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DOI: 10.21902/2526-0065/2016.v2i2.1462

Organizao Comit Cientfico

Double Blind Review pelo SEER/OJS

Recebido em: 06.07.2016

Aprovado em: 21.12.2016

Revista de Criminologias e Polticas Criminais

Revista de Criminologias e Polticas Criminais | e-ISSN: 2526-0065 | Curitiba | v. 2 | n. 2 | p. 152 - 170 | Jul/Dez. 2016.

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O PROCESSO PENAL DEMOCRTICO COMO ESTRATGIA DE CONTENO DA

EXPANSO DO SISTEMA PENAL E SEU BLOQUEIO PROVOCADO PELA

CRIMINALIZAO MIDITICA

THE DEMOCARTIC PROCEDURAL PENAL LAW AS AN CONTAINMENT

STRATEGY OF THE PENAL SYSTEM EXPANSION AND ITS BLOCKING CAUSED

BY MEDIA CRIMINALIZATION

Andr Martins Pereira1

Luana Rochelly Miranda Lima Pereira2

RESUMO

O presente trabalho visa compreender o direito processual penal em sua perspectiva democrtica

como estratgia de conteno do avano do sistema penal ou ferramenta de reduo de danos, bem

como a forma que essa perspectiva democrtica do processo penal bloqueada pela criminalizao

miditica. Para tanto se buscar analisar a questo a partir de aportes da criminologia crtica, teoria

crtica do processo penal e autores crticos de comunicao social.

Palavras-chave: Processo penal; Democrtico; Sistema penal; Criminologia crtica;

Criminalizao miditica.

ABSTRACT

This study aims to understand the criminal procedural law in a democratic perspective as a

containment strategy of the criminal justice system advance or a harm reduction tool, and the way

that the democratic perspective of the criminal procedural law is blocked by media criminalization.

For that it seeks to analyze the issue from contributions of critical criminology, critical theory of

criminal procedural law and critical authors of social comunication.

Keywords: Criminal procedural law; Democratic; Penal system; Critical criminology; Media

criminalization.

1 Defensor Pblico no Estado do Par, graduado em Direito pela Universidade da Amaznia, ps-graduando em

Direito Penal e Criminologia pelo Instituto de Criminologia e Poltica Criminal - ICPC. Par (Brasil). E-mail:

andremartinsp@gmail.com. 2 Defensora Pblica no Estado do Par, graduada em Direito pela Universidade Federal do Par, mestranda em

Direitos Humanos pela Universidade Federal do Par (Brasil). E-mail: luanarochelly@gmail.com

Andr Martins Pereira & Luana Rochelly Miranda Lima Pereira

Revista de Criminologias e Polticas Criminais | e-ISSN: 2526-0065 | Curitiba | v. 2 | n. 2 | p. 152 - 170 | Jul/Dez. 2016.

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1. INTRODUO

O artigo visa abordar de que forma o processo penal pode contribuir para a conteno do

agigantamento do sistema penal e do encarceramento em massa. O objetivo do artigo tratar do

processo penal a partir de uma leitura democrtica para compreend-lo como barreira de

conteno do avano do sistema penal, bem como analisar o bloqueio dessa perspectiva provocado

pela criminalizao miditica.

Para tanto, ser necessrio incorrer na correlao entre mdia e sistema penal a partir de

aportes da criminologia crtica e de autores crticos da comunicao social, abordar como tal

relao contribui para subverter a finalidade do processo penal enquanto instrumento de

potencializao e eficcia de direitos e garantias fundamentais na relao de poder estabelecida em

decorrncia de um fato tpico e da possibilidade de aplicao da pena.

Jornalistas e a audincia esto inseridos em uma realidade social marcada por politicas

econmicas de ordem neoliberal, a qual impe certa ideologia e determinada forma de transmisso

da notcia. A informao, portanto, configura mais uma mercadoria na economia de consumo e,

assim, sua produo desde a coleta da informao at a apresentao e recepo pela audincia

est condicionada pelo modo de produo capitalista (BERGALLI e RAMREZ, 2015, p. 77 a 79).

Assim, a notcia sobre crime e criminalidade, passa a ser uma mercadoria valiosa, o que

condiciona o discurso envolvido em sua produo, o qual impactar a opinio pblica sobre o

assunto.

A opinio pblica desenvolve processos ideolgicos e psicolgicos que legitimam o direito

penal e o sistema penal vigentes, os quais so marcados pela seletividade e, portanto, desiguais,

sendo a mdia instrumento de conformao da opinio pblica sobre a questo criminal,

veiculando a ideologia dominante na sociedade, calcada em discurso de legitimao,

proporcionando acentuada expanso do sistema penal nacional nas ltimas dcadas.

Assim, o trabalho ir, a partir de aportes da criminologia crtica, buscar a compreenso que

o sistema penal funciona por meio de processos de criminalizao levados cabo por suas

agncias, na medida em que o crime no um dado ontolgico, mas um rtulo que imposto

comportamentos e indivduos. A criminalidade entendida como um bem social negativo que

distribudo de forma desigual a depender da hierarquia dos interesses socioeconmicos e da

desigualdade social entre os indivduos (BARATTA, 2002, p. 161). Embora a orientao seletiva

da criminalizao secundria caiba primordialmente s agncias policiais, tais agncias no

selecionam segundo seus critrios exclusivos. Sua atividade condicionada pelo poder de outras

O processo penal democrtico como estratgia de conteno da expanso do sistema penal e seu bloqueio provocado pela criminalizao miditica

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agncias como as polticas e as de comunicao social (ZAFFARONI e BATISTA, 2011, p. 44 e

45).

Abordar que diante disso, ganha relevo a compreenso da mdia como uma das agncias

do sistema penal (ZAFFARONI e BATISTA, 2011, p. 44 e 45), capaz de influenciar no s na

conformao e manuteno da ideologia dominante ou na construo da viso que a opinio

pblica tem sobre a criminalidade e o criminoso, como tambm possui capacidade de impactar a

poltica criminal, incentivando a expanso do sistema penal.

A mdia enquanto agncia de criminalizao impacta a criminalizao primria, difunde a

ideologia dominante sobre a questo criminal (discursos criminolgicos de bases etiolgicas,

dogma da pena, crena na criminalizao provedora, etc.), cria a imagem sobre a criminalidade, a

qual estimula a sensao de insegurana; o que por sua vez provoca consequncias na seleo dos

comportamentos a serem qualificados como delitos e no agravamento de penas em plano abstrato.

Tambm impacta a criminalizao secundria com a construo da imagem do criminoso

direcionando a seletividade do sistema penal para um setor especifico da sociedade marcado pela

excluso e estigmatizao social.

Da mesma forma, procurar demonstrar que a criminalizao miditica produz efeitos na

percepo do processo penal e de sua funo no Estado Democrtico de Direito, bloqueando o

Processo Penal afastando-o de sua misso democrtica e conformando-o em uma

instrumentalidade eficienticista a servio da expanso penal neoliberal; para, a partir da pensar em

perspectiva de superao desse bloqueio.

A importncia da pesquisa revela-se pela necessidade em encontrar ferramentas hbeis

fazer frente ao encarceramento em massa, bem como pela necessidade de conformar o processo

penal em sua perspectiva democrtica.

Para realizar a anlise, o presente trabalho utiliza o mtodo dedutivo com pesquisa de

cunho qualitativo com levantamento bibliogrfico perpassando por autores da Criminologia Crtica

como Alessandro Baratta, Lola Aniyar de Castro, Vera Malaguti Batista, Nilo Batista e Eugnio

Raul Zaffaroni; encontra tambm autores crticos do processo penal como Aury Lopes Junior e

Alexandre Morais da Rosa, bem como autores crticos da comunicao social como Eugenio Bucci

e Maria Rita Khel.

2. A CRIMINOLOGIA CRTICA, PROCESSOS DE CRIMINALIZAO E A MDIA COMO AGNCIA DO SISTEMA PENAL NA ERA NEOLIBERAL

Andr Martins Pereira & Luana Rochelly Miranda Lima Pereira

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A criminologia crtica proporciona interpretao do crcere e do sistema penal em razo de

sua real funo exercida na sociedade, bem como toma em conta o tipo de sociedade em que os

analisa. Adota, portanto uma perspectiva materialista ou poltico-econmica contrapondo-se ao

enfoque idealista calcado nas teorias dos fins da pena. Assume como elemento estrutural do

capitalismo tardio o aumento da superpopulao relativa (desocupao ou subocupao), o

incremento da explorao e da marginalizao de setores cada vez mais vastos da populao, o que

pressupe para o sistema capitalista uma maior exigncia de disciplina e de represso, enfim,

maior controle social sobre as massas de marginalizados para conter as tenses advindas de tal

marginalizao (BARATTA, 2002, p. 195).

O empreendimento neoliberal, capaz de destruir parques industriais nacionais

inteiros, com consequentes taxas alarmantes de desemprego; capaz de

flexibilizar direitos trabalhistas, com a inevitvel criao de subempregos;

capaz de, tomando a insegurana econmica como princpio doutrinrio,

restringir aposentadoria e auxlios previdencirios; capaz de, e