Os 140 Anos Do Fim Da Guerra Do Paraguai

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  • 9Major QCO Armando Martins Filho1

    O historiador no aquele que sabe. Mas o que procura.Lucien Febvre

    ResuMO: O objetivo deste artigo traar, em breves linhas, algumas consideraes acerca da evoluo historiogrfica sobre um tema to polmico quanto palpitante para a histria dos pases envolvidos, naquele que foi o maior conflito ocorrido em terras sul-americanas; de um lado o Paraguai, e de outro, opondo-se nao guarani, a chamada Trplice Aliana formada por Argentina, Brasil e Uruguai.

    Palavras-chave: Guerra do Paraguai, Solano Lpez, Reviso historiogrfica

    AbstRACt: The objective of this article aims at making a few brief comments on the histographical evolution of a theme both controversial and exciting to the history of the countries envolved in the greatest confict wich ever happened on south American land; on one side, Paraguay, and on the opposite one, fighting the guarani nation, the countries which formed the Triple Alliance, Argentina, Brazil and Uruguay.

    Keywords: Guerra do Paraguai, Solano Lpez, Reviso Historiogrfica

    Os 140 AnOs dO FiM dA GueRRA dO PARAGuAi (1870-2010): uMA nOvA visO

    1 - Professor de Histria do Colgio Militar de Curitiba; Mestre em Integrao Latino-Americana pela UFSM-RS; Membro da Academia de Histria Militar do Brasil e do Instituto Histrico e Geogrfico do Paran.

  • 10

    intROduO

    A Guerra do Paraguai terminou no dia 1 de maro de 1870, com a

    morte em combate em Cerro-Cor, do marechal Solano Lpez, mandatrio

    paraguaio. Entretanto passados 140 anos do fim do maior conflito envolvendo

    pases americanos, o mesmo ainda gera polmicas, sobretudo, em relao

    ao revisionismo histrico, que transformou o Paraguai de agressor dos seus

    vizinhos, em vtima da ao imperialista inglesa na Amrica do Sul, atravs da

    sanha blica dos pases da Trplice Aliana, capitaneados pelo Brasil Imprio.

    A mais recente polmica, envolvendo esse conflito, originou-se na

    inteno manifestada pelo nosso governo de devolver ao Paraguai o canho

    conhecido como El Cristiano, capturado pelo Exrcito Brasileiro durante as operaes blicas, deciso que desagrada aos militares e causa desconforto

    na caserna.

    Esse apenas mais um captulo na longa srie de discusses e polmicas

    entre os estudiosos do tema, que vo desde as divergncias entre os nmeros

    de mortos e feridos entre os contendores, os efetivos em presena durante as

    operaes de guerra, passando sobre quem efetivamente venceu o conflito.

    Vejamos, em linhas gerais, a evoluo da historiografia sobre o tema,

    ao longo dos ltimos 140 anos.

    A GueRRA dO PARAGuAi PeLA histORiOGRAFiA tRAdiCiOnAL

    As causas da Guerra do Paraguai remontam independncia da antiga

    provncia do Vice-Reino do Prata, ocorrida em 1811, quando se formou um

    governo provisrio do qual os membros mais importantes foram D. Fulgncio

    Yegros, D. Pedro Juan Cabalero e D. Jos Gaspar de Francia. Em 1814, teve

    incio o governo de Jos Gaspar Rodriguez de Francia (1814-40), que isolou

    o pas, no admitindo sequer representantes estrangeiros, com exceo do

    Brasil.

  • 11

    O Brasil foi o primeiro pas a reconhecer a independncia do Paraguai, com o qual conseguiu estabelecer relaes mesmo durante o longo perodo de isolamento a que submeteu seu primeiro ditador, Jos gaspar Rodriguez de Francia. Diplomaticamente, havia o Imprio defendendo a integridade territorial e a soberania do Paraguai contra os desejos expansionistas das Provncias Unidas do Rio da Prata e depois da Confederao Argentina. Ao tempo de Rosas, contribumos para o melhoramento das fortificaes e do Exrcito do Paraguai (VIANNA, 1980, p. 534).

    Em 1840, D. Antnio Carlos Lpez, assumiu o governo, atenuando

    um pouco o sistema de isolamento do pas, sem no entanto tolerar nenhuma

    oposio. As relaes diplomticas com o Brasil, foram mantidas com o

    mesmo clima de cordialidade que marcaram o governo de seu antecessor.

    Com a morte de Carlos Lpez, o governo foi passado para seu filho,

    Francisco Solano Lpez (1862-70), o qual sonhava em criar o Paraguai

    Maior, anexando as regies argentinas de Corrientes e Entre-Rios, Misses e

    a ilha de Martim Garcia; as areas de fronteira com o Brasil em Mato Grosso

    e partes do Rio Grande do Sul, alm de todo o Uruguai, com vistas a criar uma

    sada para o Oceano Atlntico.

    Para atingir esses objetivos, Solano Lpez armou fortemente o

    Paraguai. O Brasil no espera se envolver em um conflito com os paraguaios,

    uma vez que as questes de fronteira estavam sendo resolvidas de forma

    amigvel e a questo da navegao pelas guas do Paraguai tambm fora

    equacionada por tratados.

    O cenrio comeou a mudar quando o Imprio brasileiro interveio

    contra o governo de Aguirre no Uruguai, em 1864, fato que levou Solano Lpez

    a oferecer sua mediao, a qual o Brasil no aceitou. Poucos meses depois,

    Lpez protestava contra a interveno do Imprio na Repblica Oriental

    do Uruguai. Apesar do acirramento dos nimos, o Paraguai oficialmente

    continuava a apresentar relaes amistosas com o Brasil.

  • 12

    Em 11 de novembro de 1864, sem prvio aviso, os paraguaios

    aprisionaram o navio brasileiro Marqus de Olinda, que navegava pelo

    rio Paraguai, em direo a Mato Grosso, levando a bordo o presidente da

    provncia, o Coronel Carneiro de Campos.

    Um ms aps o aprisionamento do navio, houve a declarao de

    guerra de Solano Lpez, seguida da invaso do Mato Grosso, cujo primeiro

    objetivo foi a tomada do Forte de Coimbra, comandado pelo Tenente Coronel

    Prto Carrero e, guarnecido por apenas 115 homens, que embora resistissem

    tenazmente, no conseguiram deter o avano paraguaio. Aps essa vitria,

    atacaram o Forte de Dourados, onde um pequeno destacamento comandado

    pelo Tenente Antnio Joo tambm no conseguiu deter os invasores, que

    ocuparam as cidades de Miranda e Nioac.

    Aps essas vitrias, Solano Lpez tentou invadir o Rio Grande do Sul,

    atravs da provncia de Corrientes, sem permisso do governo argentino, fato

    que levou formao em 1 de maio de 1865, da Trplice Aliana, em cujo

    desdobramento ao longo do conflito, teve trs comandantes gerais:

    1 fase - General Bartolomeu Mitre, presidente da Argentina;

    2 fase - Marechal Luis Alves de Lima e Silva, Marqus de Caxias;

    3 fase - Marechal Gaston DOrleans, Conde DEu

    No artigo 7 da Tratado da Trplice Aliana, estabeleceu-se que

    os aliados no guerreavam contra el pueblo del Paraguay ni contra los paraguaios, si no contra seu gobierno (Mussumeci, 1962, p.208). E no artigo 8, os aliados obrigavam-se a respeitar a independncia, a soberania e a integridade territorial do Repblica do Paraguai(VIANNA,1980,p.543).

    O incio da guerra encontrou o Brasil despreparado para travar uma

    lutar em regies longnquas e de difcil acesso terrestre, fluvial e martimo.

  • 13

    Para fazer frente a cerca de 85000 soldados paraguaios, com poderosa artilharia e farto material blico, tinha o Brasil 16000 homens disseminados pelo Imprio, recorrendo ento mobilizao da Guarda Nacional e dos batalhes de Voluntrios da Ptria. A Argentina, no comeo da campanha, teve perto de 12000 combatentes, trs anos depois reduzidos a pouco mais de 4000; o Uruguai tinha 2500 soldados na guerra, em seu incio, mas somente 600 no fim da luta. O efetivo mximo das foras brasileiras foi atingido em 1868, quando somavam 67.365 homens (SOUZA DOCCA, Causas da Guerra do Paraguai, p.184).

    Percebemos portanto, que havia uma clara desproporo militar entre

    as foras paraguaias e brasileiras na ordem de 4 para 1, o que desmente as

    verses revisionistas de uma extraordinria superioridade militar brasileira.

    O incio do longo conflito foi marcado pelas vitrias paraguaias, com

    as invases do Mato Grosso, do territrio argentino de Corrientes e da cidade

    de Uruguaiana no Rio Grande do Sul. Entretanto, em 11 de junho de 1865,

    a marinha brasileira venceu a Batalha do Riachuelo. Em 18 de setembro do

    mesmo ano, o general Estigarribia rendeu-se em Uruguaiana. No ano seguinte,

    no dia 24 de maio, os aliados vencem os paraguaios em Tuiuti, considerada a

    maior batalha terrestre da Amrica do Sul. Seguiu-se a vitria na batalha de

    Curuzu no dia 3 de setembro e a derrota de Curupaiti, em 22 do mesmo ms.

    O Marqus de Caxias foi nomeado, em novembro de 1866, comandante-

    chefe do Exrcito Brasileiro. No ano de 1867, ocorre a retirada da Laguna e a

    libertao da provncia de Mato Grosso. Em 25 de julho de 1868, vitria aliada

    em Humaita e, no final do ano, as vitrias de Caxias nas batalhas de Itoror,

    Ava, Lomas Valentinas e Angostura, que ocorreram respectivamente nos dias

    6, 11, 21 a 27 e 30 dezembro, por isso conhecidas em nossa historiografia

    como a dezembrada.

    No dia 5 de janeiro de 1869, tomada Assuno. Aps a queda da

    capital paraguaia, Caxias passa o comando das tropas ao Marechal Guilherme

    Xavier de Souza, por estar adoentado e retorna ao Rio de Janeiro, onde o

    imperador D. Pedro II (1840-89) para distingui-lo o eleva, em 23 de maro de

    1869, a Duque de Caxias.

  • 14

    As foras aliadas nessa ltima fase da guerra, passam ao comando do

    Marechal Gasto DOrleans, Conde DEu. Solano Lpez foge para regio da

    cordilheira do Ascurra, procurando reorganizar o que restava do seu exrcito.

    Tem incio Campanha das Cordilheiras, com as vitria da Trplice Aliana

    nas batalhas de Perebebu e Campo Grande.

    Em Cerro-Cor, ocorre a ltima batalha da guerra, Solano Lpez,

    alcanado pelas tropas do general Jos Antnio Correia da Cmara, acabou

    morto, em 1 de maro de 1870, fato que marca a derrota definitiva do

    Paraguai.

    Apesar da vitria militar, o Brasil no tirou proveito dessa longa e

    custosa guerra. Nada ganhamos. Tampouco recebemos a dvida de guerra,

    que foi perdoada por decreto do governo brasileiro, em 1943, por ocasio da

    visita do presidente do Paraguai ao Brasil, em retribuio a visita de Getlio

    Vargas, feita h dois anos.

    Em 1872, o Brasil firmou um tratado de paz com o Paraguai, fixando

    os respectivos limites de fronteira, sem no entanto obter quaisquer vantagens

    territoriais. No obstante, tivemos contra ns a opinio de grande parte do mundo.

    Era favorvel ao Paraguai a opinio geral da Amrica do Sul. (...) considerada no mapa,a aliana era um grupo esmagador a cair sobre pequeno trato central da Sul-Amrica, milhes de aliados a investirem contra um escasso milho de defensores locais. Finalmente, a diplomacia de Lpez havia abundantemente subsidiado a publicidade, com o fito de criar uma corrente internacional de sentimentos que lhe fosse simptica (CALGERAS,1972, p. 323).

    Como consequncia do conflito, o Paraguai ficou arruinado; sendo

    organizado no pas pelo Visconde do Rio Branco um novo governo, que a

    pedido do Conde DEu, aboliu a escravido naquele pas; o Exrcito Brasileiro

    tornou-se uma fora poltica e houve um incremento das idias abolicionistas

    e republicanas no Brasil. A guerra marcou o apogeu e o incio da decadncia

    da monarquia brasileira, que culminaria em 15 de novembro de 1889, na

    proclamao da Repblica.

  • 15

    A GueRRA dO PARAGuAi PeLA histORiOGRAFiA RevisiOnistA

    Para essa corrente historiogrfica, o Paraguai desde a sua independncia

    realizou um desenvolvimento poltico completamente diferente dos pases

    da Amrica Latina, sobretudo, a partir do governo enrgico de Jos Gaspar

    Rodrigues de Francia, o qual desenvolveu uma estrutura social e econmica

    voltada para os interesses do povo paraguaio, cujo objetivo principal seria

    garantir a plena independncia do seu pas.

    Essa ao scio-econmica consistiu na distribuio de terras aos

    camponeses, combate oligarquia parasitria, alm de construir inmeras

    escolas, de tal sorte que, em 1840, o Paraguai era um pais sem analfabetos (CHIAVENATTO, 1979, p. 27).

    Aps a morte de Gaspar de Francia, em 1840, seus sucessores, primeiro

    Antnio Carlos Lopes (1840-62) e, depois seu filho Francisco Solano Lpez

    (1862-70), conhecido como El Supremo, deram prosseguimento tarefa de transformar o Paraguai num pas livre da explorao do capitalismo

    imperialista internacional.

    Nesse sentido, o projeto defendido por esses lideres progressistas,

    prejudicava os interesses da Inglaterra, que pretendia manter os pases latino

    americanos como consumidores de seus produtos industrializados e fornecedores

    de matrias-primas. Como o Paraguai no se enquadrava no esquema, a

    Inglaterra financiou a destruio da nao guarani, atravs da Trplice Aliana,

    promovendo o maior conflito ocorrido entre os pases americanos.

    Portanto, alm das reivindicaes territoriais de Solano Lpez ou

    mesmo motivos de ordem poltica, a principal causa da guerra foi de natureza

    eminentemente econmica, o que pode ser comprovado pela declarao do

    presidente Bartolomeu Mitre da Argentina, quando disse que:

    A Repblica Argentina est no imprescindvel dever de formar aliana com o Brasil a fim de derrubar essa abominvel ditadura de Lopez e abrir ao comrcio do

  • 16

    mundo essa esplndida e magnfica regio que possui, talvez, os mais variados e preciosos produtos dos trpicos (CHIAVENATTO,1979,p.104).

    Logo, para atingir esse objetivo era necessrio desencadear uma guerra

    contra o Paraguai, com vistas a destruir a sua estrutura econmica que o tornava

    independente em relao ao capitalismo internacional e conquistar o pas.

    A esse respeito, a historiografia revisionista alertava que, para estudar

    e entender o contexto no qual ocorreu a Guerra do Paraguai, era necessrio

    usar como base as pesquisas de Lon Pomer e Jlio Jos Chiavenatto,

    entre outros jornalistas e historiadores, que procuraram repensar a histria

    do Paraguai e o grande conflito no qual o pas se envolveu no sculo XIX.

    Mesmo que a reviso levada a efeito por autores como os citados possa ser alvo de contestaes, no deixa de ser necessria tendo em vista repensar a viso simplista e dogmtica da historiografia oficial (LOPEZ,1988, p. 80).

    O Paraguai, h cento e quarenta anos, era uma nao que sobrevivia

    sem a utilizao de capital estrangeiro uma exceo entre os pases latino-

    americanos. Criara ao longo do governo de Jos Gaspar de Francia, condies

    para um desenvolvimento econmico autonomo, apoiando-se nas massas

    camponesas e aniquilando a oligarquia do pas, ao mesmo tempo que se

    isolava dos seus vizinhos atrelados ao capitalismo ingls.

    Mesmo sem tomar medidas diretas contra os grandes terratenientes, o isolamento a que estava submetido o Paraguai, com paralisia quase total do comrcio externo, condenou-os a um paulatino desaperecimento (DONGHI, l985, p. 277).

    Os governos de Carlos Lpes (1840-62) e de Francisco Solano Lpez,

    deram continuidade a essa poltica, dotando o Paraguai por volta de 1864, de

    uma base industrial: materiais para construo, tecidos, plvora, loua, tinta

    e papel. Alm disso, foram contratados tcnicos estrangeiros para coordenar

    essa produo, que contava inclusive, com a construo de navios nos

    esteleiros de Assuno.

  • 17

    A economia paraguaia em suas aitivdades essenciais eram controladas

    pelo Estado, constando da pauta de exportao produtos como tabaco, madeira

    e erva mate, apresentando a balana comercial superavit, havendo recursos

    para investimentos em obras pblicas e, caso raro, o Paraguai no tinha analfabetos e nem dvidas com a Inglaterra (LOPEZ,1989, p.97).

    A Inglaterra, obviamente no podia tolerar esse desenvolvimento

    autonomo, que poderia, inclusive, servir de exemplo para os demais pases da

    Amrica do Sul e, valendo-se das rivalidades fronteirias e polticas na regio

    platina, armou e financiou o Brasil para destruir o Paraguai.

    Imagem 1 Acima mapa da ofensiva da Trplice Aliana e retrato de Lus Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, comandante brasileiro no conflito.

    A guerra teve incio em 1864 e durou at 1870 deixando um assombroso

    saldo de destruio. Para se ter uma ideia da carnificina, o Brasil teve cerca

    de 100 mil combatentes mortos. O Paraguai perdeu aproximadamente 600

    mil pessoas de uma populao de 800 mil. Depois da Guerra, essa populao

    reduzia-se a 194 mil pessoas, isto , 75,7 % dos paraguaios foram exterminados. Da

    populao masculina adulta sobreviveram to somente 0,5 %. Assim o Paraguai, que

    fora um prspero pas era agora, um grande cemitrio (CHIAVENATTO, 1979, p.150).

  • 18

    Aqui temos uma divergncia de dados com relao populao

    paraguaia.

    A base da populao do Paraguai era estimada em 400 mil pessoas em 1864, e o Exrcito paraguaio contava com cerca de 80 mil homens com reputao exagerada de ser bem equipado. Eram habilidosos guerrilheiros, lutando com ferocidade e espirito de autosacrifcio. Mas, com 60 mil mortos, capturados ou mutilados uma perda desastrosa. Sob um clculo racional, a guerra estava acabada. Lpez, no entanto, reuniu outro exrcito formado por meninos, mulheres e velhos que resistiu por dois anos. O pas foi arrasado, com seus mortos chegando a 200 mil, ningum sabia exatamente; sua populao masculina havia encolhido em tres quartos. A ocupao brasileira durou 6 anos (SKIDMORE, 1980, p. 86).

    Para Chiavenatto (1979) a brutalidade reinou nos dois lados durante

    o conflito, sendo que Solano Lpez a teria usado para assegurar a disciplina,

    enquanto que a Trplice Aliana a usou como instrumento de extermnio.

    Alis, alguns dos seus relatos do conta de atitudes chocantes levadas a cabo

    pelo General Bartolomeu Mitre e pelo Marqus de Caxias, citando como

    exemplo que os dois lderes ordenaram que fossem jogados no Rio Paran,

    cadveres empestados de clera para envenenar a populao paraguaia.

    interessante observar que os acampamentos da Trplice Aliana

    ficavam rio abaixo, enquanto que os paraguaios ficavam rio acima. Logo,

    seria impossvel que os cadveres subissem o rio a nado para empeste-los.

    Apesar dessa impossibilidade, esse episdio dado como uma antecipao

    de guerra biolgica.

    Os relatos dos massacres perpetrados pelas tropas da Trplice Aliana

    prosseguem com a suposta ordem dada pelo Conde DEu, aps a batalha de

    Peribebuy, de degolar todos os prisioneiros paraguaios no ato de captura, em

    represlia pela morte nesse combate do General Menna Barreto, isso sem

    apresentar um documento sequer que pudesse comprovar tal fato.

    Na batalha de Campo Grande, o Conde DEu teria ordenado que os

  • 19

    soldados paraguaios com idades entre 9 e 15 anos fossem mortos juntamente

    com suas mes que os acompanhavam. Chiavenatto (1979) diz que aps a

    batalha de Ava, as mulheres, que acompanhavam a tropa e vieram recolher

    seus mortos, foram massacradas pela cavalaria brasileira.

    Esses relatos foram tidos como verdade absoluta pela historiografia

    nos anos 60 e 70, sem qualquer tipo de questionamento com relao s fontes

    consultadas. As teses defendidas por Lon Pomer e Julio Chiavenatto, entre

    outros, transformaram o conflito provocado por Solano Lpez num genocdio

    premeditado pela Inglaterra e executado pelo Brasil e seus aliados. Isso sem

    levar em conta que a Inglaterra tentou pacificar o Paraguai, exatamente por

    interesses econmicos, uma vez que tinha vrios investimentos em projetos

    de infraestrutura na regio, alm de manter relaes amistosas baseadas no

    comrcio com os pases da Amrica do Sul.

    A GueRRA dO PARAGuAi: RevisAndO O RevisiOnisMO

    Solano Lpez desconfiava das intenes do Brasil e da Argentina, em

    virtude do seu isolamento Continental, conforme ele mesmo reconheceu ao

    presidente Mitre da Argentina, aps a batalhas de Tuiuti, em Yataity-Cor,

    quando disse que a guerra que movi contra o Brasil era pela crena de que o Imprio no se contentaria com a conquista do Uruguai e que sua dominao seria estendida a outros pases vizinhos (MENEZES,1998, p. 96).

    A reafirmao do poder imperial brasileiro na poltica uruguaia, em

    1864, levou a uma virtual declarao de guerra por parte do Paraguai.

    Segundo Skidmore (1998) a compreenso da Guerra do Paraguai e do

    envolvimento do Brasil nela a geografia da regio.

    Depois do Amazonas, o sistema do Rio da Prata o maior da Amrica do Sul. Ele proporciona o transporte essencial para quatro pases: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Para este trs ltimos, ele a sada fluvial mais importante para o Oceano Atlntico e, portanto, para o contato martimo com a Europa e a Amrica do Norte. (SKIDMORE, 1998, p. 83)

  • 20

    Outro ponto a ser destacado que o Paraguai era um pas rural, cujo

    principal produto de exportao era a erva-mate, possuindo um modesto

    crescimento econmico, politicamente dominado por uma ditadura feroz e

    uma estrutura social dominada por um a elite mercantil, que comerciava o

    pouco produzido pelos camponeses. Em 1865, a capacidade econmica da

    nao guarani era extremamente limitada. Suas exportaes equivaliam a

    menos de 3% do total das exportaes brasileiras. Longe de ser a potncia

    econmica que ameaava a Inglaterra, como querem fazer crer a historiografia

    revisionista.

    O incio e a evoluo da Guerra do Paraguai deveu-se, segundo

    DORATIOTO, no seu livro Maldita Guerra (2002), a personalidade de Solano Lpez, sobre o qual ele lana a responsabilidade do conflito, devido a sua

    procura de maior espao regional para o seu pas e a negativa em conced-lo

    por parte do Brasil e da Agentina.

    Era um plano arriscado, mas, durante toda a guerra, Solano Lpez ordenou operaes militares de alto risco, em cuja deciso predominava noo raciocnio militar, mas, sim, o voluntarismo. Essa era uma caracterstica da personalidade de Solano Lpez, que desprezava a capacidade de combate dos aliados e apostava na ousadia e no fator surpresa para superar as vulnerabilidades dos planos de ataque s foras inimigas (DORATIOTO, 2002, p.475).

    Alis, vale citar a assertiva dos paraguaios sobre as tropas da Trplice

    Aliana: O Exrcito Uruguaio tem generais mas no tem tropa; o brasileiro tem tropa mas no tem generais e o argentino no tem nem tropa nem generais (MENEZES, 1998, p. 104).

    Num ponto todos os autores mencionados concordam: a Guerra do

    Paraguai foi o maior conflito envolvendo pases americanos no sculo XIX e,

    todos saram perdendo. Para doratioto (2002), a vitria alcaada pelo Imprio

    foi uma meia vitria, visto o alto custo em vidas humanas e pelo estrago

  • 21

    financeiro que ela representou para o governo monrquico. O dinheiro gasto

    na guerra foi onze vezes maior que o oramento de um ano de administrao

    pblica, comprometendo por dez anos as finanas brasileiras.

    Outro ponto a destacar, tem haver com a tese dos interesses econmicos

    da Inglaterra no conflito. Se estivessem os ingleses realmente interessados na

    abertura do mercado paraguaio, aps o fim do conflito, seus investimentos

    no pas, agora vencido, teriam aumentado de forma substancial. No foi o

    que ocorreu. Em 1880, seus investimentos no passavam de 1,5 milho de

    libras esterlinas, o que equivalia a menos de 1% dos investimentos totais da

    Inglaterra na Amrica Latina. Nesse cenrio, o Paraguai ocupava o 14 lugar

    nas inverses inglesas na regio.

    Do ponto de vista poltico, um fator relevante foi a formao no Exrcito

    Brasileiro, de uma conscincia de classe. Os militares brasileiros voltaram da

    guerra impressionados com a valorizao do seu ofcio nos pases vizinhos,

    diferente do que ocorria no Brasil, onde no lhe era permitida ascenso

    social, da a sua identificao com o regime republicano, que possibilitava

    oportunidade de participao poltica.

    A Guerra do Paraguai teve grande importncia nas relaes externas

    brasileira: o Status Quo no Prata foi mantido em favor do Brasil; a Argentina

    foi reconhecida como aliada, embora perdurassem algumas dificuldades;

    o Uruguai, de fico poltica conjuntural tornou-se uma slida realidade

    nacional; e o Paraguai colocado em estreita sintonia com o Rio de Janeiro.

    COnCLusO

    Terminado a Guerra Grande, conforme registra a historiografia

    paraguaia, a economia dos pases envolvidos estava fortemente abalada. O

    Exrcito Brasileiro passou a defender uma posio contrria sociedade

    escravista, bem como, a demonstrar simpatia pela causa republicana,

    influenciado pelo contato com os militares dos paises vizinhos.

  • 22

    Este ltimo conflito brasileiro na regio do Prata: durou de 1864 at 1870, custou rios de dinheiro, arrasou as finanas do Imprio, e, praticamente destruiu o Paraguai. Ao final do conflito, o heroismo paraguaio levou verdadeira dizimao da sua populao masculina, destruio da sua incipiente indstria, as perdas territoriais e passagem do poder em Assuno, para as mos dos grandes proprietrios de terras (FRAGOSO & SILVA, 1996, p.221).

    Passados 140 anos daquele que foi o maior conflito entre os povos

    americanos, concordamos com o professor Doratioto quando disse que no

    houve vencedores nessa guerra, todos perderam pelo grande custo humano

    que ela teve. Esse conflito foi o acontecimento central dos pases envolvidos

    na segunda metade do sculo XIX.

    A guerra acabou por consolidar a formao dos Estados Nacionais na

    regio do Prata. Na Argentina, o pas foi unificado e o poder foi centralizado

    na capital, Buenos Aires. O Brasil monrquico viu o seu apogeu e o incio da

    decadncia, com a abolio da escravatura e a proclamao da Repblica. O

    Paraguai e o Uruguai se consolidaram como pases satlites do Brasil e da

    Argentina.

    No final do sculo XX, os pases da Trplice Aliana aliaram-se ao

    Paraguai para formar o Mercado Comum do Sul (Mercosul), embrio de uma

    futura unio alfandegria nos moldes da Unio Europia, com moeda nica e

    total integrao econmica, cujo objetivo ltimo a formao de uma Unio

    Sul Americana, onde a cooperao e o entendimento entre os pases membros,

    que possuem uma base histrica comum, possam trabalhar conjuntamente

    para o desenvolvimento da regio, evitando, assim, que venha a se repetir um

    conflito to terrvel quanto desnecessrio entre os povos irmos da Amrica

    Latina.

    CRditO dA iMAGeM

    Imagem 1 Gilberto Cotrim, Histria do Brasil, Editora Saraiva, 1993, p. 138

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