O problema da motivacao moral em kant

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<ol><li> 1. o problema da motivao moral em kant hlio jos dos santos souza </li><li> 2. O PROBLEMA DA MOTIVAO MORAL EM KANT </li><li> 3. HLIO JOS DOS SANTOS SOUZA O PROBLEMA DA MOTIVAO MORAL EM KANT </li><li> 4. Editora afiliada: 2009 Editora UNESP Cultura Acadmica Praa da S, 108 01001-900 So Paulo SP Tel.: (0xx11) 3242-7171 Fax: (0xx11) 3242-7172 www.editoraunesp.com.br feu@editora.unesp.br CIP Brasil. Catalogao na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ S716p Souza, Hlio Jos dos Santos O problema da motivao moral em Kant / Hlio Jos dos Santos e Souza. - So Paulo : Cultura Acadmica, 2009. Inclui bibliografia ISBN 978-85-7983-016-7 1. Kant, Immanuel, 1724-1804. 2. tica. 3. Razo. I. Ttulo. 09-6209. CDD: 170 CDU: 17 Este livro publicado pelo Programa de Publicaes Digitais da Pr-Reitoria de Ps-Graduao da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho (UNESP) </li><li> 5. Agradeo a minha famlia, que sempre me incentivou. De forma especial, agradeo Adriana, pelo apoio nos momentos difceis. Aos amigos, sobretudo ao Rogrio, pelo auxlio. Ao professor Ricardo Monteagudo, meu orientador. Capes, por financiar parte desta pesquisa. </li><li> 6. SUMRIO Prefcio 9 Introduo 13 1 A vontade diante de uma encruzilhada 17 2 Os princpios da razo prtica 43 3 Dos motivos determinantes da vontade 81 4 Interesse da razo e liberdade 109 Consideraes finais 131 Referncias bibliogrficas 139 Bibliografia suplementar 140 </li><li> 7. PREFCIO Por que os homens so livres? No que consiste a liber- dade humana? Como possvel a ao moral? Como um corpo submetido a leis naturais pode ser livre? Para respon- der perguntas simples como estas e outras no to simples que Hlio Jos dos Santos Souza se debrua sobre a obra de Kant, especialmente a Fundamentao da metafsica dos costumes. Como bem observa o autor, pretende-se anali- sar os conceitos de boa vontade, dever, lei, imperativo, res- peito, interesse e liberdade. Qualquer criana precisa ter uma breve noo destas palavras importantes para se cons- tituir como homem de bem, como cidado consciente. Ao projet-los no sistema kantiano, encontramos uma formu- lao mais elevada, resultado de sculos de reflexo filos- fica, que nos ajudam a pensar a nossa realidade. O problema complexo: trata-se de saber se a morali- dade e a tica so expresses de um princpio racional in- condicionado igualmente presente nas leis imutveis da natureza. Nesse caso, haveria continuidade entre a natu- reza e a moralidade, o direito natural exprimiria deveres que se impem vontade de cada um, a liberdade seria uma iluso da conscincia que no reconhece todas as cau- </li><li> 8. 10 HLIO JOS DOS SANTOS SOUZA sas naturais que a condicionam. Esse o resultado da fi- losofia moderna de Espinosa e Hobbes, que Kant preten- de superar. A soluo uma inverso do problema: a liber- dade e o conhecimento da natureza so condicionados no homem pela razo. Nesse caso, como a liberdade pode ser deduzida a partir da sensibilidade? Parece que a cada re- formulao novos problemas aparecem e os conceitos multiplicam-se. O que leva o homem a agir moralmente? Se identifica- mos o dever ser e o dever, naturalizamos o transcendental e a resposta kantiana repetiria a filosofia moderna de cujas aporias a crtica pretende escapar. Se por outro lado recor- remos divindade, voltamos s dificuldades que foram respondidas pela filosofia moderna.Vejamos um exemplo: dipo descobre que uma maldio o conduzir ao parri- cdio, para evitar esta desgraa foge de sua casa e de sua ci- dade. Ao fugir, encontra em uma encruzilhada um homem que o desrespeita e o desafia, ento mata este homem sem saber que este seu verdadeiro pai. O conflito moral ge- rado pela maldio conduz uma iniciativa que desencadeia a prpria maldio, pois dipo no sabia que era filho ado- tivo. Ora, a lei que impede o parricdio foi ou no foi res- peitada? A motivao moral da fuga foi uma deciso indi- vidual de dipo ou uma imposio divina? Como caracterizar a boa vontade neste caso? Havia um impera- tivo moral que foi seguido, mas o que deveria ter sido evi- tado foi, ao contrrio, provocado pela boa vontade de agir moralmente. Por outro lado, a reao intempestiva de dipo ao ser desafiado passional e no segue as prescri- es da reta razo. A natureza humana cindida e tem duas fontes de determinao; retornamos encruzilhada de dipo: calar-se ou resistir ao desafio moral do parric- dio? Calar-se ou resistir ameaa de algum? O princpio formal racional no basta para lidar com o problema: da a razo prtica pura, tambm analisada nesta pesquisa. </li><li> 9. O PROBLEMA DA MOTIVAO MORAL EM KANT 11 O que mais interessante neste livro que uma ques- to tcnica kantiana transformada em uma questo apaixonante. No apenas a descrio da coisa em si moral oriunda da racionalidade e sua manifestao por meio de imperativos categricos que se impem pela reflexo, mas o que motiva o homem a agir moralmente. O medo da pu- nio, a universalidade da razo, o desejo de felicidade, o equilbrio psicolgico, os benefcios materiais etc. no so em si suficientes para compreender a riqueza e diversida- de da experincia humana. A questo como possvel nos tornarmos homens melhores apesar de sermos homens. Hlio Jos apresenta ainda a discusso destes problemas por alguns dos grandes intrpretes da obra de Kant, o que enriquece filosoficamente a anlise e as alternativas perti- nentes. Este um daqueles trabalhos aparentemente acadmi- cos que podem estabelecer a vocao filosfica de seus lei- tores: a reflexo sobre o que est em jogo por si s um prazeroso exerccio do filosofar. Ricardo Monteagudo </li><li> 10. INTRODUO A Fundamentao da metafsica dos costumes tem por finalidade encontrar o princpio supremo da moralidade que reside, segundo Kant, j no bom senso natural. A in- vestigao procede, ao menos nas duas primeiras sees da Fundamentao, de modo analtico, e aponta a razo prti- ca pura como o fundamento de uma boa vontade. Segun- do Kant, somente a razo suficientemente capaz de for- necer, totalmente a priori, o princpio incondicionado da moralidade vlido para a vontade de todo ente racional. Surge,porm,umproblema:porquequedevemosnos submeter lei moral? O que capaz de motivar o homem a agir conforme o imperativo categrico e, portanto, moral- mente?Opresentetrabalhopretendeexaminar,apartirdos apontamentos realizados por Kant, como pode o ente racio- nal agir motivado pela lei, motivao esta necessria para que a moral se estabelea. Para tanto, pretende-se analisar os conceitos de boa vontade, dever, lei, imperativo, respeito, interesse e liber- dade.Todos estes conceitos constituem a espinha dorsal da argumentao kantiana no texto da Fundamentao. O grande problema que Kant nem sempre esclarece com </li><li> 11. 14 HLIO JOS DOS SANTOS SOUZA preciso cuidado o significado destes conceitos e a ligao sistemtica em que ele os utiliza. Pretendemos tornar al- guns pontos menos obscuros, pois sem compreender estes conceitos, consequentemente, a filosofia moral de Kant tambm permanecer incompreendida. Optamos pela diviso do trabalho em quatro captulos. O primeiro captulo analisa o conceito de boa vontade e pretende mostrar que sua formao depende de que a ra- zo prtica pura determine a vontade de modo totalmente a priori. Mas o homem, por sua vez, encontra uma enorme dificuldade em agir conforme as prescries da razo em funo da ambivalncia de sua prpria natureza, que constitudatambmdesensibilidade.Porisso,naconscin- cia de si, o homem se v como um ente cindido entre duas partes heterogneas, uma natureza sensvel e outra racio- nal, deixando, desse modo, a vontade diante de duas fon- tes distintas de determinao e, por assim dizer, em uma encruzilhada. No segundo captulo, traaremos a distino entre o princpio formal racional e o princpio material sensvel para verificar se a razo prtica pura suficientemente ca- paz de determinar objetivamente a vontade de todo ente racional. No terceiro, nossa investigao trata de perguntar pelo fundamento da escolha, ou seja, pelo motivo determinante da vontade, no sentido de procurar desvendar o que pode motivar o homem a agir moralmente em face das inclina- es sensveis. Este captulo pretende, portanto, primeira- mente explicar por que o homem carece de um motivo para agir moralmente, mesmo tendo o conhecimento de que somente uma vontade boa determinada pelo imperativo categrico que pode promover boas aes, e apontar, em seguida, os possveis elementos motivacionais do homem na escolha do princpio puro como fonte de determinao da vontade. </li><li> 12. O PROBLEMA DA MOTIVAO MORAL EM KANT 15 O quarto e ltimo captulo pretende mostrar que a lei moral interessa ao homem porque ela um produto de sua razo, isto , efeito de sua liberdade enquanto um ente do mundo inteligvel. </li><li> 13. 1 A VONTADE DIANTE DE UMA ENCRUZILHADA Na Fundamentao, Kant assume a proposio que diz ser a boa vontade o nico bem incondicionado como regra de ajuizamento moral, justificando que se trata de um dado proveniente da conscincia moral que o homem comum tem do dever e, por isso, possui validade objetiva. O pre- sente captulo pretende mostrar, porm, que a formao de uma boa vontade depende de que a razo prtica pura de- termine a vontade de modo totalmente a priori, visto que sem este pressuposto, a noo de boa vontade est fadada a ser apenas uma quimera. Mas o homem, por sua vez, en- contra uma enorme dificuldade em agir conforme as pres- cries da razo em funo da ambivalncia de sua prpria natureza, que constituda tambm de sensibilidade. Por isso, na conscincia de si o homem se v como um ente cin- dido entre duas partes heterogneas, uma natureza sens- veleoutraracional,deixando,dessemodo,avontadediante de duas fontes distintas de determinao e, por assim dizer, em uma encruzilhada. Por conta da ambivalncia de sua natureza, o homem ter, portanto, de decidir entre dois princpios distintos, ou seja, caber a ele escolher se deter- mina sua vontade exclusivamente conforme o princpio </li><li> 14. 18 HLIO JOS DOS SANTOS SOUZA racional ou se se deixa seduzir por completo pelas solicita- es do desejo sensvel e determina a vontade segundo o princpio egosta. A boa vontade A investigao empreendida por Kant na Fundamenta- o da metafsica dos costumes em busca do princpio supre- mo da moralidade toma como ponto de partida a seguinte proposio: Neste mundo, e at tambm fora dele, nada possvel pensar que possa ser considerado como bom sem limitao a no ser uma s coisa: uma boa vontade (Kant, 2005, p.21, grifo do autor). Disso, porm, que a boa vontade seja o nico bem que possamos considerar como irrestrito, no se pode concluir que no haja outros bens. O prprio Kant elenca um n- mero de coisas que, sem dvida, podem ser tomadas por boas e que so at mesmo desejveis. Por exemplo: os dons naturais, divididos entre os talentos do esprito como dis- cernimento, capacidade de julgar; as qualidades do tempe- ramento, como coragem e deciso; alm dos dons da fortu- na, como poder, riqueza e felicidade.Todas essas coisas so bens estimveis, todavia, Kant (2005, p.25-6) adverte: Esta vontade no ser na verdade o nico bem nem o bem total, mas ter de ser contudo o bem supremo e a condio de tudo o mais, mesmo de toda a aspirao de felicidade. Vale notar que Kant poderia soar paradoxal por ora ad- mitir, como na proposio, que a boa vontade constitua o nico bem sem limitao, e depois afirmar em outra pas- sagem que ela no seja o bem total. Que a boa vontade no constitua o nico bem fica claro a partir dos exemplos ci- tados acima de coisas que podem ser consideradas como boas, ainda que no tenha ficado evidente de que modo estas coisas possam representar um bem. </li><li> 15. O PROBLEMA DA MOTIVAO MORAL EM KANT 19 A diferena entre a boa vontade e as outras coisas resi- de no fato de que a primeira constitui um bem irrestrito e, portanto, incondicionado, ao passo que as demais so es- tritamente dependentes do princpio de uma boa vontade como condio indispensvel da bondade atribuda a elas. Os dons naturais podem ser bons desde que a vontade que haja de fazer uso deles seja boa, pois do contrrio, se, por exemplo, deles faz uso uma m vontade, consequentemen- te, eles podem se tornar maus. Portanto,trata-sedebenscujovaloratribudorelativo, isto , eles obtm valor moral quando faz uso deles uma boa vontade, ao passo que o valor de uma boa vontade incon- dicionado. Desse modo, fica estabelecido que somente a vontade pode ser considerada boa ou m, e nesse sentido, todososefeitosdecorridosdela,comoporexemploasaes, recebem juzo de valor relativamente ao princpio determi- nante da vontade, pois apenas os princpios podem ser con- sideradosbonsoumaus.Notar-se-quenestepontoquea ticaformalkantianacomeaadistinguir-sedasticasante- riores consideradas materiais, ou ticas de contedo. Contudo, cabe a pergunta: o que torna uma boa vonta- de um bem incondicionado? No primeiro momento, Kant deixa entrever que uma vontade boa aquela que, indepen- dentemente das consequncias de seus efeitos, ou seja, con- siderada em si mesma, permanece envolvida com a bonda- de, o que destina vontade o carter de um bem incondicionado. A boa vontade no boa por aquilo que promove ou rea- liza, pela aptido para alcanar qualquer finalidade propos- ta, mas to-somente pelo querer, isto , em si mesma, e, con- siderada em si mesma, deve ser avaliada em grau muito mais alto do que tudo o que por seu intermdio possa ser alcana- do em proveito de qualquer inclinao, ou mesmo, se se qui- ser, da soma de todas as inclinaes. (Kant, 2005, p.23) </li><li> 16. 20 HLIO JOS DOS SANTOS SOUZA Kant, desse modo, assume o conceito de boa vontade como regra para o julgamento moral que, segundo ele, pro- vm da ideia que o homem comum tem do dever e das leis morais, e que reside j no bom senso natural, carecendo, pois, mais de um exame para determinar as condies de sua possibilidade e, deste modo, apontar o princpio no qual deva repousar este conceito, do que propriamente ser ensinado ao homem comum.1 Considerada desse modo, a boa vontade constitui-se como o princpio formal de toda a moralidade. Se, como afirma Kant, o conceito de boa vontade reside verdadeiramente no bom senso natural, ento, todo ho- mem, desde o mais simples ao mais culto, carregaria con- sigo, portanto, a regra para julgar o valor de suas aes. E mediante esta regra, a razo humana no campo moral po- deria ser levada a um alto grau de justeza e desenvolvimen- to, pois mesmo o homem comum encontraria nela a regra, oriunda de sua prpria conscincia, para avaliar se sua ao pode ser considerada moralmente boa. Com efeito, se a existncia do absolutamente bom est restringida a uma nica coisa, a saber, a uma boa vontade, todas as coisas res- tantes, para que possam ser consideradas boas, dependeri- am,comocondioindispensvel,dequetenhamsidopro- duzidasporumaboavontade.Nocasodoagirhumano,por exemplo, a realizao de uma boa ao estaria indissoluvel- mente dependente de uma boa vontade como condio necessria de sua realizao, ou seja, se a vontade no for boa, dela tambm seria impossvel decorrer uma boa ao. Isto um dado importante porque significa que, para Kant, no preciso ser culto pa...</li></ol>