Olhares Que Fazem A Diferença O índio

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<ul><li> 1. Olhares que fazem a diferena Olhares que fazem a diferena: o ndio em livros didticos e outros artefatos culturais*Teresinha Silva de Oliveira Estado do Rio Grande do Sul, Secretaria de EducaoIntroduo que, por sua vez, possibilitam a quem tem mais fora (fora essa representada atravs das mais variadas A variedade de artefatos culturais que tomam aformas e sentidos) atribuir aos outros seus signifi- imagem de ndios(as) como motivo ilustrativo si-cados. A idia de poder qual me refiro est relacio- naliza que os discursos que neles circulam nos inter- nada ao pensamento de Foucault (1979), que aponta pelam de diferentes formas e nas mais variadas cir- o poder no como centrado em um nico ponto, uni- cunstncias. O ndio mostrado atravs de amplalateral, ou malfico, mas ramificado, circulante e pro- variedade de artefatos, constituda por jornais, revis- dutivo. Assim, o poder no apenas probe, impede, tas, livros didticos, programas de televiso, selos emas cria, produz. cartes postais etc., e os discursos que circulam nes- Essa concepo, aliada perspectiva ps-moder-1 sas produes se tramam numa rede, inventando con-na e ao campo dos estudos culturais, possibilita uma ceitos, produzindo identidades. J convm marcar aviso diferente, na qual o que era mostrado como na- presena de estratgias pedaggicas perpassando os discursos que circulam nesses artefatos, que no po- dem ser tomados como inocentes ou banais. Os1 De acordo com Veiga-Neto (1996), pode-se compreender conceitos articulados nessas produes resultam dea ps-modernidade como o estado da cultura aps as transforma- um conjunto de prticas discursivas estabelecidas so- es que afetaram as regras do jogo da Cincia, da Literatura e cialmente e, portanto, a partir de relaes de poderdas Artes, a partir do final do sculo XIX (p. 151). Para o autor, mais do que um movimento, trata-se de uma condio que, re- jeitando os pensamentos totalizantes, as metanarrativas, os refe- * Trabalho apresentado no GT Ensino Fundamental, duran- renciais universais, nega as transcendncias e as essncias e te a 25 Reunio Anual da ANPEd (Caxambu, MG, de 29 de se-implode a Razo moderna, deixando aos cacos nossas pequenas tembro a 2 de outubro de 2002). razes particulares (idem, ibidem). Revista Brasileira de Educao 25 </li></ul><p> 2. Teresinha Silva de Oliveiratural e familiar precisa ser estranhado, desnaturaliza- Aproprio-me tambm da noo de identidade do. Dessa forma, os discursos so tomados como pr- produzida por Hall (1997b), de que esta uma cele- ticas culturais destinadas a nomear, a representar as brao mvel e por isso no pode ser tomada como coisas a que se referem, fazendo com que as verda-fixa, essencial ou permanente (p. 13). definida his- des precisem ser tomadas como transitrias. toricamente, e no biologicamente (idem, ibidem).Nelson, Treichler e Grossberg (1995) afirmam Assim, penso em identidade como o resultado de um que os estudos culturais assumem o compromisso conjunto de prticas narrativas criadas pela represen- de examinar prticas culturais do ponto de vista de tao, portanto inventadas, que possibilitam que de- seu envolvimento com e no interior de relaes de terminadas caractersticas sejam associadas a sujei- poder (p. 11), enfocando temas comotos ou grupos, freqentemente de forma generalizada e pejorativa, para explicar e definir como nica a va-gnero e sexualidade, nacionalidade e identidade nacional, riedade de vivncias e experincias que possuem. Decolonialismo e ps-colonialismo, raa e etnia, cultura po- forma semelhante, prticas narrativas servem para quepular e seus pblicos, cincia e ecologia, poltica de identi- os sujeitos falem de si ou do grupo a que perten-dade, pedagogia, poltica da esttica, instituies culturais, cem. A partir disso, considero apropriado desenvol-poltica da disciplinaridade, discurso e textualidade, hist-ver uma anlise das representaes de ndio no sen-ria e cultura global numa era ps-moderna. (p. 8)tido de prticas de significao, pressupondo que a existncia dessas representaes ocorra com base emNesse sentido, considero importante mencionarrelaes de poder atravs das quais grupos ou sujei- desde j que entendo representao como um proces-tos mais poderosos atribuam aos outros, no caso so de significao histrica, socialmente construdo eaos ndios(as), seus significados. determinado por relaes de poder. De acordo comAs formas discursivas que tendem a generalizar Hall (1997a), representao a produo do signifi- caractersticas, vozes e imagens, traos comuns arti- cado do conceito em nossa mente atravs da lingua-culados estrategicamente, criaram e reforam o este- gem (p. 17). Linguagem retipo que institudo por uma repetida seqncia de certezas, no qual quem tem sua fala legitimada atri-[...] o processo pelo qual os membros de uma cultura utili-bui aos outros seus significados de forma segura,zam a lngua (amplamente definida como qualquer sistemaestvel e inquestionvel. O esteretipo no represen-que empregue signos, qualquer sistema significante) para ta, no caso, um ndio pr-existente, anterior ao discur-produzir significados. Esta definio j carrega a impor-so, mas a cristalizao de discursos. Para Albuquerquetante premissa de que as coisas objetos, pessoas, eventosJr. (1999), o esteretipo nasce de uma caracterizaodo mundo no tm em si qualquer significado estabeleci-grosseira e indiscriminada do grupo estranho, em quedo, final ou verdadeiro. Somos ns na sociedade, nas cul-as multiplicidades individuais so apagadas, em nometuras humanas que fazemos as coisas significarem, quede semelhanas superficiais do grupo (p. 20). Assim,significamos (idem, p. 61) a instituio do outro como diferente acontece de forma hegemnica, atravs de marcas discursiva-Hall (1997a), seguindo a abordagem construcio- mente impostas com base nos conceitos que o(a) nista, argumenta que na representao usamos sig-narrador(a) tem de si e dos poderes que sustenta, se- nos, organizados nas linguagens de diferentes tipos,jam eles de ordem religiosa, financeira, em relao ao para nos comunicar com outrem de forma significati- idioma que fala ou outra prerrogativa. va (p. 28). De acordo com tal abordagem, todos osA forma de apontar ndios(as) como diferentes signos so arbitrrios, no havendo, por isso, qual-ocorreu inicialmente em funo das dificuldades dos quer relao natural entre o signo e seu significado. primeiros viajantes europeus de compreender a vida 26Jan/Fev/Mar/Abr 2003 N 22 3. Olhares que fazem a diferenasocial desses sujeitos, atribuindo a eles (e ao ambien-Olhares... te) um estatuto de alteridade extica observado ainda hoje. Tal forma de compreenso concebeu ndios(as) Neste eixo procuro discutir como a diferena como desprovidos de instituies polticas e subme- instituda com base em determinados olhares e como tidos s leis de uma natureza da qual no souberam se algumas marcas tm sido utilizadas para caracterizar distanciar. Pode-se dizer que a denominao ndiosos(as) diferentes. Busco exemplo a essa referncia surgiu a partir do olhar europeu sobre quem encon-no interessante estudo que Said (1990) realiza de re- traram quando aqui chegaram, nos sculos XV e XVI,latos de viagens, romances, poemas, estudos e arti- julgando terem chegado a um outro lugar denomina- gos sobre o Oriente Mdio e seu povo, no campo aca- do ndias. A partir desse olhar colonizador, passaram dmico denominado orientalismo, e a atrao que o a existir no s ndios(as), mas todo um contexto distante Oriente teve sobre o Ocidente, principal- biolgico e topogrfico que precisava ser explora-mente sobre os europeus. Assim, do. Assim, utilizo no meu trabalho a expresso n- dios,2 pois substitu-la nesse momento implicaria uma O Oriente no est apenas adjacente Europa; tam- outra inveno. Reconheo que uma denominao bm onde esto localizadas as maiores, mais ricas e mais comprometida com determinado olhar e que cada gru-antigas colnias europias, a fonte das suas civilizaes e po dessa etnia 3 tem caractersticas culturais prprias,lnguas, seu concorrente cultural e uma das suas mais pro- como cada um de seus membros tem especificidadesfundas e recorrentes imagens do Outro. Alm disso, o Orien- individuais.te ajudou a definir a Europa (ou o Ocidente), como suaAtribuir denominao e caractersticas pr-imagem, idia, personalidade e experincia de contraste. prio de um processo arbitrrio de relao desigualContudo, nada desse Oriente meramente imaginativo. O de foras, atravs do qual o colonizador d as costas Oriente parte integrante da civilizao e da cultura mate- para o modo como cada povo se autodenomina, almriais da Europa. O Oriente expressa e representa esse pa- de generalizar caractersticas superficiais, apagan-pel, cultural e at mesmo ideologicamente, como um modo do individualidades. Assim, ao propor questionarde discurso com o apoio de instituies, vocabulrio, eru- essas verdades, procuro entender como tais repre- dio, imagstica, doutrina e at burocracias e estilos colo- sentaes foram construdas e que outros esquemas niais. (p. 13) discursivos estiveram envolvidos nesse processo, sem pretender julgar sua adequao ou veracidade. Prximo anlise de Said, Albuquerque Jr. Alm disso, busco entender como so articulados os(1999) movimenta-se numa trama que contempla a discursos, de modo que no se destinam apenas a produo literria, as artes, os discursos polticos, as representar mas a atuar tambm como dispositivosprodues cinematogrficas e a msica, os quais con- pedaggicos, o que passo a tratar a partir de agora triburam para a criao de um povo e uma regio atravs dos eixos temticos.exticos, diferentes. A inspirao que a regio Nordeste e essa gente despertaram nos escritores, artistas e polticos a princpio do Centro-Sul do pas 2 A partir deste momento, deixarei de usar aspas ao registrar e, mais tarde, da prpria regio resultou num con- a palavra ndio(s), mesmo no partilhando do entendimento que junto de narrativas que manifesta uma viso hegem- deu origem denominao. nica do Nordeste como nico no aspecto cultural e 3 Admitindo que as categorias resultam de construes cul-geogrfico. Ao ser contraposto scio e culturalmente turais, uso, neste trabalho, os termos raa e etnia sem uma distin- ao Nordeste, o Sul se fortalece no somente como o muito rigorosa. espao geogrfico, mas como espao de mais possi- Revista Brasileira de Educao27 4. Teresinha Silva de Oliveirabilidades, de maior diversidade cultural, como centroNesse sentido, lvares-Ura (1998) faz refern- da manifestao cultural europia. Alm disso, o autor cia imagem dos Incas e dos Astecas elaborada pe- olha a trama de representaes no s como uma los colonizadores espanhis (1520-1550), no mesmo imposio de significados ao Nordeste e aos nordes-perodo histrico em que os ndios brasileiros tam- tinos, mas tambm como um dispositivo pedaggico,bm foram inventados a partir do olhar portugus. O atravs dos quais os nordestinos passam a falar de autor nos instiga a pensar sobre o processo de contato si e do Nordeste.e pacificao e sobre a ressonncia atual desses A inveno do Nordeste e outras artesacontecimentos atravs da desmedida crueldade dos (Albuquerque Jr., 1999), e Orientalismo (Said, 1990) seres humanos posta prova pelo triunfo dos tota- fazem uma anlise das narrativas que focalizam o litarismos (p. 98), apontando como o outro atual- olhar totalizante lanado pelo colonizador sobre o mente, o estrangeiro e o pobre, que vm sendo objeto Nordeste e o Oriente, respectivamente, e como esse de excluses, vexames e negaes. olhar influenciou na elaborao dessas identidades e Ao produzir o ensaio O espetculo do outro, na legitimidade e imposio dos interesses colonia-Hall (1997b) examina as variadas formas como a di- listas. Ao descrever o Oriente como o outro, a cul-ferena marcada por filmes, anncios publicitrios tura europia se fortalece por apresentar recursos ti-e fotos do final do sculo XIX ao momento presente, dos como mais importantes e que permitiram que oe como aspectos atribudos raa, gnero e etnia tm Oriente tivesse sido inventado estrategicamente pelo sido usados para marcar a diferena, de forma e para o Ocidente, assim como o Nordeste e os nor- essencialista, atravs de esteretipos. Ao desenvol- destinos o foram pelo e para o Centro-Sul. ver sua argumentao, o autor possibilita a compreen- J Vaz (1996) circula nas tramas discursivas que so de como as prticas de significao estruturam o produziram os caboclos amaznicos como mais umamodo como olhamos as coisas e como as coisas forma de instituio do outro. Tais narrativas, ela- diferentes (especialmente o outro) fascinam. boradas com base no olhar de viajantes europeus eO autor faz referncia a vrias representaes pesquisadores, estabelece o branco como racialmen- produzidas sobre africanos(as) pelo Ocidente, ao te superior, ao descrever os caboclos como matutos,longo da histria e dos contatos sociais estabeleci- preguiosos, insolentes, derrotados e responsveis pelados, de forma que a diferena fosse notadamente mar- sua prpria pobreza (p. 48). Nelas, o termo cabo- cada atravs da raa. A abordagem aponta questes clo remetia a uma espcie de mestiagem, o que sig- histricas e sociais do contato colonizador semelhan- nificava inferioridade em relao raa branca. Essates s vividas no Brasil. O processo de colonizao viso, difundida no Brasil a partir do sculo XIX, acre- do Brasil, assim como o da frica, atraiu uma srie ditava na superioridade das raas puras (especial- de aventureiros vidos pelo encontro e por mostrar o mente a branca) e na degenerescncia dos tipos mes-outro, o diferente. L, como aqui, o discurso racis- tios. De acordo com Vaz, entre os relatos que ta foi e ainda estruturado de forma binria e oposta, inventaram essa identidade situava-se o que falava contrapondo a civilizao (branca) e a selvageria da ameaa que esses sujeitos representavam para a(negra/indgena). Conforme a anlise, a cultura viabilidade do pas, pois na regio no h progresso(branca) era relacionada aos aspectos intelectuais: nem regresso, a tradio e a rotina perduram comodiscernimento, conhecimento, presena de governo e formas de preguia, de inrcia mental (p. 49). Se-leis prprias que regravam a vida social e sexual; a guindo tais estratgias, foram inventadas vrias ou- natureza (negra/ndia) era relacionada aos aspectos tras identidades que circulam como verdadeiras nainstintivos: manifestao franca das emoes no lu- mdia, na literatura, nas artes, no currculo escolar egar da razo, ausncia de governo e leis para regrar a em outros artefatos culturais. vida social e sexual, aproximando as aes de instin- 28Jan/Fev/Mar/Abr 2003 N 22 5. Olhares que fazem a diferenatos da natureza selvagem. Reduzir as culturas derelacionada minha formao acadmica e, princi- negros(as) e ndios(as) natureza consiste em natu- palmente, viso de cincias como um campo dis- ralizar a diferena (Hall, 1997b, p. 245), consiste em cursivo rico no sentido de instituir verdades e produ- uma estratgia representacional destinada a fixar azir subjetividades dificilmente contestado. Nessas diferena e assim garanti-la para sempre (idem,produes, nd...</p>