o que é a maçonaria – princípios e valores fundamentais

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O que a Maonaria Princpios e valores fundamentais. Carlos Jaca Conferencia proferida no auditrio da Escola Secundria de Alberto Sampaio em 15 / 11 / 2002. Antes de mais, sinto-me na obrigao, e por o julgar conveniente, apresentar as razoes que, em minha opinio, justificaram o tratamento deste tema. No foi deliberadamente uma opo. Aconteceu. Ao receber, em finais de Junho, o semanrio Jornal de Coimbra, deparei com a seguinte notcia: O novo Gro Mestre da Maonaria, Antnio Arnaut, afirma que a Maonaria no que detm poderes ocultos em Portugal A ttulo meramente informativo, devo esclarecer que Antnio Arnaut para alm de ser um dos fundadores do Partido Socialista, foi fundador do Servio Nacional de Sade, Ministro dos Assuntos Sociais, e em Portugal um prestigiado especialista em Miguel Torga, tendo sido um dos seus maiores amigos. Diz o advogado e escritor conimbricense: H poderes ocultos que actuam em Portugal como verdadeiras ditaduras, na economia e na rea da comunicao social. H poderes ocultos, mas os poderes ocultos no so a Maonaria, observa, aludindo aos poderes ocultos econmicos e mediticos, que so aliados. No sei se a Maonaria detm ou no poderes ocultos, nem to pouco me interessa; quanto ao resto, s referncias aos poderes econmicos e mediticos, direi como dizem os italianos: se non vero bene trovato (Se no verdadeiro bem achado) Depois, bem, depois recordo que a partir do segundo quartel do sc. XVIII, a Maonaria passa a desempenha papel relevante na Histria e Portugal, particularmente em perodos de grandes convulses, que viriam a transformar profundamente o Pas, como tero oportunidade de constatar. Considerei, tambm, que a Maonaria, e em particular a Maonaria portuguesa ainda mal conhecida refiro-me sua histria e ao seu processo evolutivo. 1Embora no seja minha inteno formular quaisquer juzos de valor sobre esta instituio, posso garantir, que tenho para mim, como dado adquirido, o facto de a Maonaria dos nossos dias pouco, ou nada ter a ver com a Maonaria dos scs. XVIII e XIX e mesmo do primeiro quartel do sc. XX, quando era conspiradora, ou conspirativa, e revolucionria. Concluindo: Devo esclarecer que no sou maon, nem pro maon, mas to pouco sou, porm, antimaon no posso ser anti, de uma coisa que intrinsecamente, na sua essncia desconheo. Enfim, j agora, e para que no fique no ar qualquer dvida sobre este aspecto, porquanto j me foi posta a questo (extemporaneamente), devo dizer, e digo-o com toda a naturalidade, que me situo na rea da Igreja Catlica e Apostlica Romana. Posso afirm-lo com vontade, tanto mais que, como professor, deixei de existir, e assim, j no se pe a questo de poder , eventualmente, susceptibilizar as vrias convices dos alunos. A Maonaria, no me interessa e nunca me interessou como realidade do presente Interessou-me, sim, como fenmeno histrico, como objecto do conhecimento. Interessou-me, ou interessa-me, como elemento interventor, directa ou indirectamente, nos sucessos histricos, e, nomeadamente, no que diz respeito a Portugal. Este trabalho no , portanto, um libelo nem uma apologia. Constitui uma narrativa, e at certo ponto uma interpretao, mas o que pretendo, ser apenas informar para que, cada qual, possa fazer um juzo (o seu juzo) objectivo. . Maonaria vem provavelmente do francs maonnerie, que significa uma construo qualquer, feita por um pedreiro, o maon. A Maonaria ter assim como objecto essencial, a edificao de qualquer coisa. O maon, o pedreiro-livre, podendo traduzir-se, modernamente, por livre-pensador, ser portanto o construtor, o que trabalha para erguer um edifcio. Maonaria significa pois, construo. O maon pretende construir o seu prprio futuro, tornando-se um homem melhor. A Maonaria pretende construir o futuro da Humanidade, tornando-a mais justa e perfeita. Este 2objectivo est inscrito, como pedra angular, nas Constituies manicas do mundo moderno. A Constituio do Grande Oriente Lusitano, de 1926, define a Maonaria como uma instituio essencialmente humanitarista, procurando realizar as melhores condies de vida social. A Constituio em vigor, de 1985, aponta como seu escopo o aperfeioamento da Humanidade atravs da elevao moral e espiritual do indivduo. Os grandes valores da Maonaria esto sintetizados na sua divisa universal: Liberdade, Igualdade, Fraternidade Liberdade com ordem, Igualdade com respeito e Fraternidade com justia. A Maonaria portuguesa tem ainda por lema: Justia, Verdade, Honra e Progresso. A Maonaria no uma moral nem uma religio. Admite todas as crenas e pratica a moral universal, que tem por base a primeira de todas as virtudes: amar o prximo. A doutrina manica livre de todas as limitaes, escolas, teorias ou preconceitos. O livre-pensamento o nico caminho da procura da verdade e no pode, por isso, sofrer qualquer entrave. O livre-pensamento, ou livre-exame, pressupe a tolerncia e o respeito pelas ideias dos outros. essa a segunda virtude cultivada pelos maons. A crena numa sociedade mais perfeita a sua terceira virtude e a fora aglutinadora que, em todos os tempos e em todos os lugares, congregou os homens livres e de bons costumes para a tarefa, sempre inacabada, de construir a fraternidade universal. Este objectivo, verdadeira ideia-fora, exprime-se, na linguagem manica, por construo do Templo. Sendo a Maonaria uma organizao comprometida com o mundo, na medida em que pretende mold-lo pelos seus ideais, poder objectar-se que no se justifica a sua existncia nas sociedades democrticas modernas. No so os partidos o elemento privilegiado para realizar as transformaes poltico-sociais que os maons tanto desejam? Argumentam, porm, estes ltimos, que o objectivo essencial da Maonaria o aperfeioamento moral e espiritual dos seus membros e a defesa da moral universal. Esta funo escapa aos partidos e a outras organizaes, e assaz relevante numa sociedade cada vez mais desumanizada e mercenria, que perdeu quase todas as referncias tico- 3culturais e erigiu o dinheiro como valor supremo. Por outro lado, os partidos so, em geral, simples mquinas de conquista do poder, praticamente despojados dos seus princpios programticos por um carreirismo desenfreado e tentacular, que ameaa subverter o ideal democrtico. Ora, pertencendo ou simpatizando os maons com as vrias correntes partidrias, podero a, mais frutuosa e consistentemente, pugnar pela efectivao das reformas necessrias construo da nova sociedade. De facto, a Maonaria no intervm, e no deve intervir, como tal, na vida poltica. A sua influncia manifesta-se apenas indirectamente, atravs da aco individual e do exemplo dos seus filiados. E sendo a Ordem Manica um espao de dilogo fraterno entre pessoas de todas as ideologias democrticas, pode e deve continuar a desempenhar, por esta via, um papel importante no aperfeioamento das instituies, insuflando-lhes os valores morais que so o apangio de um verdadeiro maon. A Maonaria no aceita dogmas, pratica a tolerncia e respeita a liberdade absoluta de conscincia. O maon tem o direito de examinar e de criticar todas as opinies e de discutir todos os problemas, sem quaisquer peias ou limitaes. A Maonaria anti-dogmtica, tanto no aspecto poltico, como religioso ou filosfico. A poltica e a religio pertencem ao foro ntimo de cada um e no podem ser discutidas, salvo nos termos genricos j referidos, para no abalar a unio do povo manico, a instituio congrega pessoas de todas as crenas ou sem crena nenhuma, e de todas as ideologias no totalitrias. Assim, rotundamente falsa a acusao que vem dos tempos do Santo Ofcio e que foi retomada pela ditadura deposta em 25 de Abril de 1974 de que o maon, ou pedreiro livre, contra a religio. Muitos e ilustres membros da Ordem foram e so crentes e, at, bispos e cardeais. A Maonaria aceita, alis, a existncia de um princpio superior, simbolizado no Supremo Arquitecto do Universo, que no tem definio e que cada um interpreta segundo a sua sensibilidade ou convices. Para uns ser o Deus em que acredita, para outros o Sol, fonte da vida, a prpria natureza, a lei moral ou ainda resultante de todas as foras que actuam no universo. Esta ideia implica o respeito por todas as religies, pois todas so 4igualmente verdadeiras, sem prejuzo do necessrio combate ao fanatismo e superstio. Deste modo, a Maonaria uma casa de unio entre ateus, agnsticos e pessoas dos mais diversos credos, que no se discutem por pertencerem zona inviolvel da conscincia de cada um. Mas no se pense, ningum pensar, nem os prprios, que os maons so pessoas perfeitas; ao longo da Histria cometeram erros e mais erros. Origens e evoluo da Maonaria. Maonaria operativa e Maonaria ideolgica, especulativa ou filosfica. A Ordem da Maonaria antiga est envolta na nvoa dos tempos, das lendas e dos mitos. Sobre as suas origens tm-se gasto rios de tinta e escrito as mais fantasiosas histrias. Desde os mistrios de Elusis ao rei Salomo e Ordem do Templo, tudo tem servido a maons, desejosos de exaltar a antiguidade da Ordem, e a profanos, no menos desejosos de denegrir essa mesma Ordem, para escreverem patranhas e balelas, confrangedoras pela ingenuidade e ignorncia que revelam. Nos exageros de imaginao houve at quem a fizesse nascer no paraso terreal, tendo por primeiro Mestre Ado, ou, mais tarde, na poca do dilvio, na construo da Arca de No, o qual teria sido, neste caso, o primeiro Gro-Mestre. Historicamente apenas podemos afirmar que a Ordem Manica est ligada s corporaes de pedreiros da Idade Mdia. A religiosidade ento dominante exprimiu-se, sobretudo, na construo de templos e catedrais gticas, todas, de resto, semeadas de sinais manicos, como acontece, entre ns, na Batalha, em Tomar e nos Jernimos. 5 Os arquitectos e construtores desses monumentos tinham de ser dotados de profundos conhecimentos tcnicos, cientficos e artsticos. Surgiram, assim, corporaes de arquitectos, escultores, lavradores de pedra e operrios especializados. Para garantir o emprego da mo-de-obra associada, mantinham secretos certos processos tcnicos de trabalho profissional, servindo-se para comunicar entre si de formas vocabulares, sinais e toques esotricos, tendentes a assegurar o monoplio da sua arte qualificada. Tais conhecimentos eram interditos a elementos estranhos, pois a sua divulgao e entrada no domnio pblico implicava a perda de prerrogativas. Por isso, apenas eram transmitidos secretamente nas lojas (local de reunio dos maons) pelos mestres aos discpulos de reconhecida aptido e honorabilidade, aps um juramento solene. Assim surgiu a Maonaria operativa (de operrios construtores) e o segredo manico ou inicitico. Estas confrarias ou associaes de construtores, com o andar do tempo, foram perdendo a sua grandeza, sofrendo uma evoluo no decorrer dos scs. XVI e XVII. A Reforma de Lutero e o livre-pensamento dela emergente abriram fissuras no poder pontifcio de Roma. Uma nova classe, constituda principalmente pela burguesia, pela intelectualidade laica, por magistrados, universitrios, nobreza progressista e militares, submergiu a antiga casta catlico-romana. A Reforma vibrou, assim, um rude golpe nas corporaes de maons que, pouco a pouco, se foram extinguindo por ter cessado a febre da construo de templos. O ocaso da arte gtica marca tambm o declnio das corporaes de canteiros, embora persistissem vestgios delas, onde se manteve o gosto da cantaria lavrada, sobretudo nos pases da Europa do Norte at ao sc. XIX. Em 1703 s subsistiam na Inglaterra. E foi justamente a que provavelmente, para evitar o seu completo desaparecimento, a Loja de S. Paulo franqueou as suas portas a pessoas no iniciadas na construo. A viso ideolgica do mundo na Maonaria corporativa alterou-se, ento, completamente. 6 A nova situao e a filosofia dominante, contrria ao absolutismo e ao poder aristocrtico e clerical, impuseram a adopo de novos proslitos. Manteve-se, porm, a forma gremial iniciao, rito, segredo mas alterou-se o seu contedo e objectivos. A Maonaria operativa transformou-se em Maonaria filosfica ou especulativa, tambm conhecida por Franco - Maonaria. A arquitectura revestia sentido puramente alegrico. Em vez da ereco de catedrais de pedra, o ideal devia ser, agora, a construo de catedrais humanas, ou homens ideais, para honra do Grande Arquitecto Universal (Deus). As marcas e ferramentas da pedra lavrada (crculos, compassos, esquadros, etc.) tornavam-se, doravante, puros smbolos. O uso do avental retinha-se como sinal de trabalho. Em 1717, quatro lojas de pedreiros de Londres, organizaram-se numa espcie de federao a que dera o nome de Grande Loja, elegendo um primeiro Gro-Mestre como autoridade sobre todos os maons. Quatro anos mais tarde era redigido um primeiro regulamento e, em 1723, cometido ao pastor escocs James Anderson o trabalho de redigir umas Constituies (A Magna Carta da Maonaria) que todos aceitassem. Anderson, com a ajuda de vrios, incluiu no seu texto ainda hoje venerado e respeitado por toda a Maonaria , no s os deveres e os direitos dos maons, mas tambm a histria lendria da nova Fraternidade. Na dcada de 1720-1730 introduziram-se, por influncia ou impacte directo britnico, as primeiras lojas manicas em Frana. O ambiente do Sculo das Luzes era extremamente favorvel a tudo o que proviesse das Ilhas Britnicas, ento havidas como ptria da liberdade. Nas dcadas de 1720-1730 e 1730-1740, a Maonaria penetrou em toda a Europa e fora dela. Foi um avano de rapidez impressionante, que assustou sobretudo a Igreja. O Papa Clemente XII, logo em 1738, promulgou a primeira bula de excomunho contra os pedreiros livres. Mas a bula pouca impresso fez. Em 7alguns pases, nem sequer foi promulgada. O nmero de maons seguiu em aumento, para jamais se deter at ao sc. XX. que a Maonaria correspondia aos ideais e s preocupaes do tempo. Tornara-se igualmente numa moda, que o seu carcter secreto e misterioso propagava. Todo o aristocrata, todo o clrigo, todo o burgus bem -pensante aspirava a fazer parte da instituio, que lhe concedia foros de homem corajoso e avanado, cnscio dos problemas do tempo e desejoso de os resolver. Quando das Revolues Americana e Francesa, os pedreiros livres eram j aos milhares. Mas a aco directa da Ordem na feitura dos movimentos revolucionrios no est comprovada documentalmente, A Maonaria actuou por trs, nos bastidores, sobre o iderio e a actividade dos pedreiros-livres que, interessados noutras organizaes mais pragmticas lutaram seguindo a via revolucionria e poltica. Nos meados da centria de Setecentos foram institudas as chamadas lojas de adopo, destinadas s mulheres. Embora um dos landmarks britnicos fosse, exactamente, a exclusividade masculina, tentou ladear-se a questo por meio de sistema dito adoptivo. Qualquer loja regular adoptava uma loja feminina, que lhe ficava subordinada na essncia. As invases francesas dos finais do sc. XVIII e comeos do XIX contriburam para uma maior difuso dos princpios manicos e das lojas que, por toda a parte, se fundaram por influncia dos oficiais invasores, de Portugal Rssia e da Sucia ao Egipto. O regresso a regimes reaccionrios, que dominaram a Europa at meados do sculo, no enfraqueceu a Maonaria, antes a estimulou, por lhe dar uma razo de combate contra a opresso e a intolerncia. Uma das caractersticas fundamentais da Maonaria, quer no sc. XVIII quer no XIX quer no XX, parece ter sido quase sempre a de se encontrar numa posio de vanguarda, antecipando-se s conquistas polticas e sociais do tempo. No assombra, portanto, a ligao intima, muitas vezes existente, entre Maonaria e 8liberalismo monrquico, primeiro radicalismo republicano, depois e socialismo, por fim. Este avano da Maonaria no se processou, alis, sem dificuldades. Progressistas e conservadores travaram, no seio da Ordem, rudes combates, que terminaram, por vezes, na ciso e no cisma. Na segunda metade do sc. XIX, por exemplo, a questo da crena num Deus criador, e a sua identificao com o Supremo Arquitecto do Universo, dividiu os maons de todo o mundo. Tambm j no sc. XX, a Maonaria houve, por toda a parte, de sofrer perseguies demoradas, s comparveis, na sua violncia, s dos tempos da Inquisio e do Absolutismo monrquico-clerical. Ligada indissoluvelmente tolerncia e ao respeito pela individualidade, teria de ser mal vista por doutrinas e regimes que os menosprezassem ou rejeitassem in limine. Havida por burguesa e acusada de conexes ntimas com os grupos dirigentes, no tardou a ser identificada com a plutocracia ou olhada como instrumento nas mos desta. Assim, para os comunistas, a Maonaria definiu-se como instituio burguesa e reaccionria, conluiada com os grandes interesses financeiros. Para os fascistas em suas vrias expresses nacionais, definiu-se como plutocrtica tambm, mas ligada ao comunismo e ao judasmo internacional. Para os catlicos romanos, era tudo isto e, ainda mais, ateia e satnica. O triunfo das vrias ideologias comunistas e fascista havia de implicar, portanto, uma onda de perseguies contra a Ordem Manica. Na Unio Sovitica e em quase todos os outros pases comunistas aps a Segunda Guerra Mundial a Maonaria foi extinta. Na Itlia, fascista, na Alemanha nacional-socialista, na Espanha de Primo de Rivera e de Franco, nas naes balcnicas sujeitas a regimes autoritrios, na Frana de Ptain, os maons sofreram perseguies sem conta, traduzidas muitas vezes pela prpria morte. Finda a guerra, tempos melhores voltaram para a Maonaria, com base em maior compreenso e tolerncia para com os seus ideais. A Igreja Catlica, com o seu novo esprito ecumnico, tem ultimamente procurado ou sido 9receptiva a certa aproximao, que poder culminar numa plataforma de entendimento. Tambm o ideal de uma Europa unida de naes livres e iguais, baseada na paz e na justia social foi sempre uma aspirao da Maonaria, ponto de partida para um mundo igualmente unido pelos grandes valores da Ordem. Muitos dos que ajudaram a construir a Comunidade Europeia beberam nos princpios manicos o melhor da sua motivao. Ritual, iniciao, esoterismo e segredo manico. No cabe aqui nem to pouco a mim fazer a abordagem, ainda que ligeira, destes aspectos. Apenas arrisco uma breve referncia ao segredo manico passando a citar na integra, o Dr. Antnio Arnaut, Gro-Mestre do Grande Oriente Lusitano. A Maonaria no uma organizao secreta, pelo menos, nos regimes democrticos que garantem o direito de livre associao para fins lcitos. A sua existncia, regulamentos e locais de reunio so conhecidos pelas autoridades e por muitos cidados. , pois, uma organizao discreta, na medida em que no est aberta ao pblico e reserva apenas aos seus membros o conhecimento de certas prticas e saberes. Nisso consiste o segredo manico. Contudo, qualquer cidado, acompanhado por um maon, pode visitar o Museu e frequentar o bar-restaurante instalados no rs-do-cho. Porm, o contedo do segredo no tanto o que se v e ouve, mas o que se sente e, por isso, no pode, verdadeiramente, exprimir-se. De facto, o segredo manico incomunicvel, pois reside essencialmente no simbolismo dos ritos, sinais, emblemas e palavras. E estes, embora possam ser conhecidos e divulgados, s so compreensveis pelos iniciados. Como um maon escreveu no h nenhum segredo nos nossos mistrios para alm dos que residem na guarda inviolvel das palavras. Assim como um poema pode ter uma interpretao que transcende a sua literalidade e que escapa, por vezes, ao prprio autor, devendo o seu sentido captar-se com os olhos da alma (e por isso se fala no mistrio da poesia, que alguns ligam alquimia da palavra), tambm o essencial dos rituais est para alm dos rgos sensitivos, devendo a sua interpretao procurar-se no subconsciente. Subconsciente (ou inconsciente) que, no caso do maon, iluminado pela iniciao. 10 Finalizando este captulo, e pelo que j foi dito, pode concluir-se que a Maonaria se considera, pois, uma Ordem inicitica e ritualista, universal e fraterna, filosfica e progressista, baseada no livre-pensamento e na tolerncia, que tem por objectivo o desenvolvimento espiritual do homem com vista edificao de uma sociedade mais livre, justa e igualitria. A MAONARIA EM PORTUGAL DA SUA INTRODUO AOS NOSSOS DIAS A Os primeiros maons em Portugal; Perseguies; Consolidao; Cises. A introduo da Maonaria em Portugal remonta ao segundo quartel do sculo XVIII. Talvez por 1727, foi fundada por comerciantes britnicos residentes em Lisboa uma loja que ficou conhecida nos registos da Inquisio como dos Herejes Mercantes, por serem protestantes quase todos os seus membros. Esta loja veio a regularizar-se em 1735, filiando-se na Grande Loja de Londres. A Inquisio no a incomodou, por certo devido nacionalidade e homogeneidade profissional dos seus participantes, protegidos pelos tratados com a Inglaterra. Em 1733 fundou-se uma segunda oficina em Lisboa, denominada Casa Real dos Pedreiros-Livres da Lusitnia. Os seus obreiros eram agora predominantemente catlicos. Conhecem-se os seus nomes, nacionalidades e profisses. Tratava-se sobretudo de irlandeses, tanto comerciantes como mercenrios no exrcito portugus, mas havia tambm martimos, mdicos, trs frades dominicanos, um estalajadeiro, um cabeleireiro e at um mestre de dana. 11Em 1738, ao ser promulgada a bula condenatria de Clemente XII, a loja dissolveu-se, mas alguns dos obreiros, nomeadamente os protestantes, no acataram a deciso papal, ingressando na outra loja. A terceira oficina criada em terra portuguesa conheceu destino mais trgico. Fundou-a, em 1741, em Lisboa, o lapidrio de diamantes John Couston, nascido na Sua mas naturalizado, depois, ingls. Eram quase todos catlicos, embora Couston, o venervel, fosse protestante. Denunciados Inquisio em 1742, os maons da loja de Couston foram presos, torturados e sentenciados, sendo o venervel e os dois vigilantes condenados a vrios anos de degredo e servio nas gals. Por interveno estrangeira, porventura de outros maons, libertaram-nos, porm, ao fim de algum tempo, com a condio de sarem do pas. A perseguio de 1743 desmantelou este primeiro esboo de organizao manica em terra portuguesa. A Maonaria s tomou de novo fora e vigor na dcada de 1760-70, merc de uma maior tolerncia governativa; abranda a represso manica e a Ordem viveu um perodo de paz e crescimento. Marqus de Pombal homem esclarecido e estrangeirado que, porventura, se documentara sobre a Maonaria ou fora mesmo iniciado no seu perodo de residncia fora do pas deixou os pedreiros-livres em paz, ao mesmo tempo que quebrava as garras da Inquisio e a convertia em dcil instrumento do poder do estado. Derrubado o Marqus, a Maonaria voltou a conhecer a perseguio. Efectivamente, com a viradeira do reinado de D. Maria I e a diligncia policial de Pina Manique, e ante a subverso revolucionria soprada de Frana, acende-se a perseguio pedreirada, cujo volume ia avultando e inquietando os defensores da ordem estabelecida. Por volta de 1778 havia oficinas perfeitas ou simplesmente maons desgarrados em vrios pontos do Pas, como Lisboa, Coimbra, Valena e Funchal. A Maonaria nacional recrutava-se, sobretudo, entre a oficialidade do exrcito e da marinha, o professorado, o comrcio e a indstria, a burocracia civil e eclesistica. 12Em menor percentagem existiam irmos clrigos e aristocratas terratenentes. Era, em suma, a burguesia esclarecida quem sobretudo preenchia os lugares das oficinas. Nos comeos do sculo XIX, o nmero de lojas e de filiados justificava j uma organizao bastante completa da Ordem, consoante os modelos britnico e francs. Em 1801 reconheceu-se a necessidade de criar uma Grande Loja ou Grande Oriente Portugus, que substitusse a Comisso de Expediente de seis membros, instituda para coordenar as actividades da Ordem. Para o efeito, deslocou-se a Londres, em 1802, o irmo Hiplito Jos da Costa, que negociou e obteve o reconhecimento. Nasceu assim o Grande Oriente Lusitano. Como seu primeiro Gro-Mestre foi eleito o desembargador Sebastio Jos de So Paio de Melo e Castro, neto do marqus de Pombal, e, quatro anos mais tarde, em Julho de 1806, votava-se a primeira Constituio Manica Portuguesa. Embora, no decurso das Invases Francesas, se tivessem forjado na metrpole condies propcias ao engrossamento dos quadros manicos, em 1809-10 desencadeou-se a terceira grande vaga de perseguies e prises que, uma vez mais, desmantelaram a Maonaria. S findo o perodo das Invases Francesas e restaurada a paz interna se assistiu a um renascimento da Ordem. Mas foi sol de pouca dura. Em 1817, a quarta perseguio, terrivelmente feroz, levou ao cadafalso em S. Julio da Barra o Gro-Mestre Gomes Freire de Andrade e vrios companheiros seus, executados no Campo de Santana, em Lisboa. A Maonaria Portuguesa, sem nunca paralisar de todo, reentrou na clandestinidade. Porm, estas perseguies no impediram a difuso dos ideais manicos, nem a luta da Ordem contra o obscurantismo e o poder absoluto. Em 22 de Fevereiro de 1818 fundada no Porto a Loja Sindrio, fonte da Revoluo Liberal de 1820. 13 Eram maons as grandes figuras do vintismo: Fernandes Toms, Ferreira Borges, Silva Carvalho e Borges Carneiro. A Maonaria congregava, alis, a maior parte da intelectualidade e da burguesia progressista, incluindo magistrados, professores universitrios, eclesisticos, profisses liberais, oficiais do exrcito e mesmo certa aristocracia. De 1820 a 1823 a Maonaria Portuguesa conheceu o seu primeiro perodo de apogeu e de aparecimento luz do dia. O nmero de lojas multiplicou-se, existindo cerca de 40 tanto em Lisboa como na provncia. Com a Vilafrancada, a Abrilada e o regresso do absolutismo, os maons voltaram a ser perseguidos, encarcerados e mortos. Foi a quinta perseguio. As actividades luz do dia tiveram de ser suspensas at 1826. De 1826 a 1828 manifestou-se um curto renascimento, de que se sabe hoje muito pouco, e que logo soobrou na sexta e violenta perseguio do Miguelismo. O triunfo definitivo do liberalismo em 1834 e a ascenso de D. Pedro IV, Gro-Mestre da Maonaria brasileira e portuguesa, trouxe os maons ao poder, marcando um perodo de apogeu da Ordem que s viria a terminar com a Revoluo de 28 de Maio de 1926. Porm, como os polticos e a poltica, tambm os maons conheceram perodos de crise e perodos de diviso ao lado de outros de robustecimento e incontestvel unidade. De facto, desde 1826 e at meados da centria, o Grande Oriente Lusitano, representou a corrente conservadora da Maonaria, ligada ideologia poltica do cartismo, tendo como Gro-Mestre Silva Carvalho e Costa Cabral. Este comprometimento provocou vrias cises. Estas cises corresponderam s diversas correntes do liberalismo e consequente conquista do poder, funcionando as respectivas lojas como clulas partidrias, como aconteceu com a Loja Liberdade, fundada em Coimbra em 1863 por lentes da Universidade e intelectuais. Por isso, as vicissitudes da poltica repercutiram-se negativamente no prestgio e coeso da Ordem Manica. Por seu turno, o prprio Grande Oriente Lusitano, havia de gerar a ciso de Silva Carvalho que, com outros, constituiu o Oriente do Rito Escocs. 14Contudo, em 1869 foi possvel reconciliar os irmos desavindos, com a criao do Grande Oriente Lusitano Unido, sob o Gro-Mestrado do Conde de Paraty. Desde ento, e exceptuando pequenas convulses, reinou a unidade da famlia manica. Foi o perodo ureo da Maonaria Portuguesa. Passaram pelo Gro-Mestrado figuras to ilustres como Elias Garcia, Antnio Augusto de Aguiar, Bernardino Machado, mais tarde Presidente da Repblica e Sebastio de Magalhes Lima. Foram igualmente maons nomes prestigiados como Mouzinho da Silveira, Alexandre Herculano, o cardeal Saraiva, patriarca de Lisboa, Machado Santos, Afonso Costa, Antnio Jos de Almeida, Antnio Maria da Silva, Miguel Bombarda, Sidnio Pais, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Ea de Queirs, Rafael Bordalo Pinheiro, Egas Moniz (Prmio Nobel) e Teixeira de Pascoais. B A Repblica Nos finais do sculo XIX e princpios do sculo XX, o iderio manico comeou a identificar-se com a ideologia republicana, apesar de haver muitos obreiros monrquicos. Esta simpatia no deve surpreender numa organizao progressista, que sentia na alma as agruras da Ptria e a decadncia da nao. Por isso a Repblica foi, essencialmente, obra de maons, entre os quais se destacam alguns dos nomes j referidos. O advento do novo regime havia, contudo, de enfraquecer a Maonaria, na medida em que ela se envolveu directamente na luta poltico-partidria, dividindo-se entre o apoio ao Partido Republicano e ao Partido Democrtico. Esta politizao da Maonaria resultou numa multiplicao de interesses na Ordem, dirigidas a finalidades que de manico s tinham parte. Com a implantao da Repblica, a Maonaria passou a ser olhada como qualquer coisa de til, de pragmaticamente necessrio no curriculum do candidato a ministro, a deputado ou a simples funcionrio pblico. No Parlamento, metade ou mais de metade dos representantes do povo pertencia Ordem. No Governo Provisrio (1910-1911). 50% dos ministros eram maons, 15percentagem que, grosso modo continuou a existir nos muitos governos republicanos at 1926. Quanto s presidncias, mais de metade dos ministrios foram presididos por maons. Trs presidentes da Repblica Bernardino Machado, Sidnio Pais e Antnio Jos de Almeida pertenciam Ordem Manica. Tal como durante a Monarquia Constitucional, algumas medidas mais progressistas adoptadas pelo regime republicano tiveram participao das lojas e foram subscritas por ministros maons. O mbito da Maonaria durante a 1 Repblica est ainda por determinar cabalmente, mas no parece exagerado afirmar que a histria das duas instituies apresenta paralelos do maior interesse e que o declnio de uma corresponde ou foi em grande parte, o causador do declnio da outra. Ora, a aproximao entre Maonaria e Partido Republicano, acentuada desde a proclamao da Repblica, houve de reflectir tambm as dissenses dentro daquele Partido. No admira, pois, que em 1914 se verificasse uma ciso entre a ala direita e a ala progressista, agora representada pelo Grande Oriente Lusitano. Foi criada uma segunda potncia, o Grmio Luso-Escocs, que apoiou a ditadura de Sidnio Pais. Estas dissenses descontentaram, naturalmente, muitos filiados que no se reviam nas posies da Ordem e no aprovavam a sua intromisso na poltica. Os factos iriam demonstrar que a Maonaria s progride quando, em coerncia com a sua doutrina, se mantm afastada do confronto partidrio, embora no lhe seja indiferente o rumo da Histria. Mas, para actuar neste campo e poder iluminar o caminho do futuro, imperioso que mantenha inviolvel o princpio do apartidarismo e que as suas oficinas continuem a ser o lugar onde se trabalha, fraternalmente, pela concrdia nacional e universal. A ciso duraria at Maro de 1926, quando j se pressentia o Movimento que havia de eclodir dois meses aps e que desencadeou a mais larga ditadura da nossa Histria. Os maons das duas obedincias tiveram conscincia dos perigos que ameaavam a democracia e voltaram a unificar-se sob os 16auspcios do grande Oriente Lusitano, sendo Gro-Mestre Sebastio de Magalhes Lima, jornalista, caudilho republicano e fundador da Liga Portuguesa dos Direitos do Homem (1926). Era tarde, porm, para conseguir vencer. Passados dois meses sobrevinha o movimento militar de 28 de Maio e a instaurao da Ditadura. Para a Maonaria portuguesa era o comeo da agonia. Identificada com a Repblica, caa agora com ela. C O Estado Novo O movimento de 28 de Maio no se repercutiu directa e indirectamente na Maonaria. Alguns dos seus chefes, a comear pelo prprio Carmona, eram pedreiros-livres. At 1929, a Maonaria teve plena liberdade de aco, embora recrudescessem contra ela os habituais ataques e se comeasse a notar certo afrouxamento de actividade devido s hesitaes e ao receio de muitos filiados. A entrada de Salazar para o governo e a sua rpida ascenso tutelar, aliada crescente influncia da direita reaccionria, reavivou os velhos dios das foras obscurantistas. Em 16 de Abril de 1929, sendo Gro-Mestre, Antnio Jos de Almeida, o Palcio do Grmio Lusitano, sede da Ordem era assaltado por elementos da Guarda Nacional Republicana e da Polcia, com a participao de numerosos civis, onde se destacava o jovem Marcelo Caetano. Muitos maons foram presos e muitos documentos confiscados. Foram praticados actos de vandalismo, incluindo destruio de smbolos, mveis e obras de arte. Era o incio da longa noite fascista, expresso que, no caso, no constitui uma simples metfora, mas uma tenebrosa realidade que levou muitos obreiros cadeia, ao exlio e demisso. De facto, o Estado Novo instituiu a Maonaria como seu inimigo principal. O golpe que a ditadura supunha mortal foi desferido em 19 de Janeiro de 1935 com a apresentao na recm instalada Assembleia Nacional, de um projecto de Lei subscrito pelo deputado Jos Cabral, proibindo as associaes secretas e confiscando-lhes todos 17os bens. claro que, embora o projecto o no referisse, o seu nico alvo era a Maonaria. As reaces no se fizeram esperar. Em 4 de Fevereiro Fernando Pessoa publica no Dirio de Lisboa um vigoroso artigo em defesa da Maonaria (um segundo artigo foi cortado pela censura). O Gro-Mestre Norton de Matos exps o protesto da Ordem ao presidente da Assembleia Nacional, Dr. Jos Alberto dos Reis, ele prprio maon. Tudo em vo, porque o ditador j tinha decidido varrer os pedreiros - livres da terra portuguesa, semelhana do que, sculos antes, fora tentado pela Inquisio. A lei foi votada por unanimidade e publicada no Dirio do Governo em 21 de Maio (Lei 1901). A partir da todos os que quisessem exercer funes pblicas tinham que declarar, por sua honra, que no pertenciam, nem jamais pertenceriam, a qualquer associao secreta. A Maonaria fora, assim, legalmente dissolvida em Portugal. O Palcio Manico foi confiscado e nele instalado um quartel da Legio Portuguesa. Muitos maons e outros democratas comearam ento a frequentar as masmorras da ditadura. D Revoluo de Abril Figuras pblicas da Maonaria claro que a Ordem Manica no se extinguiu. Pode-se eliminar as pessoas, e algumas foram mesmo eliminadas, e destruir os seus bens, mas no se podem eliminar as ideias, sobretudo as ideias generosas que visam a libertao do homem, e so to velhas como a Humanidade. Algumas lojas mantiveram-se na mais rigorosa clandestinidade. Ao sobrevir a Revoluo de 25 de Abril de 1974, a Maonaria, conquanto fraca e debilitada, mantinha galhardamente o facho aceso mais de dois sculos atrs. De todas as organizaes polticas e parapolticas existentes em 1926, s ela e o Partido Comunista subsistiam. Este facto permitiu-lhe retomar quase imediatamente uma actividade efectiva e intervir desde logo na vida nacional. Muitas lojas adormecidas foram reactivadas. Outras foram criadas para enquadrar os novos iniciados. 18A Revoluo de Abril restituiu a liberdade aos Portugueses, e, consequentemente, o direito de associao. A ditadura no conseguiu extinguir a Maonaria, mas a represso fascista reduzira a poucas dezenas os maons activos. Foram estes que se reorganizaram em comisso e reclamaram a restituio do Palcio Manico, sede do Grande Oriente Lusitano, numa altura em que o Primeiro Governo Provisrio era chefiado pelo Maon Prof. Adelino da Palma Carlos. Outras figuras pblicas, e algumas j foram referidas, tanto nacionais como estrangeiras, de vrias sensibilidades poltico-religiosas estiveram, ligadas Maonaria. Muitos dos presidentes dos Estados Unidos, da Frana e de Portugal foram maons. As casas reais europeias deram Maonaria vrios monarcas. Foram tambm iniciados Eldwin Aldrin, o primeiro homem a pisar o solo lunar, Alexandre Fleming, inventor da penicilina, o pintor Marc Chagall, Churchill, Garibaldi, Simon Bolivar, Salvador Allende... Das figuras portuguesas que deixaram rasto na nossa histria destaco apenas alguns nomes da 2 metade do sculo passado: o general Norton de Matos e Humberto Delgado, o escritor Vitorino Nemsio, o cardeal Costa Nunes (vice-camarlengo da Santa S), os deputados e advogados Nuno Rodrigues dos Santos (presidente do Partido Social Democrata), Antnio Santos Silva, Antnio Macedo e Tefilo Carvalho Santos (aquele Presidente do Partido Social e este Presidente da Assembleia da Repblica), o mdico e filantropo Bissaya Barreto, o advogado e Provedor de Justia Jos Magalhes Godinho e o Prof. Joo Lopes Soares (pai de Mrio Soares). Dos vivos refira-se o Dr. Fernando Vale, mdico, fundador do PS e antigo Governador Civil de Coimbra e o Dr. Emdio Guerreiro, professor e antigo Presidente do PSD, que escapou morte na Guerra Civil de Espanha, porque o comandante do peloto de fuzilamento era maon e, como tal, se reconheceram. Por curiosidade, refira-se que foram maons os autores da msica e da letra do Hino Nacional, Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendona, respectivamente. E Maonaria Feminina 19 A Maonaria Moderna (1723) , na sua origem, composta exclusivamente por homens. Alis, o seu texto fundador no deixa margem para dvidas. Com efeito, os velhos regulamentos excluam as mulheres da Maonaria, certamente por razes histricas, pois entendia-se que o risco inerente condio de iniciado e a coragem necessria para agir como maon eram prprios do homem. Nos tempos antigos a iniciao compreendia um conjunto de provas to duras que se tornavam incompatveis com a suposta fragilidade feminina. De resto, a mulher estava ainda longe de desfrutar dos direitos que mais tarde, por influncia da prpria Maonaria, lhe haviam de ser reconhecidos. Assim, quando mais tarde, elas passam a ser admitidas no seu seio criada uma figura jurdica que define claramente o modo como essa participao era entendida. As lojas femininas que so ento admitidas chamam-se de adopo. Isto , as mulheres eram adoptadas por uma loja masculina e ficavam dela dependentes. No gozavam alis, como parte da organizao, dos mesmos direitos. Nem a sua presena era entendida com os mesmos objectivos. A oposio dos homens intensa e aps o perodo napolenico as mulheres no tm expresso na Maonaria. Isto , medida que o esprito aristocrtico d lugar ao burgus a resistncia maior. S em 1882 a polmica se relana. A oposio ainda de tal modo violenta que os poucos homens que apadrinham essa presena vem-se forados a abandonar as suas organizaes, e a criar, conjuntamente, uma estrutura mista que ainda hoje subsiste. E s pelo fim do sculo o movimento das lojas de adopo renasce. A adopo contrape-se assim emancipao, isto , a uma independncia. Uma independncia baseada em organizaes autnomas, compostas exclusivamente por mulheres, s se manifesta no ps 2 Guerra Mundial e so hoje dominantes. Tambm em Portugal funcionam lojas femininas. A Marquesa de Alorna, a Viscondessa de Juromenha e Ana de Castro Osrio foram algumas das mais destacadas figuras da Maonaria feminina. F Relaes com a Igreja Catlica A Maonaria no uma religio e, por isso, aceita todas as religies, embora, coerentemente, combata o fanatismo e a superstio. Assim, sempre houve na 20Maonaria proslitos de vrias confisses, predominando em Portugal os catlicos e protestantes. Porm, verificaram-se alguns graves conflitos com a Igreja Catlica Romana. As perseguies desencadeadas na sequncia da bula In Eminente, que fulminava com a excomunho os maons catlicos, so hoje um facto histrico, que no deve ser esquecido, mas que se tem de enquadrar no esprito da poca. Actualmente a Igreja, sobretudo aps Joo XXIII e o Conclio Vaticano II, encara com outros olhos o fenmeno manico, at porque o tempo demonstrou que as lojas no so antros demonacos, onde se realizam missas negras, mas locais de concrdia, onde se trabalha para o bem da Humanidade. intolerncia sucedeu a compreenso e uma certa simpatia. A esta mudana de mentalidade no foi, seguramente, alheia a circunstncia de muitos catlicos e altos dignitrios da Igreja serem maons. Alis, h espaos comuns de preocupao e identidade de propsitos entre a Maonaria e a Igreja progressista. O dilogo franco e desinibido interessa s duas entidades. E j comeou a realizar-se com resultados animadores. A Maonaria no concorrente e, muito menos, inimiga da Igreja Catlica. A este propsito no posso deixar de registar aqui, algumas palavras dirigidas pelo Arcebispo Bispo do Porto, D. Jlio Tavares Rebimbas, na abertura da Semana de Estudos da Faculdade de Teologia, realizada na referida cidade entre 1 e 4 de Fevereiro de 1994, e subordinada ao tema, Maonaria, Igreja e Liberalismo. Diz o ilustre prelado: No estamos inocentemente aqui a abordar problemas fceis de Maonaria, Igreja e Liberalismo cuja vastido e complexidade evidente e com tempos diversos de expresso e altos e baixos de reaco. Mas somos a mesma humanidade, as mesmas pessoas, a mesma paz e a mesma guerra. Por isso, e no s, a via do dilogo, o espao de liberdade que nos leva misso de fazedores de pontes e de us-las. 21 No estamos aqui para converter maons, nem para laicizar cristos, nem para aclarar tudo o que problemtica sria do liberalismo. Mas, tambm no estamos aqui para quatro dias de inutilidades, mais ou menos brilhantes. Estamos aqui nos caminhos da procura da verdade, da parcela de verdade que todos tm. Porque a verdade total ser noutra instncia, noutra onda e mesmo assim leva muito tempo para chegar l. Felicito a Faculdade de Teologia do Porto por esta iniciativa e por estes assuntos e desejo que os seus objectivos sejam alcanados. Porto, 1 de Fevereiro de 1994 Jlio, Arc. - Bispo do Porto Curiosamente, um ms depois, mais precisamente, entre 23 e 26 de Maro, o Instituto de Sociologia e Etnologia das Religies da Universidade Nova de Lisboa, em colaborao com o centro de Estudos Afonso Domingues, organizou um debate em torno das relaes entre a Maonaria e as Igrejas. O Prof. Jos Esteves Pereira, Presidente do Conselho Cientfico da Faculdade de Cincias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, presidiu Sesso de Abertura, sendo os debates coordenados por Manuel Villas-Boas (Rdio T.S.F.), Antnio Marujo (Jornal O Pblico), Virglio Prazeres Pedroso (Instituto de Sociologia e Etnologia das Religies), Lus Marinho Antunes (Director do Centro de Estudos Pastorais da Universidade Catlica) e Jos Eduardo Medeiros ( Centro de Estudos Afonso Domingues). Logo nas palavras de Apresentao, na Sesso de Abertura, foi fcil constatar que o debate iria girar, fundamentalmente, volta das convergncias entre Religio e Ideal Manico, ao afirmar-se que, para a generalidade, em Portugal e no s, a Maonaria e as Igrejas foram consideradas instituies incompatveis, orientadas por valores radicalmente diferentes. Essa ideia vai-se contradizendo ainda que permaneam grandes zonas de desconhecimento mtuo. Contudo, desde h alguns anos, por parte tanto das Igrejas como da Maonaria, tem havido uma reflexo sobre o que h de comum entre elas. 22Um debate sobre este assunto ter, mesmo assim, que ter em conta a especificidade de cada uma das instituies. Enquanto as Igrejas so a emanao de religies reveladas, a Maonaria uma instituio exclusivamente humana; no entanto, ela baseia-se em princpios que so comuns s religies, como seja, a promoo dos valores espirituais , ticos e culturais, a solidariedade humana e o aperfeioamento dos sistemas sociais. Est tambm em questo a reflexo que a Maonaria e as Igrejas vm promovendo sobre as suas prticas do passado recente e recuado. Para alm de outras questes, a grande divergncia que foi empolada de ambos os lados incidiu sobre a crena num Deus Criador. A acusao de atesmo de que a Maonaria foi alvo durante dcadas, expressa alis por alguns dos seus membros, vai perdendo consistncia. A Maonaria, nos seus fundamentos e nos seus projectos, no uma organizao ateia como pretende o vulgo, uma vez que os seus trabalhos so executados sob os auspcios do Supremo Arquitecto do Universo que uma maneira de referir o Criador, e regida por valores espirituais e morais, reivindicando uma via de acesso ao sagrado sem uma interpretao dogmtica dos fenmenos religiosos. No caso portugus esta reflexo vai permitindo que as Igrejas e a Maonaria encontrem plataformas de discusso e de entendimento sobre os grandes problemas que afectam a Humanidade como, por exemplo, a guerra, a intolerncia, a xenofobia e a excluso social que invadem o nosso quotidiano. Concluindo, julgo no haver grandes dvidas relativamente posio assumida pelo Prof. Moiss Esprito Santo, Presidente do Instituto de Sociologia e Etnologia das Religies da Universidade Nova de Lisboa, quando afirma que, as Igrejas e a Maonaria tm de facto origens, justificaes, objectivos e estruturas diferentes mas, desde o momento em que as Igrejas assumem tambm um iderio humanista, Igrejas e Maonaria passam a percorrer alguns caminhos em comum. Alis, posso acrescentar que esta posio corresponde no essencial s concluses a que chegaram os especialistas destes assuntos, defendendo respectivamente, pontos de vista da Maonaria e das Igrejas, assim como outros universitrios portugueses e estrangeiros, participantes nestas jornadas. 23Carlos Jaca 24Origens e evoluo da Maonaria. Maonaria operativa eA MAONARIA EM PORTUGAL DA SUA INTRODUOB A RepblicaC O Estado Novo

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