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OCCUPY: ELEMENTOS PARA UMA PROBLEMATIZAO SOBRE

MOVIMENTOS SOCIAIS

Ariovaldo de Oliveira Santos1

RESUMO: Este artigo analisa alguns dos elementos constitutivos das recentes mobilizaes coletivas e seus esforos para se contraporem aos desdobramentos do processo de mundializao do capital. Dentre as vrias manifestaes coletivas recentes, que ganharam projeo mundial, destaca-se a do Occupy. O artigo procura investigar motivaes e limites que marcam esta forma de luta coletiva adotando por hiptese que os Occupy no so movimentos sociais, seja em perspectiva marxiana ou touraineniana, embora coloquem questes importantes para a reflexo da vida social no estgio atual do desenvolvimento do capitalismo. Um dos pontos importantes a serem contemplados por uma analise destas formas de mobilizao a maneira como pensam as formas de democracia formal e a posio de desconfiana ou descrdito em relao a formas tradicionais de organizao dos interesses, como os partidos polticos, ou lutas coletivas de classe, inclusive as sindicais. PALAVRAS-CHAVE: Occupy; Novos movimentos sociais; Globalizao; Juventude.

JUVENTUDE, GLOBALIZAO E PRECARIEDADE SOCIAL

A juventude, enquanto objeto terico, refere-se a um conjunto relativamente definido,

seja pelas suas caractersticas etrias, seja pelas sociais. No caso do movimento Occupy,

aliado a outras manifestaes que marcaram a passagem dos anos 1990-2000, como as de

Seattle e Praga, bem como as manifestaes na Grcia e em Portugal, mais recentemente, ou a

chamada Primavera rabe, incontestvel a presena do contingente juvenil, menos, talvez,

porque saibam utilizar a internet como recurso para expor suas ideias, mobilizando-se para

irem s ruas, e mais, com certeza, em razo de que tm sido eles, j de longo perodo, afetados

profundamente pelas transformaes em curso no capitalismo contemporneo. Assim como

ocorreu no maio de 1968 e diversas outras manifestaes contemporneas quelas

mobilizaes, pouco comentadas mas no menos significativas, a emergncia no espao

1 Doutorando no Programa Serv io Social, Universidade Estadual de Londrina (UEL). Doutor em Socio logia e

Cincias Sociais (Universit Paris I); Prof. Dr. Do Departamento de Cincias Sociais (Universidade Estadual

de Londrina Pr)

2

pblico dos contingentes definidos como jovens resulta de um mal estar real, o qual pode ser

negado apenas no plano da imaginao.2

Grcia, Londres, Oriente Mdio, Estados-Unidos, Portugal, por exemplo, apontam

para uma certa homogeneidade no contexto do capitalismo global, no que concerne

juventude, ainda que o fenmeno das manifestaes recentes no se restrinjam a este

contingente etrio. Trata-se, efetivamente, da existncia de possibilidades cada vez mais

limitadas de participao na esfera do consumo capitalista que acaba por se traduzir em um

mosaico que vai desde o radicalismo pequeno-burgues contra a sociedade existente, expresso

na proposta de altermundialismo ou na exigncia de uma verdadeira democracia formal, at

negao pura e simples do existente por meio de aes que percorrem o espao pblico em

ritmo de tsunami, destruindo tudo o que tem pela frente, no caso, carros, lojas, bancos, entre

outros smbolos visualizados como a negao de tudo aquilo que os estratos mais

marginalizados no possuem ou no tm acesso. Trata-se de um conjunto de manifestaes

que tm, ainda, em comum, o fato de catalizarem, cada um com suas motivaes, os

escolarizados e os que possuem um baixo nvel de escolarizao, os que esto mais integrados

ao consumo capitalista e aqueles que deste participam menos intensamente. Trata-se,

igualmente, de uma certa homogeneidade dada pela situao objetiva do emprego, em geral,

instvel e mal pago, apesar da escolaridade. Dois exemplos so, neste sentido, importantes de

serem citados. De um lado, os milleuristas, ou gerao mil euros, h alguns tambm

chamados por gerao 600 marcos ou gerao Mac Donalds. Expresses que, parte

variaes possveis de serem encontradas dentro das fronteiras de cada Estado Nao,

remetem a uma realidade marcada pela disponibilizao, aos jovens, de empregos sem

grandes promessas futuras, mal pagos, instveis no que se refere aos contratos de trabalho e

marcados por uma forte tendncia rotatividade (turn-over) e absentesmo.

Soma-se a isto a intensidade com a qual o fenmeno do desemprego atinge estes

contingentes. Na Espanha, por exemplo, onde dados de 2012 acusam um ndice de

desemprego da ordem de 24,4 %, portanto, praticamente o mesmo que ela possua nos anos

2 Para uma rad iografia dos conflitos sociais nos anos 1960 h um importante estudo de Guy Spitaels que

abrange o declnio do modelo de regulao construdo na Europa no perodo do ps Segunda Guerra

Mundial. SPITAELS, Guy, Les Conflits Sociaux en Europe (greves sauvages, contestation, rajeunissement

des structures), Belgique, Marabout Services, 1971.

3

1990, o ndice chega a mais de 50% na faixa etria situada entre os 15 e 24 anos. a pior taxa

de desemprego entre os pases que integram a zona do euro e apenas a Grcia apresenta taxas

semelhantes3. Isto, no entanto, no implica afirmar que a situao seja menos desastrosa em

outros pases da zona do euro. A taxa de desemprego em Portugal para a mesma faixa etria

atualmente de 36,1%, seguido pela Itlia (35,9%) e Irlanda (30,3%).

Estes elementos apontam para que no se trata de um raio em dia de sol, mas de um mal

estar social que gestado na medida em que o desenvolvimento capitalista avana nos diversos

continentes, o que poderia ser evidenciado, por exemplo, se analisado o caso dos estudantes

chilenos, em 2012, ou as mobilizaes de rua em junho de 2013, no Brasil, em defesa do passe

livre. So os elementos de descontentamento social que levaram, a partir de 2010, os jovens

gregos, portugueses, italianos, ingleses e espanhis, por exemplo, para as ruas, e formao de

algumas iniciativas como o El movimento 15 de mayo. Mais do que o uso da internet para expor

suas posies, angustia e fazerem a convocao de ocupao das ruas, o motor efetivo do

processo o desemprego e a deteriorao das condies sociais de existncia.

Refinando um pouco mais os dados, de acordo com a Organizao para a Cooperao

e Desenvolvimento Econmico (OCDE), dentre os 34 pases considerados desenvolvidos e

contemplados pelo organismo, em 2012, a taxa de desemprego entre jovens, isto , os que se

encontram entre 15 e 24 anos, de acordo com os critrios adotados pela instituio, totaliza

17,1%, enquanto que h cinco anos, em 2007, ela era da ordem de 12,2%. Com isto, estima-se

que atualmente exista no conjunto destes pases, cerca de 11 milhes de jovens sem emprego.

Porm, a prpria OCDE reconhece que mais da metade dos jovens que vivenciam a situao

de desemprego nos pases considerados est fora das estatsticas oficiais e integra o que se

convencionou chamar por desempregados desencorajados, isto , aqueles que, por no a

encontrarem, desistiram de procurar uma ocupao assalariada. De acordo com documento da

OCDE, muitos jovens que abandonaram o sistema de ensino deixaram de aparecer nas

estatsticas de emprego, o que poderia elevar o nmero real de desemprego entre os jovens

para um total de 23 milhes. A situao mais agravante na medida em que, ainda de acordo

3 Russo, Rodrigo, Bancos da Espanha registram recorde de crditos podres. Folha de So Paulo, Mundo,

Sbado, 19 de maio de 2012, A20.

4

com o documento, h uma preocupao crescente de que uma proporo significativa e cada

vez maior da populao esteja em risco de um desemprego ou inatividade prolongada. 4

MOBILIZAES COLETIVAS, PRECARIZAO E PRECARIATO

Embora as camadas mais jovens de cada pas se apresentem com maior evidncia por

ocasio das manifestaes que tm ocupado as ruas para protestar contra as condies

existentes no capitalismo global, destaque-se que a instabilidade do emprego para este

contingente no autoriza uma determinada leitura de que a classe operria, trabalhadora ou

proletria tenha voltado ofensiva. Uma investigao mais minuciosa sobre a composio

social das manifestaes ainda est por ser feita, o que ajudaria a explicar as razes pelas

quais as bandeiras vermelhas no tremulem para anunciar a Monsieur le Capital que o

espectro do comunismo deixou de rondar apenas a Europa para tornar-se planetrio.

Destaque-se que o cuidado com este tipo de anlise, que v nos jovens o surgimento de novas

lutas proletrias, identificadas como o precariato, devem ser redobrados, sobretudo quando

se considera a resistncia destas mobilizaes aos partidos de esquerda tradicionais ou a

outras formas de vnculos institucionais mais estveis.

Para melhor elucidar o objeto sobre as recentes mobilizaes coletivas, tendo os

jovens como elemento de destaque, algumas consideraes se fazem necessrias luz do que

foi afirmado anteriormente. Observe-se que, efetivamente, a denominada precariedade do

trabalho tem sido um eixo articulador das respostas fornecidas por sindicatos e trabalhadores

em suas lutas cotidianas diante do capital. Entretanto, conceitualmente, o debate so