O Percevejo Priodico Academico - CIDADES INSTÁVEIS: INTERVENÇÃO ARTÍSTICA COMO EXPERIÊNCIA HETEROTÓPICA DO ESPAÇO URBANO

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<ul><li> CIDADES INSTVEIS: INTERVENO ARTSTICA COMO EXPERINCIA HETEROTPICA DO ESPAO URBANO UNSTABLE CITIES: ARTISTIC INTERVENTION OF URBAN SPACE AS HETEROTOPIC EXPERIENCE Elosa Brantes Mendes (UERJ) Resumo A arte em situao de interveno desloca os signos de realidade para instaurar a prpria vivncia do espao urbano como lugar outro, no qual a experincia esttica suscitada implica numa reflexo poltica sobre a cidade: usos comuns do espao pblico e emergncia de coletividades temporrias. O artigo aborda a interveno artstica como possibilidade de re-inscrio da alteridade em espaos urbanos, articulando a noo de heterotopia (Michel Foucault) na emergncia de contra-lugares temporrios e o carter participativo da arte contextual (Paul Ardenne) na anlise de algumas obras-intervenes artsticas realizadas nos ltimos anos na cidade do Rio de Janeiro. Palavras-chave | arte | heterotopia | cidade Abstract Art in situation of intervention shifts the signs of reality to bring the experiences of urban space as another place in which the aesthetic experience implies in a political reflection about the city: common uses of public space and the idea of community. The article discusses the possibility of artistic intervention and re-inscription of the otherness in urban spaces. It articulates the idea of heterotopia (Michel Foucault) in the urgent need of counter- places and the participative nature of contextual art (Paul </li> <li> ISSN 2176-7017 Ardenne) in the analysis of some works- art interventions performed in the city of Rio de Janeiro. Keywords | art | heterotopia | city Elosa Brantes Mendes doutora em Artes Cnicas da UFBA e completou sua pesquisa de doutorado na Sorbonne, 8. Ela professor de Artes no Instituto de Artes da UERJ. Elosa Brantes Mendes holds a PhD in Scenic Arts from UFBA, with a scholarship at Universit Paris VIII. Currently she teaches at the Instituto de Artes (UERJ). Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 2 </li> <li> ISSN 2176-7017 Cidades instveis: interveno artstica como experincia heterotpica do espao urbano Elosa Brantes Mendes No cotidiano das grandes cidades os espaos pblicos se tornam, cada vez mais, locais de passagem. Na lotao de trens, nibus e metrs, ou conduzindo seu prprio carro por engarrafamentos infindveis, o morador da cidade, na medida do possvel, recalca seus modos de inscrio corporal no espao urbano em formas comunicativas do habitar (Di Felice, 2009) que oferecem deslocamentos virtuais. O uso generalizado de aparelhos celulares prteses/dispositivos digitais alteram as prticas do espao comum, mediando as formas de contato com os lugares da cidade. Ao contrrio do flneur, que perambula pelas cidades do final do sc. XIX degustando a multiplicidade de escolhas oferecidas pelo espao urbano em sua temporalidade efmera, o cidado do sc. XXI comparvel ao telespectador que vivencia o mundo como uma experincia narctica. Na geografia fragmentada e descontnua da cidade, cada um segue seus trajetos estabelecidos, evitando as possibilidades de desvio pela ausncia de contato com pessoas estranhas. O corpo anestesiado no espao se move de maneira passiva. O amortecimento das sensaes, apontado por Richard Sennet como liberdade de resistncia, tanto uma criao do urbanista que projeta caminhos para facilitar o movimento diminuindo a ateno dispensada aos lugares de passagem, como do diretor de televiso, que explora meios de fazer com que as pessoas olhem para qualquer coisa sem desconforto. O objetivo de libertar o corpo da resistncia associa-se ao medo do contato, evidente no desenho urbano moderno (Sennett, 2010: p. 17), que reduz as possibilidades de conflito afastando, isolando, ou tornando invisveis as estranhezas perturbadoras, provocadas pelo contato entre diferentes tipos de populao que habitam as cidades. Na fragmentao dos espaos urbanos o ideal de comunidade se instaura fora dos espaos pblicos. O socilogo Zigmunt Bauman, em sua anlise da sociedade de consumo, situa a idia de comunidade como a ltima relquia das utopias da boa sociedade de outrora, que vigora nos argumentos de venda dos condomnios fechados. A utopia de comunidade reduzida s sobras dos sonhos de uma vida melhor, compartilhada com Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 3 </li> <li> ISSN 2176-7017 vizinhos melhores, todos seguindo melhores regras de convvio (Bauman, 2000: p. 108), na delimitao territorial dos condomnios fechados garante o afastamento de pessoas estranhas que possam ameaar o conforto destes lugares paradisacos. Isto sugerido no planejamento arquitetnico dos condomnios que oferecem segurana, lazer e consumo em um ideal de vida no qual o contato direto com a cidade dispensvel. O modelo de moradia em condomnios fechados que se expande na cidade do Rio de Janeiro, contrasta com a arquitetura informal das favelas construdas fora de qualquer projeto urbanstico. Nos ltimos anos a substituio do termo favela por comunidade, no contexto poltico de integrao das favelas cariocas cidade, visa diminuir as conotaes pejorativas da palavra favelado associada marginalidade econmica e social pelo reconhecimento desta populao como parte constituinte da cidade. Neste caso a utopia de comunidade tambm ecoa a lgica de valorizao do lugar, definido por suas redes de relao. Mas ao contrrio dos condomnios, que se fecham em relao cidade comum, valorizando a distino social dos seus moradores, a utopia de comunidade na favela atrai as pessoas de fora, na tentativa de incorporar a favela cidade pela idealizao do tipo de organizao familiar e comunitria que a sustenta. Em ambos os casos, a sociedade idealizada integra uma cidade utpica, cuja Paisagem Cultural Urbana passou a ser considerada Patrimnio Mundial da Humanidade pela UNESCO em 2012. Mas o senso de comunidade exclui o compartilhamento dos espaos da cidade como plis cidade organizada por homens livres e iguais na qual a delimitao das distncias sociais entre cidados, atravs da igualdade de direitos e deveres, define a dimenso pblica dos espaos urbanos. A utopia de comunidade nos condomnios e nas favelas no se inscreve na dimenso pblica dos espaos que compem a prpria cidade, enquanto aglomerado de pessoas que coexistem sendo diferentes umas das outras. Na fragmentao do contexto urbano em utopias de comunidade, os deslocamentos por espaos virtuais mais rpidos e eficazes do que as relaes presenciais que delimitam o espao fsico e social ampliam as margens de definio relacional dos lugares. Nas redes de sociabilidade virtual, o contato entre pessoas com interesses comuns cria um senso de Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 4 </li> <li> ISSN 2176-7017 comunidade que desloca os sentidos do espao urbano,1 conforme a viso ecossistmica na qual o ambiente habitvel de diversas formas pelo tipo de tecnologia utilizada no processo de interao-observao.2 Estmulos acionados por prteses digitais, a qualquer hora e em qualquer lugar, instauram campos sensoriais que mediam a relao corpo espao urbano como suporte de experincias comuns. Na possibilidade de estar alhures, em trnsitos virtuais que flexibilizam a presena individual, se instaura uma cidade abstrata. As dimenses simblicas do lugar, impregnado pela vivncia das relaes que o constituem, se alteram no estado de liquidez dos espaos urbanos permeados pela comunicao digital. A virtualidade da comunicao digital, que media as prticas do espao urbano, pode ser associada atopia apontada por Ramoneda como experincia do mal-estar urbano nas cidades contemporneas. A atopia no chega a se converter em lugar concreto, nem se apresenta como busca de um lugar que no existe utopia da sociedade ideal , mas se mantm como perda do lugar e produz uma sensao de desassossego permanente. A atopia urbana designa esse quadro de dvida, solido e medo, que perturba a construo do novo tipo de tramas e redes que talvez seja o fator de sociabilidade no futuro prximo (Ramoneda, 2007). A noo de espao heterogneo formado pelo conjunto de posicionamentos irredutveis uns aos outros e absolutamente impossveis de ser sobrepostos, visto por Foucault (1979) antes da era digital, parece distante das prticas do espao urbano mediadas pela comunicao virtual, que sobrepem diversos lugares ao mesmo tempo atravs de relaes inter-pessoais desincorporadas. O conceito de espaos simultneos, cunhado por Foucault em 1967 na definio de lugar, colocava em jogo certa sacralizao dos lugares na mobilizao das oposies entre espaos pblico/privado, familiar/social, cultural/til, lazer/trabalho. Mas na atopia, como sintoma urbano que ecoa a exteriorizao/exposio do espao privado os limites da dimenso pessoal do corpo na esfera pblica, tais 1 Sobre idia de comunidade em novos formatos de estrutura social que incluem a espacialidade virtual das tecnologias digitais, ver PAIVA, Raquel. O Esprito Comum: comunidade, mdia e globalismo. Rio de Janeiro: Mauad, 2003. 2 A abordagem ecossistmica questiona a anlise da cybercultura sob o prisma da dicotomia sujeito-ambiente, traada por Paul Virilo nos anos 1990. DI FELICE, Massimo. Paisagens PsUrbanas. O fim da experincia urbana e as formas comunicativas do habitar. So Paulo: Annablume, 2009. Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 5 </li> <li> ISSN 2176-7017 dicotomias se embaralham. A indefinio de lugar pela maleabilidade de suas redes relacionais, que sobrepem espaos reais/virtuais, no inclui necessariamente o contato com a alteridade. No espao urbano como local de passagem, intensificado pela velocidade dos deslocamentos virtuais, possvel evitar os encontros que no sejam intencionais, ou torn-los inconseqentes no caso de serem inevitveis (Bauman, 1997). Entre a sociedade utpica, projetada em lugares idealizados a certa distncia da cidade, e a atopia como perda da noo de lugar na virtualidade de redes relacionais, a produo artstica contempornea em espaos pblicos, na perspectiva da arte contextual (Ardenne, 2004), sai do campo da representao e do ideal de arte mergulhando na ordem concreta das coisas, atravs da participao do espectador na dimenso circunstancial de obras-proposies que tecem com a realidade. Neste sentido, a noo de heterotopia, traada por Michel Foucault, como lugares reais que so contra-posicionamentos, espcies de utopias realizadas nas quais todos os outros posicionamentos reais, que se pode encontrar no interior da cultura, so ao mesmo tempo representados, contestados e invertidos (Foucault, [1984], 2006:p.415), pode ser articulada com os intuitos de uma arte circunstancial, em que as barreiras espaciais-temporais que separam criao e percepo da obra se desmancham pela reconfigurao dos dados de realidade. A prpria cidade se faz matria de criao no apenas do artista, mas de todos que reinventam os sentidos do espao urbano atravs experincia esttica compartilhada. A interveno artstica enquanto arte contextual instaura uma heterotopia efmera (heterocronia) na qual a singularidade das relaes redefine o lugar cidade pelo contato entre estranhos. A arte contextual se instala no corao do mundo concreto e da vida presente pela colaborao instantnea com o pblico (Ardenne, 2004: p. 180) em proposies estticas que re-inserem a experincia da alteridade em espaos urbanos que, sendo agradvel ou no, remete existncia de outros lugares da cidade. Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 6 </li> <li> ISSN 2176-7017 Heterotopia, interveno artstica e espao urbano A realizao de eventos artsticos em espaos no-institucionais, baseados na exposio de obras site specific cujas propores, materiais e formas guardam uma relao com o respectivo ambiente, se popularizou nos anos 1980.3 Hoje, a institucionalizao da arte extrapola seus locais especficos (galerias, teatros, salas de cinema, etc.) envolvendo espaos alternativos, como fbricas desativadas, garagens ou galpes abandonados, antes utilizados como lugares de reao produo artstica legitimada pelo mercado de arte. A Interveno artstica em espaos urbanos no se ope institucionalizao da arte pelo mercado, mas se diferencia das obras site specific por sua dimenso contextual, que envolve a atividade do espectador na realizao da obra como acontecimento que reconfigura, momentaneamente, as percepes do real. Com a diluio do carter expositivo e convencional da obra de arte como objeto a ser contemplado (quadro, escultura, espetculo teatral, coreografia), alguns artistas passam a atuar em espaos pblicos a partir dos anos 1970. Keith Hering desenhou nos quadros negros reservados para publicidade nas estaes de metr.4 Trisha Brown coreografou danas sobre os telhados de Nova Iorque.5 Artur Barrio instalou obras feitas de resduos orgnicos (lixo, sangue, carne, etc) nas ruas de Belo Horizonte.6 Estas intervenes, que confundem cdigos de linguagem, sobrepondo espaos incompatveis, desestabilizam as categorias de percepo do espectador no apenas em relao aos critrios de definio da arte, mas tambm em relao aos espaos fsicos, culturais e sociais da cidade habitada. As 3 Sobre tipologia das obras site-specific como manifestao de arte pblica ver CARTAXO, Zalinda. Arte nos espaos pblicos: a cidade como realidade. O Percevejo Online, Peridico do Programa de Ps-Graduao em Artes Cnicas PPGAC/UNIRIO, 2010. 4 Os desenhos de Keith Haring no metr Subway Drawing nos anos 1980 foram seu primeiro trabalho de reconhecido sucesso. A preciso dos traos rpidos, que desenham personagens estranhos, segue a circunstncia temporal dos minutos que, entre a passagem de um trem e outro, o permitia desenhar sem ser visto. 5 Na pea Roof Piece (1971) doze bailarinos sobre diferentes tetos dos edifcios de Wooster Street (NY) se transmitem o mesmo movimento. A distncia entre os edifcios participava desta transmisso de movimentos atravs dos sistemas intuitivos e kinestsicos. MACEL, Christine. Trisha Brown. Danser sa vie. Art et Danse de 1900 nos jours. Paris: Centre Pompidou, 2012, p. 266. 6 Trouxas ensanguentadas (1970) feitas com materiais orgnicos como lixo, papel higinico, detritos humanos e carne putrefata, e espalhadas ao longo de um rio na cidade de Belo Horizonte, durante a mostra Do Corpo Terra. Volume 04 Nmero 02 agosto-dezembro/2012 7 </li> <li> ISSN 2176-7017 Intervenes artsticas em espaos pblicos envolvem uma dimenso performtica que reconfigura, momentaneamente, os lugares da cidade. Sem se limitar presena corporal do artista como parte integrante da obra, a performance como trao da arte contempornea coloca em jogo a dinmica relacional da ao, instalao ou interveno, que envolvem o corpo do espectador como participante das suas circunstncias de realizao. A ocupao de espaos pblicos e a interface corpo/obra se tornam...</li></ul>