o supremo tribunal federal e a lei da ficha limpa: uma questão .confirmando a limitação do poder

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8 Encontro Anual ABCP

01 a 04 de agosto de 2012 Gramado, RS

rea Temtica 09: Poltica, Direito e Judicirio

O Supremo Tribunal Federal e a Lei da Ficha Limpa:

uma questo de dficit democrtico

Rafael Mario Iorio Filho (UNESA e INCT-InEAC)

rafaiorio@ig.com.br

Fernanda Duarte (FD/UFF ; PPGD/UCP e INCT-InEAC /UFF)

fduarte1969@yahoo.com.br

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O Supremo Tribunal Federal e a Lei da Ficha Limpa:

uma questo de dficit democrtico

Rafael Mario Iorio Filho1

Fernanda Duarte2

O presente trabalho integra um esforo de pesquisa que tem por objetivo geral

perceber como os discursos dos Ministros da Corte Constitucional brasileira3 - STF se

constroem e como eles se relacionam com o poder na defesa da cidadania. Esta

discusso temtica de todo importante, pois traz em seu campo significativo toda uma

problemtica de circunstncias de crise constitucional democrtica, e por isso, de

relaes explcitas entre poder soberano e guarda das cidadanias.

Neste texto nos propomos a analisar a percepo que o Supremo Tribunal

Federal tem de seu papel, quando colocado diante de situaes que explicitam a relao

entre constituio e democracia4, no exerccio do controle de constitucionalidade das

1 O autor Professor Permanente do PPGD da Universidade Estcio de S. Doutor em Direito pela UGF. Doutor em Letras Neolatinas pela UFRJ. Pesquisador do INCT-InEAC - Instituto de Estudos Comparados em Administrao Institucional de Conflitos. 2 A autora Professora Adjunta da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense. Professora Colaboradora do PPGD da Universidade Catlica de Petrpolis. Doutora em Direito Constitucional pela PUC/RJ. Juza Federal da 3 Vara Federal de Execues Fiscais/SJRJ. Pesquisadora do INCT-InEAC - Instituto de Estudos Comparados em Administrao Institucional de Conflitos. 3 Aqui usamos a expresso de modo genrico, sem levar em conta o debate doutrinrio que aponta as diferenas entre corte constitucional e tribunal constitucional a partir de suas competncias. Para tanto vide TAVARES (1998). 4 Nossa proposta dialoga com as reflexes sobre a temtica do constitucionalismo democrtico, a jurisdio constitucional, instrumentalizada nos diversos sistemas de controle da constitucionalidade das leis e atos normativos, revelando a tenso entre Constituio e democracia, que em uma leitura liberal expressa conflito na limitao da vontade da maioria, materializada na lei. Ainda sobre este conflito, associado a categoria Estado Democrtico de Direito: A difcil conciliao entre as tradies democrticas e liberais (Estado de direito) fez aflorar de forma explcita o elemento poltico-ideolgico como orientador de valores, princpios das concepes polticas diversas. A concepo liberal tende a tratar as declaraes de direitos que tutelam as liberdades fundamentais como postulados de racionalidade impostos acima de tudo e de todos, especialmente de maiorias parlamentares, garantindo o direito vida, propriedade, livre iniciativa, s liberdades em geral. O processo poltico, atravs do Estado de direito, em especial do texto constitucional rgido, subordina-se aos princpios liberais presentes na Constituio, confirmando a limitao do poder soberano ao exerccio temporal de um poder constituinte originrio. Inicialmente legitimada pela soberania, a Constituio legitimaria a limitao do prprio poder que a constitui. O principal argumento da concepo liberal contra a soberania popular concentra-se no risco de uma democracia, atravs da vontade da maioria, converter-se em regime autoritrio, pondo fim prpria democracia. Contra a democracia, ento, seriam necessrios instrumentos que garantissem sua prpria

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leis. Entre as inmeras possibilidades que se prestam a evidenciar essa tenso, optamos

por discutir a problemtica da Lei da Ficha Limpa. Particularmente por ser ela fruto de

iniciativa popular e aprovada por unanimidade no Congresso Nacional, tais

caractersticas levaram para a arena do STF uma maior problematizao na tenso entre

democracia e contramajoritarismo judicial, em especial ao que toca a aplicao imediata

da lei s eleies de 2010 que ento se avizinhavam.

Importante dizer desde logo que nossas pesquisas sobre a temtica do presente

artigo esto em andamento, por isso, os dados e os resultados, como tambm os

questionamentos que aqui sero apresentados, no so definitivos, podendo ser

considerados como resultados parciais.

De forma indita5, a Lei da Ficha Limpa fruto de projeto de lei de iniciativa

popular6 que reuniu mais de um milho assinaturas em todo pas, sob a bandeira da

preservao, devendo estes limites figurar na forma de direitos em um texto ordenador da poltica. Em contraposio s teorias liberais, as concepes democrticas acentuam a titularidade do poder do povo, valorizando a soberania popular e, conseqentemente, opondo-se a formas oligrquicas ou tecnocrticas de organizao poltica, ambas admitidas implicitamente pelo Estado democrtico de direito em sua matriz liberal. Ao limitar o poder do povo o Estado de direito torna-se obstculo ao Estado totalitrio, mas se impe, tambm, como obstculo s mudanas desejadas pela maioria, pelo povo. A difcil ou impossvel conciliao entre as concepes democrticas e liberais encontra na idia contempornea de democracia deliberativa sua mais expressiva tentativa de acordo. FERREIRA, GUANABARA e JORGE (2009:122-123). 5A aprovao da Lei da Ficha Limpa tem sido reconhecida pela sociedade civil brasileira como divisor de guas na tica do processo poltico democrtico. Veja por exemplo o stio FICHA LIMPA que disponibiliza um cadastro voluntrio de candidatos que atendem aos requisitos da lei e buscam se diferenciar pela adoo de critrios ticos, comprometendo-se com a transparncia de suas campanhas, apresentando compromisso de prestao de contas, informando semanalmente a origem dos recursos obtidos e os gastos efetivados. Logo em sua pgina inicial o sitio informa: Tamanho o significado de A Lei Ficha Limpa foi aprovada graas mobilizao de milhes de brasileiros e se tornou um marco fundamental para a democracia e a luta contra a corrupo e a impunidade no pas. Trata-se de uma conquista de todos os brasileiros e brasileiras. Para garantir que essa vontade popular se reflita nestas e nas prximas eleies, a Articulao Brasileira contra a Corrupo e a Impunidade (Abracci), com o apoio do Movimento de Combate Corrupo Eleitoral (MCCE), apresenta o stio Ficha Limpa um instrumento de controle social da Lei Ficha Limpa e uma ao de valorizao do seu voto! (Disponvel em: < http://www.fichalimpa.org.br/index.php>. Acesso em : 06 ago 2011) 6 Prevista no art. 61 da CF/88, a iniciativa popular conhecida como um mecanismo de exerccio de democracia direta e possibilita que a sociedade civil possa iniciar o processo de elaborao de lei, apresentando diretamente ao Congresso Nacional (mais especificamente Cmara dos Deputados) projeto de lei para posterior debate e votao. Est regulamentada pela Lei 9709/1998 que exige que o projeto seja subscrito por, no mnimo, um por cento do eleitorado nacional, distribudo pelo menos por cinco Estados, com no menos de trs dcimos por cento dos eleitores de cada um deles (art.13). Segundo o TSE, em julho de 2010, o nmero de eleitores era de 135,8 milhes. Logo o nmero de assinaturas mnimo seria 1,36 milhes. (Disponvel em: . Acesso em: 04 ago 2011).

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moralidade pblica7. No dia 29 de setembro de 2009 o projeto Ficha Limpa foi

apresentado ao Congresso Nacional. Aprovado por unanimidade tanto pela Cmara

quanto pelo Senado Federal, foi sancionado em 04 de junho de 2010, quatro meses antes

do primeiro turno eleitoral daquele ano, pelo ento Presidente da Repblica Luis Incio

Lula da Silva.

Na verdade, h quem ateste que a edio da Lei da Ficha Limpa foi

desencadeada pela deciso desfavorvel do Supremo Tribunal Federal (STF) na

Argio de Descumprimento de Preceito Fundamental n 144, proposta pela

Associao dos Magistrados do Brasil (AMB), na qual se buscava a aplicao da

inelegibilidade mesmo sem o trnsito em julgado de aes de contedo grave ou

desabonador (criminais ou de improbidade) e que gerou assim uma intensa mobilizao

popular, sob a liderana do Movimento de Combate Corrupo Eleitoral (RAMOS e

PEREIRA NETO: 2011).

A Lei da Ficha Limpa altera a Lei Complementar 64/1990 e torna mais

rigoroso o regime de moralidade e probidade administrativa, e especialmente refora as

situaes de inelegibilidade legal queles candidatos que j tenham contra si deciso

judicial (de natureza penal ou eleitoral) proferida por rgo colegiado mesmo que no

transitada em julgado, isto , ainda que pendente de deciso de rgo superior (como o

Supremo Tribunal Federal/STF, o Superior Tribunal de Justia/STJ e o Tribunal

Superior Eleitoral/TSE).

De forma geral a Lei da Ficha Limpa trouxe as seguintes alteraes: 1) ampliou

o prazo de inelegibilidade para 8 anos; 2) dispensou a exigncia de trnsito em julgado

de decises judiciais, bastando deciso proferida por rgo colegiado nas hipteses

previstas; 3) aumentou o rol de crimes comuns que acarreta inelegibilidade; 4) incluiu

novas hipteses de inelegibilidade, abarcando a corrupo eleitoral, a captao ilcita de

sufrgio, a doao, captao ou gastos ilcitos de recursos de campanha ou ainda a

7 Veja-se a fala do Min. Ayres Britto que reflete essa demanda: O povo mere