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  • GOT, n. 8 Revista de Geografia e Ordenamento do Territrio (dezembro de 2015)

    GOT, nr. 8 Geography and Spatial Planning Journal (December 2015)

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    Geografia e Ordenamento do Territrio, Revista Electrnica

    Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Territrio

    http://cegot.org

    ISSN: 2182-1267

    DOMINGUES, RITA Universidade Federal Rural de Pernambuco, Departamento de Histria (DEHIST) Rua Dom Manuel Medeiros, s/n, Dois Irmos. CEP: 52171-900, Recife, Brasil ritaalcantara@outlook.com

    Ordenamento territorial, governana e a transposio de guas do

    So Francisco: uma perspectiva1

    Land use planning, governance and water transposition of San Francisco: a

    perspective

    Referncia: Domingues, Rita (2015). Ordenamento territorial, governana e a transposio de guas do So

    Francisco: uma perspectiva. Revista de Geografia e Ordenamento do Territrio (GOT), n. 8 (dezembro).

    Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Territrio, p. 51-74, dx.doi.org/10.17127/got/2015.8.004

    RESUMO

    O rio So Francisco assume funes alm do espao local, atingindo a dimenso regional quando seus usos so disputados com a gerao de energia eltrica, com a irrigao e, no momento, com o projeto de ordenamento territorial da transposio de guas do rio So Francisco. Este artigo objetiva construir uma anlise do processo de participao da sociedade na definio desse projeto governamental. No arcabouo terico, destaca-se o entendimento sobre ordenamento territorial, governana e instituies, pensados de forma combinada a partir do contexto brasileiro. O encadeamento da pesquisa fundamenta-se numa anlise crtica. Fez-se pesquisa bibliogrfica e de campo para entendimento da questo. Pauta-se este estudo no reconhecimento de que a perspectiva terica adotada possibilita a compreenso do envolvimento da sociedade no processo.

    Palavras-chave: Regio Semirida, Transposio, Ordenamento Territorial, Governana, Sociedade.

    1 Adaptado do captulo Transposio: acirramento dos conflitos, trabalho defendido como tese de doutoramento UFRJ.

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    ABSTRACT

    The So Francisco river takes on functions beyond the local area, reaching the regional dimension when its uses are played with the generation of electricity, irrigation and, at the time, to land use planning project of the So Francisco River water diversion. This article aims to build an analysis of the company's participation process in defining this government project. In the theoretical framework, there is the understanding of spatial planning, governance and institutions, designed in combination from the Brazilian context. Search The chain is based on a critical analysis. There was literature and field research to understand the question. Is guided this study in recognition that the theoretical approach adopted furthers our understanding of the involvement of society in the process. Keywords: Semiarid region, Transposition, Territorial planning, Governance, Society.

    1. Introduo

    Apesar de o Brasil se encontrar numa posio confortvel quanto disponibilidade de gua

    doce (20% da vazo de todos os rios da Terra), isso no impedimento para a existncia de

    conflitos, posto que essa disponibilidade de gua aparece com grande desigualdade

    regional, seja em termos de qualidade ou, principalmente, de quantidade. exatamente a

    situao encontrada no Nordeste semirido, com cerca de 40% da populao da regio e

    um quadro de escassez relativa, onde a bacia do So Francisco2 representa em torno de 70%

    de sua disponibilidade total, convertendo-se numa matriz de possibilidades estratgicas, da

    qual depende toda populao.

    Entretanto, o fantasma da seca esteve e continua presente, acompanhando a histria dessa

    regio quando, nos anos 1950 dcada em que a regio vivenciou duas grandes secas ,

    seguindo orientao de Celso Furtado (1967 e 1985), em busca dos problemas reais e de

    solues, foi institudo o Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN),

    dando origem, a seguir, a uma nova organizao, a Superintendncia de Desenvolvimento

    do Nordeste (Sudene), no final da dcada. Para essa instituio, o problema central da

    regio era de carter econmico, e a estratgia governamental seria via industrializao.

    Esse modelo de planejamento regional ou ordenamento territorial estabelecido por meio

    de um campo de foras com o poder centralizador do Estado, desejoso de impor de cima

    2 A bacia do rio So Francisco representa apenas 1,7% da disponibilidade hdrica do pas.

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    um modelo de organizao fundamentado no controle e domnio do espao. A definio de

    ordenamento do territrio, entendida como uma poltica pblica, deve ser posta em

    confronto com as reflexes de ordem econmica e poltica envolvidas, segundo Lacaze

    (1995, p.23-27), uma vez que a organizao dos poderes pblicos e a ao econmica so as

    duas grandes sries de meios de ao utilizveis.

    Na mesma linha de raciocnio e aprofundando o entendimento, Ferro (2011, p. 34) afirma

    que um sistema de ordenamento territorial envolve e reflete, ao mesmo tempo, as

    condies polticas, sociais, econmicas e institucionais de uma sociedade em particular, por

    isso, deve ser entendido luz de contextos singulares em que foi concebido.

    Mais recentemente, nos primeiros anos do sculo XXI, o governo traou outro grande plano

    de ordenamento territorial, o projeto de Transposio de parte das guas do So Francisco

    ou Projeto de Integrao da Bacia do Rio So Francisco e das bacias hidrogrficas do

    Nordeste Setentrional, o qual vem sendo apresentado como alternativa para reduzir a

    oferta desigual de gua na regio (EIA/Rima, 2000).

    Partindo desse entendimento, este artigo objetiva construir uma anlise crtica sobre a

    participao da sociedade na definio do projeto governamental brasileiro de transposio

    de guas do Rio So Francisco.

    Assim, as questes seguintes norteiam a reflexo:

    1. Em que medida existiu a aplicabilidade da governana no momento que antecedeu o

    projeto de transposio do Rio So Francisco?

    2. Em que medida a sociedade foi envolvida no processo?

    3. Em que medida o resultado final foi diferente do modelo de governo clssico, sem

    consulta sociedade?

    No arcabouo terico, aprofunda-se o entendimento sobre ordenamento do territrio e

    governana, e, paralelamente, se estabelece dilogo com a abordagem institucionalista. A

    pesquisa est fundamentada em uma anlise crtica, com a investigao de acontecimentos,

    processos e instituies do passado, para verificar sua influncia na sociedade

    contempornea, partindo da premissa de que tanto a realidade quanto as instituies, alm

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    de no serem estticas, so contraditrias e dialticas entre si. Algumas questes

    metodolgicas e instrumentos tericos respaldam a anlise.

    Para responder s questes postas, foram feitos levantamentos bibliogrficos em fontes

    secundrias da Chesf, da Codevasf, da Agncia Nacional de guas (ANA) e do Ministrio da

    Integrao Nacional, pesquisas em documentos existentes e em fontes primrias, bem

    como foram obtidos dados em pesquisas de campo.

    Adicionalmente, foram feitas entrevistas com o coordenador do estudo de transposio

    Sociedade Brasileira para o Progresso da Cincia (SBPC) , em instituies de pesquisa como

    a Fundao Joaquim Nabuco (Fundaj), universidades e rgos que direta ou indiretamente

    esto envolvidos com a questo do uso da gua na rea.

    Este trabalho est organizado em quatro etapas. A primeira parte expe uma viso geral do

    tema tratado; a segunda est centrada na reflexo sobre o ordenamento territorial e a

    governana, associadas poltica do governo; a terceira parte explana sobre a transposio

    e a governana; por fim, delineiam-se os principais resultados.

    2. Reflexo terica: uma relao intrnseca

    possvel pensar o espao por meio de vrios prismas, e como gegrafos ou profissionais do

    ordenamento do territrio, conforme sugere Ferro (2011), no podemos perder de vista a

    necessidade de trabalhar com vrias escalas simultaneamente. Nessa etapa, a proposta

    pensar o espao, a governana e o ordenamento territorial, conjuntamente, a partir da

    escala regional do nordeste semirido brasileiro.

    Para tanto, consideramos uma possibilidade de interpretao que associa a poltica pblica

    da transposio do So Francisco e a governana e sua interao com a dinmica

    econmica, poltica, social e o papel do Estado.

    Ao tratar de uma realidade brasileira, optamos por entender incialmente o papel assumido

    pelo Estado em dois momentos histricos da poltica regional brasileira aqui enfocados. O

    primeiro momento seguia o modelo do keynesianismo e o segundo, o modelo

    neoliberalismo.

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    Na escala de planejamento regional, esteve a Superintendncia de Desenvolvimento do

    Nordeste3 (Sudene), no final dos an