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    O TRABALHO ENQUANTO CONSTRUO SOCIO HISTRICA:

    CONSIDERAES A CERCA DO CONTEXTO ATUAL

    Fabiane Mrcia Drews1

    Andra Fo Carloto

    RESUMO: Este estudo visa tecer reflexes sobre o trabalho a partir das expresses da questo social

    identificadas na contemporaneidade. Articulando elementos tericos a cerca do conceito de trabalho,

    construdo histrica e socialmente e articulado s expresses da denominada questo social como

    resultado do processo de explorao da fora de trabalho. Articulando a experincia vivenciada

    cotidianamente no Servio de Percia Oficial em Sade da Universidade Federal de Santa Maria, tendo

    como pblico alvo os servidores atendidos nesse espao socioinstitucional. Metodologicamente,

    objetivando a singularidade na caracterizao da realidade observada, este trabalho prope-se a

    dissertar sobre um estudo de caso com abordagem qualitativa. O estudo evidencia as diversas

    transformaes, da categoria trabalho ao longo da histria, o que no resulta na perda da centralidade

    desta categoria na vida dos sujeitos. O adoecimento trabalhado aqui como expresso da questo

    social, no podendo ser entendido com consequncia do trabalho em si, mas sim do processo de

    trabalho inserido socialmente no modo de produo capitalista.

    PALAVRAS-CHAVE: Sade; Servidores Pblicos Federais; Trabalho.

    INTRODUO

    O presente trabalho aborda o Eixo temtico intitulado Trabalho e questo social no

    capitalismo contemporneo. Tendo como intuito abordar o mundo do trabalho bem como as

    expresses da questo social que podem ser evidenciadas no cotidiano dos servidores pblicos

    federais a partir de interveno do Servio Social, enquanto equipe de apoio Percia Oficial

    em Sade da Universidade Federal de Santa Maria.

    Para isso, o estudo apresenta uma breve reflexo terica sobre o trabalho.

    Conceituando-o inicialmente, a luz da teoria marxista. Abordando na sequncia um sucinto

    histrico sobre os significados do trabalho ao longo dos tempos, culminando com as suas

    implicaes na contemporaneidade.

    Levando em considerao o trabalho inscrito nas relaes de produo do sistema

    capitalista, discorrer-se- sobre a questo social como resultado do processo de explorao da

    1 Universidade Federal de Santa Maria. fabidreufsm@gmail.com

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    fora de trabalho e apropriao de seu produto. Ressaltando os diversos entendimentos e

    formas para seu enfrentamento, de acordo com cada tempo histrico.

    Baseado nesses elementos tericos busca-se articular a experincia vivenciada

    cotidianamente no Servio de Percia Oficial em Sade da Universidade Federal de Santa

    Maria. Assim, com este estudo no se pretende ampliar conceitos sobre uma anlise global do

    processo de sade e adoecimento dos trabalhadores, mas a partir dele impulsionam-se novos

    olhares e posicionamentos referentes ao assunto, vindo a integralizar o processo de trabalho

    como parte inerente a todo ser humano, sendo este manifestado em vrias expresses

    socialmente construdas e estabelecidas, formando a identidade de todos os sujeitos

    envolvidos atravs do valor social a ele atribudo.

    OBJETIVO

    Tecer reflexes sobre o trabalho a partir das expresses da questo social identificadas

    na contemporaneidade.

    PROCEDIMENTOS METODOLGICOS

    Este estudo visa desenvolver um de Estudo de Caso, objetivando a singularidade das

    intervenes realizadas, caracterizando-se atravs da descrio da realidade observada em

    todo contexto envolvido. A realidade aqui apresentada a partir da interveno profissional

    do Servio Social na Percia Oficial em Sade/UFSM. Tendo por base este espao de trabalho

    apresentam-se reflexes a cerca das situaes de adoecimento no trabalho evidenciadas

    diretamente no cotidiano profissional.

    O presente estudo referencia-se no mtodo do materialismo histrico e dialtico, que

    orienta e/ou embasa hegemonicamente a interveno dos profissionais de Servio Social no

    Brasil, a partir das discusses realizadas pela categoria profissional durante as dcadas de

    1960 e 1970, que culminaram no Movimento de Reconceituao da profisso.

    As categorias expressas no mtodo a totalidade, a contradio e a mediao

    mostram-se como essenciais para este estudo e expressam que a natureza humana no est

    isolada e sim [...] s existe na histria, num processo global de transformao, que abarca

    todos os seus aspectos (KONDER, 1997, p. 53). Entretanto, a contradio uma categoria

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    essencial para a transformao do que est posto num determinado momento, possibilitando a

    construo de novas snteses. Outra categoria, a totalidade, mostra-se dinmica, tendo em

    vista que a realidade est sempre em constante movimento.

    [...] seu movimento resulta do carter contraditrio de todas as totalidades que compe a

    totalidade inclusiva e macroscpica. Sem as contradies, as totalidades seriam totalidades

    inerentes, mortas e o que a analise registra precisamente a sua continua transformao

    (NETTO, 2011, p. 57).

    Explicadas as categorias do mtodo que baliza a leitura de realidade social, evidencia-

    se que o estudo baseado na abordagem qualitativa, que [...] trabalha com o universo dos

    significados, dos motivos, das adaptaes, das crenas, dos valores e das atitudes

    (MINAYO, SOUZA, 2011, p.21). O que proporciona ressaltar a singularidade atravs da

    descrio da realidade observada em todo contexto envolvido.

    Salienta-se ainda, que so utilizadas algumas tcnicas, como, estudo de bibliografias e

    documentos relacionados temtica, alm da observao cotidiana nesse espao

    socioocupacional.

    O TRABALHO E A PRODUO E REPRODUO DA VIDA EM SOCIEDADE

    Marx, a partir de meados de 1840, [...] empreendeu a anlise da sociedade burguesa,

    como o objetivo de descobrir a sua estrutura e a sua dinmica (NETTO,

    2011, p.18). Essas ideias, mais tarde, serviram de suporte para muitos estudos. Ainda

    hoje, considera-se atual a anlise e o mtodo desenvolvido por ele para compreender as

    contradies inerentes sociedade capitalista.

    Assim, o trabalho, na perspectiva Marxista, entendido como elemento constitutivo da

    natureza humana e exerce uma centralidade para a humanidade, tendo em vista que apresenta-

    se como categoria fundante do ser social, proporcionando o desenvolvimento das foras

    produtivas, das relaes sociais. Pois, nessa percepo,

    [...] Por meio do trabalho os homens no apenas constroem materialmente a sociedade,

    como tambm lanam as bases para que se construam como indivduos. A partir do

    trabalho, o ser humano se faz diferente da natureza, se faz um autntico ser social, com leis

    de desenvolvimento histrico completamente distintas das leis que regem os processos

    naturais (LESSA; TONET, 2011, p.17).

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    Porm o trabalho pode ser entendido de diversas formas, ou seja, ter diferentes e

    inclusive divergentes significaes para os sujeitos e sociedades, o que pode ser observado ao

    longo da histria. Para melhor exemplificar isso discorrer-se- sobre o significado do trabalho

    nos diferentes modos de produo: O modo antigo de produo baseia-se no trabalho

    escravo; o feudal, no trabalho dos servos e da gleba; o capitalista, no trabalho do empregado

    assalariado (WOLECK, p. 6).

    Na Antiguidade o trabalho era sinnimo de perda de liberdade, no sendo

    desvinculado de escravatura. No entendimento da tradio judaico-crist o trabalho apresenta-

    se como sofrimento, punio, maldio, representando no somente o cansao fsico, mas

    tambm uma condio social. No perodo da Antiguidade o trabalho no era pensado como

    fonte de riqueza, o que de fato importava era o valor de uso no o de troca.

    O trabalho, na Antiguidade, no se desvincula do entendimento da escravatura, que foi um

    recurso usado para exclu-lo da condio de vida do homem. Essa excluso s podia ser

    viabilizada pela institucionalizao da escravatura, dadas a capacidade de produo e a

    concepo de vida e de sociedade vivenciadas no perodo (WOLECK, p. 4).

    A Reforma Protestante apontou o trabalho como um instrumento de salvao. O que

    possibilitou que na Idade Mdia o trabalho passasse a ter outro sentido, acompanhando as

    mudanas estruturais da sociedade, que serviram como sustentao para a Era Moderna, como

    a revoluo agrcola, o surgimento das cidades e a sociedade patriarcal. Assim, nesse perodo

    Deu-se valorizao positiva ao trabalho, considerando, ento, como um espao de aplicao

    das capacidades humanas. Acompanhava-o a noo de empenho, que o esforo para atingir

    determinado objetivo (WOLECK, p. 4). Nesse perodo o Calvinismo implanta a ideia de

    trabalho como [...] instrumento para a aquisio de riquezas, meio de sucesso no mundo

    terreno [...] (WOLECK, p. 4).

    Com a evoluo das foras produtivas e a ascenso da burguesia o trabalho e a

    produtividade passaram a ser enaltecidos e cio a ser condenado. Isso visando atender as

    necessidades do novo modo de produo emergente, tendo em vista que agora a mo de obra

    passa a ser livre.

    Assim, na Idade Moderna [...] passou-se a fazer diferenciao entre o trabalho

    qualificado e o no qualificado, entre o produtivo e o no produtivo, aprofundando-se a

    distino entre trabalho manual e intelectual (WOLECK, p. 5). Nesse perodo o trabalho

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    abarca dois significados contraditrios, mas que se apresentam como indissociveis, a

    liberdade e a servido, tendo em vista que o modo de produo ca