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    Origem da vida e origem das espcies no sculo xviii...

    Origem da vida e origem das espciesno sculo XVIII: as concepes de Maupertuis

    Maurcio de Carvalho Ramos

    RESUMOA obra de Pierre-Louis Moreau de Maupertuis abrange os domnios da geometria, da fsica e da astro-nomia, mas tambm explora um tema biolgico central da agenda cientfica e filosfica do sculo XVIII:o problema da gerao dos organismos. No Sistema da natureza (1752), o autor apresenta uma ampla teoriaque pretende explicar, a partir de um princpio gerativo universal, como os organismos atuais so gera-dos, como as espcies podem conservar-se ao longo do tempo e como ocorre a formao de novas esp-cies a partir de uma dada linhagem de organismos. Com base em tais explicaes, Maupertuis apresentacertas conjecturas sobre a origem dos primeiros organismos e das primeiras espcies que sero o objeto cen-tral deste artigo. Segundo nossa interpretao, Maupertuis explorou o problema das origens da vida edas espcies a partir de dois quadros tericos distintos, que designaremos como quadros metafsico efsico das origens. No primeiro, a ao de Deus decisiva para a produo dos primeiros organismos edas primeiras espcies, mas no segundo essa mesma produo explicada conjecturalmente a partir deuma concepo natural e atomista.

    Palavras-chave Gerao. Origem da vida. Origem das espcies. Epignese. Preformao. Transfor-mismo. Evoluo. Mecanicismo. Maupertuis.

    I

    A obra cientfico-filosfica de Maupertuis fez importantes contribuies tanto para afsica-matemtica quanto para a histria natural. Seus estudos em fsica e astronomiaacabaram sendo unificados em uma cosmologia e sua histria natural aparece, na suaformulao final, como um sistema da natureza. Primeiramente faremos uma exposi-o abreviada da teoria da gerao de Maupertuis e, em seguida, trataremos de algunselementos de sua cosmologia visando, por fim, discutir o problema das origens da vidae das espcies.

    Pierre-Louis Moreau de Maupertuis (16981759) foi eleito em 1723 para aAcadmie des Sciences de Paris e em 1728 para a Royal Society de Londres. Ardentedefensor do newtonianismo na Acadmie, considerava-se o primeiro que se atreveu,

    scienti zudia, Vol. 1, No. 1, 2003, p. 43-62

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    na Frana, a propor a atrao como princpio a ser examinado (Maupertuis, 1965a,p. 284). Em 1744 convidado por Frederico II para reorganizar a Academia de Cinciasde Berlim, da qual foi Presidente de 1746 at sua morte. Duas de suas realizaes cien-tficas bem conhecidas so a comprovao emprica do achatamento dos plos da Terrae a formulao do princpio fsico de mnima ao, nas quais travou, respectivamente,intensa disputa com os discpulos de Descartes e Leibniz. As concepes de Mauper-tuis sobre a gerao dos organismos aparecem em trs de suas obras: a Vnus fsica, de1745, o Sistema da natureza, de 1752 e a Carta XIV Sobre a gerao dos animais compo-nente das Cartas de 1752. Referncias importantes questo da gerao no que diz res-peito ao papel do acaso, da providncia e das leis naturais aparecem em seu Ensaio decosmologia de 1750, obra que utilizaremos para a anlise das relaes entre a cosmolo-gia e a histria natural do autor.

    Para compreender o valor filosfico mais amplo da teoria da gerao de Mauper-tuis podemos explor-la a partir de sua polmica com a concepo dominante na po-ca, a saber, a teoria da preexistncia dos germes. Esta, por sua vez, foi proposta comosoluo s insuficincias da embriologia de Descartes. Em seu confronto com apreexistncia, Maupertuis retoma alguns dos pressupostos da embriologia mecanicistacartesiana, mas os altera profundamente ao fundamentar suas conjecturas na mecni-ca dinmico-corpuscular de Newton. Assim, apresentaremos inicialmente um resu-mo dos principais aspectos presentes nessas mudanas tericas juntamente com asdefinies dos conceitos centrais envolvidos na polmica.

    II

    A embriologia de Descartes , em essncia, uma epignese mecnica: o embrio for-ma-se gradativamente atravs da organizao de partes de matria inerte que se mo-vem segundo as leis do movimento pelo choque. Descartes toma como fundamentofisiolgico e gentico dessa embriologia a teoria hipocrtica da dupla semente: os pro-genitores produzem lquidos ou licores seminais que so misturados no ato da cpula.As partes seminais masculinas e femininas reunidas produzem mecanicamente o em-brio. O elenco bsico de tipos de corpsculos presentes na embriognese pratica-mente o mesmo encontrado na produo do Universo, da Terra e de suas partes. Com-parativamente aos corpos inorgnicos, a diversidade de formas presente nas partesseminais necessria para produzir a complexidade orgnica deve ser bem maior, mastais formas sero sempre mais simples do que a estrutura final que produziro. Emoutras palavras, no h na embriologia de Descartes estruturas orgnicas pr-forma-das ou preexistentes. A ao que garante a localizao precisa das partes seminais na

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    estrutura orgnica regida pelas leis ordinrias do movimento. A teoria tambm re-corre fermentao e ao calor como fatores gerativos, mas eles so interpretados comoresultante do movimento e do atrito das partes seminais, no havendo a participaode virtude fermentativa naturalmente ativa.

    Esses resultados foram bastante criticados pelos mecanicistas posteriores a Des-cartes e sua embriologia epigentica foi substituda pelas teorias da preexistncia e doembutimento dos germes. Segundo Malebranche e Boyle, por exemplo, o movimento podedesenvolver as partes de um animal, mas no pode form-las. A embriologia cartesia-na no pode ser reduzida sua fisiologia. Para Boyle, os cristais podem resultar dacondensao de um fludo, mas o mesmo no aconteceria com a estrutura mais elabo-rada dos animais (Pyle, 1987, p. 234). Malebranche, criticando Descartes, afirma emseu Entretiens sur la mtaphysique et la religion: O esboo desse filsofo pode nos ajudara compreender como as leis do movimento bastam para fazer crescer pouco a pouco aspartes de um animal. Mas que essas leis possam formar e unir essas partes algo quejamais algum provar (cf. Roger, 1993, p. 337). A mecnica suficiente para explicaro desenvolvimento do embrio, mas jamais poder explicar sua formao. Esta deve serconsiderada sempre como preexistente na forma de germes diminutos.

    Para Malebranche, principal responsvel pelo desenvolvimento da teoria dapreexistncia dos germes, todas as coisas so feitas por Deus, mas afirmar que tudoocorre no universo graas a causas milagrosas implica em eliminar a possibilidade deproduzir explicaes fsicas racionalmente inteligveis. Para explicar os fenmenosordinrios da natureza, a ao de Deus entendida por Malebranche como produzidapor leis. Elas podem explicar inteligivelmente os fenmenos mais gerais da natureza, asaber, os fenmenos mecnicos ordinrios e, com modificaes, o escopo geral da me-cnica cartesiana poderia dar conta desse domnio de fenmenos. J no mbito dosprincipais fenmenos biolgicos, como a gerao orgnica, o problema no podia serresolvido com a mesma facilidade e sem modificaes mais radicais. Malebranche, bemcomo outros mecanicistas da poca, poderiam aceitar que o crescimento fosse explicadopelas leis do choque entre partes de matria inerte, mas essas partes j devem ter sidopreviamente estruturadas segundo a ordem prpria da planta ou animal em questo.Ou seja, Malebranche considera a mecnica e a fsica como impotentes para explicaros processos de gnese das estruturas organizadas. Uma vez que re-introduzir qualquerpoder, faculdade ou princpio ativo na matria estava fora de questo por ferir os prin-cpios mais bsicos da filosofia mecnica, a soluo foi colocar o prprio processo degerao no mbito dos milagres. Deus produziu no ato da criao no apenas todas asespcies, mas todos os indivduos pertencentes a cada uma delas na forma de germesdiminutos e encaixados. A verdadeira produo ou gerao de seres organizados prer-rogativa do Criador e no de suas criaturas e, assim, , por princpio, naturalmente

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    ininteligvel. Resolve-se um aparente fracasso do projeto mecanicista postulando quecertos processos devem possuir um vnculo sobrenatural necessrio.

    No o aparecimento de um animal ou planta que milagroso, no sentido deorganismos que se tornam sensveis: esse tornar-se visvel o resultado da ao de leisnaturais. Milagrosa a produo do germe inicial a partir do qual atuaro as leis mec-nicas que daro origem ao organismo. Ao afirmar que as leis da comunicao do movi-mento que garantem o crescimento dos germes, est sendo garantida a inteligibili-dade e a cientificidade da investigao fsica sobre a gerao. Alm disso, afirmandoque esses germes foram criados no incio do mundo, as aes sobrenaturais diretas no mediadas por leis ficam restritas apenas ao quadro das origens. Essa forma deconceber a gerao dos organismos ir vigorar at o sculo XIX. Ehrard sintetiza daseguinte maneira esse sucesso:

    Se a gerao supe uma interveno divina, melhor admitir, pensava-se, ummilagre nico e original: o Criador criou de uma s vez todos os seres viventes detodos os tempos; a matria nada cria, mas se limita a desenvolver os germespreexistentes. O sistema da preexistncia dos germes permitiria conciliar a sim-plicidade das vias da natureza com a onipotncia do Criador. Ela era sedutora obastante para impor-se durante mais de um sculo no apenas aos filsofos comoMalebranche e Leibniz, mas aos mais autnticos cientistas como Ch. Bonnet,Haller ou Spallanzani e grande maioria de seus colegas (Ehrard, 1994, p. 211).

    III

    Maupertuis apresenta sua primeira teoria da gerao dos organismos na Vnus Fsica,obra vrias vezes reeditada e relativamente popular, na qual a teoria da preexistncia edo embutimento dos germes so criticadas e rejeitadas em favor da epignese. Tal cr-tica incluiu uma srie de controvrsias suscitadas na poca, mas nos deteremos nasquestes filosficas mais gerais.

    Segundo Maupertuis, se atribuirmos uma causa sobrenatural produo dos ger-mes ou embries estamos eliminando do mbito da fsica o verdadeiro problema ouobjeto a ser investigado. A pesquisa autntica sobre a gerao deve explicar como seforma o prprio embrio. A noo de preexistncia dos germes , portanto, uma solu-o ilusria para o problema:

    se o sistema dos desenvolvimentos [i.., a preexistncia dos germes e do embu-timento] torna a fsica mais luminosa do que ela o seria admitindo novas produ-

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    es, certo que no se compreende em absoluto como, em cada gerao, um cor-po organizado, um animal, pode-se formar. Mas compreende-se melhor comoesta srie infinita de animais contidos uns nos outros foi formada ao mesmo tem-po? Parece-me que se cria aqui uma iluso e que se acredita resolver a dificuldadeafastando-a (Maupertuis, 1965a, p. 66).

    A formao do germe deve sair do mbito sobrenatural e receber, tanto quanto ocrescimento do germe, uma explicao natural. Aqui, portanto, vemos uma clara opo-sio metodolgica de princpio a todo o projeto embriolgico mecanicista clssico.Porm, podemos j adiantar que ao se envolver posteriormente com os polmicos te-mas das origens da vida e das espcies, Maupertuis adotar uma soluo semelhante aessa que critica na Vnus fsica.

    Alm dessa crtica de carter terico, a obra vale-se ainda de uma srie de in-consistncias e dificuldades empricas implicadas pela noo de preexistncia que sodetalhadamente utilizadas para rejeitar a teoria oficial. Feito isso, Maupertuis propeento suas prprias conjecturas.

    Como Descartes, Maupertuis entende que a gerao de um organismo feita apartir da mistura dos lquidos seminais paterno e materno. Cada smen contm as par-tes prprias gerao oriundas dos vrios rgos corporais. Contudo, elas no so iner-tes mas dotadas de foras especiais de atrao que Maupertuis identifica com as afini-dades qumicas. Tais afinidades foram postuladas pelo qumico francs Geoffroy paraexplicar a seletividade necessria para a combinao das substncias nas diversas rea-es qumicas ordinrias. Revelando uma clara tentativa de reduzir a embriologia qumica newtoniana da poca, Maupertuis estabelece uma analogia entre a produode certas cristalizaes semelhantes a vegetais, como aquela conhecida por rvore deDiana, e a gerao do corpo de uma planta viva. Generalizando o processo, afirma quena produo de qualquer organismo as diferenas de afinidades entre as partes semi-nais so determinadas por sua origem no corpo dos pais quando da formao do s-men. Partes oriundas de um determinado rgo tero maior afinidade e se atrairoentre si com maior intensidade. Desse modo, pode-se restabelecer no embrio a dis-posio orgnica semelhante dos pais.

    Em 1751, Maupertuis apresenta em seu Sistema da natureza uma verso modifi-cada dessa teoria na qual o papel da fora de atrao nos fenmenos gerativos pro-fundamente modificado e perde sua prioridade. O autor passa a entender que sendo aatrao uma fora uniforme e cega espalhada por todas as partes da matria, ela no capaz de explicar a regularidade exigida para a formao dos organismos: Se todas [aspartes da matria] tm a mesma tendncia, a mesma fora, de unirem-se umas s ou-tras, por que estas vo formar o olho, por que aquelas a orelha? Por que esse arranjo

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    maravilhoso? E por que no se unem todas elas de qualquer jeito? (Maupertuis, 1965a,p. 146). A fora de atrao, tomada em sua formulao geral, no pode, sozinha, expli-car o carter teleolgico da gerao.

    Tampouco considera satisfatria a utilizao da atrao na forma de afinidadesqumicas. Segundo o autor, sendo elas atraes que seguem outras leis seriam neces-srios tantos tipos de atraes quantas partes diferentes de matria participassem daformao do organismo. A esse respeito diz Maupertuis: Mas com essas mesmas atra-es, a menos que se suponha, por assim dizer, que haja tantas quantas partes diferen-tes no interior da matria, estamos ainda bem longe de explicar a formao de umaplanta ou de um animal (1965a, p. 141). Com tal posio, Maupertuis afasta-se do pro-jeto de elaborao de uma embriologia epigentica fundada exclusivamente na qumi-ca newtoniana e atribui matria, juntamente com suas propriedades fsicas, proprie-dades psquicas capazes de atuar na ordenao dos corpos. Afirma Maupertuis: se para dizer alguma coisa razovel sobre isso [referindo-se gerao dos animais], mesmoque baseado em analogias, preciso recorrer a algum princpio de inteligncia, a algu-ma coisa semelhante ao que denominamos desejo, averso e memria (1965a, p. 147).....

    A postulao de propriedades psquicas na matria torna-se o elemento centralda nova verso da teoria de Maupertuis. Dentre as formas que esse psiquismo assumenessa teoria, a percepo parece ser a mais elementar de todas. Num certo sentido, Mau-pertuis no toma a extenso e o pensamento como essncias absolutamente distintas,mas as reduz como propriedades de um mesmo objeto. Assim, propriedades psquicase fsicas, representadas especialmente pela percepo e pela atrao respectivamente,sero consideradas como capazes de interagir. Essa interao pode ser razoavelmenteentendida na teoria apesar das dificuldades envolvidas com o problema clssico dacomunicao das substncias como uma espcie de modulao da fora de atraopor intermdio da percepo dos elementos materiais. Dessa forma, quando um em-brio est se formando, a atrao espalhada por todas as partes da matria no sermais uniforme e cega: a intensidade dessa fora poder variar segundo a averso ou odesejo dos elementos materiais por estabelecer certas interaes e a direo da aodessa fora ser orientada por uma memria capaz de indicar a localizao espacial ade-quada organizao do corpo em formao.

    Com sua teoria reformulada, Maupertuis enfrentou todas as dificuldades que agerao dos organismos colocava para a cincia mecnica de sua poca. No poderemosaqui apresentar, mesmo que resumidamente, tais explicaes para cada caso. Assim,vamos colocar em foco dois aspectos da questo que estaro diretamente vinculados aoproblema das origens das espcies e da vida. Primeiramente discutiremos a produode formas orgnicas variantes no interior das linhagens regulares de descendncia e,em seguida, o problema da gerao espontnea.

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    IV

    A produo de variaes na regularidade da gerao, bastante discutida na poca, estrepresentada por uma srie de fenmenos ligados mestiagem das raas, hibridizaode espcies, seleo artificial de raas domsticas e ao nascimento de organismoscom malformaes congnitas. Podemos facilmente perceber que todos esses fen-menos colocam srias dificuldades noo de preexistncia dos germes e, tanto naVnus fsica como no Sistema da natureza, Maupertuis os explora em detalhe. Para nos-sa discusso tomaremos o caso mais dramtico e que mais esteve envolvido em po-lmicas, a saber, a gerao dos monstros. Trata-se de organismos que exibem ao nascermutilaes, rgos supra e infra-numerrios ou ainda rgos e partes disformes.A variao numrica dos rgos pode ser de dois tipos: h monstros por excesso e mons-tros por escassez. O primeiro fenmeno explicado por Maupertuis da seguinte manei-ra: no licor seminal h sempre mais elementos do que o necessrio para formar umorganismo. Esses elementos suprfluos poderiam acidentalmente continuar a reunir-se mesmo quando uma determinada parte do feto j estivesse estruturada. Como oselementos suprfluos podem manter sua percepo inalterada, os rgos supra-nu-merrios aparecem, como mostra a experincia, na mesma posio relativa corporalem que apareceriam ordinariamente. Os monstros por escassez so formados quandocasualmente faltam elementos geradores no smen ou quando alguma circunstnciatambm acidental os impede de unir-se. Finalmente, os casos de rgos malformados,ou mesmo de desorganizao total do embrio, seriam causados por uma espcie deconfuso generalizada nas percepes dos elementos durante a gerao.

    Em resumo, Maupertuis considera como fonte de variao congnita da formaordinria dos organismos alteraes acidentais de trs tipos: na quantidade de ele-mentos, nas possibilidades de unio entre os elementos e na atuao da memria doselementos. Por serem acidentais, essas variaes introduzem a possibilidade de ge-rao de novas formas concomitantemente com a gerao regular das formas de cadaespcie.

    Explicada a ocorrncia individual desses organismos modificados, Mauper-tuis tambm as investiga ao longo das linhagens de organismos. Em outras palavras,estuda a conservao das variaes hereditrias. Seu trabalho mais preciso nesse sentidofoi o estudo da hexadactilia ou ocorrncia de seis dedos nas mos e nos ps, apresen-tado na Carta XIV Sobre a gerao dos animais. Atravs do levantamento da genealogiade uma famlia na qual tal alterao ocorria, Maupertuis concluiu: V-se, por estagenealogia, que segui com exatido, que a hexadactilia se transmite igualmente pelopai e pela me: v-se que se altera pela aliana com pentadctilos. Por tais alianasrepetidas deve manifestamente extinguir-se e perpetuar-se por alianas em que fosse

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    comum aos dois sexos (1965a, p. 308). Esses resultados mostram, pois, que oscruzamentos afetam decisivamente a freqncia com que formas alteradas so geradase que h, portanto, outros fatores, alm do acaso, atuantes na gerao de uma variaoquando sua ocorrncia considerada ao longo do tempo. Quanto a isso, diz Mauper-tuis: No creio que algum tome a continuao da hexadactilia como efeito do puroacaso (...), mas se se quiser [assim consider-la] preciso saber qual a probabilidadedessa variedade acidental de um primeiro progenitor no se repetir nos seus descen-dentes (1965a, p. 309). Maupertuis calcula em 20.000 para 1 tal probabilidade apsestimar em cinco o nmero de hexadctilos em Berlim, na poca com 100.000 habi-tantes. A probabilidade, ento, dessa singularidade no continuar por trs geraessucessivas, fato por ele verificado na genealogia que levantou, seria de 20.0003 ou8.000.000.000.000 para 1, nmeros que, para ele, seriam to grandes que nem mes-mo a certeza das coisas mais demonstradas da Fsica se aproxima dessas probabilida-des (Maupertuis, 1965a, p. 310).

    Esses resultados, bem como o exame de outros fenmenos hereditrios, levouMaupertuis a considerar que, para certos traos, somente o aparecimento da primeiravariao ser acidental. A permanncia de certos desvios numa mesma linhagem deorganismos poder ser determinada por fatores que j no so mais fortuitos. Maupertuisexplica a recorrncia desses traos alterados postulando uma diferena na tendnciade certas formas orgnicas ocorrerem. Segundo sua teoria, duas condies so funda-mentais na determinao de tal tendncia: o nmero de vezes que uma dada forma gerada no tempo e a prpria natureza estrutural dessa forma. A permanncia temporalde uma dada estrutura geraria um hbito nos elementos e, assim, estaria garantida aestabilidade das formas e das espcies. Contudo, esse hbito pode ser casualmente rom-pido e, assim, uma nova configurao pode aparecer. Aqui entra o segundo elemento:em funo da fora ou tenacidade prpria da nova estrutura, gerada inicialmente de ma-neira fortuita, ela poder suplantar parcial ou totalmente um hbito anterior. Nos ter-mos de Maupertuis, pode haver arranjos to tenazes, que desde a primeira geraoeles dominam todos os arranjos precedentes, e apagam o hbito (1965a, p. 164). Emresumo, isso implicaria na produo de novas formas ou espcies por um processo na-tural de mudanas nas partculas responsveis pela gerao. Maupertuis aceita, por-tanto, uma concepo transformista do mundo vivo e prope um mecanismo para ex-plicar a produo e a fixao de novas formas ou espcies.

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    Dos aspectos mais complexos da gerao, nos quais est envolvida a produo de novasespcies, passaremos ao caso mais simples (pelo menos em termos materiais), ou seja, gerao espontnea. Os fenmenos gerativos tratados at aqui, sejam os regulares ouos produtores de variaes, so exemplos do que atualmente designaramos por re-produo sexuada Maupertuis utiliza a expresso gerao ordinria no qual h a mis-tura dos licores masculino e feminino. A gerao espontnea tratada pelo autor jun-tamente com outros processos especiais de gerao que poderamos designar comoprocessos no-ordinrios ou assexuados, a saber, a reproduo vegetativa e apartenognese. Resumidamente, o autor considera a reproduo assexuada como umasimplificao do processo sexuado:

    Conhecem-se insetos nos quais cada indivduo basta para a reproduo: desco-briram-se outros que se reproduzem pela seo das partes de seus corpos. Nemum nem outro desses fenmenos traz qualquer nova dificuldade para o nosso sis-tema. E se verdade, como alguns dos mais famosos observadores pretendem,que h animais que, sem pai nem me, nascem de matria na qual no suspeitva-mos qualquer de suas sementes, o fato no ser mais difcil de explicar: as verda-deiras sementes de um animal so os elementos prprios a unir-se de uma certamaneira: e esses elementos, embora encontrem-se, para a maior parte dos ani-mais, na quantidade suficiente ou nas circunstncias prprias sua unio apenasna mistura dos licores que os dois sexos emitem, podem, entretanto, para a gera-o de outras espcies, encontrar-se em apenas um indivduo; enfim, [podemencontrar-se] noutra parte que no seja dentro do prprio indivduo que eles de-vem produzir (Maupertuis, 1965a, p. 165).

    A mistura das sementes masculinas e femininas, que na Vnus fsica fora consi-derada como o grande princpio da gerao, aparece no Sistema como caso mais freqen-te, mas no universal. As partes ou elementos seminais ganham, portanto, uma auto-nomia muito maior e a dinmica de suas interaes passa a ser o processo maisfundamental da gerao. Essas verdadeiras sementes dos animais podem entrar em aono interior de um nico animal (partenognese), a partir de um fragmento retirado docorpo do animal (reproduo vegetativa) ou estando fora de qualquer organismo, as-sociada a outras matrias (gerao espontnea).

    Esses resultados levaram Maupertuis mais ampla generalizao de sua teoria,aplicando o mecanismo proposto aos corpos organizados no-vivos:

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    Mas o sistema que propusemos limitar-se-ia aos animais? E por que a eles selimitaria? Os vegetais, os minerais, os prprios metais, no possuem origens se-melhantes? Sua produo no nos conduz produo dos outros corpos mais or-ganizados? No vemos sob nossos olhos alguma coisa de semelhante ao que sepassa nos germes das plantas e nas matrizes dos animais, quando as partes maissutis de um sal, espalhadas em algum fluido que lhes permite mover-se e unir-se,com efeito unem-se e formam esses corpos regulares, cbicos, piramidais etc.que pertencem natureza de cada sal? (Maupertuis, 1965a, p. 166).

    Maupertuis retoma a comparao da gerao dos corpos vivos com a dos corposcristalinos, j existente na Vnus fsica, mas que no Sistema ganha novos significados. Oautor v uma analogia entre a formao de cristais de certas substncias em soluo,mesmo cristais simples, e a gerao de organismos vivos a partir dos lquidos semi-nais: ambos so fluidos com partculas que se unem e restituem a forma de um corpoorganizado: Triturai esses corpos, reduzi-os a p, rompei a ligao que existe entresuas partes; essas partes divididas que nadam em um mesmo fluido cedo tero reto-mado seu primeiro arranjo, esses corpos regulares sero logo reproduzidos (Mau-pertuis, 1965a, p. 167).

    Pelo mesmo processo so produzidos corpos cristalinos mais complexos, as r-vores qumicas, j mencionadas na Vnus fsica, e que no Sistema so novamente compa-radas produo de organismos vivos:

    Mas se a figura muito simples desses corpos impede-vos de perceber a analogiaque se encontra entre sua produo e aquela das plantas e dos animais, misturaiconjuntamente partes de prata, de nitro e de mercrio e vereis nascer essa plantamaravilhosa que os Qumicos chamam rvore de Diana, cuja produo no diferetalvez daquela das rvores ordinrias a no ser que elas se fazem mais a desco-berto (Maupertuis, 1965a, p. 167).

    Maupertuis faz ainda uma ltima comparao com conseqncias tericas degrande importncia: as vegetaes qumicas so anlogas aos animais produzidos porprocessos no-ordinrios de gerao, especialmente por gerao espontnea:

    Essa espcie de rvore parece ser para as outras rvores aquilo que so para osoutros animais aqueles que se produzem fora das geraes ordinrias, como osplipos, como talvez as tnias, os scaris, as enguias da farinha dissolvida; se forverdade que esses ltimos animais so apenas reunies de partes que ainda nopertencem a animais da mesma espcie (Maupertuis, 1965a, p. 167).

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    Cristais simples, rvores qumicas e seres vivos simples so gerados essencial-mente da mesma maneira: pela agregao espontnea de partes materiais presentesem algum tipo de lquido que garantam um estado de fluidez a essas partes.

    A gerao dos animais que se formam espontaneamente conta fundamentalmentecom a percepo das partes seminais:

    H elementos to suscetveis de arranjo, ou nos quais a lembrana to confusa,que eles se arranjam com maior facilidade: e talvez veremos animais produzirem-se por meios diferentes das geraes ordinrias; como essas maravilhosas enguiasque se pretende que se formem com a farinha dissolvida; e talvez tantos outrosanimlculos que pululam na maioria dos lquidos (Maupertuis, 1965a, p. 161).

    Nas geraes ordinrias, para que haja a produo repetida de uma mesma es-trutura, as partes seminais envolvidas devem retomar tambm de maneira constanteas posies ocupadas nos organismos; isso depende por sua vez da manuteno de umamesma memria associada a essa estrutura. Mas o contrrio tambm verdadeiro, se-gundo reza a citao anterior: elementos seminais que possuem uma memria confusano conseguem reter sempre a mesma posio orgnica e, assim, produzem diferentesanimais mais ou menos ao acaso, de forma irregular e de acordo com encontros fortui-tos em diversas substncias. A intensidade de unio de tais elementos tambm deveser maior, pois agregam-se de maneira menos seletiva, produzindo formas orgnicasto variadas como as citadas. Em uma palavra, a gerao espontnea tomada como oprocesso de base de todas as formas de gerao.

    VI

    A teoria que expusemos at aqui explica como os corpos atuais so gerados segundosuas diversas modalidades e como ocorre a formao de novas espcies a partir de umadada linhagem de organismos. Vamos, por fim, abordar o problema das origens da vidae das espcies. Como dissemos inicialmente, Maupertuis apresenta, segundo nossainterpretao, dois quadros tericos distintos para o tratamento do problema das ori-gens, um metafsico e outro fsico. No interior do quadro metafsico, as propriedadespsquicas presentes na matria, base de toda a teoria de Maupertuis, possuem uma ori-gem sobrenatural:

    Se o Universo inteiro uma prova to forte de que uma Inteligncia suprema oordenou e o preside, podemos dizer que cada corpo organizado apresenta-nos uma

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    prova proporcional inteligncia necessria para produzi-lo (...). Deus dotou cadauma das pequenas partes de matria com alguma propriedade semelhante quiloque em ns chamamos desejo, averso e memria; a formao dos primeirosindivduos sendo milagrosa, aqueles que lhes sucederam no so mais do que osefeitos dessas propriedades (Maupertuis, 1965a, p. 156).

    Apesar das profundas discordncias de Maupertuis com a teoria da preexistncia,vemos aqui grande semelhana dessas idias com as de Malebranche que apresenta-mos anteriormente. Maupertuis tambm separa os mbitos sobrenatural e natural e apartir deles define igualmente o domnio de investigao prprio da fsica: Por quaisleis este mundo, uma vez formado, se conserva? Quais so os meios que o Criador des-tinou para reproduzir os indivduos que perecem? Aqui temos o campo livre e pode-mos propor nossas idias (Maupertuis, 1965a, p. 155). Maupertuis utiliza, portanto, omesmo recurso que criticou na Vnus fsica: os primeiros indivduos foram geradosmilagrosamente por um ato de criao divina. Mas, junto dessa semelhana, h tam-bm uma diferena fundamental: apenas os primeiros indivduos possuem uma ori-gem sobrenatural. Os demais organismos sero efetivamente gerados como descen-dentes desses indivduos primordiais.

    A maneira pela qual Maupertuis articula a ao sobrenatural aos fenmenosnaturais leva, no mbito da gerao orgnica, a conseqncias bem diferentes emrelao ao que aconteceu com a preexistncia dos germes. Nesse sentido seria interes-sante examinarmos como essa mesma articulao ocorreu nos estudos de fsica e astro-nomia do autor que, ao lado de sua histria natural, designaremos como sua cosmologia.

    A prova de que uma Inteligncia suprema ordena e preside o Universo apre-sentada por Maupertuis como uma espcie de coroamento de sua cosmologia. Ao longode seu desenvolvimento, o autor vai inicialmente incorporar, desenvolver e criticarelementos da filosofia natural de Newton. Posteriormente procurar por um princpioainda mais geral que a atrao, capaz de reduzir todas as leis fsicas at ento conside-radas como mais fundamentais. Tal princpio vincula-se metafisicamente a uma con-cepo de Deus como produtor de leis capazes de garantir a estrutura do universo talcomo revelam os fenmenos, e fisicamente a uma lei de conservao das aes envolvi-das na produo desses mesmos fenmenos. Tal lei o princpio da mnima ao: quan-do ocorre alguma mudana na natureza, a quantidade de ao necessria para tal mudana a menor possvel. Com tal princpio, Maupertuis pretendeu ter descoberto qual seria averdadeira grandeza fsica que economicamente despendida na natureza, a saber, aquantidade de ao, definida como o produto da massa dos corpos por sua velocidade e peloespao que percorrem. Com a expresso matemtica desse princpio Maupertuis deduziuas leis da ptica, do repouso e do movimento dos corpos. Assim, uma vez que o princ-

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    pio se mostrou cientificamente impecvel, o autor tentou derivar da mesma fonte ver-dades de um gnero superior e mais importantes (Maupertuis, 1985, p. 103), a saber,buscar a prova da existncia de Deus nas leis gerais da natureza.

    A noo metafsica que fundamenta o princpio fsico da mnima ao e que es-tabelece a relao de Deus com a natureza , resumidamente, a seguinte: todas as coi-sas estariam de um tal modo ordenadas que uma Matemtica cega e necessria executaaquilo que a inteligncia mais esclarecida e mais livre prescreveria (Maupertuis, 1751,p. 66). Tal concepo permitiria privilegiar conjuntamente a sabedoria e o poder divi-nos e, mais importante, garantiria uma certa autonomia da natureza que est, porm,ao mesmo tempo, subordinada vontade de Deus. Para Maupertuis, no se pode du-vidar que todas as coisas no sejam reguladas por um Ser supremo que, enquanto im-primiu na matria foras que denotam sua potncia, destinou-a a executar efeitos quemarcam sua sabedoria (1965b, p. 21). A regularidade dos fenmenos revelada nas leis, em ltima anlise, um efeito da ao de Deus sobre a natureza. Tal ao respeita umprincpio metafsico de simplicidade cuja expresso fenomnica seria a economia daquantidade de ao despendida na produo dos fenmenos. Uma vez que a partir doprincpio que expressa essa economia Maupertuis pode deduzir as principais leis fsi-cas exigidas pela experincia, o autor conclui pela existncia de um Ser Supremo res-ponsvel pelo estabelecimento desse princpio.

    Acreditamos que esse procedimento metodolgico utilizado na cosmologia tam-bm foi aplicado por Maupertuis, de maneira mais sinttica, em sua histria natural.Nela, o psiquismo, associvel vontade, ao instinto, inteligncia e percepo, foiatribudo matria da mesma maneira que as foras que Deus imprimiu nos corpos.Tal psiquismo implica alguma forma de finalidade, mas que, em princpio, poderia seruma finalidade natural, uma vez que concebido como mais uma das propriedades doscorpos. Por outro lado, a origem desse psiquismo dos corpos, capaz de regular a gera-o, tambm possui uma finalidade transcendente, mas que atua apenas como princ-pio ou lei biolgica geral. No detalhe dos fenmenos, a matria pode exibir amplaautonomia e estar sujeita a uma srie de contingncias representadas por eventos for-tuitos diversos, como vimos o autor afirmar em vrias ocasies. A mesma finalidade,que determina uma rgida lei de economia da ao para os fenmenos fsicos mais ge-rais, permite uma concepo bem mais dinmica e histrica da natureza no mbito dosfenmenos biolgicos.

    Podemos, ento, propor uma primeira concluso mais geral, dentro desse qua-dro metafsico das origens. Se definirmos o problema da origem da vida, como fre-qentemente se entende a partir das teorias cientficas mais atuais, como o estudo sobbases exclusivamente fsicas e materiais do aparecimento das primeiras formas de vidana Terra, podemos afirmar que Maupertuis no possui um tal projeto de investigao

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    e, assim, no poderamos dizer que ele chega a investigar propriamente a origem davida, fenmeno que permanece no mbito sobrenatural dos milagres. Por outro lado,a teoria de Maupertuis trouxe a gerao dos organismos para o domnio fsico e natu-ral, ao contrrio do que fazia a teoria da preexistncia, que inclua todas as geraes nombito sobrenatural.

    VII

    Passaremos, por fim, ao problema da origem das espcies, que discutiremos a partirdo quadro fsico das origens. Retomando novamente a cosmologia de Maupertuis, aprova da existncia de Deus a partir das leis gerais da natureza que o autor pretende terencontrado tambm foi sustentada a partir do exame e da crtica de outras provas al-ternativas que visavam obter o mesmo resultado. Maupertuis criticou particularmenteas provas oferecidas por Newton e seus seguidores, tiradas da uniformidade e da con-venincia das diferentes partes do Universo (Maupertuis, 1751, p. 32). Alm de noaceitar como suficiente o argumento baseado na necessidade de uma escolha para oestabelecimento do movimento dos planetas, atacou duramente as provas oriundas daconvenincia refletida nas partes dos animais. Nessas provas, cada detalhe da estrutu-ra dos organismos (sobretudo aqueles que a microscopia passou a revelar) vinculadaa uma funo vital especfica e, assim, a perfeio com que todas as necessidades dosorganismos so satisfeitas provaria a ao da Providncia divina nos mnimos detalhesda natureza. Cada novo conhecimento acerca da estrutura associada ao modo de vidados organismos seria uma prova adicional da existncia de Deus. Mas Maupertuis con-sidera que a ingenuidade e mesmo o modo ridculo com que tais argumentos foramconstrudos poderiam antes encorajar o atesmo do que proporcionar uma tal prova.Segundo o autor,

    Quase todos os Autores modernos que trataram da Fsica ou da Histria naturalno fizeram outra coisa seno estender as provas que tiramos da organizao dosAnimais e das Plantas e lev-las at os menores detalhes da Natureza. Para nocitar exemplos muito indecentes, que seriam muito comuns, eu falo apenas da-quele que encontra Deus nas pregas da pele de um Rinoceronte, pois esse animalestando coberto de uma pele muito dura no poderia se mexer sem essas pregas.No prejudicar a maior das verdades querer prov-la com tais argumentos? Quediramos daquele que negasse a Providncia porque a carapaa da tartaruga nopossui pregas nem articulaes? O raciocnio daquele que a prova pela pele do

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    Rinoceronte tem a mesma fora: deixemos essas bagatelas queles que nelas nopercebem a frivolidade (Maupertuis, 1751, p. 27).

    O argumento mais comum que se apresenta para refutar o emprego desse fina-lismo exagerado vai na direo totalmente oposta, ou seja, apelar para o acaso e para aausncia total de finalidade na natureza. Maupertuis apresenta como exemplo de talposio uma passagem do livro IV do Rerum Natura de Lucrcio que o autor designacomo maior inimigo da Providncia nos seguintes termos: a utilidade no foi demodo algum o objetivo, (...) ela foi a conseqncia da construo das partes dos Ani-mais (...) o acaso, tendo formado os olhos, as orelhas, a lngua, serviu-se deles paraver, para escutar e para falar (Maupertuis, 1751, p. 24). Em resumo, temos aqui umdilema entre duas posies extremas associadas relao entre forma e funo dosorganismos. Segundo o atomismo, a forma, produzida casualmente, precede e deter-mina a funo e, assim, no haveria sentido em atribuir quaisquer desgnios ou finali-dades aos seres vivos. Mas a convenincia generalizada observada na natureza entre asformas e as funes orgnicas reclama o oposto: a funo ou utilidade anterior for-ma que lhe est associada.

    A posio de Maupertuis frente a esse dilema j ultrapassa o problema cosmo-lgico da prova da existncia de Deus e determina conseqncias em sua histria natu-ral. Ele adota uma posio que acreditamos ser intermediria e que tenta aplicar, con-sistentemente com essa cosmologia, um finalismo restrito s produes naturais. Suaresposta, que introduz os primeiros elementos de seu quadro fsico das origens, aseguinte:

    Mas no podemos dizer que, na combinao fortuita das produes da Natureza,como havia apenas aquelas onde se encontrassem certas relaes de convenin-cia que pudessem subsistir, maravilhoso que essa convenincia se encontre emtodas as espcies que atualmente existem? O acaso, diramos, teria produzido umamultido inumervel de indivduos; um pequeno nmero encontrar-se-iaconstrudo de maneira que as partes do animal pudessem satisfazer suas necessi-dades; em um outro nmero infinitamente maior, no havia nem convenincianem ordem: todos estes ltimos pereceram: animais sem boca no podiam so-breviver, outros que careciam de rgos para a gerao no podiam perpetuar-se;os nicos que restaram so aqueles onde se encontravam a ordem e a convenin-cia: e essas espcies que vemos hoje so apenas a mnima parte daquilo que umdestino cego havia produzido (Maupertuis, 1751, p. 24).

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    Aparentemente essa descrio da produo dos primeiros organismos a mes-ma do esquema atomista, pois os organismos so produzidos pela combinao fortuitadas produes naturais. Mas acreditamos existir uma diferena sutil na conjectura deMaupertuis, capaz de garantir uma certa fidelidade explicao atomista e, ao mesmotempo, evitar o apelo irrestrito ao acaso com comprometimento da validade de seu prin-cpio gerativo fundamental. essa soluo que introduz o que designamos como qua-dro fsico das origens.

    As estruturas produzidas de modo fortuito no satisfazem automaticamente asnecessidades orgnicas; a maioria delas no se fixa no tempo atravs da gerao porno exibir a combinao de partes ou de rgos capaz de garantir o desempenho neces-srio sobrevivncia. O acaso pode produzir seres vivos, mas no ele que estabelecequais sero as estruturas funcionalmente viveis. Parece-nos que essa conjectura as-sume algum tipo de predeterminao com relao composio conveniente de rgosque engendraria um ser vivo. Tal predeterminao explicada apenas no interior doquadro metafsico das origens, mas sua atuao no mbito fsico regula e seleciona ascombinaes fortuitas e, desse modo, produz como resultado o fato de que os organis-mos pertencentes a todas as espcies existentes exibam uma perfeita combinao deforma e funo que se realiza na construo de estruturas que atendam a necessidades.Esse fato maravilhoso e surpreendente pode, portanto, ser explicado a partir de umprincpio geral da natureza. Essa interpretao da conjectura de Maupertuis parece-nos capaz de garantir a combinao de acaso e necessidade exigida por uma soluoalternativa entre os modelos atomista e providencialista extremos. Ela tambm con-sistente com a proposta, defendida por Maupertuis em sua cosmologia, de incluso decausas finais nas explicaes fsicas. Como j mencionamos, a finalidade que reflete apresena de Deus na natureza deve ser buscada apenas nos fenmenos mais gerais e,assim, conclui finalmente Maupertuis, No , portanto nos pequenos detalhes, nes-sas partes do Universo de que conhecemos muito pouco as ligaes, que devemos pro-curar o Ser supremo; nos Fenmenos cuja universalidade no sofre qualquer exceoe cuja simplicidade expe-se inteiramente nossa vista (1751, p. 54).

    Podemos tratar agora diretamente do problema da origens das espcies e, paratanto, sugerimos inicialmente uma distino. Uma teoria sobre a origem das esp-cies pode ser entendida sob dois pontos de vista distintos: como uma explicao doprocesso pelo qual uma nova espcie produzida a partir de uma outra preexistente oucomo uma explicao para o surgimento de todas as espcies existentes a partir de umaou vrias espcies primordiais. A teoria da gerao de Maupertuis inclui, como vimos,uma explicao para a origem de novas espcies no primeiro desses sentidos; a questoque agora estar em foco diz respeito ao segundo.

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    Como vimos anteriormente, mesmo que os primeiros indivduos tenham surgi-do do encontro fortuito de partes materiais, havia uma finalidade a garantir que apenasaqueles bem adaptados poderiam estabelecer-se e, pela reproduo, formar a diversi-dade de espcies existentes na Terra reproduo ocorrida tanto por processos ordi-nrios como no-ordinrios. Essa concepo atomista modificada, apresentada inici-almente como alternativa tanto ao finalismo como ao acaso extremos, aparece maisdesenvolvida no Sistema da natureza na forma de uma conjectura fsica mais explcitapara a possvel origem dos primeiros indivduos: tudo nos faz conhecer que todasas matrias que vemos sobre a superfcie de nossa Terra foram fluidas (...) [e] se en-contravam no mesmo caso que os licores no interior dos quais nadam os elementosque devem produzir os animais (Maupertuis, 1965a, p. 169). primeira vista, tera-mos aqui uma possvel explicao totalmente naturalizada para a primeira origem dosseres vivos, em flagrante oposio quela apresentada no interior do quadro metafsico:havia na superfcie da Terra uma espcie de fluido seminal universal, anlogo aos flui-dos seminais encontrados no interior dos organismos e, a partir dele, foram produzi-dos corpos organizados por gerao espontnea: nesse estado de fluidez os metais, osminerais, as pedras preciosas foram bem mais fceis de formar-se que o inseto menosorganizado. As partes menos ativas da matria teriam formado os metais e os mrmo-res; as mais ativas, os animais e o homem (Maupertuis, 1965a, p. 169).

    Por razes que aqui no discutiremos em detalhe, no podemos concluir se essadescrio corresponderia com certeza a uma primeira origem dos organismos. NoEnsaio de cosmologia, parece ser esse o caso, mas aqui no Sistema da natureza ela apare-ce mais como o efeito de uma catstrofe que teria ocorrido com a Terra aps a criao.A discusso dessa questo exigiria a incluso de muitos outros elementos da teoria deMaupertuis (ligados sobretudo histria da Terra e origem das raas humanas) queas atuais limitaes de espao no permitiriam. Em linhas gerais, essa descrio pode-ria referir-se tanto a uma condio natural, primordial em algum sentido, como a umacondio posterior criao sobrenatural, produzida por catstrofes naturais envol-vendo todo o planeta (como a aproximao de um cometa). Mas, mesmo com esse pro-blema em mos, a teoria de Maupertuis apresenta uma clara conjectura para um qua-dro fsico e natural das origens, que, no entanto, no seria necessariamente o primeiro.

    H, por fim, um ltimo elemento ligado a esse quadro fsico das origens. Nocaptulo XLV do Sistema da natureza, Maupertuis faz uma conjectura aparentemente semqualquer relao com a questo das origens, mas que veremos estar profundamente re-lacionada com ela. O autor assume inequivocamente a possibilidade de que grandes gru-pos de organismos estejam unidos hereditariamente e que este vnculo se estabeleapor meio da reproduo ordinria ou sexuada. Logo aps explicar como certos novosarranjos orgnicos mais potentes podem dominar arranjos mais antigos, o autor diz:

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    No se poderia explicar assim como de dois nicos indivduos pde surgir a mul-tiplicao das mais diferentes espcies? Elas deveriam sua primeira origem a al-gumas produes fortuitas, nas quais as partes elementares no teriam retido aordem que mantinham nos animais pai e me; cada grau de erro teria feito umanova espcie; e fora de sucessivos desvios constituir-se-ia a diversidade infi-nita dos animais que hoje vemos; que crescer talvez ainda com o tempo, mas qual a seqncia dos sculos no trar seno acrscimos imperceptveis (Mau-pertuis, 1965a, p. 164).

    Desde a Vnus fsica, est estabelecido que a partir de um casal podem surgir v-rias espcies, mas aqui parece haver algo mais: a partir de um casal poderia ter surgidoa diversidade infinita dos animais que vemos atualmente. Isso significa que, para Mau-pertuis, seria possvel que todas as espcies animais se originassem a partir de um ni-co casal de animais? Temos aqui a mesma dificuldade de interpretao que anterior-mente encontramos para as origens a partir da gerao espontnea. As mais diferentesespcies poderiam surgir de um nico casal, mas no todas; a diversidade infinita dosanimais que hoje vemos poderia ter surgido a partir de vrios casais. De qualquer ma-neira, Maupertuis j apresenta a possibilidade de produo natural de gruposmonogenticos de espcies, com um ancestral comum. Porm, muito provavelmente,essa comunidade de descendncia no se estenderia a todas as espcies.

    Diante dessas dificuldades, podemos oferecer apenas uma conjectura que, tal-vez, possa integrar em uma viso coerente esse quadro fsico das origens. Houve umestado primitivo da Terra no qual todas as matrias e seus elementos estiveram em umestado de fluidez que rene as condies bsicas gerao dos corpos organizados. Or-ganismos de diferentes ordens de complexidade puderam ser produzidos a partir des-se lquido primordial. Inicialmente os corpos organizados poderiam ser produzidosda matria em estado fluido a partir do mecanismo bsico de gerao espontnea, quan-do os elementos seminais encontram-se fora dos organismos. Alguns desses primei-ros corpos produzidos os organismos vivos puderam reproduzir-se pela manuten-o do estado de fluidez das partes seminais internas, outros continuariam a ser geradosespontaneamente a partir de fluidos seminais externos. J os corpos organizados mi-nerais no se reproduziriam devido perda do estado de fluidez interna. O processo dedesagregao dos corpos causado por fatores externos pode ocorrer mais de uma vez enovas espcies podero surgir espontaneamente, bem como organismos e espciespreexistentes podero extinguir-se. Os organismos vivos gerados a partir dos elemen-tos dissolvidos no ambiente terrestre primitivo so os primeiros ancestrais dos orga-nismos posteriormente existentes, pelo menos aqueles que se reproduzirosexuadamente. possvel tomar esse quadro primitivo como uma descrio fsica da

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    origem de organismos e de espcies sem necessariamente consider-lo como uma pri-meira origem dos seres.

    At o presente, no pudemos decidir com segurana se tal conjectura estaria deacordo com as idias de Maupertuis ou se sua obra contm efetivas aporias decorrentesdas tenses entre cosmologia e histria natural. Assim, no podemos decidir se na obrabiolgica de Maupertuis comparece uma origem das espcies como origem de toda adiversidade a partir de uma ou vrias espcies primordiais que sejam efetivamente asprimeiras formas de vida sobre a Terra.

    Maurcio de Carvalho RamosPesquisador do Projeto Temtico

    Estudos de filosofia e histria da cincia da FAPESP,

    ps-doutorando do Departamento de Filosofia

    da Universidade de So Paulo.

    maucramos@usp.br

    abstractThe work of Pierre-Louis Moreau de Maupertuis encompasses the fields of geometry, physics and as-tronomy, and it also inquires into a subject that is central to the 18th-century scientific agenda, namely,the problem of the generation of organisms. In his Systme de la Nature (1752), Maupertuis presents acomprehensive theory that purports to explain, on the basis of a universal generative principle, how thecurrently existing organisms are generated, how the permanence of species in the course of time ispossible, and how the formation of new species from a given lineage of organisms takes place. Based onthese explanations, he advances some conjectures about the origin of the first organisms and the first spe-cies that shall constitute the main subject of this paper. According to our interpretation, Maupertuis hasexplored the problems of the origin of life and the origin of species from the standpoint of two distincttheoretical frameworks, which we shall call the metaphysical and physical pictures of the origins. In thefirst picture, Gods action is decisive for the production of the first organisms and the first species,while in the second the same production is explained in a conjectural way through a natural, atomisticconception.

    Keywords Generation. Origin of life. Origin of species. Epigenesis. Preformation. Transformism. Evo-lution. Mechanism. Maupertuis.

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    referncias bibliogrficas

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