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  • O PTB (1945-1964): SUAS TENDNCIAS

    POLTICAS INTERNAS E A HEGEMONIA DO DIRETRIO SUL-RIOGRANDENSE

    Roberto Bitencourt da Silva1

    Alguns cnones interpretativos associados teoria do

    populismo conformam, h dcadas, uma expressiva matriz

    explicativa da temporalidade poltica brasileira de 1945 a

    19642. Ainda que nos ltimos anos pressupostos da teoria

    do populismo venham sendo submetidos a uma fecunda re-

    viso historiogrfica, a sua fora persuasiva se mantm, por

    se constituir em uma slida e disseminada tradio interpre-

    tativa nos campos acadmico, educacional, poltico e jorna-

    lstico. Imagens, ideias e smbolos, em geral depreciativos, se

    projetam folgadamente nas avaliaes relativas a diferentes

    aspectos da sociedade e da arena poltica nacional dos anos

    de 1945 a 1964.

    Alberto Pasqualini ( esquerda de Vargas) em reunio partidria.(CPDOC/FGV. Disponvel em: http://cpdoc.fgv.br)

  • N 7, Ano 5, 2011 176

    Entre mltiplos aspectos tidos como negativos no aludido perodo, chama-nos a ateno, em especial, a seguinte e cristalizada ideia: os partidos polticos caracterizar-se-iam como organismos desapossados de uma linha programtica e doutrinria consistente, implicando em um caldeiro cultural e poltico personalista, em que prevalecia a relao direta entre massas e lde-res carismticos. Por extenso, imagens como o carter farsesco e inorgnico dos partidos assentados em um frouxo compromisso com princpios e com as promessas propugnadas nas campanhas eleitorais so frequentemente mobilizadas at os dias que correm na interpretao daquela quadra da vida republicana brasileira. Homogeneidade e generalizao consistem em subpro-dutos diretos do vis interpretativo em tela.

    Nesse sentido, na esteira dos estudos que visam, por um lado, pro-blematizar certos cnones que tipificam a verso hegemnica do perodo e, por outro, notadamente, pr em destaque a particularidade do trabalhismo, como tradio e projeto gestado pela esquerda brasileira3, o presente trabalho se prope a oferecer um panormico quadro pertinente a certas caractersti-cas do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), dando especial acento ao diret-rio gacho do partido. Apoiando-me em uma perspectiva sobretudo terica, pem-se em relevo: 1. a formao e a organizao interna do PTB, com suas respectivas tendncias polticas; 2. algumas ideias e propostas que sobres-saram na orientao e na linha de atuao partidria; e 3. a capacidade de mediar e de representar setores da sociedade. Dedico-me, assim, como pano de fundo, a empreender uma reflexo diga-se, em carter ainda incipiente acerca do potencial progressista e do papel democrtico desempenhado pelo antigo PTB, sem desconsiderar, evidente, suas limitaes e lacunas.

    Formao e organizao interna do PTB

    Trabalhos que tm privilegiado o estudo das singularidades de alguns organismos partidrios do perodo de 1945 a 1964 seus projetos, suas ideias, suas organizaes internas, assim como a capacidade de representa-o da sociedade civil , possibilitam relativizar sobremaneira o difundido cnone interpretativo atinente debilidade dos partidos polticos brasileiros na temporalidade em foco4. Sem a pretenso de superestimar a organicidade do sistema partidrio brasileiro da poca, marcado por vcios e deficincias salientes ainda em nossos dias, no obstante os aludidos estudos pem em destaque uma significativa coerncia programtica e uma atuao socialmen-te representativa dos principais partidos. Em particular, o PTB e a Unio De-mocrtica Nacional (UDN), como tambm, sob os limites da clandestinidade, o Partido Comunista Brasileiro (PCB). De acordo com Antnio Lavareda5, o

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    sistema partidrio estava envolvido em um progressivo processo de conso-lidao, revelando expressivo grau de identidade partidria no universo do eleitorado, comparvel ao apresentado por regimes democrticos ento esta-belecidos na Europa Ocidental. Levando em conta que a sociedade brasileira era e marcada por importantes clivagens regionais, culturais, econmicas e polticas e que experienciou a obrigatoriedade da criao de partidos orga-nizados nacionalmente apenas nos estertores do Estado Novo, parece foroso inferir que a mdia da preferncia poltico-partidria demonstrada por pes-quisas de opinio (mobilizadas pelo autor a que fao aluso), atingindo a casa dos 64%, denota mesmo uma pondervel representatividade e legitimidade dos partidos polticos perante os eleitores6.

    Feitas essas breves observaes sobre o sistema partidrio, com o in-tuito de justificar a relevncia da anlise de um partido poltico de esquerda atuante no perodo de 1945/64 que, adicionalmente, assumiu duas gestes do governo federal com Getlio Vargas (1951/54) e Joo Goulart (1961/64) , e apresentou o ento maior ndice de crescimento eleitoral7, atenho-me formao e a algumas caractersticas da dinmica interna do PTB.

    De antemo, importa salientar que o iderio preconizado pelo partido, isto , o trabalhismo, era composto por aspiraes, valores e princpios que circulavam no imaginrio social dos estratos populares antes mesmo da cria-o do PTB8. No raros so os estudos que exploram o universo cultural dos trabalhadores, assim como o seu patrimnio histrico, identificando traos de continuidade relativamente remotos. Aqueles acentuam alguns laos de conexo entre as ideias, as representaes simblicas e o modus operandi das entidades coletivas dos trabalhadores, antes e depois de 1930. o que traba-lhos como os de Slvia Regina Petersen e Benito Schmidt9 sugerem ao analisar o movimento socialista gacho na Repblica Velha, assim como o de Boris Fausto10, de um ponto de vista crtico, identifica no sindicalismo socialista carioca um germe do trabalhismo. Por seu turno, Miguel Bodea11 explora as relaes existentes entre os componentes ideolgicos positivistas e naciona-listas tambm do movimento operrio gacho e a posterior corrente poltica trabalhista. Trilhando essa mesma linha de reflexo, no ocioso destacar a voz dos ativistas de movimentos sociais e de partidos socialistas da Primei-ra Repblica, cujo perfil de atuao poltica era, grosso modo, tipificado pela defesa de reformas pelos canais institucionais e por no abdicar da eventual negociao com o Estado e com o patronato a fim de obter melhorias nas condies gerais de trabalho e de vida das camadas proletrias. Ambas as nu-anas que marcaram a experincia trabalhista indgena. guisa de ilustrao, um proeminente representante carioca daqueles ativistas assim se expressava em relao ao papel do Estado:

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    [...] a funo do Estado ou dos governos, ou dos poderes pblicos [...] tem de se transformar; [...] necessrio intervir por meios legislativos, no sentido de ser efetivamente melhorada a posio econmica do homem assalariado; preciso regular as condies de trabalho, dando satisfao s necessidades humanas do trabalhador12.

    Tambm ressaltando as continuidades vigentes entre o perodo anterior e posterior a 1930, ngela de Castro Gomes13, em perspectiva convergente apresentada por Jorge Ferreira14, pe em evidncia a propaganda dirigida pelo governo de Getlio Vargas aos trabalhadores, durante o Estado Novo, e a relao de reciprocidade existente entre as classes populares e o governo discricionrio de Vargas. Logo, componentes de natureza material, como os benefcios auferidos com a legislao do trabalho, e simblica, como os senti-mentos de dignidade, de gratido e de justia que atravessavam a referida re-lao, em muito contriburam para a gestao e a substncia de uma tradio poltica trabalhista.

    V-se, com efeito, um patrimnio poltico e cultural construdo e dis-seminado tambm pelas experincias das classes populares particular-mente nas cidades do Rio de Janeiro e de Porto Alegre no curso de algu-mas dcadas, e em conjunturas polticas distintas, que, sem lugar dvida, criaram condies propcias, a posteriori, formao e ao peso poltico-eleitoral do PTB15.

    Esse patrimnio, em 1945, veio a convergir na criao do PTB. Em am-biente domstico e internacional pouco favorvel perpetuao da ditadura estado-novista, movimentos de opinio emergem e as crticas ao governo Var-gas proliferam, sobretudo entre os setores tradicionais, liberais-conservado-res, aglutinados em torno de uma sigla emergente, a UDN. Em um momento de transio para o regime democrtico, os partidos polticos so legalmente autorizados a se constituir, e o PTB fundado em 15 de maio de 1945, no Rio de Janeiro.

    No foram poucas as dificuldades iniciais enfrentadas para a organi-zao da estrutura partidria. Com a sua principal liderana nacional im-possibilitada de lanar candidatura presidncia, portanto, sem nomes de vulto para participar do processo eleitoral que se avizinhava, e imerso em uma estrutura social ainda eminentemente agrria16, um partido dirigido aos trabalhadores, mormente aos das cidades, teria de se esforar bastante, e por anos, para alcanar capilaridade nacional. Talvez um pitoresco caso que se deu no antigo estado do Rio de Janeiro antes, pois, da fuso com o estado da Guanabara (atual cidade do Rio de Janeiro) se preste a ilustrar alguns embaraos ocorridos. Seno vejamos:

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    Era difcil encontrar quadros para o PTB. O estado do Rio ainda lembrava uma grande fazenda [...] e o movimento sindical se restringia a poucos mu-nicpios. No interior, a maioria das pessoas morria de medo do poder dos coronis. Quem tinha emprego no estado ou no municpio sabia muito bem que a melhor maneira de mant-lo seria votando no PSD [Partido Social De-mocrtico] [...]. Roberto [Silveira, em atividade poltica na cidade de Carmo] queria formar lideranas bem identificadas com o povo de cada municpio [...]. Carmo era quase toda PSD e, quem no era, jogava no time da UDN17.

    No obtendo resposta positiva para o ingresso e a organizao do dire-trio municipal do partido por parte de qualquer sujeito de prestgio no mu-nicpio de Carmo, RJ, Roberto Silveira,