oqueéreligião ruben alves

Click here to load reader

Post on 13-Jul-2015

432 views

Category:

Spiritual

6 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

NDICE

O Que Religio

(Rubens Alves) NDICE

Perspectivas..............................7Os smbolos da ausncia ... . ........14O exlio do sagrado...................36A coisa que nunca mente..............52As flores sobre as correntes.........68A voz do desejo........................85O Deusdosoprimidos...............102 A aposta.......................... 115

Indicaes para leitura...............130

07

PERSPECTIVAS

Aqui esto os sacerdotes; e muito embora sejam meus inimigos. . . meu sangue est ligado ao deles." (F. Nietzsche, Assim falava Zaratustra).

Houve tempo em que os descrentes, sem amor a Deus e sem religio, eram raros. To raros que os mesmos se espantavam com a sua descrena e a escondiam, como se ela fosse uma peste contagiosa. E de fato o era. tanto assim que no foram poucos os que foram queimados na fogueira, para que sua desgraa no contaminasse os inocentes. Todos eram educados para ver e ouvir as do mundo religioso, e a conversa cotidianamente, este tnue fio que sustenta vises de mundo, confirmava, por meio de relatos de milagres, aparies, vises, experincias msticas, divinas e 08 demonacas, que este um universo encantado e maravilhoso no qual, por detrs e atravs de cada coisa e cada evento, se esconde e se revela um poder espiritual. O canto gregoriano, a msica de Bach, as telas de Hieronymus Bosch e Pieter Bruegel, a catedral gtica, a Divina Comdia, todas estas obras so expresses de um mundo que vivia a vida temporal sob a luz e as trevas da eternidade. O universo fsico se estruturava em torno do drama da alma humana. E talvez seja esta a marca de todas as religies, por mais longnquas que estejam umas das outras: o esforo para pensar a realidade toda a partir da exigncia de que a vida faa sentido.Mas alguma coisa ocorreu. Quebrou-se o encanto. O cu, morada de Deus e seus santos, ficou de repente vazio. Virgens no mais apareceram em grutas. Milagres se tornaram cada vez mais raros, e passaram a ocorrer sempre em lugares distantes com pessoas desconhecidas. A cincia e a tecnologia avanaram triunfalmente, construindo um mundo em que Deus no era necessrio como hiptese de trabalho. Na verdade, uma das marcas do saber cientfico o seu rigoroso atesmo metodolgico: um bilogo no invoca maus espritos para explicar epidemias, nem um economista os poderes do inferno pra dar Contas da inflao, da mesma forma como a astronomia moderna, distante de Kepler, no busca ouvir harmonias musicais divinas nas regularidades

09

matemticas dos astros.Desapareceu a religio? De forma alguma. Ela permanece e frequentemente exibe uma vitalidade que se julgava extinta. Mas no se pode negar que ela j no pode frequentar aqueles lugares que um dia lhe pertenceram: foi expulsa dos centros do saber cientfico e das cmaras onde se tomam as decises que concretamente determinam nossas vidas. Na verdade, no sei de nenhuma instncia em que os telogos tenham sido convidados a colaborar na elaborao de planos militares. No me consta, igualmente, que a sensibilidade moral dos profetas tenha sido aproveitada para o desenvolvimento de problemas econmicos. E altamente duvidoso que qualquer industrial, convencido de que a natureza criao de Deus, e portanto sagrada, tenha perdido o sono por causa da poluio. Permanece a experincia religiosa fora do nulo da cincia, das fbricas, das usinas, das armas, do dinheiro, dos bancos, da propaganda, da venda, da compra, do lucro. compreensvel diferentemente do que ocorria em passado muito distante, poucos pais sonhem com carreira sacerdotal para os seus filhos. . . A situauao mudou. No mundo sagrado, a experincia religiosa era parte integrante de cada um, da mesma forma como o sexo, a cor da pele, os membros , a linguagem. Uma pessoa sem religio era uma anomalia .No mundo dessacralizado

10

as coisas se inverteram. Menos entre os homens comuns, externos aos crculos acadmicos, mas de forma intensa entre aqueles que pretendem j haver passado pela iluminao cientfica, o embarao frente experincia religiosa pessoal inegvel. Por razes bvias. Confessar-se religioso equivale a confessar-se como habitante do mundo encantado e mgico do passado, ainda que apenas parcialmente. E o embarao vai crescendo na medida em que nos aproximamos das cincias humanas, justamente aquelas que estudam a religio.Como isto possvel?Como explicar esta distncia entre conhecimento e experincia?No difcil. No necessrio que o cientista tenha envolvimentos pessoais com amebas, cometas e venenos para compreend-los e conhec-los. Sendo vlida a analogia, poder-se-ia concluir que no seria necessrio ao cientista haver tido experincias religiosas pessoais como pressuposto para suas investigaes dos fenmenos religiosos.O problema se a analogia pode ser invocada para todas as situaes. Um surdo de nascena, poderia ele compreender a experincia esttica que se tem ao se ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven? Parece que no. No entanto, lhe seria perfeitamente possvel fazer a cincia do comportamento das pessoas, derivado da experincia esttica. O surdo poderia ir a concertos e, sem

11

ouvir uma s nota musical, observar e medir com rigor aquilo que as pessoas fazem e aquilo que nelas ocorre, desde suas reaes fisiolgicas at padres de relacionamento social, consequncias de experincias pessoais estticas a que ele mesmo no tem acesso.Mas, que teria ele a dizer sobre a msica? Nada. Creio que a mesma coisa ocorre com a religio. E esta a razo por que, como introduo sua l obra clssica sobre o assunto, Rudolf Otto aconselha aqueles que nunca tiveram qualquer experncia religiosa a no prosseguirem com a leitura. E aqui teramos de nos perguntar se existem, realmente, estas pessoas das quais as perguntas reliqiosas foram radicalmente extirpadas. A religio no se liquida com a abstinncia dos atos lamentais e a ausncia dos lugares sagrados, mesma forma como o desejo sexual no se nina com os votos de castidade. E quando a dor bate porta e se esgotam os recursos da tcnica que nas pesssoas acordam os videntes, exorcistas, os mgicos, os curadores, os benzedores os sacerdotes, os profetas e poetas, aquele que reza e suplica, sem saber direito a quem. . . ento as perguntas sobre o sentido e o sentido da morte, perguntas das horas e diante do espelho. . . O que ocorre freqncia que as mesmas perguntas religiosas do passado se articulam agora, travestidas, por meio de smbolos secularizados. Metamor

12

foseiam-se os nomes. Persiste a mesma funo religiosa. Promessas teraputicas de paz individual, de harmonia ntima, de liberao da angstia, esperanas de ordens sociais fraternas e justas, de resoluo das lutas entre os homens e de harmonia com a natureza, por mais disfaradas que estejam nas mscaras do jargo psicanaltico/psicolgico, ou da linguagem da sociologia, da poltica e da economia, sero sempre expresses dos problemas individuais e sociais em torno dos quais foram tecidas as teias religiosas. Se isto for verdade, seremos forados a concluir no que o nosso mundo se secularizou, mas antes que os deuses e esperanas religiosas ganharam novos nomes e novos rtulos, e os seus sacerdotes e profetas novas roupas, novos lugares e novos empregos. - fcil identificar, isolar e estudar a religio como o comportamento extico de grupos sociais restritos e distantes. Mas necessrio reconhec-la como presena invisvel, sutil, disfarada, que se constitui num dos fios com que se tece o acontecer do nosso cotidiano. A religio est mais prxima de nossa experincia pessoal do que desejamos admitir. O estudo da religio, portanto, longe de ser uma janela que se abre apenas para panoramas externos, como um espelho em que nos vemos. Aqui a cincia da religio tambm cincia de ns mesmos: sapincia, conhecimento saboroso. Como o disse poeticamente Ludwig Feuerbach:

13

A conscincia de Deus autoconscincia, conhecimento de Deus autoconhecimento. A religio o solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelao dos seus pensamentos ntimos, a confisso aberta dos seus segredos de amor.E poderamos acrescentar: e que tesouro oculto no religioso? E que confisso ntima de amor no est grvida de deuses? E quem seria esta pessoa vazia de tesouros ocultos e de segredos de amor?

14OS SMBOLOS DA AUSNCIA O homem a nica criaturaque se recusa a ser o que ela .(Albert Camus)Atravs de centenas de milhares de anos os animais conseguiram sobreviver por meio da adaptao fsica. Os seus dentes e as suas garras afiadas, os cascos duros e as carapaas rijas, seus venenos e odores, os sentidos hipersensveis, a capacidade de correr, saltar, cavar, a estranha habilidade de confundir-se com o terreno, as cascas das rvores, as folhagens, todas estas so manifestaes de corpos maravilhosamente adaptados natureza ao seu redor. Mas