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mega-3: o que existe de concreto?

Dan L. Waitzberg,Professor Associado do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo (FMUSP). Livre-docente, doutor e mestre em Cirurgia pela FMUSP. Chefe do Laboratrio de Metabologia e Nutrio em Cirurgia (Metanutri), LIM 35, do Departamento de Gastroenterologia da FMUSP

Introduo aos lipdios A palavra lipdio derivada do grego lipos, que significa gordura. Lpides so compostos necessrios para funes orgnicas bioqumicas, estruturais e regulatrias. Os lipdios so molculas orgnicas, constitudas por grupos de AG, cidos carboxlicos com longas cadeias no ramificadas, formadas por inmeros pares de tomos de carbono unidos por ligaes simples ou duplas. Participam da composio da membrana celular e podem modificar a resposta imune e inflamatria. So rica fonte energtica, pois fornecem em torno de nove quilocalorias (kcal) por grama oxidada pelo processo da betaoxidao mitocondrial. Os AG so encontrados como componentes da membrana ou sob a forma de triglicrides. Estes ltimos so compostos de uma molcula de glicerol esterificado a trs molculas de AG. Veja na Figura 1 o esquema do triglicride. Figura 1. Composio bsica de um triglicride: trs cidos graxos unidos por esqueleto de glicerol (em azul).

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Os triglicrides so metabolizados no fgado em cidos graxos (AG) e glicerol, e ambos produzem energia. Quando no usados para produo de energia, os triglicrides so reconstitudos e armazenados no tecido adiposo. As diversas funes desses compostos esto listadas na Tabela 1 .

Tabela 1. Principais funes dos lipdiosFornecer energia (9,3 kcal/g), cidos graxos essenciais e vitaminas lipossolveis (A, D, E, K) Funcionar como estoque de combustvel energtico no-glicdico (95% na forma de triglicrides), utilizado principalmente no jejum Prover proteo mecnica (a ossos e rgos) e manuteno da temperatura corprea Participar da sntese de estruturas celulares, como a membrana fosfolipdica celular Participar da sntese de hormnios Transportar vitaminas lipossolveis Funcionar como mediadores intra e extracelulares da resposta imune Participar no processo inflamatrio e no estresse oxidativo.

Tipos de cidos graxos

Os AG podem ser classificados de acordo com o tamanho da cadeia carbnica, o grau de saturao e a posio da primeira dupla ligao de carbonos. A notao qumica usada para descrever um cido graxo informa seu nmero de carbonos, o nmero de duplas ligaes e a posio da primeira dupla ligao em relao ao radical metil da extremidade distal da molcula. cidos graxos de cadeia longa contm de 14 a 24 carbonos, enquanto os de cadeia mdia contm 6 a 12 carbonos e os de cadeia curta tm 2 a 4 carbonos em cada molcula. A sntese de ATP (a adenosina trifosfato, que energia qumica) por AG percorre vrios passos: transporte celular de AG, seu acoplamento com certas protenas, sua ativao em acil-coenzima A na presena de acil-CoA sintetase e a sua passagem pela membrana mitocondrial interna. Os AG com longa cadeia carbnica necessitam de carnitina para auxiliar essa passagem. E os AG de cadeia mdia, embora prescindam da carnitina para a entrada na mitocndria, tm sua oxidao dependente da carnitina.

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Os AG saturados so os que no possuem dupla ligao em suas molculas. Monoinsaturados possuem uma dupla ligao, enquanto duas ou mais duplas ligaes caracterizam os AG poliinsaturados. Quanto mais insaturado for um cido graxo, mais susceptvel peroxidao lipdica ele ser. O nmero de duplas ligaes determina o ponto de fuso de um cido graxo ou triglicride. Os AG saturados tendem a ser slidos (como a manteiga) em temperatura ambiente, enquanto os poliinsaturados so geralmente lquidos (como o leo de soja).

cidos graxos so classificados de acordo com: O nmero de tomos na cadeia carbnica: longa (14-20 tomos de carbono), mdia (6-12 tomos de carbono) e curta (at 6 tomos de carbono); O nmero de duplas ligaes: saturados (sem duplas ligaes), monoinsaturados (uma dupla ligao) e poliinsaturados (mais de uma dupla ligao); A posio da primeira dupla ligao (Figura 2) pode ser indicada de maneiras distintas no caso de AG insaturados. Identifica-se a posio da primeira dupla ligao contada a partir de seu radical metil (representada pela letra grega mega, 1) ou a partir de seu grupo funcional (representada pela letra delta, ). Figura 2. Exemplo de notao de um AG de cadeia longa poliinsaturado, no caso a representao do cido linolico. A molcula contem dezoito carbonos na cadeia (C18) e tem duas duplas ligaes (2), sendo a primeira dupla ligao localizada no sexto carbono a partir do radical metil (mega-6).Nmero de duplas ligaes

C181

2

-6

Localizao da primeira dupla ligao

Nmero de tomos de carbono

Os cidos graxos do tipo mega-3 e mega-6 so freqentemente chamados, na literatura internacional, de cidos graxos n-3 e n-6, de cidos graxos w-3 e w-6 ou ainda com o uso do smbolo da letra grega mega (-3 e -6). Todas as formas esto corretas, mas, neste texto, optamos por escrever sempre mega.

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Necessidades de cidos graxos

De acordo com a recomendao da Associao Americana do Corao (American Heart Association), para um indivduo saudvel, 30% (ou menos) do total de energia consumida dever ser proveniente da gordura da dieta, na seguinte proporo: - 20 - 23% de AG poliinsaturados e monoinsaturados - < 10% de AG saturados (para portadores de doenas coronarianas, < 7%) - < 300 mg colesterol ao dia As recomendaes dirias de lipdios variam de acordo com a idade e encontram-se descritas na Tabela 2 .

Tabela 2. Recomendaes dirias de lipdios, conforme a idade, de acordo com a literatura internacional e as Dietary Reference IntakesFaixa etria Beb 0-6 meses 7-12 meses Prematuro o Nascimento-7 dia o 7 dia-sada da UTI At 1 ano aps sada da UTI Lipdios 31 g 30 g 0,5-3,6g/kg de peso corpreo 4,5-6,8g/kg de peso corpreo 4,4-7,3g/kg de peso corpreo 30-40% do VCT* 25-35% do VCT* 7g 10 g 13 g 13 g 25-35% do VCT* 20-35% do VCT* 12/10 16/11 17/12 14/11 20-35% do VCT g g g g 1,2/1,0 1,6/1,1 1,6/1,1 1,6/1,1 g g g g 0,7 g 0,9 g 1,4 g 1,3 g mega-6 4,4 g 4,6 g mega-3 0,5 0,5

Criana 1-3 anos 4-10 anos 4-8 anos Grvidas At 50 anos Lactantes At 50 anos Adulto 11-18 anos 19-65 anos 9-13 anos (homem/mulher) 14-18 anos (homem/mulher) 19-50 anos(homem/mulher) > 50 anos(homem/mulher) Idoso > 65 anos

14/11 g

1,6/1,1 g

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*Considera-se o VCT (valor calrico total) pela frmula de Harris e Benedict; para idosos, considerar uma reduo das necessidades energticas (2 a 4% por dcada) em funo do declnio da atividade fsica e da massa corporal metabolicamente ativa.

Recentemente a ISSFAL (International Society for the Study of Fatty Acids and Lipids) publicou relatrio sobre a ingesto recomendada de AGPI para adultos saudveis. Nesta recomendao nota-se a preocupao em estabelecer quantidade de ingesto de cidos graxos essenciais (AG linolico e linolnico), de cido eicosapentaenico (EPA) e de docosahexaenico (DHA): 1. Ingesto adequada de cido linolico (mega-6): 2% do total de energia; 2. Ingesto saudvel de cido linolnico (mega-3): 0,7% do total de energia; 3. Para manuteno da sade cardiovascular, ingesto mnima de EPA e DHA combinados: 500 mg/dia.

Fontes de cidos graxos na dieta oral

Os AG essenciais so encontrados em vegetais, em particular o linolico no milho, girassol, aafro, enquanto o linolnico pode ser encontrado na soja, na semente de colza (rapeseed), borragem e semente de linhaa. EPA e DHA so encontrados em maior quantidade em leos de peixes marinhos como cavala, sardinha, arenque e menhaden. Carne de bovinos e produtos lcteos contm linolico. Veja na Tabela 3 a composio dos principais AG na gordura da dieta oral e as fontes alimentares e a quantidade dos alimentos a serem ingeridos nas Tabelas 4 e 5 .

Tabela 3.Tipos de cidos graxos e principais fontes alimentaresManteiga, fibras Saturados Coco, babau Gordura animal, cacau Azeite oliva, leo canola Butrico Cprico, lurico Esterico, araqudico Actico propinico, Caprico, caprlico Mirstico, palmtico Olico palmitolico Cadeia curta Cadeia mdia Cadeia longa CL mega-9

Monoinsaturados

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Poliinsaturados

leo aafro, leo soja, leo milho, leo algodo, leo girassol, leite/carne leo peixe, leo noz, leo canola, leo soja, linhaa

gama-linolnico 18:3 araquidnico 20:4 Eicosapentaenico (EPA) 20:5 Docosahexaenico (DHA) 22:6

Linolico 18:2

CL mega-6

alfa-linolnico 18:3

CL mega-3

CL = cadeia longa.

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Tabela 4. Quantidade de cidos graxos mega-3 a ser ingerida diariamente por homens e mulheres para se alcanar a recomendao de se atingir aproximadamente 1 g de cidos eicosapentaenico e docosahexaenico por dia (de acordo com Gebauer et al., 2006)Homens Fontes de ALA Semente de abbora Azeite de oliva leo de soja leo de nozes Linhaa Nozes (Inglesa) leo de linhaa (1,6 g ALA/dia) 890 g 211 g 17,7 g 15 g 19,3 g 17,6 g 3,0 g Mulheres (1,1 g ALA/dia) 612 g 145,5 g 12 g 10,6 g 13,3 g 12,2 g 2,04 g

Tabela 5. Quantidade de cidos graxos mega-3 a ser ingerida diariamente de frutos do mar por homens e mulheres para se alcanar a recomendao de se atingir aproximadamente 1 g de cidos eicosapentaenico e docosahexaenico por dia (de acordo com Kris-Etherton et al., 2002).Atum light em gua Atum fresco Sardinha Salmo rosa Salmo do Atlntico (cultivado) Arenque do Atlntico Truta cultivada Truta selvagem Peixe de gua salgada Linguado Bacalhau do Atlntico Bacalhau do Pacfico Ostras (cultivadas) Lagosta Camaro 340 71-340 57-85 71 42,5-71 57 85 99 85-213 198 354 652 227 213-1.205 312

A origem e a forma de preparo de alimentos ricos em mega 3 podem afetar a biodisponibilidade e o teor deste nutriente nos alimentos. Por exemplo, peixes de cativeiro tm teor mais baixo de mega-3 do que os mesmos peixes

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quando selvagens. De seu lado a semente de li