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    O mistrio de Listerdale

    O mistrio de Listerdale foi publicado originalmente como The Benevolent Butler, na Grand Magazine,

    em dezembro de 1925.

    A sra. St. Vincent fazia as contas. De vez em quando, suspirava e passava a mo pela testa dolorida. Jamais gostara de aritmtica. Infelizmente, nos ltimos tempos, sua vida parecia se resumir a um nico tipo de opera-o: a soma incessante de pequenos itens necessrios de despesa, perfazendo um total que nunca deixava de surpreend-la e alarm-la.

    No podia ser tanto! Refez os clculos. Havia co-metido um erro insignificante de centavos, mas o resto estava tudo certo.

    A sra. St. Vincent suspirou de novo. A dor de ca-bea, a essa altura, j era quase insuportvel. Ergueu os olhos quando a porta se abriu, e a filha, Barbara, entrou na sala. Barbara St. Vincent era uma menina muito bonita. Tinha os traos delicados da me e o mesmo formato de cabea, mas os olhos eram pretos em vez de azuis, e a boca tambm era diferente, uma boca sria e vermelha, no destituda de beleza.

    Me! exclamou. Ainda s voltas com essas contas horrendas? Jogue tudo no fogo.

    Precisamos saber em que p estamos disse a sra. St. Vincent, insegura.

    A menina encolheu os ombros. Estamos sempre na mesma retrucou friamente.

    No aperto. Sem um tosto, para variar.

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    A sra. St. Vincent suspirou. Eu gostaria... comeou, mas logo parou. Preciso encontrar alguma coisa para fazer disse

    Barbara, com voz decidida. E encontrar logo. Afinal, fiz aquele curso de taquigrafia e datilografia. Como quase um milho de outras meninas, por sinal! Tem experincia? No, mas... Ah, obrigado. Bom dia. Qualquer coisa, entramos em contato. S que isso nun-ca acontece! Preciso encontrar outro tipo de trabalho. Qualquer trabalho.

    Ainda no, querida suplicou a me. Espere mais um pouco.

    Barbara foi at a janela e ficou olhando para fora, distrada, sem reparar na fileira de casas lgubres do outro lado.

    s vezes disse hesitante me arrependo de ter ido para o Egito com a prima Amy no inverno passado. Sei que me diverti e que talvez essa tenha sido a nica diverso que j tive ou terei na vida. Aproveitei bastante. Aproveitei ao mximo. Mas fiquei muito abalada. De precisar voltar para isto, quero dizer.

    Fez um gesto largo que abarcava toda a sala. A sra. St. Vincent acompanhou-o com os olhos e estremeceu. A sala era uma dessas peas mobiliadas de aluguel ba-rato. Uma aspidistra empoeirada, mveis de mau gosto, papel de parede espalhafatoso com partes desbotadas. Havia indcios de que a personalidade dos inquilinos contrastara com a da proprietria: um ou dois objetos de porcelana de boa qualidade, mas to rachados e remendados que seu valor de venda era nulo, um bor-dado cobrindo o encosto do sof e uma aquarela de uma moa vestida moda de vinte anos antes, retrato fiel o suficiente, porm, para se reconhecer a sra. St. Vincent no quadro.

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    No teria importncia continuou Barbara se nunca tivssemos morado em outro lugar. Mas quando me lembro de Ansteys...

    Interrompeu a frase. No desejava entregar-se s lembranas daquela casa amada, que durante sculos pertencera famlia St. Vincent e agora estava nas mos de estranhos.

    Se o papai no tivesse especulado... e feito em-prstimos...

    Minha querida cortou a sra. St. Vincent , seu pai nunca foi um homem de negcios.

    Disse isso de modo categrico, mas no sem afeio. Barbara aproximou-se e deu-lhe um beijo meio vago.

    Pobre mezinha murmurou. No vou dizer mais nada.

    A sra. St. Vincent pegou a caneta de novo e curvou--se sobre a escrivaninha. Barbara voltou janela.

    Me disse a garota, pouco tempo depois , tive notcias de Jim Masterton hoje de manh. Ele quer vir me visitar.

    A sra. St. Vincent largou a caneta e levantou os olhos. Aqui? exclamou. Bem, podemos convid-lo para jantar no Ritz, se

    quiser ironizou Barbara.A me demonstrou desagrado. Olhou novamente

    em torno, com profunda averso. Tem razo disse Barbara. um lugar detest-

    vel. Pobreza refinada! Parece timo: uma casinha branca no campo, toda enfeitada de chito velho de boa padro-nagem, vasos de rosas, servio de ch de certa qualidade, que ns mesmas podemos lavar. Nos livros assim. Na vida real, com um filho comeando a trabalhar no cargo mais desprezvel de um escritrio, significa Londres. Senhorias desarrumadas, crianas sujas nas escadas,

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    outros inquilinos que sempre parecem mestios, peixes duvidosos no caf da manh... e por a vai.

    Se ao menos... ia dizer a sra. St. Vincent. Na verdade, estou comeando a ficar com medo de que no possamos mais pagar nem este lugar.

    Meu Deus! Isso significa um nico ambiente para ns duas exclamou Barbara. Com um armrio servindo de biombo para Rupert. Quando Jim vier me visitar, terei de receb-lo naquela sala horrvel l de bai-xo, cheia de solteironas bisbilhoteiras tricotando pelos cantos, espiando a vida alheia e tossindo daquele modo pavoroso delas.

    Fez-se uma pausa. Barbara disse a sra. St. Vincent, por fim , voc

    est pensando em... quer dizer, voc pretende...?Parou, corando um pouco. No precisa ser delicada, me disse Barbara.

    Hoje em dia ningum mais . Se eu pretendo me casar com Jim, isso? Eu me casaria na hora se ele me pedisse. Mas temo que isso no v acontecer.

    Ah, minha querida... Uma coisa ele me ver l, com a prima Amy, fre-

    quentando (como se diz nos romances sentimentais) os sales da alta sociedade, onde ele realmente se interessou por mim. Outra vir aqui e me encontrar nisto! Depois, ele um sujeito engraado, todo cheio de manias e ideias antiquadas. Eu... eu at gosto disso nele. Me faz lembrar Ansteys e o vilarejo... tudo com cem anos de atraso, mas to... to... ah, sei l! To perfumado! Como alfazema.

    Riu, um pouco envergonhada pelo prprio entu-siasmo.

    Eu faria gosto de que voc se casasse com Jim Masterton disse a sra. St. Vincent, sem rodeios. Ele

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    um dos nossos. Tambm tem muito dinheiro, mas isso no faz muita diferena para mim.

    Pois para mim faz disse Barbara. Estou can-sada de ser pobre.

    Mas, Barbara, no s por... S por isso? No. Mas acho que faz diferena.

    Eu... Ah, me, voc no entende?A sra. St. Vincent fez uma expresso de profunda

    tristeza. Queria que ele a visse num ambiente mais ade-

    quado, querida disse com melancolia. Pacincia retorquiu Barbara. De que adianta

    se preocupar? Devemos nos esforar para ser mais oti-mistas. Desculpe o mau humor. Alegria.

    Curvou-se para a me, beijou-lhe a testa de leve e saiu. A sra. St. Vincent, desistindo dos clculos, sentou--se no sof incmodo. Seus pensamentos giravam em crculos, como esquilos numa jaula.

    Podem dizer o que quiserem, mas as aparncias realmente fazem um homem perder o interesse. Se fosse mais tarde, quando j estivessem noivos, tudo bem. Ele j saberia que ela doce e carinhosa. Mas os jovens tm tanta facilidade de se adaptar ao meio em que vivem... Rupert, por exemplo, no mais o mesmo. No que eu queira que meus filhos sejam arrogantes. De jeito nenhum. Mas odiaria que o Rupert se casasse com aquela moa horrvel da tabacaria. Ela at simptica, admito. Mas no do nosso meio. Coitada da Babs. Se eu pudesse fazer alguma coisa... qualquer coisa. Vendemos tudo para ajudar o Rupert. Na verdade, nem temos como manter isto aqui.

    Para se distrair, a sra. St. Vincent pegou o Morning Post e deu uma olhada nos anncios da primeira p-gina. A maioria j conhecia de cor. Pessoas procura de dinheiro, pessoas que dispunham de capital e estavam

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    ansiosas para transform-lo em notas promissrias, pessoas que queriam comprar dentes (por que seria?), pessoas que queriam vender peles e vestidos, otimistas em relao ao preo.

    De repente, um anncio lhe chamou ateno. Leu e releu as palavras impressas.

    Apenas para pessoas de fino trato Pequena casa em Westminster, muito bem mobiliada, para quem for cuid-la direito. Aluguel irrisrio. Tratar diretamente com o proprietrio.

    Um anncio comum. J tinha visto muitos iguais. Ou mais ou menos iguais. Aluguel irrisrio: eis a armadi lha.

    Como estava inquieta e ansiosa para se ver livre de seus pensamentos, colocou um chapu e pegou um ni-bus que a deixasse no endereo mencionado no anncio.

    Deparou-se com uma antiga imobiliria, que nada tinha de nova ou movimentada. O lugar era, na verdade, bastante antiquado e velho. Mostrou o anncio, com certa timidez, e pediu mais detalhes.

    O senhor de cabelo branco que a atendeu coou o queixo, pensativo.

    Perfeitamente. Sim, perfeitamente, madame. Essa casa, a casa mencionada no anncio, fica na Cheviot Place no 7. Gostaria de fazer uma visita?

    Primeiro gostaria de saber quanto o aluguel disse a sra. St. Vincent.

    Ah, o aluguel! O valor exato ainda no foi esti-pulado, mas garanto que uma ninharia.

    A ideia de ninharia varia muito argumentou a sra. St. Vincent.

    O velho deu uma risadinha. Sim, esse truque velho. Muito velho. Mas lhe

    dou minha palavra de que desta vez no truque. Dois ou trs guinus por semana, talvez, no mais do que isso.

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    A sra. St. Vincent decidiu fazer uma visita. No que houvesse qualquer possibilidade de que viesse alu-gar a casa, claro, mas estava curiosa para v-la. Devia apresentar alguma desvantagem muito grande para ser anunciada por aquele preo.

    Ao olhar a fachada da Cheviot Place no 7, porm, a sra. St. Vincent vibrou. A casa era magnfica. Estilo rainha Ana e em perfeito estado de conservao! Um mordomo abriu a porta. Tinha cabelo grisalho, costeletas pequenas e a calma pausada de um arcebispo. De um arcebispo muito gentil, pensou a sra. St. Vincent.

    Recebeu o papel de autorizao da imobiliria com ar benvolo.

    Pois no, madame. Pode entrar. A casa est pronta para ser ocupada.