O SAMBA: cantando a histria do O Brasil e a construo de sua identidade Uma boa via para quem quer conhecer a histria do Brasil, luz dos acontecimentos

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OSAMBA:cantandoahistr iadoBrasil1MaraNatrciaNogueira2Resumo: neste artigo, pretendese sugerir que o samba, um gneromusicalbrasileiro,capazdecontarahistriadoBrasil,pormeiodeumvis mais original, mais criativo emais autntico. Partese da premissasegundoaqualumacompreensomaisampladatrajetriaedaidentidadedo povo brasileiro, pode ser obtida com as letras dos sambas pois, asmesmas, procuram retratar um Brasilmais brasileiro .A pretensodoartigo a de mostrar que, se, de um lado, o samba vem cantando oencontrodasdiferentesculturasedamiscigenaopeculiarque,noBrasil,foram capazes de produzir uma originalidade tpica que deve serpreservada,deoutrolado,osambatambmtemsidoummododecontarahistriadopovobrasileiro,naperspectivacrticadomodelodecolonizaoquenosfoiimposto.Palavraschave: samba, identidade cultural, identidade nacional,miscigenao,colonizao.ParacantarsambaNoprecisoderazoPoisarazoEstsemprecomdoisladosAmortematofaladoMasningumseguiuNemcumpriuagrandeleiCadaqualAmaasiprprioLiberdade,igualdadeOndeest?NoseiMoranafilosofiaMorou,MariaMorou,Maria31 Texto elaborado para fins de participao no III Concurso: Negros na Sociedade e na Cultura Brasileiras Construindo uma nova conscincia, sob a orientao da Prof Ms. Carmelita Brito de Freitas Felcio,promovido peloCentroAfroBrasileiro deEstudos eExtensoCEAB UniversidadeCatlicadeGois, emmaiode2006.2GraduadaemRelaesInternacionaispelaUniversidadeCatlicadeGoisUCG.2OBrasileaconstruodesuaidentidadeUmaboaviaparaquemquerconhecerahistriadoBrasil,luzdosacontecimentosque remontam colonizao, chegando at os nossos dias, bem como, compreender odesenvolvimento poltico das estruturas governamentais a que este pas se submeteu parachegaraserumaRepblicaesetornarindependentecomsoberaniaelegitimidade,aquelaquepercorrea trajetriadosamba4.Retratandoosacontecimentosdenossahistriadeumaformaaumstempocriativaeoriginal,osambacantaumaoutrahistria,pormeiodaqualpossvelconheceromododevidadecadapovoqueaquisefixou,seuscostumesevalores,suastradies,suamaneiraprpriadebuscaragarantiadaliberdadeedesefazerrespeitarapartir de caractersticas de pertencimento que constituem a identidade cultural prpria dosgruposresponsveispelaformaodopovobrasileiro.O samba um caminho que possibilita uma leitura crtica para conhecermos umpouco mais as peculiaridades desses povos. A histria do samba uma evocao de umpassadointegradonahistriadoBrasil(ALVES,1976,p.13).Oencontrodessesvriospovosprovocou uma miscigenao muito peculiar, pois que, alguns vieram para este pas comomercadoriasosescravosoutroscomoconquistadoresedonosossenhoresportuguesesoutrosvieramparabuscarrefgioemumcontinentenovo, enquantoque,outrosaspiravamencontrar melhores oportunidades de vida em uma terra habitada por numerosos gruposindgenas, antes de sermos submetidos ao processo colonizador. Assim, comopensar queesseencontrodepovosedeculturastenhapropiciadoaformaodeumanao,anaobrasileira,pormeiodeumamisturaumtantoquantoespecialepeculiar?Sobreestaproblemtica,fazsenecessrioteceralgumasconsideraesarespeitodoelemento central que distingue os povos, qual seja, a identidade. O conceito de identidadefuncionacomoobalizadorquandosujeitosdiferentesculturalmentepassamaconviveremumespaocomum. luz do conceito de identidade,possvelperceberasdiferenasdecadacultura,perpassadaspelosvalores,costumesetradiodecadauma.Para o antroplogoClaudeLviStrauss, a identidade uma entidade abstrata semexistnciareal,muitoemborasejaindispensvelcomopontodereferncia(LVISTRAUSS3 SambadePartidoAltodenomeFilosofiadoSamba, docompositorCandeia,gravadoporPaulinhodaViolaem19 71.PartidoAlto sambascom letras improvisadas,queaparecemcomlinhameldicaspoucovariveis,reforadasporestribilhocoralepalmascadenciadas.Segueaestruturatpicadascanesdobatuquetradicionalangolano,definioreferidanaRevistadeHistriadaBibliotecaNacional,RiodeJaneiroRJ,Ano1,n08,p.27,2006.4 Gnero musical que nasce numa adaptao das razes da cultura africana, atravs dos sculos e datransplantao do termo umbigada ou semba, chegando ao Brasil onde se estabelece sua forma definitiva(ALVES,1976,p.15).3apudORTIZ, 1985,p. 137). Emnvel individual, a identidade, nos termos emqueCarlosRodriguesBrando adefine, umconceitoqueexpressaasubjetividadedo indivduoque,por sua vez, revestida de contedo social. Assim, a identidade pode ser vista comoumsentimentopessoaleaconscinciadapossedoeu,deumarealidadeindividualqueacadaumdens torna,diantedosoutroseusumsujeitonico.Aprpriacodificaosocialdavidacoletivaseencarnanosujeitoe lheimpeasuaidentidade.Assinalaparaeleumlugar,umfeixedepapis,umnomequeseu,desuafamlia,desualinhagem,daquiloqueelecomosujeito(BRANDO,1986,p.37).A identidade seria, ento,umpontode intersecoentreoeueooutro,entreoindivduo e a sociedade, seria o reconhecimento de ser quem se , e esta realidade quepossibilita aos outros reconhecerem no sujeito o que ele . Para Renato Ortiz (1985), aidentidadeconstituisenumadasprincipaismediaesentreoindivduoeaestruturasocial,porsintetizarosaspectospsicolgicosesociaisquenospermitemdizer:quemoindivduoeque sociedade esta onde ele vive. A identidade aquilo que voc , suas caractersticasprprias, exclusivaseconscientesaalteridadeaquiloquevocaosolhosdosoutros.Aalteridade compe a identidade namedida emqueasexpectativasdooutro influenciamoudeterminam o que entendemos por ns mesmos. As identidades so, como se v,representaes inevitavelmente marcadas pelo confronto com o outro. Assim, ela no apenas o produto da oposio por contraste, mas o prprio reconhecimento social dadiferena.umacategoriaqueatribuisignificadosespecficosatiposdepessoasemrelaoumascomasoutras.Osentimentogeradoapartirdaconstruopessoalesocialdeumgrupo,queresultanaqualificaoqueestegrupovaidarasiprpriosintetizandoummododeserprprio,quepensa segundo seus valores e preceitos, que sente de acordo com os seus padres deafetividade/interatividadeequeorientasuacondutaconformeaimagemcomqueogruposereconhece enquanto unidade social diferenciada (uma tribo, uma nao, uma minoria, umpovo,umaclasse...),oqueaAntropologiadenominadeidentidadetnica.Assim, a identidade de umgrupo tnicoconstrise pormeio da afirmao de umapeculiaridade cultural, diferenciada de outros que, por estarem historicamente unidos porlaosprpriosderelaescomoasfamiliares,asredesdeparentes,oscls,asaldeiasetribos,eporviveremesereconheceremvivendoemcomumummesmomodopeculiardevidaerepresentaodavidasocial,estabelecemparaelesprprioseparaosoutrosassuasfronteirastnicas,oslimitesdesuaetnia,configurandoofenmenoque,emAntropologia,chamadodeetnicidade.4A identidade cultural dosujeito, nodecorrerdahistriadaculturaocidental,vempassando por distintas definies. A concepo Iluminista preconizava a existncia de umsujeitoprovidodeidentidadefixaeestvel,dotadodascapacidadesderazo,deconscinciaedeao.Essa identidade semanifestavaquandodoseunascimentoedurantesuaexistnciapermaneciainalterado.Numoutromomentodahistria,aidentidadedefinidanarelaodosujeitocomoutrosquesemostrassemimportantesaeleosujeitosociolgico,ondeoncleointerior do sujeito no era autnomo e autosuficiente. Nessa relao, o sujeito passa aestabelecerseusvalores,sentidosesmbolos,denominadosdecultura,domundoquehabitar.Aidentidade,portanto,formadanainteraoentreoeueasociedade(HALL,1997,p.11).Quantoaoconceitodeidentidadenacional,fazsenecessrioressaltaracercadopapelque estacumpre, comoconciliadora dasdiferenas na perspectivada formao daunidadeidentitriadeumanao,apartirdeumpadrohomogneo.Aculturanacionalcompostadeinstituies culturais, de smbolos e representaes. Ela se forma a partir de trs aspectosinterrelacionados:anarrativadanaocontadaerecontadanashistriasenasliteraturasnacionaisenaculturapopularasorigensnatradioenaintemporalidade,ondeoobjetivo inspirarvaloresenormasdecomportamentospormeiodacontinuidadecomumpassadohistrico adequado e o mito fundacional o qual responsvel por contar a histria quelocaliza a origem da nao, do povo e do seu passado num imaginrio longnquo (HALL,1997,p.50).Umprimeiroparmetroderefernciaanaltica,paratentarcompreenderatrajetriadeconstruodanossaidentidadenacional,podeserencontradonomodernismobrasileirodosanos 20. ParaRenatoOrtiz (1985)soduasas fasesquecaracterizamessemovimento.Naprimeiradelas(19171924),apreocupaoestticaeomodeloaEuropadosculoXIX,com o estabelecimento da ordem burguesa, que assim se expressa: i) autonomizao dedeterminadas esferas (arte, literatura, cultura entendidacomocivilizao) ii) surgimentodeum plo de produo orientado para a mercantilizao da cultura (bens culturais) iii)mudanasemnticanotocantearteecultura.Aarte,antesvistacomohabilidade/arteso,agora,aqualificaoligadanoodeimaginaoecriatividade:umnovovocbuloencontradoparaexprimira arte: esttica.Aculturaque,antes,associavaseaocrescimentonaturaldascoisas,agora,passaaencerrarumaconotaoqueseesgotanelamesmaeseaplicaaumadimensoparticulardavidasocial,sejaenquanto modo de vida cultivado, seja como estado mental do desenvolvimento de umasociedade.5A2fase(apartirde1924)estendeseatosanos50,comaelaboraodeumprojetode cultura mais amplo que se expressa luz da questo da brasilidade. Expressam esseprojeto: a arquitetura de Niemeyer o teatro de Guarnieri o desenvolvimento do ISEB(Instituto Superior de Estudos Brasileiros, fundado em 1956) a literatura de Oswald deAndrade(ManifestoAntropofgico).Umoutroparmetrodebuscadeumadefiniodaidentidadenacional,detentativade definio de nossa brasilidade, pode ser buscado no ideal daqueles que pensaram oBrasil:SrgioBuarquedeHolanda,comas razesnacordialidadedobrasileiroCassianoRicardo (bondade), Silvio Romero que definiu seu mtodo como popular e tnico(brasileirocomoraamestia).Outrosautorestomameventoscomoocarnavalouandolemalandraparadefiniremosernacional.Todasasdefiniesprocuramatribuiraobrasileiroumcarterimutvelmaneiradeumasubstnciafilosfica.Mas,aperguntaaserfeita,qualaideologiasubjacenteaoprojetodeconstruodaidentidadenacional?SegundoOrtiz(1985),apartirdosanos50,odebategiraemtornodaseguinte questo: sem ideologia do desenvolvimento no h desenvolvimento. Assim, odesenvolvimentoeamodernizaoseidentificamcomoelementosdeumaidentidadequesepretendeconstruir:umaidentidadenacional.Nocontextodeumasociedade industrializada,modernidade e nacionalidade articulados formam a racionalidade capitalista. Mas, se aconstruo nacional da identidade, contrapese s foras oligrquicas e conservadoras doimperalismointernacional,oquedignodenotaque,nessadiscusso,aausnciadaculturapopularrevelaclaramentequeonacionalnopopular.Segundo Ortiz (1985), se tomarmos como exemplo a obra deGilberto Freyre, umcrticodamodernidade,veremosquesocaractersticasdasuaobra:aretrataodarealidadebrasileira luzdacasagrande/senzalaaatitudesenhorialopeseordemindustrialqueseimplantaapartirde30napolaridadeentreotradicionaleomoderno,avalorizaodaordemoligrquica.Hdesenotar,tambm,ocontrasteentreSoPauloeonordeste.EnquantoSoPaulo a representao da cidade, da locomotiva, da burguesia industrial, do gosto pelotrabalhoedarealizaotcnicaeeconmica,asimagensdoNordestesoconstrudasapartirda terra, do campo, dos habitantes telricos e tradicionais e por isso representam o tipobrasileiroporexcelncia. luz dessas consideraes, possvel perceber, ento, que o Estado Nacional5,fundado na soberania popular uma totalidade que dissolve a heterogeneidade da cultura5 Mais referncias sobre a discusso envolvendo o papel do Estado na construo da identidade cultural ver:ORTIZ(1985),especialmenteoltimocaptulo:Estado,culturapopulareidentidadenacional.6brasileiranaunivocidadedodiscursoideolgico.atravsdeumarelaopoltica,portanto(viaEstado),queseconstituiassimaidentidadenacional,comoconstruodesegundaordemqueseestruturanojogodainteraoentreonacionaleopopular,tendocomosuporterealasociedadeglobalcomoumtodo.Nesse contexto, as caractersticas culturais costumes, tradies, sentimentos depertencimentoaum lugar, lnguaereligio dospovosquenoBrasilsefixaram,provocouumamisturaderaasoriginalepeculiar.Aalegoriastrsraasndios,negros,brancos eosurgimentodeumamiscigenaobrasileira,se,deumlado,passaasignificaraverdadeiraediferencialriquezaculturaldestepas(DAMATTA,1987,p.37),poroutrolado,omitodamestiagem, ao incorporar os elementos ideolgicos que esto na base da construo daidentidadenacional,colocaumproblema paraosmovimentosnegros:Namedidaemqueasociedadeseapropriadasmanifestaesdecoreas integranodiscurso unvoco do nacional, temse que elas perdem sua especificidade. Temseinsistidomuitosobreadificuldadedesedefiniroqueonegro noBrasil.Oimpasseno simplesmente terico, ele reflete as ambigidades da prpria sociedadebrasileira.Aconstruodeumaidentidadenacionalmestiadeixaaindamaisdifcilo discernimento entre as fronteiras de cor. Ao se promover o samba ao ttulo denacional,oqueefetivamenteelehoje,esvaziasesuaespecificidadedeorigem,queeraserumamsicanegra(ORTIZ,1985,p.43).AmiscigenaoquefazanossadiferenaA miscigenao que germina no seio de uma convivncia no espontnea, passa acomporumcenrioquetocaparticularmentenascaractersticasregionais,quandosetratadepensaraformaodopovobrasileiro.MartinhodaVila,cantorecompositor,pormeiodeumsambaenredo6 intituladoQuatroSculosdeModaseCostumes7reportaseaesseaspecto:AViladescecoloridaParamostrarnocarnavalQuatrosculosdemodasecostumesOmodernoeotradicional6 Segundo NAVES, Santuza Cambraia. Almofadinhas e Malandros, p.22 27. In: Revista de Histria daBibliotecaNacional,RiodeJaneiroRJ,p.27, 2006 sambaenredoumamodalidadeemque letraemelodiasocriadasapartirdeum temaescolhidocomoenredodeescoladesamba.OsprimeiroseramfeitosnoRiodeJaneiro demaneira livre e tratavam da realidade dos sambistas e de seumeio.Apartir dos anos 1930, com ainstitucionalizaodasdisputasentreescolas, essessambaspassaramanarrarepisdioseaexaltarpersonagensdahistrianacional.HojedootomaosdesfilesdoRiodeJaneiroedeescolasdeoutrascapitaisdopas.7QuatrosculosdeModaseCostumes,docompositoreintrpreteMartinhodaVila.In:MartinhodaVila,RiodeJaneiroRJ,RCAS/A,1969,discoLP, lado1,faixa2.TratasedeumsambaenredoquefoiparaaavenidacomaescolaUnidosdeVilaIsabeldeNilpoles,em1969.7Negros,brancos,ndiosEisamiscigenaoDitandoamoda,fixandooscostumesOsrituaiseatradioAmiscigenao,aocriarmodelosidentitriosquevocomporoselementosculturaisconstitutivosdascaractersticasdopovobrasileiro,cria,tambm comopossveldetectarnosambadeMartinhodaVila,ascondiesparaque,costumes,rituaise tradiespassemaconviver com o que da ordem dos modismos. Assim, o sambista reconhece que amestiagem tantopodeserumelementodecoeso,comotambmdedisputaentreostiposbrasileiros:EsurgemtiposbrasileirosSaveirosebateadorOcariocaeogachoJangadeiroecantadorNo mesmo samba, Martinho coloca lado a lado as figuras do negro e do branco,realando,assim,ocarterdaconvivnciaintertnica.Mas,hdeseobservarqueosambistachamaaateno, tambm,paraoproblemadasrelaesdeclasse.Oqueapareceassociadoao branco um elemento que valoriza a sua condio, qual seja, a elegncia das damas,enquantoque,oqueaparecevinculadoaonegrosimplesmenteafiguradamucama,semumadjetivoquepossacaracterizlapositivamenteenquantotal.LvemonegroVejamasmucamasTambmvemcomobrancoElegantesdamasAindanomesmosamba,possvel identificaraconfiguraodeoutrosparmetroseelementosqueremetemaoscostumesregionaiscaracterizadospeladiversidadedosritosedasmanifestaesculturais:DesfilammodasnoRioCostumesdoNorteEadanadoSulCapoeira,desafios8FrevosemaracatuLaiarai,LaiaraiFestadameninamoaNatribodosCarajsCandomblsldaBahiaOndebaixamosorixsComo conseqncia da mistura de raas, o Brasil se v confrontado com umamestiagem a um s tempo peculiar e ambgua, como jmencionamos antes. Tratase desaber, ento, em que consiste essa peculiaridade e essa ambigidade. Na linguagem dascinciassociaiseluzdacompreensoscioantropolgicadoconceitodemestio,desdehmuito, este deixou de ter razes especificamente biolgicas, para aterse aos dadospropriamente sociaisdasclassificaestnicoclassistasusadaspordiferentesgrupossociaisemdiferentescontextos(DICIONRIODECINCIASSOCIAIS,1987,p.74849).Emquepese,porm,nocontextobrasileiro,umatendnciarepresentadaprincipalmenteporGilbertoFreire, de destacar o papel integrador da mestiagem, tratandoa como uma caractersticaespecfica da colonizao portuguesa e tendente a afirmar os valores de uma nacionalidadeque,emboranova,integraosvaloresdasdiferentesetniasmestiadas,oqueimportaressaltar o fator de integrao que a mestiagem promove, ao permitir ao brasileiro se pensarpositivamenteasiprprio(ORTIZ,1985,p.43).Osamba:expressodeumcantoqueretrataumaoutrahistr iaNo tocantesaspiraese lutaspor liberdade, se recorrermosao samba,possvelidentificarletrasqueretratamcommaestriaalutadosnegrosparaselivrardocativeiro.UmexemplooclebresambadePaulinhodaViola,UmaHistriaDiferente8 :AhistriadessenegroumpoucodiferenteNotenhopalavrasParadizeroqueelesenteTudoaquiloquevocouviuArespeitodoqueelefez8UmaHistriaDiferente,sambadocompositoreintrpretePaulinhodaViola.In:PaulinhodaViola,RiodeJaneiro RJ,EMI ODEONBrasil,1978,discoLP,ladoA,faixa6.TratasetambmdeumSambaenredo.9ServeparaocultaraverdademelhorescutaroutravezA imagem do negro, quantas vezes associada de um povo fadado submisso edesprovidodecivilidade,contrapostaporPaulinho,aindanestemesmosamba,deummodoqueretratanossaheranaescravagistae,aomesmotempo,aslutasderesistnciadosnegrosnoBrasil:FoiumbravonopassadoQuandoresistiucomvalentiaParaselivrardosofrimentoQueocativeiroinfligiaOsignificadodaresistnciaaparece,ainda,ligadocontribuiodosnegroshistriade formao do povo brasileiro. Pormeio da arte, da religioe at da culinria,osnegrosforam disseminadores dos valores da tradio, ao mesmo tempo em que imprimiram osentimentodeliberdade,talcomocantadonestemesmosamba:EapesardetodaopressoSoubeconservarosseusvaloresDandoemtodosossetoresdanossaculturaAsuacontribuioGuardacontigoOquenomaissegredoQueessenegrotemhistria,meuirmoPrafazerumnovoenredoOcompositorAurinhodaIlha,emHistriadaLiberdadenoBrasil9,interpretadopor Martinho da Vila, tambm procura resgatar os fatos histricos ligados s lutas porliberdade,resgatandoaspersonagensqueestiveramfrentedaresistnciaopresso:QuemporacasoforfolhearaHistriadoBrasilVerumpovocheiodeesperanaDesdecrianaLutandoparaserlivreevaronilDonobreAmadeuRibeira9HistriadaLiberdadenoBrasil, sambaenredo,docompositorAurinhodaIlha, intrpreteMartinhodaVila.In:RosadoPovo,SoPaulo SP,RCAEletrnicaLtda,1976,discoLP,ladoA,faixa4.10OhomemquenoquisserreiAManoel,obequimoQuenoMaranhoFezaquilotudoqueelefezNosPalmaresZumbi,umgrandeheriChefiaopovoalutarSparaumdiaalcanarLiberdadeQuemnoselembraDocombateaosEmboabasEdachacinadosmascatesOamorqueidentificaOherideVilaRicaNaBahiasoosalfaiatesEscrevemcomdestemorComsangue,suoredorAmensagemqueencerraodestinoDeumbommeninoO samba Como EraVerde oMeuXing 10, ao cantar as belezas danatureza,notempoemoverdeeramaisverde,numaalusoaostemposprcoloniais,canta,tambm,aliberdadedosndios,quandoestesaindaeramossenhoresdasterras.EmolduradoempoesiasComoeraverdeomeuXing,meuXingSuaspalmasquebelezaOndeencantavaouirapurPalmeiras,carnabas,seringaisCerrados,florestasematagaisOh,sublimeOh,sublimenaturezaAbenoadapelonossoCriador,CriadorQuandooverdeeramaisverdeEondioeraosenhorCamaiur,calabarecaicurCantavamosdeuseslivresnoverdeXing10ComoEraVerdeoMeuXingu, doscompositores:DicodaViola,PaulinhoMocidade,TiozinhodaMocidadeeAdil.In:Recompensa(discoMixPromocional),RiodeJaneiro RJ,FonobrsDistribuidoraFonogrficaBrasileiraLtda,1985,discoLP,lado2,faixanica.SambainterpretadoporMaralfoiparaaavenidacomaescolaMocidadeIndependentedePadreMiguelem1983.11A colonizao que nos foi imposta e a referncia aculturao sofrida pelos povosindgenas retratada nestemesmo samba que tambm canta a revolta invaso sofrida.possvel, ainda, identificar neste samba um apelo preservao ambiental e unio dospovosdaflorestaque,mais tarde, seriaolemadeChicoMendesedomovimentopolticopelapreservaodaAmaznia.MasquandoQuandoohomembrancoaquichegouTrazendoacrueldestruioAfelicidadesucumbiuEmnomedacivilizaoMas,menaturezaRevoltadacomainvasoSeuscamaleesguerreirosComseusraiosjusticeirosOscarabasexpulsaroDeixeanossamatasempreverdeDeixeonossondioterseucho luz dos sambas que cantam o que estamos chamando aqui de outra histria,valeria interrogaro lugardo termocivilizao, remetidoaosacontecimentoshistricosdaformao do povo brasileiro, uma vez que, emnome de um projeto de civilizao, povosinteiros foram dizimados, enquanto outros foram totalmente subjugados. Atentemonos,ento,aosdoissignificadosbsicosnorteadoresdadefinioqueestamosbuscando:No primeiro, a civilizao considerada como uma forma de cultura, ondecivilizao e cultura so sinnimos, quando a cultura se apresenta com expressivograu de complexidade caracterizada por elementos e traos qualitativamentemaisadiantadosequepodemsermedidosporalgunscritriosdeprogresso.Nosegundo,civilizao e cultura se contrastam, culturamudaseusignificadoparapassara seras idias e criaes humanas relacionadas com mito, religio, arte e literatura,enquanto que a civilizao fica sendo o campo da criatividade humana relacionadacomtecnologiaecincia.(DICIONRIODECINCIASSOCIAIS,1987,p.189).Desdeo finaldo sculoXVIIIe inciodo sculoXIX,humconsensoemtornodaidiadequecivilizaodiz respeitoauma formadeculturadiferentedeoutras,emtermosqualitativos. Explicase esse fato fundamentandose na justificativa de que civilizaosignificava o prprio ato de civilizar povos noocidentais, levandoos a assimilarem osmesmosvalores e costumes dos europeus.Esse fenmenoqueaantropologiadenominadeetnocentrismo,marcou,comobemosabemos,oprocessodecolonizaodoBrasil.12Pormeioda imposiodemodelosculturaiseuropeus, implantousenoBrasilumavisodemundonaqualoqueeraconsideradoomelhoreomaiscorreto,estariamligadosaosvalores europeus e, dessa forma, todos os outros passaram a ser avaliados luz dosparmetrosdaculturaeuropia.Ora,atendnciadohomememveromundoatravsdesuaculturavisoetnocntricatraduzsenumfenmenouniversal,ondehacrenadequeaprpria sociedade seja o centro da humanidade. Assim, a humanidade deixa de ser arefernciaemdetrimentodeumgrupoparticular.Oproblemaque,taiscrenascontmogerme,doracismo,daintolerncia,e,freqentemente,soutilizadasparajustificaraviolnciapraticadacontraosoutros(LARAIA,2003,p.7273).Umcontraponto,porm,ideologiadoetnocentrismo,podeservislumbradaluzdosambaquetraduz,comoprocuramosdemonstrar,oidealdeliberdade,aalegriaearesistnciadopovobrasileiro.Contudo,osambadacidadeeosambadomorro,aindaquetenhamsidoapropriados como smbolos da identidade nacional, so uma promessa de dilogointercultural, no sentidode reciprocidadeedeconvivncia intertnica,capazesdepromoveruma manifestao autntica das culturas populares, enquanto expresso da pluralidadeculturalexistentenouniversobrasileiro.Osambacomoumsmbolonacional,nadcadade1930eemvriaspartesdomundo,exaltavaosucessoqueestegneromusicalalcanavanaAmricadoNorte,atravsdavozedafiguramarcantedeCarmemMiranda,comosepodeveremBrasilPandeiro 11OTioSamestquerendoconheceranossabatucadaAndadizendoqueomolhodabaianaMelhorouseupratoVaientrarnocuzcuz,acarajeabarNaCasaBrancaJdanouabatucadaComioieiaiBrasilEsquentaivossospandeirosIluminaiosterreirosQuensqueremossambarHquemsambediferenteNoutrasterras,outragenteNumbatuquedematar11BrasilPandeiro,docompositorAssisValente,intrpreteAnjosdoInferno.In:BrasilPandeiro AnjosdoInferno,SoPaulo SP,RCAS/AEletrnica,1971,discoLP,lado2,faixa5.13BatucadaReunivossosvaloresPastorinhasecantoresExpressesquenotmpar.12guisadeconclusoeretomandoonossopontodepartida,podeseafirmarqueotemadaidentidadeculturalarticuladoriquezadasexpressesmusicaisqueserevelampormeio do samba, se por um lado, pe em questo: quem somos ns? por outro, como seprocuroumostrar,asidentidadestnicassoumpotencialricodeanlise,paraseentenderasrelaes entre o particular e o universal, buscandose assim novos caminhos para osrelacionamentossociaisehumanosnestestemposdeglobalizao.Porisso,nadamelhordoqueesseexerccioantropolgicoderefletirsobreaconstruodasidentidadesnoBrasilpormeiodeumadesuasmaisvivasexpresses:osamba.ComoensinaLviStrauss,cada cultura desenvolvese graas a seus intercmbios com outras culturas, mas necessrioquecadaumaoponhacertaresistnciaaisso,casocontrrio,logonoternada que seja propriedade particular para trocar. A ausncia e o excesso decomunicaotemumeoutroseusriscos(apudSOUZA,1998,p.5051).porissoque,calarosambaapagarahistriareal,aoutrahistria,depaixeselutas, de conquistase perdas, de derrotas e vitriasdopovobrasileiro.Calaro samba,poroutro lado, pode obstruir o processo de abertura por meio do qual o nosso pas poderelacionarsecomoutroseofereceroqueeletemdemelhor:suaarte,suacultura,seusensoesttico,suacriatividade,expressoquenotempar.RefernciasALVES, Henrique Losinskas. Sua Excelncia O Samba, 1976, 2 ed.. So Paulo, ed.Smbolo.BRANDO, Carlos Rodrigues. Identidade & etnia construo da pessoa e resistnciacultural.SoPaulo:Brasiliense,1986.DICIONRIO DE CINCIAS SOCIAIS / Fundao Getlio Vargas, Instituto deDocumentaoBenedictoSilva,coordenaogeralAntnioGarciadeMirandaNeto.../etal./2ed.,RiodeJaneiro:EditoradaFundaoGetlioVargas,1987.XX,1422p.14DAMATTA,Roberto. Digresso:AFbuladasTrsRaas,ouoProblemadoRacismoBrasileira.In:Relativizando:UmaIntroduoAntropologiaSocial.RiodeJaneiro.EditoraRocco,1987,Cap.7,pp.5885.FREIRE, Gilberto. Casa Grande Senzala. 4 ed. Rio de Janeiro, Jos Olmpio, 1943. In:DICIONRIO DE CINCIAS SOCIAIS / Fundao Getlio Vargas, Instituto deDocumentaoBenedictoSilva,coordenaogeralAntnioGarciadeMirandaNeto.../etal./2ed.,RiodeJaneiro:EditoradaFundaoGetlioVargas,1987.XX,1422p.HALL, Stuart.A IdentidadeCultural naPsModernidade.TraduodeTomzTadeudaSilvaeGuaciraLopesLouro.RiodeJaneiro.DP&AEd.,1997.LARAIA,RoquedeBarros.Cultura:umconceitoantropolgico.RiodeJaneiro:JorgeZaharEd.,2003.NAVES,SantuzaCambraia.AlmofadinhaseMalandros.In:RevistadeHistriadaBibliotecaNacional,RiodeJaneiroRJ,p.2227.Ano1,n08,fevereiro/maro2006.ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. 3a. ed. So Paulo: Brasiliense,1985.SOUZA, Maria Luiza Rodrigues. Globalizao: apontando questes para o debate. 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