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O recheio desaparecido do palcio do Marqus de Pombal, em Oeiras1

Jos Meco(Escola Superior de Artes Decorativas / Fundao Ricardo Esprito Santo Silva)

O actual Palcio Pombal, em Oeiras teve origem num primitivo solar joa-nino, construdo cerca de 1715-1730 por Paulo de Carvalho e Atade, arcipreste da S de Lisboa, o qual hoje forma o corpo central do edifcio. Esse solar e alguns dos terrenos adjacentes foram herdados em 1737 pelo seu sobrinho, Sebastio Jos de Carvalho e Melo, futuro 1 Conde de Oeiras e 1 Marqus de Pombal, juntamente com outras propriedades que pertenceram aos seus pais e sua pri-meira mulher. Com o apoio dos irmos, Paulo de Carvalho e Mendona e Fran-cisco Xavier de Mendona Furtado, Sebastio Jos de Carvalho engrandeceu a propriedade, tornando-a uma das mais vastas e grandiosas da regio de Lisboa, destacada pela criao de animais e pela produo de seda, frutos, cereais, azeite e, muito especialmente, pelo vinho de tipo Carcavelos, de que o Marqus foi na altura o maior produtor (com as vinhas situadas no espao da actual Nova Oeiras, sendo a adega a mais monumental do gnero existente em Portugal), o qual tinha fama de ser, nessa poca, o melhor vinho da Europa2.

Neste processo, em especial aps receber o ttulo de Conde de Oeiras, em 1759, paralelamente criao do Municpio de Oeiras, Sebastio Jos de Carva-lho ampliou o palcio existente, designado por Quarto Velho, antecedendo-o pelo ptio de entrada e o corpo baixo da casa da guarda e acrescentando-lhe lateralmente a Capela e o corpo trapezoidal conhecido por Quarto Novo, que duplicou a rea da construo. Nesta obra integram-se ainda a recomposio e engrandecimento dos jardins e a criao de um original espao fronteiro, com-preendendo uma parte privada (fontanrio, edifcio dos coches e cavalaria) e outra pblica, centrada pelo Pelourinho, defronte do edifcio da primitiva Cmara Municipal. Em toda esta obra desempenhou um papel preponderante o arquitecto hngaro Carlos Mardel, fundindo uma inspirao palaciana erudita com o racio-nalismo prprio da arquitectura pombalina ( semelhana da obra de Mardel na antiga Rua Formosa, ou Rua do Sculo, em Lisboa), e acrescentando-lhe uma certa ruralidade que acentua o carcter agrcola desta grande propriedade de re-creio e veraneio3.

At 1777, data da morte do rei D. Jos I e do afastamento para Pombal do Marqus, nunca pararam as obras de engrandecimento decorativo da proprieda-de (sendo perceptveis algumas partes incompletas, como na sala que antecede a Casa de jantar), onde decorreram situaes excepcionais, como a instalao da famlia real no edifcio, nos veres de 1775 e 1776 (para permitir a D. Jos I frequentar as guas termais do Estoril), durante os quais Oeiras foi o centro admi-nistrativo de Portugal, e a realizao de uma feira agrcola e industrial no recinto

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do palcio e nos jardins, a qual ter sido a primeira do gnero na Europa. Durante o sculo XIX e o incio do seguinte, a propriedade reflectiu a estagnao, com raras obras efectuadas e numerosos sinais de decadncia, que permitiram, con-tudo, ter chegado ao sculo XX praticamente sem alteraes significativas. Esta situao inverteu-se quando, em 1939, todo o recheio do palcio se dispersou e a propriedade foi vendida pela famlia Pombal ao jornalista Artur Brando. Este fez algumas modificaes discretas e instalou no palcio a sua prpria coleco de obras de arte, leiloada tambm nos anos 1950, quando o edifcio e os espa-os anexos foram adquiridos pela recm-criada Fundao Calouste Gulbenkian. Enquanto procedia construo da sua sede em Lisboa, a Fundao Gulbenkian realizou alguns restauros no palcio, nomeadamente de diversos tectos estucados, para permitir a apresentao de vrias peas da sua coleco de obras de arte, e reabilitou os jardins, segundo um projecto do Arquitecto Ribeiro Teles. Por volta de 1976, a Fundao Gulbenkian realizou o maior atentado que o palcio sofreu ao longo da sua histria, a destruio integral das coberturas originais, a obra de carpintaria mais notvel do gnero que existia em Portugal, substituda por uma estrutura de beto com um arremedo do telhado original, antes de ceder gratuita-mente o palcio ao Estado, para a instalar o Instituto Nacional de Administrao, onde se manteve at ao final de 2012, mesmo aps a compra recente dos jardins e do palcio Pombal pela Cmara Municipal de Oeiras. Nos campos de vinha foi construdo o bairro da Nova Oeiras, nos anos 1950, com um notvel projecto do Arquitecto Lus Cristino da Silva. Na Quinta de Cima, comprada pelo Estado, foi instalada a Estao Agronmica Nacional, incluindo, na parte poente, destacados edifcios representativos da transio do Estilo Estado Novo para a arquitectura Moderna, alguns desenhados pelo Arquitecto Jorge Segurado.

Apesar de muito delapidado e diminudo, todo este espao monumental do palcio, dos jardins e da antiga Quinta de Cima (ex-Estao Agronmica Nacio-nal, onde o Estado Portugus tem deixado degradar, ao longo de vrias dcadas, algumas jias artsticas, como o jardim e cascata da Casa da Pesca, a Fonte do Ouro ou o impressionante pombal) ainda hoje forma um extraordinrio conjunto arquitectnico, paisagstico e decorativo que ocupa uma posio primordial den-tro do patrimnio artstico e histrico portugus e apresenta imensas potenciali-dades a serem exploradas no futuro.

Torna-se mais difcil recriar as vivncias humanas destes espaos e recons-tituir o rico recheio que o palcio possuiu na poca do 1 Conde de Oeiras, o qual sofreu algumas transformaes no sculo XIX e dispersou-se quase na totalidade durante a primeira metade do sculo XX, restando ainda algumas peas destaca-das na posse da famlia Pombal. Diversos documentos e textos antigos, contudo, tm informaes que ajudam a dar uma ideia do ambiente da casa e da varieda-de desse esplio. Entre estes encontra-se a minuciosa Relao Fiel e Exacta de uma visita de D. Maria I s quintas de Oeiras, a 10 de Agosto de 1783, redigida pelo Morgado de Oliveira, Joo de Saldanha e Oliveira, genro do Marqus, que

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representou a famlia em substituio do 2 Marqus de Pombal, ausente no es-trangeiro. Este manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa4, transcrito por Te-resa Sena5, vrias vezes citada por Rodrigo Dias6, contm informaes preciosas sobre alguns hbitos da poca, como a descrio da merenda, servida na Casa do Jantar: que sobre achar-se alcatifada tinha um competente nmero de luzes e estava to bem ornada de aparadores e da mesma mesa que teve a felicidade de agradar aos Augustssimos Senhores que em si tinha. A mesa era servida em linda loua de Sve7, coberta com uma toalha com guardanapos irmos, cor-de--rosa e branco; estava coberta em ambigu e tinha por ornatos alm de diferentes figuras de bom gosto muitos vasos com flores do tempo, cujo principal ornato fazia o mais lindo possvel efeito ().

Outros dados deste documento so igualmente teis, em relao a espaos da quinta (escadaria nova do jardim virada para a cascata, Rua dos Loureiros, Jogo da Pela, Salto de gua e Cascata da Fonte do Oiro) e localizao de vrias divises do palcio, cujo andar nobre os visitantes percorreram, a partir da entrada principal e da escadaria exterior. Do Quarto Velho so referidas as dependn-cias centrais, a Sala de entrada e o Salo Nobre (ou Sala Chinesa), prolongadas para poente, respectivamente, pelas Salas do Bilhar e do Dossel (montado para a estadia de D. Jos), e uma pequena dependncia na extremidade poente deste corpo, o Gabinete dos Reis da Sardenha: logo depois das quatro horas chagaram Suas Majestades e entrando pela escada principal esperaram pelos Prncipes na Sala do Bilhar. Juntos todos os senhores viram a Casa do Docel e as pinturas mais estimveis que a ornam fazendo-lhes Eu as explicaes devidas. Viram o Gabinete e os retratos dos Reis da Sardenha; e entrando na Casa ou grande sala chinesa tiveram o prazer e gosto sensvel, gostando muito dela, e do seu ornato lembrou-se a Rainha de que seus Pais ali haviam estado ()8, seguindo depois para a Casa das Tribunas, onde oraram: A Capela estava com os seus mais pre-ciosos ornatos: os corpos dos Santos e demais Relquias expostos, os P.P. Cape-les com as suas sobrepelizes, e grande concurso do Povo, que tambm orava. A Famlia Real visitou a seguir as dependncias do Quarto Novo, referidas como a Casa Verde, a segunda Sala do Docel (ou de Diana), cujo dossel apresentava os retratos de D. Maria I e D. Pedro III, a Cmara armada de xita (Sala dos 5 Sentidos), a Casa do Cravo, (ou da Msica), demorando-se na dos Reis (Sala da Cincia e das Artes) acabando no Gabinete que se segue, vendo com vagar os trs Retratos da Imperatriz Rainha e dos Imperadores Pai e Filho e passaram depois pela Sala que tem o Painel da Concrdia a buscar a escada interior que desce para o Jardim.

No excelente texto sobre o palcio de Oeiras, publicado postumamente, Jos Queirs refere um inventrio do recheio deste, existente no arquivo da casa Pombal, o qual no chegou a utilizar, por este artigo ter ficado incompleto de-vido ao seu falecimento9. So possivelmente fragmentos deste inventrio alguns cadernos soltos (em papel de linho branco, formato almasso) de um Inventa-

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rio dos Moveis e Ornatos que ha no Palcio de Oeiras, mandado fazer pelo 1 Marqus de Pombal, adquiridos cerca de 1937 por um alfarrabista de Lisboa, no identificado, (juntamente com variados manuscritos avulsos), os quais foram divulgados por Cardoso Martha na revista Feira Ladra10, de que era director. Destes documentos interessante transcrever a relao.

MOVEIS DO INTERIOR DO PALACIO

Quarto NovoCasa do Patamal da Escada

4. Reposteiros grandes azuis com Armas da Caza bordadas, varoens de ferro, e 6 Xapas douradas, e lavradas.

Gabinete immediato

4. Painis de Historia Natural.3. Ditos dos Imperadores dAllemanha.1. Barra de ferro esmaltada com seu p triangular axaruado.1. Jarra da China guarnecida de lata dourado sobre a mesma banca.8. Tamboretes de palhinha pintados de a

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