o licenciamento ambiental - licenciamento ambiental... · duas usinas hidrelétricas no rio...

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  • Objeto do caso

    O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais

    Renovveis (Ibama) concedeu, em agosto de 2007, licena prvia para

    duas usinas hidreltricas no Rio Madeira, Santo Antnio e Jirau,

    localizadas no Estado de Rondnia. A licena de viabilidade ambiental

    constitui um pr-requisito para a licitao da construo e o

    funcionamento das usinas a etapa mais difcil, do ponto de vista poltico,

    de todo o projeto.

    A concesso significou o encerramento de uma etapa crucial, de

    um longo e complexo processo de negociao protagonizado pela

    administrao pblica federal brasileira. Este tema ser ainda objeto de

    muito debate e negociaes no interior do Estado e na sociedade, uma

    vez que a licena prvia antecede as etapas de construo e

    funcionamento dessas usinas, etapas que podem ser tambm objeto de

    conflitos de interesses. Porm, encerra-se um ciclo que representou

    um dos mais desafiadores impasses no interior da administrao pblica

    federal por envolver uma temtica de enorme sensibilidade poltica,

    que a temtica socioambiental.Este texto tem por objetivo apresentar, sinteticamente, a evoluo

    do processo negociador, que resultou na concesso das licenas

    prvias para as hidreltricas Santo Antnio e Jirau como um estudo de caso de barganha, relevante para a administrao pblica brasileira. Alm disso, busca fazer uma anlise do processo negociador luz da teoria de negociaes. Trata-se, portanto, de um esforo que busca articular duas dimenses, descritiva e analtica, do caso escolhido.

    A motivao fundamental deste estudo de caso fornecer subsdios ao desenvolvimento de oficina de treinamento em negociaes, dirigida a funcionrios da administrao pblica, em fase de aperfeioamento na

    O licenciamento ambientalpara hidreltricas do Rio Madeira

    (Santo Antnio e Jirau)

    Elaborado por Snia Naves Amorim, Amncio Jorge de Oliveira, Joo Paulo Cndia Veiga e Janina Onuki

    (2008)Contm Nota Pedaggica

  • 2 2 O licenciamento ambiental para hidreltricas do Rio Madeira (Santo Antnio e Jirau) Elaborado por Snia Naves Amorim,Amncio Jorge de Oliveira, Joo Paulo Cndia Veiga e Janina Onuki

    Escola Nacional de Administrao Pblica (ENAP). O texto foi desenvolvido

    especificamente para este fim.

    O trabalho serve, a um s tempo, como modelo de anlise e como

    apresentao do contexto de fundo sob o qual as negociaes do caso

    escolhido desenrolaram-se ao longo dos ltimos anos. Esta exposio

    fundamental, uma vez que a oficina de treinamento ser desenvolvida

    com base em simulaes e dinmicas de negociaes relativas ao caso

    substantivo escolhido.

    O treinamento buscar articular, de forma sinrgica, as dimenses

    terica e prtica das negociaes. Parte-se da premissa de que da mesma

    forma que o aparato conceitual da teoria de negociaes deve ser

    utilizado pelos negociadores para ampliao da capacidade de construo

    de consensos e, portanto, reduo de custos de transao na

    administrao pblica, as atividades prticas e as dinmicas de simulao

    so fundamentais no processo de consolidao terico-conceitual.

    Assim, a retroalimentao entre a teoria e a prtica nas negociaes

    constitui o esprito que rege este texto e o treinamento a que ele

    se destina.

    Para alcanar esse objetivo, a organizao do caso procura sistematizar

    os vrios elementos constitutivos de um processo de negociao na

    administrao pblica, quais sejam: o contexto socioeconmico e

    poltico, a partir dos quais a dinmica negociadora foi iniciada e evoluiu;

    o objeto central e adjacente da negociao, os atores governamentais e

    no-governamentais centrais no processo, com indicao dos seus

    respectivos perfis, interesses e estratgias; e a dinmica negociadora

    segundo binmios predeterminados e os resultados obtidos.

    Trs eixos esto privilegiados na estrutura descritiva do caso: a

    barganha interburocrtica, a relao entre governo e setor privado, e a

    relao entre sociedade civil organizada e Estado. Aps descrio e

    anlise de cada um desses eixos, apresenta-se um balano global do

    processo de negociaes.

    Embora se procure conferir centralidade s negociaes em torno

    da licena ambiental das hidreltricas de Santo Antnio e Jirau,

    eventualmente so descritas negociaes paralelas ou que figurem como

    externalidades relevantes do processo negociador central. o caso das

    negociaes envolvendo o governo e os consrcios que concorreram no

    processo licitatrio para a usina de Santo Antnio, em torno do

    fornecimento dos equipamentos e fechamento de mercado.

    Em anexo, encontra-se breve glossrio dos principais termos e

    conceitos usados ao longo do texto. Esse glossrio, alm de facilitar a

    compreenso do documento como um todo, ser til para as atividades

    prticas desenvolvidas ao longo do treinamento.

  • 3 3

    Veja mais casos em http://casoteca.enap.gov.br

    O licenciamento ambiental para hidreltricas do Rio Madeira (Santo Antnio e Jirau) Elaborado por Snia Naves Amorim,

    Amncio Jorge de Oliveira, Joo Paulo Cndia Veiga e Janina Onuki

    Contexto histrico

    O chamado Complexo Hidroeltrico do Rio Madeira compreende

    a instalao de quatro usinas hidreltricas (UHEs). Duas dessas usinas,

    Santo Antnio e Jirau, sero construdas em solo brasileiro, prximas a

    Porto Velho, capital do Estado de Rondnia. A terceira usina prevista,

    denominada de Guajar-Mirim, binacional e ser construda na fronteira

    com a Bolvia, enquanto a quarta, batizada de Cachuela Esperanza,

    ser construda em territrio boliviano.

    O Complexo est inserido como parte de um dos eixos fundamentais da iniciativa para a Integrao da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), assinado em 2000 por 12 pases da regio. Mais recentemente o Complexo passou a figurar tambm como uma das metas do Programa de Acelerao do Crescimento (PAC), principal projeto do segundo mandato do presidente Luiz Incio Lula da Silva.

    No plano energtico, a relevncia do complexo de usinas do Rio

    Madeira, especificamente das usinas Santo Antnio e Jirau, deve-se

    capacidade de adicionarem ao Sistema Interligado Nacional (SIN) cerca

    de 6.450 MW de potncia instalada. Essa energia atende necessidade

    de incremento anual de oferta de energia eltrica da ordem de 3.300

    MW ao ano no perodo 2011-15, segundo as estimativas do Ministrio

    das Minas e Energia (MME). De acordo com esse ministrio, se a oferta

    de energia no aumentar, h srio risco de novos apages a partir de

    2011. O dficit energtico no pode exceder a 5%, segundo resoluo do

    Conselho Nacional de Planejamento Energtico CNPE (01/2004), rgo

    do MME.

    Alm da dimenso energtica, o Complexo ter incrementos de infraestrutura na rea de transportes. No marco do projeto est prevista a navegabilidade do rio para escoamento da produo entre Brasil e Bolvia. Por esse motivo, ser necessria a construo de eclusas para superar as diferenas de nvel das guas nas barragens das usinas hidreltricas. Essa possibilidade ainda est em discusso no Governo Federal, com o envolvimento de rgos como o Ministrio dos Transportes e a Agncia Nacional de Transportes Aquavirios (Antaq). A Portaria MME no 186, de 10 de agosto de 2007, determina que os custos relativos eventual construo de obras de navegabilidade no Rio Madeira no sero imputados ao vencedor da licitao.

    De acordo com a Agncia Nacional de Energia Eltrica (Aneel),

    o diferencial desse projeto a proporo do reservatrio em relao

    capacidade de gerao de energia da usina. A rea a ser alagada

    relativamente pequena. No caso da Usina Hidreltrica de Santo Antnio,

    com potncia instalada de 3.150 MW, o lago ser de 217 km, sendo que,

    desse total, 164 km correspondem calha natural do rio. O lago da

  • 4 4 O licenciamento ambiental para hidreltricas do Rio Madeira (Santo Antnio e Jirau) Elaborado por Snia Naves Amorim,Amncio Jorge de Oliveira, Joo Paulo Cndia Veiga e Janina Onuki

    Usina Hidreltrica de Jirau, com capacidade de gerao da ordem de

    3.300 MW, ter 258 km, dos quais 122,5 km tambm correspondem

    calha natural do rio. Para efeito de comparao, a Usina Hidreltrica de

    Balbina, localizada na Regio Amaznica, tem potncia de 250 MW e

    uma rea alagada de 2.360 km. A Usina Hidreltrica de Samuel, em

    Rondnia, tem potncia de 217 MW e rea alagada de 584 km, enquanto

    a de Tucuru, hoje com capacidade de gerao de 8 mil MW, tem um lago

    de 2.918 km.

    Alm de aumentar a oferta de energia do pas, as usinas vo

    possibilitar a gerao de empregos na regio e o desenvolvimento do

    estado de Rondnia, principalmente da capital, Porto Velho. Outro

    benefcio advm da receita com o ICMS para Rondnia. Adicionalmente,

    Porto Velho e o governo do estado passaro a receber a Compensao

    Financeira pela Utilizao dos Recursos Hdricos, ou seja, o pagamento

    realizado pelos empreendedores das usinas hidreltricas pelo uso dos

    recursos hdricos para a gerao de energia eltrica, em funo da rea

    alagada. Esses recursos podem ser aplicados em segurana, sade e

    educao.

    De acordo com a Aneel, os estudos de inventrio do Rio Madeira, no

    trecho exclusivamente brasileiro, que trata das UHEs de Santo Antnio

    e Jirau, foram elaborados pelo consrcio Furnas Centrais Eltricas e

    Construtora Norberto Odebrecht, aps a autorizao da Agncia em

    janeiro de 2001. Tais estudos foram entregues em novembro de 2002 e

    aprovados por meio do despacho nmero 87, publicado pelo Dirio

    Oficial da Unio (DOU) em dezembro de 2002.

    Em janeiro de 2003, o consrcio solicitou Aneel o registro para a

    elaborao de estudo de vi

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