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O Senado nos editoriais dos jornais paulistas (2003 2004)

Fernando Antonio Azevedo

Departamento de Cincias Sociais- UFSCar

Vera Lucia Michalany Chaia Departamento de Cincias Sociais- PUC-SP

Resumo: O artigo analisa as relaes entre jornalismo poltico e democracia contempornea focando o cenrio brasileiro recente. Atravs da anlise dos editoriais dos jornais Folha de So Paulo e O Estado de So Paulo entre 2003 e 2004, os autores mostram que, mesmo com diferenas de posicionamentos em diversos aspectos, os editorais dos dois jornais focalizaram, sobretudo, os membros do Congresso e no a instituio mas, na medida em que abordavam de modo negativo os membros do Congresso, enquadravam negativamente a prpria instituio. Assim, direta ou indiretamente, os editoriais dos dois veculos produziram uma imagem especficado Senado e do Congresso.

Palavras-chaves: mdia de massa, jornalismo opinativo, democracia brasileira, Congresso nacional, senado brasileiro

Abstract: The article analyses the relationship between political journalism and democracy focusing on the recent Brazilian political scene. By analysing the editorials of the newspapers Folha de So Paulo and O Estado de So Paulo between 2003 and 2004, the authors show that, in spite of the different positionings in many aspects, the editorials of the two newspapers had focused on, above all, the members of the Congress and not the parliamentary institution. But, as they approached in negative way the members of the Congress, they fit negatively the proper institution. Thus, in a direct or an indirect way, he editorials of the two vehicules of communication had produced an especific image of the Senate and the Congress.

Keywords: mass media, opinionative journalism, Brazilian democracy, national Congress, Brazilian Senate

OPINIO PBLICA, Campinas, vol. 14, n 1, Junho, 2008, p.173-204

OPINIO PBLICA, Campinas, vol. 14, n 1, Junho, 2008, p.173-204

Jornalismo Poltico e Democracia

A cobertura jornalstica das atividades polticas o embate partidrio e

eleitoral e as atividades do governo e do Legislativo fundamental para as democracias contemporneas. A magnitude demogrfica confere s democracias representativas do sculo XXI o carter de massa; nelas, os cidados acompanham o jogo poltico atravs da mdia de massa, a TV (aberta e a cabo), o rdio, a grande imprensa escrita (jornais e revistas) e, mais recentemente, os grandes provedores e sites da internet. Embora no seja a nica fonte de informao poltica (h os livros, a conversao, os debates em associaes e sindicatos, etc.), principalmente pela mdia de massa que, hoje, o indivduo se conecta com a esfera poltica e busca as informaes necessrias interveno no debate pblico e para escolher governos e representantes polticos. Neste contexto, freqentemente descrito como uma democracia de pblico1 (MANIN, 1995), a qualidade do debate e da deliberao poltica depende, antes de qualquer outra coisa, de dois requisitos bsicos: no plano da sociedade poltica, a visibilidade, que implica o processo de publicizao; e, no plano da sociedade civil, o livre acesso do cidado s informaes polticas, fundada na existncia de uma dupla garanti, a liberdade de imprensa e a representao na mdia das principais correntes de opinies.

Alm destes requisitos, o contedo e a forma das coberturas polticas dependem em larga medida da cultura poltica e jornalstica e do formato das instituies polticas de cada pas. Em pases onde a poltica passou por um processo de ideologizao (como a Frana e a Itlia at os anos setenta), predominou em grande parte do tempo uma combativa e mltipla imprensa de opinio: os grupos polticos mais importantes editavam seus prprios jornais para divulgar e defender seus pontos de vista. Em outras naes, de forte tradio social-democrata, como os pases nrdicos, a grande imprensa convive com um Estado que financia jornais de grupos polticos e sociais minoritrios, com o objetivo de assegurar a pluralidade de opinio. Nos Estados Unidos, onde desde cedo predominou a imprensa comercial (e, portanto, a tenso entre interesses 1 O autor usa a expresso democracia de pblico em oposio expresso democracia de partido. Esta ltima, tipicamente presente em alguns pases europeus nos anos 50 e 60, baseia-se na centralidade dos partidos no sistema poltico, no voto partidrio e na existncia de polticas de classe. J a democracia de pblico definida pela forte centralidade da mdia, pela tendncia individualizao e personalizao da poltica (em detrimento das estratgias partidrias e dos princpios programticos), pelo crescimento de um eleitorado sem vnculo ou fidelidade partidria e pela volatilidade do voto. Grosso modo, estas novas caractersticas seriam decorrentes do declnio da poltica ideolgica e do crescimento da influncia da mdia de massa na formao da opinio pblica, especialmente a TV.

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privados e pblicos), a cobertura poltica sempre foi primariamente dependente do nvel de competio entre os jornais e do grau de adeso aos princpios deontolgicos (construdos no processo coletivo de profissionalizao dos jornalistas) e da aceitao de teorias jornalsticas, como a liberal, a da responsabilidade social e do jornalismo cvico. Por sua vez, o formato institucional e poltico predominante em um pas como o regime de governo, o sistema partidrio e o nvel de competio, influencia o foco e a intensidade das coberturas polticas. de se esperar, por exemplo, que no presidencialismo a imprensa privilegie a cobertura do Executivo e da figura presidencial, enquanto no parlamentarismo a ateno seja deslocada para a atividade parlamentar. Entretanto, bastante bvio que a imprensa aumenta sua cobertura poltica quando a competio eleitoral polarizada, como aconteceu nas eleies norte-americanas de 2004. Por fim, evidente que a dimenso cultural desempenha um papel importante na orientao mais geral das coberturas polticas: em contextos em que os valores cvicos so fortes e positivos (como a defesa dos valores democrticos e da participao poltica), a cobertura jornalstica tende a acompanhar e reforar os mesmos valores. Imprensa e Cobertura do Legislativo: uma breve reviso

A literatura internacional confirma que nos regimes presidencialistas, que

aqui nos interessa diretamente para efeitos de anlise e comparao, a cobertura poltica privilegia a arena executiva e, nela, especificamente a Presidncia e a figura presidencial. Essa tendncia particularmente visvel nos Estados Unidos e parece ter se aprofundado ao longo do sculo XX, conforme indicam diversas pesquisas citadas por Jorge (2003, p.12). Uma das explicaes correntes atribui o aumento da cobertura presidencial em detrimento do Legislativo ao fato de que a figura do presidente personaliza o poder, enquanto no Congresso o jogo poltico diludo entre vrios atores coletivos (partidos) e individuais (polticos). Outras pesquisas citadas pelo autor mostram tambm que a cobertura do Congresso norte-americano apresenta assimetrias no que se refere ateno da mdia com as duas casas legislativas: o Senado, quando confrontado com a Cmara, recebe usualmente maior ateno, tanto da mdia impressa como da eletrnica. Uma das explicaes para este comportamento a magnitude do corpo Legislativo, ou seja, o fato de o Senado ser uma casa com menos membros e com polticos mais antigos e conhecidos facilitaria a individualizao da cobertura (JORGE, 2003,p.13).

O Congresso norte-americano, alm da menor visibilidade, possui uma imagem muito mais negativa do que o Poder Executivo. A mdia nos Estados

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Unidos freqentemente descreve o Congresso como uma instituio lenta, conflituosa, incompetente e corrupta (JORGE, 2003, p.14). Esse enquadramento negativo, contudo, no parece ser uma exclusividade daquele pas e nem uma viso restrita mdia. Diversas pesquisas realizadas sobre a imagem do Parlamento mostram que tanto a imprensa quanto o eleitor costumam ser muito crticos em relao aos seus Legislativos e aos polticos de um modo geral. Uma pesquisa Gallup2 realizada em 2004, envolvendo 50.000 entrevistados em todos os continentes, mostrou que 46% dos europeus, 50% dos norte-americanos, 82% dos africanos e 87% dos latino-americanos -dos quais 80% dos brasileiros- no confiam em seus polticos. Essa avaliao negativa, embora diga respeito especificamente figura do poltico profissional, termina sendo transferida em parte para a instituio legislativa, pois o Parlamento uma das arenas mais visveis da atuao poltica. Por sua vez os gatekeepers,3 alegando critrios de noticiabilidade, de um modo geral preferem publicar ou veicular matrias negativas (escndalos, corrupo, polmicas, disputas partidrias e individuais) que terminam projetando uma imagem caricatural em detrimento de informaes mais tcnicas ou rotineiras sobre o processo legislativo. O resultado desta deciso editorial um provvel efeito de agenda-setting,4 com a agenda da mdia formatando a agenda do pblico e vice-versa, num efeito circular que tende a reforar e sedimentar esteretipos e preconceitos contra a atividade parlamentar.

Comparando o jornalismo poltico brasileiro com o norte-americano, podem ser feitas trs afirmaes preliminares, todas apontando fortes similaridades: na cobertura jornalstica, tanto na imprensa escrita quanto na eletrnica, tm como foco principal o Poder Executivo (Presidncia e ministrios); na cobertura legislativa, a imprensa tem como foco predominante os membros do Congresso, relegando ao segundo plano a instituio; e a imprensa, ao enquadrar de forma negativa os membros do Congresso, termina, por extenso, enquadrando negativamente a prpria instituio.

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