O Livro Que Ainda Não Tem Nome

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contos inspirados em "Tudo Que Eu Sempre Sonhei", do Pullovers

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<ul><li><p>BACKBEAT</p><p>Daniel Corra . Marcio Marinho . Danielly Friedrich . Izadora PimentaLeandro Filippi . Thiago Dalleck . Amauri Terto . Ana Clara Matta</p><p>Vincius Gandolphi . Camila Fracalossi . Leonardo Mendes . Guilherme Pietrobon</p><p>o livro que ainda no tem nome</p><p>contos inspirados no lbum Tudo Que Eu Sempre Sonhei, </p><p>do Pullovers</p></li><li><p>o livro que ainda no tem nome</p><p>contos inspirados no lbum Tudo Que Eu Sempre Sonhei, </p><p>do Pullovers</p><p>BACKBEAT</p></li><li><p>o livro que ainda no tem nome</p><p>BACKBEAT</p><p>contos inspirados no lbum Tudo Que Eu Sempre Sonhei, </p><p>do Pullovers</p><p>Daniel Corra . Marcio Marinho . Danielly Friedrich Izadora Pimenta . Leandro Filippi . Thiago Dalleck Amauri Terto . Ana Clara Matta . Vincius Gandolphi </p><p>Camila Fracalossi . Leonardo Mendes . Guilherme Pietrobon</p></li><li><p>ORGANIZAO E PROJETO GRFICOIzadora Pimenta</p><p>CAPADiagramao: Izadora Pimenta</p><p>Foto: Avenida Paulista por Ana Paula Santos</p><p>REVISODanielly Friedrich e Izadora Pimenta</p><p>Um projeto do site BACKBEATwww.mybackbeat.com</p><p>Inspirado em Tudo Que Eu Sempre Sonhei, lbum de 2009 da extinta banda paulistana Pullovers.</p></li><li><p>[tracklist][01] O No Sonhado</p><p>Tudo Que Eu Sempre Sonhei por Daniel Corra</p><p>[02] So Paulo No Tem Vista Para o AmorO Amor Verdadeiro No Tem Vista Para o Mar por Marcio Marinho </p><p>[03] 19321932 (C.P.) por Danielly Friedrich</p><p>[04] Entre o Trem e a Plataforma Marins por Izadora Pimenta</p><p>[05] Lio de CasaLio de Casa por Leandro Filippi </p><p>[06] Chora... Mas EscondeQuem Me Dera Houvesse Trem por Thiago Dalleck</p><p>[07] Cruz e CicatrizMarcelo Ou Eu Tra o Rock por Amauri Terto</p><p>[08] Graus de SeparaoFutebol de culos por Ana Clara Matta</p><p>[09] ( )[10] Ele e a Vida das Coisas</p><p>O Que Dar o Salgueiro? por Vincius Gandolphi</p><p>[11] Semana Semana por Camila Fracalossi</p><p>[12] Em Um Novo Gole Todas as Canes So de Amor por Leonardo Mendes</p><p>[13] CerteiroTchau por Guilherme Pietrobon</p><p>Jockey Club de So Paulo por Filipe Marcato</p></li><li><p>[falando pouco, em poucas palavras]</p><p>So Paulo s um pretexto. A cidade est estampada em todas as imagens deste livro (exceto por uma, cuja licena potica foi necessria), mas as inquietaes presentes em Tudo Que Eu Sempre Sonhei, nosso homenageado, esto por toda a parte. por isso que Daniel Corra, que assina o primeiro conto deste livro, sugeriu que ele fosse chama-do assim: O Livro Que Ainda No Tem Nome. Porque as histrias esto incompletas. Porque nunca se sabe da in-constncia das coisas (o prprio Pullovers j foi outra coi-sa). Porque aquilo que voc sempre sonhou, bem, talvez aquilo no seja o melhor sonho para voc. </p><p>E tais histrias podem ser vividas em qualquer canto do globo. Utilizando metrs ou barcos, bares ou mesas de trabalho, vistas para o mar ou no. Abraamos as msicas do lbum e deixamos que flussem de acordo com a nossa imaginao.</p><p>Esta uma homenagem sincera a algo que, de uma forma ou de outra, faz parte de cada um de ns. </p><p>Izadora Pimenta</p></li><li><p>Nesse iderio, passeiam secretrias da Zona Leste, nerds futebolistas, So Paulo versus Rio, moas instigantes, despedidas, tudo costurado por amores incipientes, no auge ou no declnio.</p><p>- Release de Tudo Que Eu Sempre Sonhei, 2009</p></li><li><p>09</p><p>Tudo que eu sempre sonhei.Tanto que eu consegui... to bom estar aqui...</p><p>Quanto ainda est por vir...</p><p>A Paulista cai na Brigadeiro por Kaluan Bernardo</p></li><li><p>Tudo que eu sempre sonhei.Tanto que eu consegui... to bom estar aqui...</p><p>Quanto ainda est por vir...</p><p>[o no sonhado]Daniel Corra</p><p>Sempre pensei que aconteceria. Que um dia nevaria, ou as coisas seriam como nos filmes. Que daria para ser astro-nauta, ver o mundo l de cima, ser sozinho de propsito, viajar na maior velocidade. Que daria para ser o craque do Vasco, e ganhar o campeonato com um gol de bicicleta no ltimo minuto, ser carregado nos ombros pelo estdio, e as pessoas veriam meu rosto na capa do jornal.</p><p>Talvez at pudesse ganhar dinheiro, e comprar um carro e uma casa com piscina. Viver sem muito motivo, mas com muitas pessoas por perto. Talvez as pessoas descobrissem que eu era um cara legal, e gostassem do que escrevo, ou das fotos que tiro, das musicas que compus. Talvez um dia eu acordasse, e visse que minha cama flutuava sozinha no mar, e s desse pra ver a ponta dos prdios, afundados. E isso me daria paz. E usaria os braos para navegar pelo cu da cidade, e as pessoas l embaixo, nos seus engarra-famentos, correrias e mil coisas para fazer nas suas vidas submarinas, me veriam voar.</p><p>E eu ia sorrir. At acordar. No nibus balanando, com en-garrafamentos, correrias e mil coisas para fazer nessa vida na superfcie, me veriam no cho, firme.</p><p>13</p></li><li><p>E era firme. Nem de perto bonito, mas ainda parecia longe de ser feio. No era dos mais magros, mas todos ainda pareciam muito gordos. No precisava pensar para tra-balhar, ou para estudar, s precisava estar l e dar algumas horas para ganhar algum dinheiro. Tinha at alguns amigos, uns com data de validade e outros com hora pra fechar. Me sentia um estranho em casa, no falava com meu pai e no entendia a me. Pensava em ir embora. E tinha a namorada. At bonita, at legal, o sexo era at bom, dava para no sentir tanta atrao por outras pessoas, con-seguia tirar minha cabea de casa e o mundo parecia at bacana. E bacana bom. E o bom raro, diziam.</p><p>E fora das paredes fiz casa naquele anel de prata. Iriamos selar tudo ali, eu e a menina que at era namorada. Ira-mos ter casa, trabalhos, ganhar dinheiro e ter um cachorro para passear no fim de semana. Iriamos nos restaurantes da cidade, ouviramos musica no carro, passariamos na casa dos pais dela, chegariamos cada vez mais em casa sem saco, odiaramos nossos trabalhos, ganhariamos dinheiro para tentar ganhar mais, o cachorro ficaria preso em casa, assim como ns dois, dentro do carro ouvindo os rumos da bolsa e pensando em negcios, sendo o casal que no se fala nos restaurantes, eu odiando seus pais e eles me odiando. E antes disso tudo largaria o emprego, tentaria voltar para os estudos para acab-los. E voc sorriria pelo segundo e reclamaria pelo primeiro. Diria que no tenho pretenso e bateria na madeira ao ouvir que no pretendia ser rico. E passaria por tudo isso, nosso comeo e nosso fim e nem te daria esse anel ainda. Esse anel de prata e </p><p>14</p></li><li><p>de impulso. Fruto do que houve de paixo por ela e do amor por ir embora. No me estranhou a briga. Nem eu ter tido que beber tanto para falar. E voc atirar o anel na minha frente. E me sentiria um merda e antes que desse para sentir pena e pensar em mudar tudo e sair de casa e pegar todas as mulheres do mundo, me vejo num hospital, por dias, sentado ao lado do meu pai. Levando ele para o quarto na cadeira de rodas e sem dormir por medo dele passar mal.</p><p>Sabendo que no sou o que ele sonhou e que ele no o que eu sonhei. Mas que somos um. E no d pra fugir. Fiz casa em casa, fiz rumo para longe. Voltei a jogar bola e sonhar em salvar o Vasco no ltimo minuto. Ou em ter um barco, e deixar a menina no porto, acenando, pra eu voltar pra casa logo. Em ver neve num lugar distante. Em deixar acontecer uma paixo antiga, sem pressa, que me faz voar em minha cama, remando com os braos, numa galxia aberta no cu, no meio da serra. Em no estar to longe.</p><p>Tudo que nunca tinha sonhado.</p><p>15</p></li><li><p>30Vila Mariana por Renan Campanini</p><p>Pegou na mo dela, cansou de esperar.Abriu a janela pra chuva entrar.</p><p>O amor verdadeiro no tem vista para o mar.</p></li><li><p>[so paulo no tem vista para o amor]Mrcio Marinho</p><p>So Paulo. Megalpole. Selva de pedra. Quase 11.5 mi-lhes de pessoas vivendo, sonhando e respirando um ar nada puro nessa cidade que amedronta e encanta ao mes-mo tempo.</p><p>Pra quem vem de fora So Paulo um sonho e um pesade-lo ao mesmo tempo. Talvez o paulistano no perceba, mas se trata de uma cidade que estimula a solido. No que a solido seja um defeito, veja bem, acredito cegamente que certos sentimentos bons so possveis apenas na so- litude. Mas a solido deve ser uma escolha prpria e no um calabouo que a geografia e o dia com apenas maldi-tas 24h te impe.</p><p>Em So Paulo o desapego to denso que conseguimos senti-lo no toque da estao do metr ou na automtica pergunta do CPF na nota.</p><p>Alis, se eu pudesse definir uma frase que defina So Paulo seria CPF na nota?. O Mais amor, por favor apenas uma iluso de meia dzia de romnticos. </p><p>Onze milhes e meio de pessoas. Quantos romnticos?</p><p>17</p></li><li><p>Milhares de casas de shows, teatros, museus, festas es-drxulas, bares e, talvez mais tentador do que todas es-sas opes, uma cama quentinha em seu quarto: muito difcil se relacionar com uma pessoa em So Paulo. Mais difcil ainda manter uma relao duradoura. Criar uma afeio, se apaixonar, amar, morar junto, casar, ter filhos...</p><p>Quem ama em So Paulo no um romntico. O amor nessa cidade feita por guerreiros. </p><p>Voc luta contra o cansao do trabalho exaustivo, voc luta contra a distncia, luta contra a geografia, luta con-tra So Pedro e as chuvas que param a cidade, luta contra a saudade de sua vida, de sua cidade, luta contra as infini-tas possibilidades de ser sozinho ou de ter muitas outras, alm dela.</p><p>Sempre encontramos esses guerreiros no meio dessa apa-tia que transforma a selva de pedra em eternos coraes petrificados. </p><p>Pegar na mo de uma pessoa em So Paulo um ato quase revolucionrio, libertador, quebrar paradigmas com a sociedade.</p><p>A vida bela. Independente de todo o contexto, a vida bela! Mais do que isso, para um homem apaixonado em So Paulo A VIDA DELA. </p><p>O amor em So Paulo talvez seja o amor mais puro, mais </p><p>18</p></li><li><p>forte, mais sincero. </p><p> o amor de uma escolha, no de uma circunstncia. gritar ao mundo que se quer amar, contra tudo e contra todos. Que muito bom ser desse lugar.</p><p> vestir a amarela, ou a azul, ou a vermelha e ir para a Pau-lista comemorar. Que bom, assim se pode amar.</p><p>O guerreiro corre pela Anglica, sobe a Consolao, des-ce a Augusta e grita, de peito aberto e cheio do ar pesado da cidade: </p><p>Vou peitar o amor. hora de encarar.</p><p>Acredito, e me desculpem a referncia ao irritante refro que vir a seguir, que existe sim amor em SP. </p><p>Porm, o amor aqui no tem vista para o mar. Talvez at por isso ele seja, de fato, verdadeiro.</p><p>19</p></li><li><p>Praia de Botafogo (Rio de Janeiro) por Mariana Rosa</p><p>Quando voc sorriu,me repartiu em antes e depois.</p><p>Hoje eu me rendo, Rio.Mil novecentos e trinta e dois.</p></li><li><p>[1932]Danielly Friedrich</p><p>O que fazer quando algum invade sua vida, toma tudo o que seu, e no te deixa outra alternativa se no a adequao a uma nova realidade? Em 1932, os paulistas decidiram lutar; hoje, 80 anos depois, eu s consigo pensar em me render.</p><p>Minha histria poderia ser dividida entre antes e depois de Manuela. A transio de um cara que nunca se importou sequer com ele mesmo para um algum que pensa tanto em par que at aprendeu a viver no vero eterno por um simples sorriso. Toda a prova de que nem precisamos de tanta coisa em comum para se apaixonar, mesmo que a maldita sensao de o que estou fazendo aqui? seja uma constante.</p><p>Ela chegou sem pedir licena. Mesmo sem dizer uma pala-vra, permanecendo parada ali, minha mente foi dominada por Manuela. MA-NU-E-LA. Confesso que mesmo chegan-do onde estamos, toda vez que a vejo sinto como se fosse a primeira. A falta de flego, o frio na barriga, o queimar do corao. Meu corpo no nega a sua existncia, feita sob medida para me tirar o controle e deixar cada aspecto da minha vida mais irracional, mais... ela.</p><p>21</p></li><li><p>22</p><p>No temos nada a ver. Eu amo o frio, ela o calor. Eu sou do concreto, ela do mar. Eu to exato, ela humana. Opos-tos. A vida com ela no me faz feliz, mas ela faz. Prefiro abrir mo da minha essncia do que deixar escapar meu nico floco de neve no meio de tanto sol. Eu no preciso da minha rotina e do que eu pensava constituir minha vida, preciso de Manuela. Preciso de sorrisos, mesmo que envol-tos em frustrao.</p><p>Ela a origem de todos os problemas que me envelhecem precocemente, mas a cada dia agradeo pelos planos que (ainda) me incluem e no permitem a morte de meu brilho nos olhos. Ah, Manuela... Se tu soubesses o quanto prefiro abrir mo dos meus sonhos para sonhar os seus, nunca mais pensaria em partir.</p><p>Rio de Janeiro, sol, praia, malandragem, distncias, caos. Poderia ser um inferno, mas nem tudo o que mais odei- o supera Manuela e seu sotaque encantadoramente de-testvel.</p><p>Me rendo.</p></li><li><p>23Avenida Paulista por Ana Paula Santos</p></li><li><p>Naquela vez, s o doce olhar de um mano j desfez tudo de cartesiano</p><p> que havia no corao suburbano de Marins.</p><p>Avenida Paulista por Carlos Frucci</p></li><li><p>[entre o trem e a plataforma]Izadora Pimenta</p><p>Ela gostaria de saber, em nmeros exatos, quantas pes-soas se sentavam naquele banco por dia. Se fosse pos-svel, faria ainda uma pesquisa detalhada sobre suas rotinas, suas famlias ou a ausncia delas, seus pratos ou cachor-ros-quentes para o jantar. Mas eram todos uns desconhe-cidos. Partes que se moviam inconscientemente para dei-xar a esquerda livre ou fazer uso dela. Rostos incontveis camuflados pela velocidade de seus ps. Ela era apenas mais uma no meio de tantos o que acabou lhe rendendo a mais triste sina de todas: a solido inercial.</p><p>A solido inercial consiste em viver para si (e somente para si) em meio cidade de concreto. Porque ela parecia ser a nica que realmente se importava com o que viria depois da plataforma em sua vida - j que era cautelosa demais para cair no vo.</p><p>Rotina no difcil quando se torna mecnica. Poderia per-correr a distncia entre o metr e o trabalho sem prestar ateno em nada. O crebro j sabia o tempo dos sem-foros, as viradas de esquina e os cumprimentos: a senhora da banca, o dono da padaria e o porteiro do prdio. A mes-ma coisa, todos os dias, como naquele filme do Adam San-dler com a Drew Barrymore que j se cansara de assistir. </p><p>25</p></li><li><p>Mas no naquele dia.</p><p>O certo seria, depois de acenar para a senhora da banca e para o dono da padaria, chegar na portaria do prdio, lanar um sorriso de lbios fechados e dizer, discretamente, bom dia ao porteiro. Mas, por algum motivo inexplicvel, como o New Beetle azul calcinha que havia passado por ela no caminho, Marins fez o sinal da cruz e soltou baixo um Amm. Entrou no prdio como se nada tivesse acon-tecido e s percebeu o ato no elevador, quando j subia instintivamente ao stimo andar para chegar sala de tra-balho.</p><p>Culpou-se internamente pela sua mania de atos mecni-cos e cronometrados, como se o dia inteiro fosse uma prova cujas questes deviam ser resolvidas em seus tem-pos exatos. Mesmo assim, conseguiu cumprir seus prxi-mos atos j programados: dizer oi para o chefe e ligar seu computador j ansiando pelo momento no qual daria dois cliques sobre o boto do Microsoft Excel para con-tinuar seus trabalhos, sempre impecveis, exaustivamente elogiados, estressantemente chatos e abusivos.</p><p>Naquele dia, no entanto, os dedos de Marins tremiam ao digitar. Como evitava que as emoes lhe atrapalhassem, esqueceu-se de que estava com uma vontade enorme de cair em lgrimas no meio do escritrio de contabilidade. Tambm procurava explicaes de motivos, j que estes eram efmeros e ela no acreditava muito neles - algum pensamento vago, que logo sumia, lhe dizia que devia ter </p><p>26</p></li><li><p>algo a ver com o amm para o porteiro. Alm dos dedos trmulos, o olho esquerdo tambm pulsava. Mas ela no podia se entregar a estas coisas. Ela precisava cumprir seu trabalho para pagar o ingls e a faculdade. Seu id lhe dizia...</p></li></ul>

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