o legado educacional do regime militar

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  • 291Cad. Cedes, Campinas, vol. 28, n. 76, p. 291-312, set./dez. 2008Disponvel em

    Dermeval Saviani

    O LEGADO EDUCACIONAL DO REGIME MILITAR

    DERMEVAL SAVIANI*

    RESUMO: Este texto se prope a uma retomada da poltica educa-cional e das realizaes da ditadura militar no Brasil, pondo em des-taque aspectos que se fazem presentes, ainda hoje, na educao bra-sileira. Eis os pontos destacados: vinculao da educao pblica aosinteresses e necessidades do mercado, que se efetivou na reforma uni-versitria e especialmente no intento de implantao universal e com-pulsria do ensino profissionalizante; favorecimento privatizaodo ensino, que ocorreu principalmente mediante as autorizaes e re-conhecimentos do Conselho Federal de Educao; estrutura de en-sino decorrente da implantao de mecanismos organizacionais quese encontram em plena vigncia; um modelo bem sucedido de ps-graduao implantado a partir da estrutura organizacional americanae da experincia universitria europia.

    Palavras-chave: Estado e educao. Poltica educacional. Educao noregime militar.

    THE EDUCATIONAL HERITAGE OF THE MILITARY REGIME

    ABSTRACT: This paper reviews the Brazilian military dictatorshipseducational policies and accomplishments. It particularly stresses as-pects that are still present in the current Brazilian education. Thoseinclude: the link between public education and market interests andneeds, brought forth by the University reform, especially the com-pulsory and universal implementation of professionalizing teaching;the favoritism of private teaching, which mainly took place throughauthorizations and accreditations granted by the Conselho Federal de

    * Doutor em Educao e professor emrito da Faculdade de Educao da Universidade Es-tadual de Campinas (UNICAMP). E-mail: dermevalsaviani@yahoo.com.br

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    Educao (Federal Education Council); the teaching structure result-ing from the implementation of organizational mechanisms that isstill fully in force; a successful post-graduation model established fol-lowing the American organizational structure and the Europeanuniversity experience.

    Key words: State and education. Educational policies. Educationduring the military regime.

    o incio da dcada de 1960, a sociedade brasileira vivia ummomento de grande efervescncia, que chegou a ser caracteri-zado como pr-revolucionrio (Furtado, 1962). Os anos JK

    (1956-1960) foram um perodo de euforia desenvolvimentista, emba-lado pelo plano de metas e pelo slogan 50 anos em 5. O alvo dapoltica posta em marcha era completar o processo de industrializaodo pas. O Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), criado pou-co antes do governo de Juscelino, foi por ele encampado e encaradocomo a inteligncia a servio do desenvolvimento. No interior do ISEBera elaborada e, a partir dele, divulgada a ideologia nacionalistadesenvolvimentista. Paralelamente ao ISEB, formulava-se no seio da Es-cola Superior de Guerra (ESG) a ideologia da interdependncia, que co-incidia com a doutrina da segurana nacional.

    Enquanto o ISEB, de um lado, elaborava a ideologia do naciona-lismo desenvolvimentista e a ESG, de outro, formulava a doutrina dainterdependncia, a industrializao avanava, impulsionada pelo go-verno Kubitschek, que conseguia assegurar relativa calmaria poltica,dando curso s franquias democrticas, graas a um equilbrio que re-pousava na seguinte contradio: ao mesmo tempo em que estimulavaa ideologia poltica nacionalista, dava sequncia ao projeto de industri-alizao do pas, por meio de uma progressiva desnacionalizao daeconomia. Essas duas tendncias eram incompatveis entre si, mas nocurso do processo o objetivo comum agregava grupos com interessesdistintos, divergentes e at mesmo antagnicos. Nessas condies, acontradio permanecia em segundo plano, em estado latente,tipificando-se na medida em que a industrializao progredia, atemergir como contradio principal quando se esgotou o modelo desubstituio de importaes.

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    De fato, em 1960, o modelo havia cumprido suas duas etapas: aprimeira, correspondente substituio dos bens de consumo no-du-rvel (como, por exemplo, as indstrias txteis e alimentcias), que, porno requerer grandes somas de investimento, foi possvel instalar maisrapidamente, com base em capitais nacionais; e a segunda, referente substituio dos bens de consumo durvel (indstrias automobilsti-cas, eletrnicas, eletrodomsticas), cujas somas vultosas de capitais re-quereram o concurso das empresas internacionais. Completou-se, as-sim, o ciclo da substituio das importaes: j no dependamos maisdas manufaturas trazidas do exterior. A meta da industrializao haviasido atingida. Logo, no fazia mais sentido lutar por ela. O que seocultava sob o objetivo comum (a contradio de interesses) veio tonaquando o objetivo foi alcanado.

    Efetivamente, se os empresrios nacionais e internacionais, asclasses mdias, os operrios e as foras de esquerda se uniram em tornoda bandeira da industrializao, as razes que os moveram na mesmadireo eram divergentes. Enquanto para a burguesia e as classes m-dias a industrializao era um fim em si mesmo, para o operariado e asforas de esquerda tratava-se apenas de uma etapa. Por isso, atingida ameta, enquanto a burguesia buscou consolidar seu poder, as foras deesquerda levantaram nova bandeira: nacionalizao das empresas estran-geiras, controle da remessa de lucros, royalties e dividendos e as refor-mas de base (tributria, financeira, bancria, agrria, educacional). Es-ses objetivos propostos pela nova bandeira de luta eram decorrncia daideologia poltica do nacionalismo desenvolvimentista, que, entretan-to, entrava em conflito com o modelo econmico vigente.

    Nesse contexto, a sociedade se polarizou entre aqueles que, es-querda, buscavam ajustar o modelo econmico ideologia poltica e osque, direita, procuravam adequar a ideologia poltica ao modelo eco-nmico. No primeiro caso, tratava-se de nacionalizar a economia; nosegundo, o que estava em causa era a desnacionalizao da ideologia.

    Na medida em que se ampliava a mobilizao popular pelas re-formas de base, com as Ligas Camponesas no meio rural, lideradaspor Francisco Julio, os sindicatos de operrios nas cidades, as orga-nizaes dos estudantes secundaristas e universitrios e os movimen-tos de cultura e educao popular, mobilizou-se tambm a classe em-presarial. Surgiu, ento, em maio de 1959, o Instituto Brasileiro de

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    Ao Democrtica (IBAD), a primeira organizao empresarial especifi-camente voltada para a ao poltica. Sua finalidade explcita era com-bater o comunismo e aquilo que seus membros chamavam de estilopopulista de Juscelino. Em 29 de novembro de 1961, foi fundado oInstituto de Estudos Polticos e Sociais (IPES) por um grupo de empre-srios do Rio e de So Paulo, articulados com empresrios multina-cionais e com a ESG, por intermdio dos generais Heitor de AlmeidaHerrera e Golbery do Couto e Silva. Gobery foi o principal formuladorda doutrina da interdependncia na ESG. Em setembro de 1961, soli-citou transferncia para a reserva e, a partir de 1962, assumiu a dire-o do IPES. Enquanto o IBAD foi dissolvido pela justia em dezembrode 1963, o IPES permaneceu em atividade por aproximadamente dezanos, at se autodissolver em junho de 1971.

    Em suas aes ideolgica, social e poltico-militar, o IPES desen-volvia doutrinao por meio de guerra psicolgica, fazendo uso dosmeios de comunicao de massa como o rdio, a televiso, cartuns e fil-mes, em articulao com rgos da imprensa, entidades sindicais dosindustriais e entidades de representao feminina, agindo no meio es-tudantil, entre os trabalhadores da indstria, junto aos camponeses, nospartidos e no Congresso, visando a desagregar, em todos esses domni-os, as organizaes que assumiam a defesa dos interesses populares.

    A articulao entre os empresrios e os militares conduziu ao gol-pe civil-militar desencadeado em 31 de maro e consumado em 1 deabril de 1964. Saram vitoriosas, portanto, as foras socioeconmicasdominantes, o que implicou a adequao da ideologia poltica ao mo-delo econmico. Em conseqncia, o nacionalismo desenvolvimentistafoi substitudo pela doutrina da interdependncia. Consumou-se, des-se modo, uma ruptura poltica, considerada necessria para preservar aordem socioeconmica, pois se temia que a persistncia dos grupos queento controlavam o poder poltico formal viesse a provocar uma rup-tura no plano socioeconmico. Portanto, se a Revoluo de 1964 foirealizada para assegurar a continuidade da ordem socioeconmica, inegvel seu significado de mudana poltica radical, atestada atmesmo pelo simples fato da permanncia dos militares no poder por21 anos, caso indito na histria poltica brasileira.

    Controlando com mo de ferro, pelo exerccio do poder polti-co, o conjunto da sociedade brasileira ao longo de duas dcadas, o

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    regime militar deixou um oneroso legado cujos efeitos continuam afe-tando a situao social do pas nos dias de hoje. Faz sentido, pois, re-tomar a poltica educacional e as realizaes da ditadura militar no Bra-sil, pondo em destaque aspectos que se fazem presentes, ainda hoje, naeducao brasileira. Na impossibilidade de explorar, nos limites desteartigo, todos os aspectos da questo proposta, este texto se concentrarnos seguintes pontos: vinculao da educao pblica aos interesses enecess