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Revista Vozes dos Vales da UFVJM: Publicaes Acadmicas MG Brasil N 02 Ano I 10/2012 Reg.: 120.2.0952011 PROEXC/UFVJM ISSN: 2238-6424 www.ufvjm.edu.br/vozes

Ministrio da Educao Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri UFVJM

Minas Gerais Brasil Revista Vozes dos Vales: Publicaes Acadmicas

Reg.: 120.2.0952011 UFVJM ISSN: 2238-6424

N. 02 Ano I 10/2012 http://www.ufvjm.edu.br/vozes

O trabalho feminino na agricultura familiar do cariri cearense:

representaes imagticas das alunas do curso tcnico em

agropecuria sobre trabalho agrcola da mulher sertaneja

Elisngela Ferreira Floro Graduao em Pedagogia e em Letras

Mestrado em Educao Agrcola Tcnica em Assuntos Educacionais no

Campus Crato do Instituto Federal de Educao, Cincia e Tecnologia do Cear IFCE - Brasil

E-mail: elisafloro@yahoo.com.br

Resumo: Este artigo apresenta algumas reflexes sobre as percepes que as

alunas do Curso Tcnico em Agropecuria construram no decorrer do processo de formao tcnico-profissional sobre o trabalho feminino na agricultura familiar no contexto socioeconmico do municpio do Crato, no Cariri Cearense. A estrutura do texto est organizada em trs sees: a) a histria do curso do curso tcnico em agropecuria e as caractersticas socioeconmicas da agricultura e da pecuria da localidade em que desenvolvemos o trabalho; b) a presena feminina no curso tcnico em agropecuria e o trabalho feminino na agricultura e c) anlise das percepes que as alunas construram sobre o trabalho feminino na agricultura. O artigo teve como objeto de estudo textos imagticos construdos pelas alunas em fase de concluso do curso Tcnico em Agropecuria e aborda questes sobre esteretipos, preconceitos e desvalorizao da mulher e do trabalho feminino no campo, analisados luz da teoria histrico/crtica. Palavras-chave: Trabalho Feminino. Desvalorizao. Agricultura Familiar.

Tcnico em Agropecuria

http://www.ufvjm.edu.br/vozesmailto:elisafloro@yahoo.com.br

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Revista Vozes dos Vales da UFVJM: Publicaes Acadmicas MG Brasil N 02 Ano I 10/2012 Reg.: 120.2.0952011 PROEXC/UFVJM ISSN: 2238-6424 www.ufvjm.edu.br/vozes

O curso Tcnico em Agropecuria do IFCE/Crato e as caractersticas

da agricultura e da pecuria municipal

O IFCE/Crato1* forma tcnicos em agropecuria desde a dcada de 1970.

Quando a primeira turma colou grau, no ano de 1973, o tecnicismo educacional e

a Revoluo Verde exerciam grande influncia na formao do tcnico agrcola.

A Revoluo Verde caracterizava-se por um pacote tecnolgico constitudo de

um conjunto de tcnicas que visavam aumentar vertiginosamente a produo de

alimentos. Segundo os divulgadores do pacote, seria possvel resolver o

problema da fome nos pases subdesenvolvidos com a insero da tecnologia no

campo (SANTOS, 2006, p. 02).

O tecnicismo educacional, inspirado na Teoria do Capital Humano visava

formao de fora de trabalho para suprir as necessidades do mercado de

trabalho e reprimir a demanda por nvel superior (ao abreviar o tempo de estudo e

aligeirar a entrada do jovem no mercado de trabalho). A ao pedaggica

tecnicista era inspirada na pretensa cientificidade e neutralidade do processo

educacional, estudado e planejado por especialistas e impostos aos professores e

alunos de forma rgida.

A Revoluo Verde e o tecnicismo educacional foram inseridos na

organizao didtica e curricular das escolas agrcolas por meio do Sistema

Escola Fazenda, mediante os acordos de cooperao tcnica e financeira que o

Brasil fez com os Estados Unidos.

O sistema escola-fazenda foi introduzido no Brasil em 1966, como conseqncia da implantao do Programa do Conselho Tcnico-Administrativo da Aliana para o Progresso - CONTAP II (Convnio Tcnico da Aliana para o Progresso, MA/USAID para suporte do ensino agrcola de grau mdio). Tal sistema tinha por objetivo proporcionar condies para a efetividade do processo ensino/produo, bem como patrocinar a vivncia da realidade social e econmica da comunidade rural, fazendo do trabalho um

1. O atual IFCE/Crato surgiu em abril de 1954 com a denominao de Escola de Tratoristas. Em 1964, ocorreu a mudana para Colgio Agrcola do Crato, sob a gide da Lei n 4024/1961. Em 1979, o Colgio Agrcola passou a denominar-se Escola Agrotcnica Federal de Crato e em 29 de dezembro de 2008, por instituio da Lei 11892, passou a compor o Instituto Federal de Cincia e Tecnologia do Cear, sendo transformado em IFCE/Crato (terminologia que estamos utilizando no texto para uniformizar a nomenclatura).

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Revista Vozes dos Vales da UFVJM: Publicaes Acadmicas MG Brasil N 02 Ano I 10/2012 Reg.: 120.2.0952011 PROEXC/UFVJM ISSN: 2238-6424 www.ufvjm.edu.br/vozes

elemento integrante do processo ensino-aprendizagem, visando conciliar educao-trabalho e produo (SOBRAL, 2009, p. 85).

Os tcnicos deveriam ser capazes de levar aos produtores rurais as mais

novas tecnologias que estavam sendo desenvolvidas pelas grandes corporaes

do agronegcio e, para isto, era necessrio criar um sistema de funcionamento de

uma fazenda ideal, capaz de servir de modelo para um pas de dimenses

continentais como o Brasil. em decorrncia desta concepo que a estrutura

fsica e os modos de gerenciamento e ensino das Escolas Agrotcnicas foram

padronizados no Brasil inteiro.

Porm, a partir do final da dcada de 1980, o tecnicismo educacional

entrou em crise e a Revoluo Verde se mostrou um processo extremamente

danoso, particularmente para os pases subdesenvolvidos, pois se observou o

aumento crescente de problemas ambientais, maior concentrao da posse da

terra, excluso social, m distribuio de renda, aumento no nmero de famintos

no mundo, enquanto havia superproduo de determinados alimentos.

Estes problemas se intensificaram devido globalizao da economia, que

desenhou novos quadros para o gerenciamento da produo agrcola. O controle

do comrcio agrcola pelos grandes grupos multinacionais; o estmulo

implantao de grandes fazendas destinadas importao de alimentos; a

subsuno do setor pblico agrcola ao mercado acentuou as desigualdades

sociais e territoriais, alm de criar muitas novas desigualdades no campo,

evidenciando que a inovao da agricultura se processou de forma socialmente

excludente e espacialmente seletiva. (STDILE, 2002).

Esta desigualdade no campo ocorreu em nveis diferentes de regio para

regio. Elias (2006, p. 32) utiliza o termo pontos luminosos, cunhado por Santos

(2001) para exemplificar as mudanas que esto ocorrendo na agropecuria em

determinados espaos do Nordeste. Em se tratando do Cear, Elias (2003, p. 67)

afirma que a reestruturao produtiva no est ocorrendo de modo sustentvel,

como se propaga nos programas governamentais, evidenciando que os pontos

luminosos dos permetros irrigados (nas mos dos grandes proprietrios) esto

acentuando as desigualdades sociais e concentrao de terras, fazendo com que

os pequenos produtores rurais, especialmente os que compem o grupo de

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Revista Vozes dos Vales da UFVJM: Publicaes Acadmicas MG Brasil N 02 Ano I 10/2012 Reg.: 120.2.0952011 PROEXC/UFVJM ISSN: 2238-6424 www.ufvjm.edu.br/vozes

agricultores familiares perifricos sofram com as consequncias da modernizao

excludente do governo das mudanas2.

Desta forma, os pontos luminosos no espao agrrio cearense convivem

com uma agricultura arcaica para o estrato dos produtores rurais que no tm as

mesmas condies de acesso tecnologia. Ou seja, se verdade que o campo

cearense se modernizou, tambm verdade que alguns pontos deste espao

permaneceram em situao igual ou pior, se comparados s condies de

desenvolvimento preexistentes.

No caso especfico do Crato, municpio onde se localiza o IFCE/Crato e a

comunidade Palmeirinha, das 3324 propriedades rurais identificadas pelo

IBGE/SIDRA/Banco de Dados Agregados, 2006 (Tabela 1109), 90,34% so

gerenciadas por agricultores familiares. Embora em maior nmero, os

estabelecimentos de agricultura familiar possuem menos extenso territorial.

Embora seja maioria e responsvel por maior parte da produo, a agricultura

familiar no recebe o mesmo apoio que o agronegcio, nem mesmo quando as

polticas agrcolas so voltadas exclusivamente para este pblico, conforme

pesquisa realizada por Carneiro (2007).

A poltica de Plos de Desenvolvimento parece no ter afetado a rotina das famlias rurais do PDA Cariri Cearense, pois a grande maioria das famlias entrevistadas no tem conhecimento dela, com 91,7% das respostas. Apenas 8,3% das famlias informaram ter ouvido falar do PDA Cariri Cearense [...]. Porm, esse conhecimento vago, pois nenhuma soube responder o que significava essa poltica e qual era o seu objetivo (CARNEIRO, 2007, p. 08).

Alm de no terem acesso aos subsdios necessrios para se

desenvolverem, os agricultores familiares enfrentam o problema da falta de

assistncia tcnica, que piora ainda mais a situao de quem vive do campo e

dele precisa sobreviver. Entre o total de produtores entrevistados pelo Censo

Agropecurio de 2006, a maioria (91%) declara no ter recebido nenhuma

orientao agropecuria, 8% afirmam receber orientao tcnica do governo

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