O Livro Que Ainda No Tem Nome

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contos inspirados em "Tudo Que Eu Sempre Sonhei", do Pullovers

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  • BACKBEAT

    Daniel Corra . Marcio Marinho . Danielly Friedrich . Izadora PimentaLeandro Filippi . Thiago Dalleck . Amauri Terto . Ana Clara Matta

    Vincius Gandolphi . Camila Fracalossi . Leonardo Mendes . Guilherme Pietrobon

    o livro que ainda no tem nome

    contos inspirados no lbum Tudo Que Eu Sempre Sonhei,

    do Pullovers

  • o livro que ainda no tem nome

    contos inspirados no lbum Tudo Que Eu Sempre Sonhei,

    do Pullovers

    BACKBEAT

  • o livro que ainda no tem nome

    BACKBEAT

    contos inspirados no lbum Tudo Que Eu Sempre Sonhei,

    do Pullovers

    Daniel Corra . Marcio Marinho . Danielly Friedrich Izadora Pimenta . Leandro Filippi . Thiago Dalleck Amauri Terto . Ana Clara Matta . Vincius Gandolphi

    Camila Fracalossi . Leonardo Mendes . Guilherme Pietrobon

  • ORGANIZAO E PROJETO GRFICOIzadora Pimenta

    CAPADiagramao: Izadora Pimenta

    Foto: Avenida Paulista por Ana Paula Santos

    REVISODanielly Friedrich e Izadora Pimenta

    Um projeto do site BACKBEATwww.mybackbeat.com

    Inspirado em Tudo Que Eu Sempre Sonhei, lbum de 2009 da extinta banda paulistana Pullovers.

  • [tracklist][01] O No Sonhado

    Tudo Que Eu Sempre Sonhei por Daniel Corra

    [02] So Paulo No Tem Vista Para o AmorO Amor Verdadeiro No Tem Vista Para o Mar por Marcio Marinho

    [03] 19321932 (C.P.) por Danielly Friedrich

    [04] Entre o Trem e a Plataforma Marins por Izadora Pimenta

    [05] Lio de CasaLio de Casa por Leandro Filippi

    [06] Chora... Mas EscondeQuem Me Dera Houvesse Trem por Thiago Dalleck

    [07] Cruz e CicatrizMarcelo Ou Eu Tra o Rock por Amauri Terto

    [08] Graus de SeparaoFutebol de culos por Ana Clara Matta

    [09] ( )[10] Ele e a Vida das Coisas

    O Que Dar o Salgueiro? por Vincius Gandolphi

    [11] Semana Semana por Camila Fracalossi

    [12] Em Um Novo Gole Todas as Canes So de Amor por Leonardo Mendes

    [13] CerteiroTchau por Guilherme Pietrobon

    Jockey Club de So Paulo por Filipe Marcato

  • [falando pouco, em poucas palavras]

    So Paulo s um pretexto. A cidade est estampada em todas as imagens deste livro (exceto por uma, cuja licena potica foi necessria), mas as inquietaes presentes em Tudo Que Eu Sempre Sonhei, nosso homenageado, esto por toda a parte. por isso que Daniel Corra, que assina o primeiro conto deste livro, sugeriu que ele fosse chama-do assim: O Livro Que Ainda No Tem Nome. Porque as histrias esto incompletas. Porque nunca se sabe da in-constncia das coisas (o prprio Pullovers j foi outra coi-sa). Porque aquilo que voc sempre sonhou, bem, talvez aquilo no seja o melhor sonho para voc.

    E tais histrias podem ser vividas em qualquer canto do globo. Utilizando metrs ou barcos, bares ou mesas de trabalho, vistas para o mar ou no. Abraamos as msicas do lbum e deixamos que flussem de acordo com a nossa imaginao.

    Esta uma homenagem sincera a algo que, de uma forma ou de outra, faz parte de cada um de ns.

    Izadora Pimenta

  • Nesse iderio, passeiam secretrias da Zona Leste, nerds futebolistas, So Paulo versus Rio, moas instigantes, despedidas, tudo costurado por amores incipientes, no auge ou no declnio.

    - Release de Tudo Que Eu Sempre Sonhei, 2009

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    Tudo que eu sempre sonhei.Tanto que eu consegui... to bom estar aqui...

    Quanto ainda est por vir...

    A Paulista cai na Brigadeiro por Kaluan Bernardo

  • Tudo que eu sempre sonhei.Tanto que eu consegui... to bom estar aqui...

    Quanto ainda est por vir...

    [o no sonhado]Daniel Corra

    Sempre pensei que aconteceria. Que um dia nevaria, ou as coisas seriam como nos filmes. Que daria para ser astro-nauta, ver o mundo l de cima, ser sozinho de propsito, viajar na maior velocidade. Que daria para ser o craque do Vasco, e ganhar o campeonato com um gol de bicicleta no ltimo minuto, ser carregado nos ombros pelo estdio, e as pessoas veriam meu rosto na capa do jornal.

    Talvez at pudesse ganhar dinheiro, e comprar um carro e uma casa com piscina. Viver sem muito motivo, mas com muitas pessoas por perto. Talvez as pessoas descobrissem que eu era um cara legal, e gostassem do que escrevo, ou das fotos que tiro, das musicas que compus. Talvez um dia eu acordasse, e visse que minha cama flutuava sozinha no mar, e s desse pra ver a ponta dos prdios, afundados. E isso me daria paz. E usaria os braos para navegar pelo cu da cidade, e as pessoas l embaixo, nos seus engarra-famentos, correrias e mil coisas para fazer nas suas vidas submarinas, me veriam voar.

    E eu ia sorrir. At acordar. No nibus balanando, com en-garrafamentos, correrias e mil coisas para fazer nessa vida na superfcie, me veriam no cho, firme.

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  • E era firme. Nem de perto bonito, mas ainda parecia longe de ser feio. No era dos mais magros, mas todos ainda pareciam muito gordos. No precisava pensar para tra-balhar, ou para estudar, s precisava estar l e dar algumas horas para ganhar algum dinheiro. Tinha at alguns amigos, uns com data de validade e outros com hora pra fechar. Me sentia um estranho em casa, no falava com meu pai e no entendia a me. Pensava em ir embora. E tinha a namorada. At bonita, at legal, o sexo era at bom, dava para no sentir tanta atrao por outras pessoas, con-seguia tirar minha cabea de casa e o mundo parecia at bacana. E bacana bom. E o bom raro, diziam.

    E fora das paredes fiz casa naquele anel de prata. Iriamos selar tudo ali, eu e a menina que at era namorada. Ira-mos ter casa, trabalhos, ganhar dinheiro e ter um cachorro para passear no fim de semana. Iriamos nos restaurantes da cidade, ouviramos musica no carro, passariamos na casa dos pais dela, chegariamos cada vez mais em casa sem saco, odiaramos nossos trabalhos, ganhariamos dinheiro para tentar ganhar mais, o cachorro ficaria preso em casa, assim como ns dois, dentro do carro ouvindo os rumos da bolsa e pensando em negcios, sendo o casal que no se fala nos restaurantes, eu odiando seus pais e eles me odiando. E antes disso tudo largaria o emprego, tentaria voltar para os estudos para acab-los. E voc sorriria pelo segundo e reclamaria pelo primeiro. Diria que no tenho pretenso e bateria na madeira ao ouvir que no pretendia ser rico. E passaria por tudo isso, nosso comeo e nosso fim e nem te daria esse anel ainda. Esse anel de prata e

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  • de impulso. Fruto do que houve de paixo por ela e do amor por ir embora. No me estranhou a briga. Nem eu ter tido que beber tanto para falar. E voc atirar o anel na minha frente. E me sentiria um merda e antes que desse para sentir pena e pensar em mudar tudo e sair de casa e pegar todas as mulheres do mundo, me vejo num hospital, por dias, sentado ao lado do meu pai. Levando ele para o quarto na cadeira de rodas e sem dormir por medo dele passar mal.

    Sabendo que no sou o que ele sonhou e que ele no o que eu sonhei. Mas que somos um. E no d pra fugir. Fiz casa em casa, fiz rumo para longe. Voltei a jogar bola e sonhar em salvar o Vasco no ltimo minuto. Ou em ter um barco, e deixar a menina no porto, acenando, pra eu voltar pra casa logo. Em ver neve num lugar distante. Em deixar acontecer uma paixo antiga, sem pressa, que me faz voar em minha cama, remando com os braos, numa galxia aberta no cu, no meio da serra. Em no estar to longe.

    Tudo que nunca tinha sonhado.

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  • 30Vila Mariana por Renan Campanini

    Pegou na mo dela, cansou de esperar.Abriu a janela pra chuva entrar.

    O amor verdadeiro no tem vista para o mar.

  • [so paulo no tem vista para o amor]Mrcio Marinho

    So Paulo. Megalpole. Selva de pedra. Quase 11.5 mi-lhes de pessoas vivendo, sonhando e respirando um ar nada puro nessa cidade que amedronta e encanta ao mes-mo tempo.

    Pra quem vem de fora So Paulo um sonho e um pesade-lo ao mesmo tempo. Talvez o paulistano no perceba, mas se trata de uma cidade que estimula a solido. No que a solido seja um defeito, veja bem, acredito cegamente que certos sentimentos bons so possveis apenas na so- litude. Mas a solido deve ser uma escolha prpria e no um calabouo que a geografia e o dia com apenas maldi-tas 24h te impe.

    Em So Paulo o desapego to denso que conseguimos senti-lo no toque da estao do metr ou na automtica pergunta do CPF na nota.

    Alis, se eu pudesse definir uma frase que defina So Paulo seria CPF na nota?. O Mais amor, por favor apenas uma iluso de meia dzia de romnticos.

    Onze milhes e meio de pessoas. Quantos romnticos?

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  • Milhares de casas de shows, teatros, museus, festas es-drxulas, bares e, talvez mais tentador do que todas es-sas opes, uma cama quentinha em seu quarto: muito difcil se relacionar com uma pessoa em So Paulo. Mais difcil ainda manter uma relao duradoura. Criar uma afeio, se apaixonar, amar, morar junto, casar, ter filhos...

    Quem ama em So Paulo no um romntico. O amor nessa cidade feita por guerreiros.

    Voc luta contra o cansao do trabalho exaustivo, voc luta contra a distncia, luta contra a geografia, luta con-tra So Pedro e as chuvas que param a cidade, luta contra a saudade de sua vida, de sua cidade, luta contra as infini-tas possibilidades de ser sozinho ou de ter muitas outras, alm dela.

    Sempre encontramos esses guerreiros no meio dessa apa-tia que transforma a selva de pedra em eternos coraes petrificados.

    Pegar na mo de uma pessoa em So Paulo um ato quase revolucionrio, libertador, quebrar paradigmas com a sociedade.

    A vida bela. Independente de todo o contexto, a vida bela! Mais do que isso, para um homem apaixonado em So Paulo A VIDA DELA.

    O amor em So Paulo talvez seja o amor mais puro, mais

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  • forte, mais sincero.

    o amor de uma escolha, no de uma circunstncia. gritar ao mundo que se quer amar, contra tudo e contra todos. Que muito bom ser desse lugar.

    vestir a amarela, ou a azul, ou a vermelha e ir para a Pau-lista comemorar. Que bom, assim se pode amar.

    O guerreiro corre pela Anglica, sobe a Consolao, des-ce a Augusta e grita, de peito aberto e cheio do ar pesado da cidade:

    Vou peitar o amor. hora de encarar.

    Acredito, e me desculpem a referncia ao irritante refro que vir a seguir, que existe sim amor em SP.

    Porm, o amor aqui no tem vista para o mar. Talvez at por isso ele seja, de fato, verdadeiro.

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  • Praia de Botafogo (Rio de Janeiro) por Mariana Rosa

    Quando voc sorriu,me repartiu em antes e depois.

    Hoje eu me rendo, Rio.Mil novecentos e trinta e dois.

  • [1932]Danielly Friedrich

    O que fazer quando algum invade sua vida, toma tudo o que seu, e no te deixa outra alternativa se no a adequao a uma nova realidade? Em 1932, os paulistas decidiram lutar; hoje, 80 anos depois, eu s consigo pensar em me render.

    Minha histria poderia ser dividida entre antes e depois de Manuela. A transio de um cara que nunca se importou sequer com ele mesmo para um algum que pensa tanto em par que at aprendeu a viver no vero eterno por um simples sorriso. Toda a prova de que nem precisamos de tanta coisa em comum para se apaixonar, mesmo que a maldita sensao de o que estou fazendo aqui? seja uma constante.

    Ela chegou sem pedir licena. Mesmo sem dizer uma pala-vra, permanecendo parada ali, minha mente foi dominada por Manuela. MA-NU-E-LA. Confesso que mesmo chegan-do onde estamos, toda vez que a vejo sinto como se fosse a primeira. A falta de flego, o frio na barriga, o queimar do corao. Meu corpo no nega a sua existncia, feita sob medida para me tirar o controle e deixar cada aspecto da minha vida mais irracional, mais... ela.

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  • 22

    No temos nada a ver. Eu amo o frio, ela o calor. Eu sou do concreto, ela do mar. Eu to exato, ela humana. Opos-tos. A vida com ela no me faz feliz, mas ela faz. Prefiro abrir mo da minha essncia do que deixar escapar meu nico floco de neve no meio de tanto sol. Eu no preciso da minha rotina e do que eu pensava constituir minha vida, preciso de Manuela. Preciso de sorrisos, mesmo que envol-tos em frustrao.

    Ela a origem de todos os problemas que me envelhecem precocemente, mas a cada dia agradeo pelos planos que (ainda) me incluem e no permitem a morte de meu brilho nos olhos. Ah, Manuela... Se tu soubesses o quanto prefiro abrir mo dos meus sonhos para sonhar os seus, nunca mais pensaria em partir.

    Rio de Janeiro, sol, praia, malandragem, distncias, caos. Poderia ser um inferno, mas nem tudo o que mais odei- o supera Manuela e seu sotaque encantadoramente de-testvel.

    Me rendo.

  • 23Avenida Paulista por Ana Paula Santos

  • Naquela vez, s o doce olhar de um mano j desfez tudo de cartesiano

    que havia no corao suburbano de Marins.

    Avenida Paulista por Carlos Frucci

  • [entre o trem e a plataforma]Izadora Pimenta

    Ela gostaria de saber, em nmeros exatos, quantas pes-soas se sentavam naquele banco por dia. Se fosse pos-svel, faria ainda uma pesquisa detalhada sobre suas rotinas, suas famlias ou a ausncia delas, seus pratos ou cachor-ros-quentes para o jantar. Mas eram todos uns desconhe-cidos. Partes que se moviam inconscientemente para dei-xar a esquerda livre ou fazer uso dela. Rostos incontveis camuflados pela velocidade de seus ps. Ela era apenas mais uma no meio de tantos o que acabou lhe rendendo a mais triste sina de todas: a solido inercial.

    A solido inercial consiste em viver para si (e somente para si) em meio cidade de concreto. Porque ela parecia ser a nica que realmente se importava com o que viria depois da plataforma em sua vida - j que era cautelosa demais para cair no vo.

    Rotina no difcil quando se torna mecnica. Poderia per-correr a distncia entre o metr e o trabalho sem prestar ateno em nada. O crebro j sabia o tempo dos sem-foros, as viradas de esquina e os cumprimentos: a senhora da banca, o dono da padaria e o porteiro do prdio. A mes-ma coisa, todos os dias, como naquele filme do Adam San-dler com a Drew Barrymore que j se cansara de assistir.

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  • Mas no naquele dia.

    O certo seria, depois de acenar para a senhora da banca e para o dono da padaria, chegar na portaria do prdio, lanar um sorriso de lbios fechados e dizer, discretamente, bom dia ao porteiro. Mas, por algum motivo inexplicvel, como o New Beetle azul calcinha que havia passado por ela no caminho, Marins fez o sinal da cruz e soltou baixo um Amm. Entrou no prdio como se nada tivesse acon-tecido e s percebeu o ato no elevador, quando j subia instintivamente ao stimo andar para chegar sala de tra-balho.

    Culpou-se internamente pela sua mania de atos mecni-cos e cronometrados, como se o dia inteiro fosse uma prova cujas questes deviam ser resolvidas em seus tem-pos exatos. Mesmo assim, conseguiu cumprir seus prxi-mos atos j programados: dizer oi para o chefe e ligar seu computador j ansiando pelo momento no qual daria dois cliques sobre o boto do Microsoft Excel para con-tinuar seus trabalhos, sempre impecveis, exaustivamente elogiados, estressantemente chatos e abusivos.

    Naquele dia, no entanto, os dedos de Marins tremiam ao digitar. Como evitava que as emoes lhe atrapalhassem, esqueceu-se de que estava com uma vontade enorme de cair em lgrimas no meio do escritrio de contabilidade. Tambm procurava explicaes de motivos, j que estes eram efmeros e ela no acreditava muito neles - algum pensamento vago, que logo sumia, lhe dizia que devia ter

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  • algo a ver com o amm para o porteiro. Alm dos dedos trmulos, o olho esquerdo tambm pulsava. Mas ela no podia se entregar a estas coisas. Ela precisava cumprir seu trabalho para pagar o ingls e a faculdade. Seu id lhe dizia para chutar tudo e gritar que no aguentava mais nada daquilo. O superego lhe acalmava. Marins se sentia in-visvel e no entendia nada de psicologia.

    Observava o brilho que carregava as outras moas do escritrio. Ela poderia se portar bem, escolher a rou-pa mais socialmente aceita do armrio, mas nunca pos-sua aquele brilho nos olhos. Aquela vontade de viver quente, pulsante, alegre com todas as possibilidades. Parecia no existir possibilidades. Parecia no existir sa-da. Parecia que a sina era passar a vida toda trancafiada em um escritrio durante o horrio comercial enquanto todo o mundo l fora girava. O que antes pensava ser um sonho, tornara-se um pesadelo. Marins costuma-va falar o necessrio. Porque todo mundo parecia viver assim - ela s caminhava para uma construo do flu-xo.

    Vivemos nos evitando porque, talvez, tenhamos medo de que algo afete nossos planos. Mesmo considerada uma boa moa por todos sua volta, Marins privava-se no mundo dos fones de ouvido e culpava a miopia quando era pega ignorando algum rosto conhecido. Era o medo da conversa. De chocar dois mundos. De conhecer algum que carregava uma bagagem da qual a senha era lenta-mente descoberta e ela mesma temia quando algum

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  • iniciava o processo de abertura da sua. Um medo constan-te de ser ignorada rapidamente por, sei l, odiar comida japonesa e no entender de cinema, ou ento parecer invasiva demais.

    Mas aquele era o dia do Amm ao porteiro. As coisas no poderiam mais ser taxadas de matematicamente im-pecveis. A equao teve um erro de processo. Naquele dia, sentada em seu banco habitual no caminho para a fa- culdade em meio a todas as suas confuses conflitantes que nunca vinham tona, ela olhou para cima quando al-gum lhe chamou.

    Em p, ele vestia terno e uma faixa do Corinthians campeo da Libertadores. Meio atrasado, mas depois ela descobriu se tratar de uma aposta. Era um cara com quem j havia tido conversas no-programadas na faculdade. Vrias delas. E gostava delas, s no se dava tempo para refletir sobre isso ao longo da linha reta de seu dia. Ento, comearam mais uma.

    Um fone de ouvido era abaixado, o direto. Logo tambm ia o esquerdo, resultando em um triste fim no bolso da mochila para o celular e os fios. E ali ela percebera que aquelas conversas eram cheias de aberturas suas e dele e nada incomodava, na verdade.

    Sua invisibilidade parecia radiante.

    Sorriu.

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  • Ele tambm.

    Gelou.

    [Cuidado com o vo entre o trem e a plataforma]

    Pela primeira vez em muito tempo ela se sentiu convidada a se afogar no incerto. No queria pensar em consequn-cias, no queria prever felicidade contnua ou lgrimas in-sistentes. Nada de histrias mal calculadas o destino que seria o grande responsvel por suas decises. Adeus s relaes exatas, precisamos de um pouco mais de hu-manas.

    Pela primeira vez em muito tempo, o corao cartesiano de Marins perdeu seus pontos e decidiu que no teria medo de um possvel amor.

    Mesmo que precipitado.

    Ento ela o abraou e sentiu que ainda corria sangue em suas veias. E depois correu para derramar motivos para si mesma, esperando que pudesse ter vrias outras chances de sair fora de seu eixo ao longo dos prximos dias.

    Sem a iminncia de uma mudana de fato, aquilo a deixava feliz.

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  • Quero aprender a andar na luz do dia.Quero aprender a gostar de calor.Enquanto esse vero ainda existe,

    antes do frio e do cobertor.

    Bairro da Liberdade por Ana Motta

  • [lio de casa]Leandro Filippi

    Na maior parte do tempo sozinho e em certos perodos nem tanto assim, P. morava no mesmo apartamento h dcadas. Ali era a caixa da sua existncia, onde guarda-va todo o material dos seus 85 anos anteriores. Nunca fora um hipocondraco, mas naquela idade no se tratava disso e a conscincia de finitude era apenas um ato ra-cional. Tinha horror s guerras transmitidas na televiso, mas gostava de chamar o lugar de bunker. Esse era s um exemplo mnimo de suas contradies.

    Em um dia frio, como gostava, abriu a tampa do toca discos, ps seu vinil favorito e acomodou-se na poltrona. Pausou e sem querer avaliava se havia feito bem a lio de casa da existncia. Infncia, escola, viagens, namoradas, msicas, amigos e histrias pairavam na mente. Sentia-se mal com isso, pois era um clich rebobinar a vida na memria que-la altura. E pior: se comprar uma fita nova era impossvel, achava um tormento estar preso a esses pensamentos.

    Passou a tarde toda entre a realidade das memrias e a fico de mudar um ponto aqui e outro acol nos pensa-mentos. No conseguia sair da jaula, queria voltar no tem-po, ter mais 85 pela frente. Estava num ponto em que seria inevitvel colecionar, em definitivo, mais arrependi-

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  • mentos ou triunfos. Havia chegado a hora: a crueldade de atribuir uma nota, de 0 a 10, prpria existncia.

    Adormeceu. Os pensamentos pautaram os sonhos. Acordaria apto a sentenciar o valor das suas dcadas.

    Quando criana, P. precisava colocar almofada e apoiar-se para fazer a lio de casa. A cadeira era demasiadamente espaosa e a mesa parecia alta e grande o suficiente para acomodar um jantar imperial. Ser rei era encarar, sem pre-guia, os textos de portugus, de extensa meia pgina. P. precisava copiar tudo o que lia no papel para o caderno. A letra era desengonada, mas achava aquilo melhor que somar e subtrair.

    Com lgica, as lies pautavam a mente de P. com assun-tos at ento inteis no fosse o aspecto prtico: as pro-vas. Alguns poucos, na verdade, eram, mas ningum poderia saber com preciso quais quela altura. Capitais brasileiras, escravido, relevos, fraes, sujeito, predicado, anfbios, ou ento copie o texto para o seu caderno.

    A lgica das lies da poca era precisa. Estava sempre es-crita, detalhada. Se no tinha interesse em aprender, com a corda no pescoo tornava-se um mestre em decorar: essa era a considerada a segunda maior arte do improviso poca. Porque a genuna arte do improviso era burlar as regras. E depois era s ir pia e lavar as mos para apagar a equao, escrita, propositalmente, em tom azul claro.

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  • Em uma classe de 30 alunos, haviam trs tipos, alguns oscilando entre os perfis: os inteligentes, os estudiosos e os mestres do improviso; esses ltimos, em geral, eram temidos. P. alternava entre todas as caractersticas, com maior propenso para a primeira. No toa era elogiado e at querido pelos seres mximos: aqueles postados em p frente de todos, altos, por vezes imponente, com o po-der de, com uma nota no boletim, aniquilar os presentes do prximo Natal.

    Certa vez, a professora pegou o giz, escreveu Para casa no fim da aula e disse em seguida, num tom de sabedoria, de quem j havia reprovado nas lies um dia - e que, na verdade, continuava a reprovar (algo que s inmeras mu-danas de estao depois P. entendeu):

    - Essa lio importante pra vocs. Faam com ateno, pois amanh vou corrigi-la e dar nota. Serve de preparao para a prova.

    P. achava o mundo complexo, tinha medo de no con-seguir aprender apesar da facilidade j demonstrada. A preocupao era sempre com o fim do bimestre, as notas: mas no tinha problema, se nada desse certo bastava de-corar a apostila.

    Gostava das aulas de educao fsica. Na verdade, s do futebol, e por isso apreciava a disciplina. Como uma cri-ana comum, fez alguns amigos na rua e na escola. Mas rarssimos foram aqueles os quais podia pegar sua agenda

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  • anos depois e ligar com naturalidade. Nunca pensou por que isso aconteceu, mas tambm no se importava muito.

    Jogar futebol, passar de ano. Fazer a lio de casa direito. Apostila. Prova. Prova. Prova. Preparao para a prova. Esse era o mundo pra ele.

    Quando tinha 20 e poucos, P. bebia, ouvia msica, gostava de Miles Davis. Tentava entender as pessoas e o mundo. Pensava muito mais do que fazia. Sabia disso, admitia ser um problema, mas sentia-se com os ps fixados e sem poder mudar: com o passar dos anos, parecia ainda mais difcil. Era do tipo com preguia de se aborrecer. Por isso, gostava de esvaziar o copo logo. Tinha amores, mas para um deles a memria reservava ateno privilegiada.

    P: Coloca uma msica, M. O mundo mais moribundo sem algo tocando.M: Qual voc quer?P: Esqueci o nome. Vou cantar um trecho.P: Quero aprender a perder o meu rumo, chupar o sumo do que eu for sentir...M: Lembrei. Esta?P: !M: Por que voc se apegou tanto a essa msica?P: No sei, a letra... A melodia tambm viciante. Pra eu conseguir gostar muito de uma banda, preciso ver e ouvir sinceridade. Parece meio insano, mas possvel perceber se h ou no. E isso faz toda a diferena. M: Como assim?

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  • P: Em espanhol h uma palavra, duende, usada para qua- lificar cantores de flamenco. J li descreverem como a capacidade de transmitir uma emoo profundamente sentida para uma plateia de estranhos, com o mnimo de estardalhao e um mximo de moderao. No conheo um termo compatvel em portugus, ento fico com a sinceridade.M: E quem voc descreveria com essa palavra?P: No sei, Billie Holiday, Miles Davis... M: Mas e a letra? O que fazer a lio de casa pra voc hoje?P: Ah, no sei. Ficar bbado parece ser a melhor lio ago-ra. Alis, pode pegar mais uma pra mim? M: Mas tem outras boas. Aquela que canta assim, : mes-mo assim, contudo, o tempo foi passando e eu fui adiando, mudo, os grandes dias que ia conhecer.P: Gosto tambm. Os caras gravaram um vdeo embaixo de um viatudo dessa a. O vocalista canta o tempo todo com uma garrafa na mo, tipo esta.P: E por fim cresci, de insulto em insulto, eu me vi como um adulto, culto, pronto pra o que mesmo? J nem sei.P: Sempre fui um desastre em imitaes.M: T ficando bbado, n?P: Mas eu gosto mesmo de Lio de Casa. P: Mas, ei... Tenho vontade de lhe dizer algo faz tempo. M: Ento diga...P: ...Deixa pra l... Me fala, qual a sua preferida?

    P. acumulara situaes semelhantes, em maior ou menor intensidade. J naquela poca condenava a caracterstica

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  • a qual tinha total conscincia, mas no conseguia dom-la. P. era como uma garrafa trmica, que sugeria a presena do calor, sem irradi-lo. Para poucos bastava. Bem poucos. Nunca mais viu M. aps o dia rememorado no sonho.

    Filsofo, dedicou parte da existncia a ensinar os outros a refletir o mundo. Virou o ser imponente capaz de destruir um Natal e entendia, como nunca, quais eram as lies de casa da sua existncia. O problema que continuava des- leixado. Sempre ponderou se havia escolhido a profisso como um subterfgio para outro trao de sua personali-dade: esconder-se dos prprios problemas, gastar toda a capacidade mental para pensar no todo at cansar e no deixar espao para nada alm disso.

    E parece que tinha acumulado cansao para usar de mule-ta at o fim.

    Horas depois, P. acordou sozinho, pois no havia ningum para cham-lo. H tempos o disco j nem tocava mais. Ficou um pouco perturbado com os pensamentos e os so-nhos. Com um pouco de esforo poderia sentenciar se teve uma existncia protocolar, comum, ou o oposto. Um meio termo, talvez. Mas no sentiu a necessidade de ava- liar: em breve todas as lies terminariam sete palmos.

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  • CCBB por Vincius Novaes

  • Chuva que cai, vem e vai,molhando quem eu deixei.

    Ficou pra trs, nunca mais,quem me quis bem e eu tambm.

    Estao Pedro II por Thiago Dalleck

  • [chora... mas esconde]Thiago Dalleck

    Maria dos Anjos era nova. 35 anos e cuidava da casa, aju-dava o marido e criava dois filhos, Alice e Pedro. Morava quase na beira do mar, onde o sol dava as graas com bri-lho nos olhos e as ondas cantavam sem parar um instante. Maria era prendada. Passava as tardes costurando redes para o marido trabalhar no barco. Garantiam o sustento da casa. Garantiam o sorriso das crianas e paz.

    No brinque de pescador, era como Maria repreendia Pedro todas as vezes na Ponte do Ribeiro, sem que o pai soubesse. Na casa, piranhas empalhadas, instrumentos artesanais e o cheiro, muito forte de peixe, infestavam o lugar. Suas narinas j tinham se acostumado, mas Maria no gostava nada de aventuras. No queria que o filho trabalhasse com pesca, j sofria demais com o marido. Jonas, o esposo, dizia ter nascido pra domar as guas. Ma-ria era o bem da terra de Jonas. O bem do mar era seu prprio esprito.

    Afogando-se em dvidas, todo dia s seis da tarde, Maria ajudava Jonas a empurrar seu velho barco. Na chuva de dezembro que caa, ia e vinha o barco, chacoalhando an-tes mesmo de chegar s primeiras ondas. Jonas, devoto de Iemanj e orador pragmtico da Rainha, nunca errava. Beijo

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  • na filha grandinha e um aperto na bochecha da menina. Beijo no filho mais novo e jogava o moleque pras alturas, espalhando areia pra todo lado. Beijo na mulher de toda a vida, de lbios serenos e olhos negros. Olhos de Maria, que fitavam o horizonte alm-mar. Jonas sabia dos riscos. Beijava a famlia, esperanoso de um dia farto. Voltava a beijar todos nos primeiros raios de sol, agradecido aos orixs por o protegerem.

    O peixe ia pra frigideira na cozinha, mas tambm ia para as feiras e para os mercadores do porto. Camaro tambm dava dinheiro, dava pra sobreviver.

    Nas guas, Jonas fazia da solido a melhor amiga pra es-pantar a tristeza. Para o sol, cantarolava folclores baianos com toque de alma. Para a noite, dedicava seus olhos ao cu estrelado. Perco o barco, perco a famlia, perco os braos e as pernas, mas enquanto eu tiver olhos para as estrelas, as estrelas tero olhos para mim, dizia Jonas para o mar ouvir. Quem lhe dera houvesse vento sufici-ente para faz-lo voar. Atravs do amor, era como al- canava as estrelas todos os dias.

    Se chovia, Jonas chorava. As guas de Deus se misturavam com as guas de um ser to minsculo, que era ponto de equilbrio entre cu e mar. Rapaz de mos enrugadas e pernas cansadas, mas de corao romntico. Pescador apaixonado pela vida, seduzido pelo mar de Dona Janana.

    O anzol levava o amor do pescador para onde deveria ser

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  • levado. O fogo de Maria assobiava. Ela assobiava mais alto enquanto costurava. Pedro flutuava na areia. As bo-chechas de Alice estavam coradas.

    Se chovia, Jonas chorava. Mas no contava. Se chovia, Ma-ria chorava. Mas escondia.

    Chovia, as crianas estavam assustadas.

    Navegava o barco, guiando o amor do pescador entre re-mos e chuva. Amanh melhora, pensou. No tinha mais beleza nos cabelos ao vento, estava encharcado. Doce e encharcado, Jonas era protegido. E por ser protegido e especial, foi convocado a comparecer.

    Amanh melhora. No haveria amanh. O vento soprou e o barco Valentin II finalmente virou. Sem volta. Sem ajuda. As guas ganharam uma nova esttua purificada no fundo do mar.

    Maria continuou indo todos os dias pra beira do mar. Besteira. Suas mos empurraram o que o mar, ingrato, no trouxe de volta.

    Maria dos Anjos chora, mas esconde. Iemanj canta, mas baixinho. Os anjos tambm choram. O mar molha quem ficou. Vai de volta, indomvel. Vem calmo, sozinho.

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  • Que chato. No me vendo barato s pra no ser clich, at mesmo porque desisto de ver e ser visto,

    disso e de querer.

    Avenida Paraso por Ana Paula Santos

  • Que chato. No me vendo barato s pra no ser clich, at mesmo porque desisto de ver e ser visto,

    disso e de querer.

    [cruz e cicatriz]Amauri Terto

    Toda manh a mesma situao. Cercado por dezenas de outros septuagenrios, ocupo uma das poltronas aguar-dando minha bandeja.

    nesse momento que a garganta resseca. Os pensamen-tos tomam rumos inesperados, despertam lembranas es-quecidas, revelando que ainda no morri. Olho meu brao direito. Essa cruz e essa cicatriz j no impressionam como antes.

    Agora frgeis, minhas mos recebem o rotineiro po com manteiga, trs bolachas de gua e sal e um copo de leite. O sorriso de Marcela - a garota que aparece por aqui aos domingos - um alento minhera solido medocre. J seus olhos contornados de preto so um grito em meu ouvido dizendo o que sou agora.

    Tomo um gole do leite morno e sinto a densidade do gim. Do palco eu olho pra ela, fao um acorde na guitarra e canto algo que rima com rua Augusta. Cercada de amigas, ela sorri meio sem jeito e faz promessas com o olhar. Eu s quero ela pra mim.

    Minhas mos trmulas deixam a bandeja cair. No consi-

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  • go reagir ao constrangimento. Meu corpo no obedece ordem do crebro. Tento morbidamente esticar os braos que, no mesmo instante, passam a formigar de maneira assombrosa. Marcela aparece e me acomoda novamente na poltrona. Recolhe a imundcie do cho com a mesma rapidez com que serve os outros ocupantes de poltronas.

    Fico inerte. Sinto uma dor, mas no sei onde. Limpo os farelos de po da minha boca. No sei mais no que estava pensando.

    Marcela volta trazendo no rosto um sorriso ainda mais bonito. Uma argola prateada balana sob seu nariz. Ela me entrega a bandeja e vai embora. Vejo uma caveira tatua-da no antebrao quando ela passa pela sombra. Ela ainda acredita no rock.

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  • Vista da Pinacoteca de So Paulo por Fernando Galassi

  • 20Estdio do Morumbi por Andr Magalhes

    Ento vem fazer parte dessa histria: Craque mope atinge a glria.

    Rei do gramado que te chama de minha Primeira Dama.

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  • [graus de separao]Ana Clara Matta

    O treinamento de inmeros dias na pequena quadra do prdio, as bolhas nos ps do novo par de chuteiras e os he-matomas nos joelhos, tudo aquilo culminaria naquele mo-mento. Era o incio de um outono seco de Belo Horizonte. Ela era Atltico, ele era Cruzeiro, mas ela no precisava saber disso... ainda no. Ele treinou durante cada minuto das frias e feriados, impressionou os colegas na Educao Fsica e se inscrevia agora para o time da classe nos Jogos Olmpicos da Escola. O sorteio dos pases nomeou a sua sala como a Espanha - e, amigos, era hora de Joo Pedro se transformar no Iniesta da classe.

    No teste para formar a lista dos titulares da equipe de fu-tebol, Joo arrebentou (proftico, ser?). O garoto franzi-no estava dentro do time e era s uma questo de tempo para que tudo aquilo que ele imaginou, que ia e voltava da sua cabea nas frias, entre reprises dos melhores dese-nhos (e de alguns programas esportivos), se transformasse em realidade. Ela adorava futebol. Ele no... ainda no. Mas era s uma questo daquele primeiro gol do campe-onato, aps o qual, perante todo o colgio, ele iria dedicar sua musa. J podia at imaginar um dia o casal relem-brando seus dias de quadra para seus filhos. Liga a TV de novo e v mais um desenho.

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  • O professor com seus shorts cmicos e sua voz de Co-mando em Ao afirmou o j imaginado: Joo seria um dos pivs do time.

    Dias de insnia e expectativa. Mais um pouco de treino na quadra do prdio. Pensava em como seria o gol. Bicicleta? Calcanhar?

    Camisa do time com seu nome escrito nas costas, recebeu na sala, na frente dela. Olhou para trs ao vestir pra ver se seus olhares cruzavam. Aquelas bolas de gude negras olhavam para o celular. Teria que se esforar mais. Treinar mais. Dias de insnia e expectativa.

    Era o dia do jogo. Do Jogo. Os times se cumprimentam, as garotas na arquibancada (ela ainda ofegante, sada do jogo do time feminino, cabelo despenteado sobre a testa suada). O juiz comea a cerimnia e... PAUSA.

    - Ei, sem culos. a regra.

    - Mas eu no enxergo direito!

    - Voc pode se machucar e machucar seu colega - olha para a parte de trs da camisa - Joo.

    - Bem, eu definitivamente VOU me machucar nessa quadra sem culos.

    - E a, Espanha, quem o piv reserva?

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  • - No, no!

    Os planos no podiam dar errado. O que eram aqueles graus, aquelas lentes? Elas no influenciavam em nada. Era agora. No tinha outra chance.

    - Eu t dentro, Seu Juiz.

    Joo passa por trs, Joo toca a bola, Souza marca!

    Joo se v livre na frente do goleiro, a bola tira TINTA da trave velha do colgio, PRA FORA!

    J era metade do segundo tempo. Ainda sem gol.

    Era agora o momento decisivo.

    A bola estava com o outro time. Eles chutaram para o gol e a rede se moveu. Era o que o borro nos olhos de Joo indicavam. Droga, Gol da Frana.

    O grandalho da sala guardava o gol e rolou a bola para Joo. Ele, agitado, se lembrava - depois do gol, a bola comea no centro. No centro da quadra. Alguns metros de Maria Luiza. Ok, postura de capito. Pega a bola no cho, coloca na bola do centro, pintada em tinta descas-cada pelo uso dos garotos do colgio que no sabiam de nada do que se passava ali, no corao de Joo, agora.

    SOA O APITO DO JUIZ, a cabea de Joo roda, roda, por

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  • vaias frenticas, olhares que o fuzilavam e risos maldosos.No tinha sido gol. Gol nenhum. Da Frana, da Espanha, nem da maldita Nrnia ou Pasrgada. A bola havia raspado a rede pelo lado de fora, causando aquela pequena on-dulao, aquele truque de vista cruel como a vela de um navio pirata fantasma dos filmes de aventura. Aquilo era um tiro de meta. Caramba. O goleiro rolou a bola. Dentro da rea, Joo pegou a bola com as mos. Era pnalti. Era pnalti. Era pnalti. Era gol. Agora sim. Gol da Frana.

    O grandalho se aproxima gritando de Joo, e pela primei-ra vez ele v seu goleiro em foco. Joo est tremendo, suando as lgrimas que queria estar chorando. Promete no olhar para Maria Luiza. Em instantes, some para a sa-linha de trs do vestirio e est tudo perdido.

    Dias de insnia e expectativa. Reprises dos mesmos dese-nhos na TV, desenhos que assistiu enquanto ainda sonha-va. Nos prximos jogos conseguir uns culos daqueles de squash, de moto, de esqui, com grau. E eles, um dia, ain-da vo contar sobre os dias de quadra para os seus filhos.

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  • 25Avenida Paulista por Ana Paula Santos

  • Sublimar. Sublimei daqui esta manh, chovi longe. Espero que se preocupe com isso. E depois entenda. (Esquece o caos e as desculpas pelo atraso - os superiores nunca vo entender que voc no influi no trnsito e que os despertadores no gostam de tocar mais cedo do que de costume). Precisava fugir. Era cinza demais. (Vai, levanta e vai se descobrir algum. A cidade to grande e voc to megalomanaco quanto - sem essa de se estabelecer em um estado que voc julga confortvel, mas que no implora pelo

    mximo).Voc nunca quis caminhar com meus ps. Mas voc no utiliza os seus. (Bata nas portas por a, sem pensar no que eles vo pensar de voc. Escreva uma dedicatria bonita em um livro para algum, como sempre quis lhe fazer, mas nosso tempo no me permitiu). Queria que voc arriscasse mais. (Pegue a linha amarela do metr, tudo um tanto mais bonito. Reinvente-se. Jogue xadrez com um velhinho na praa - ele sabe bem mais sobre voc). E que voc demonstrasse o quanto gosta de mim e das coisas que eu gosto. (Tome cerveja s segundas feiras e s teras tambm. Sem essa de assistir ao futebol religiosamente toda quarta). Vou magoada, no era isso que voc temia? (Se sentir von-tade de terminar relacionamentos no futuro, termine enquanto tempo para que elas possam sorrir ali pela Augusta amanh). Difcil abstrair do nada. Difcil quando j me envolvi. (Sonhei com voc esta noite, e no sonho eu no era a nica que te admi-rava: seus prprios dolos te amavam). Eu gostava de como voc colocava as palavras. Mas no gostava de como voc colocava as aes. (Voc um dos homens mais interes-santes que eu conheci, talvez. To interessante que eu passaria horas a fio determi-nada a descobrir o que lhe faz gostar de caminhar pela Paulista s sextas a noite. A descobrir porque voc no vai atrs de algumas coisas que lhe interessam - deixa o conforto te levar, voc j tem 23). Voc precisava arriscar mais. (O Rio iria fazer bem a voc: a gente vive um tanto quanto catico tambm, mas s olhar para a paisagem, s respirar um pouco de ar litorneo). E eu, eu precisava retroceder. Cair no mundo.

    ( )

  • Sublimar. Sublimei daqui esta manh, chovi longe. Espero que se preocupe com isso. E depois entenda. (Esquece o caos e as desculpas pelo atraso - os superiores nunca vo entender que voc no influi no trnsito e que os despertadores no gostam de tocar mais cedo do que de costume). Precisava fugir. Era cinza demais. (Vai, levanta e vai se descobrir algum. A cidade to grande e voc to megalomanaco quanto - sem essa de se estabelecer em um estado que voc julga confortvel, mas que no implora pelo

    mximo).Voc nunca quis caminhar com meus ps. Mas voc no utiliza os seus. (Bata nas portas por a, sem pensar no que eles vo pensar de voc. Escreva uma dedicatria bonita em um livro para algum, como sempre quis lhe fazer, mas nosso tempo no me permitiu). Queria que voc arriscasse mais. (Pegue a linha amarela do metr, tudo um tanto mais bonito. Reinvente-se. Jogue xadrez com um velhinho na praa - ele sabe bem mais sobre voc). E que voc demonstrasse o quanto gosta de mim e das coisas que eu gosto. (Tome cerveja s segundas feiras e s teras tambm. Sem essa de assistir ao futebol religiosamente toda quarta). Vou magoada, no era isso que voc temia? (Se sentir von-tade de terminar relacionamentos no futuro, termine enquanto tempo para que elas possam sorrir ali pela Augusta amanh). Difcil abstrair do nada. Difcil quando j me envolvi. (Sonhei com voc esta noite, e no sonho eu no era a nica que te admi-rava: seus prprios dolos te amavam). Eu gostava de como voc colocava as palavras. Mas no gostava de como voc colocava as aes. (Voc um dos homens mais interes-santes que eu conheci, talvez. To interessante que eu passaria horas a fio determi-nada a descobrir o que lhe faz gostar de caminhar pela Paulista s sextas a noite. A descobrir porque voc no vai atrs de algumas coisas que lhe interessam - deixa o conforto te levar, voc j tem 23). Voc precisava arriscar mais. (O Rio iria fazer bem a voc: a gente vive um tanto quanto catico tambm, mas s olhar para a paisagem, s respirar um pouco de ar litorneo). E eu, eu precisava retroceder. Cair no mundo.

    Catedral da S por Tay Gomes

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    E eu respondo certeiro, tarde, mas primeiro; me dar o Salgueiro voc de corpo inteiro, o Amor Verdadeiro, seja l quem voc for.

    Rodovia Presidente Dutra por Fernanda Praisler

  • [ele e a vida das coisas]Vincius Gandolphi

    Ele tinha nos olhos o tom da descoberta.

    Se ralava todo dia no cimento e no asfalto da sua rua. Tra-zia pra casa sempre mais bolinhas de gude do que levara. Fazia isso com as figurinhas da Copa do Mundo, tambm.

    Aos oito anos, na estranha idade da razo, se preocupava menos com as coisas da vida. Queria mesmo saber da vida das coisas. Pensava que tudo era to vivo como ele, que tudo respirava, que tudo se movia mesmo quando ele no podia ver.

    E de um p de moleque poderiam nascer muitos amigos, moleques como ele. De um p de mesa vinha muito lugar pra gente se acomodar e comer rapidinho, com meio bum-bum na cadeira e os ps sujos at as canelas em posio de corrida pro almoo no atrapalhar um segundo de di-verso. Se precisasse de brisa, um p de vento trazia um novo ar pros seus pulmezinhos hiperativos. De cada p tirava um fruto, e todos eram bons.

    Ficava sempre no p da me quando queria um carinho, no p do pai quando precisava de uma companhia mais experientes para seus grandes jogos de futebol, no p do

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  • irmo mais velho quando queria treinar sua capacidade de perturbar o sossego, no p dos avs quando queria voltar alguns anos no tempo.

    E quem pegava no p dele eram os professores, e ele no sabia que o p cresce melhor com algumas podas. Foi aprender isso mais tarde, e no foi tarde demais, graas a Deus.

    Ele cresceu.

    Parecia no mais dar ateno vida das coisas. As coisas da vida o atraram de tal forma que o mundo j precisava ser visto de outra forma, por outro prisma.

    o que sempre acontece, so coisas da vida.

    Mas com ele foi um pouco diferente, ainda que no soubesse.

    A mania de ver a vida das coisas no o deixou de comple-to. As responsabilidades, os projetos e as ambies faziam parte de sua vida assim como fizera a sua infncia. Nin-gum esquece a prpria histria sem motivo.

    Sabia de onde vinham todas as coisas, menos o mal, o fel, o amargo. Sabia da existncia do que ruim, mas acre- ditava que essas coisas eram filhos sem pai, e que at o menos doce dos ps poderia lhe trazer um amor, fosse quem fosse.

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  • Rua 15 de Novembro por Fernando Galassi

  • Nunca pensei tanto no aps.Nunca falei tanto de depois.

    Foi s ficar a ss, um e um so doise a gente foi esquecendo at de dormir.

    Estao da Luz por Ana Paula Santos

  • [semana]Camila Fracalossi

    Ela encarava a tela do computador nervosamente, os de-dos tamborilando levemente sobre a maior das teclas do teclado encardido de uso, como se contasse com a sorte da mesma ser pressionada acidentalmente. Fechou os o- lhos e o fez, fechando logo o computador e deitando a cabea sobre o mesmo: a mensagem fora enviada. Com seu telefone. Para um estranho. Um estranho que j me-xia com sua cabea h sete dias, com seu jeito atencioso e carinhoso, ateno e carinho que ela h tanto necessita-va. Um estranho que morava longe e que jamais perderia o seu tempo ligando para uma reles estranha.

    Mas e se ela estivesse enganada? E se ele ligasse? E se ele quebrasse o seu corao, j to partido? Era um risco que ela corria, mas j no importava: uma fissura a mais dentre tantas em um s corao no haveria de fazer diferena, enquanto a possibilidade de que ele trouxesse um pote de cola o faria.

    Tantos pensamentos a levaram a um pesado estado de torpor, cortado instantaneamente pelo toque escandalo-so do celular cujo identificador de chamadas marcava um nmero estranho com um cdigo de rea novo. O pre-domnio do parassimptico foi prontamente substitudo

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  • pelo simptico e o instinto de luta ou fuga e a taquicardia foram estabelecidos: a indeciso foi derrotada pelo deses-pero e a voz at falhou quando ela finalmente conseguiu dizer al. A voz dele, suave como o seu jeito, soava tal como uma melodia tranquila, capaz de acalmar seu corao. O sotaque carregado, to diferente do seu, lhe fazia sorrir: era uma graa, um daqueles detalhes pequeni-nos que conseguem conquistar um corao por serem de uma uniqueza to grande. J se conheciam h sete dias, mas parecia o primeiro contato; a timidez fazia-se clara de ambos os lados, e logo assim, ela se viu admitindo em voz alta o quanto ela precisava dele e o quanto ela o tinha es-perado. Ele riu, tmido, concordando: ele tambm a havia procurado, mas nas pessoas erradas.

    Foram trs horas, quase quatro, de ligao noite adentro tarifa mais barata vinda de um telefone fixo do Norte do pas, diretamente para um telefone celular perdido pelo Sudeste. Quase quatro mil quilmetros de distncia viaja-dos to rapidamente, de modo que ela j podia senti-lo em seu peito, pulsando junto de seu corao. O adeus fora dolorido, mesmo que junto dele viesse a promessa do te ligo amanh, mas a parte mais difcil ainda estava por vir: eram trs horas da madrugada, como dormir? Ela queria sair gritando aos quatro ventos, mas no se permi-tiu: o medo da desiluso era maior que a vontade. A inse-gurana, praticamente nunca experimentada, invadiu o seu corao: e se ele no ligasse? E se ele desaparecesse? E se ele jamais a respondesse novamente?

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  • Dentre mil e dez pensamentos, acabou dormindo assim como logo acabou acordando. Era cedo e o sono tinha sido conturbado mas quem ligava? Pulou da cama e abriu o computador, ligando-o apressadamente. No se vestiu, no escovou os dentes e nem penteou os cabelos, mas ficou apressando o ligamento da mquina, que parecia de-safi-la. Quando a mesma finalmente ligou, percebeu uma mensagem dele, vinda aps o telefonema.

    Amei poder te escutar... | HE said ~8 hours ago.

    O corao deu um salto e ento, mais uma vez, em um desespero acelerado, ela se viu apertando o enter sem nem pensar, respondendo.

    Eu acho que te amo. | SHE said ~ a few seconds ago.

    No demorou muito para que ele estivesse online. No demorou muito at que eles voltassem a conversar sobre a vida, o universo e tudo mais, mas demorou e muito, na viso de ambos para que algum tocasse no assunto. Cada conjunto de sessenta segundos parecia durar ape-nas seis, enquanto os minutos e as horas se esvaam em uma velocidade ainda mais impressionante. Assim eles se despediam ciberneticamente, mais uma vez, e ela prostra-va-se ansiosa a esperar pelo toque do telefone. Nesse momento, cada minuto passou a durar seiscentos e ses-senta e seis sextilhes de segundos, punindo-a por ser precipitada. Distraiu-se com os poemas de Drummond, dos quais abstraiu depois de algum tempo, e olhou o relgio:

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  • j passava da hora combinada e ele no ligaria. Acabou por adormecer sobre o poeta e despertou com o toque do telefone, sorridente apesar do susto: ele no a aban-donara - pelo contrrio. Pediu-lhe desculpas pelo atraso de quase duas horas, fruto de uma visita inesperada de um amigo, e dissertou sobre o quanto sentira a sua falta nesse meio tempo, o quanto ela era fofa e o quanto ela valia a pena. Ela sorriu o maior sorriso do mundo, as bochechas coradas e os olhos brilhantes, dizendo-lhe o quanto ela queria poder estar mais perto, o quanto ela queria poder abra-lo e o quanto ela queria t-lo para si. A conversa durou noite adentro, os dois trocando declaraes e elo-gios, o desejo e o anseio cada vez mais fortes. Amanhecia quando eles desligaram, e ela se via agradecida por estar de frias, por ser janeiro e por poder virar praticamente 48h sem dormir.

    A energia era imensa, apesar do cansao: o corao batia vigoroso, com mais compasso, mais ginga. O sorriso nos lbios era inegvel, tal qual o bom humor estranhos quela poca do ano. Ela sempre odiara o tdio das frias e agora vivia trancafiada alimentada por um combustvel nunca antes experimentado, o amor correspondido. Se era mesmo amor, ela no sabia. Sabia que seria eterno en-quanto durasse fossem sete dias ou apenas uma semana.

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  • 37Parque do Ibirapuera por Fernando Galassi

  • 38

    Todas as canes so de amor,tudo o que cala.

    Tudo o que se fala do amor, se isolar ou se render.

    Avenida do Estado por Ana Paula Santos 65

  • [em um novo gole]Leonardo Mendes

    Restavam apenas dois amigos na mesa do bar, disposta na calada da esquina das ruas Simo lvares e Cardeal Arcoverde, onde era possvel pedir a bebida enquanto se acompanhava o movimento na rua. Moradores do bairro levavam seus cachorros para passear. Um grupo de rapa- zes saa de um estdio prximo e se esforava para guardar os instrumentos dentro do porta-malas. Alguns nibus se enfileiravam sempre que o semforo fechava. Naquela quinta-feira no fazia frio ou calor, o restante dos amigos havia deixado a mesa momentos antes, entretanto os dois permaneciam, sem preocupaes com a manh seguinte. Bruno, estudante de contabilidade e atendente em uma tica da zona leste, observava o movimento no bar em frente. Rodrigo, revisor de textos em uma editora de livros didticos, tentava distrair o amigo listando as bandas que, segundo um boato, tocariam em um festival em So Paulo no prximo semestre.

    - O Arcade Fire est quase confirmado. - disse Rodrigo - Mas esse papo j rolou antes.

    - No estou to empolgado pra esse festival.

    - Voc sempre diz isso antes, mas sempre compra o ingres-

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  • so no primeiro dia. Se rolar mesmo, aposto que voc vai pra fila antes de comear a vender.

    As palavras percorriam a conscincia de Bruno. Lembrou-se da primeira vez que escutou o The Suburbs. Enviou para Mari, que disse ter gostado, mas no comentou muito. Pensou se ela havia gostado realmente ou se apenas men-tiu para evitar que ele tentasse convenc-la a gostar. Ele tinha mania de despejar argumentos a favor de um lbum sempre que ela dizia no ter gostado. Enquanto o ami-go enchia o copo, olhou para a garrafa, pouco acima da metade, calculou quantos copos americanos ainda enche-ria. Mari s bebia em copo americano. Dizia que em tulipa a cerveja esquentava rpido. No iriam mais ao show da Tulipa Ruiz. Nunca havia escutado nenhuma msica, mas havia prometido ir com ela. Odiava todas as promessas que no cumpriu. Achava que cada promessa no cumpri-da era culpada pelo fim da relao.

    - Talvez eu faa isso mesmo, mas no acredito nesses bo-atos. - Disse Bruno, enquanto completava seu copo ame- ricano. Secou a ponta dos dedos na cala e pensou que cada boato era como uma promessa no cumprida. Ao menos havia visto o show do Pavement com ela. Era sua banda preferida. Foi cantando Spit On A Stranger que conhecera Mari, 3 anos antes, numa quinta-feira na pista da Torre, clube prximo ao bar onde agora bebia. Quan-tos boatos sobre a volta do Pavement escutara antes da confirmao. Era o show que ambos esperavam. Confirma-ram a compra do ingresso pela internet 17 minutos aps

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  • o incio das vendas. Foram cedo, nem prestaram ateno nos outros shows. Estavam perto do palco, um pouco para a esquerda. Cantaram 16 msicas antes de Spit On A Stranger. Nunca um show foi to especial. Aquela msica, toque de suas ligaes para Mari, era cantada simultane-amente por milhares de outras pessoas. Cada uma levava consigo um motivo prprio. O dele era o mais especial. Quantas vezes Mari teria escutado os acordes iniciais des-sa msica aps o trmino? Sabia ter feito exatamente 17 ligaes na primeira semana aps o trmino, sem que ela atendesse nenhuma delas. Sabia que se pudesse falar com ela, voltariam. Ela tambm sabia, e optou por no atender. Teria conseguido ouvir aquela msica e no atender ou te-ria trocado o toque? Ele no suportava mais ouvir aquela msica. Menos de 20 dias aps a separao, a escutara num seriado de TV e nunca mais o assistiu. Para no ser surpreendido, consultava a trilha sonora antes de assistir a qualquer filme. Sabia que essa loucura j havia passado, estava praticamente recuperado, mas ainda se lembrava dela enquanto olhava o copo americano.

    Ao mesmo tempo em que pousou o copo sobre a mesa mida, cruzou os olhos com os de uma garota que levan-tava de outra mesa para fumar. Ela usava uma blusa bran-ca de manga curta, cala cinza escuro, o tnis combinava com a blusa. Tinha o cabelo moreno preso por um leno, a franja caa sobre os olhos, e agitava os lbios de uma maneira engraada antes de acender o cigarro. Ainda no havia dado a segunda tragada quando o celular em cima da mesa tocou My Heart is an Apple, do Arcade Fire.

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  • Deu um novo gole, levantou-se e acendeu um cigarro com a certeza de que iria ao festival.

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  • Lollapalooza 2012 por Felipe Matheus

  • 4232

    S me resta desejarbom Natal e Ano Bom,cuidado no Carnaval...

    j festa... Tchau.

    Avenida Paulista por Izadora Pimenta

  • [certeiro]Guilherme Pietrobon

    E hoje, em clima de despedida, te deixei. Como sempre, a gente se separou. Mas dessa vez, no volto. No agora. J sentindo a diferena, me virei com o que tinha na cozinha. Eu fiz o que pude, e at o que no podia, pela gente. S voc no assume isso. Mas sabe que verdade. Depois de tanto tempo, vou sair, sem ser com voc, sem me preocu-par em voltar. Um banho rpido, a roupa salva das traas residentes no meu guarda roupa e o vidro de perfume, que voc nunca elogiou quando eu usei. Alis, nunca me elo-giou - essa parte, s cabia a eu fazer a voc. Assumo que quando te ofendia, mesmo que mentalmente, me vinha o mpeto de querer elogiar pra me perdoar. Hoje, s me restam esconjuras. Peguei uma lgrima caindo do rosto e sequei antes de chegar ao meu destino. Ah o Bar do Al-cindo... O velho acolhedor das minhas noites de solteiro. As esquinas com as cadeiras e as mesinhas com os pobres bomios de sempre. Os piores tipos estavam por l. E eu, era um deles.

    Me peguei pensando em voc. Depois de tudo, ainda joga-va na minha cara o que eu no fiz e nunca valorizou o que teve. E eu, ridiculamente ainda corria atrs. Dou graas de no ter mais que te ver, olhar pra voc com o seu humor montono, de comeo de semana, com ar de cansada.

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  • Mas hoje eu vou varar a noite no bar e ai do qu tentar me impedir. Depois de uma cerveja ou outra, cantarolo junto aos brios do recinto, pra ocupar a mente com algo que no seja voc. E mais uma vez repito, pra me firmar: voc sabe que eu tentei. Ainda bem que no choveu. E eu sei que voc vai arrumar outro. Como sempre arrumou. Mais um pra voc ficar em cima, pra voc brigar, dominar e en-tediar. Voc e suas cobranas interminveis. Moldou-me ao seu gosto, e ao conseguir, enjoou. O que s voc no via era que o prazo de validade dessa relao enlatada, pronta pra consumir, j tinha vencido. Por fim, no posso te desejar algum mal, e aproveitando o clima de festivi-dades, te desejo que passe bem. Mas s isso. E meu ntimo pede que no apronte, mas eu ainda aprenderei a ignorar isso. Quem sabe depois de um ms? Deixa ser. Lembro quando minha me disse que te adorava.

    At a, eu tambm.

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  • Passarela da Rua das Noivas por Ana Paula Santos

  • [sobre os autores]

    estudante de Jornalismo e acredita no poder da palavra escrita. Assume os riscos de levar a vida com bom humor desde 1988.

    estudante de Comunicao Social na UFMG, editora do Rock n Beats e do Ovo de Fantasma. 22 anos, ainda no tem tudo que sempre sonhou.

    sagitariana, poeta, cozinheira, sonha-dora, veterinria em formao pela FMVZ - Unesp Botu-catu e, cheia de inventar moda, no poderia deixar de se meter a escrever e deixar um pouquinho de si para a pos-terioridade.

    um amador profissional que vai se formar em Audiovisual pela UFRJ. Escreve pro Ovo de Fantasma e pro Tenho Mais Discos Que Amigos e joga futebol de culos.

    , 22 anos, von allem ein bichen. A sn-drome de puxar todos os Rs imaginveis evidenciam que, apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, grande parte de sua vida se constituiu em So Paulo. Divide o corao en-tre msica e futebol e escolheu o jornalismo porque an-

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  • tes a pobreza do que a falta de amor.

    um cirurgio dentista em formao pela FOP-UNICAMP e pseudoescritor no s nas horas va-gas. Tem um karma que o prende a certo nome e acredita em horscopo quando quer. Nunca abriu um biscoito da sorte, ou talvez um s.

    estudante de Jornalismo na PUC-Campi-nas. J editou o contedo nacional do Rock n Beats e hoje edita o BACKBEAT. Tambm organizou a coletnea Um Ou Mais Graus de Separao, lanada em agosto. Escreve por a.

    podia ser um msico sem talento, mas preferiu o jornalismo. Qualquer outra informao vlida est aqui: http://www.lastfm.com.br/user/lefilippi

    paulistano do extremo leste, 27 anos, sangue AB+. Paga as contas como analista de sistemas e estuda letras na USP. Prefere escrever quando est dentro de algum nibus ou na mesa de algum bar. Passou 1/3 da vida em um desses lugares.

    , 25 anos, um imigrante de qualquer-lugar-e-lugar-algum que vive em So Paulo. Publicitrio, Gremista, traidor do Rock, recm apaixonado por gatos. Acredita que no h nada maior que uma Taa Libertadores da Amrica, a no ser o amor por sua Maria.

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  • uma cabea e vrias ideias, um pouco de acidez e uma dose de escrpulos. Sal a gosto. Formado em Design Digital, editor do Escuto no Metr e rascunha poesias, contos e crnicas nas horas vagas e no vagas.

    , 21, jornalista, acredita que as coisas da vida no so to importantes quanto a vida das coisas. Ainda no saiu do sonho de que a vida nasce da videira.

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    [para escutar]

    Tudo Que Eu Sempre Sonhei no Soundcloud:

    http://soundcloud.com/pullovers/sets/tudo-que-eu-sempre-sonhei-1/

  • Nesse iderio, passeiam secretrias da Zona Leste, nerds fute-bolistas, So Paulo versus Rio, moas instigantes, despedidas, tudo costurado por amores incipientes, no auge ou no declnio.

    - Release de Tudo Que Eu Sempre Sonhei, 2009

    BACKBEAT

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