, ouqualquer coisa assim. Eram as trs vias que se ofereciam para quebrar esteimpasse do posicionamento social dentro das estruturas rurais.

    Estas estruturas tornaram-se relativamente mais repulsoras quando come-ou a haver o apelo das sociedades industriais da Europa, que ento, depoisdo plano Marshall, estavam em pleno boom, e havia carncia de mo-de--obra. A Frana, por exemplo, comeou a importar mo-de-obra do Magrebe,

    618 do Norte de frica, que eram colnias e at territrio nacional, como o caso

  • Os anos 60 da nossa economia

    da Arglia. Depois, teve a apport dos Italianos, mas sobretudo osMagrebinos comearam a meter medo, porque os muulmanos, em todas associedades, so de difcil assimilao. Os Franceses, como so um poucoxenfobos, abriram aos Espanhis e aos Portugueses. E depois, como sabem,o salto dava-se para a Frana, e depois ia-se para o Benelux, para a Alema-nha, Sua, etc, mas o cesto receptor do emigrante portugus era a Franae, depois, eventualmente, outros stios. Quando comeou a haver este apelo,alguns foram legalmente, ou a salto. Depois deu-se o fenmeno do efeito dedemonstrao: ao fim de dois anos, o emigrante que partia queria voltar terra, tinha saudades, por vezes tinha deixado a mulher, filhos, ou a namo-rada, pais pelo menos, e queria voltar, mas demonstrando o seu xito.A primeira coisa que ele fazia era comprar um carro em segunda mo e traziaa sua bagnole, com mais alguns artefactos, como mquinas fotogrficas,frigorficos, as primeiras televises, etc, para mostrar em Portugal. E issoembasbacava as pessoas, e eles apareciam como reizinhos nas sociedadesrurais, homens que tinham tido xito e com menos anos e mais sorte do queos comendadores do Brasil; portanto, impunham respeito, o que eram tam-bm bazfias. Comeou a haver aceleraes das pessoas atradas e a acele-rao foi formidvel, 35 000 emigrantes em 1960, 173 000 em 1970. Paravos dar uma ideia do impacto demogrfico, Portugal, nesta altura, perde ummilho de habitantes. Em 1970 a populao era menor em um milho do queem 1960. O almirante Amrico Toms, que nessa altura era presidente daRepblica, disse que o censo estava enganado e que tinha de se fazer umnovo, mas no havia engano nenhum. A malta tinha sado sobretudo a salto,sem registo de emigrante, eram os emigrantes clandestinos, e esta aceleraoveio, por sua vez, a ter efeitos muito grandes.

    Em primeiro lugar, um efeito demogrfico, o sex ratio nas aldeias altera--se substancialmente. Reparem que o indivduo que sai para emigrante no o que vai fazer o servio militar, que, no mximo, de trs anos, e depoisvolta, a menina pode esperar, o conceito casamenteiro das famlias podemanter-se, no algum que vai sem pelo menos uma probabilidade grandede voltar. Pode correr bem e depressa voltar, pode correr mal e no voltar,ou f-lo- em condies que talvez j no o tornem um candidato to dese-jvel. A expectativa normal das moas casadoiras nas zonas rurais altera-se,a carreira normal de uma moa na zona rural era casar, ter filhos, ajudar omarido, cultivar a sua leira ali ao p de casa, tratar das galinhas, etc. Asmulheres comeam a ver que tm de fazer pela vida, e comea aqui o grandesalto do emprego fabril feminino, e comea a ida das mulheres para a cidade,para se empregarem, depois de terem tirado um curso, muitas vezes comer-cial, no s primrio. Comea a haver uma libertao da mulher do agregadofamiliar. Este, nas regies do Centro e Norte do pas, era um agregado ca-tlico patriarcal, o centro da famlia s vezes no era o av, mas o pai, quecomandava a fortuna visvel da famlia e tambm dispunha das pessoas. 619

  • Alfredo de Sousa

    A mulher era factualmente subordinada, embora por vezes pudesse ter umagrande influncia. Comea a desagregao da autoridade familiar, com asada do filho e a segunda sada da filha, isto, para o tipo de famlia solidriadas zonas rurais, comea a acontecer nesta altura de uma forma mais acen-tuada. claro que outros factores intervieram, como a televiso, etc, maseste foi um factor, como diria Marx, infra-estrutural da transformao dafamlia. Por outro lado, a natalidade, que j tinha sido afectada pela ausnciade jovens no ultramar, comea a diminuir. Em terceiro lugar, outro efeitodemogrfico que comea a sentir-se nesta altura o envelhecimento. No fimdos anos 70 havia regies em Trs-os-Montes e na Beira Alta que tinhampessoas de mais de 55 anos e midos de 4 ou 5 anos que tinham ficado ali.E zonas onde j nos anos 70 tiveram de fechar escolas primrias, dada aausncia de jovens. Os jovens confiavam os midos aos avs at idadeprimria e depois, quando chegava a idade de ir para a escola, mandavam--nos para a Frana ou para onde estivessem. Os efeitos demogrficos daemigrao so muito importantes. Mais, como a emigrao durou muito tem-po, foram efeitos profundos cumulativos que ainda so duradouros, porexemplo, a diminuio da natalidade. Os efeitos financeiros ainda forammaiores: em primeiro lugar, os emigrantes iam com o desejo de voltar e,neste plano de vida futura, poupavam imenso. Lembro-me de num inquritofeito em Nanterre, a ocidente de Paris, ter constatado que entre os emigrantesportugueses a taxa de poupana era de 50%. Enormssima. Viviam em con-dies miserveis, mas chegavam a poupar nos seus ordenados, que muitasvezes eram salrios mnimos, 50%, na nsia de acumularem e voltarem paraa terra. E comearam a mandar dinheiro, primeiro por via postal, pelos PTTfranceses e CTT portugueses. O que acontecia nas zonas rurais, a forma deter poupana nos anos a seguir guerra, era sob a forma de moeda fiduciria,notas e moedas, que ainda se usava nessa altura. Penso que hoje j ningumusa o p-de-meia. O que aconteceu nos anos 60 foi que a emisso fiduciriacomeou a aumentar, e isso alertou os bancos, porque no havia nenhumarazo sistmica normal para que aumentasse a emisso fiduciria. porquehouve entesouramento, como se diz tecnicamente. Os bancos comearam aenviar brigadas de colectores que subiam de burro s montanhas e iam falarcom a mezinha, a avozinha do fulano e mostravam-lhes as vantagens dedepositar, nem sempre conseguindo convencer as pessoas. Houve algumadificuldade em os bancos conseguirem captar este enorme fluxo de dinheiro,mas acabaram por conseguir, e foi a primeira vez que o sistema bancrio seestendeu para o exterior do pas, com redes, agncias e balces, com agentes.Conseguiram, e isto muito importante, captar para o sistema bancrio aque-le dinheiro remetido pelos emigrantes. J vamos ver os efeitos poderosos queisto tem.

    O terceiro efeito o que diz respeito compra de terras. Lembrem-se de620 que o emigrante sai como o homem que tem pouca terra e, quando volta,

  • Os anos 60 da nossa economia

    quer vir para o mesmo cenrio, mas com outro status, ser proprietrio. Ento,quando faz as suas poupanas, escreve mulher, dando instrues para queela compre o terreno que sempre ambicionou. Dois efeitos importantes: comoas poupanas dos emigrantes eram pequenas, as propriedades que eles po-diam comprar eram tambm pequenas, e por isso permaneceu o sistemaminifundirio, porque, se os emigrantes tivessem ido embora e no tivessemmandado um tosto nem ambicionassem voltar, o que teria acontecido queos salrios teriam subido alis como subiram , as terras marginalmentepouco produtivas teriam sido abandonadas, o preo mdio da terra baixariae, quando isso acontecesse, as aquisies e emparcelamentos aumentariam, adimenso da explorao agrria teria aumentado, o minifndio teria dimi-nudo ou simplesmente desaparecido. Mas no, justamente esta inteno deretorno e o envio de poupana que vo fazer com que o sistema fundirio semantenha exactamente porque o emigrante enviava dinheiro e comprava spingas. O maior investimento era depois, quando tinha de mandar fazer acasa. Depois os bancos deram facilidades para a construo de casas deemigrantes. Mas mais, evitaram que o preo da terra casse, porque o desejode ter terra no estava nada ligado ao rendimento que se podia ter da terra.O preo social da terra era muito maior do que o preo econmico da terra.Em economia dir-se-ia que o custo de oportunidade era muito maior do queo custo econmico. Efectivamente assim foi, mantm-se o preo da terra,mantm-se o minifndio, impossibilita-se a reorganizao tcnica da estrutu-ra fundiria agrcola das exploraes. Os emigrantes, no seu comportamentonatural predeterminado pela escala de valores que tinham guardado e culti-vado, ao fim e ao cabo, reeditam e mantm quase imperturbvel a estruturada terra. Mas voltam emigrantes, com a grande difuso de casas estilo maisonpor todo o norte de Portugal, como toda a gente conhece, mas, enfim, j estohoje assimiladas esteticamente nas paisagens onde existem. Estes efeitos fi-nanceiros so muito importantes. Vamos ver os efeitos econmicos, queainda so talvez mais importantes.

    Em primeiro lugar, como lhes disse, o sistema bancrio conseguiu captar,por assim dizer, moeda original, e, se a taxa de reserva obrigatria dosdepsitos que os bancos tm for de 10%, por cada 100 contos os bancospodem emprestar 90 e formam um novo depsito. E desses 90 depois tm dereservar 9, taxa de reteno de 10%, e podem emprestar 81, e assim pordiante. H um efeito multiplicador: aquela capacidade de emprstimo que osbancos recebem nestes depsitos originais pode multiplicar-se por cinco oupor dez. Este era um dinheiro tecnicamente original porque no tinha sidooriginado na economia portuguesa. Logo, a potncia creditcia que este di-nheiro originou foi enormssima e, finalmente captada pelo sistema bancrio,fez com que a oferta de fundos do sistema bancrio portugus num pas aindaem guerra tivesse crescido monumentalmente durante os anos 60. E era pos-svel, so coisas que esto agora a acabar, obter emprstimos a 35 anos taxa 621

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    de 3%. Os senhores da Caixa Geral de Depsitos devem ter registos abun-dantes disso. O facto de ter entrado um conjunto de massa monetria original,multiplicado, criou uma capacidade creditcia expansiva, ao contrrio do quesucederia se tivessem sido depsitos de residentes. A economia portuguesavem a beneficiar destes recursos, que aumentam o poder de compra dos seusdestinatrios, mas que, inseridos no sistema bancrio, explodem em capaci-dade creditcia. Por outro lado, todas estas remessas de dinheiro dos emigran-tes so em divisas estrangeiras, o que faz com que, apesar do enorme dficedas transaces comerciais importaes necessrias em parte por causa daguerra, porque importvamos a maior parte das munies e equipamentomilitar, nomeadamente meios de transporte , haja um equilbrio na balanacorrente, ou um dfice pequeno, e que, por outro lado, se constituam reservascambiais muito importantes. Desenvolvem ainda o sistema bancrio, o quefaz com que os bancos comecem a ter activos de uma certa dimenso, quelhes propiciam aventurarem-se em certos tipos de operaes a mdio/longoprazo, quando anteriormente no o faziam. Deixam de fazer s gesto daletra aceite e entram noutro tipo de operaes. O facto de no haver limita-es nas importaes, ou seja, dificuldades na balana de pagamentos, e odesenvolvimento do sistema bancrio, a par de solicitaes do prprio desen-volvimento da economia, fazem com que aparea, com cinquenta anos deatraso relativamente Europa, o capitalismo financeiro em Portugal. Elesurge a meio dos anos 60, quando os industriais comeam a comprar bancos,caso CUF, ou os bancos comeam a comprar empresas industriais, casoBorges, caso BPA. Comeam a criar-se os grandes grupos industriais-fi-nanceiros, que foram um dos instrumentos, uma das alavancas mais podero-sas, da acelerao do crescimento da economia portuguesa na segunda me-tade desta dcada. claro que houve outras causas, mas, como no estoligadas ao que nos interessa, no vamos abord-las. Finalmente, parte dosefeitos econmicos traduzem-se em novos consumos e novas atitudes. Porexemplo, o hbito do cachorro quente e da bica, que entram nas zonas ruraisnesta poca porque so exigidos pelos consumidores. O iogurte no eraconhecido nas zonas rurais e trazido pelos emigrantes, que o difundem, ecomea a ser aceite. Antigamente nas aldeias o ponto de reunio de homensera a taberna. nesta altura que comeam a aparecer os snack-bars, os cafs,etc, que trazem novos consumos e trazem s aldeias o consumo de coisas emque no pensvamos e a que chamamos os electrodomsticos duradouros s vezes no duram nada, mas, enfim, so assim classificados. H uma trans-formao e um choque cultural de novas atitudes mentais, que assimilmosmuito mais depressa do que pensvamos e que vieram ajudar a transformaras zonas rurais.

    Sobretudo graas a estas oportunidades financeiras, que podemos conju-gar, por um lado, EFTA/mercados abertos, por outro, oportunidades ofereci-

    622 das pelos emigrantes e pelo investimento estrangeiro, a economia portuguesa

  • Os anos 60 da nossa economia

    no seu conjunto transforma-se bastante rapidamente, e os resultados, deixem--me sumari-los nuns nmeros um pouco chatos, so realmente impressio-nantes: o sector sacrificado em todo este desenvolvimento, desde os anos 60at 1973, foi a agricultura, que no conseguiu desenvolver-se. O grande plode desenvolvimento a indstria. O PIB, quer dizer, o produto interno bruto,uma espcie de rendimento, cresceu 6,2% entre 1959 e 1965 e 7,5% entre1966 e 1973. Em 1994 crescemos 0,5%, ou 1%, vejam a desacelerao quetivemos. A agricultura cresceu 2,9% e, com o abandono da terra, desaceleroupara 1,1% na segunda metade deste perodo. A indstria cresce 9,2% e de-pois mantm o crescimento em torno dos 9%. Os servios, 5,5% e depois7,6%. A emisso monetria, Ml dinheiro moedas e notas mais dep-sitos ordem, passou de 4% no quinqunio anterior para 8,2% e depois para12%: um aumento muito grande. O M2, que, alm disso, inclui tambm osdepsitos a prazo, que os emigrantes comearam depois a preferir, cresceu10,4% e depois 18,4%, uma brutalidade. A parte dos salrios no conjunto dorendimento nacional, apesar da diminuio do nmero de trabalhadores, man-tm-se constante. Os salrios aumentaram cerca de 50%. Uma transformaogrande da economia portuguesa, um surto de crescimento material, umatransformao demogrfica e tambm social bastante profunda.

    Se quiserem fazer perguntas e eu souber responder, estou s vossas or-dens. Podem fazer perguntas, no chumbo ningum.

    Pergunta:

    H dois aspectos que gostaria de focar; so os seguintes: primeiro, quan-to adeso EFTA, a contradio apontada quanto s provncias ultrama-rinas no seria nessa altura apenas a escolha do mal menor? A adeso EFTA seria a no adeso ao Mercado Comum, que tinha aspectos polticosmenos aceitveis pelo sistema dessa poca e, por consequncia, permitia-nosao mesmo tempo no nos afastarmos completamente da Europa e das cor-rentes comerciais que tnhamos de manter aqui, dentro do mundo em quevivamos. O segundo ponto, relativamente emigrao e ao desenvolvimen-to: no parecer sempre uma contradio que precisamente a dcada de 60,aquela de mais desenvolvimento que temos, seja a poca em que as pessoasmais emigraram? Repare-se, mesmo que se d um desconto aos nmeros,porque havia l umas dezenas de milhares de pessoas que nunca regu-larizaram a situao, que podemos dizer que, se houve anos em que mais de100 000 pessoas emigraram, mais do triplo do normal, a emigrao foimuito mais forte do que aquilo a que estvamos habituados. Ser que essaemigrao foi mais resultado de repulso do pas devido guerra do quepropriamente a atraco pela Europa que ento se desenvolvia? Ou serque essa Europa se desenvolvia a uma escala ainda maior do que Portugale era efectivamente atractiva?

  • Alfredo de Sousa

    Resposta:

    evidente que a Europa nesta altura estava em boom, por isso queprecisava de tanta mo-de-obra, tendo de import-la; portanto, as condiesde salrios que oferecia eram bem melhores do que em Portugal. Posso corrermuito, mas, se houver um sujeito que corra mais, distancio-me e, mesmo queeu corra um pouco mais, vou demorar muito tempo a agarr-lo. Vou dar-lheum exemplo: se Portugal crescer 1,5% acima do que cresce a mdia comu-nitria, levamos 35 anos a chegarmos a eles. E 35 anos no horizonte de vidade uma pessoa muito tempo, a vida inteira, e a vida activa acaba-se, noestou espera de que chegue l, trato de me safar antes. Apesar de ser umapoca de grande crescimento para a economia portuguesa, em termos euro-peus, no foi excepcional, porque toda a Europa estava em grande desenvol-vimento. Quanto EFTA, evidente que aqueles que pugnavam por umaligao Europa no podiam pensar em ligar-se ao Mercado Comum, porquetnhamos o problema de no podermos adoptar uma tarifa aduaneira exteriorcomum e, em segundo lugar, tnhamos o problema de no cumprirmos umdos requisitos essenciais do Tratado de Roma, que era termos um regimedemocrtico. Portanto, aqueles que viam o futuro mais na Europa do que noultramar, a escapatria que tinham era irem para a EFTA. O problema , numcontexto poltico como aquele, ter havido algum que imps e conseguiufazer vingar esta medida um pouco paradoxal, mas foi um facto historica-mente constatado.

    Pergunta:

    Sr. Professor, gostava de fazer duas perguntas. Primeiro, se, atravs dosplanos de fomento, o financiamento da economia portuguesa foi eficaz.A segunda relaciona-se com o sector dos transportes. Na dcada de 50/60,mesmo com o financiamento atravs dos diversos planos e tambm do Inter-calar, para o caso, por exemplo, dos caminhos de ferro, os dfices agravam-se extraordinariamente, e, quando chegamos altura do IV Plano de Fo-mento, 1969, dramtica a situao dos caminhos de ferro portugueses.Gostaria de ter a sua opinio sobre estes dois pontos.

    Resposta:

    No era bem o tema de que queria falar, mas deixe-me fazer uma refle-xo. Os planos de fomento em Portugal tiveram uma histria curta, masmuito curiosa. Primeiro, a aceitao do plano de fomento demorou muito

    624 tempo a ser aceite. Sempre vivemos um pouco a tentar imitar aquilo que

  • Os anos 60 da nossa economia

    fazem os Franceses, e a Frana era o pas da Europa que tinha o sistema deplanificao mais desenvolvido, alis muito bem feito. Ainda hoje a altaadministrao francesa se rege por um plano que no imperativo, mas umplano econmico-financeiro. Naquela altura a Frana tinha uma taxa de cres-cimento muito grande e tinha um plano de desenvolvimento indicativo decinco anos. Convence Salazar a aceitar planos de fomento. Aquilo cheirava--lhe a comunismo. Disseram-lhe depois que no tinha de ser a cinco anos, eento comearam a aparecer os planos.

    O primeiro que aparece no incio desta poca no plano nenhum, umalistagem de obras pblicas, mais nada. O segundo j melhora e o terceiro, jutilizando a tcnica da matriz input-output, comea a ter uma semelhana aum plano, como se usava tecnicamente na Europa (foi o ltimo). Os planosde fomento tiveram dois efeitos: um financeiro, que era prevenir a comuni-dade financeira do calendrio dos fundos necessrios para o investimento.Isso foi muito importante, at porque, como disse h pouco, havia justamentedisponibilidades criadas pela enorme potncia das remessas dos emigrantes que funcionavam como uma espcie dos agora subsdios da CEE quedavam oportunidades de investimento e sobretudo de financiamento. Tiveramesses efeitos muito grandes, inclusivamente para financiar a dvida pblica,e, honra seja feita instituio, quem mais beneficiou foi a Caixa Geral deDepsitos, que, sendo um instrumento absolutamente nas mos do Estado,no tinha capital social, o capital dela era do Estado, por estatuto fazia o queo Ministrio das Finanas mandasse, era quem financiava as empresas e osservios pblicos em dfice e as obras municipais. O facto de haver estadisponibilidade financeira criada pelos emigrantes torna tudo isto possvel.Mas o segundo efeito do plano de fomento muito importante. que logoa partir do meio do primeiro perodo de seis anos, a pretexto do plano defomento, e por vezes transbordando para a Cmara Corporativa, comeou adiscusso da estrutura e fundamentos do regime. Sob o signo da economia,era o maior espao de liberdade e discusso das coisas fundamentais dasociedade portuguesa. Era por isso que o governo no os via com bons olhos.Lembro-me de uma vez Tetonio Pereira me ter convidado para dirigir umplano de fomento, a parte mais tcnica do plano de fomento, e, aps eu terdito que no, nessa altura estava no estrangeiro e tambm no aceitaria, eledizer que no fazia diferena, porque isto dos planos de fomento umatreta. O regime no acreditava neles, mas teve esta virtude de fazer a cla-rificao do futuro prximo das necessidades financeiras da economia econstituir um espao de discusso, porque sob a capa tcnica discutiam-secoisas muito profundas. Estou convencido de que a crtica que se formousobre os efeitos econmicos negativos da guerra colonial, em grande parte,foi discutida sub-repticiamente a coberto dos planos de fomento. o queposso testemunhar com interesse para a histria. 625

  • Alfredo de Sousa

    Pergunta:

    Queria fazer duas perguntas: uma delas tem a ver com a questo dominifndio e com a ideia que existe de que o regime salazarista teria umacerta inclinao para um ruralismo, que o faria ver com bons olhos estasituao ou o seu aprofundamento, e o fortalecimento do minifndio. Queriasaber se haveria uma inteno poltica ou uma aprovao poltica destaevoluo? A segunda pergunta era se podia dizer qualquer coisa dos ele-mentos econmicos a que se referiu: quais tero contribudo mais para aecloso do 25 de Abril?

    Resposta:

    Quanto ao minifndio, suponho que ter sido no fim dos anos 50, massobretudo nos princpios dos anos 60, se a memria no me trai, que houveuma tentativa do governo para fazer um emparcelamento rural e que escolheumal, o Norte, a zona do Gers, Minho e Viana do Castelo. O Norte sempreteve lobbies poderosos que mandam mais do que o ministro das Finanas, oque mostra bem que h uma conivncia entre a conivncia fiscal e a influn-cia poltica. Nessa altura, um dos lobbies poderosos era dos o proprietrios,que no eram normalmente apenas proprietrios agrcolas, mas tambm ho-mens do regime, eram tambm advogados, mdicos, no Porto, etc, e queformavam uma clique muito grande e tinham muitas terras. Mas no tinhamterras contnuas, havia exploraes, quintas, havia propriedades na zona deBraga que tinham 25 fragmentos e a mdia suponho que era de oito fragmen-tos. Para eles o problema punha-se assim: a maada que vou ter de trocarcom o sujeito do lado, que detesto, no cumprimento, nem vou mesmamissa que ele, as dificuldades que vou ter por ele ter de estar aqui para noser enganado, no. A ideia do emparcelamento ideia de Mota Campos, umhomem de Direito de Coimbra, que para o torpedearem lhe passaram a cha-mar Mata Campos. Esta tentativa foi fracassada. O regime, apesar de a terdesejado por motivos tcnicos, no teve fora poltica para a impor. Julgoque o que interessava ao Salazar na sua mentalizao de infncia-adolescn-cia era a quietude e a paz rural, com mais ou menos minifndio, no tinhagrande importncia para ele.

    Quanto aos motivos econmicos que mais influenciaram o 25 de Abril, um assunto muito complexo. Penso que o 25 de Abril foi um processoevolutivo que teve um conjunto de causas e depois no foi linear at ao fim.Houve muitos saltos para baixo e para cima, e muita gente se meteu de permeio,sobretudo o Partido Comunista, que entrou atravs dos oficiais que pertenciamsecretamente ao partido. Houve uma ideologizao interna ao longo de todoeste processo. Mas julgo que o motivo econmico principal, para falar muito

    626 francamente, foi corporativo. Para comear, o incmodo em que j estavam os

  • Os anos 60 da nossa economia

    oficiais de carreira. Os militares no se importam com uma guerrazita breve,depois voltam aos quartis, eles esto l para isso, mas uma guerra no seeternizava h mais de dez anos porque o regime econmico, se calhar, aguen-tava, cansava-os. Tinham uma comisso, duas, embora as comisses a partir detenente j fossem feitas em cidades e em vilas e j nem fossem na frente decombate, de facto era uma maada andar a mudar com a mulher ou deixar osfilhos, um cansao. Quando se d a tentativa do regime de aumentar o nmerode oficiais disponveis, incorporando, atravs de um breve curso na escolamilitar, os oficiais milicianos, eles pensaram que comeavam a ficar com oacesso tapado. um motivo corporativo, um motivo econmico. Uma carreiraprofissional mais difcil, mais concorrenciada, o motivo que vai reunir muitosoficiais que se atrevem pela primeira vez a fazer a contestao organizada, quena tropa s permitida a contestao individual. Esta primeira contestaoorganizada no destruda porque o regime, que no quer chatices, acha que uma contestao corporativa, meramente econmica e de carreira. Pensaramque, fazendo a diferena dos vencimentos a favor dos oficiais de carreiratradicionais que vm da Academia Militar, talvez eles se contentassem e noviram o grande perigo. Mas essa contestao, que permitida pelo regime ecomea a ser ideologizada. Uns fazem-no mais autonomamente: o exemplomais flagrante o major Melo Antunes, que um homem que tem a suaformao; outros, mais influenciveis, dizem aquilo que lhes metem na bocapara dizerem. O processo do 25 de Abril um processo heterogneo, comple-xo; quanto aos motivos econmicos, independentemente de a situao econ-mica se aguentar e do regime corporativo, no vejo grandes motivoseconmicos que tivessem levado contestao militar e revoluo do 25 deAbril. Nunca o ultramar portugus, sobretudo Angola e Moambique, cresce-ram tanto como na dcada de 50 a 60 ou na de 60 a 73. Por uma razo simples:Angola era um pas virgem, mas, por necessidades de quadrcula militar,abriram-se imensas estradas e comunicaes. E o desenvolvimento foienormssimo e depois muitos militares ficaram l. J em 1944 Salazar tinhadecidido que metade do servio militar dos portu-gueses fosse feito no ultramarpara o povoar. Depois os militares no aceitaram isso; se tivessem aceitado,talvez a histria tivesse sido outra. Podem dizer que tinham a conscincia deque Portugal estava a gastar muito dinheiro e a atrasar o seu crescimentorelativo, apesar de o crescimento absoluto ser bastante bom. Talvez tivessedespertado a conscincia de alguns, mas no julgo que fosse um motivoeconmico, pelo menos o principal.

    Pergunta:

    Queria felicitar o Sr. Professor pelo interesse e pela clareza da suaexposio. Seria possvel fazer uma tentativa de comparao da situao 627

  • Alfredo de Sousa

    que se viveu nos anos 60, quer dizer, das oportunidades perdidas na dcadade 60, com as oportunidades que continuam a perder-se na nossa dcada,ou seja, na dcada de 90? Estamos a viver um perodo muito conturbado.A partir de 1989 tivemos um quadro comunitrio de apoio de cerca de 1,5%ou 2% do PIB cada ano at 1993. Parecia que esta entrada de milhes erasusceptvel de conduzir a uma melhoria da estrutura econmica portuguesae, finalmente, resolver alguns problemas da nossa economia e, pelo menos,tambm diminuir o atraso que temos da Europa. Infelizmente, esta oportu-nidade at agora perdeu-se. Estamos a entrar agora num novo quadro co-munitrio de apoio de 1994-1999, com a entrada por dia de alguns milhes,ou seja, so mais de 4% do PIB todos os anos. Isto seria um factor impor-tante para, finalmente, resolvermos nesta dcada alguns problemas estrutu-rais da nossa economia, sobretudo ao nvel da estrutura industrial, e seriatambm a possibilidade de nos adiantarmos em relao Europa. Pareceque isto no vai acontecer. Existe nos documentos comunitrios o princpioda adicionalidade, quer dizer, que a estes milhes que recebemos todos osdias deveriam juntar-se recursos prprios no sentido de, finalmente, termosuma poltica econmica adequada e conseguirmos ultrapassar de facto estesdefeitos estruturais da nossa economia. O balano que neste momento podefazer-se de tudo quanto est a acontecer e daquilo que se prev que aconteaat 1999 no sentido de continuarmos da mesma maneira. Pelo contrrio,no s no se avana em relao situao de atraso que estamos a viver,como uma anlise realista da situao conduz a pensar que estes atrasos voaumentar ainda. Era este tipo de reflexo que queria fazer.

    Resposta:

    uma reflexo sua sobre a qual no tenho nada a acrescentar.

    Pergunta:

    O estudo do Prof Michael Porter sobre a economia portuguesa nopoderia ter sido feito pelas universidades portuguesas?

    Resposta:

    J escrevi e j disse publicamente que a equipa Porter tem trs vantagenssobre qualquer uma que se pudesse construir em Portugal: em primeiro lugar,tem um grande nome americano frente; em segundo lugar, fala ingls; em

    628 terceiro lugar, cara.

  • Os anos 60 da nossa economia

    Pergunta:

    Queria, antes de mais, cumprimentar o professor Alfredo de Sousa; muitoobrigado por esta comunicao, que achei interessantssima. Quero colocars uma questo. Ligou o desencadear do 25 de Abril muito questo militar,da carreira militar. Pergunto se dentro da estrutura econmica no haveriainteresses de certo modo contraditrios, digamos que uma corrente europes-ta, ou voltada para a Europa, e que por isso pretendia a democratizao eteria de acabar necessariamente com as colnias, e uma corrente mais tra-dicional, ligada agricultura, ligada terra, at mesmo em Angola. Nohaveria dentro de Portugal, inclusive, esta faco, esta faco de duas cor-rentes, uma europesta e ligada tambm muito ao capital financeiro, voltadapara a Europa, para os mercados da Europa, e uma corrente mais tradicio-nal, voltada para as colnias, para os produtos que vinham das colnias paraPortugal, e que no estariam necessariamente dissociadas, muitas vezes es-tariam ligadas, no havia efectivamente uma fico a nvel econmico?

    Resposta:

    Estes processos sociais so muito complexos. Em economia ensinamosque no h processos econmicos puros, h processos sociais em que estu-damos a parte econmica, mais nada, e outros especialistas estudam a outraparte, incluindo a sade, a evoluo biolgica, etc. Mas o que interessa aqui,a pergunta que me foi feita, era se no via factores econmicos ou qual ofactor econmico mais importante que via no processo concreto que se de-sencadeou no 25 de Abril.

    Os militares no reagem apenas a motivos de carreira militar, so seressociais como quaisquer outros. O cansao da famlia, a ideologia dominante,a moda, a presso dos vizinhos, os filhos, tudo isso influencia a deciso daspessoas, aquilo que viram, as crueldades que presenciaram ou os actos deabnegao que viram, tudo isso influencia. Ora parece ser verdade que nestadcada, sobretudo a partir de 1970, havia j um razovel cansao mesmo depessoas do regime. No se via o fim guerra e nesta altura, sobretudodepois da morte de Salazar, que comeam a tentar fazer-se negociaes di-rectas. Agora est revelado que o prprio Marcelo Caetano tentou vriasaproximaes, vrias abordagens, no foi s o Spnola. A verdade quetambm dentro do regime havia uma faco dos irredutveis e que traduziaslogans como, por exemplo, os do almirante Amrico Toms, que dizia quePortugal no se vende, Portugal uno, no se quebra, todas estas coisas queexaltam, no s o Jirinovsky que as sabe fazer, aqui tambm sabem, olhemesta propaganda da Europa que ao mesmo tempo europesta e patritica. uma contradio bizarra, mas complexa, mas havia uma faco nessa 629

  • Alfredo de Sousa

    altura que era irredutvel e que, para simplificar as coisas, pode dizer-se que-se reunia em torno do presidente da Repblica, o almirante Amrico Toms,e que dificultava o processo de liberalizao caetanista, que comea com aliberalizao econmica, com um pouco de liberalizao da imprensa,liberalizao cultural e at liberalizao poltica, quando convidam os depu-tados liberais para fazerem parte da Assembleia Nacional. Quando se tratavade discutir o ultramar, devido existncia daquela faco de irredutveis, adiscusso era proibida, e a democracia fracassou. A evoluo democrtica deMarcelo Caetano fracassou porque a discusso era amputada desta parteessencial, e a democracia una, no h democracia para umas coisas, e nodemocracia para outras. A China acabar por entrar em contradies profun-das e logo se ver o que vai resultar. Aqui resultou o fracasso, e, no haven-do, aparentemente, solues polticas vista, qualquer pretexto servia aosoficiais para tentarem libertar-se desta carga, e ento fizeram uma revoluocom os trs D, que era descolonizar, democratizar e desenvolver. Mas oprocesso complexo, ou foi.

    Vamos encerrar esta sesso, e infelizmente encerrar tambm este ciclo,mas no podamos ter encerrado da melhor maneira do que com a palestrado professor Alfredo de Sousa. Queria prestar a minha homenagem Culturgest por ter tido a ideia de promover um ciclo de palestras sobre ahistria econmica e social portuguesa. Espero que haja novas oportunida-des para o pblico que acorreu aqui to numerosa e fielmente podercontactar com novos ciclos de histria econmica e social Queria agrade-cer uma vez mais ao professor Alfredo de Sousa o ter demonstrado que oseconomistas tm um contributo mais do que valioso para a histria econ-mica e que a histria econmica no acaba no dia de hoje; portanto, hsempre qualquer coisa de novo para estudar.

    Obrigado!

    630