o programa arquitetonico sbqp 2012

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Arquitetura escolar

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  • O PROGRAMA ARQUITETNICO NO PROCESSO DE PROJETO: DISCUTINDO A ARQUITETURA ESCOLAR, RESPEITANDO O OLHAR DO USURIO

    Doris C.C.K. Kowaltowski, Daniel de Carvalho Moreira e Marcella S. Deliberador

    Introduo

    Estudos mostram que o ambiente escolar pode ter um impacto significativo sobre o aprendizado e o comportamento de alunos. Os funcionrios de uma escola podem se sentir mais valorizados e motivados em edifcios bem projetados e uma nova escola pode exercer um impacto positivo sobre as pessoas que moram no entorno destas instituies e que usam a escola como espao de lazer e cultura (CABE, 2007; LACKNEY, 2000). A qualidade da arquitetura escolar, portanto, afeta profundamente os seus usurios, inclusive influenciando os ndices de desempenho do ensino.

    No Brasil, os indicadores do ensino pblico tem sido objeto de muitas discusses em razo dos resultados negativos obtidos pelos alunos em avaliaes (WERTHEIN, 2010). Dada a importncia da educao para a sociedade e seu desenvolvimento, observa-se a necessidade de uma atuao multidisciplinar que vislumbre a melhoria da qualidade de ensino de forma geral. H muitas propostas nesse sentido e estas devem incluir um olhar atento complexa relao entre a qualidade do espao fsico e o desempenho acadmico dos alunos (KOWALTOWSKI, 2011; TARALLI, 2004).

    A complexidade do projeto escolar tem como base, em primeiro lugar, o dinamismo da prpria educao e seus mtodos pedaggicos que demandam constante atualizao dos programas arquitetnicos para abrigarem adequadamente as atividades de ensino. Projeta-se um futuro desconhecido com uma rpida obsolescncia tecnolgica e com o conhecimento em constante reviso. Os alunos devem ser preparados para estas incertezas. A complexidade tambm se apresenta pelos usurios diversos que a escola abriga: alunos de idades variadas e em etapas de desenvolvimento diferentes, professores, funcionrios, pais e membros da comunidade que freqentam a escola. Cada ano entram novos integrantes, que so desconhecidos e que tambm desconhecem a escola. Cada ano tambm, usurios deixam de freqentar a escola, porque cresceram e se formaram para enfrentarem novas etapas de vida.

    O ambiente construdo destas escolas apresenta outro paradoxo. Ele deve ser robusto para resistir ao uso intenso de crianas e jovens, cheios de energia, e ao mesmo tempo ele deve ser um ambiente estimulante, acolhedor e com elementos humanizadores e de beleza. No Brasil, h outros fatores complicadores. As implantaes das escolas publicas acontecem, em geral, em regies urbanas perifricas com infra-estrutura muitas vezes catica e em lotes com dimenses insuficientes e formatos nem sempre ideais para acomodarem o programa arquitetnico de uma nova escola. Os rgos administrativos das escolas pblicas enfrentam outra complexidade em funo do grande nmero de edificaes sob sua responsabilidade, que necessita de manuteno e reformas. Por fim cabe lembrar que no contexto brasileiro ainda h falta de prdios escolares para abrigarem uma populao crescente. Portanto, a complexidade da arquitetura escolar um elemento significativo do processo de projeto, exigindo do projetista ateno especial.

    As demandas projetuais so relacionadas aos avanos tecnolgicos e s mudanas globais, sociais e econmicas. Estas dinmicas influenciam diretamente os trabalhos realizados na rea da arquitetura, aumentando a complexidade e a exigncia quanto qualidade final dos edifcios, no sendo diferente quando se trata de edifcios escolares (KOWALTOWSKI et al., 2006). Exigem-se novas posturas dos profissionais para emitirem decises projetuais justificadas sobre diversos pontos de vista, tais como conforto, funcionalidade e humanizao do ambiente construdo e nas solues de projeto no pode faltar o conceito atual da sustentabilidade do ambiente construdo.

    Neste cenrio importante verificar que Avaliaes Ps-Ocupao (APOs) realizadas em prdios de escolas no Brasil, em geral, mostram que os edifcios possuem uma srie de problemas relacionados ao conforto ambiental e funcionalidade, o que permite considerar que os parmetros atuais de projeto necessitam de uma reviso criteriosa (KOWALTOWSKI, 2011; ORNSTEIN, 2008, 2005; GRAA & KOWALTOWSKI, 2004, BRASIL, 2007). Problemas mais freqentes de pesquisas de APO, no somente de escolas, tambm apontam que a qualidade do ambiente construdo ainda no garantido pelo processo tradicional de projeto. Em geral, as APOs demonstram problemas no aspecto da funcionalidade, com a falta de congruncia entre atividades e seus espaos, e ausncia na maioria de prdios pblicos de espaos adequados para a

  • socializao dos seus usurios. H problemas na compreenso do espao por parte dos usurios, demonstrados pelas falhas de orientao e wayfinding. So conhecidos tambm os problemas da acessibilidade em espaos urbanos e edificaes em geral. O aspecto do conforto ambiental pode atingir nveis mnimos, que atendem as normas vigentes, mas nem sempre respondem satisfatoriamente s exigncias e expectativas dos usurios. A falta de condies adequadas de acstica em ambientes escolares crnica. Os padres de esttica so muito criticados por usurios e demonstram que h divergncias entre projetistas e o pblico geral. Finalmente so freqentes as reclamaes sobre a falta de contato com elementos da natureza em prdios pblicos (NASAR et al., 2007).

    Esses estudos de avaliao do ambiente construdo apontam a necessidade de se verificar e melhorar a qualidade dos projetos de arquitetura. As condies, nem sempre ideais dos ambientes escolares no Brasil, apontam para o desafio aos arquitetos de criar edifcios que sirvam s novas realidades e necessidades, e que sejam ainda flexveis e adaptveis s mudanas de um futuro prximo.

    Na busca da qualidade do ambiente construdo, vrios estudos identificam objetivos a serem atingidos pelo projeto de arquitetura. Desta forma os espaos devem propiciar experincias de impacto esttico positivo; adaptar-se ao contexto; serem convidativos e confortveis; atenderem s necessidades e serem responsveis ambientalmente. A boa arquitetura deve incorporar de forma ponderada aspectos da esttica, da funcionalidade, da economia e da viabilidade construtiva, expressos no somente pelo conhecimento tcnico mas tambm pelos desejos e exigncias dos usurios (WONG et al., 2009).

    O processo de projeto

    As discusses sobre a qualidade do ambiente construdo mostram que ela resultado de um processo de projeto, da obra de construo e sua manuteno, bem como de um uso condizente com as suas funes. A qualidade do projeto em arquitetura depende da qualidade da equipe de profissionais responsvel pelo desenvolvimento do projeto e sua experincia, alm das informaes disponveis durante este processo (KOWALTOWSKI & LABAKI, 1993; KOWALTOWSKI et al., 2006). A insero efetiva do cliente e do usurio futuro no processo de projeto e na tomada de decises deve tambm contribuir para uma transparncia deste processo, permitindo uma verificao posterior da obra, com indicadores estabelecidos nas discusses desta equipe.

    Muitas pesquisas concentram-se na investigao das estratgias cognitivas de projeto e suas conseqncias na qualidade de determinado produto, firmando a etapa de elaborao do programa arquitetnico como uma das mais importantes durante o processo de projeto (CHERRY, 1999; CROSS, 2006; CROSS, 1984; KRUGER & CROSS, 2006). importante tambm investigar a origem das falhas e estabelecer procedimentos que incluam em seu processo de tomada de decises ponderaes de propostas e a otimizao de fatores de projeto (GRAA et al., 2007).

    No tpico processo de projeto so utilizadas metodologias que apiam a anlise e sntese das idias. Tentativas e erros so comuns. Nem sempre estas estratgias proporcionam uma viso geral clara dos objetivos de projeto e muitas vezes no permitem, ou no se preocupam, com o armazenamento das informaes referentes s decises efetuadas. Assim sendo, o projeto considerado e tratado de forma emprica, o que no permite o compartilhamento do processo, das informaes e das avaliaes.

    De outro lado, nas pesquisas sobre metodologias de projeto, sabe-se que estas so vistas como abstraes e redues utilizadas para compreender o fenmeno projetivo. Existe um consenso entre os tericos de que a intuio uma parte importante do processo e que o modelo de projeto no uma seqncia linear de atividades exatas, uma vez que o projetista no possui amplo conhecimento da natureza do objeto de projeto e seu processo de pensamento no pode ser considerado totalmente racional (LAWSON, 2011). Os problemas de projeto, portanto, no so considerados problemas controlveis ("tame problems), como os enfrentados na matemtica ou no xadrez. O arquiteto e planejador urbano enfrenta problemas traioeiros, ou wicked problems (RITTEL & WEBBER, 1973; BUCHANAN, 1992). No existe certo ou errado em arquitetura, mas existe melhor ou pior, portanto deve existir uma avaliao crtica do produto produzido. O projetista lida com solues nicas ("one-shot operation") dificilmente testadas. H pouca oportunidade de aprendizagem e o mtodo da tentativa e erro aplicado. neste cenrio que o projetista, sem o direito de errar, necessita de mtodos de apoio ao projeto e da tomada de deciso, como por exemplo: sistemas de informao, mtodos de simulao, DQI - Design Quality Indicator (GANN et al., 2003), entre outros.

    A teoria de projeto considera uma coleo de princpios teis para explicar o processo de projeto e proporcionar o fundamento bsico para propor metodologias. Ela explica o que o projeto e o que se tem

  • feito no ato projetivo. A metodologia de projeto, por outro lado, a coleo de procedimentos, ferramentas e tcnicas utilizada pelo projetista para resolver problemas e criar solues de qualidade. A metodologia de projeto prescritiva, indicando como projetar, e a teoria de projeto descritiva, indicando o que o projeto (EVBUOMWAN et al., 1996). As dificuldades em enquadrar as caractersticas do