obra de rapazes, para rapazes, pelos rapazes . ?· o luís.veio hã dias de lisboa. tem seis anos....

Download OBRA DE RAPAZES, PARA RAPAZES, PELOS RAPAZES . ?· O Luís.veio hã dias de Lisboa. Tem seis anos. Toda…

Post on 06-Dec-2018

214 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

Pto . . Exm.a. Snr-a . D. Mari ~ Marg rida rorrlr-a Rua da$ Flores t 28 1 P O-R'l'O

23126

26 DE JUNHO DE 1971

XXVIII- N." 712- Preo 1$00

OBRA DE RAPAZES, PARA RAPAZES, PELOS RAPAZES

_.O.UTRINA Quando uma carreira que,

por sua natureza, bom fsse ser seguida apenas por voca-o, o tambm, muitas vezes, como modo de vida, redobra para a Escola que a prepara a nec2ssidade de infundir esp-rito, que possa oompensar ausncias e temperar desvios em quem a frequente, de si mesmo, no muito Impulsio-nado pelo Esprito.

E penso, at, que melhor seria competir-lhe o dever de rejei-tar aqueles que, muito bem dotados, embora, no tm esp-rito para a misso, cerne da carreira, que no h-de ser trada por ela.

O Lus .veio h dias de Lisboa. Tem seis anos. Toda a sua cons-tituio franzina mostra o que foi a sua infncia. Muito bran-quinho. Olhos negros, ramalhu-dos, oomo se dizia na minha aldeia, mas sem brilho. filho da prostituio! ... A mulher que o gerou de Setbal.

O Lus no quer carinho. Repele-o. necessrio fazer esforo. Agarr-lo. Encostar a nossa cara sua, com uma certa violncia; para que con-sinta um beijo nosso.

Ontem estive a dizer-lhe que gostava muito dele e pro-curava dar-lhe todo o afecto possvel. Que ele era muito bonito; um menino muito lindo... etc... S me respondia: - nada nada. .

Faz-me queixa de todos. Repele toda a gente! Todos os dias arranja um monte de coisas velhas - papeis, tbuas, paus, brinquedos e todo o lixo que enctmtra. Agora descobriu um saco e a sua preocupao encher o sac.o.

V-se que a criana sofre de uma fome im~nsa de tudo! .. A sua vida e o seu ser so um vazio infinito!

E se esta necessidade me parece absoluta, intemporal, torna-a grave e urgente a condio do nosso tempo, em que o econmico polui to f-

. cilmente os pensamentos. Pois aqui vai o concreto da

vida que deu aso a este dis-correr:

Ele nosso h 5 anos . Veio porque era dos nossos - o que ajuizmos pelo memorial seguinte: .

F., filho de ... e de ... , natu-ral de ... , nasceu em ... , tendo a me falecido quando ele tinha apenas 3 anos de idade.

O pai passou a viver mari-

Eu gostaria de pr vista e aos sentidos de todos os h.mnens a vida interior de uma criana destas, e, com o borro negro da vida que lhe estragou toda a infnci31, mostrar ao mundo as consequncias nefas-tas de uma onda sensual desen-freada que nos assola.

O Lus tem-me baUado na sensibilidade, na imaginao, na F e na Esperana!

Quando na rua encontro pares em manifestaes de intimidade que s no segredo dos casais so salutares, lembro-me do Lus.

Quando nas montras e car-tazes vejo a nudez feminina a atrair a ateno de toda a gente e a despertar curiosi-dad2S, sinto o Lus perto de mim.

Quando, a caminho de Lisboa, encontro junto do depsito de carros e motociclos parados e uma feira de genta a caminhar louca para o pinhal, atolando-se na degradao da sensualidade, salta-me ao corao o Lus.

Quando observo que a auto-ridade passa e faz vista grossa, o Lus chora dentro de mim.

Quando sinto os homens de F e de Esperana a fecharem--se numa r~ligio de instalados e a educarem os seus filhos para uma vida fcil e cmoda sem perspectivas de heroici-dack, o Lus geme debaixo da sua injusta situao.

Quando eu prprio me sinto tocado pelos mesmos males que noto nos outros, o Lus desperta-me e aponta-me o caminho!

Padre AcHo

talmente com uma mulher de vida fcil com quem mais tarde se casou e de quem teve dois filhos, estando agora espera do t erceiro.

O pai caiador, no tendo, porm, trabalho certo, porque um alcolico, que abusa fre-quentes vezes da bebida, sem fora moral para educar os filhos .

F. tem sido sempre maltra-tado pela madrasta, que o . obriga a trabalhar, a cuidar dos irmos, impedindo-o muitas vezes de comparecer na escola e fazendo com que ele fuja de casa e das suas obrigaes. Acontec muitas vezes levar o dia inteiro fo.(a de casa e s regressar no dia seguinte de madrugada sem que o pai e a madrasta lhe ;infundam o m-nimo respeito. Leva assim uma vida de vadio, alardeando que no tem medo de ningum, nem da prpria polcia. ,

Com oito anos apenas, pode dizer-se que no respeita nem obedece a ningum, fazendo s o que quer. Ser um caso per-dido se no houver quem o guie e o leve para um bom caminho.

Confirmmos informaes: era tal qual. Alis, histria

muito repetida! ... Passaram 5 anos. O garotito

de ento, que o pai declarou entregar Casa do Gaiato,

Nasceu uma nova indstria em Pao de Sousa. Estamos no tempo delas. Tudo clama que necessrio e urgnte industrializar. Ccero, na es-teira dos que assim pensam e dizem - e muito bem! - re-solveu de sua cabea criar uma estampar:ia de tecidos na nossa Tipografia. Nas horas vagas (Se que foi em tais horas ... ?!), aproveitando as v-rias cores em servio nas v-rias mquinas impressoras, im-ps gravuras com motivos gaiatos, vinhetas ou fotogra-fias j sadas no Famoso -e toca de as estampar ad hoc numa camisa branca. E o re-sultado foi to- animador que amigo Ccero logo conquistou sequazes. Pelo menos assim me ,consta j do Z Manei Ca-ramelo.

Ora a ideia no est m, se na verdade estes trabalhos so nas horas vagas! que ns temos p'rai muitas cami-sas brancas, o que monoto-nia. Com esta inveno, pode-mos aumentar a variedade e renovar beleza.

At houve quem sugerisse a mesma operao em retalhos dos quais se fariam lenos de pescoo, ou, simplesmente, qualquer espcie de galharde-tes, que, decerto, intere'Ssa-riam aos turistas que por a aparecem.

As tais amndoas de que falmos por altura da Pscoa estiv~ram longe de fazer a boca doce maior parte dos nossos Leitores. Alguns, porm, qui-seram tomar sua conta o lugar dos ausentes, pelo que, se no se pode con:siderar um xito a iniciativa, no deixou todavia, de ser relativamente frutuosa nos seus resultados. O que mais nos encheu, toda-via, foi, sem dvida, o teor de algumas missivas recebidas. A laia de exemplificao, eis o extracto seguinte, tirado duma carta de : Como sou uma freira, tenho voto de pobreza. Mas como governo um Hospital, resolvi na Quaresma (s sextas-feiras) no comer fruta. Assim penso que, no falto justia, dan-do-vos os 20$ que pedis para as amndoas. Comentrios no nos atrevemos a fazer. Quem ler estas linhas que tire as ilaes.

* * * Uma das coisas que mais

desvanece no contacto com os nossos Amigos precisamente o esprito sbrio e humilde de que fazem revestir as suas ofertas ou ajudas. Se algum cafu algum dia na tentao de querer brilhan> aos olhos do Mundo servindo-se da Obra do

I Temos, pois, lanada uma

nova indstria. Cuidado, senhores indus-

triais de estampar.ia, com a concorrncia!

XXX

Sbados, aps o tero, abre a Cooperativa dos Rapazes, onde se vendem materiais di-versos de higiene e artigos de vesturio.

Mal acaba o jantar, P.e Abrao ou eu somos assalta-dos por um magote, por mor de avalisarmos suas requisi-es de pasta de dentes, de sabo pr barba, de um par de meias . . . , etc.

.Devo aqui declarar que es-tas requisies no primam pe-la dignidade. Servem os pa-peis mais inconcebveis, ras-gados de qualquer sorte, sara-pintados como calhou, escre-vinhados em ,cima do ombro do parceiro - e a que ns

Padre Amrico, deve ter sentido um grande fracasso. O anoni-mato a norma corrente e, mesmo quando sabemos quem connosco divide, tudo se passa na mais profunda intimidade. uma graa para quem recebe e para os que do, tal tipo de relaes. De resto, muito nos repugnaria servir de escada ou de trampolim fsse a que pes-soas fsse. A uns e outros bas-ta-nos a alegria do repartir e a gratido no receber em favor dos que precisam. Deus, mes-mo para os que no acreditam, ser o Retribuidor infalvel. Assim um dia destes: visitantes percorrem as instalaes da Casa e sem mais deixam nas nossas mos um envelope. Mais tarde, ao abri-lo, deparmos com 5 contos!

As obras continuam, embora

lentamente. Com elas consu-mimos energias fsicas e an-micas de monta. Como a F remove montanhas, para ela apelamos nas alturas de maior fraqueza. A~ palavras jactantes e falaciosas continuaremos sempre a desejar opor a rea-lidade dos factos, mesmo que custa de espinhos e canseiras.

P. S. - Pedem-nos o ende-

reo da Casa do Gaiato de Lisboa. Ele aqui vai: Santo Anto do Tojal - Loures.

Padre Lus

as temos de apor nossa respei-tvel assinatura.

Neste contexto, ningum se espantar da minha admira-o perante uma requisio apresentada pelo Fasca, em papel pautado muito bem apa-radinho e ilus-trado com gravu~ ras daquilo que requisitava: um sabonete, uma pasta de dentes, um pacote de lminas, uns botes de punho.

guisa de -assinatura, um delicado: Agradece, F AtS'CA, seguido dum zig-zag expressi-vo do raio.

Por acaso no vinha nenhum Rato Mickey nem nenhum Pato Donald - especialidades desenh1?ticas do nosso homem. Mas, certamente no faltaro, quando tivermos organizada a nossa biblioteca e fr preciso requisio para levantar suas revistas predilectas - estas mesmas de histrias aos qua-dradinhos, muito pouco condi-centes com as lminas de bar-bear que h muito o nosso amigo j usa.

XXX

Pois tambm estas so vis-tas de dentro, embora venham de fora. que elas vm enri-quecer o nosso tesouro!

Como compreendo e apre-cio, cada dia mais, a herana que Pai Amrico nos deixou: A nossa riqueza a nossa Pobreza>>!

Qual pobres?! Quem, com olhos de ver, assim nos pode considerar, se, por fora da Pobreza, se enriquece constan-temente o nosso patrimnio espiritual com a partilha de bens preciosos como este pe-

Por

Padre Horcio

Conhecemo-nos h muitos anos na capela dumas termas. Frei Francisco Rendeiro est~va em tratament

Recommended

View more >