o liber scintillarum

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Curiosamente, vemos hoje reaparecer nas nossas livrarias esse antiqüíssimo Liber Sententiarum, o livro de sentenças, na forma de livros-folhinha, livros-agenda, "pílulas de otimismo", "reflexões em gotas" etc. Tal como os bárbaros de ontem, os de hoje intuem que é preciso retornar às fontes, "resgatar" o que no passado tem valor em si mesmo.Nosso barbarismo, porém, tem suas características próprias. O mundo pós-moderno está ávido de sabedorias, mas que sejam descartáveis, adequadas a um pensamento circunstancialista e assumidamente claudicante. Muitas vezes presos à nossa mentalidade minimalista e consumista, preferimos o interessante ao invés da verdade das coisas; queremos o produto cultural da moda ao invés de reencontrar a perspectiva religiosa de quinze, de vinte séculos atrás, cuja preocupação fundamental era saber relacionar-se com Deus, com o próximo... e consigo mesmo.É extremamente interessante voltar a ler as antologias de sentenças daquele início de Idade Média, nas quais se retratam ideais, vivências e, até mesmo, preconceitos e "cacoetes" da época, mas, sobretudo, uma contrastante lição de vida e de sabedoria que, talvez, também poderá ser útil para nós.

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O Liber Scintillarum,

O Liber Scintillarum,de Defensor de Ligug Nota Introdutria e Traduo: Jean Lauand

Nota IntrodutriaJean LauandProf. Titular FEUSPjeanlaua@usp.br

1. As antologias e o projeto pedaggico da Primeira Idade MdiaA Idade Mdia define-se - como escreveu Hegel - como uma dualidade (brbaros/romanos) de povos, de lnguas e de culturas.A partir do sculo IV, os brbaros, triunfantes povos jovens e analfabetos, instalaram-se no espao (geogrfico e cultural) que fora ocupado pelo Imprio Romano no Ocidente, deparando com a cultura romana, certamente muito mais refinada, diante da qual podiam adotar diferentes atitudes, desde o desprezo e o esquecimento at a imitao e assimilao da lngua, da tradio e da religio dos romanos.Pedagogicamente, aquilo que se chamou Escolstica foi, em boa medida, o projeto brbaro de aprendizagem do saber antigo. Dado o gap cultural, esse projeto pedaggico no teve, no incio, a menor pretenso de originalidade. Tratava-se, antes (nos dois sentidos da palavra), de aprender, acriticamente, os rudimentos de uma lngua nova, de um novo modo de ser e pensar.Se essa experincia de "aprender de aprendiz" no trouxe nenhuma contribuio significativa para as cincias e disciplinas estudadas na poca, pelo menos (e no pouco!) possibilitou que elas se conservassem num estado mais ou menos precrio at o surgimento, no sculo XII, de melhores circunstncias para o desenvolvimento cultural e artstico, e para a criao de um pensamento original.Assim, numa situao scio-cultural no muito animadora, o pensamento teolgico e filosfico da Primeira Idade Mdia conseguiu produzir os livros de Sentenas, simples compilaes de frases dos Padres e escritores antigos que, no entanto, salvavam o substancial da herana da civilizao greco-latina. Somente a partir do Renascimento do sculo XII, essas compilaes foram dando lugar a interpretaes globais em snteses pessoais: as Sumas.Curiosamente, vemos hoje reaparecer nas nossas livrarias esse antiqssimo Liber Sententiarum, o livro de sentenas, na forma de livros-folhinha, livros-agenda, "plulas de otimismo", "reflexes em gotas" etc. Tal como os brbaros de ontem, os de hoje intuem que preciso retornar s fontes, "resgatar" o que no passado tem valor em si mesmo.Nosso barbarismo, porm, tem suas caractersticas prprias. O mundo ps-moderno est vido de sabedorias, mas que sejam descartveis, adequadas a um pensamento circunstancialista e assumidamente claudicante. Muitas vezes presos nossa mentalidade minimalista e consumista, preferimos o interessante ao invs da verdade das coisas; queremos o produto cultural da moda ao invs de reencontrar a perspectiva religiosa de quinze, de vinte sculos atrs, cuja preocupao fundamental era saber relacionar-se com Deus, com o prximo... e consigo mesmo. extremamente interessante voltar a ler as antologias de sentenas daquele incio de Idade Mdia, nas quais se retratam ideais, vivncias e, at mesmo, preconceitos e "cacoetes" da poca, mas, sobretudo, uma contrastante lio de vida e de sabedoria que, talvez, tambm poder ser til para ns.2. O Liber Scintillarum e seu autor nos quadros da Pedagogia medievalUma das primeiras e mais marcantes dessas antologias o Liber Scintillarum, Livro das Cintilaes ou, mais literalmente, Livro das Fagulhas, escrito em torno do ano 700( [1] ) por Defensor de Ligug, monge do mosteiro de So Martinho de Ligug( [2] ).O Livro das Cintilaes foi muito apreciado ao longo de toda a Idade Mdia e praticamente todas as bibliotecas da poca possuam seu exemplar (chegaram at ns mais de 350 manuscritos!).A palavra scintilla - fagulha, chispa, cintilao, fasca - aparece na Bblia ( [3] ), empregada literal e figurativamente, sete vezes: - no Eclesistico (11,34 e 42,23), significando um pequeno princpio que d origem a algo muito maior: "De uma simples fagulha, acende-se um fogo grande..." (e assim tambm a lngua do homem insidioso...), ou simples amostra de algo imenso: "Quo desejveis so as Suas obras! O que delas se v como uma centelha!";- em Isaas (1,31): "O homem forte vir a ser como a estopa, e a sua obra como uma centelha; ambos ardero juntos e no haver ningum que os possa apagar";- em II Sam 14,7 como metfora de descendncia, o filho que passa adiante o nome do pai; - no livro da Sabedoria (2,2 ; 3,7 e 11,19), aparece no sentido literal e, figurativamente, como algo insignificante, mas tambm como o resplendor da ressurreio dos justos: "No tempo em que Deus os visitar, resplandecero e correro como fagulhas no meio da palha" (3,7). natural, portanto, que scintilla, evocando o fogo vivo da vida do esprito, seja a metfora usada por Defensor para as breves sentenas de sabedoria que recolhe da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja. Diz Defensor em seu Prlogo:"Assim como do fogo procedem centelhas, assim tambm fulgem, extradas das Escrituras, estas breves sentenas neste livro de cintilaes".Defensor sabe que seus contemporneos no tm condies (acesso psicolgico e mesmo fsico) de estudar em profundidade as obras dos antigos; todo seu esforo pedaggico se concentra, pois, em apresentar, resumida e fragmentariamente, uma seleo desses autores. E este o ponto em que a problemtica pedaggica medieval revela-se atualssima, no mundo e no Brasil. Quem l e compreende hoje Plato, Virglio, Dante, Agostinho, Jernimo?Se o problema pedaggico de hoje aproxima-se do da Idade Mdia, a soluo daquela poca tambm no descabida para nosso tempo: j que impossvel propor para grande nmero de alunos o estudo aprofundado dos clssicos, demos-lhes - tal como na Primeira Idade Mdia - tradues de trechos selecionados, demos-lhes fagulhas (e sempre h a possibilidade de uma humilde fagulha provocar um grande incndio...).Defensor, realista, assume completamente essa Pedagogia e diz no Prlogo do Liber Scintillarum:"Quem quiser ler este livro, poupar-se- trabalho; que no se canse pelo caminho das outras pginas: aqui encontrar o que deseja."Defensor no nos diz explicitamente o objetivo de seu livro (para qu o leitor "deseja encontrar" essas cintilaes?), mas podemos supor que seria utilizado por pregadores, em busca de argumentos para seus sermes; por mestres espirituais, em busca de inspirao para a direo de almas, e por pessoas desejosas de encontrar orientao para o crescimento no cultivo da asctica crist.3. Estrutura e contedo do Liber ScintillarumO livro compe-se de 2.494 cintilaes, breves sentenas, divididas em 81 captulos. H, em mdia, portanto, 30 sentenas para cada tema da vida espiritual (h alguns captulos, como "A ligao com Deus", com apenas 5 sentenas e outros, como "A sabedoria", com 111). O tom de cada captulo j anunciado pela primeira sentena selecionada, sempre com a forma: "Disse o Senhor no Evangelho..."Dessas sentenas, em geral, cerca da metade procede da Sagrada Escritura, sobretudo do Antigo Testamento, e particularmente do Eclesistico ( [4] ) e dos Provrbios ( [5] ). A outra metade escolhida das obras de (ou, na poca, atribudas a) S. Isidoro de Sevilha ( [6] ), S. Gregrio Magno ( [7] ), S. Jernimo ( [8] ) e de S. Agostinho ( [9] ). Menos freqentes so as citaes de: Ambrsio, Anastsio, Baslio, Cassiano, Cesrio de Arles, Clemente, Cipriano, Efrm o Srio, Eusbio, Hilrio, Josefo, Orgenes e da Vidas dos Padres.Os 81 temas selecionados por Defensor para captulos de seu livro so, por exemplo: o amor, a pacincia, o amor a Deus e ao prximo, a humildade, o perdo, a avareza, as virtudes, os vcios, as palavras ociosas, a brevidade da vida presente etc.Muitos destes temas so cumulativos e se interpenetram, como, por exemplo, os captulos I e III ("O amor" e "O amor a Deus e ao prximo", respectivamente). E, algumas vezes, Defensor chega a repetir a mesma sentena em captulos distintos, como o caso, por exemplo, da seguinte cintilao: "Disse Jernimo: ", que integra o captulo I ("O amor") e reaparece no captulo LXIV ("A amizade e a inimizade").Se a composio de um livro de sentenas no tem (nem pretende ter) originalidade, Defensor, no entanto, no deixa de imprimir sua marca pessoal ao selecionar e distribuir por captulos as cintilaes. Assim, por vezes, o leitor surpreende-se com inesperadas colocaes, algumas extremamente sugestivas.Tomemos, por exemplo, a sentena: "Disse o Senhor no Evangelho: (Lc 12,48)". Defensor a situa no em temas como "O exemplo", "Os que governam", ou "Os ricos", mas, sim, como abertura do ltimo captulo: "As leituras"! E a exortao a no temermos ameaas e a no nos alterarmos por elogios vem no captulo sobre os juzes e os governantes (captulo LXXII)...Do mesmo modo, a fala do Senhor "O homem bom, do bom tesouro de seu corao, tira o que bom; o homem mau, o que mau" (Mt 12,35) , genialmente, posta como abertura do captulo "O silncio"!4. Algumas dificuldades para o leitor de hojeDestaco trs dificuldades especiais que o leitor poder enfrentar ante uma obra como o Livro das Cintilaes:1. A pouca familiaridade (intelectual e vivencial) que o homem de hoje tem com a temtica asctica e espiritual crist, faz com que se tornem simplesmente incompreensveis certos pressupostos e afirmaes que, para os antigos, eram evidentes. Como quando, por exemplo, no captulo X ("O jejum") Defensor recolhe a sentena: "Disse Isidoro: ".A compreenso (e no me refiro s compreenso intelectual) dessa advertncia pressupe um saber (tambm ele no apenas racional) sobre o que jejuar e as relaes do jejum com as disposies do corao. Pressupe, inicialmente, experincias ascticas - a anos-luz de distncia da conscincia ps-moderna - como a descrita pelo salmo: "Eu me humilhava com jejum e minha orao voltava a meu peito" (Sl 35,13). E a revelao de Deus: "No continueis a jejuar deste modo (jejum com injustia), se quereis que vossa voz seja ouvida nas alturas" (Is 58,4). Alm do mais, pressupe a oposio homo exterior/homo interior, familiar aos leitores do sculo VII mas que atualmente poder soar incompreensvel. Trata-se da distino feita pelo Apstolo: "Por isto no nos deixamos abater. Pelo contrrio, embora em ns, o homem exterior v caminhando para a sua runa, o homem interior se renova dia a di