O Percevejo Priodico Academico - CIDADES INSTÁVEIS: INTERVENÇÃO ARTÍSTICA COMO EXPERIÊNCIA HETEROTÓPICA DO ESPAÇO URBANO

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  • CIDADES INSTVEIS: INTERVENO ARTSTICA COMO EXPERINCIA HETEROTPICA DO ESPAO URBANO UNSTABLE CITIES: ARTISTIC INTERVENTION OF URBAN SPACE AS HETEROTOPIC EXPERIENCE Elosa Brantes Mendes (UERJ) Resumo A arte em situao de interveno desloca os signos de realidade para instaurar a prpria vivncia do espao urbano como lugar outro, no qual a experincia esttica suscitada implica numa reflexo poltica sobre a cidade: usos comuns do espao pblico e emergncia de coletividades temporrias. O artigo aborda a interveno artstica como possibilidade de re-inscrio da alteridade em espaos urbanos, articulando a noo de heterotopia (Michel Foucault) na emergncia de contra-lugares temporrios e o carter participativo da arte contextual (Paul Ardenne) na anlise de algumas obras-intervenes artsticas realizadas nos ltimos anos na cidade do Rio de Janeiro. Palavras-chave | arte | heterotopia | cidade Abstract Art in situation of intervention shifts the signs of reality to bring the experiences of urban space as another place in which the aesthetic experience implies in a political reflection about the city: common uses of public space and the idea of community. The article discusses the possibility of artistic intervention and re-inscription of the otherness in urban spaces. It articulates the idea of heterotopia (Michel Foucault) in the urgent need of counter- places and the participative nature of contextual art (Paul
  • ISSN 2176-7017 Ardenne) in the analysis of some works- art interventions performed in the city of Rio de Janeiro. Keywords | art | heterotopia | city Elosa Brantes Mendes doutora em Artes Cnicas da UFBA e completou sua pesquisa de doutorado na Sorbonne, 8. Ela professor de Artes no Instituto de Artes da UERJ. Elosa Brantes Mendes holds a PhD in Scenic Arts from UFBA, with a scholarship at Universit Paris VIII. Currently she teaches at the Instituto de Artes (UERJ). Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 2
  • ISSN 2176-7017 Cidades instveis: interveno artstica como experincia heterotpica do espao urbano Elosa Brantes Mendes No cotidiano das grandes cidades os espaos pblicos se tornam, cada vez mais, locais de passagem. Na lotao de trens, nibus e metrs, ou conduzindo seu prprio carro por engarrafamentos infindveis, o morador da cidade, na medida do possvel, recalca seus modos de inscrio corporal no espao urbano em formas comunicativas do habitar (Di Felice, 2009) que oferecem deslocamentos virtuais. O uso generalizado de aparelhos celulares prteses/dispositivos digitais alteram as prticas do espao comum, mediando as formas de contato com os lugares da cidade. Ao contrrio do flneur, que perambula pelas cidades do final do sc. XIX degustando a multiplicidade de escolhas oferecidas pelo espao urbano em sua temporalidade efmera, o cidado do sc. XXI comparvel ao telespectador que vivencia o mundo como uma experincia narctica. Na geografia fragmentada e descontnua da cidade, cada um segue seus trajetos estabelecidos, evitando as possibilidades de desvio pela ausncia de contato com pessoas estranhas. O corpo anestesiado no espao se move de maneira passiva. O amortecimento das sensaes, apontado por Richard Sennet como liberdade de resistncia, tanto uma criao do urbanista que projeta caminhos para facilitar o movimento diminuindo a ateno dispensada aos lugares de passagem, como do diretor de televiso, que explora meios de fazer com que as pessoas olhem para qualquer coisa sem desconforto. O objetivo de libertar o corpo da resistncia associa-se ao medo do contato, evidente no desenho urbano moderno (Sennett, 2010: p. 17), que reduz as possibilidades de conflito afastando, isolando, ou tornando invisveis as estranhezas perturbadoras, provocadas pelo contato entre diferentes tipos de populao que habitam as cidades. Na fragmentao dos espaos urbanos o ideal de comunidade se instaura fora dos espaos pblicos. O socilogo Zigmunt Bauman, em sua anlise da sociedade de consumo, situa a idia de comunidade como a ltima relquia das utopias da boa sociedade de outrora, que vigora nos argumentos de venda dos condomnios fechados. A utopia de comunidade reduzida s sobras dos sonhos de uma vida melhor, compartilhada com Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 3
  • ISSN 2176-7017 vizinhos melhores, todos seguindo melhores regras de convvio (Bauman, 2000: p. 108), na delimitao territorial dos condomnios fechados garante o afastamento de pessoas estranhas que possam ameaar o conforto destes lugares paradisacos. Isto sugerido no planejamento arquitetnico dos condomnios que oferecem segurana, lazer e consumo em um ideal de vida no qual o contato direto com a cidade dispensvel. O modelo de moradia em condomnios fechados que se expande na cidade do Rio de Janeiro, contrasta com a arquitetura informal das favelas construdas fora de qualquer projeto urbanstico. Nos ltimos anos a substituio do termo favela por comunidade, no contexto poltico de integrao das favelas cariocas cidade, visa diminuir as conotaes pejorativas da palavra favelado associada marginalidade econmica e social pelo reconhecimento desta populao como parte constituinte da cidade. Neste caso a utopia de comunidade tambm ecoa a lgica de valorizao do lugar, definido por suas redes de relao. Mas ao contrrio dos condomnios, que se fecham em relao cidade comum, valorizando a distino social dos seus moradores, a utopia de comunidade na favela atrai as pessoas de fora, na tentativa de incorporar a favela cidade pela idealizao do tipo de organizao familiar e comunitria que a sustenta. Em ambos os casos, a sociedade idealizada integra uma cidade utpica, cuja Paisagem Cultural Urbana passou a ser considerada Patrimnio Mundial da Humanidade pela UNESCO em 2012. Mas o senso de comunidade exclui o compartilhamento dos espaos da cidade como plis cidade organizada por homens livres e iguais na qual a delimitao das distncias sociais entre cidados, atravs da igualdade de direitos e deveres, define a dimenso pblica dos espaos urbanos. A utopia de comunidade nos condomnios e nas favelas no se inscreve na dimenso pblica dos espaos que compem a prpria cidade, enquanto aglomerado de pessoas que coexistem sendo diferentes umas das outras. Na fragmentao do contexto urbano em utopias de comunidade, os deslocamentos por espaos virtuais mais rpidos e eficazes do que as relaes presenciais que delimitam o espao fsico e social ampliam as margens de definio relacional dos lugares. Nas redes de sociabilidade virtual, o contato entre pessoas com interesses comuns cria um senso de Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 4
  • ISSN 2176-7017 comunidade que desloca os sentidos do espao urbano,1 conforme a viso ecossistmica na qual o ambiente habitvel de diversas formas pelo tipo de tecnologia utilizada no processo de interao-observao.2 Estmulos acionados por prteses digitais, a qualquer hora e em qualquer lugar, instauram campos sensoriais que mediam a relao corpo espao urbano como suporte de experincias comuns. Na possibilidade de estar alhures, em trnsitos virtuais que flexibilizam a presena individual, se instaura uma cidade abstrata. As dimenses simblicas do lugar, impregnado pela vivncia das relaes que o constituem, se alteram no estado de liquidez dos espaos urbanos permeados pela comunicao digital. A virtualidade da comunicao digital, que media as prticas do espao urbano, pode ser associada atopia apontada por Ramoneda como experincia do mal-estar urbano nas cidades contemporneas. A atopia no chega a se converter em lugar concreto, nem se apresenta como busca de um lugar que no existe utopia da sociedade ideal , mas se mantm como perda do lugar e produz uma sensao de desassossego permanente. A atopia urbana designa esse quadro de dvida, solido e medo, que perturba a construo do novo tipo de tramas e redes que talvez seja o fator de sociabilidade no futuro prximo (Ramoneda, 2007). A noo de espao heterogneo formado pelo conjunto de posicionamentos irredutveis uns aos outros e absolutamente impossveis de ser sobrepostos, visto por Foucault (1979) antes da era digital, parece distante das prticas do espao urbano mediadas pela comunicao virtual, que sobrepem diversos lugares ao mesmo tempo atravs de relaes inter-pessoais desincorporadas. O conceito de espaos simultneos, cunhado por Foucault em 1967 na definio de lugar, colocava em jogo certa sacralizao dos lugares na mobilizao das oposies entre espaos pblico/privado, familiar/social, cultural/til, lazer/trabalho. Mas na atopia, como sintoma urbano que ecoa a exteriorizao/exposio do espao privado os limites da dimenso pessoal do corpo na esfera pblica, tais 1 Sobre idia de comunidade em novos formatos de estrutura social que incluem a espacialidade virtual das tecnologias digitais, ver PAIVA, Raquel. O Esprito Comum: comunidade, mdia e globalismo. Rio de Janeiro: Mauad, 2003. 2 A abordagem ecossistmica questiona a anlise da cybercultura sob o prisma da dicotomia sujeito-ambiente, traada por Paul Virilo nos anos 1990. DI FELICE, Massimo. Paisagens PsUrbanas. O fim da experincia urbana e as formas comunicativas do habitar. So Paulo: Annablume, 2009. Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 5
  • ISSN 2176-7017 dicotomias se embaralham. A indefinio de lugar pela maleabilidade de suas redes relacionais, que sobrepem espaos reais/virtuais, no inclui necessariamente o contato com a alteridade. No espao urbano como local de passagem, intensificado pela velocidade dos deslocamentos virtuais, possvel evitar os encontros que no sejam intencionais, ou torn-los inconseqentes no caso de serem inevitveis (Bauman, 1997). Entre a sociedade utpica, projetada em lugares idealizados a certa distncia da cidade, e a atopia como perda da noo de lugar na virtualidade de redes relacionais, a produo artstica contempornea em espaos pblicos, na perspectiva da arte contextual (Ardenne, 2004), sai do campo da representao e do ideal de arte mergulhando na ordem concreta das coisas, atravs da participao do espectador na dimenso circunstancial de obras-proposies que tecem com a realidade. Neste sentido, a noo de heterotopia, traada por Michel Foucault, como lugares reais que so contra-posicionamentos, espcies de utopias realizadas nas quais todos os outros posicionamentos reais, que se pode encontrar no interior da cultura, so ao mesmo tempo representados, contestados e invertidos (Foucault, [1984], 2006:p.415), pode ser articulada com os intuitos de uma arte circunstancial, em que as barreiras espaciais-temporais que separam criao e percepo da obra se desmancham pela reconfigurao dos dados de realidade. A prpria cidade se faz matria de criao no apenas do artista, mas de todos que reinventam os sentidos do espao urbano atravs experincia esttica compartilhada. A interveno artstica enquanto arte contextual instaura uma heterotopia efmera (heterocronia) na qual a singularidade das relaes redefine o lugar cidade pelo contato entre estranhos. A arte contextual se instala no corao do mundo concreto e da vida presente pela colaborao instantnea com o pblico (Ardenne, 2004: p. 180) em proposies estticas que re-inserem a experincia da alteridade em espaos urbanos que, sendo agradvel ou no, remete existncia de outros lugares da cidade. Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 6
  • ISSN 2176-7017 Heterotopia, interveno artstica e espao urbano A realizao de eventos artsticos em espaos no-institucionais, baseados na exposio de obras site specific cujas propores, materiais e formas guardam uma relao com o respectivo ambiente, se popularizou nos anos 1980.3 Hoje, a institucionalizao da arte extrapola seus locais especficos (galerias, teatros, salas de cinema, etc.) envolvendo espaos alternativos, como fbricas desativadas, garagens ou galpes abandonados, antes utilizados como lugares de reao produo artstica legitimada pelo mercado de arte. A Interveno artstica em espaos urbanos no se ope institucionalizao da arte pelo mercado, mas se diferencia das obras site specific por sua dimenso contextual, que envolve a atividade do espectador na realizao da obra como acontecimento que reconfigura, momentaneamente, as percepes do real. Com a diluio do carter expositivo e convencional da obra de arte como objeto a ser contemplado (quadro, escultura, espetculo teatral, coreografia), alguns artistas passam a atuar em espaos pblicos a partir dos anos 1970. Keith Hering desenhou nos quadros negros reservados para publicidade nas estaes de metr.4 Trisha Brown coreografou danas sobre os telhados de Nova Iorque.5 Artur Barrio instalou obras feitas de resduos orgnicos (lixo, sangue, carne, etc) nas ruas de Belo Horizonte.6 Estas intervenes, que confundem cdigos de linguagem, sobrepondo espaos incompatveis, desestabilizam as categorias de percepo do espectador no apenas em relao aos critrios de definio da arte, mas tambm em relao aos espaos fsicos, culturais e sociais da cidade habitada. As 3 Sobre tipologia das obras site-specific como manifestao de arte pblica ver CARTAXO, Zalinda. Arte nos espaos pblicos: a cidade como realidade. O Percevejo Online, Peridico do Programa de Ps-Graduao em Artes Cnicas PPGAC/UNIRIO, 2010. 4 Os desenhos de Keith Haring no metr Subway Drawing nos anos 1980 foram seu primeiro trabalho de reconhecido sucesso. A preciso dos traos rpidos, que desenham personagens estranhos, segue a circunstncia temporal dos minutos que, entre a passagem de um trem e outro, o permitia desenhar sem ser visto. 5 Na pea Roof Piece (1971) doze bailarinos sobre diferentes tetos dos edifcios de Wooster Street (NY) se transmitem o mesmo movimento. A distncia entre os edifcios participava desta transmisso de movimentos atravs dos sistemas intuitivos e kinestsicos. MACEL, Christine. Trisha Brown. Danser sa vie. Art et Danse de 1900 nos jours. Paris: Centre Pompidou, 2012, p. 266. 6 Trouxas ensanguentadas (1970) feitas com materiais orgnicos como lixo, papel higinico, detritos humanos e carne putrefata, e espalhadas ao longo de um rio na cidade de Belo Horizonte, durante a mostra Do Corpo Terra. Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 7
  • ISSN 2176-7017 Intervenes artsticas em espaos pblicos envolvem uma dimenso performtica que reconfigura, momentaneamente, os lugares da cidade. Sem se limitar presena corporal do artista como parte integrante da obra, a performance como trao da arte contempornea coloca em jogo a dinmica relacional da ao, instalao ou interveno, que envolvem o corpo do espectador como participante das suas circunstncias de realizao. A ocupao de espaos pblicos e a interface corpo/obra se tornam substncias de uma prtica artstica, que insere as circunstncias espaciais e a temporalidade do acontecimento na configurao da obra. A forma deixa de ser apenas um efeito de composio visual, sonora ou cnica, para se tornar um elemento de ligao entre as pessoas que vivenciam a obra-proposio. A idia do artista criador como nico responsvel pela sua obra, que vigora na linguagem artstica como mediao entre o real e o representado, cede lugar para o universo funcional, no qual a arte revive os objetos ou revela sua inutilidade, recombinando os dados da prpria realidade (Bourriaud, 2009). Hlio Oiticica ao reivindicar o status do artista como inventor explicita esta condio da arte como esttica da existncia que coloca em evidncia valores antes desapercebidos. Sua definio do inventar: processo in progress que no se resume na edificao da OBRA mas no lanamento de mundos que se simultaneiam. Simultaneidade em vez de mediao,7 esclarece o papel do artista que se retira do lugar de demiurgo criador de mundos pela expresso de realidades subjetivas para provocar o mundo, desestabilizando a produo de subjetividades que orientam nossa percepo cotidiana da realidade. Neste campo da arte como reprogramao do mundo, as intervenes em meio urbano so formas maleveis, cujos princpios de aglutinao dinmica cruzam diferentes planos da realidade pela emergncia de coletividades temporrias. Conforme escreve Pallamin a respeito da arte urbana como prtica crtica, a interveno artstica coloca em jogo a produo simblica do espao urbano, repercutindo as contradies, conflitos e relaes de poder que o constituem. A noo de 7 Hlio Oiticica. Manuscrito de 23 de outubro 1973, Caderno, Projeto HO. Grifo de Hlio. Carneiro, Beatriz Scigliano. Relmpagos com Claror. Lygia Clark e Hlio Oiticica, vida como arte. So Paulo: Ed. Imaginrio/FAPESP, 2004, p. 166. Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 8
  • ISSN 2176-7017 heterotopia localizvel no espao e institucionalmente reconhecida como lugares fora de todo lugar que representam, contestam e invertem os outros posicionamentos reais dentro de uma cultura, como por exemplo os presdios, hospcios, asilos, etc. Na Interveno artstica, a sobreposio de vivncias diferentes do mesmo espao, atravs da experincia da alteridade que reflete a existncia de outros lugares, remete noo de heterotopia como experincia esttica do espao urbano. Proposies artsticas que reutilizam formas sociais existentes na configurao de contra-lugares, que provocam a atividade do morador como espectador de si mesmo e parte integrante da cidade em que vive, sero vistas a partir de Intervenes artsticas recentes, realizadas na cidade do Rio de Janeiro. Intervenes artsticas na cidade do Rio de Janeiro Desde 2009, a cidade do Rio de Janeiro se tornou campo de uma nova poltica de organizao do espao pblico, conduzida pelo governo municipal: o choque de ordem voltado para a limpeza e segurana do espao urbano. O controle da cidade no cotidiano (horrio de trmino das feiras livres, iluminao das ruas, retirada dos camels e bicicletas estacionadas, etc.) acompanha reformas urbansticas de grande porte, realizadas em funo dos mega-eventos que iro acontecer na cidade (Copa do Mundo em 2014 e Jogos Olmpicos em 2016). Tal poltica, que se instalada aps 2008 com o comeo da ocupao policial das favelas sob o domnio do trfico de drogas, significativa da reorganizao social dos espaos da cidade, tambm marcada pela alta especulao imobiliria. Alm do choque de ordem, entre os anos 2010 e 2011, a cidade foi palco de muitos acidentes urbanos que revelam, de modo literal, a instabilidade do territrio urbano pelo desmoronamento de construes slidas. Desabamentos de edifcios, exploses de bueiros (redes de ligao eltrica) e outros acidentes improvveis colocam em jogo um certo estado de choque, que atravessa o inconsciente coletivo no cotidiano urbano carioca. A ordem do choque, como instncia traumtica da memria urbana recente, em contraponto com o choque de ordem enquanto poltica de segurana pblica, delineia o campo de tenses no qual a interveno artstica atua como dispositivo de reflexes estticas e polticas, articulando realidades Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 9
  • ISSN 2176-7017 distintas na configurao de heterotopias efmeras heterocronias que desviam e refletem as interaes sociais cotidianas. Neste contexto as propostas artsticas de interveno, vistas a seguir, re-configuram os espaos urbanos pela sobreposio e contraposio das fronteiras culturais e econmicas, que dividem a cidade em zonas incomunicveis. No Rio de Janeiro a cartografia da produo artstica, restrita zona sul e ao centro da cidade8 problematizada pelas intervenes que, de formas diversas, reivindicam a realizao de uma arte pblica. A instalao da Cia de Dana Lia Rodrigues em um galpo na favela da mar, considerada um lugar perigoso e violento, questiona a cartografia da produo/consumo artstico cultural carioca. O Centro de Artes da Mar (CAM) onde fica a sede da Cia de dana, criado em 2008, em parceria com a Redes de Desenvolvimento da Mar, foi aberto ao pblico em 2009, aps um ano de reformas.9 A opo de Lia Rodrigues como artista referencial da dana contempornea no Brasil, com forte atuao poltica no meio da dana carioca desde os anos 1990, em instalar-se com sua Cia de dana fora das reas de circulao da cultura artstica, para desenvolver suas criaes no lugar favela uma interveno urbana que prope novos sentidos ticos-estticos no trnsito cultural margem centro da cidade. Entrar numa favela para participar de um ensaio de escola de samba, por exemplo, uma experincia esttica que no envolve necessariamente as dimenses ticas do conceito arte como capital cultural. Mas entrar numa favela para assistir um espetculo de dana contempornea, que normalmente seria visto no palco de um teatro, uma sobreposio de lugares que provoca deslocamentos sociais e abre campos de reflexo sobre os espaos e circuitos fsicos/sociais da arte enquanto capital cultural. O deslocamento do espectador como estrangeiro em sua prpria cidade, no trajeto at a favela da mar j lhe prope vias de reflexo sobre a cidade como lugar habitado. As imagens urbanas que o atravessam durante o percurso entram em jogo na percepo do espetculo de dana, que transborda os limites do palco e denuncia a incomunicabilidade entre diferenas scio-culturais. Isto se explicita no texto de apresentao do 8 Regies de maior poder econmico que, comparadas ao resto da cidade (zona norte, subrbio e zona oeste), comportam uma populao reduzida. 9 O centro abriga, alm da Lia Rodrigues Companhia de Danas, o Ponto de Cultura Rede de Arte da Mar, a Escola Livre de Dana da Mar e o MarCine, entre outras iniciativas. Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 10
  • ISSN 2176-7017 Programa do espetculo Piracema, apresentado no Centro da Artes da Mar (CAM) em maro 2012, Idealizado para criao, formao e difuso das artes, com destaque para a dana contempornea, em relao qual o CAM vem se constituindo referncia genuna, buscando romper com a segmentao existente entre os diferentes territrios da cidade no campo do direito arte. Ocupando o CAM com atividades contnuas de aula, ensaios do repertrio, criao e pesquisa, a Cia de Dana Lia Rodrigues promove encontros entre pessoas com diversas experincias educacionais e culturais, investindo na construo diria de espaos onde a arte possa ser compartilhada. Os dois espetculos criados pela Companhia no CAM utilizam fenmenos da natureza ligados gua: Pororoca (as ondas provocadas pelo encontro do rio Amazonas com o mar) e Piracema (viagem dos cardumes que, na poca de desova, nadam contra a correnteza). Em ambos os espetculos, que manifestam formas de convvio e coabitao (diretas e indiretas) na luta pela sobrevivncia, os movimentos corporais convidam o espectador a inventar os sentidos da dana oferecendo-lhe uma experincia esttica ancorada nos encontros humanos. A sobreposio espacial entre o lugar da favela e o lugar da arte como campos sociais incompatveis, na cartografia da produo/consumo da cultura artstica carioca, instaura uma experincia heterotpica do espao pela expresso concreta de uma utopia urbana com novas paginaes e atores como se l no Programa de apresentao , expresso associada a um tipo de processo artstico cujo carter participativo envolve relaes de alteridade. O deslocamento esttico, como procedimento artstico que rearticula dados de realidade na configurao de experincias heterotpicas do espao, tambm pode ser provocado pelo estranhamento em relao ao espao urbano cotidiano. Este caso da Coreografia para prdios, pedestres e pombos, projeto realizado pela coregrafa Dani Lima em parceria com a cineasta Paola Barreto no Largo do Machado (zona sul do Rio de Janeiro) em 2010. O prprio nome da interveno remete ao que est fora do corpo bailarino: movimentos cotidianos dos prdios, pedestres e pombos, em fluxos de deslocamento e possibilidades coreogrficas. A Interveno Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 11
  • ISSN 2176-7017 coreogrfica instaura um devir dana, acionado por desvios sensoriais na relao cotidiana corpo espao. Atravs da interao das linguagens cinema e dana, a Interveno prope uma remontagem dos acontecimentos no cotidiano da praa Largo do Machado. Uma equipe de vinte tcnicos e artistas, alm de onze bailarinos, realizam uma srie de intervenes coreogrficas camufladas no cotidiano da praa. Atravs de uma cmera instalada no alto de uma igreja e da comunicao por rdio, Dani Lima cria, em tempo real, a coreografia dos bailarinos em dilogo com os movimentos dos pedestres na praa. A edio dos acontecimentos se passa em duas instncias: a prpria criao coreogrfica feita em tempo real, a partir dos diagramas de movimentos previamente ensaiados pelos bailarinos que interagem com o cotidiano da praa; a transmisso direta dos acontecimentos filmados por vrias cmeras de segurana, na montagem do vdeo projetado no caf de um teatro, prximo ao Largo do Machado.10 O lugar escolhido pelo espectador para assistir a coreografia condiciona a forma do espetculo: na praa, ao nvel do cho (prximo aos performers); no caf do teatro (vendo a mixagem ao vivo das imagens e sons); na torre da Igreja (com binculos e mp3 escolhendo seus prprios enquadramentos), ou pelo streaming via internet. A sobreposio de espaos provocada pelos diferentes pontos de vista dos espectadores em relao aos acontecimentos ao vivo, envolve diversas temporalidades do lugar Largo do Machado. As Intervenes coreogrficas, cuja dimenso processual no se finaliza como produto artstico, mas articula os fluxos de movimentos corporais gerados pela relao entre bailarinos-pedestres e cruza diferentes pontos de vista dos espectadores, instaura uma experincia de contra-lugar no cotidiano da praa. Nas coreografias camufladas, a sutileza dos movimentos cotidianos, desviados e alterados, confunde a separao entre bailarinos e pedestres. Altera-se a percepo da dana, como acontecimento cujas imagens, 10 As intervenes coreogrficas, gravadas diariamente durante 2 meses, formam um banco de imagens do cotidiano do bairro que participa da edio de imagens filmadas e transmitidas em tempo real. Assim, no caf do teatro, o espectador assiste todo o material sendo editado, sonorizado e projetado em uma performance de cinema ao vivo, simultnea interveno coreogrfica na praa (Instituto Cultural Oi Futuro, patrocinador financeiro do projeto). Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 12
  • ISSN 2176-7017 captadas por cmeras de vigilncia, so editadas e projetadas em outro espao ao vivo, e se sobrepem em diferentes temporalidades (passado e presente) do mesmo lugar. A espetacularidade da interveno coreogrfica, que se dilui em diferentes pontos de vista do espectador sobre o cotidiano, provoca estranhamentos em relao ao espao vivido. Conforme explica Dani Lima, a interveno pretende lanar um olhar atento sobre o Largo do Machado, sua arquitetura e seu paisagismo, seus frequentadores, seu cotidiano, suas memrias passadas e presentes, e contribuir para uma redescoberta do potencial potico do espao pblico.11 A valorizao do cotidiano em suas possibilidades de edio (atravs da dana e do vdeo) reflete diversas formas de existncia comum. A experincia heterotpica do espao urbano, acionada pela sobreposio de temporalidades diferentes, desloca a percepo das interaes sociais cotidianas que se passam no mesmo lugar (a praa) e remetem aos usos comuns dos espaos pblicos na cidade. Outro exemplo de interveno camuflada, que coloca em jogo os usos do espao pblico atravs da desmaterializao da arte como objeto, a interveno S vendo a vista (1998) do artista plstico Marcos Chaves. A sutileza e ironia da interferncia visual, que desvia a ateno do cidado passante, lhe oferecem o lugar de espectador crtico da cidade em que vive. Nos relgios pblicos da cidade, cuja placa luminosa reservada para publicidade de produtos e eventos, o artista instalou uma fotografia do Rio de Janeiro tpica de carto postal, exaltando os smbolos da cidade maravilhosa com a legenda escrita: S VENDO A VISTA. O jogo com a palavra VENDO derivada dos verbos ver e vender conjugados em tempos distintos e VISTA como paisagem observada e como modo de pagamento sem parcelamento ou crdito, provoca estranheza em relao ao enunciado que tematiza e atua sobre a cidade. A cidade est venda ou eu apenas contemplo o visual da cidade? A combinao entre imagem, texto e suporte (relgio) de publicidade no mobilirio urbano remete s questes de direito e do acesso aos espaos privilegiados da cidade, por sua beleza natural. As fronteiras sociais e econmicas entre aqueles que apenas vem, aqueles que vendem e aqueles que compram as vistas mais bonitas da cidade, so 11 Fragmento do texto de apresentao do projeto Coreografia para prdios pombos e pedestres, extrado do site www.danilima.com. Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 13
  • ISSN 2176-7017 evocadas no estranhamento provocado pela interferncia nos relgios da cidade, que marcam o mesmo tempo cronolgico para todos. As imagens de carto postal mostram a zona sul da cidade, cujo metro quadrado o mais caro do Brasil. As mesmas imagens tambm so vistas pelos moradores das favelas, situadas nos morros da zona sul. Mas a relao de venda e compra da paisagem supe um capital financeiro que pertence a poucos. A interferncia visual nos relgios das ruas provoca curto-circuito nos sentidos de propriedade e de apropriao do espao urbano. Pelas lentes do estranhamento o espectador participa do processo de enunciao, que ao se camuflar como publicidade, penetra no cotidiano e instaura uma experincia heterotpica do espao urbano como lugar pblico que reflete domnios privados. Diferentemente da sutileza irnica de Marcos Chaves, o carter provocativo da interveno visual Tridente (2006) do artista plstico Alexandre Vogler, no Morro Cruzeiro, situado no Municpio de Nova Iguau (Estado do Rio de Janeiro) causou reaes violentas da comunidade religiosa evanglica local. Na encosta da Serra do Vulco, o artista pintou um imenso tridente branco, visvel distncia por toda comunidade local e por quem passasse perto. A imagem do tridente como smbolo do diabo na umbanda, religio afro-brasileira condenada pelos evanglicos, motivou a revolta de religiosos que protestaram contra a pintura. O caso mobilizou a mdia (jornal O Dia) e a prefeitura de Nova Iguau, que ordenou a retirada imediata da imagem pintada e ameaou processar o artista Alexandre Vogler, cujo projeto inicialmente aprovado pela prefeitura era pintar (no mesmo local) a frase I Love Nova Iguau, com um corao no lugar do Love.12 Devido a falta de verbas suficientes para a instalao da frase com letreiros luminosos, o artista alterou o projeto inicial, substituindo o texto pela imagem do Tridente enquanto smbolo do deus Netuno, na Mitologia Grega. Aps terminar a pintura, Alexandre Vogler ao ver a imagem de longe, reconheceu a semelhana com o smbolo religioso afro-brasileiro, sem imaginar que a interveno causaria tanta polmica. A presena do Tridente no morro durou pouco tempo. Em algumas horas, cerca de 12 A realizao do desenho fez parte de uma oficina de Arte Pblica, oferecida por Alexandre Vogler, contemplado pelo Projeto Interferncias Urbanas FUNARTE, e apoiado pela prefeitura Municipal de Nova Iguau. Sobre o assunto, ver o dossi das matrias publicadas em jornal em 2006. Revista Concinnitas, n. 8, v. 1, julho 2007. Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 14
  • ISSN 2176-7017 quarenta funcionrios da prefeitura de Nova Iguau chegaram para apagar a pintura na encosta do morro. Eles trabalharam durante dois dias nesta tarefa. A dificuldade em desfazer a imagem, pintada de cal sobre a pedra e a vegetao no morro, obrigou os homens a estenderem os traos do desenho para desfigurar o Tridente. O resultado visual foi um quadrado meio torto. Alm de alterar a forma do desenho, os funcionrios tambm plantaram brotos de coroa-de-cristo em forma de cruz. Depois desta limpeza, o prefeito acompanhou um grupo de pastores e padres, que subiram o morro para rezar o pai-nosso e benzer o local, a fim de afastar o mal da terra de Jesus. Mas apenas com a chuva, que caiu sete dias aps a interveno do Tridente, a pintura desapareceu totalmente. Na interpretao dos religiosos, a chuva foi uma resposta divina deciso do prefeito em mandar pintar um corao no mesmo local. Os acontecimentos suscitados pelo Tridente evidenciam o carter provocativo e coletivo da obra-interveno construda atravs das reaes que suscita. Diferentes espaos sociais se sobrepem imagem do Tridente: os funcionrios da prefeitura que desfazem o desenho do mal, a performance religiosa dos pastores e padres que rezam o local, a atuao poltica do prefeito Municipal como protetor do lugar, e finalmente a chuva interpretada como manifestao divina. O acompanhamento miditico destes acontecimentos, no jornal O Dia,13 tambm participa da interveno artstica propagando as notcias pela cidade e ampliando os debates sobre arte, religio e poltica.14 A participao direta da comunidade religiosa e do prefeito na obrainterveno, atravs da reza coletiva, transformaram temporariamente o Morro Cruzeiro em um lugar sagrado. A interveno como dispositivo de acontecimentos, neste caso, descontextualiza o lugar da arte como representao ao suscitar reaes que refletem e espetacularizam representaes sociais do Estado e da religio. A Interveno Tridente aciona uma dinmica de prticas do espao que refletem as relaes de poder que cruzam o espao pblico, modos de controle social e polticas culturais. 13 Entre o dia 15 de agosto e 22 de agosto de 2006, ocorreram as aes e reaes do artista, da prefeitura, da comunidade religiosa e da comunidade cientfica (que denunciou os estragos do solo causados pelo cal). 14 Durante uma semana o caso ganhou manchetes no jornal: Entre a cruz e o tridente (15/08/2006); Religiosos contra o tridente (17/08/2006); Chuva apaga o Tridente(26/08/2006). Matrias do jornal O Dia. Revista Concinnitas, n. 8, v. 1, julho 2007. Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 15
  • ISSN 2176-7017 Diferentemente dos projetos individuais, o carter poltico das intervenes urbanas feitas por Coletivos de artistas envolve a tica colaborativa dos grupos, cuja heterogeneidade comporta traos comuns, como diviso de tarefas, compartilhamento de valores e liderana coletiva. A reflexividade e o questionamento dos coletivos em relao aos seus modos de organizao, produo e criao, que investem em formas de existncia relativamente independentes do mercado artstico profissional, apontam caminhos diversos em direo arte pblica. O Coletivo Imaginrio perifrico, por exemplo, que surgiu durante a dcada de 1990 na Baixada Fluminense, distante do centro do Rio de Janeiro, reivindicando a descentralizao das reas de produo/consumo artstico, hoje composto por mais de 485 artistas numa forma de organizao em rede, descentralizada, nmade, que no se deixa capturar pelas esferas de controle. A proposta de questionar o Meio da Arte carioca discute a existncia de pontos geogrficos determinantes da arte contempornea monopolizada por curadores, instituies e marchands. Assim, o coletivo afirma e valoriza a produo individual dos artistas visuais que o integram, propagando a arte nas ruas: o artista visto como um operrio, na busca pelo reconhecimento do seu trabalho. A atuao do Coletivo Opavivar, que surgiu em 2005 na zona sul da cidade, questiona mais a domesticao do espao pblico, em suas intervenes do que a centralizao da produo artstica carioca. Composto por seis artistas que no se apresentam nominalmente, o coletivo se declara uma entidade criativa que produz arte relacional. Suas intervenes no se baseiam na criao de objetos artsticos, mas em situaes de convivialidade, como por exemplo, uma barraca de distribuio de chs na Feira de Arte do Rio 2011, ou a instalao de cadeiras de praia, com lugar para trs pessoas sentarem juntas, em espaos urbanos inspitos. Ao oferecer obras para serem vivenciadas e no apenas descritas, o coletivo interfere no espao pblico atravs de experincias estticas que, calcadas no cotidiano, refletem e questionam as formas de controle do espao pblico. O Coletivo Lquida Ao, formado em 2007, funciona com rotatividade de artistas colaboradores, na criao/realizao de aes coletivas em Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 16
  • ISSN 2176-7017 situao de interveno urbana dirigidas por mim. As intervenes baseadas em aes com gua articulam fluxos de movimentos cotidianos com a memria dos espaos urbanos, provocando desvios sensoriais que refletem e criticam valores vitais da sociedade de consumo. As dimenses fsicas e simblicas da gua atuam como dispositivos de experincias estticas que potencializam as sensaes (texturas, sonoridades, imagens, temperatura, etc) atravs das interaes corpo-gua-espao. A proposio de levar gua em trajetos que atravessam a memria urbana (ativao de chafarizes secos, percursos de rios subterrneos, banhos coletivos em locais significativos, lavagens de roupas dos moradores) destaca as particularidades de cada espao em aes site-specifc cuja indefinio formal (ao em estado lquido) incorpora diversas formas de participao do espectador. A presena da gua, em aes coletivas, desarticula a percepo cotidiana dos espaos pblicos e reflete fragmentos da memria urbana em torno da gua. As Intervenes artsticas, em projetos individuais ou Coletivos, vistas neste artigo como experincias heterotpicas do espao urbano, transformam temporariamente as interaes cotidianas corpo espao pela montagem, desmontagem e remontagem dos dados de realidade. Estes processos artsticos, que envolvem a participao do espectador em situaes vividas, investem no espao urbano como campo de alteridades possveis. O espelho, como espao virtual que contm uma experincia de heterotpica, pode ser comparado com a reflexividade da Interveno artstica em meio urbano. O espelho transforma o lugar refletido (ocupado pela pessoa que se olha no espelho) num espao ao mesmo tempo real (associado a todo o espao que o circunda) e absolutamente irreal (que s pode ser percebido no ponto virtual por trs do espelho). A Interveno artstica, como modus-operandi da realidade, prope deslocamentos estticos que refletem fragmentos do espao social, arquitetnico, cultural, emocional, etc. Assim como espelho, cuja existncia real exerce um tipo de contra-ao posio ocupada por quem se olha refletido ali, a Interveno artstica nos espaos urbanos instaura uma espcie de contra-lugar que desvia as aes cotidianas deslocando, sobrepondo e contrapondo lugares Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 17
  • ISSN 2176-7017 diferentes que refletem modos de organizao social do espao pblico na cidade. Referncias bibliogrficas ARDENNE, Paul. Un Art Contextuel. Cration Artistique en milieu urbain, en situation, dintervention, de participation. Paris: Flammarion, 2004. BAUMAN, Zigmunt. Modernidade Lquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. BEY, Hakim. Zona Autnoma Temporria (Temporary Autonomus Zone): parte 1. ROSAS, Ricardo (ed.); SALGADO, Marcus (ed.). Rizoma.net, 2002, p. 213-226. Disponvel em: http://www.intervencaourbana.org/rizoma/rizoma_intervencao.pdf. Acesso em: dez/2012. BOURRIAUD, Nicolas. Radicant pour une esthtique de la globalisation. Paris: Denol, 2009. BOURRIAUD, Nicolas. Ps-Produo como a arte reprograma o mundo contemporneo. So Paulo: Martins Fontes, 2004. BTTNER, Claudia. Projetos artsticos em espaos no-institucionais de hoje. PALLAMIN, Vera M. Cidade e Cultura. Esfera pblica e transformao urbana. So Paulo: Estao Liberdade, 2002, p. 73-102. CARNEIRO, Beatriz Scigliano Carneiro. Relmpagos com Claror. Lygia Clark e Hlio Oiticica, a vida como arte. So Paulo: Ed. Imaginrio; Fapesp, 2004. CARREIRA, Andr (org.). Teatralidade e cidade. Florianpolis: Editora da UDESC, 2011. CARTAXO, Zalinda. Arte nos espaos pblicos: a cidade como realidade. O Percevejo Online, Peridico do Programa de Ps-Graduao em Artes Cnicas PPGAC/UNIRIO, 2010. DI FELICE, Massimo. Paisagens Ps-Urbanas. O fim da experincia urbana e as formas comunicativas do habitar. So Paulo: Annablume, 2009. FERRARA, Lucrcia DAlessio. Comunicao, espao, cultura. So Paulo: Annablume, 2008. FOSTER, Hal. O retorno do real. Concinnitas, ano 6, n. 8, v. 1, julho 2005, Rio de Janeiro, DEART/UERJ. FOUCAULT, Michel. Microfsica do Poder. So Paulo: Ed. Graal, 1979. FOUCAULT, Michel. Outros espaos. Ditos e escritos III : Esttica, Pintura, Msica e Cinema.2.ed. Rio de Janeiro: Forense, 2006. GUATTARI, Felix. Lignes de fuite. Pour un autre monde de possibles. Paris: Ed. LAube, 2011. LEMOINE, Stphanie ; OUARDI, Samira. Artivisme. Art, action politique et rsistence culturelle. Paris: Alternative, 2010. LIMA, Dani. Corpo, poltica e discurso na dana de Lia Rodrigues. Rio de Janeiro: Ed. UniverCidade, 2007. Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 18
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