ordem política e fundamento social: o lugar do povo como elemento

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  • I Seminrio Internacional de Cincia Poltica Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Porto Alegre | Set. 2015

    Ordem poltica e fundamento social: o lugar do povo como elemento legitimador de uma

    Constituio no pensamento poltico de Raymundo Faoro

    Elton Bruno Amaral de Oliveira1

    Resumo: Este trabalho tem o objetivo de verificar, no estudo de Raymundo Faoro sobre o constitucionalismo em sua acepo moderna, especificamente no caso brasileiro, as formulaes do autor no que diz respeito ao fundamento que garante a legitimidade de uma Constituio. Acompanhando de bem perto a tipologia constitucional que faz o autor, verificamos que, segundo ele, uma Constituio verdadeiramente poltica aquela capaz de articular o elemento popular o povo , entendido como fundamento social, a Constituio a ordem poltica , entendendo-a como o documento pelo qual um regime democrtico representativo manifesto. Palavras-chave: Raymundo Faoro; constitucionalismo; legitimidade; povo.

    1. O descompasso entre pas real e pas legal

    no ensaio Assembleia Constituinte: a Legitimidade Resgatada (1981) que encontramos as

    formulaes de Raymundo Faoro a respeito da legitimidade do poder constitucionalmente

    constitudo, numa reflexo que se considera, segundo Fbio Konder Comparato, como um dos

    mais instigantes estudos sobre a tradicional disfuncionalidade das constituies entre ns2. O

    objetivo de Faoro, nesse texto, ser mostrar que a legitimidade de um regime constitucional em sua

    feio moderna fundamenta-se no Poder Constituinte quando originrio do povo.

    importante lembrar que, em 1978, Faoro profere um discurso como presidente da OAB

    cujo ttulo O Estado no ser o inimigo da liberdade3 que, segundo Mrcio Thomaz Bastos,

    trata-se de uma das peas mais altas da oratria brasileira, por nele estar presente o discurso

    republicano (BASTOS, 2009, p. 28), uma vez que sua preocupao central repousava na causa da

    liberdade, da democracia e do Estado de Direito. Aps deixar a OAB, Faoro publica Assembleia

    Constituinte: a legitimidade resgatada que, para Giselle Cittadino, passa a ser texto fundamental,

    pois

    1 Graduado em Cincias Sociais pela Universidade Federal da Paraba, mestre em Sociologia pela mesma instituio e doutorando pelo Programa de Ps-Graduao em Sociologia Poltica da Universidade Federal de Santa Catarina. Email: brunorussel@gmail.com. Bolsista Cnpq. 2 COMPARATO, Prefcio, in _____. A Repblica Inacabada. So Paulo: Globo, 2007, p. 18. 3 Publicado em: FAORO, Raymundo. O Estado no ser o inimigo da liberdade. In: Anais da VII Conferncia Nacional da Ordem dos Advogados do Brasil: o Estado de Direito. Rio de Janeiro, OAB/Conselho Federal, 1978, p. 46-51.

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    representa, no perodo que antecede a convocao da Assembleia, o texto de referncia dos constitucionalistas brasileiros. Todas as discusses sobre forma de convocao, processo de funcionamento e eficcia da Constituinte estaro balizadas por esse texto. Por meio dele, Raymundo Faoro colabora para que no prospere a ideia de que uma grande reforma ou reviso constitucional permitiria a reconstruo do Estado de Direito no pas. No se remenda roupa podre com pano novo, dizia Faoro, nos recordando que nenhuma das reformas constitucionais feitas no passado havia contribudo para a garantia da liberdade e da legalidade (CITTADINO, 2009, p. 36).

    De fato, comum na bibliografia referida instalao do Estado moderno no Brasil a

    insistncia em denunciar o descompasso entre o Brasil real, aquele a que estamos constrangidos

    em nossas relaes sociais de existncia, e o Brasil legal, feito para ingls ver. O ltimo

    consagraria constituies escritas em que vigoram valores como a igualdade e a liberdade apenas

    como fices e abstraes jurdicas, de carter meramente formal, apartando-se por completo do

    primeiro, o Brasil real, em que a letra da lei s vale como justificativa jurdica de dominao

    poltica de uma minoria privilegiada. A ciso entre os dois Brasis, no dizer de Faoro, equivaleria

    a

    construir com a lei bem elaborada num momento e, noutro, vtima de pressupostos diversos, com o planejamento, to decorativo, em certos casos, como a ordenana meticulosa [o Brasil legal]. A legalidade terica apresenta [...] contedo diferente dos costumes, da tradio e das necessidades dos destinatrios da norma [o Brasil real] (FAORO, 2008, p. 832-33).

    o jurista ainda quem fala em tom crtico, referindo-se leitura que se faz dos dois brasis:

    A oligarquia esclarecida, sobranceira aos extremos, de boas maneiras, emoldurada no poder Moderador, com um chefe neutro e superior s faces internas, contra, na outra ponta, a tirania potencial, popular na origem, anrquica no fundo. Um terceiro termo, territorial e federal, seria inexequvel e resvalaria para o segundo termo, se no sustentado por um centro nacional e dirigente, educador e de autoridade, sobrepondo ao pas real o inorgnico o pas oficial do patronato, aristocratizante ou elitista (FAORO, 2007, p. 163, grifos nosso).

    Esse descompasso tem razes histricas.

    Lcia M. Bastos Pereira das Neves e Guilherme Pereira das Neves afirmam que, por ocasio

    da restaurao da monarquia portuguesa iniciada em 1640, houve a predominncia da linguagem

    de um constitucionalismo antigo, apoiada pelos jesutas ligados a vertentes da segunda escolstica

    (NEVES e NEVES, 2009, p. 66).

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    Essa concepo antiga de constitucionalismo4, prxima aos princpios cristos, passaria a ser

    influenciada pela linguagem absolutista. por essa ocasio que teria sido substituda a antiga ideia

    de pacto, fundamentada no direito divino dos reis, pelos imprescritveis direitos do soberano, at

    mesmo diante da Igreja, sob a forma de uma razo de Estado (NEVES e NEVES, 2009, p. 66).

    Afirmam os autores: Essa foi a linguagem do absolutismo, que, ao reservar para o soberano o domnio da

    poltica, relegou as questes morais para o foro ntimo do indivduo, estabelecendo uma diviso entre homem

    e sdito (NEVES e NEVES, 2009, p. 66).

    Em Portugal, seguem os autores, essa linguagem absolutista permanece envolta na tradio do

    antigo constitucionalismo. Assim, no teria sido por meio de eleio, nem tampouco por vontade

    popular, que o rei chegara ao reinado, antes atravs de conquista e sucesso. Neste caso, o pacto

    social seria entendido como apenas existente na imaginao dos filsofos, no havendo, entre o

    sdito e o monarca, seno a eventual humilde e modesta representao do primeiro ao segundo

    (NEVES e NEVES, 2009, p. 67).

    A ideia de constituio, no curso desse longo perodo, entendida como a unidade poltica de

    um povo, demonstra a pobreza lexicogrfica luso-brasileira. Alegam ainda os autores que

    no incio do sculo XVIII, a palavra [constituio] significava um estatuto, uma regra, na perspectiva de um ordenamento poltico, pautado nas leis fundamentais do reino, resultado das disposies legais e da prtica do direito consuetudinrio, corporificadas na antiga constituio, que deviam ser respeitadas pelo soberano (NEVES e NEVES, 2009, p. 69).

    Assim, esses indcios sugeririam outro uso do vocbulo constituio, principalmente no

    plural e mais difundido na poca. O termo, correntemente utilizado nos meios eclesisticos, servia

    para designar o conjunto de leis, preceitos e disposies que regulavam uma instituio como seu

    estatuto orgnico (NEVES e NEVES, 2009, p. 69).

    O constitucionalismo moderno estabeleceu-se, segundo os autores, com a Independncia dos

    Estados Unidos e a Revoluo Francesa. Neste momento, o termo Constituio passou a significar

    a garantia dos direitos e deveres, estabelecidos por um novo pacto social, elaborado entre o rei e o

    indivduo (NEVES e NEVES, 2009, p. 70). Desse modo, o termo constituio teria adquirido a

    4 Vrios sentidos da palavra Constituio na tradio luso-brasileira, so discutidos por Lcia M. Bastos Pereira das Neves e Guilherme Pereira das Neves, em Constituio, verbete do Lxico da histria dos conceitos polticos do Brasil, organizado por Joo Feres Jnior. Editora UFMG, 2009, p. 65-90.

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    forma de um 'sistema fechado de normas', que designa uma unidade que no existe concretamente,

    mas apenas de maneira ideal (NEVES e NEVES, 2009, p. 70).

    Tal concepo de constituio teria ingressado no Brasil por volta de 1820, com a revoluo

    do Porto. Foi ento que novas ideias e novas prticas polticas, ainda desconhecidas na colnia

    portuguesa, introduziram-se no pas, emprestando palavra constituio novos significados

    anunciando princpios, e definindo direitos e deveres do cidado (NEVES e NEVES, 2009, p. 70).

    S uma constituio era considerada capaz de tornar efetivas as prticas liberais, constituir fazendo-

    se um instrumento de iderio poltico (NEVES e NEVES, 2009, p. 70). A palavra constituio,

    ento, traduzia o que os membros das elites poltica e intelectual brasileiras e portuguesas

    almejavam. A elaborao da constituio lei fundamental de um povo ficava a cargo de uma

    assembleia formada pelos representantes da nao. Em Portugal, seria feita pelas Cortes Gerais e

    Extraordinrias de 1821. No Brasil, aguardava-se a ao de uma Assembleia Legislativa e

    Constituinte, convocada aps a Independncia, em 1823.

    Os autores ressaltam qua