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  • O PROCESSO INQUISITORIAL DO JESUTA GABRIEL

    MALAGRIDA: ASPECTOS HISTRICOS E JURDICOS

    GUILHERME MARCHIORI DE ASSIS

    Resumo: A pesquisa se inscreve na relao entre a Histria e o Direito, buscando avaliar de

    que forma um indivduo especfico, sua trajetria e sua teia de relaes e significados sociais

    nos informam sobre as transformaes na relao entre as instituies seculares e a Igreja no

    Portugal do Setecentos. Seu personagem central o jesuta italiano Gabriel Malagrida,

    religioso de grande influncia na corte de D. Joo V e que, aps uma vida de dedicao

    missionria nos quadros da colonizao tendo inclusive atuado como missionrio no Brasil -

    cai em desgraa diante da corte, sofrendo pesado processo sob o Tribunal da Inquisio

    durante o governo do seu sucessor, D. Jos I (1750-1777), do qual saiu sentenciado morte.

    No Reino, aps as vicissitudes do Terremoto de 1755, Malagrida critica duramente a poltica

    portuguesa, sendo em seguida acusado de heresia pela Inquisio, julgado e sentenciado

    morte, num perodo sumrio de apenas dois anos (1759-1761). Condenado ao garrote vil e

    queimado na Praa do Rossio, em Lisboa, Malagrida publicamente supliciado em 1761. O

    processo inquisitorial em questo, amplamente conhecido pela tradio historiogrfica lusa,

    mas pouco debatido diante dos recentes estudos sobre as instituies jurdicas e polticas do

    Portugal moderno, permanece envolto em mltiplas questes. A anlise deste documento nos

    permitiria verificar quais os componentes polticos que envolveram a mudana na sorte do

    jesuta e como estes poderiam elucidar a relao entre indivduo, Estado e sociedade no

    perodo em questo. Importante ressaltar que o perodo entre a acusao e o julgamento

    (1759-1761), coincide com a implantao de amplas transformaes, caracterizadas pelo

    reformismo ilustrado do governo do Marqus de Pombal que, por sua vez, produziram

    tambm importantes mudanas no que diz respeito ingerncia do Estado sobre a Igreja.

    Diante da problemtica traada, importa destacar ainda os aspetos polticos do padroado.

    Como um importante mecanismo da expanso martima lusa, o padroado constituiu o vnculo

    entre o Estado e a Igreja que permitiu a efetivao do projeto de conquista religiosa.

    Combinao de direitos, privilgios e deveres concedidos pelo papado coroa de Portugal, o

    padroado definiu a participao de homens como Gabriel Malagrida na faina colonizadora,

    estabelecendo seus lugares sociais e polticos, francamente ameaados com o advento do

    reformismo ilustrado.

    Palavras-chaves: Histria do Direito; Inquisio Portuguesa.

    Universidade Federal do Esprito Santo, Doutorando em Histria do Direito.

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    INTRODUO

    A histria prpria da Inquisio portuguesa, desde seu advento em 1536, ao seu termo em

    1821, envolta em diversos momentos crticos e partes imprescindveis para o

    desenvolvimento da poltica lusa. Sob esse vis parte-se da premissa que o perodo pombalino

    (1750-1777) contribuiu decisivamente para o desenlace do instituto inquisitorial e tambm do

    que foi conhecido como o sistema probatrio que moldou o sujeito portugus nos Setecentos

    (LOURENO, 1990: 1474).

    Quase um sculo da histria portuguesa foi necessrio para que se possa abordar o momento

    de extino do poderoso tribunal (1755-1820), cuja influncia ainda se faz sentir em diversas

    reas da cultura lusitana, tendo em vista certas dimenses da vida institucional, nos costumes,

    nas vivncias, na fala e na escrita (MARCOCCI &PAIVA, 2013: 11).

    Importa ressaltar que est dentre as principais pginas do denso histrico portugus a anlise

    das imensas e diversificadas fontes que o testificam, entre as quais podem ser alijados

    aproximadamente 45.317 processos sentenciados, dos quais 10.017 em Lisboa, 10.388 em

    Coimbra, 11.245 em vora e 13.667 em Goa, sendo a maior parte guardada no Arquivo

    Nacional da Torre do Tombo (BETHENCOURT, 1994: 275).

    A histria da Inquisio portuguesa sem dvida o smbolo dos excessos cruciantes de

    desumanidade a qual pode ser auferida a leitura simblica da religio considerada ao p da

    verdade. No obstante, a Inquisio tambm simboliza uma instituio gerada por seu tempo

    que, para ser devidamente compreendida deve ser analisada dentro de seu contexto e

    consequncias concretas (VAQUINHAS, 2010: 66).

    Nos 285 anos de sua histria, a Inquisio atravessou perodos de grande poderio, mas

    tambm ciclos de profunda debilidade, sendo criticada abertamente. Talvez por essas razes

    esteja inegavelmente entrelaada com a histria de Portugal.

    O Santo Ofcio foi, acima de tudo, um Tribunal Eclesistico (GILISSEN & HESPANHA,

    2011: 150), formando juntamente com o sistema de justia portugus um complexo e

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    imbricado sistema probatrio. Contudo, a grande questo combatida pelo Tribunal eram as

    chamadas heresias, ou seja, crenas e prticas de catlicos batizados que reiteradamente

    conflitam com a f e a doutrina definida pela autoridade da Igreja (FARIA, 1994: 198).

    Para alm dos rus judeus, islmicos, protestantes, feiticeiros, bruxas e outros que

    questionavam os dogmas da Igreja, dentre os quais podem ser citados os bgamos, por

    atentarem contra o valor do sacramento do matrimnio e da penitncia, o Santo Ofcio, em

    cumplicidade com a monarquia, projetou sua competncia para alm da pertinncia hertica,

    como a venda de armas e outras mercadorias proibidas a no-cristos, sendo os resultados

    obtidos, muitas vezes, mediante provas de fora, quebrando os limites do direito vigente e

    processando sem justo fato (MARCOCCI &PAIVA, 2013: 16).

    Portanto, o presente ensaio busca esquadrinhar as origens institucionais e judicirias do Santo

    Ofcio, bem como o processo inquisitorial movido em face do padre jesuta Gabriel Malagrida

    (1759-1761) imbudo este no perodo pombalino e que apresenta a importante caracterstica

    de ter modificado crucialmente o procedimento inquisitorial verificado nos autos de f

    realizados at ento em Portugal (BAIO, 1942: 57).

    A INQUISIO SOMBRA DO DIREITO ROMANO E MEDIEVAL

    Ao fim da Antigidade, aproximadamente no sculo IV, o vasto territrio que delineava o

    Imprio Romano, foi dividido em dois: o Imprio do Oriente, com sede em Constantinopla,

    posteriormente denominada de Bizncio, e, atualmente, de Istambul e o Imprio do Ocidente,

    tendo Roma como centro poltico, econmico e social. O Imprio Ocidental abrangia vasto

    territrio, compreendendo a Inglaterra e Esccia, a Glia, a Ibria, a Itlia, o sul da Germnia

    indo at Pennsula Balcnica na parte meridional do Danbio. parte da Europa os

    romanos tambm dominavam o Norte da frica e uma parte da sia Ocidental (GILISSEN,

    2011: 127).

    Em relao ao territrio da Europa continental, o Reno e o Danbio delimitavam a fronteira

    na parte setentrional. A norte e a leste destes rios, habitavam os povos germnicos e eslavos,

    sendo, primordialmente, nmades. Com a constante presso dos diversos povos originrios da

    sia Central, os germnicos vem-se obrigados a dirigir-se para o Ocidente, penetrando na

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    rbita do Imprio Romano a partir do sculo III. Ao linear do sculo V, invadem o Imprio

    Ocidental que desmorona, sendo substitudo por tribos germnicas. A despeito desta situao,

    o Imprio Oriental ou Bizantino, resiste s presses brbaras, conservando os preceitos do

    direito romano, denominado de bizantino.

    Alm da invaso germnica, podemos eleger diversos fatores que contriburam para a final

    derrocada do Imprio Ocidental, que vo muito alm de aspectos externos, tais quais as

    invases brbaras. Um destes fatores, abordado pela historiografia, a influncia da religio

    crist no Imprio Romano, impondo-se como religio oficial a partir do sculo IV. Vale

    considerar, que mesmo sendo um sistema jurdico prprio, o direito cannico, nasceu

    vinculado ao direito romano, tornando-se independente ao longo do tempo. Com esta diviso

    do sistema jurdico, temos a formao do direito religioso em contraposio ao direito laico,

    tendo tal diviso persistido at o sculo XX.

    importante ressaltar que os aspectos relevantes queda do Imprio Romano, unem-se em

    um processo de desintegrao. Ao final do sculo IV, os imperadores j haviam adotado o

    cristianismo, tendo sido Constantino o primeiro imperador a converter-se em 313 d.C.

    Outro aspecto passvel de discusso foi a modificao do sistema escravocrata. Com o

    colapso da economia escravagista, bem como a falncia dos pequenos agricultores, devido ao

    fluxo gratuito de cereais das colnias conquistadas, como parte do trabalho de pilhagem

    romana. O crescimento da populao urbana, em sua maioria inoficiosa, que exigiam gastos

    vultosos do Imprio para entretenimento gratuito, que consumiam mais de 1/3 dos seus

    recursos.

    Para evitar rebelies, foram criadas leis como a Lex Frumentaria, que fomentava a

    distribuio gratuita de trigo para os pobres. Grandes espetculos pblicos eram organizados

    no Coliseu, com a presena de feras e gladiadores. A distribuio de po e circo para as

    massas caracterizou este perodo, assim como o colapso da pesada administrao romana

    (WOLKMER, 2003: 139).

    O sistema de trabalho escravo disposto pelos romanos impossibilitou o desenvolvimento da

    economia, na medida em que lanou ao desemprego uma grande parte da populao, como os

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    pequenos agricultores e artesos, que passaram a vaguear pelas cid

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