Olhares Que Fazem A Diferença O índio

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1. Olhares que fazem a diferena Olhares que fazem a diferena: o ndio em livros didticos e outros artefatos culturais*Teresinha Silva de Oliveira Estado do Rio Grande do Sul, Secretaria de EducaoIntroduo que, por sua vez, possibilitam a quem tem mais fora (fora essa representada atravs das mais variadas A variedade de artefatos culturais que tomam aformas e sentidos) atribuir aos outros seus signifi- imagem de ndios(as) como motivo ilustrativo si-cados. A idia de poder qual me refiro est relacio- naliza que os discursos que neles circulam nos inter- nada ao pensamento de Foucault (1979), que aponta pelam de diferentes formas e nas mais variadas cir- o poder no como centrado em um nico ponto, uni- cunstncias. O ndio mostrado atravs de amplalateral, ou malfico, mas ramificado, circulante e pro- variedade de artefatos, constituda por jornais, revis- dutivo. Assim, o poder no apenas probe, impede, tas, livros didticos, programas de televiso, selos emas cria, produz. cartes postais etc., e os discursos que circulam nes- Essa concepo, aliada perspectiva ps-moder-1 sas produes se tramam numa rede, inventando con-na e ao campo dos estudos culturais, possibilita uma ceitos, produzindo identidades. J convm marcar aviso diferente, na qual o que era mostrado como na- presena de estratgias pedaggicas perpassando os discursos que circulam nesses artefatos, que no po- dem ser tomados como inocentes ou banais. Os1 De acordo com Veiga-Neto (1996), pode-se compreender conceitos articulados nessas produes resultam dea ps-modernidade como o estado da cultura aps as transforma- um conjunto de prticas discursivas estabelecidas so- es que afetaram as regras do jogo da Cincia, da Literatura e cialmente e, portanto, a partir de relaes de poderdas Artes, a partir do final do sculo XIX (p. 151). Para o autor, mais do que um movimento, trata-se de uma condio que, re- jeitando os pensamentos totalizantes, as metanarrativas, os refe- * Trabalho apresentado no GT Ensino Fundamental, duran- renciais universais, nega as transcendncias e as essncias e te a 25 Reunio Anual da ANPEd (Caxambu, MG, de 29 de se-implode a Razo moderna, deixando aos cacos nossas pequenas tembro a 2 de outubro de 2002). razes particulares (idem, ibidem). Revista Brasileira de Educao 25 2. Teresinha Silva de Oliveiratural e familiar precisa ser estranhado, desnaturaliza- Aproprio-me tambm da noo de identidade do. Dessa forma, os discursos so tomados como pr- produzida por Hall (1997b), de que esta uma cele- ticas culturais destinadas a nomear, a representar as brao mvel e por isso no pode ser tomada como coisas a que se referem, fazendo com que as verda-fixa, essencial ou permanente (p. 13). definida his- des precisem ser tomadas como transitrias. toricamente, e no biologicamente (idem, ibidem).Nelson, Treichler e Grossberg (1995) afirmam Assim, penso em identidade como o resultado de um que os estudos culturais assumem o compromisso conjunto de prticas narrativas criadas pela represen- de examinar prticas culturais do ponto de vista de tao, portanto inventadas, que possibilitam que de- seu envolvimento com e no interior de relaes de terminadas caractersticas sejam associadas a sujei- poder (p. 11), enfocando temas comotos ou grupos, freqentemente de forma generalizada e pejorativa, para explicar e definir como nica a va-gnero e sexualidade, nacionalidade e identidade nacional, riedade de vivncias e experincias que possuem. Decolonialismo e ps-colonialismo, raa e etnia, cultura po- forma semelhante, prticas narrativas servem para quepular e seus pblicos, cincia e ecologia, poltica de identi- os sujeitos falem de si ou do grupo a que perten-dade, pedagogia, poltica da esttica, instituies culturais, cem. A partir disso, considero apropriado desenvol-poltica da disciplinaridade, discurso e textualidade, hist-ver uma anlise das representaes de ndio no sen-ria e cultura global numa era ps-moderna. (p. 8)tido de prticas de significao, pressupondo que a existncia dessas representaes ocorra com base emNesse sentido, considero importante mencionarrelaes de poder atravs das quais grupos ou sujei- desde j que entendo representao como um proces-tos mais poderosos atribuam aos outros, no caso so de significao histrica, socialmente construdo eaos ndios(as), seus significados. determinado por relaes de poder. De acordo comAs formas discursivas que tendem a generalizar Hall (1997a), representao a produo do signifi- caractersticas, vozes e imagens, traos comuns arti- cado do conceito em nossa mente atravs da lingua-culados estrategicamente, criaram e reforam o este- gem (p. 17). Linguagem retipo que institudo por uma repetida seqncia de certezas, no qual quem tem sua fala legitimada atri-[...] o processo pelo qual os membros de uma cultura utili-bui aos outros seus significados de forma segura,zam a lngua (amplamente definida como qualquer sistemaestvel e inquestionvel. O esteretipo no represen-que empregue signos, qualquer sistema significante) para ta, no caso, um ndio pr-existente, anterior ao discur-produzir significados. Esta definio j carrega a impor-so, mas a cristalizao de discursos. Para Albuquerquetante premissa de que as coisas objetos, pessoas, eventosJr. (1999), o esteretipo nasce de uma caracterizaodo mundo no tm em si qualquer significado estabeleci-grosseira e indiscriminada do grupo estranho, em quedo, final ou verdadeiro. Somos ns na sociedade, nas cul-as multiplicidades individuais so apagadas, em nometuras humanas que fazemos as coisas significarem, quede semelhanas superficiais do grupo (p. 20). Assim,significamos (idem, p. 61) a instituio do outro como diferente acontece de forma hegemnica, atravs de marcas discursiva-Hall (1997a), seguindo a abordagem construcio- mente impostas com base nos conceitos que o(a) nista, argumenta que na representao usamos sig-narrador(a) tem de si e dos poderes que sustenta, se- nos, organizados nas linguagens de diferentes tipos,jam eles de ordem religiosa, financeira, em relao ao para nos comunicar com outrem de forma significati- idioma que fala ou outra prerrogativa. va (p. 28). De acordo com tal abordagem, todos osA forma de apontar ndios(as) como diferentes signos so arbitrrios, no havendo, por isso, qual-ocorreu inicialmente em funo das dificuldades dos quer relao natural entre o signo e seu significado. primeiros viajantes europeus de compreender a vida 26Jan/Fev/Mar/Abr 2003 N 22 3. Olhares que fazem a diferenasocial desses sujeitos, atribuindo a eles (e ao ambien-Olhares... te) um estatuto de alteridade extica observado ainda hoje. Tal forma de compreenso concebeu ndios(as) Neste eixo procuro discutir como a diferena como desprovidos de instituies polticas e subme- instituda com base em determinados olhares e como tidos s leis de uma natureza da qual no souberam se algumas marcas tm sido utilizadas para caracterizar distanciar. Pode-se dizer que a denominao ndiosos(as) diferentes. Busco exemplo a essa referncia surgiu a partir do olhar europeu sobre quem encon-no interessante estudo que Said (1990) realiza de re- traram quando aqui chegaram, nos sculos XV e XVI,latos de viagens, romances, poemas, estudos e arti- julgando terem chegado a um outro lugar denomina- gos sobre o Oriente Mdio e seu povo, no campo aca- do ndias. A partir desse olhar colonizador, passaram dmico denominado orientalismo, e a atrao que o a existir no s ndios(as), mas todo um contexto distante Oriente teve sobre o Ocidente, principal- biolgico e topogrfico que precisava ser explora-mente sobre os europeus. Assim, do. Assim, utilizo no meu trabalho a expresso n- dios,2 pois substitu-la nesse momento implicaria uma O Oriente no est apenas adjacente Europa; tam- outra inveno. Reconheo que uma denominao bm onde esto localizadas as maiores, mais ricas e mais comprometida com determinado olhar e que cada gru-antigas colnias europias, a fonte das suas civilizaes e po dessa etnia 3 tem caractersticas culturais prprias,lnguas, seu concorrente cultural e uma das suas mais pro- como cada um de seus membros tem especificidadesfundas e recorrentes imagens do Outro. Alm disso, o Orien- individuais.te ajudou a definir a Europa (ou o Ocidente), como suaAtribuir denominao e caractersticas pr-imagem, idia, personalidade e experincia de contraste. prio de um processo arbitrrio de relao desigualContudo, nada desse Oriente meramente imaginativo. O de foras, atravs do qual o colonizador d as costas Oriente parte integrante da civilizao e da cultura mate- para o modo como cada povo se autodenomina, almriais da Europa. O Oriente expressa e representa esse pa- de generalizar caractersticas superficiais, apagan-pel, cultural e at mesmo ideologicamente, como um modo do individualidades. Assim, ao propor questionarde discurso com o apoio de instituies, vocabulrio, eru- essas verdades, procuro entender como tais repre- dio, imagstica, doutrina e at burocracias e estilos colo- sentaes foram construdas e que outros esquemas niais. (p. 13) discursivos estiveram envolvidos nesse processo, sem pretender julgar sua adequao ou veracidade. Prximo anlise de Said, Albuquerque Jr. Alm disso, busco entender como so articulados os(1999) movimenta-se numa trama que contempla a discursos, de modo que no se destinam apenas a produo literria, as artes, os discursos polticos, as representar mas a atuar tambm como dispositivosprodues cinematogrficas e a msica, os quais con- pedaggicos, o que passo a tratar a partir de agora triburam para a criao de um povo e uma regio atravs dos eixos temticos.exticos, diferentes. A inspirao que a regio Nordeste e essa gente despertaram nos escritores, artistas e polticos a princpio do Centro-Sul do pas 2 A partir deste momento, deixarei de usar aspas ao registrar e, mais tarde, da prpria regio resultou num con- a palavra ndio(s), mesmo no partilhando do entendimento que junto de narrativas que manifesta uma viso hegem- deu origem denominao. nica do Nordeste como nico no aspecto cultural e 3 Admitindo que as categorias resultam de construes cul-geogrfico. Ao ser contraposto scio e culturalmente turais, uso, neste trabalho, os termos raa e etnia sem uma distin- ao Nordeste, o Sul se fortalece no somente como o muito rigorosa. espao geogrfico, mas como espao de mais possi- Revista Brasileira de Educao27 4. Teresinha Silva de Oliveirabilidades, de maior diversidade cultural, como centroNesse sentido, lvares-Ura (1998) faz refern- da manifestao cultural europia. Alm disso, o autor cia imagem dos Incas e dos Astecas elaborada pe- olha a trama de representaes no s como uma los colonizadores espanhis (1520-1550), no mesmo imposio de significados ao Nordeste e aos nordes-perodo histrico em que os ndios brasileiros tam- tinos, mas tambm como um dispositivo pedaggico,bm foram inventados a partir do olhar portugus. O atravs dos quais os nordestinos passam a falar de autor nos instiga a pensar sobre o processo de contato si e do Nordeste.e pacificao e sobre a ressonncia atual desses A inveno do Nordeste e outras artesacontecimentos atravs da desmedida crueldade dos (Albuquerque Jr., 1999), e Orientalismo (Said, 1990) seres humanos posta prova pelo triunfo dos tota- fazem uma anlise das narrativas que focalizam o litarismos (p. 98), apontando como o outro atual- olhar totalizante lanado pelo colonizador sobre o mente, o estrangeiro e o pobre, que vm sendo objeto Nordeste e o Oriente, respectivamente, e como esse de excluses, vexames e negaes. olhar influenciou na elaborao dessas identidades e Ao produzir o ensaio O espetculo do outro, na legitimidade e imposio dos interesses colonia-Hall (1997b) examina as variadas formas como a di- listas. Ao descrever o Oriente como o outro, a cul-ferena marcada por filmes, anncios publicitrios tura europia se fortalece por apresentar recursos ti-e fotos do final do sculo XIX ao momento presente, dos como mais importantes e que permitiram que oe como aspectos atribudos raa, gnero e etnia tm Oriente tivesse sido inventado estrategicamente pelo sido usados para marcar a diferena, de forma e para o Ocidente, assim como o Nordeste e os nor- essencialista, atravs de esteretipos. Ao desenvol- destinos o foram pelo e para o Centro-Sul. ver sua argumentao, o autor possibilita a compreen- J Vaz (1996) circula nas tramas discursivas que so de como as prticas de significao estruturam o produziram os caboclos amaznicos como mais umamodo como olhamos as coisas e como as coisas forma de instituio do outro. Tais narrativas, ela- diferentes (especialmente o outro) fascinam. boradas com base no olhar de viajantes europeus eO autor faz referncia a vrias representaes pesquisadores, estabelece o branco como racialmen- produzidas sobre africanos(as) pelo Ocidente, ao te superior, ao descrever os caboclos como matutos,longo da histria e dos contatos sociais estabeleci- preguiosos, insolentes, derrotados e responsveis pelados, de forma que a diferena fosse notadamente mar- sua prpria pobreza (p. 48). Nelas, o termo cabo- cada atravs da raa. A abordagem aponta questes clo remetia a uma espcie de mestiagem, o que sig- histricas e sociais do contato colonizador semelhan- nificava inferioridade em relao raa branca. Essates s vividas no Brasil. O processo de colonizao viso, difundida no Brasil a partir do sculo XIX, acre- do Brasil, assim como o da frica, atraiu uma srie ditava na superioridade das raas puras (especial- de aventureiros vidos pelo encontro e por mostrar o mente a branca) e na degenerescncia dos tipos mes-outro, o diferente. L, como aqui, o discurso racis- tios. De acordo com Vaz, entre os relatos que ta foi e ainda estruturado de forma binria e oposta, inventaram essa identidade situava-se o que falava contrapondo a civilizao (branca) e a selvageria da ameaa que esses sujeitos representavam para a(negra/indgena). Conforme a anlise, a cultura viabilidade do pas, pois na regio no h progresso(branca) era relacionada aos aspectos intelectuais: nem regresso, a tradio e a rotina perduram comodiscernimento, conhecimento, presena de governo e formas de preguia, de inrcia mental (p. 49). Se-leis prprias que regravam a vida social e sexual; a guindo tais estratgias, foram inventadas vrias ou- natureza (negra/ndia) era relacionada aos aspectos tras identidades que circulam como verdadeiras nainstintivos: manifestao franca das emoes no lu- mdia, na literatura, nas artes, no currculo escolar egar da razo, ausncia de governo e leis para regrar a em outros artefatos culturais. vida social e sexual, aproximando as aes de instin- 28Jan/Fev/Mar/Abr 2003 N 22 5. Olhares que fazem a diferenatos da natureza selvagem. Reduzir as culturas derelacionada minha formao acadmica e, princi- negros(as) e ndios(as) natureza consiste em natu- palmente, viso de cincias como um campo dis- ralizar a diferena (Hall, 1997b, p. 245), consiste em cursivo rico no sentido de instituir verdades e produ- uma estratgia representacional destinada a fixar azir subjetividades dificilmente contestado. Nessas diferena e assim garanti-la para sempre (idem,produes, ndios(as) so vistos como diferentes ibidem).atravs de referncias habitao, s vestimentas, Assim, conforme as leituras sugerem, a dife-forma como obtm os recursos etc. rena resulta da projeo no outro de caractersti- No captulo sobre os animais, o livro Cincias, cas que o narrador(a) no v ou no aceita em si. para a l srie do ensino fundamental (Marsico et Portanto, a diferena no pode ser tomada comoal.,1997), inclui uma unidade sobre os animais e seu essencial, como parte dos sujeitos, mas deve serhabitat. Referindo-se aos habitats humanos, as au- problematizada por resultar de construo social. toras mostram quatro ambientes onde o homem pode habitar: um prdio com muitos andares, casasOlhares poderosos: no meio de uma lavoura, um iglu e uma oca. Noa instituio do outro como diferenteexemplo referente ao habitat indgena (p. 37) apa- rece no primeiro plano da foto um ndio esticando Tomei por emprstimo para este eixo o ttulo atri-um arco como se fosse atirar uma flecha e duas n- budo pela revista poca (n 91, fevereiro de 2000, dias, uma delas com uma criana s costas, suspensa p. 8) ao eixo Imagens, na qual algumas fotografiaspor uma faixa na cabea; no plano de fundo aparece flagraram polticos nacionais e internacionais lanan-parcialmente a oca. A referida fotografia parece do olhares indiscretos sobre determinadas mulhe-no ter sido feita para mostrar uma forma de habita- res. Uma dessas fotografias mostra Alessandra Bra-o, mas sim um estilo de vida, estereotipado tam- sileiro, passista do Boi Garantido, fantasiada debm em outros espaos, pois a casa praticamente no ndia, em Parintins, Amazonas, olhada pelo presi-aparece. Essas representaes tendem a universalizar dente do Brasil e pelo governador do Amazonas, en-atributos do tipo: ndios usam arco e flecha; moram quanto cumprimentava o ministro da Educao.em ocas; furam o corpo para colocar objetos estra- Olhares poderosos (como os lanados por po- nhos, como ossos e pedaos de madeira, conside- lticos, viajantes, pesquisadores, entre outros) tm ser- rados enfeites; andam nus (ou seminus), enfim, so vido para instituir o outro como diferente, geral-diferentes de ns. mente apontando traos fsicos individuais comoNo volume 2 de Descobrindo o ambiente, para a caractersticas coletivas, marcando que a instituio 2 srie, Oliveira e Wykrota (1991) ensinam que os da diferena acontece com base na consideraoesquims moram em iglus. Os ndios brasileiros em dos valores e conceitos que aquele que a institui tem ocas, os bedunos sempre mudando de lugar. E existe de si e da cultura a que pertence.gente que mora em carro ou barco e carrega a casa Assim, este eixo tem o propsito de destacar al-para l e para c, como os caracis (p. 11). Mostrar a guns olhares poderosos materializados atravs dos li- casa, por exemplo, se constitui uma das formas atra- vros didticos de cincias e refletir sobre como essesvs da qual os livros narram os diferentes, os que discursos marcam, classificam e excluem ndios(as). fogem normalidade. Alm disso, o livro em pauta A opo pelas publicaes didticas de cincias 4 estrelaciona sujeitos e suas formas de habitar aos cara- cis (animais), lembrando a antiga representao dos ndios como nmades, que no se fixavam a lugar4Tomei para anlise alguns exemplares publicados no pe- nenhum. Ao destacar a forma de habitao, a oca rodo de 1980 ao final de 1990. marca a singularidade indgena. Revista Brasileira de Educao29 6. Teresinha Silva de Oliveira e especificidade que se devem ao olhar antropocn-trico do homem sobre os (outros) animais.Assim, a imposio de significados aos outrosfreqentemente feita de forma sutil e partindo dopressuposto da presena de uma correspondncia ade-quada entre o sujeito e os significados que esto sen-do atribudos, de forma que passam a ser vistos comonaturais, como parte deles. E o olhar que produz re-presentaes atravs dos livros didticos e revistasanalisados mostra ndios(as) como sujeitos dotadosIlustrao 1: A velociade do som (Blinder et al., Cin- de conhecimentos, costumes e habilidades especfi-cia e Realidade, 8 srie, So Paulo: Atual, 1992, p. 85) cas e essenciais, de forma que parea que somenteesses sujeitos as possuam.No estudo relativo propagao do som, cons- Alm da produo didtica, vrias outras produ- tante do livro Cincia e realidade, para a 8 srie, es freqentemente estabelecem uma relao entre Blinder et al. (1992) utilizam uma figura que alude aa identidade pessoal ou coletiva e os artefatos usados suposta perspiccia auditiva indgena para ilustrar ode forma que os mesmos paream essenciais a todos contedo de que tratam, lembrando outras habilida- os membros indistintamente. Da mesma forma que des atribudas a ndios(as), como a de ler a nature- marcadores identitrios, como pinturas, adornos etc. za e prever fenmenos climticos. Dessa forma, o so utilizados para representar tribos indgenas, mui- ndio representado como dotado de um tipo espe-tas outras tribos so identificadas por outros mar- cial de conhecimento que parece constitu-lo comocadores, como as griffes das roupas que usam, a mar- uma extenso da natureza, como uma espcie quase ca do tnis que calam, as tatuagens que exibem, a em extino. Blinder e seus colegas representam oquantidade e os locais do corpo em que aplicam os ndio atravs da Ilustrao 1, acompanhada do se-piercings etc., mostrando como freqentemente guinte texto:aquele(a) que no atende aos padres sociais e cultu-rais marcado(a). Essas questes frisam a formaSo tambm famosas as histrias de ndios que en- como as marcas identitrias entendidas aqui comocostam a orelha no cho para ouvir o galope de cavalossignificados culturalmente inventados so usadassuficientemente distantes para serem vistos [...]. Se o ndio com a finalidade de diferenciar, classificar, os sujei-ouve o galope pela onda sonora que se propaga no solo tos, sendo inscritas no corpo para assinalar a diferen-antes da onda que se propaga no ar, sinal de que no solo aa, o pertencimento a essa ou aquela tribo. Assim,onda sonora se propaga mais rapidamente, ou seja, sua ve- ao mostrarem ndios(as) valorizando tais aspectos, li-locidade maior no cho do que no ar. (p. 85)vros, jornais, revistas etc., alm de essencializaremcaractersticas, projetam tambm um pblico que pa-Ao mesmo tempo que o exemplo atribui ao n- rece esperar tais imagens. dio habilidades especiais, faz referncia a uma prti- Estudos como O espetculo do outro (Hall, ca no usada e considerada estranha pela cultura no-1997b) e a imagem dos Incas e Astecas a partir do indgena, por dispor de instrumentos mais eficientes olhar espanhol (lvarez-Ura, 1998) exemplificam a para realizar tal leitura. Lembra tambm habilida- imensa diversidade cultural existente no mundo e de des sensoriais desenvolvidas em determinados ani-como so consagradas formas culturais hegemnicas. mais, como o faro do co de caa, a percepo auditi-Em outro sentido, servem para mostrar a rede de poder va das aves etc., representaes de desenvolvimentoem que as questes culturais esto inseridas, apontan- 30Jan/Fev/Mar/Abr 2003 N 22 7. Olhares que fazem a diferenado que a diferena tem sido marcada de forma hierar- denominado de cabana, quiosque, designaes quizada e assimtrica, e que os sujeitos ou as prticasque parecem lhes conferir maior status. O rstico ga- mostrados(as) como diferentes o so de forma que pa- nha uma nova configurao, por ter sido projetado e ream inferiores, de modo que a diferena no construdo por pessoas no-indgenas e por compor o estabelecida desinteressada e inocentemente, mas espao de lazer e no mais o residencial, apontando instituda a partir de discursos e olhares poderosos.para o que Woodward (1997) chama de sistemasclassificatrios (p. 12). Tais sistemas so usados fre-Da maloca na selva a quiosque nos jardins qentemente para apontar como as relaes sociaisentre pelo menos dois grupos diferentes so contra- Neste eixo procuro discutir a transposio de sig- postas de forma binria e distinta tanto atravs do nificados atribudos a determinados objetos ao serem uso de sistemas simblicos de representao quanto utilizados por culturas distintas e como alguns desses atravs da excluso social. objetos freqentemente enriquecem a prtica pe-A prtica pedaggica escolar, na qual so desta- daggica. Potes, peneiras, arcos e flechas so objetos cados os valores de uma cultura soberana,5 muito tem que recebem comumente nova finalidade e, em con- colaborado no sentido de controlar as pessoas e insti- seqncia, nova significao, diferente da atribuda tuir significados. Para isso, seleciona contedos, des- por ndios(as), ao serem adquiridos por turistas, portaca comportamentos a serem evidenciados e valori- viajantes no-indgenas. Entretanto, sabemos que a za prticas sociais de determinados grupos ao destacar, transposio de significado no ocorre em um s sen- por exemplo, o que deve ser estudado durante o ano e tido, e que ndios(as), ao se apropriarem de objetos o que deve ser visto eventualmente. A preocupa- da cultura no-indgena, freqentemente lhes atribu- o docente em enriquecer a aula e tornar mais fcil e em outros significados.real a teoria tem sido um campo no qual discretamen- Ao contrastar artefatos culturais de culturas dis- te a supremacia social e cultural estabelecida. Alm tintas, se estabelece, tambm, a distino entre ns disso, a escola freqentemente se utiliza de artefatos e os outros, muitas vezes mostrando o grupo he- culturais de outras culturas para acentuar, frisar, a gemnico (ns) de forma individualizada e dife- diferena. Assim, ao utilizar utenslios da cultura renciada e os outros como uma massa homognea. indgena para tornar concreta a prtica pedaggica, a Essas argumentaes lembram a importncia que de-escola transpe o significado de instrumentos de tra- terminados artefatos adquirem pelo fato de serem balho e prticas culturais mostrando-os como instru- nosso ou serem dos outros. Proponho, comomentos ldicos, decorativos e, s vezes, ludopedag- exemplo para reflexo, a construo arquitetnica tra-gicos, alm de marc-los como pertencentes a uma dicional indgena usada para habitao, para a qual cultura extica. Servem como exemplo de transpo- foram atribudos pelo colonizador nomes como oca,sio de significado objetos de cermica e de madei- maloca, choupana. Essas designaes so carre- ra, como arcos e flechas, simulacros adquiridos por gadas de tom pejorativo, na medida em que remetemturistas, que, transpostos, passam a adquirir outros sig- a um tipo de habitao considerada primitiva por ser construda com capim, paus, cips e sem o acom- panhamento de um profissional com uma certa quali-5 Refiro-me especialmente cultura de origem europia, ficao, como um engenheiro ou um mestre-de-obras. que de todas as formas procurou se estabelecer como soberana Essas construes mudam a denominao quan-tanto dentro de seus limites geogrficos quanto fora deles. Mais do mudam de ambiente e funo. O que era chamado uma vez recorro a Orientalismo, atravs do qual Said (1990) de oca ou maloca, ao ser transposto para a cida- discute essa questo ao mostrar o olhar colonizador sobre os po- de, tem tambm o significado transposto e passa a servos colonizados.Revista Brasileira de Educao31 8. Teresinha Silva de Oliveiranificados, passam a ser contemplados como adornos,Ao referir-se s prticas fotogrficas, Canclini peas de decorao, lembranas de viagem, e no(1985) possibilita-me entender que elas so regula- raro ilustram o fazer pedaggico.das por convenes atribudas por um determinadoProblematizar prticas sociais familiares podegrupo como forma de seleo e promoo. Para ser um caminho para entender algumas das estrat-Canclini, o que cada grupo social elege para foto- gias usadas para estabelecer significados e organizargrafar o que considera digno de ser solenizado, lugares de negros, de ndios, de mulheres, de pobres,servindo como operao ideolgica que converte o de homossexuais e de velhos(as), com que freqente-transitrio em essencial (p. 7). Dessa forma, as pr- mente nos deparamos. ticas fotogrficas parecem servir como mecanismosdos quais determinado(s) grupo(s) se apropria(m) comCartes e selos postais, cartes telefnicosa finalidade de representar o que entende(m) por rea- e moedas brasileiras: a diversidadelidade, utilizadas para eternizar momentos.de olhares lanados sobre o ndioOs vrios olhares lanados sobre o ndio tm sidotraduzidos atravs de fotografias, gravuras e pintu- A discusso proposta para este eixo diz respeito ras, geralmente acompanhando o texto escrito. Ob- diversidade de olhares lanados sobre o ndio porservo, no entanto, que artefatos como selo e moeda, instituies pblicas e privadas, como a Empresa Bra-usadas pelo Correio e pela Casa da Moeda, respecti- sileira de Correios e Telgrafos (ECT), a Casa davamente, incluem imagens que dispensam o texto es- Moeda, as companhias telefnicas e a indstria grfi-crito, sugerindo que a imagem tem sido usada como ca, atravs dos seus produtos. Alm disso, procuro um discurso que informa e nos interpela com a mes- destacar alguns efeitos pedaggicos presentes em ar- ma autoridade do texto escrito. tefatos supostamente banais.Ao fazerem a representao de ndios(as) atra- Os discursos usados para tornar coletivas ca-vs dos produtos que atendem a suas demandas, em- ractersticas individuais tm servido para que de- presas como a Empresa Brasileira de Correios e Tel- terminados grupos sociais sejam olhados como grafos, por exemplo, atravs da emisso de selos que grupos homogneos. No caso de ndios(as), aindafocalizam traos atribudos a esses povos, como ms- que haja especificao, na maioria das vezes ela sur-caras, pintura corporal, peas artesanais, desapropri- ge em relao ao grupo como categorias do tipo am o ndio de sua identidade pessoal e o mostram de guerreiros, selvagens, ndios, em que o(a) forma que detalhes como pintura, paream essenciais, narrador(a) nega identificao prpria, tornando-alm de sugerir que as referidas imagens resultam da os(as) sujeitos despersonalizados, annimos; trata-solicitao dos fotografados. A referncia encontra se, portanto, de um silenciamento das suas identida- exemplo na imagem do menino ndio que ilustra selo des. Maresca (1996) refere-se a essa questo comopostal lanado pela ECT em 1991. banalizao, que passa explicitamente pela anonimizaco dos personagens representados, re- duzidos subitamente imagem de uma profisso, um gesto de trabalho ou de um elo domstico ou social (p. 64). Utilizo como exemplo para essa referncia um carto postal que mostra ndios(as) em ocasio festiva, com vestes e mscara de fibra vegetal rsti- ca, e a informao relativa identidade dos sujeitos, que se limita a indicar: ndios do Brasil, tribo dosIlustrao 2: Nota lanada no incio dos anos de 1990 Ipixunas, regio da Amaznia. pela Casa da Moeda32Jan/Fev/Mar/Abr 2003 N 22 9. Olhares que fazem a diferenaOutra forma de apropriao da imagem do ndio atravs da sua impresso na moeda brasileira, con- forme a Ilustrao 2, nota de mil cruzeiros lanada no incio dos anos 1990. Trata-se de uma representao muito significativa, pelo fato de envolver um papel com valor monetrio, com poder de troca e que atin- ge uma significativa parcela da populao. Observo que tal representao, bem como as demais citadas neste eixo, aponta para uma relao desigual de for- as: ao mesmo tempo em que ndios ilustram um pa- pel com poder de compra, muitos desses sujeitos no dispem de condies econmicas para suprir suas Ilustrao 3: Menina Flor, da tribo Caraj necessidades bsicas, necessitando, s vezes, mendi- gar nas ruas. No exemplo, alm do ndio ser repre- mas so formadas e transformadas no interior da re- sentado como extico, representado tambm como presentao (p. 53). Assim, entendo que a nao no saudvel, farta e diversamente alimentado, ao ter sua uma entidade poltica neutra, ao contrrio, pro- imagem sobreposta a produtos atribudos ao seu con-duz significados, cria sentido de pertencimento. Se- sumo, como peixes, razes, frutos e sementes. dis- gundo o autor, as pessoas no so apenas cidados(s) pensvel afirmar que as representaes feitas espe-legais de uma nao; elas participam da idia da na- cialmente pela ECT e pela Casa da Moeda vmo tal como representada em sua cultura nacional carregadas de um teor de verdade muito forte, por(idem, ibidem). Tal afirmao leva-me a entender que provirem de duas instituies federais muito abran-a idia de pertencimento nacional constituda dis- gentes, pois os artefatos selo e moeda fazem parte dacursivamente e no pode ser tomada como parte es- vida diria de grande parte da populao.sencial dos sujeitos. Pertencente srie 500 anos do Descobrimen- Os artefatos que ilustram esse eixo podem ser to, a Companhia Riograndense de Telecomunicaeslidos tambm como uma forma de promover um (CRT) lanou um carto telefnico ilustrado por umaresgate de tradies7 supostamente perdidas; tm ser- menina Caraj,6 conforme Ilustrao 3. Tal repre-vido como referncia de brasilidade, para mostrar um sentao semelhante s produzidas pela ECT e pelapas e um povo autnticos, apontando um pas que Casa da Moeda. Ao comercializarem tais imagens,respeita e incentiva as tradies de seus habitantes alm de institurem o outro como diferente, essase para um povo que sabe corresponder, atravs das empresas marcam tambm fortes relaes de podermanifestaes de pertencimento. O resgate de uma em que uma cultura toma a outra como motivoidentidade perdida obriga a um retorno ao passa- ilustrativo dos produtos que vendem. Alm disso, a do, o que implica reinventar outras prticas e outras representao do ndio articulada por tais empresasidentidades. mostram-no como uma espcie de propriedade daAssim, entendo que as representaes que circu- nao, pertencente identidade nacional. lam nos artefatos includos na anlise tm sido o re- De acordo com Hall (1997a), as identidadessultado de olhares poderosos lanados sobre nacionais no so coisas com as quais ns nascemos,7 Robins referido por Hall (1997a) chama de Tradio a6A identificao presente no verso do carto refere-se a tentativa de recuperar a pureza anterior e recobrir as unidades e Menina Flor. certezas que so sentidas como tendo sido perdidas (p. 94).Revista Brasileira de Educao33 10. Teresinha Silva de Oliveirandios(as) por viajantes, pesquisadores, reprteres, (1997b). The spectacle of other. In: _____, (org.). entre outros, por verem nesses sujeitos caractersti-Representation: cultural representations and signifying cas que no vem ou no desejam em si. Alm disso, practices Cap. IV. London: Thousand Oaks/New Delhi: Sage/ ao destacar a imagem do ndio como recurso Open University. p. 225-290. ilustrativo dos produtos que comercializam, empre- , (1997c). Identidades culturais na ps-modernida- sas pblicas e privadas mostram-no como uma dasde. Rio de Janeiro: DP&A. Traduo de T.T. da Silva e G.L. particularidades da nao brasileira, apontando, aoLouro. mesmo tempo, para a presena de uma cultura sobe- MARESCA, Sylvain, (1996). As figuras do desconhecido. In: rana que se autodenomina habilitada a conferir posi-PEIXOTO, Clarice, MONTE-MR, Patrcia (orgs.). Cader- es, espaos e papis a serem desempenhados pornos de Antropologia e Imagem, v. 2. Rio de Janeiro: Universi- sujeitos que integram outras culturas. Assim, acredi-dade do Estado do Rio de Janeiro, p. 53-81. to que precisamos questionar as prticas familiares e duvidar da inocncia dos discursos que perpassamNELSON, Cary, TREICHLER, Paula, GROSSBERG, Lawrence,artefatos aparentemente banais como selos e cartes(1995). Estudos culturais: uma introduo. In: SILVA, Tomazpostais, ou a aquisio de potes e peneiras, por exem- (org.). Aliengenas na sala de aula: uma introduo aos estu-plo, que compramos como lembrana de viagemdos culturais em educao. Petrpolis: Vozes. p. 7-38.pois, alm dos livros didticos, esses artefatos tam- SAID, Edward W., (1990). Orientalismo: o Oriente como inven- bm so pedaggicos. o do Ocidente. So Paulo: Companhia das Letras.VAZ, Florncio Almeida, (1996). Ribeirinhos da Amaznia: iden-TERESINHA SILVA DE OLIVEIRA mestre em educa-tidade e magia na floresta. Revista de Cultura Vozes, v. 90, o pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atual- n 2, mar./abr. mente desenvolve atividades profissionais na Secretaria Esta- VEIGA-NETO, Alfredo, (1996). Olhares... In: COSTA, Marisa dual de Educao do Estado do Rio Grande do Sul e pesquisa(org.). Caminhos investigativos: novos olhares na pesquisa em sobre as representaes de mulheres ndias na mdia. E-mail:educao. Porto Alegre: Mediao. p. 19-35 teteoliveira@terra.com.br WOODWARD, Kathryn, (1997). Concepts of identity andReferncias bibliogrficas difference. In: _____, Identity and difference. London: Sage.p. 8-35ALBUQUERQUE Jr., Durval Muniz de, (1999). A inveno doLivros didticos de cincias analisadosNordeste e outras artes. Recife: Massangana / So Paulo: Cortez.LVAREZ-URA, Fernando, (1998). A conquista do outro: da BLINDER, David, SCHALCH, Juvenal, ALVIM, Olavo, GRASSI-destruio das ndias descoberta do gnero humano. In:LEONARDI, Teresa Cristina, (1992). Cincia e realidade. F-LARROSA, Jorge, LARA, Nuria Prez de. Imagens do outro.sica e Qumica. 8 srie. So Paulo: Atual.Petrpolis: Vozes. p. 97-114. MARSICO, Maria Teresa, CUNHA, Maria do Carmo, ANTUNES, CANCLINI, Nestor Garca, (1985). Esttica e imagem fotogrfi-Maria Elizabeth, CARVALHO NETO, Armando, (1997). Cin-ca. Revista Casa de Las Americas, Havana, v. 149.cias. 1 srie, 1 Grau. So Paulo: Scipione. FOUCAULT, Michel, (1979). Microfsica do poder. Rio de Janei- OLIVEIRA, Nyelda R. de, WYKROTA, Jordelina L., (1991).ro: Graal.Descobrindo o ambiente, v. 2. Belo Horizonte: Formato. HALL, Stuart, (1997a). The work of representation. In: _____,(org.). Representation: cultural representations and signifyingpractices. London: Thousand Oaks/New Delhi: Sage/Open Recebido em setembro de 2002University. p. 2-73. Aprovado em dezembro de 2002 34Jan/Fev/Mar/Abr 2003 N 22

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