o protesto extrajudicial de certidão de dívida ativa após ...· excelente instrumento...

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  • O protesto extrajudicial de certido de dvida ativa aps a edio da Lei n

    12.767/2012

    Autor: Tiago Fontoura de Souza

    Juiz Federal Substituto

    publicado em 27.02.2015

    Resumo

    A ineficincia da execuo fiscal para a recuperao do crdito fiscal levou a Fazenda Pblica a adotar outros meios mais rentveis para a arrecadao de tributos. Nesse diapaso, surgiu como alternativa para a reduo da inadimplncia do contribuinte o protesto extrajudicial da certido de dvida ativa. No entanto, desde a sua instituio pelo Fisco a matria mostrou-se controversa. A jurisprudncia trilhava pela inadmissibilidade do protesto, assegurando que o nico meio de cobrana dos crditos tributrios seria a execuo fiscal. Com o advento da

    Lei n 12.767/2012, o protesto de certido de dvida ativa passou a ser previsto expressamente em lei, com o que mudou o entendimento da jurisprudncia dos tribunais acerca do assunto. Todavia, o tema ainda apresenta intensa polmica, inclusive com ao direta de inconstitucionalidade em trmite no Supremo Tribunal Federal, ganhando a controvrsia novos contornos. Dentro desse contexto, o enfoque principal deste estudo consistir na avaliao da viabilidade jurdica do

    protesto extrajudicial de certido de dvida ativa, principalmente aps a publicao da novel Lei n 12.767/2012.

    Palavras-chave: Direito Tributrio. Protesto extrajudicial. Dvida ativa. Lei n 12.767/2012.

    Sumrio: Introduo. 1 Protesto extrajudicial de ttulos e outros documentos de

    dvida. 1.1 Da origem cambiria do protesto. 1.2 Da evoluo do instituto. 2 Certido de dvida ativa natureza jurdica e caractersticas. 3 Protesto extrajudicial de certido de dvida ativa: aspectos polmicos. 4 O protesto extrajudicial de certido de dvida ativa aps o advento da Lei n 12.767/2012. Concluso. Referncias bibliogrficas.

    Introduo

    O presente estudo tem como escopo verificar a viabilidade jurdica do protesto extrajudicial de certido de dvida ativa, notadamente aps a edio da Lei n 12.767/2012.

    A questo ora em debate objeto de intensa controvrsia tanto na doutrina quanto na jurisprudncia, principalmente diante da existncia de outros privilgios que a Fazenda Pblica possui na cobrana de seu crdito. A jurisprudncia dominante caminhava no sentido de que inexistia interesse jurdico do Fisco no protesto da

    certido de dvida ativa, inclusive pela falta de amparo legal, mas seu posicionamento, aps o advento da novel legislao, passou a ser em sentido contrrio, superando-se o entendimento outrora adotado.

    Para fins de consecuo dos objetivos deste estudo, indispensvel uma breve

    Revista de Doutrina da 4 Regio, Porto Alegre, n. 64, fev. 2015.

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  • exposio e anlise do instituto do protesto extrajudicial e, na sequncia, da

    natureza jurdica e das principais caractersticas da certido de dvida ativa. Superada essa etapa inicial, a abordagem se centralizar nos principais pontos de divergncia do tema.

    Afigura-se relevante que a Lei n 12.767/2012 acarretou o surgimento de novos questionamentos e o fortalecimento de outros, fomentando-se, assim, a discusso existente sobre o assunto. De fato, a nova legislao explicitou o manejo do

    protesto quanto certido de dvida ativa, trazendo um novo panorama jurdico, o qual merece ser alvo de reflexo.

    1 Protesto extrajudicial de ttulos e outros documentos de dvida

    O artigo 1 da Lei n 9.492/97 reza que o protesto o ato formal e solene pelo

    qual se prova a inadimplncia e o descumprimento de obrigao originada em ttulos e outros documentos de dvida.

    No obstante, na sua essncia originria, o protesto tivesse apenas a funo testificante, o certo que, hodiernamente, assume uma nova feio.

    O protesto acabou tornando-se um eficaz instrumento de cobrana de dbitos. Isso

    decorre do efeito reflexo ou secundrio da publicidade do protesto, o qual pode acarretar a restrio de crdito do devedor, consoante se pode deduzir da redao

    do artigo 29 da Lei n 9.492/97.(1) Na forma desse dispositivo legal, os servios

    notariais de protesto entregaro aos rgos de proteo ao crdito uma certido diria dos protestos efetivados e cancelados. Com base nessas informaes, os rgos restritivos de crdito consultam esses dados e, posteriormente, promovem a sua regular inscrio no cadastro de inadimplentes.

    Nesse diapaso, Marcelo M. Bertoldi(2) assevera que,

    Muito embora o protesto tenha surgido com o propsito de documentar um fato relevante relativo s relaes cambirias, certo que hoje se trata de um

    instrumento poderoso e eficaz para a cobrana dos ttulos de crdito, na medida em que a lavratura do protesto faz com que recaiam sobre o devedor cambirio

    fundadas dvidas a respeito de sua situao financeira, dificultando em muito a obteno de crdito por parte daquele cujo nome conste dos arquivos dos tabelies de protesto.

    Seguem a mesma linha de entendimento Milton Fernando Lamanauskas e Arthur

    Del Gurcio Neto(3):

    Nos dias atuais, apesar da essencial finalidade testificante do protesto,

    anteriormente mencionada, ntidos so os dissabores que os devedores protestados encontram no seu dia a dia, em especial no tocante obteno de crdito junto aos mais variados segmentos da sociedade. Logo, finalidade testificante acrescenta-se verdadeira finalidade de cobrana; aquele que encaminha determinado ttulo ou outro documento de dvida a protesto, dentre estes se encaixando a certido de dvida ativa, sabedor das consequncias do protesto ao devedor, vale-se desse potente instrumento como efetivo meio de cobrana.

    Dessarte, no se pode negar que o protesto tem sido largamente utilizado pelos particulares como mecanismo de presso e coero ao pagamento de dvida,

    notadamente em funo do efeito antes referido. Nota-se que, no atual contexto, mais sob o ponto de vista social do que jurdico, o protesto funciona como excelente instrumento extrajudicial de cobrana de dvida, cuja circunstncia no pode ser desconsiderada pelo operador do direito.

    1.1 Da origem cambiria do protesto

    Revista de Doutrina da 4 Regio, Porto Alegre, n. 64, fev. 2015.

    http://www.revistadoutrina.trf4.jus.br/artigos/edicao064/Tiago_deSouza.html#01http://www.revistadoutrina.trf4.jus.br/artigos/edicao064/Tiago_deSouza.html#02http://www.revistadoutrina.trf4.jus.br/artigos/edicao064/Tiago_deSouza.html#03

  • Antes da edio da Lei n 9.492/97, o protesto extrajudicial era restrito aos ttulos

    cambiais e a alguns outros que a prpria lei excepcionava. No existia uma legislao especfica sobre o protesto, apenas a previso desse instituto em

    variados diplomas legais,(4) tais como: a) o Decreto n 2.044/1908,(5) que tratava

    das letras de cmbio e das notas promissrias e previu, nos seus artigos 28 a 31,

    as hipteses e os requisitos do instrumento de protesto; b) o Decreto n

    57.663/66,(6) oriundo da promulgao da Conveno de Genebra sobre o

    tratamento uniforme para letra de cmbio e nota promissria, que, igualmente, tratou, no artigo 44, sobre o protesto dessas crtulas; c) a Lei n 5.474/68, que criou a duplicata de compra e venda mercantil e de prestao de servios, estabelecendo as situaes ensejadoras do protesto, bem como os nus processuais

    que incidiriam sobre o credor;(7) d) a Lei n 7.357/85, conhecida como a Lei do

    Cheque, que tambm regulou sobre o protesto, em seus artigos 47 e 48.(8)

    Portanto, inegvel a origem cambiria do protesto extrajudicial, tendo surgido inicialmente para regular as relaes privadas de mbito exclusivamente negocial. Como visto, o legislador at ento restringia o protesto quase que exclusivamente aos ttulos cambirios, situao essa que perdurou at a entrada em vigor da Lei n

    9.492/97.

    1.2 Da evoluo do instituto

    A Lei n 9.492/97 alterou significativamente a natureza do instituto do protesto, deixando de ser um instrumento vinculado aos ttulos de natureza cambial. Ao

    estender a possibilidade de protesto para outros documentos de dvida, a lei

    alargou o espectro de ttulos passveis de serem protestados.(9) Diante dessa

    alterao legislativa, surgiu uma controvrsia quanto ao significado da expresso outros documentos de dvida.

    Depois de longa discusso, chegou-se ao consenso de que outros documentos de dvida corresponderiam aos ttulos executivos judiciais e extrajudiciais, previstos nos artigos 475-N e 585 do Cdigo de Processo Civil.

    A interpretao dada ao dispositivo da Lei n 9.492/97 foi no sentido de que ele no

    poderia se referir a todo e qualquer documento que representasse alguma dvida, haja vista a insegurana jurdica que tal concluso acarretaria nas relaes jurdicas e sociais, diante das nefastas consequncias advindas do protesto extrajudicial. Concluiu-se, portanto, que apenas os documentos representativos de obrigaes lquidas, certas e exigveis poderiam ser objeto de protesto.

    Nesse aspecto, ensina Srgio Luiz Jos Bueno(10):

    Diante disso, tem predominado o pensamento temperado, atento aos objetivos do legislador, que procurou dar ao procedimento do protesto nuances de instrumento eficaz de recuperao de crdito, sem, contudo, banaliz-lo. Embora ainda sem esgotar as possibilidades de discusso, mas de forma apropriada, em face da

    novidade apresentada, tem-se sustentado que documento de dvida todo ttulo executivo, seja judicial, seja extrajudicial.

    O Superior Tribunal de Justia consolidou entendimento no mesmo sentido,

    conforme decidido no REsp 750805/RS,(11) aduzindo que o protesto devido

    sempre em obrigaes certas, lquidas e exigveis, inclusive naquelas decorrentes de ttulos executivos judiciais, como, por exemplo, as sentenas definitivas. Como cedio, tais atributos so inerentes aos ttulos executivos judiciais e extrajudiciais, documentos esses aptos a viabilizar a ime

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