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  • UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CINCIAS HUMANAS

    DOUTORADO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL

    O INTELECTUAL FEITICEIRO: DISON CARNEIRO E O CAMPO DE ESTUDOS DAS RELAES RACIAIS NO BRASIL

    Luiz Gustavo Freitas Rossi

    Orientadora: Profa. Dra. Heloisa Andr Pontes

    Campinas Maro/2011

  • II

    FICHA CATALOGRFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA DO IFCH - UNICAMP

    Bibliotecria: Sandra Aparecida Pereira CRB n 7432

    Ttulo em ingls: The intellectual sorcerer : dison Carneiro and the field of race relations studies in Brazil Palavras chaves em ingls (keywords):

    rea de Concentrao: Trajetrias e Etnografia do Conhecimento da Filosofia

    Titulao: Doutor em Antropologia Social

    Banca examinadora: Heloisa Andr Pontes, Mariza Corra, Sergio Miceli, Fernanda Aras Peixoto, Antonio Sergio Alfredo Guimares Data da defesa: 30-03-2011

    Programa de Ps-Graduao: Antropologia Social

    Brazil-Race relations Anthropology-Brazil Blacks-Brazil

    Rossi, Luiz Gustavo Freitas R735i O intelectual feiticeiro : dison Carneiro e o campo de estudos das relaes raciais no Brasil / Luiz Gustavo Freitas Rossi. - - Campinas, SP : [s.n.], 2011. Orientador: Heloisa Andr Pontes Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Cincias Humanas.

    1. Carneiro, dison, 1912-1972. 2. Brasil -relaes sociais. 3. Antropologia-Brasil. 4. Negros-Brasil. I. Pontes, Heloisa Andr. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Cincias Humanas. III. Ttulo.

  • III

  • V

    RESUMO Esta tese investiga a trajetria social e intelectual de dison Carneiro (1912-1972). No se

    trata, contudo, de uma biografia ou de uma interpretao da totalidade da obra do autor.

    Antes, o foco do trabalho recai sobre os aspectos da prtica e produo intelectuais de

    dison Carneiro que do conta de seu envolvimento com o campo de estudos, ao qual ele

    esteve mais sensivelmente ligado, a saber: o campo de estudos das relaes raciais e das

    culturas de origem africana na sociedade brasileira. Buscou-se, neste sentido, recompor a

    trama complexa de coordenadas histricas, sociais e biogrficas que no somente

    permitiram a insero de dison Carneiro no debate sobre a questo negra brasileira, mas

    tambm condicionaram as estratgias de sobrevivncia intelectual por ele adotadas em

    um contexto de intensas transformaes, destravadas pela institucionalizao das cincias

    sociais no pas. As concluses desta tese, portanto, dizem respeito tanto s formas como

    dison Carneiro construiu sua carreira intelectual, apreendida luz dos constrangimentos

    associados a sua condio de polgrafo e intelectual de provncia, quanto aos modos

    como essa carreira entrelaa e expressa alguns dos dilemas decisivos para se compreender a

    constituio e o desenvolvimento de debate racial brasileiro, a partir da dcada de 1930.

  • VII

    ABSTRACT This dissertation investigates the social and intellectual trajectory of Edison Carneiro

    (1912-1972). However, it is neither a biography of the author, nor an interpretation of his

    oeuvre. Rather, the focus of this work falls on Edison Carneiros intellectual practices and

    productions pertaining to the field of studies to which he was closely connected: the field of

    racial relations studies and the cultural African heritage in Brazilian society. In this sense, it

    reconstructs the complex web of historical, social and biographical coordinates that not

    only allowed the inclusion of Edison Carneiro in the debate on "Black matters" in Brazil,

    but also shaped his strategies for intellectual survival in a context of profound changes

    unlocked by the institutionalization of the social sciences in Brazil. The conclusions of this

    dissertation concern both the means through which Edison Carneiro built his intellectual

    career, seen in the light of the constraints of his status as a "self-taught" and a provincial

    intellectual, and the way a career such as Carneiros expresses some of the decisive

    dilemmas that help to understand the formation and development of the racial debate in

    Brazil, from the 1930s onwards.

  • IX

    Para Marilia

  • XI

    AGRADECIMENTOS

    J disse um historiador da arte que uma pintura nunca se resume a meras imagens

    ou representaes da realidade. Ela tambm o registro de uma experincia; o testemunho

    das relaes entre o pintor e o universo mais amplo de pessoas, grupos e instituies que

    tornaram aquela obra no apenas exequvel, mas tambm um objeto pleno de sentidos,

    afeies e energias tanto pessoais quanto coletivas. A assertiva do historiador para o caso

    da pintura no poderia no deveria, pelo menos ser muito diferente para o caso de uma

    tese acadmica. No decorrer de minha trajetria no Doutorado em Antropologia Social da

    Unicamp pude contar com o auxlio de inmeras pessoas e instituies que foram

    absolutamente indispensveis para que eu conseguisse superar as dificuldades e os apertos

    incontveis que marcam o processo de escrita de qualquer trabalho acadmico. Esta tese,

    portanto, expressa tanto o enfrentamento de um desafio intelectual e analtico quanto as

    marcas de um percurso travado junto a pessoas que me concederam o privilgio de

    compartilhar de seus projetos e de suas vidas. Espero que todas elas se reconheam um

    pouco neste trabalho e que nele enxerguem um esforo sincero para que pudesse estar

    altura da confiana em mim depositada.

    Em primeiro lugar, gostaria de agradecer Fundao de Amparo Pesquisa do

    Estado de So Paulo (FAPESP), que me concedeu uma bolsa entre agosto de 2006 e maro

    de 2010, sem a qual, talvez, esta tese correria o risco de no existir. Tambm ao Fundo de

    Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extenso (FAEPEX), da Pr-Reitoria da Unicamp, cujos

    recursos permitiram que realizasse minhas primeiras incurses nos arquivos do Museu do

    Folclore dison Carneiro, no Rio de Janeiro, em um momento em que ainda no dispunha

    de bolsa. Decerto, no poderia deixar de manifestar meu enorme dbito com o Programa de

    Ps-Graduao em Antropologia Social da Unicamp, onde encontrei o suporte e a estrutura

    institucionais necessrios para realizar a minha pesquisa. Foi nele tambm que, a partir de

    2002, quando ingressei no curso de mestrado, vivenciei alguns dos momentos mais

    importantes de minha formao acadmica, em enorme medida, graas ao ambiente

    intelectual estimulante proporcionado pelos professores do Departamento de Antropologia

    e do Instituto de Filosofia e Cincias Humanas da Unicamp.

  • XII

    Aos funcionrios da Secretria de Ps-Graduao e, em especial, Maria Jos, que

    prestou toda sorte de esclarecimentos a um, muitas vezes, confuso doutorando diante das

    regras, das burocracias e dos prazos envolvidos na realizao de uma tese. Na Unicamp,

    sou igualmente grato aos funcionrios da Biblioteca Octvio Ianni e do Arquivo Edgar

    Leuenroth pela eficincia e gentileza costumeiras que facilitam o trabalho do pesquisador.

    Fora de Campinas, mas ainda no mbito institucional, contei com a ajuda de vrios

    arquivistas e bibliotecrios nos acervos em que pesquisei. No Rio de Janeiro: Museu do

    Folclore dison Carneiro, Biblioteca Nacional e Arquivo Pblico do Estado do Rio de

    Janeiro. Em Salvador: Fundao Clemente Mariani, Instituto Histrico e Geogrfico da

    Bahia, Fundao Casa de Jorge Amado, Biblioteca Pblica do Estado da Bahia e Arquivo

    Pblico do Estado da Bahia. Fui gentilmente recebido e ajudado pelo corpo de funcionrios

    de todas essas instituies. Devo uma meno, em particular, a Leanda Gahegan, arquivista

    do National Anthropological Archives (Smithsonian Institution), nos Estados Unidos, pela

    pacincia e competncia dispensadas a todo o processo que me permitiu obter as cpias de

    uma srie de documentos do acervo da antroploga Ruth Landes.

    Na cidade de Salvador, em meio s pesquisas nos arquivos da cidade, durante os

    meses de abril e maio de 2007, tive o privilgio de conhecer os professores Vivaldo da

    Costa Lima (in memoriam) e Waldir Freitas Oliveira. Pessoas cativantes, sempre solcitas

    em sanar minhas inmeras curiosidades sobre a vida e o trabalho de dison Carneiro,

    compartilhando sem reservas, ao vivo e atravs de cartas, as lembranas de uma amizade

    que ambos muito zelavam. Waldir abriu mais de uma vez as portas de sua casa em

    Camaari, onde, alm da hospitalidade e das boas conversas, pude usufruir de seu acervo

    pessoal de livros e peridicos, imprescindveis para a pesquisa e inacessveis de outra

    forma. Vivaldo, com seu jeito prprio de inquirir e sabatinar, mesmo com a sade

    debilitada, se mostrou de uma generosidade sem par em ajudar a construo da pesquisa,

    me recebendo em sua casa, mostrando sua biblioteca e colocando disposio sua memria

    e seus documentos pessoais. Sua contribuio somente no foi maior em razo da doena

    que na poca j o acometia e que, infelizmente, o levou em setembro de 2010.

    Philon e Ldia Carneiro, filhos de dison, devo meus mais profundos e sinceros

    agradecimentos pelo modo generoso e franco com que receberam a mim e ideia de uma

    tese sobre o pai. Com Lidia, infelizmente, os desencontros no permitiram um contato mais

  • XIII

    estreito. Philon, a quem tive o imenso prazer de conhecer, no poupou esforos para me

    ajudar, bem como para tornar minha estadia no Rio de Janeiro a mais agradvel possvel,

    fazendo questo de levar o paulista para conhecer uma noite de samba carioca. No

    bastassem os livros por ele emprestados ou presenteados, Philon prestou relatos admirveis

    sobre dison Carneiro, no se furtando a encarar de peito aberto as emoes que, muitas

    vezes, a lembrana do pai fazia aflorar. Ainda, reconheo de pblico minhas dvidas com

    Edria Carneiro, prima paterna de dison, que me concedeu uma entrevista absolutamente

    fantstica. Com muito nimo e bom humor, Edria narrou em detalhes a saga familiar dos

    Souza Carneiro e os momentos de sua vida junto do primo, em Salvador, munindo a tese

    com informaes fundamentais. Tudo isso salpicado com as histrias de sua prpria

    trajetria como artista plstica, militante do Partido Comunista Brasileiro e companheira de

    vida de Joo Amazonas: uma trajetria digna de ateno por parte de qualquer pesquisador

    interessado na histria do comunismo e das esquerdas no Brasil.

    Durante a realizao das disciplinas do curso de doutorado, tive a chance de

    conviver com professores extremamente competentes e que fizeram de suas aulas um

    espao de debate intelectual franco e aberto. No poderia deixar de mencionar

    especialmente: Suely Kofes, de cujas disciplinas fui um assduo frequentador e com quem

    mantive uma interlocuo extremamente profcua; Omar Ribeiro, tanto por seu jeito

    contagiante de estimular e se interessar pelas pesquisas dos alunos quanto por sua

    disposio em arguir minha tese; e John Monteiro, pela arguio criteriosa e pelas

    observaes feitas no exame de qualificao. Mas tambm, Bela Feldman Bianco, por no

    me deixar esquecer que existem mais coisas entre o trabalho de campo e os arquivos do que

    um antroplogo pode imaginar.

    Desde meados de 2009, estou tendo a experincia fascinante de participar, na USP,

    das reunies do projeto temtico coordenado por Sergio Miceli, Formao do Campo

    Intelectual e da Indstria Cultural no Brasil. No mbito desse projeto venho cumprindo

    momentos decisivos de minha formao intelectual, me sentindo um aprendiz privilegiado

    por ter a oportunidade de debater e trocas ideias com pesquisadores, cujos trabalhos so

    referncias fundamentais para qualquer analista interessado na vida intelectual e cultural

    brasileiras: Heloisa Pontes, Maria Arminda do Nascimento Arruda, Marcelo Ridenti,

    Alexandre Bergamo, Luiz Carlos Jackson, Lilia Schwarcz, Fernando Antnio Pinheiro,

  • XIV

    Esther Hamburger, Helosa Buarque de Almeida e seus grupos de orientados. A todos eles

    torno pblico meus sinceros agradecimentos por me ensinarem tanto em to pouco tempo.

    Com Lilia Schwarcz, iniciei e mantive um dilogo profcuo em torno da obra de

    Jorge Amado, mas com quem, igualmente, tive a chance tambm de conversar e ouvi-la

    falar sobre questes extremamente caras a esta tese e que ela conhece como poucos. Ainda,

    a Lilia e Ilana Goldstein devo meus agradecimentos pela confiana depositada, quando, em

    finais de 2007, me convidaram a tomar parte de um projeto do escopo e da importncia que

    foi a reedio das obras completas de Jorge Amado.

    Do Rio de Janeiro, de diversas maneiras e em diferentes momentos da pesquisa,

    recebi a ateno generosa de Maria Alice Rezende de Carvalho e Marcos Chor Maio. Aos

    dois sou grato pelas leituras, pelo interesse e pelas sugestes que sempre dispensaram a

    mim e a minha pesquisa.

    Meus mais do que sinceros e honrados agradecimentos aos membros da banca:

    Sergio Miceli, Antnio Srgio Guimares, Mariza Corra e Fernanda Peixoto. A presena

    de cada um deles est revestida de significados bastante especiais para mim. A Sergio

    Miceli, que tambm esteve em minha banca de mestrado, por aceitar mais uma vez arguir

    meu trabalho, podendo contar com seu profundo conhecimento sobre a histria intelectual

    no Brasil. Antnio Sergio Guimares gentil e prontamente aceitou meu convite, e sou grato

    pela disposio de discutir meu trabalho. Mariza Corra, qualquer agradecimento no faz

    jus importncia que ela teve para minha pesquisa, desde o primeiro dia que cheguei na

    Unicamp. Certamente, se esta tese tem mritos e acertos, foi porque Mariza deu as pistas

    para que assim acontecesse. Fernanda Peixoto sempre ser a eterna responsvel por me

    guiar para a antropologia e me ajudar a dar os primeiros passos na atividade intelectual e de

    pesquisa, quando anos atrs ajudou um confuso graduando que queria estudar raa a fazer

    um projeto. E desde, ento, nunca deixou de me ajudar no que eu precisasse.

    Vejo-me no mais absoluto apuro para agradecer minha orientadora, Heloisa Pontes.

    Falar da importncia de sua orientao para a realizao desta tese seria muito pouco para

    dimensionar seu papel e sua presena em minha trajetria e em minha formao acadmica

    e intelectual. J se vo nove anos de trabalho conjunto, e neste perodo aprendi

    constantemente no apenas sendo orientado, mas tambm atravs de seu exemplo, vendo e

  • XV

    acompanhando a seriedade, a paixo e a competncia com que sempre conduziu seus

    prprios trabalhos. Mais do que uma orientadora, Heloisa tem sido uma amiga que, mesmo

    nos momentos mais difceis e no foram poucos nunca deixou de acreditar no meu

    potencial e na minha tese. Se este trabalho tem alguma qualidade porque tentei estar

    altura do dela.

    Aqui, no poderia deixar de mencionar meus agradecimentos aos orientados e s

    orientadas de Heloisa Pontes: Rodrigo Ramassote, Luis Felipe Sobral, Sabrina Finamori,

    Taniele Rui, Grazielle Rosseto, Daniela Ferreira Arajo e Daniela Scridelli Pereira. Nas

    reunies organizadas por Heloisa para que discutssemos nossos projetos e trabalhos em

    andamento pude contar com o apoio, a inteligncia e a animao de todos eles. Em

    particular, a Lus Felipe, pelas conversas estimulantes durante nossas idas e vindas entre

    So Paulo e Campinas, e a Rodrigo Ramassote, pelas vrias ocasies em que, noite adentro,

    debatemos nossas inquietaes. Sou igualmente grato aos meus alunos da disciplina

    Antropologia no Brasil, a qual ministrei no primeiro semestre de 2008 para o curso de

    cincias sociais da Unicamp, no contexto do Programa de Estgio Docente. Talvez, eles

    no tenham dimenso da forma como me ajudaram a construir esta tese atravs das

    discusses em sala de aula e pela forma como elas me obrigaram a (re)pensar muitos dos

    argumentos nela contidos.

    Mrcio Jos Macedo leu partes desta tese e muito contribuiu com seus comentrios

    pertinentes, de quem conhece o assunto de perto. Ainda, de diferentes formas, pude

    compartilhar desafios de pesquisa e contar com a amizade de Paula Palamartchuk, Flora

    Gal, Andr Lus de Mattos, Marta Jardim e Felipe Vander Velden, Paula Vermeersch,

    Liliane Arajo, e Marcelo Marotta. Marina e Lcia da Costa Ferreira e aos padrinhos

    Felipe e Leila da Costa Ferreira que, de vrias maneiras, me ajudaram a manter o nimo,

    me recebendo inmeras vezes em suas casas, sempre com um bom almoo de final de

    semana. A Roberto Guimares, devo a gentileza de abrir as portas de seu apartamento no

    Rio de Janeiro, colocando-o minha disposio todas as vezes que para l me dirigi para

    realizar parte das pesquisas de arquivo.

  • XVI

    Aos amigos de longa data, uns mais longes do que outros, mas que nunca deixaram

    faltar apoio e camaradagem: Lvia Moraes, Leandro Rosa, Fbio Leandrin, Bruno Cortina,

    Adlson Gennari, Carolina Aguerri.

    A Christiano Tambascia e Daniela Arajo, pela convivncia quase diria e pela

    cumplicidade com que acompanharam cada passo, cada etapa do doutorado, demonstrando

    um carinho sem igual. Espero ser capaz de retribuir a alegria que eles me proporcionaram

    todos estes anos. Christiano, para minha sorte, foi um leitor e um interlocutor privilegiado,

    corrigindo e discutindo cada etapa da redao da tese, mesmo quando ela era apenas partes

    desconjuntadas e eu no sabia bem para onde correr. Sem sua ajuda, certamente, esta tese

    no seria possvel. Nossas conversas foram interminveis, assim como foram muitas nossas

    afinidades e desafios analticos. O que nos fez descobrir que, afinal, dison Carneiro e

    Mary Douglas tinham mais em comum do imaginvamos.

    Raquel Wiggers, entre suas idas e vindas de Manaus e Florianpolis, nunca deixou

    de arrumar um tempo para fazer um desvio e me presentear com uma visita em minha casa,

    contagiando a todos com sua alegria e inteligncia. Nashieli Loera e Bertrand Borgo foram

    algumas das primeiras pessoas que conheci em Campinas. Mais tarde, vieram Gael e minha

    afilhada Sofia. toda famlia agradeo por fazerem parte de minha vida e pela amizade

    incondicional. Gabor Basch, sempre disposto a um bom papo, que quando pode ou

    precisa, faz de sua estadia aqui em casa um momento divertido. Ainda, Juliana Mello e

    Daniel Lopez, pessoas especiais, a quem s posso agradecer pela torcida e pela amizade de

    sempre.

    Mariana Franozo merece um agradecimento mais do que especial. Meme, como

    prefiro cham-la, tambm foi uma das primeiras pessoas que conheci e me acolheu aqui em

    Campinas. E desde ento, foi e vem sendo uma amiga sensvel, presente e leal, a quem

    posso recorrer e quem me socorreu para que eu fosse capaz de dar um ponto final nesta

    tese.

    minha segunda famlia, Angela, Marcos, V Ther, Marcelo, Daniel, respectivas

    Adrianas e a pequena Olvia. A todos eles sou grato pelo apoio, mas tambm por se

    mostrarem compreensivos pelos momentos em que no pude retribuir altura o carinho que

    eles me davam.

  • XVII

    Nada disso seria possvel ou faria sentido no fosse a fora sem reservas que recebi

    de meus pais, Slvia e Luizito. Aguentaram firme a saudade, a distncia e os longos

    perodos de ausncia do filho. Fizeram o possvel e o impossvel para me ajudar, dando

    apoio incondicional a cada uma de minhas escolhas. A Rogrio e Natlia, minha irm. A

    ela devo muito pelo afeto e pela disposio de, s vezes, dar um mimo ao irmo,

    compartilhando to de perto muitas das alegrias e angstias de nossas escolhas, a um s

    tempo, to prximas e distantes. Ao meu tio Elias (in memoriam), minha tia Ceclia e meus

    primos Jnior e Raquel, pelo interesse com que sempre acompanharam meus estudos.

    Durante o perodo de realizao da tese, pessoas queridas partiram e no puderam ver este

    trabalho acabado: ao meu av Ermelindo (in memoriam), av Romeu (in memoriam) e

    Esmeralda (in memoriam). E minha av Edith, cuja felicidade e alegria de viver nos

    contagiam.

    Difcil encontrar palavras para agradecer a pessoa que mais de perto vem

    compartilhando e vivenciando cada etapa vencida de minha vida. Marilia, minha

    companheira, eu dedico este trabalho. Pelas leituras, pelas noites no dormidas, me

    ajudando ou me confortando, pelo carinho, pela compreenso e pelo amor que fez esta tese

    e tantas outras histrias possveis.

  • 19

    SUMRIO

    AGRADECIMENTOS ............................................................................................................... XI

    INTRODUO.......................................................................................................................... 21

    TRAJETRIA E METAMORFOSES DE UMA VOCAO PERDIDA ................................................. 21

    CAPTULO I ............................................................................................................................. 41

    UMA FAMLIA DE CULTURA: OS SOUZA CARNEIRO E SEU MUNDO ........................ 41

    OS SOUZA CARNEIRO ............................................................................................................... 43 A MORTE BRANCA DO ENGENHEIRO MULATO ANTNIO JOAQUIM DE SOUZA CARNEIRO ..... 57 RAA, CLASSE E COR NAS POESIAS DE JUVENTUDE .................................................................... 71

    CAPTULO II ............................................................................................................................ 89

    ACADEMIA DOS REBELDES: MODERNIDADE E MODERNISMO VISTOS DA PROVNCIA .............................................................................................................................. 89

    OSWALDO DIAS DA COSTA. (1907, SALVADOR 1979, RIO DE JANEIRO) .................................. 99 JORGE AMADO (1912, ITABUNA/BAHIA 2001, SALVADOR) ...................................................102 MERIDIANO E O MOMENTO: MODERNIDADE, MODERNISMO E IMPOSTURAS INTELECTUAIS .......105

    CAPTULO III .........................................................................................................................133

    DISON CARNEIRO E OS ESTUDOS AFRO-BRASILEIROS DA DCADA DE 1930.....133

    INTRODUO: REBELDE E COMUNISTA .....................................................................................133 AS LIES DO MESTRE: NINA RODRIGUES ...............................................................................147 ARTHUR RAMOS E GILBERTO FREYRE: OS DONOS DE ASSUNTO ............................................153 DISON CARNEIRO: O DISCPULO VERMELHO ........................................................................171 CAMARADA NINA RODRIGUES E SO RAMOS: POSIES EM FALSO DO INTELECTUAL FEITICEIRO ...........................................................................................................................187 RUTH LANDES E CIDADE DAS MULHERES: DISON CARNEIRO NA ENCRUZILHADA E SOB O INCMODO OLHAR ESTRANGEIRO ............................................................................................198

    BIBLIOGRAFIA ......................................................................................................................205

    1). FONTES E ACERVOS CONSULTADOS ....................................................................................205 2). BIBLIOGRAFIA DE DISON CARNEIRO CONSULTADA ...........................................................206 2.A). ARTIGOS, CRNICAS, POESIAS E CONTOS .........................................................................206 2.B). OBRAS E CAPTULOS DE LIVROS. .....................................................................................210 3). BIBLIOGRAFIA GERAL ........................................................................................................211

  • 21

    INTRODUO

    Trajetria e metamorfoses de uma vocao perdida

    Poucos meses antes de dison Carneiro (1912-1972) morrer no Rio de Janeiro, em

    dezembro de 1972, vtima de uma trombose cerebral, o escritor e jornalista Aydano do

    Couto Ferraz (1914-1985) publicou um artigo tocante e, ao mesmo tempo, intrigante sobre

    aquele que era um de seus mais caros e antigos amigos. Tocante, de um lado, pois se tratava

    de uma homenagem afetuosa e sincera carreira e vida de trabalho honrado de dison

    Carneiro que, s vsperas de completar sessenta anos, continuava, segundo o autor, o

    mesmo de h 40 anos: fiel s suas ideias e ao seu inaltervel interesse pelos destinos do

    elemento negro no Brasil e no mundo; o mesmo respeito pela cincia e a histria que

    percorre sua obra de etngrafo e folclorista, defensor da herana cultural do negro 1.

    Intrigante, por outro lado, na medida em que, contrastando e, em certo sentido, traindo o

    mote celebrativo do artigo, nele ecoava uma cifrada, porm persistente nota melanclica

    que acabava por conferir feies bastante ambguas pretendida homenagem. Oscilando

    entre as recordaes alegres dos tempos de juventude vividos em Salvador, na dcada de

    1930, e o relato encantado do recente encontro que tivera com dison na capital carioca,

    onde ambos residiam, a narrativa de Ferraz sobre as realizaes do amigo parecia resvalar,

    por vezes, mais no tom de um lamento pesaroso do que aquele de uma exaltao festiva,

    prprio ou conveniente aos tributos: como se o personagem ali apreendido j estivesse, de

    algum modo, morto ou privado de sentidos essenciais que justificavam sua existncia.

    Assim, embora a inteno de Aydano do Couto Ferraz fosse celebrar e enaltecer a vida de

    um intelectual que, mesmo sessento, ainda estaria na plena forma de suas atividades

    como etngrafo e folclorista, o que prevalecia neste retrato do escritor aos 60 era a

    constatao ressentida de se estar diante de uma carreira interrompida; a percepo doda

    de que dison Carneiro fora um talento desvirtuado, desviado do curso dos grandes feitos

    ao qual estava destinado, tendo-lhe faltado, para tanto, a assistncia e os abrigos

    institucionais elementares. Mas ainda assim, no entender de Aydano, um talento notvel,

    1 Cf. Museu do Folclore dison Carneiro (MFEC), Hemeroteca, Aydano do Couto Ferraz, Retrato do escritor aos 60. O Estado de So Paulo, So Paulo, 23 de junho de 1972.

  • 22

    cuja presena na cena intelectual brasileira seria marcante no apenas pelos seus numerosos

    trabalhos publicados, mas, sobretudo, pela grande obra que ele jamais pde realizar.

    Certo e possivelmente, dison Carneiro no fez a obra que dele se esperava, perdeu-se

    como se perdem as vocaes brasileiras nas tarefas do cotidiano, desviando do que

    gostaria de fazer para o que se forado fazer, s vezes a contragosto, pois o pas no tem

    instituies que patrocinem pesquisas e coloquem o estudioso ao abrigo das necessidades

    elementares. 2.

    Eis, ento, o retrato sinttico que emerge dessa ambgua homenagem: o de uma

    vocao perdida 3. Mas tambm, por que no dizer, um retrato que nos d inmeras razes

    para crer que, nos anos tardios de vida, dison Carneiro se sentira assombrado por

    crescentes sentimentos de vazio, frustrao e fracasso, conforme a proximidade de seu fim

    fora, talvez, tornando cada vez mais ntida a certeza de que jamais realizaria a obra que

    dele se esperava e a qual, muito provavelmente, ele prprio acreditara ser capaz de

    realizar. E embora no possamos afirmar de maneira categrica a intensidade dessas

    sensaes ou mesmo se, de fato, elas acossaram as noes de orgulho e autoestima de

    Carneiro, razovel pensar que Aydano do Couto Ferraz um amigo to prximo quanto

    antigo dispunha da sensibilidade e do convvio necessrios para apreender de modo

    verossmil as percepes que ele nutria sobre si, seu passado, seus desejos, seus projetos e

    sua carreira intelectual 4.

    Se este retrato do escritor aos 60 se mantinha fiel, ou no, subjetividade de

    dison Carneiro, permanece uma questo em aberto. O certo, no entanto, que nas

    representaes nele contidas encontram-se condensados, cifrados e, a um s tempo,

    2 Idem, Ibidem (as nfases so minhas). 3 Vocao perdida no uma expresso minha. Aydano do Couto Ferraz a utilizou para nomear um dos subttulos de seu texto. 4 Talvez, por falta de tempo, interesse ou at pela forma abrupta como adoeceu e morreu, dison Carneiro praticamente no deixou pginas, artigos, volumes ou manuscritos de memrias, onde refletisse sobre sua histria de vida ou suas prticas intelectuais. Uma outra hiptese que explicaria a inexistncia de eventuais escritos autobiogrficos de Carneiro a de que eles tenham sido perdidos ou, literalmente, queimados, conforme me informou seu filho, Philon Carneiro. Segundo Philon, um volume considervel da papelada do pai foi queimado acidentalmente, logo aps a morte de dison, quando a ento recente viva Magdalena Carneiro resolveu se transferir do Rio de Janeiro para Salvador. Na ocasio, o caminho de mudanas tombou na estrada e pegou fogo. Portanto, em teoria, tudo o que sobrou do acervo pessoal de dison Carneiro estaria assim distribudo: uma maior parte foi cedida ao Museu do Folclore dison Carneiro, no Rio de Janeiro, e uma menor, doada ao historiador e amigo Waldir Freitas Oliveira, cuja biblioteca tive a oportunidade de conhecer, em abril de 2007, quando estive na Bahia. Ainda, alguns poucos documentos esparsos podem ser encontrados na Biblioteca Nacional, no acervo de manuscritos do antroplogo Arthur Ramos.

  • 23

    encobertos no apenas alguns dos dilemas chaves implicados nos deslocamentos e nas

    tomadas de posio sucessivas que marcaram o processo de envelhecimento social de

    dison Carneiro no campo intelectual brasileiro, mas tambm e por consequncia

    muitos dos problemas e desafios investidos no prprio trabalho de construo de parte da

    vida e obra de dison Carneiro como objeto de investigao desta tese. Isto porque, ao me

    debruar sobre os aspectos da obra e da trajetria social de Carneiro que explicitam e

    iluminam as formas como se deu seu envolvimento com a vida intelectual e o campo de

    estudos das relaes raciais brasileiras, fui constantemente instado a lidar com imagens e

    repertrios que se precipitavam sobre o autor, os quais, em larga medida, pareciam replicar

    involuntariamente termos e sentidos j presentes no texto de Ferraz, ainda nos primeiros

    anos de 1970.

    Um intelectual desabrigado, quase que entregue prpria sorte, forado a

    experincias de renncias, sonhos abortados, impedido de exercer sua vocao como

    pesquisador do negro no Brasil, vinculado a temas e modelos de anlise considerados,

    atualmente, ultrapassados e caducados (como por exemplos, os estudos de aculturao e de

    folclore), desassistido e desprestigiado pelas instituies acadmicas e culturais de seu

    tempo, enfim, todas estas representaes que revestem o itinerrio de dison Carneiro se

    mostraram importantes para dar molde s perguntas e aos problemas em meios aos quais a

    pesquisa foi se viabilizando e tomando corpo. Uma das primeiras delas, decerto, dizia

    respeito a estas propriedades de autor menor ou desprezado no mbito da histria dos

    estudos das relaes raciais, em particular, e das cincias sociais nacionais, em geral 5: o

    que, em parte e talvez, por isso mesmo , explicaria a quase absoluta inexistncia de

    trabalhos sobre sua produo. Afinal, por que esta percepo de uma vocao perdida?

    Quais motivos teriam forado dison Carneiro a se desviar do que gostaria de fazer?

    Estaria neste desvio a chave para entender os processos que o levaram a realizar uma obra

    5 Diferente de certos intelectuais, escritores, ou artistas que, graas aos efeitos de consagrao, poderamos invocar pela simples relevncia autoevidente que seus nomes despertam, o caso de dison Carneiro se encontra no mbito daqueles em que no se dispensam as apresentaes. Como apontarei no decorrer deste trabalho, no foram poucas as foras e representaes que se acumularam sobre a figura de dison, empurrando-o de maneira impiedosa ao rol dos autores envelhecidos e datados. Uma percepo de autor datado com a qual dison provavelmente teve que lidar mesmo em vida, como sugere o teor simblico da homenagem de Ferraz.

  • 24

    aqum do que dele se esperava? Como lidar com estes repertrios sobre o autor que, de

    alguma forma, antecipavam o prprio trabalho de investigao?

    A julgar pelo texto de Ferraz, facilmente seramos conduzidos a buscar os sentidos

    desse desvio a partir das conexes entre a produo de dison Carneiro e um itinerrio

    sulcado pelo isolamento e, em boa medida, pela marginalidade em relao s instituies de

    acolhimento e prestgio das atividades intelectuais de seu tempo. Afinal, a contrapelo do

    que afirmava Ferraz, instituies universitrias e rgos de fomento e incentivo s

    pesquisas em cincias sociais existiam e, especialmente, pelo menos desde 1950, vinham

    conhecendo uma crescente expanso no pas. De forma que o problema identificado por

    Aydano est no fato de que os modelos de instituio ento existentes fecharam suas portas

    s ambies e aos projetos do amigo: impedindo-o de exercer, tal como gostaria, sua

    vocao como pesquisador da cultura afro-brasileira e do folclore nacional e, por

    consequncia, de escrever a obra que dele se esperava. Certamente, um ponto que

    Aydano entre outros buscou encobrir atravs de uma crtica de tintura generalista (como

    se simplesmente no houvessem, no pas, instituies que patrocinem pesquisas),

    evitando assim outros tipos de questionamentos quanto s razes que estariam na base de

    tal denegao.

    No entanto, ainda que atravessado por supostos nunca verbalizados, no era

    totalmente aleatrio este discurso propenso ao retrato em negativo e aos ngulos da

    excluso (as obras no escritas, os espaos no ocupados, o reconhecimento no

    conquistado, as instituies que no lhe ofereceram abrigos etc.). Visto retrospectivamente,

    o itinerrio social e intelectual de dison Carneiro (e Aydano o conhecia como poucos) se

    desenvolveu em meio a um emaranhado de eventos e situaes que, de alguma forma,

    pareciam conferir plenos sentidos a semelhante diagnstico.

    Muito jovem, em sua cidade natal, Salvador, Carneiro j vivera uma de suas

    primeiras frustraes intelectuais, ao ver minguar, na virada das dcadas de 1920 e 1930,

    suas chances de se firmar como literato, no concretizando as fantasias de consagrao e

    reconhecimento autorais que, imaginava, iriam livr-lo da incmoda condio de escritor

    de subrbio, esquecido e relegado s glrias menores da provncia. Com relao ao

    campo dos estudos afro-brasileiros dos anos de 1930, a insero de Carneiro no foi menos

  • 25

    turbulenta ou imune a tenses e dissabores de variadas ordens: constrangimentos

    destravados por polmicas de dimenses nacionais envolvendo o nome de seu pai, uma

    parceria intelectual e amorosa com resultados imprevistos e desastrosos com a antroploga

    norte-americana Ruth Landes (1908-1991), pretenses frustradas de estgio de estudos e

    especializao no exterior e relaes muitas vezes tensas com os donos dos assuntos afro-

    brasileiros, Arthur Ramos (1903-1949) e Gilberto Freyre (1900-1987). Acrescente-se,

    ainda, o desenvolvimento num ambiente familiar atribulado, os recorrentes e quase

    constantes perodos de penria financeira, o deslocamento um tanto decepcionante para o

    Rio de Janeiro nos anos finais de 1930, as dificuldades de reconhecimento como folclorista

    frente a uma cincia social emergente nas dcadas de 1940 e 50, as tentativas malsucedidas

    de ingresso como professor no magistrio superior e, por fim, uma militncia comunista

    que, embora arrefecida com o correr da idade, lhe rendeu prises, perseguies e cassaes

    de postos.

    De outra parte, em nada desprezvel o fato de dison Carneiro ter sido um no

    branco 6 que, a despeito de sua intensa dedicao ao estudo da populao negro-africana

    no Brasil, atuando politicamente em prol da liberdade de suas manifestaes culturais e

    religiosas, vivenciou a partir de um dado momento uma relao rasgada de tenses e cises

    com o prprio movimento negro brasileiro em particular, junto ao Teatro Experimental do

    Negro (TEN), criado por Abdias do Nascimento (1914), no Rio de Janeiro, em 1944.

    Cises e tenses que produziram um distanciamento simblico significativo de Carneiro

    (vivo e mesmo depois de morto) para com os projetos, os destinos, as conquistas e, neste

    sentido, as memrias do movimento negro. E completando esta rpida lista de eventos,

    restaria dizer que havia sempre a possibilidade concreta de, em muitos deles, a raa do

    autor ter funcionado como fator de excluso, preterimentos ou interdies veladas s

    posies e aos postos por ele pleiteados. De modo que extremamente provvel que

    Aydano do Couto Ferraz levasse em considerao todas estas passagens e situaes quando

    6 Aqui, uso no-branco, sem incorrer na crena de que esta categoria neutraliza as eventuais implicaes analticas e/ou polticas que revestem classificaes tais como negros, mulatos, mestios, pardos etc. Antes, minha inteno apenas no antecipar uma discusso que ser feita, de certa maneira, em toda a tese, mas especialmente no primeiro captulo. Nele busco entender as formas como a negritude de dison Carneiro e de sua famlia foi mobilizada (ainda que, muitas vezes, no registro de uma negritude renunciada) em seus contextos de uso, levando em conta as origens, as posies e os capitais de sua famlia: ou seja, no seu ambiente de criao e socializao, em Salvador, nas primeiras dcadas do sculo XX.

  • 26

    escreveu sua homenagem na verdade, quase um epitfio involuntrio da trajetria

    intelectual de dison Carneiro, ao sintetiz-la na chave de uma vocao perdida.

    Tendo em vista os aspectos sinuosos e acidentados desta trajetria, no me parece

    fortuito, neste sentido, que dentre os poucos trabalhos que apenas superficialmente

    buscaram explorar o potencial heurstico da figura de dison Carneiro, os problemas

    ressaltados fossem justamente aqueles que nos remetem a modalidades de experincias

    marcadas pela marginalidade, pela subalternidade e pelas dificuldades de reconhecimento

    na vida social, cultural e intelectual brasileira. Experincias marginais e subalternas que

    resvalariam na vida e obra de Carneiro, ora por sua suposta condio exemplar e/ou

    expressiva de uma intelectualidade negra no pas, ora pela vinculao de seu nome a

    reas de conhecimento e empreendimentos intelectuais que teriam resultado em fracasso

    no processo de institucionalizao das cincias sociais brasileiras 7. Em sntese, uma

    trajetria social e uma obra que, representadas em chaves similares s de Aydano, serviriam

    como instncias de verificao e reverberao de falas: emudecidas ou embranquecidas, no

    primeiro caso, e envelhecidas, desautorizadas ou deslegitimadas, no segundo.

    7 Com relao a autores que, de algum modo, tatearam a vida ou a obra de dison Carneiro pelo vis da intelectualidade negra, ver: de Antnio Srgio Guimares, A modernidade negra. Teoria e Pesquisa. n42/43, janeiro-julho de 2003; Intelectuais negros e modernidade no Brasil. Centre for Brazilian Studies. University of Oxford. Working Paper, n52, 2003; Manoel Querino e a formao do pensamento negro no Brasil, entre 1890 e 1920. Trabalho apresentando ao 28 Encontro Nacional da ANPOCS, Caxambu-MG, (mimeo), 2004; e Intelectuais negros e formas de integrao nacional, Estudos Avanados,2004, vol.18, n.50; de Ari Lima, A legitimao do intelectual negro no meio acadmico brasileiro. Afro-sia. n25/26, 2001; de Maria Anglica Motta-Maus, Negro sobre negro: a questo racial no pensamento das elites negras brasileiras. (Tese de Doutorado). Rio de Janeiro, IUPERJ, 1997. Do ponto de vista de um trabalho alentado em que, mesmo no sendo especificamente sobre Carneiro, ele aparece como a expresso do fracasso institucional de folclore em se consolidar como uma disciplina cientfica, consultar Lus Rodolfo Vilhena, Projeto e misso: o movimento folclrico brasileiro, Rio de Janeiro, Funarte/FGV, 1997; Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti & Luis Rodolfo Vilhena. Traando fronteiras: Florestan Fernandes e a marginalizao do folclore, Estudos Histricos, vol.3, n5, 1992. Mas ainda: Sylvia Gemignani Garcia, Folclore e Sociologia em Florestan Fernandes, Tempo Social. vol.13, n2, novembro de 2001. Poderamos tambm mencionar um outro conjunto de estudos atravs dos quais as noes de marginalidade emergem coladas vida de dison em registro articulado ao processo de difamao intelectual da antroploga Ruth Landes e de suas pesquisas sobre as relaes raciais no Brasil: consultar, neste sentido, Mariza Corra, Antroplogas & Antropologia, Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2003; e Sally Cole, Ruth Landes: a life in Anthropology, Lincoln, University of Nebraska Press, 2003 e, da mesma autora, Ruth Landes and the early ethnography of race and gender, in Ruth Behar & Deborah Gordon (org.), Women: writing culture, Los Angeles/London, University of California, 1995. Ainda vale notar que, em finais de 2009, foi lanada uma biografia pioneira talvez, a nica disponvel de dison Carneiro, publicada pelo historiador Luiz Alberto Couceiro e pelo jornalista Biaggio Talento: dison Carneiro, Salvador, Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, 2009. Embora lastreada em pesquisa documental, explorando aspectos chaves da produo intelectual de Carneiro (com alguma nfase aos seus trabalhos de feitio historiogrfico), o livro no inova do ponto de vista da interpretao da trajetria de Carneiro.

  • 27

    Por que, ento, se estudar a trajetria de um intelectual de carreira to instvel, cujos

    trabalhos, dispersos nos mais variados temas e gneros, no apenas atestam um projeto

    intelectual intermitente, como tambm resultam excessivamente atingidos pela ao do

    tempo 8, podendo ser lidos, neste sentido, como envelhecidos e menores na histria do

    pensamento social e das cincias sociais no Brasil? Decerto, no pelas rupturas ou inflexes

    tericas de sua produo ou tampouco por aquela obra que, em tese, Carneiro jamais

    pde realizar. Menos ainda, como uma tentativa de se fazer ou recobrar justia a um autor

    no devidamente estudado ou emudecido por injunes de foras extra ou propriamente

    intelectuais. Mas, sim, muito mais, pela forma como a trajetria social e intelectual de

    dison Carneiro figura expressiva para pensarmos experincias, projetos e condicionantes

    de modelamento da atividade intelectual no Brasil.

    Sem dvida, preciso qualificar melhor quais so essas experincias e

    condicionantes que se manifestam atravs da vida e da obra dison Carneiro. Antes, no

    entanto, seria interessante insistirmos um pouco mais nos problemas de anlise

    concernentes s feies de incompletude e fracasso implicadas na apreenso do autor seja

    como um intelectual negro seja como uma vocao perdida. Isto porque, cada uma

    dessas categorias encerra seu quinho particular de complicaes, mas que tendem a se

    intensificar quando buscamos refletir sobre as eventuais conexes entre as duas. Ou seja, a

    hiptese de que muitos dos malogros da carreira intelectual de dison Carneiro estiveram

    relacionados a constrangimentos ou interdies de natureza tnica. A vivncia, portanto, de

    um autor negro que teve dificuldades de negociar a sua insero e o seu

    reconhecimento como intelectual junto a um establishment branco 9.

    De fato, tais conexes existiram. No se trata de mera hiptese. O problema,

    entretanto, que elas nem sempre foram previsveis ou se manifestaram da maneira que,

    talvez, seria de se esperar. Explico-me: a trajetria social e intelectual de dison Carneiro

    oferece um conjunto razovel e eloquente de pistas, as quais, penso, tornam impossvel

    8 Evidentemente, no a ao do tempo ou o envelhecimento de um autor que equivalem a meros efeitos de um deslizamento mecnico para o passado. Mas, sim, um envelhecimento socialmente produzido entre os grupos concorrentes no campo intelectual e artstico e que se engendra no combate entre aqueles que marcaram poca e que lutam para perdurar e aqueles que no podem marcar poca por sua vez sem expulsar para o passado aqueles que tm interesse em deter o tempo. Cf. Pierre Bourdieu, As regras da arte, So Paulo, Cia das Letras, 1996, p.181. 9 Antnio Srgio Guimares, Manoel Querino e a formao do pensamento negro no Brasil, entre 1890 e 1920, op.cit., p.08.

  • 28

    estabelecer uma mecnica de causa e efeito entre a raa de dison e suas posies em falso

    no campo intelectual brasileiro. Como veremos no decorrer desta tese, raa foi uma

    categoria que se colou de modo seguramente instvel s experincias do autor. Proveniente

    de Salvador, onde nasceu em agosto de 1912, e de uma famlia que, embora de situao

    financeira inconstante e, por vezes, penuriosa, gozava de trnsito e boas relaes entre

    setores prestigiosos da oligarquia local, dison Carneiro cresceu em um ambiente investido

    de marcadores de distino social e cultural, os quais maximizaram enormemente suas

    chances de burlas dos constrangimentos associados raa 10. O que no significa dizer

    que a negritude de dison fora ignorada ou que ela deixara de ser enfatizada em diferentes

    contextos e momentos de sua vida: uma negritude, inclusive, passvel de capitalizao e

    de converso em trunfos sociais, polticos e intelectuais circunstanciais, no estando

    fatalmente destinada a operar como um handicap.

    Este ponto ser retomado no decorrer da tese e no o caso de estend-lo em

    demasia. O importante, por hora, ressaltar o conjunto intrincado de desafios envolvido na

    anlise da vida e obra do principal personagem desta tese. Pois, se, de um lado, parece

    impossvel negligenciarmos as articulaes significativas entre a raa e a cor de dison, ou

    a burla delas, e as suas tomadas de posio, de outro, no podemos incorrer no risco de

    apreender estes marcadores raciais de modo desarticulado aos efeitos de outros tipos de

    propriedades sociais, herdadas ou adquiridas, como origem de classe, prestgio ou fortuna

    familiar, escolaridade e mesmo relaes ou protees. E mais importante: descolado dos

    efeitos associados aos deslocamentos sucessivos de dison Carneiro no campo intelectual

    brasileiro, bem como dos valores sociais diferenciados que suas posies, competncias e

    credenciais foram assumindo e, por consequncia, abrindo ou excluindo seu rol de novas

    posies possveis 11. De modo que, se quisermos compreender os valores simblicos

    10 Inspiro-me, aqui, para falar de mecanismo de burlas de constrangimentos associados raa e cor, no artigo de Heloisa Pontes, no qual a autora, ao invs de raa, fala das possibilidades das atrizes burlarem constrangimentos impostos pelo tempo (envelhecimento) e pelas relaes de gnero atravs das convenes teatrais. Cf. A burla do gnero: Cacilda Becker, a Mary Stuart de Pirassununga. Tempo Social. Vol. 16, n1, junho de 2004. 11 O que, nos termo de Bourdieu, significa evitar a iluso da constncia nominal [que] consiste em ignorar que o valor social de posies nominalmente inalterada pode diferir nos diferentes momentos da histria prpria do campo. com relao aos estados correspondentes da estrutura do campo que se determinam em cada momento. O sentido e o valor social dos acontecimentos biogrficos, entendidos como colocaes e deslocamentos nesse espao ou, mais precisamente, nos estados sucessivos da estrutura da distribuio das

  • 29

    materializados no retrato de dison Carneiro como uma vocao perdida sem nos

    deixar seduzir pelos tons vitimados nele contidos devemos ser capazes de lidar com as

    vrias ordens de disposies biogrficas e sociais que estiveram na base de seus

    deslocamentos em uma estrutura historicamente determinada de posies possveis.

    A vida de dison Carneiro, portanto, expressa com vigor dilemas e transformaes

    que acometeram no apenas o campo de estudos das relaes raciais, mas tambm as

    cincias sociais brasileiras como um todo, cujo processo de institucionalizao destravou, a

    partir da dcada de 1930, o rompimento com um modelo de intelectual que ele encarnava

    muito bem: o polgrafo, autodidata. Sua atuao e suas metamorfoses na evoluo do

    debate racial nacional urdiram com forma uma experincia, seno exemplar, certamente

    expressiva do processo de gnese e formao deste campo de estudos. De outra parte, nelas

    tambm se revelam os estgios de transio das cincias sociais em que comearam a se

    desenvolver os rituais de instituio e segregao de linguagens, estilos de abordagem e

    padres de cientificidade, buscando-se, assim, suplantar o ensasmo e as diversas formas de

    heteronomias na interpretao da vida social. Os dilemas de dison Carneiro revelam esse

    processo pelo inverso, uma vez que ele passou a personificar o modelo de intelectual que as

    cincias sociais modernas buscaram justamente combater e expelir como cientificamente

    autorizados a falar sobre o social.

    As indefinies classificatrias que resvalaram na carreira intelectual de dison

    Carneiro foram um sinal eloquente neste sentido. Escritor, historiador, etngrafo, jornalista,

    folclorista: ele foi todas elas, sem conseguir ser nenhuma delas por inteiro. Experimentou,

    portanto, a institucionalizao das cincias sociais na chave do drama, prprio dos

    estados de transio, e do perigo que assombra aqueles que o vivenciam, tal como nos

    lembra Mary Douglas. Afinal, o perigo est nos estados de transio, simplesmente porque

    a transio no nem um estado nem o seguinte, indefinvel. A pessoas que tem de passar

    de um a outro, est ela prpria em perigo e o emana a outros [...] No somente a transio

    em si perigosa, mas tambm os rituais de segregao constituem a fase mais perigosa dos

    ritos 12.

    diferentes espcies de capital que esto em jogo no campo, capital econmico e capital simblico como capital especifico de consagrao.. Cf. As regras da arte, op.cit., p.292. 12 Mary Douglas, Pureza e Perigo, So Paulo, Perspectiva, 1976, pp.119-120.

  • 30

    * * *

    Embora no tenha a inteno de ser exaustivo, acredito ser importante destacar

    alguns dos debates tericos implicados nas perspectivas de anlise adotadas neste trabalho.

    Importante, acredito, por duas razes distintas, ainda que sensivelmente conectadas entre si.

    A primeira diz respeito aos desafios propriamente conceituais que se colocam ao

    antroplogo, quando seus mtodos e objetos no encontram o lastro dos padres

    considerados clssicos ou tradicionais no interior de sua disciplina. A segunda, de

    ordem mais pessoal, est atrelada a minha prpria experincia como estudante de

    antropologia, de vrias maneiras e em diversos momentos, instado a recorrentes prestaes

    de contas quanto antropologicidade de minha pesquisa em histria intelectual.

    No limite, uma e outra dessas razes so faces de uma mesma moeda. Ambas

    encontram-se inseridas num campo mais geral de problemas que nos remetem ao intrincado

    jogo de definies, atribuies e instituies de sentido sobre o que , afinal, o saber

    antropolgico. Mas lgico, antes que seja mal interpretado, aqui, meu objetivo no

    discutir o fazer antropolgico nestes termos abstratos e generalistas, me lanando numa

    espcie de exumao de autores, obras, escolas e conceitos na histria da disciplina. Antes,

    espero apenas conferir alguma sistematicidade forma como busquei construir este

    trabalho a partir de uma perspectiva em que a antropologia se faz presente e atuante na

    exata medida em que a colocamos em dilogo com outras matrizes disciplinares, as quais

    enfrentaram mais de perto os dilemas particulares envolvidos na anlise da vida intelectual

    e artstica: notadamente, com uma srie de trabalhos produzidos no mbito de uma

    sociologia da cultura e dos intelectuais e da histria social da arte e da cultura.

    At porque, e isto, se no quisermos incidir em essencialismos estreis as

    questes relativas ao escopo e s especificidades da abordagem antropolgica apenas

    parcialmente poderiam ser tratadas como problemas passveis de solues puramente

    tericas. Ou melhor, como se fosse possvel relegar a planos secundrios o fato de que a

    definio dos limites, mtodos e objetos da disciplina que praticamos ela prpria um

    mvel em disputa: internamente, entre diferentes geraes, instituies, grupos ou escolas

  • 31

    de abordagem; e externamente, na relao de seus praticantes com as outras disciplinas das

    cincias sociais e humanas (sociologia, poltica, histria, teoria literria, lingustica, etc.)

    atravs das quais invocam suas marcas de distino e identidades. Em termos, talvez, em

    nada distante daqueles de que Fredrik Barth utilizava para entender as identidades tnicas:

    As fronteiras s quais devemos consagrar nossa ateno so, claro, as fronteiras sociais,

    se bem que elas possam ter contrapartidas territoriais [no nosso caso, poderamos falar em

    contrapartidas institucionais]. Se um grupo conserva sua identidade quando os membros

    interagem com outros, isso implica critrios para determinar a pertena e meios para tornar

    manifestas a pertena e a excluso 13.

    Deste modo, nos termos de Bourdieu, seriamos obrigados a realizar o trabalho de

    romper com o crculo vicioso das taxonomias autoexplicativas geradas pelos efeitos de

    canonizao e consagrao, tornando consciente o processo de persuaso consciente ou

    inconsciente que nos leva a aceitar como evidente a hierarquia instituda 14. O

    desvelamento desta hierarquia autoevidente permitiria entender melhor as razes pelas

    quais determinados temas e categorias dispensam apresentaes, uma vez que a sua

    simples meno expressaria o prprio fazer antropolgico (ao menos o que para alguns se

    imagina ser), enquanto outros precisam de inmeras mediaes e justificativas, sob o risco

    de se passar por uma antropologia dissimulada, deturpada ou, quando no, simplesmente, a

    sua prpria negao.

    Certamente, no se trata de uma tentativa de me esquivar aos aspectos propriamente

    tericos, buscando projetar todas as condies de debate aos desgnios das disputas

    polticas e de poder, bem como aos da histria: o que, inclusive, revelaria a necessidade de

    pensar o quanto o fazer antropolgico e os elementos que o legitimam enquanto tal so

    variveis aos contextos nacionais em que se desenvolvem 15. No entanto, todas essas

    13 Cf. Fredrik Barth, Grupos tnicos e suas fronteiras in Philippe Poutignat & Jocelyne Streiff-Fenart, Teorias da Etnicidade. So Paulo, Ed. UNESP, 1998, p.195. 14 Pierre Bourdieu, As regras da arte, So Paulo, 1996, p.155. E continua o autor: As lutas de definio (ou de classificao) tm como aposta fronteiras (entre gneros ou as disciplinas, ou entre os modos de produo no interior de um mesmo gnero), e, com isso, hierarquias. Definir as fronteiras, defend-las, controlar as entradas, defender a ordem estabelecida no campo. Idem, ibidem. 15 No caso brasileiro, a etnologia indgena assumiu o topo da hierarquia entre os saberes e os fazeres mais exclusivos da antropologia: A pesquisa no mato como parte da disciplina est bem estabelecida [...] se h um territrio no qual no se aventuram outros cientistas sociais, esse o da Etnologia. Cf. Mariza Corra, A antropologia no Brasil (1960-1980) in Histria das cincias sociais no Brasil, So Paulo, Sumar/FAPESP, vol. 2, 1995, p.103. O outro objeto de estudo que historicamente estava em condies de competir com as

  • 32

    dimenses nos alertam quanto aos perigos de se apreender este fazer a partir de supostas

    propriedades que lhes seriam intrnsecas ou inerentes. O que, de sada, nos auxilia a colocar

    o problema muito mais no mbito das perguntas e dos dilogos que a antropologia nos

    ajuda a construir na apreenso da vida intelectual do que, necessariamente, no plano das

    especificidades de seus mtodos ou objetos.

    Afinal, teramos que chegar a concluses bastante incongruentes e pouco

    convincentes, caso nuclessemos no trabalho de campo todas as condies de possibilidade

    e existncia do conhecimento antropolgico: o que no apenas limitaria o escopo da

    disciplina ao estudo de grupos sociais que, de alguma forma, fossem capazes de reviver os

    termos da relao sujeito-objeto, tal como configurada nos autores considerados clssicos

    ou fundadores 16, mas tambm a converter o trabalho de campo numa espcie de seita

    inspirada; transe mstico desencadeador das experincias geradoras de tipos de insights

    [...] difceis de comunicar e de maneiras de olhar que, por sua vez, quase no [podem] ser

    ensinadas 17.

    Ou, de outra parte, poderamos nos perguntar a quantos equvocos incorreramos se

    olhssemos os escritores, intelectuais e artistas do passado como grupos que pensavam,

    sociedades indgenas em termos de prestgio na antropologia brasileira estava associado s populaes negras e suas manifestaes culturais. Contudo, um tema que, a partir dos anos de 1950, graas ao efeito Florestan Fernandes passaria a figurar muito mais ao polo dos objetos pertencentes ao campo de interesses da sociologia. Para uma perspectiva comparativa dos variveis enraizamentos do saber antropolgico em contextos nacionais particularizados, tais como Brasil, Mxico, Frana, Estados Unidos e frica do Sul, consultar Benot de LEstoile; Frederico Neiburg; Lygia Sigaud (org.), Antropologia, Imprios e Estados Nacionais, Rio de Janeiro, Relume Dumar/FAPERJ, 2002. 16 Certamente, mesmo no sendo nem o nico e nem o primeiro a realizar trabalho de campo, recaiu fortemente sobre Malinowski o papel de mito fundador desta tcnica de pesquisa, marcando, neste sentido, a acepo moderna da antropologia: como seu mtodo prprio e particular. Acepes e mtodos que passaram por profundas crticas e reavaliaes, especialmente a partir da dcada de 1980. Ver, neste sentido, as chamadas crticas ps-modernas s fantasias de objetividade envolvidas no trabalho de campo e s relaes de poder inscritas no encontro etnogrfico: James Clifford, Sobre a autoridade etnogrfica in A Experincia etnogrfica: antropologia e literatura no sculo XX, Rio de Janeiro, Ed. UFRJ, 1998 e James Clifford & George E. Marcus (ed.), Writing Culture: the poetics and politics of ethnography, Berkeley, University of California, 1986. 17 Fritz Ringer, O declnio dos mandarins alemes, So Paulo, Edusp, 2000, p.331. Logicamente, aqui, no minha inteno questionar a validade do trabalho de campo, mas sim chamar a ateno para uma perspectiva mais abrangente da pesquisa etnogrfica, a exemplo do que nos diz Emerson Giumbelli, em interessante artigo no qual, a partir da obra de Malinowski, busca discutir a associao privilegiada entre o trabalho de campo e a prtica antropolgica. Diz o autor: No se trata de dissolver ou de invalidar o trabalho de campo, mas de ter uma concepo mais ampla e aberta da investigao etnogrfica. Imaginar problemas e situaes de pesquisas nas quais o contato mais ntimo possvel seja apenas parte ou at mesmo no tenha nada a fazer no processo de produo de dados. Cf. Para alm do trabalho de campo, Texto apresentado no XXV Encontro Anual da ANPOCS, (mimeo), Caxambu, outubro de 2001, p.19.

  • 33

    viviam e organizavam simbolicamente suas prticas sociais, partindo do suposto de que

    eles so menos diferentes ou compostos por alteridades mnimas 18 com relao ao

    observador do presente do que, por exemplo, os Azande, estudados por Evans-Pritchard, e a

    forma como racionalizavam os eventos de suas vidas na chave da magia e da feitiaria 19.

    Caso contrrio, como bem observou o historiador Robert Darnton, acabamos por deslizar

    para a posio de uma confortvel suposio da familiaridade com o passado, sem levar

    em conta que a histria produz diferenas to intrincadas e difceis de entender quanto

    aquelas com que se esbatem os antroplogos entre sociedades ou grupos desconhecidos:

    Mas uma coisa parece clara a todos que voltam do trabalho de campo: os outros povos so

    diferentes. No pensam da maneira que pensamos. E, se queremos entender sua maneira de

    pensar, precisamos comear com a ideia de captar a diferena. Traduzindo em termos do

    ofcio do historiador, isto talvez soe, simplesmente, como aquela familiar recomendao

    contra o anacronismo. Mas vale a pena repetir a afirmativa, porque nada mais fcil do que

    deslizar para a confortvel suposio de que os europeus pensavam e sentiam, h dois

    sculos, exatamente como fazemos agora [...] Precisamos ser constantemente alertados

    contra uma falsa impresso de familiaridade com o passado, de recebermos doses desse

    choque cultural 20.

    Deste modo, independente das distncias ou diferenas que mediam e se produzem

    nas relaes com os sujeitos e as realidades que interessam ao antroplogo: sejam elas

    sociais, culturais, temporais e mesmo geogrficas, vale a pergunta que Merleau-Ponty

    entendia como central disciplina e que, acredito, expressa exemplarmente a forma como

    tentei cercar os dados e acessar um perodo do nosso pensamento social: como

    compreender o outro sem sacrific-lo nossa lgica e sem sacrific-la a ele? 21. Ainda que

    no afastado dois sculos, como era o caso de Darnton, a recuperao da obra e do

    itinerrio social de dison Carneiro, bem como dos pontos de ancoragem de suas prticas

    em grupos e espaos no campo intelectual brasileiro, entre as dcadas de 1910 e 1970, se

    realizou em meio a inmeras dificuldades quanto apreenso da historicidade de seus

    18 Cf. Mariza Peirano, Antropologia no Brasil (alteridade contextualizada) in Sergio Miceli (org.), O que ler na cincia social brasileira (1975-1995), So Paulo, Ed.Sumar/Anpocs, 1999. 19 Cf. E. E. Evans-Pritchard, Bruxaria, Orculos e Magia entre os Azande, Rio de Janeiro, Zahar, 1978. 20 Robert Darnton, O grande massacre dos gatos, Rio de Janeiro, Graal, 1986, p.XV. 21 Maurice Merleau-Ponty, De Mauss a Claude Lvi-Strauss" in Textos Selecionados, So Paulo, Abril Cultural, 1980, p.194.

  • 34

    trabalhos e das lgicas de sentido inscritas em suas tomadas de posio. Dificuldades

    particularmente notveis, por exemplo, no que diz respeito a um autor como Carneiro, que,

    estando associado a saberes e abordagens atualmente desclassificadas e envelhecidas no

    interior das cincias sociais (estudos aculturativos, folclricos etc.), me obrigaram a

    recorrentes (re)leituras de sua obra, na tentativa de refrear o olhar j treinado para ali

    encontrar teorias e conceitos superados. De modo que, em parte, somente com a

    recuperao dos termos especficos atravs dos quais os agentes do passado atriburam

    significados e intencionalidades s suas prprias vidas que conseguiramos, ento, evitar o

    engessamento de um determinado mundo social em categorias que, como nos alerta

    Edmund Leach, lhes so estranhas ou simplificadoras das complexidades da vida real:

    Quando se tenta interpretar uma estrutura social por meio de categorias que so mais

    preciosas do que as usadas pelas prprias pessoas, injeta-se no sistema uma rigidez e uma

    simetria [...] que podem estar ausentes na situao da vida real [...] A meu ver, a

    ambiguidade das categorias nativas absolutamente fundamental para o funcionamento do

    sistema social 22.

    Mas se a antropologia, pelo menos desde Bronislaw Malinowski, vem

    persistentemente se perguntando e buscando solues para o problema de como apreender

    o ponto de vista dos nativos 23, encontrando na imerso da observao participante sua

    principal ferramenta, quando os nativos so os intelectuais e os produtores culturais e

    artsticos, este processo de imerso do pesquisador se d, muitas vezes, nos arquivos e nas

    bibliotecas: entre documentos, livros e fontes escritas de toda ordem, os quais, apenas

    arbitrria e artificialmente, poderiam ser tratados como simples instncias de constatao

    ou verificao da histria. Como mostra Olvia Gomes da Cunha, os arquivos, papis

    transformados em documentos, revelam muitos mais do que seu contedo propriamente

    dito: revelam tambm vnculos profissionais, intelectuais e relaes de poder de natureza

    diversa 24; constituem territrios onde a histria no buscada, mas contestada 25. Em

    suma, lugares privilegiados para a apreenso de interaes sociais, os quais, j observou

    22 Edmund Leach, Sistemas Polticos na Alta Birmnia, So Paulo, EDUSP, 1996, p.260. 23 Bronislaw Malinowski, Os Argonautas do Pacfico Ocidental, So Paulo, Abril Editora, 1978, p.33. 24 Cf. Olvia Maria Gomes da Cunha, Tempo imperfeito: uma etnografia do arquivo, Mana, vol.10, n2, outubro de 2004, p.296. Ver, tambm da autora, Do ponto de vista de quem? Dilogos, olhares e etnografia do/nos arquivos, Estudos Histricos, n36, 2005. 25 Olvia Maria Gomes da Cunha, Tempo imperfeito, op.cit., p.292.

  • 35

    Heloisa Pontes, apenas certa concepo positivista em relao documentao escrita

    disponvel em arquivos poderia impedir o tratamento desses espaos como um campo

    etnogrfico to legtimo, complexo e intrincado quanto aquele baseado na observao

    participante e na autoridade conferida pela presena do antroplogo. Afinal, conclui a

    autora, se a etnografia um dispositivo privilegiado para a apreenso de interaes

    sociais, o arquivo, assim como as bibliotecas, tambm o so, desde que tomados como

    objetos de reflexo 26.

    Deste modo, como lugares de observao de como ideias, valores, experincias e

    conhecimentos se transformam em linguagem, estilo e histrias singulares, os arquivos,

    longe de se reduzirem a meros repositrios de informaes, se mostram como o prprio

    espao de imerso onde o analista experimenta as doses de choques culturais que nos

    falava Darnton. E, neste sentido, trata-se de um campo etnogrfico aberto a toda sorte de

    surpresas, embaraos e mal-entendidos a que esto vulnerveis os antroplogos que, na

    observao participante, desconhecem ou ainda no manejam apropriadamente a lngua ou

    os cdigos de conduta dos grupos que estuda. Decerto, variando em cada um dos casos as

    tcnicas necessrias para se estabelecer os dilogos necessrios com os seus

    informantes, para da apreendermos as condies sociais de suas falas:

    Os antroplogos tm pretendido bem mais do que ouvir e analisar as interpretaes

    produzidas pelos sujeitos e grupos que estudam, mas [tambm] entender os contextos

    social e simblico da sua produo [...] Se a possibilidade de as fontes falarem apenas

    uma metfora que refora a ideia de que os historiadores devem ouvir e, sobretudo,

    dialogar com os documentos que utilizam em suas pesquisas, a interlocuo possvel se

    as condies de produo dessas vozes forem tomadas como objeto de anlise isto , o

    fato de arquivos terem sido constitudos, alimentados e mantidos por pessoas, grupos

    sociais e instituies 27.

    Aqui, me parece interessante chamar a ateno nfase que Cunha dispensa aos

    procedimentos de desvelamento das condies sociais de produo das fontes.

    Procedimentos de uma etnografia do arquivo que, embora tangenciem, no se equivalem

    queles adotados por Clifford Geertz em seus conhecidos textos sobre as possibilidades de

    26 Heloisa Pontes, Intrpretes da metrpole, So Paulo, Edusp/Fapesp, 2010, p.41. 27 Olvia Maria Gomes da Cunha, Tempo imperfeito, op.cit., p.293.

  • 36

    uma etnografia do pensamento moderno ou da anlise da arte como sistema cultural.

    Uma no equivalncia, a meu ver, bastante significativa, pois diz respeito s formas como

    Cunha e Geertz e suas propostas etnogrficas lidam ou deixam de lidar com as colagens

    entre o plano das representaes dos objetos e dos produtos da atividade intelectual com o

    das prticas sociais nas quais eles esto enredados.

    Isto porque, as teias de significados de Geertz se esquivam justamente ao teste

    das prticas sociais, tal como nos alerta T. J. Clark, na medida em que isolam num plano

    autocontido o pensamento, a arte e o sistema geral de formas simblicas a que chamamos

    de cultura, sendo que cada um deles se basta entre si 28. Um sistema, portanto, em que as

    representaes pertinentes ao universo da arte e da vida intelectual se explicariam

    unicamente pelo cotejo de seus significados recorrentes que, por serem expresses de

    concepes de vida nucleares de um povo, apareceriam em todos os outros domnios

    simblicos: religio, poltica, comrcio, direito, moralidade etc. Em sntese: uma teoria

    semitica da arte, a qual seria, ao mesmo tempo uma teoria da cultura e no um

    empreendimento autnomo 29. O que, se traduzirmos para o contexto desta pesquisa,

    implicaria em compreender as ideias e os trabalhos de dison Carneiro atravs de, como

    defende Geertz, uma descrio daquele mundo especfico onde [seu] pensamento faz

    algum sentido 30. No entanto, uma vez que todos os significados esto em teia com

    todos os outros domnios da cultura, ento, no apenas tudo no seu pensamento seria

    passvel de uma livre associao com o sistema geral de smbolos da cultura, como tambm

    seria difcil definir em quais domnios deste mundo teramos que descrever as ideias do

    autor.

    28 Clifford Geertz, A arte como sistema cultural in O saber local, Rio de Janeiro, Ed.Vozes, 1998, p.165. Quando o historiador social da arte, Timothy J. Clark, chama a ateno para a necessidade de se submeter as categorias do pensamento ao teste da prtica social, embora no fale de Geertz, certamente enderea uma crtica a perspectivas analticas semelhantes a dele, as quais tendem a tratar o mundo das representaes como sistemas impermeveis e autocontidos. Diz Clark: a noo de atividade social esboada at aqui s pode ser sustentada se reconhecermos que o mundo das representaes no se encaixa perfeitamente em moldes impermeveis, sistemas ou prticas significativas. A sociedade um campo de batalha de representaes no qual os limites e a coerncia de um cenrio so contestados e rompidos com regularidade. Assim, faz sentido dizer que as representaes so continuamente submetidas ao teste de uma realidade mais bsica que elas o teste da prtica social. Cf. A pintura da vida moderna: Paris na arte de Manet e de seus seguidores, So Paulo, Cia das Letras, 2004, p.39. 29 Idem, Ibidem. 30 Idem, Como pensamos hoje: a caminho de uma etnografia do pensamento moderno in O saber local, Rio de Janeiro, Ed.Vozes, 1998, p.227.

  • 37

    Dito isto, talvez agora sejamos capazes de aquilatar melhor os ganhos analticos que

    a pesquisa buscou alcanar, ao pensar etnograficamente os arquivos utilizados na

    recuperao da trajetria intelectual e social de dison Carneiro. Contudo, uma postura

    etnogrfica que no deve ser reduzida ao ato de transformar o acervo deste autor como o

    prprio objeto da reflexo da pesquisa. Em grande medida, aquilo que Olvia Gomes da

    Cunha faz com um acervo pessoal em particular, desvelando as marcas das experincias

    sociais e biogrficas inscritas nas lgicas de organizao, indexao e ordenao de sentido

    da documentao, vale como um procedimento indispensvel ao manejo de todo o conjunto

    de fontes escritas ou orais que nos valemos em nossas pesquisas. Afinal, menos do que

    simplesmente ideias ou significados que se autoiluminam, como poderia nos levar a crer

    Geertz, as fontes escritas e as memrias que utilizamos constituem o produto de

    representaes que precisariam, elas prprias, serem recuperadas luz dos contextos e das

    prticas sociais que estiveram na base de sua existncia. Como afirma Sergio Miceli:

    As fontes impressas e as manuscritas [...] retm a marca dos interesses, dos valores e das

    estratgias dos grupos sociais que a referem [...] Elas so produto de uma atividade de

    simbolizao mediante a qual esses grupos manifestam sua existncia material, poltica e

    intelectual. Antes de serem processados e transformados pelo pesquisador em provas do

    argumento explicativo, os materiais a contidos so parte integral do repertrio de imagens

    com que o grupo veicula e gere sua identidade. [...] Essas fontes documentais servem tanto

    para exprimir certas demandas por significados e clculos coletivos do grupo como

    tambm lhes do forma e sentido 31.

    Em sntese, no h separao entre o que chamamos de objetos e as definies e

    enunciaes contidas nos materiais que a eles se referem 32. E, portanto, o que se apreende

    atravs dos arquivos, dos documentos, dos museus ou das bibliotecas no so simplesmente

    livros, quadros, ideias ou pensamentos. Mas, sim, e muito mais, as relaes, as posies e

    as experincias sociais que estas ideias expressam e justificam simbolicamente, cabendo ao

    investigador dispor dos meios de participar do ambiente que deu origem a elas 33.

    31 Sergio Miceli, Biografia e cooptao (o estado atual das fontes para a histria social e poltica das elites no Brasil) in Intelectuais brasileira, So Paulo, Cia das Letras, 2001, pp.349-50. 32 Assim como, lembra o historiador Jacques Le Goff, seramos obrigados a reconhecer que o tipo de fonte e documentao disponvel que, em enorme medida, dita a ambio e os limites [da] investigao. Cf. Jacques Le Goff, So Lus, Rio de Janeiro, Record, 1999, p.22. 33 Pierre Bourdieu, Como ler um autor? in Meditaes Pascalianas, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001, p.107. No me parece aleatrio, neste sentido, que Bourdieu conceba sua abordagem da histria do campo

  • 38

    Somente com esta perspectiva atenta aos lugares sociais e institucionais a partir dos quais

    nossas fontes falam ou mesmo silenciam que conseguimos, ento, realizar o trabalho de

    objetivao das experincias e prticas dos sujeitos que analisamos 34. Perspectiva que,

    numa mesma direo, nos ajuda a participar dos ambientes da produo intelectual,

    munidos do olhar vigilante aos jogos de interesses, alianas e rivalidade em meios aos quais

    os membros deste espao invocam suas filiaes, genealogias e pretenses. Assim,

    preciso concordar com a antroploga Mariza Corra, quando ela afirma que:

    Ao invs de nomear precursores e estabelecer a genealogia terica desses grupos

    intelectuais que tambm o modo como os prprios membros dessas escolas

    reivindicam a legitimidade de suas posies acadmicas e, portanto, um dado do problema

    talvez fosse mais frutfero tentar analisar a relao de seus alinhamentos polticos e

    tericos com sua prtica, sua atuao num contexto dado 35.

    Interessada justamente nestes alinhamentos polticos e tericos com as prticas

    sociais de dison Carneiro, minha pesquisa, em enorme medida, constitui uma tentativa de

    recompor, em diferentes momentos e contextos, os termos que tornam inteligveis estes

    ambientes de criao de suas obras no campo intelectual brasileiro. Mas, para tanto, esta

    vida precisou ser vista como um todo, em seus vrios domnios e registros: pessoal,

    familiar, poltico-doutrinrio, tnicos, afetivos etc. Caso contrrio, correramos o risco de

    desmembrar vida e obra de um autor, como se elas fossem passveis de existirem

    autonomamente. De modo que, com esta tese, busquei reconstruir a trama complexa das

    coordenadas histricas, sociais e biogrficas que marcaram a insero de dison Carneiro

    no campo de estudos das relaes raciais e sobre as culturas de origem africanas na

    sociedade brasileira. Menos do que a recuperao do passado como um esforo de

    reabilitao da figura intelectual de dison Carneiro ou como uma tentativa de al-lo a

    qualquer espcie de panteo de heris pioneiros ou fundadores de nossas cincias sociais, a

    contribuio maior a que este trabalho se prope justamente apontar a viabilidade e a

    intelectual francs nos termos de um problema de antropologia histrica to difcil como aqueles com que se defronta o historiador e o etnlogo ao decifrar uma sociedade desconhecida. Idem, p.103. 34 Como muito bem anota Heloisa Pontes: Tal objetivao pressupe uma reflexo sobre as condies sociais e institucionais de produo de fontes escritas e das reminiscncias que nutrem grande parte das entrevistas e dos depoimentos impressos (ou recolhidos diretamente) que ns, cientistas sociais, utilizamos em nossos trabalhos. Cf. Heloisa Pontes, Intrpretes da metrpole, op.cit., p.40. 35 Cf. Mariza Corra, As iluses da liberdade, Bragana Paulista, Ed. da Universidade So Francisco, 2001, p.20.

  • 39

    possibilidade de uma antropologia histrica das prticas intelectuais, de uma etnografia do

    passado que bem poderia ser chancelada pela frase de Leslie P. Hartley j largamente

    utilizada, mas aqui particularmente pertinente: O passado um pas estrangeiro: l, eles

    fazem as coisas de modo diferente 36.

    * * *

    Ainda que no seja minha inteno realizar uma biografia de dison Carneiro,

    tampouco uma interpretao da totalidade de suas realizaes, para se entender muitos dos

    dilemas que marcaram sua trajetria intelectual, necessrio lidar com uma srie de

    coordenadas biogrficas que iluminem esta vida como um todo. Busquei, neste sentido,

    construir o trabalho de modo que as ideias e a atuao de Carneiro no aparecessem

    desarticuladas de outros tipos de experincias sociais e mesmo familiares que

    desempenharam papis decisivos na forma como o autor percebeu e apreendeu o mundo

    social.

    Esta tese est dividia em trs captulos, os quais abordam os elementos da vida

    familiar, juventude, primeiras experincias intelectuais como escritor junto ao grupo

    Academia dos Rebeldes, na dcada de 1920, e, por fim, seu envolvimento com os estudos

    etnogrficos da cultura e religiosidade afro-brasileiras a partir de 1930. No conjunto, estes

    captulos mostram a forma como a prtica intelectual de dison Carneiro foi se construindo

    em meio a condicionantes que remetem, de um lado, s posies e s relaes de sua

    famlia no interior da sociedade baiana e, por outro, aos dilemas mais amplos vivenciados

    pelos setores dirigentes e intelectuais locais no contexto das transformaes alavancadas

    pela Revoluo de 30.

    O primeiro captulo, Uma famlia de cultura: os Souza Carneiro e seu mundo,

    explora algumas das coordenadas de localizao social e poltica da famlia de dison

    Carneiro, no sentido de pontuar as circunstncias em que se deu o encaminhamento do

    autor aos trabalhos intelectuais, bem como compreender como esta localizao informou

    36 Leslie P. Hartley, O Mensageiro, So Paulo, Nova Alexandria, 2002 [1953], p.01.

  • 40

    um determinado modo de perceber e apreender o mundo social. Para tanto, a nfase recaiu

    sobre a trajetria do pai, o engenheiro civil Antnio Joaquim de Souza Carneiro, a partir da

    qual se armou uma discusso sobre a prpria condio tnica e de cor de dison e sua

    famlia e as estratgias por eles adotadas para que, ao menos em parte, conseguissem

    minimizar seus efeitos na forma como se viram e foram vistos na sociedade baiana de finais

    do sculo XIX e incios do sculo XX.

    No segundo captulo, Academia dos Rebeldes: modernidade e modernismo vistos da

    provncia, so recuperadas as atividades literrias de dison Carneiro junto ao grupo

    Academia dos Rebeldes, evidenciando seus esforos em plasmar um debate sobre

    modernidade e modernismo literrio na Salvador de finais da dcada de 1920, bem como os

    eventuais rebatimentos deste perodo da vida de dison na eleio de determinados temas

    futuros. Mas tambm, atravs da inscrio deste grupo nos espaos mais abrangentes da

    vida cultural e poltica de Salvador, busca-se destacar como as atividades dos rebeldes

    ganharam forma e sentido tendo em vista o contexto das transformaes alavancadas pela

    Revoluo de 30 no conjunto das elites dirigentes baianas. Transformaes que permitem

    esboar o quadro de converso ideolgica de dison Carneiro militncia comunista.

    No terceiro captulo, dison Carneiro e os estudos afro-brasileiros da dcada de

    1930, destacam-se as condies atravs das quais se realizou o envolvimento do autor na

    seara dos trabalhos etnogrficos sobre o negro brasileiro, lidos a partir de um aspecto pouco

    considerado na compreenso de suas ideias e de sua atuao junto aos grupos afro-

    brasileiros: o marxismo e a militncia comunista. Apreendida nesta chave, a produo de

    Carneiro lana uma srie de pistas capazes de desvelar um cenrio mais matizado das

    disputas de poder que marcaram este campo de estudos sobre o negro. Sob a aparncia

    homognea do culturalismo (como ficou notabilizado este perodo dos trabalhos sobre

    nossas relaes raciais), parecem se esconder importantes clivagens quanto s distintas

    estratgias de intervenes cientficas e polticas de que o negro estava sendo objeto.

    Estratgias que, embora convergentes nos esforos em deslocar os determinismos

    biolgicos associados ideia de raa, buscaram enquadrar as populaes negras em

    anlises expressivas dos diferentes vnculos partidrios, doutrinrios e institucionais destes

    pesquisadores e ensastas da raa.

  • 41

    CAPTULO I

    UMA FAMLIA DE CULTURA: OS SOUZA CARNEIRO E SEU MUNDO

    Em seu estudo sobre Mozart, Norbert Elias chama a ateno, com muita

    propriedade, para as iluses e os perigos encarnados na atitude de se apreender o

    significado, ou a falta de significado, da vida de algum segundo o padro que aplicamos a

    nossa prpria vida 37. Pois a vida, continua Elias:

    Faz sentido ou no para as pessoas, dependendo da medida em que elas conseguem

    realizar [suas] aspiraes. Mas os anseios no esto definidos antes [das] experincias.

    Desde os primeiros anos de vida, os desejos vo evoluindo, atravs do convvio com outras

    pessoas, e vo sendo definidos, gradualmente, ao longo dos anos, na forma determinada

    pelo curso da vida 38.

    De fato, a passagem no poderia ser mais apropriada para comear este captulo.

    Nele pretendo abordar as etapas iniciais da formao social, familiar e intelectual em meio

    s quais o jovem dison Carneiro foi moldando seus desejos e suas ambies frente

    sociedade baiana de incios do sculo XIX. Assim como Elias buscou recobrar os sentidos

    das prticas sociais e artsticas de Mozart no contexto das tenses entre a burguesia e a

    aristocracia de corte vienenses do sculo XVIII, as aspiraes intelectuais e mundanas de

    dison Carneiro apenas ganham inteligibilidade quando reinseridas no quadro de foras e

    presses sociais que as gestaram.

    Contudo, para que tais aspiraes possam surgir nos termos prprios daqueles que

    as vivenciaram, preciso reconhecer a necessidade de apreend-las luz de condicionantes

    mais abrangentes que, em grande medida, produziram uma posio de origem na trajetria

    social de dison Carneiro. Dito de uma outra maneira, devemos ser capazes de recuperar as

    coordenadas que remontam ao enraizamento social e poltico de dison Carneiro e sua

    famlia na Bahia de seu tempo, as quais no apenas deram feies s representaes de suas

    37 Cf. Norbert Elias, Mozart; sociologia de um gnio, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1995, p.10. 38 Idem, p.13.

  • 42

    identidades sociais e tnico-raciais, mas tambm, objetivamente, implicaram em certos

    direitos aos [espaos] possveis naquele mundo social 39.

    Decerto, ao invocar a importncia desde ponto de partida socialmente institudo,

    estou longe de afirmar que a partir dele se condensam todas as experincias capazes de

    explicar tudo aquilo que Carneiro veio a ser, fazer ou preterir no transcorrer de sua vida e

    de sua trajetria intelectual. Mas sim, busco enfatizar que a recomposio desta posio de

    origem bem como das propriedades e dos recursos (materiais e simblicos) a ela

    associados fornece um conjunto razovel de parmetros para o entendimento dos

    deslocamentos do autor na estrutura do espao social e intelectual brasileiros. Afinal, se

    ascendente, declinante, interrompida, marginalizada, vitoriosa ou derrotada, o modo como

    os indivduos e os grupos percebem e justificam sua trajetria social, em parte, se encontra

    sensivelmente atrelado ao lugar do qual partiram: ou melhor, pela relacin entre el capital

    de origen y el capital de llegada o, si se prefiere, entre las posiciones original y actual en el

    espacio social 40.

    Neste sentido, poucos elementos se revelaram to ricos e expressivos das energias e

    dos constrangimentos que plasmaram as primeiras etapas da formao cultural e intelectual

    de dison Carneiro quanto a sua prpria histria familiar e, em especial, a do pai, o

    engenheiro civil e professor da Escola Politcnica da Bahia, Antnio Joaquim de Souza

    Carneiro (1881-1942). Longe de se resumir a uma mera exumao documental, o

    levantamento cuidadoso dos eventos biogrficos pertinentes ao itinerrio educacional e

    profissional de Souza Carneiro possibilitou o tratamento de dimenses de outra maneira

    inacessveis ao ambiente de criao e socializao de dison 41. Em particular, duas delas

    me pareceram de singular relevncia: de um lado, as relaes e as modalidades de insero

    39 Cf. Pierre Bourdieu, As Regras da Arte, So Paulo, Cia das Letras, 1996, p.294. 40 Cf. Pierre Bourdieu, La distincin: criterios y bases sociales del gusto, Mexico D. F., Ed. Taurus, 2002, p.108. 41 Importante reforar que dison Carneiro, ao que tudo indica, nunca deixou quaisquer trabalhos ou escritos de cunho propriamente autobiogrfico, nos quais fosse possvel extrair relatos sobre suas experincias sociais de infncia e juventude, bem como sobre o ambiente de descobertas e confirmao de sua vocao intelectual. Ao mesmo tempo, alm dos poucos e insuficientes esboos biogrficos sobre o autor, a maioria expressiva das fontes que remete sua presena na cena cultural baiana a partir da dcada de 1920 encontra-se fortemente imersa s vises consagradas que Jorge Amado produziu sobre tal cena: em especial, as vises que Amado construiu sobre a Academia dos Rebeldes, grupo de juventude em que ambos participaram. De modo que foi sempre com muita dificuldade, me pautando em pistas, evidncias e referncias muitas vezes truncadas e esparsas, que consegui recuperar com alguma coerncia e sistematicidade a inscrio de dison Carneiro na cena social e cultural baianas das primeiras dcadas do sculo XX.

  • 43

    dos Souza Carneiro nos espaos das elites dirigentes baianas; de outro, em sintonia com a

    primeira, os efeitos dessas relaes nos tipo de identidades sociais e tnico-raciais que

    resvalaram nesta famlia e, por consequncia, na forma como seus membros tenderam a se

    apropriar simbolicamente do mundo em que viviam.

    Quando abordadas em conjunto, estas duas frentes de leitura sobre a trajetria de

    Antnio Joaquim de Souza Carneiro acabam por funcionar como um recurso vigoroso para,

    num momento seguinte, observamos como estas coordenadas de natureza familiar, poltica

    e tnico-racial rebateram, com intensidades variveis, nos primeiros experimentos

    intelectuais de dison Carneiro notadamente em suas poesias de juventude que, a partir

    de 1928, quando tinha dezesseis anos, comearam a aparecer em jornais e peridicos

    literrios de Salvador. Embora tenham pouca importncia no conjunto da obra do autor

    por ele prprio relegadas ao mais absoluto esquecimento , tais poesias constituem o que

    talvez seja um de seus raros escritos de feitio autobiogrfico: narrativas que mobilizaram

    personagens, valores, sentimentos, geografias e imagens da sociedade baiana que, a todo

    instante, remetem ao local social de fala do poeta. E, por isso mesmo, uma fonte reveladora

    das representaes que dison Carneiro fazia de si e das posies ocupadas por ele e sua

    famlia na estrutura social e de poder na Salvador de incios do sculo XX 42.

    Os Souza Carneiro

    O ambiente de criao e aprendizado cultural de dison Carneiro, em muito, traz as

    marcas da situao social instvel do pai que, a despeito da posio prestigiada como

    intelectual polivalente e docente da Escola Politcnica da Bahia, no conseguiu blindar a

    famlia de recorrentes momentos de agruras financeiras e ameaas de rebaixamento e

    desclassificao social. Em parte, como veremos adiante, essas vulnerabilidades,

    vivenciadas no plano pessoal e profissional, estiveram sensivelmente atreladas ao prprio

    42 Apenas recentemente uma parte desta produo potica de dison Carneiro foi compilada, sendo objeto de algum interesse pontual na anlise sua trajetria ou mesmo para a recuperao das atividades do grupo Academia dos Rebeldes, graas ao esforo de Gilfrancisco dos Santos que publicou uma srie de trinta e um poemas lanados por dison, em 1928, em Salvador. Cf. Gilfrancisco dos Santos, Musa Capenga: poemas de dison Carneiro, op.cit. Contudo, excludos a apresentao e as notas histricas produzidas para o livro, por Cid Seixas e pelo prprio Gilfrancisco, os poemas de dison Carneiro permanecem objetos praticamente intocados em termos analticos.

  • 44

    equilbrio instvel de poder entre os grupos oligrquicos atuantes na Primeira Repblica

    baiana, cujo cenrio de crise e estagnao econmica acirrava ainda mais as j encarniadas

    disputas pelo controle do Estado. Disputas que pareciam atingir de forma particularmente

    dramtica indivduos e famlias que, a exemplo dos Souza Carneiro, situados nos estratos

    mdios urbanos como jornalistas, servidores pblicos, professores ou profissionais liberais,

    depositavam nas lealdades e prestaes de servios polticos muitas das esperanas em

    melhorar suas chances de mobilidade e ascenso social. Contudo, parafraseando

    Malinowski 43, se quisermos infundir carne e esprito a este esqueleto estrutural de

    vulnerabilidades e inseguranas que rondaram a famlia de dison, penso ser indispensvel

    levar em conta a individualidade peculiar deste pai: um sujeito de comportamento

    excntrico e com uma especial inabilidade em lidar com a administrao e os

    imponderveis domsticos, agravada ainda por uma viuvez precoce e um segundo

    casamento clivado por tenses entre os filhos e a madrasta.

    Esta faceta embaraada no mbito domstico parece ter sido, de alguma forma, a

    contrapartida de uma vida que buscou fazer da posse e ostentao de suas competncias

    intelectuais e culturais o arrimo de suas veleidades sociais frente boa sociedade baiana.

    Uma competncia que Souza Carneiro exerceu com afinco nos mais variados gneros e

    assuntos: estudos tcnicos sobre minrios e geologia, alguns dos quais premiados; artigos e

    colunas na imprensa baiana, onde prestava seus tributos faco oligrquica a que esteve

    ligado; ensaios sociolgicos e de etnografia afro-brasileira e amerndia; romances de

    motivos regionais e folclricos; e, at mesmo, trabalhos de cunho esotrico, resultado de

    sua prtica como esprita, maom e membro de ordens msticas. O que, inclusive, acabou

    lhe rendendo a fama de bruxo e mago por parte de algumas pessoas que conviveram

    com ele. Em sntese, um personagem dos mais intrigantes e que, graas s suas posies e

    erudio e prodigiosa capacidade de trabalho 44, desempenhou uma influncia decisiva

    no destino social e profissional dos filhos.

    * * *

    43 Cf. Bronislaw Malinowski, Argonautas do Pacfico Ocidental, So Paulo, Abril Cultural, 1978, p.32 e ss. 44 Cf. dison Carneiro, Souza Carneiro, Revista Brasileira de Geografia, n2, abril-junho de 1943, p.320.

  • 45

    Filho de Antnio Joaquim de Souza Carneiro, um engenheiro mulato, e da no

    negra Rosa Sanches de Souza Carneiro, o tambm Antnio Joaquim de Souza Carneiro,

    pai de dison, foi o primognito dos quatro filhos do casal. Nascido em 1881, na cidade de

    Salvador, ainda muito cedo, aos dez anos, ficaria rfo de pai, vtima de um acidente

    ferrovirio no municpio de Piranhas (Alagoas), onde a famlia se encontrava por motivos

    de trabalho do progenitor 45. De fato, seria quase impossvel remontar a histria deste casal,

    tendo em mos apenas informaes muito vagas: o falecido era filho de um fazendeiro

    portugus no Cear e se formou em engenharia pela Faculdade Politcnica do Rio de

    Janeiro 46.

    No entanto, perfeitamente possvel especular que o av de dison talvez o

    resultado da unio ou do intercurso de uma negra escrava ou forra e o pai branco portugus

    (seu senhor?) tenha gozado de razovel situao financeira, a ponto de desperdiar uma

    temporada de estudos em Coimbra, conforme relatou sua neta: ele foi pra Coimbra e

    entrou na malandragem. Ento o velho no mandou mais dinheiro, ele teve que voltar e

    disse: se voc no quer estudar, voc vai trabalhar na roa igual a um trabalhador. E ele

    trabalhou uns dias e no aguentou aquilo e disse: no meu pai, quero estudar, a o pai

    mandou ele estudar no Rio. Ele se formou em engenharia no Rio 47.

    Se ele nasceu em Salvador, se ali chegou do Cear quando pequeno ou somente

    depois de formado, tambm difcil saber. O que parece certo, no entanto, que fora

    prtica comum entre livres, libertos e descendentes de origem africana se deslocarem de

    seus lugares de origem como uma forma de, segundo Keila Grinberg, libertar-se do

    passado escravo [...] por intermdio da constituio de novas relaes sociais [Afinal], a

    integrao sociedade dos livres [...] podia ser demorada, e estar num lugar desconhecido

    45 Apesar das ambiguidades contidas na classificao no-negra, preferi utiliz-la tal como empregada por sua neta, Edria Carneiro. No-negra para a av e mulato para o av: No, ela [Rosa Sanches] no era negra. [...] o av, pelos retratos que eu via dele, as feies dele era de um mulato. Cf. Edria Carneiro, Entrevista concedida ao autor, 18 de abril de 2008. Quanto ao acidente que matou o av, teria sido uma exploso da locomotiva, no dia da inaugurao da estrada de ferro que ele havia ajudado a projetar e construir: quando foi a inaugurao da estrada, mandaram vir [...] aquela mquina l que puxa o trem...a locomotiva. E todos os engenheiros dentro da locomotiva pra inaugurar a linha...a aquela mquina explodiu e morreram todos. Todos os engenheiros morreram queimados. Todos os engenheiros que trabalhavam ali, naquela estrada. Idem. 46 Idem. 47 Idem.

  • 46

    poderia ser meio caminho andado no processo de desaparecimento da referncia cor, ou

    melhor, condio social 48. Ainda mais numa cidade como Salvador que, por meados do

    sculo XIX, capital de uma das principais economias do Imprio, mantinha-se como um

    polo urbano bastante atraente para um grande nmero de pessoas de condies jurdicas

    diversas, oferecendo um cenrio onde as indefinies sociais poderiam jogar a favor dos

    mestios que buscavam atravs da educao ascender e se diferenciarem socialmente 49. E

    embora muito pouco se possa afirmar a respeito da trajetria do av de dison Carneiro,

    bem como sobre seus ascendentes, verossmil imaginar que ela no foi incomum,

    tampouco muito divergente daquelas de outros tantos negros e/ou mulatos que, a exemplo

    do jurista Antnio Pereira Rebouas (1798-1880) e de seu filho Andr Rebouas (1838-

    1898), do engenheiro Teodoro Sampaio (1855-1937), do mdico Alfredo Casemiro da

    Rocha (1855-1933), ou do funcionrio pblico e poltico Manuel Querino (1851-1923),

    condensavam muitos dos elementos presentes na famlia de dison. Entre os elementos que

    os credenciavam a melhores chances de mobilidade e ascenso, encontram-se: senso de

    oportunidade e capital de relaes e investimentos considerveis em educao e cultura,

    com o intuito de infundir alguma estabilidade s suas ambies de reconhecimento social e

    profissional, sujeitas, quase sempre, a contestaes em decorrncias da origem ou das

    raas dessas famlias 50.

    48 Cf. Keila Grinberg, O fiador dos brasileiros: cidadania, escravido e direito civil no tempo de Antnio Pereira Rebouas, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 2002, pp.47-48. 49 Cf. Na Salvador de meados do sculo XIX, se confundiam escravos, libertos e livres; muitos, inclusive, com alguma astcia e bastante senso de oportunidade, poderiam encontrar uma forma de reverter as condies sociais nas quais se encontravam, fosse negando a escravido, fosse logrando ingressar no universo dos homens livres, fosse [...] buscando a diferenciao social na educao. Idem, p.57. Segundo Maria Alice Resende de Carvalho, em trabalho sobre o engenheiro mulato Andr Rebouas, os estratos mestios da sociedade baiana conheceriam possibilidades maiores de ascenso, sobretudo, nos momentos posteriores ao processo de independncia do Brasil, a partir de 1822: quando, desalojados os portugueses que mantinham os privilgios comerciais dos tempos da colonizao, a praa de Salvador e toda a economia do Recncavo viram florescer uma sociedade mestia, educada e especificamente urbana, composta por comerciantes, clrigos, militares, funcionrios e profissionais liberais. Cf. Maria Alice. O quinto sculo: Andr Rebouas e a construo do Brasil. Rio de Janeiro, Revan/IUPERJ-UCAM, 1998, p.68. Ainda, sobre os canais de mobilidade e ascenso sociais possveis, sobretudo aos mestios na sociedade baiana, durante o perodo escravista, ver Jos Joo Reis, Rebelio escrava no Brasil: a histria dos levantes dos mals, 1835. So Paulo, Ed. Brasiliense, 1987 e, do mesmo autor, Domingos Sodr: um sacerdote africano, So Paulo, Cia das Letras, 2008. 50 Sobre a famlia Rebouas, ver Maria Alice Resende de Carvalho, O quinto sculo, op.cit., e Intelectuais negros no Brasil oitocentista, (mimeo), 2007; Leo Sptizer, Vidas de entremeio: assimilao e marginalizao na ustria, no Brasil e na frica Ocidental, Rio de Janeiro, Ed.UFRJ, 2001; e Keila Grinberg, O Fiador dos brasileiros, op.cit. Sobre o mdico baiano Alfredo Casemiro da Rocha, consultar Oracy Nogueira, Negro poltico, poltico negro, So Paulo, Ed.USP, 1998. Quanto a Manuel Querino,

  • 47

    Seja como for, quais fossem os

    caminhos ou os mveis que o levaram a

    capital baiana, foi ali que o av de dison

    Carneiro conseguiu prosperar econmica e

    profissionalmente, de modo que, sua morte

    precoce, deixando quatro filhos em idade

    escolar para criar, deve ter influenciado na

    deciso da esposa Rosa Sanches pouco

    tempo depois de enviuvar de contrair seu

    segundo casamento com o igualmente

    engenheiro e amigo da famlia, Aluzio

    Ramos Accioly. A partir de ento, Accioly

    assumiria a tutela das crianas e o controle

    do esplio financeiro deixado pelo falecido 51: entre os imveis, incluindo uma casa e

    uma roa na Freguesia da Penha, e cadernetas de poupana de iguais valor [sic] aos seus

    quatro filhos, ento menores, chegava-se a uma soma considervel de 33 contos de ris 52.

    No limite, a figura de Ramos Accioly resulta tanto ou mais misteriosa quanto a do

    prprio falecido Souza Carneiro. Muito pouco consegui descobrir sobre ele. No entanto, ao

    conferir Antnio Sergio Guimares, Manoel Querino e a formao do pensamento negro no Brasil, entre 1890 e 1920, Trabalho apresentando ao 28 Encontro Nacional da ANPOCS, Caxambu-MG, (mimeo), 2004 e Reginaldo Guimares, Breve esboo sobre a vida e a obra de Manuel Querino, Revista Brasileira de Folclore, Ano XII, n35, janeiro/abril de 1973. Sobre Teodoro Sampaio, Ivoneide de Frana Costa, O rio So Francisco e a Chapada Diamantina nos desenhos de Teodoro Sampaio, (Dissertao de Mestrado), UFBA, Salvador, 2007; e Nei Lopes, Enciclopdia brasileira da dispora africana, So Paulo, Selo Negro, 2004. Vale notar que todos eles no apenas eram filhos ou apadrinhados de homens brancos de posses e/ou respeitveis, fato que se mostrou decisivo em seus itinerrios sociais e profissionais, como tambm eram nascidos em territrio baiano. 51 Cf. Arquivo Pblico do Estado da Bahia (APEBa), Seo Judiciria, Srie Inventrios e Testamentos, Antnio Joaquim de Souza Carneiro, Ano 1909, Documento 07/3126/16. No sei ao certo quando Ramos Accioly e Rosa Sanches se casaram. Contudo, um relatrio escrito pelo prprio Accioly, anexado ao inventrio, aponta que, j em 1891, ele estava cuidando da educao das crianas. O primeiro marido de Rosa faleceu em 21 de janeiro de 1891. 52 Cf. APEBa, Seo Judiciria, Srie Inventrios e Testamentos, Antnio Joaquim de Souza Carneiro, Ano 1892, Documento 05/1826/2297/12. Jeferson Bacelar, trabalhando com sries de inventrios e testamentos do Arquivo Pblico do Estado da Bahia, para os anos de 1889 a 1919, estabelece a casa dos 50 contos de ris como critrio dos possuidores de pequenas fortunas. Marca tambm estabelecida por Ktia de Queirs Mattoso em Bahia sculo XIX: uma provncia no Imprio, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1992. Ainda, segundo Bacelar, 200:100$000 de ris poderia ser tomado como critrio do grupo de indivduos includos no rol dos realmente ricos da cidade [Salvador]. Cf. A Hierarquia das raas, Rio de Janeiro, Pallas, 2001, p.56.

    Rosa Sanches de Souza Carneiro, av paterna de dison Carneiro. Sem Data. Coleo Particular de Philon Carneiro

  • 48

    que tudo indica, mesmo no sendo homem de maiores posses, sua formao e atuao

    como engenheiro teria lhe permitido acumular certo prestgio e boas relaes, contribuindo

    para que os filhos de Rosa Sanches frequentassem algumas das melhores instituies de

    ensino particulares, destinadas formao dos rebentos da classe dirigente baiana 53.

    O percurso educacional das quatro crianas de Rosa Sanches (Antnio Joaquim,

    Jos Joaquim, Adlia Rosa e Edgar Sanches) mereceu o registro minucioso do padrasto,

    Aluzio Ramos Accioly, uma vez que, ao atingirem a maioridade, seus pupilos o acusaram

    de usar indevidamente o dinheiro da herana paterna que lhes pertencia. Intimado

    judicialmente a prestar contas da tutela, em agosto de 1909, Ramos Accioly redigiu um

    copioso relatrio de defesa, no qual buscava justificar seus gastos e suas movimentaes

    financeiras com a educao dos quatro jovens.

    Jos Joaquim, o segundo mais velho, nascido em 1883, aps um ano como interno

    no Colgio Carneiro Ribeiro, foi enviado ao Colgio Sete de Setembro, recomendando-o

    [...] ao seu diretor, senhor Dr. Luiz da Frana Pinto de Carvalho. Trs meses depois de sua

    entrada nesse colgio, dizia-me o emrito mestre que no o expulsava da casa em ateno a

    mim, por corresponder no empenho que eu manifestava com tanto ardor para que o

    menino estudasse, mas que era perder tempo e dinheiro 54. Teria sido apenas do terceiro

    ano em diante que Jos Joaquim, dando-se por vencido, comeou a estudar mais

    seriamente para, em seguida, cursar a Faculdade de Direito da Bahia, onde se formou em

    53 Ainda, e apenas no terreno especulativo, pode-se dizer que a morte do marido foi acompanhada de fortes momentos de insegurana financeira e social para Rosa Sanches e seus filhos, inclusive depois do segundo casamento. Sua neta relata que, aps enviuvar, a av teria se mudado para uma regio, na poca, afastada de Salvador e considerada uma espcie de enclave entre o mundo urbano e rural da cidade: Monte Serrat. Ali, (pelo que pude entender, mesmo depois de casada pela segunda vez), Rosa Sanches se dedicou a uma srie de atividades com o intuito de complementar os gastos com os estudos dos filhos: A o governo deu l uma penso [...] pra minha av. E minha av comprou um stio l no Monte Serrat e criou aqueles filhos e botou todos pra estudar, porque ela dizia: o que vale o estudo, no ... E minha av fazia azeite de dend, criou vaca pra vender leite [...] Todos estudando em colgio interno e tudo. E todos os filhos estudaram e se fizeram Cf. Edria Carneiro, Entrevista concedida ao autor, op.cit. Edria menciona tambm a existncia de um irmo de Rosa Sanches que era rico: ele construa...era um construtor de casas...Ele no era um engenheiro, nem nada. Mas era desses que constroem casas e no sei o que, e era rico. Idem. De fato, chega a ser intrigante a aglomerao dos homens da (e envolvidos com a) famlia Souza Carneiro nas reas da engenharia e da construo civil. Sou grato a Mariza Corra por me chamar a ateno para este ponto. Contudo, no consegui descobrir se este aspecto da famlia era mera coincidncia ou se, de alguma forma, poderia estar atrelado a certos condicionantes sociais que, talvez, pudessem impulsionar os filhos dessas famlias negro-mestias engenharia. Carreira que tambm foi abraada por Andr Rebouas e Teodoro Sampaio, por exemplo. 54 Cf. APEBa, Seo Judiciria, Inventrios e Testamentos, Antnio Joaquim de Souza Carneiro, Ano 1909, Documento 07/3126/16 (as nfases so minhas).

  • 49

    1908. J Adlia Rosa, de 1886, mesmo padecendo desde a idade de dois anos, de uma

    paralisia infantil, que a privava do uso dos membros inferiores do corpo, recebeu o

    diploma de aluna-mestra, em 1905, no Instituto Normal. Segundo Ramos Accioly, foi

    dentre os quatro irmos, o nico bom estudante 55. Edgar Sanches, o caula, vindo ao

    mundo em 1888, passou dez anos consecutivos nos colgios Spencer e So Salvador e,

    em 1909, encontrava-se no segundo ano do curso jurdico da capital baiana 56.

    Em nada diferente dos outros irmos, Antnio Joaquim de Souza Carneiro parece

    ter contado com certas vantagens decorrentes de sua condio de enteado de Ramos

    Accioly, a qual talvez servisse para contrabalancear certa irregularidade nos estudos do

    primognito:

    O mais velho, de nome Antnio, antes mesmo de ser seu tutor, pouco depois de sua

    chegada a esta capital [Salvador], em 1891, internei-o no Colgio So Jos, passando-o no

    ano seguinte para o Colgio Carneiro, e deste para diversos professores [...] para ensin-lo a

    estudar, por ser ele pouco aplicado ao estudo. Por fim, internei-o no Colgio Spencer, de

    onde saa todos os dias para frequentar as aulas da Escola Politcnica como aluno adido,

    sujeito ao pagamento de matrcula nessa escola. Fui forado a mand-lo a Aracaju afim de

    [documento rasgado] os preparatrios. Frequentou a Escola Politcnica durante sete anos e

    recebeu o diploma de engenheiro civil em 1905 [...] Devo muito aos lentes desta escola, em

    particular ao meus amigos Srs. Alexandre Maia e Arlindo Fragoso, muita gratido pelo

    que fizeram em favor de Antnio 57.

    difcil saber o que h de verdade nas palavras do padrasto quanto ao desempenho

    deficiente dos afilhados. Preocupado em convencer o Juiz de rfos de Salvador de seus

    esforos e de sua inocncia, quase certo que Ramos Accioly buscasse inflacionar a

    importncia de sua tutela. Contudo, uma inflao que em nada invalida a hiptese de que as

    55 Idem. Vale mais uma vez recorrer entrevista de Edria Carneiro, no sentido enfatizar a percepo, ao que parece, bastante lcida que Rosa Sanches de Souza Carneiro tinha quanto importncia da educao dos filhos. Mesmo com relao a Adlia Rosa, a filha mais nova com problemas de paralisia nas pernas, cujos conhecidos de Rosa Sanches, segundo Edria, a teriam recriminado por coloc-la num colgio interno para estudar: Todo mundo achava aquilo uma maldade dela, botar a filha.....e ela dizia: essa que precisa, pra no depender de ningum, tal...Ento a cunhada disse: ...as minhas filhas to estudando piano, msica e num sei o que....porque professora uma classe muito baixa... [e a av respondeu]: Ah! Minha comadre, sabe qual classe mais baixa que tem: a dos burros e dos ignorantes. Era uma velhinha assim, dessas n..... Edria Carneiro, Entrevista concedida ao autor, op.cit. 56 APEBa, Seo Judiciria, Inventrios e Testamentos, Antnio Joaquim de Souza Carneiro, op.cit. 57 Idem (as nfases so minhas).

  • 50

    amizades e a boa reputao do padrasto

    tenham, de fato, contribudo para o ingresso e o

    sucesso escolar dos quatro enteados. Afinal, na

    virada dos sculos XIX e XX, numa sociedade

    recm liberta do trabalho escravo, no deviam

    ser poucos os obstculos e os constrangimentos

    a que estavam expostos os raros negros e

    mestios que tiveram condies de aspirar a

    uma vaga nos estabelecimentos de ensino de

    elite. De modo que, a despeito das reconhecidas

    competncias ou das efetivas condies

    financeiras para custear os estudos, boas

    relaes, protees ou filiaes pareciam ser

    decisivas para que tais aspiraes no fossem

    brutalmente bloqueadas 58.

    Na falta de fontes ou indcios mais

    precisos que do conta da passagem dos Souza

    Carneiro pelos colgios e pelas faculdades que cursaram, podemos apenas imaginar

    controladamente o que teriam sido tais experincias nestes estabelecimentos, imersos

    num ambiente de relaes onde a cor e a origem no estavam imunes aos riscos de se

    converterem em motes de estigmas, conflitos, recusas e isolamentos. Uma situao de

    vulnerabilidade e violncia simblica que devia exigir jogo de cintura e senso aguado nas

    negociaes travadas naqueles espaos, a fim de que os marcadores tnico-raciais no

    encerrassem ou monopolizassem as representaes de suas identidades sociais. Decerto, um

    intento delicado e, quase sempre, apenas parcialmente logrado (quando no, simplesmente

    58 Vale a pena recorrer, neste sentido, ao estudo pioneiro de Thales de Azevedo sobre as elites de cor em Salvador, no qual o autor relata um caso bastante expressivo das presses sociais que agiam sobre os indivduos negros e mestios que buscavam o ingresso nos colgios baianos, especialmente nos particulares o que era extremamente raro no incio do sculo XX, segundo Azevedo. O caso teria se passado por volta de 1915, quando uma dessas escolas [particulares] recusou matrcula a um estudante muito escuro, o que deu lugar a veemente protesto de um advogado preto. Procurando explicar o incidente, a diretoria do estabelecimento declarou que agia de acordo com os padres em vigor, isto , sob a tcita presso das famlias de classe alta. Cf. As elites de cor numa cidade brasileira, Salvador, Ed.UFBA, 1996, p.111-12. Ainda, segundo Azevedo, mesmo na dcada de 1950, alguns colgios particulares baianos mais exclusivistas chegaram a registrar noventa por cento de alunos brancos. Idem, p.110.

    Adlia Rosa, irm mais nova de Antnio Joaquim de Souza Carneiro. Sem data. Acervo Particular de Philon Carneiro.

  • 51

    fracassado), como bem revelam exemplos como os do mdico baiano estudado por Oracy

    Nogueira, Alfredo Casemiro da Rocha (1955-1933) e do escritor carioca Lima Barreto

    (1881-1922).

    Ainda que em perodos e lugares distintos, ambos mostram-se casos significativos

    das dificuldades e dos preconceitos que pontuavam a presena desses negros e mulatos nas

    faculdades brasileiras de meados e finais do sculo XIX. Dificuldades e preconceitos que

    podiam ser vivenciados tanto na forma jocosa dos cognomes pejorativos como no caso de

    Casemiro da Rocha, em Salvador, cujos colegas do curso mdico, prontamente o

    apelida[ram] de negrinho, tendo que aprender muito rapidamente a potencializar o

    efeito de realar a distncia entre sua situao efetiva e a expectativa que sua aparncia

    suscitava 59 quanto atravs dos sentimentos de intimidao e acuamento produzidos pelo

    compassivo desdm de tratamento por parte dos filhos grados de toda sorte tal como

    registrou o escritor Lima Barreto sobre sua fracassada tentativa de concluir a faculdade de

    engenharia no Rio de Janeiro 60. Assim, talvez faa sentido dizer que muitas das atenes

    e das gratides invocadas pelo padrasto Aluzio Ramos Accioly possam tambm ser lidas

    como registros cifrados de intercesses de seus amigos, diretores e professores, em

    amortecer eventuais tenses de natureza racial envolvendo os jovens da famlia Souza

    Carneiro.

    Infelizmente no foi possvel esmiuar a procedncia dos laos entre Ramos

    Accioly e, em particular, os docentes da Escola Politcnica da Bahia, os quais teriam

    atuado em favor do pai de dison de Carneiro. No entanto, quaisquer fossem os mveis

    desses laos, eles foram fortes o suficiente para que Antnio Joaquim de Souza Carneiro os

    carregasse como parmetro de suas futuras tomadas de posio junto s faces

    oligrquicas locais. Uma srie de pistas, dentre as quais o relatrio de Ramos Accioly a

    primeira, sugere que Souza Carneiro gozou de protees e auxlios dos amigos do tutor:

    especialmente de Arlindo Coelho Fragoso (1865-1926). Sem dvida, uma condio que

    deve ter influenciado decisivamente a vida social e profissional de Souza Carneiro. Ainda

    59 Cf. Oracy Nogueira, Negro poltico, poltico negro, So Paulo, Ed.USP, 1992, p.35. 60 Cf. Lima Barreto, Um longo sonho de futuro: dirios, cartas, entrevistas e confisses dispersas, Rio de Janeiro, Graphia, 1998, p.336.

  • 52

    mais quando se tm em vista as credenciais do protetor que, de forma alguma, podem ser

    minimizadas.

    Formado em engenharia no Rio de Janeiro, duas vezes deputado federal pela Bahia,

    diretor da Secretaria da Agricultura no governo de Lus Vianna (1896-1900) e principal

    responsvel pela criao da Escola Politcnica do estado, em 1896, onde foi seu primeiro

    diretor entre os anos de 1897 e 1908, Arlindo Fragoso emprestou muito de sua autoridade

    acadmica e poltica para essa instituio. Inclusive, foi graas atuao de Fragoso que,

    pondo em campo todo o seu prestgio 61 como Secretrio Geral do Estado no governo de

    Jos Joaquim Seabra (1912-1916), a Politcnica adquiriu a sua sede permanente, em 1915,

    com a compra de um palacete no Largo So Bento. Neste mesmo perodo, Fragoso foi

    um dos engenheiros responsveis pela criao e execuo do projeto de remodelao

    urbana de Salvador, cujo plano diretor (abertura da Avenida Sete de Setembro,

    assoreamento da cidade baixa, ampliao do porto etc.) pretendia no apenas sanear e

    higienizar o centro da capital, mas tambm amenizar sua arquitetura colonial, conferindo-

    lhe uma fachada mais moderna e civilizada 62. Com uma carreira das mais vigorosas

    entre os quadros polticos e intelectuais da Primeira Repblica na Bahia, deveu-se ainda

    interveno de Arlindo Fragoso a fundao, em 1917, de uma instituio que, ao lado do

    Instituto Histrico e Geogrfico, foi central na organizao da vida cultural local: a

    Academia de Letras da Bahia, para a qual redigiu e assinou todas as cartas aos intelectuais

    que deviam compor o quadro da Academia. Escolheu os 40 patronos e os ocupantes das

    respectivas cadeiras 63.

    Ora, diante de to prestigiada figura pblica, na ocasio de sua morte, em janeiro de

    1926, no seria surpresa que as homenagens prestadas a Arlindo Fragoso ficassem a cargo

    61 Cf. Sem Autor, Escola Politcnica e Instituto Politcnico da Bahia in Dirio Oficial do Estado da Bahia: edio comemorativa da independncia da Bahia (1923), Edio Fac-similar, Salvador, FPC/APEBa/Centro de Memria, 2004, p.463. Vale mencionar que, em seguida a Arlindo Fragoso, o segundo diretor da Escola Politcnica foi o outro amigo do tutor, o engenheiro Alexandre Maia Bittencourt, entre 1908 e 1912, um dos scios fundadores da instituio. Cf. Idem, p.462. 62 Sobre as reformas levadas a cabo pelo governo de Jos Joaquim Seabra, entre 1912 e 1916, bem como suas relaes com as preocupaes comerciais, epidmicas e modernizadoras cf. Elosa Petti Pinheiro, Europa, Frana e Bahia: difuso e adaptao de modelos urbanos, Salvador, Ed. UFBA, 2002 e Cristiane Maria Cruz e Souza, A gripe espanhola na Bahia: sade, poltica e medicina em tempos de epidemia, Rio de Janeiro (Tese de Doutorado), FIOCRUZ, 2007. 63 Cf. Marieta Alves, Intelectuais e escritores baianos: breves biografias, Salvador, Fundao Museu da Cidade, 1977, p.75.

  • 53

    de algum muito prximo do proeminente falecido e, porque no, um dileto ou discpulo

    seu: algum reconhecido enquanto tal pelo corpo docente da prpria faculdade que ele

    havia fundado. De modo que, nas grandes homenagens da Escola Politcnica memria

    de seu fundador, Souza Carneiro foi unanimamente escolhido por seus pares [...] para

    estudar a individualidade do Dr. Arlindo Fragoso, sob seus mltiplos aspectos

    engenheiro, professor, orador, administrador, crtico [e] jornalista 64.

    No saberia dizer quando a biografia encomendada foi entregue. No entanto, na

    edio de 1942, da Revista da Academia de Letras da Bahia, podemos ler um artigo de

    Souza Carneiro que corresponde bastante aos objetivos do referido estudo ou ao menos

    parte dele. Pela forma, pompa retrica e, por vezes, o tom inflamado, o texto deve ter sido

    preparado para alguma leitura que Souza Carneiro fizera na Escola Politcnica, resultando

    num retrato admirado e emocionado do mestre Arlindo Fragoso:

    Eminentes colegas da Escola [...] Quando me honrastes em ser vosso intrprete,

    escolhendo-me arauto de vossas manifestaes de gratido ao que Arlindo Fragoso foi para

    a Escola Politcnica, me envolvestes num banho de luz, obrigando-me a falar sobre a

    individualidade de moo, de crtico, de artista, poltico, de jornalista; de Arlindo em sua

    feio multiforme de homem pblico, e discpulo, e mestre, e amigo, e criador; de Arlindo

    em seu extraordinrio talento, em sua maravilhosa condio de literato, e cientista, e

    engenheiro [...] Aqui estou no desempenho dessa misso [...] seguro da incumbncia, por

    ele mesmo deixada, de ser o seu bigrafo nas linhas que redigi para agora, que rendemos a

    seus feitos, a eternidade de nossos coraes 65.

    A suposta confiana de Arlindo Fragoso no discpulo, a ponto de, em vida, atribuir-

    lhe pessoalmente a misso de redigir sua biografia, constantemente ressaltada no texto.

    Souza Carneiro chega a afirmar que Fragoso teria considerado indic-lo para uma das

    cadeiras da Academia de Letras da Bahia. Uma indicao que o pai de dison, segundo ele,

    64 Sem autor, As grandes homenagens da Escola Politcnica, Dirio da Bahia, Salvador, 21 de Janeiro de 1926, p.01. 65 Antnio Joaquim de Souza Carneiro, Arlindo Fragoso, Revista da Academia de Letras da Bahia, vol.8, n16, 1942, pp.345-46 (as nfases so minhas). O fecho deste texto de Souza Carneiro revelador das suas percepes como um discpulo de Arlindo Fragoso, ao lado de toda uma gerao de professores da Escola Politcnica: Arlindo viver imortal na gratido de nossas homenagens, no bronze que legamos aos psteros como se contenha os segredos da esfinge, pois sualma grande e seu esprito criador formaram o suntuoso templo em que nascemos, seus discpulos, e suas palavras deram-nos a luz da verdade que acendeu em ns o fogo sagrado que eterniza sua obra ao desafio dos sculos dos homens. Idem, p.365 (as nfases so minhas).

  • 54

    viu-se obrigado a humildemente recusar, uma vez que o prprio Fragoso, fundador da

    agremiao, correria o risco de ficar sem lugar entre os imortais locais: escolhe para [a

    Academia de Letras] quarenta nomes que realmente figuram na conscincia sua, mas a

    poltica deve ser atendida, as amizades devem ter um lugar com as inimizades, as

    convenincias devem jogar com o conceito. [Ento] cedo-lhe o lugar que me destinou 66.

    Decerto, seria preciso enxergar com ressalvas o modo como Antnio Joaquim

    Souza Carneiro invocava o esplio de Arlindo Fragoso a fim de se apropriar das virtudes do

    ilustre falecido. Contudo, creio ser impossvel duvidar da existncia de fortes sentimentos

    de afeio e respeito mtuos entre Souza Carneiro e Fragoso. Afinal, embora herdada como

    uma espcie de bem de famlia, esta relao foi sancionada pblica e academicamente pelos

    prprios membros da faculdade que Arlindo havia ajudado a criar. Uma relao, cujas

    vantagens nem sempre nem sempre resultaram em ganhos materiais, mas que tiveram

    rendimentos simblicos substantivos, especialmente no que diz respeito qualidade e ao

    volume de capital social a ela atrelados, possibilitando a Souza Carneiro chances melhores,

    novas protees, empregos, postos na imprensa, apadrinhamento dos filhos e at mesmo

    uma carreira poltica. Porm, to importante quanto, uma rede de relaes que, articulada

    aos seus trunfos educacionais e s suas competncias culturais, ajudou a informar as

    percepes de localizao e pertencimento social e tnico da famlia Souza Carneiro.

    Importa, por hora, chamar a ateno para a forma como este apadrinhamento se

    mostra uma evidncia eloquente para se entender os tipos de lealdades polticas que

    estiveram na base da existncia social da famlia Souza Carneiro. Afinal, como observou

    Consuelo Novais Sampaio, as distines mais significativas entre os membros das camadas

    mdias urbanas, em Salvador, tendiam a se realizar justamente a partir das fidelidades e

    prestaes de servios aos cls familiares e s faces oligrquicas no poder ou na

    oposio. Tendo em vista o baixo grau de diferenciao da estrutura social baiana,

    organizada basicamente pelos servios vinculados produo agroexportadora retrada

    66 Idem, p.362 (as nfases so minhas). Embora seja possvel que o convite tenha sido feito por Arlindo Fragoso, o mais provvel que Souza Carneiro ficasse sem nenhuma vaga, no pela sua recusa, mas por questes outras: as cadeiras da Academia de Letras da Bahia estavam sendo usadas por Fragoso, como o prprio pai de dison deixa entrever, para amortecer uma srie de choques advindos das brigas polticas locais, procurando um equilbrio entre membros de diferentes grupos oligrquicos, bem como entre os nomes brasonados da elite local. Sobre a histria da Academia de Letras da Bahia, cf. Jorge Calmon, A Academia de Letras da Bahia, s/d. Disponvel em: http://www.academiadeletrasdabahia.org.br/academia/academia.htm. Arquivo acessado em 10 de dezembro de 2009.

  • 55

    desde os tempos do Imprio , e ao crescimento da mquina burocrtica, as lealdades

    polticas revelavam-se uma estratgia central na existncia dos grupos mdios: foi atravs

    desse mecanismo de identificao [as lealdades polticas] que muitos de seus membros

    concretizaram aspirao social, integrando-se ao pequeno universo das classes dirigentes 67.

    Tal situao no seria diferente daquela vivenciada pelo pai de dison Carneiro e

    sua famlia, cujas ambies sociais e profissionais estiveram sensivelmente condicionadas

    aos sucessos e fracassos das faces polticas apoiadas pelo padrasto e por Arlindo Fragoso,

    nas quais se destacava a liderana inconteste de Jos Joaquim Seabra (1855-1942). Para

    correligionrios dedicados como foram os Souza Carneiro, certamente no faltaram

    oportunidades e meios para que J. J. Seabra pudesse recompens-los no correr de seus

    notveis doze anos de controle ininterrupto sobre a engrenagem poltica baiana, entre 1912

    e 1924: perodo em que se elegeu duas vezes governador (1912-1916 e 1920-1924), bem

    como fez seu sucessor, elegendo seu homem de confiana, Antnio Moniz Sodr de

    Arago, para o mandato de 1916-1920. Com slidas relaes no mbito federal (antes de

    ser governador, fora ministro em duas diferentes presidncias), personalidade carismtica

    insofismvel e viso realista do poder, Seabra soube no apenas se ajustar e tirar

    proveito das fundas dissidncias oligrquicas disseminadas por todo o estado,

    domesticando os coronis 68, mas tambm cativar nmeros expressivos de seguidores

    fiis entre diferentes segmentos da sociedade baiana. Em especial, entre os grupos urbanos

    de Salvador, onde, segundo o historiador Cid Teixeira, a raposa Seabra inaugurou nos

    costumes poltico da Bahia [...] uma coisa que at ento era desconhecida: o comcio, o

    apelo direto ao povo [...] O primeiro a reunir o povo na rua, [a] usar todo o seu carisma

    diretamente multido [...] que o vai cristalizando como um lder a partir da capital, na

    convenincia e na troca do apoio com o coronelismo, com o poder do serto 69.

    67 Cf. Consuelo Novais Sampaio, Partidos polticos da Bahia na Primeira Repblica: uma poltica da acomodao, Salvador, Ed.UFBA, 1998, p.41. 68 Cf. Consuelo Novais Sampaio, Partidos polticos da Bahia na Primeira Repblica, op.cit., pp.129 e ss. Jos Joaquim Seabra ocupou a pasta do Ministrio do Interior e Justia, durante governo de Rodrigues Alves (1902-1906) e, depois, a da Viao e Obras Pblicas, entre 1910 e 1912, na presidncia de Hermes Fonseca (1910-1914). 69 Cf. Cid Teixeira, As oligarquias na poltica baiana in Wilson Lins [et.al.], Coronis e Oligarquias, Salvador, UFBA/Ianam, 1988, p.42. Para um rpido levantamento biogrfico da raposa J. J. Seabra e sua capacidade de negociar e impor suas posies, ver Silvia Noronha Sarmento, A raposa e a guia: Rui

  • 56

    Com certeza, em muitos destes comcios, mas tambm nas recepes, nas

    homenagens e nos jantares dedicados a J. J. Seabra, estiveram presentes Antnio Joaquim e

    demais membros da famlia Souza Carneiro, prestando todo o seu apoio ao glorioso chefe70.

    Um apoio incondicional e de longa data que, ao fim, se mostrou decisivo para a realizao

    da carreira poltica do irmo mais velho de dison, o futuro senador da Repblica, Nelson

    Carneiro (1910-1996). No por acaso, dentre os membros da famlia, aquele quem forneceu

    uma das melhores e mais expressivas amostras da gravidade que revestia as atitudes da

    famlia para com o chefe Seabra, descrita nos seguintes termos: ramos seabristas de

    trs geraes, dos que no abandonaram o glorioso chefe [...] Seguia assim a trilha

    normal, que eu prprio preferira trs anos antes, quando naquela madrugada de 1926 [...], J.

    J. Seabra, a quem meu tio me apresentava, me comoveu: Um Souza Carneiro no

    degenera 71.

    Em sntese, para esta famlia situada nas posies mdias da estrutura social de

    Salvador, sem condies de agenciar posses ou smbolos de distino histrica e

    tradicionalmente valorizados pela sociedade baiana propriedades rurais, fortuna, origem

    familiar, ancestralidade nobilirquica, antiguidade no mando poltico ou mesmo uma

    branquitude acima de qualquer suspeita e cuja ocupao do pai como catedrtico da

    Politcnica era a nica fonte regular de renda, bastante provvel que a boa administrao

    de seus estoques de relaes fosse central para a manuteno e reproduo de suas

    posies. De modo que possvel afirmar que as lealdades polticas e a polivalncia

    intelectual, buscando se afirmar antes de qualquer coisa como homem de honra,

    Barbosa e J. J. Seabra na poltica baiana da Primeira Repblica, IV Encontro Estadual de Histria ANPUH/Bahia, (mimeo), 2008. Sobre o domnio seabrista e as interferncias do governo federal para o estabelecimento e a manuteno de seu mando poltico, alm do j mencionado trabalho de Consuelo Novais Sampaio, Partidos polticos da Bahia na Primeira Repblica, op.cit., ver Mnica dos Santos Quaresma, O salvacionismo na Bahia: o poltico e a poltica de J. J. Seabra (1912-1916), (Dissertao de Mestrado), Campinas, Unicamp-IFCH, 1999; e ABREU, Alzira. [et.al]. Dicionrio histrico-biogrfico ps-30. Rio de Janeiro, CPDOC/FGV, 2001. 70 Durante a campanha e, depois da consolidao da vitria da Aliana Liberal, na Bahia, o jornal Dirio da Bahia registrou de maneira constante a presena da famlia Souza Carneiro nas homenagens, reunies e comcios de J. J. Seabra e membros de seu partido, os quais foram um dos poucos integrantes da elite local que apoiaram, ainda que por pouco tempo, a eleio de Getlio Vargas. Entre as assinaturas que encabeavam o Comit Executivo do Partido Democrata, estava a do advogado, Jos Joaquim de Souza Carneiro, tio paterno de dison. Cf. Chegam, hoje, Bahia os Srs. J. J. Seabra e Moniz Sodr, Dirio da Bahia, Salvador, 22 de dezembro de 1931, s/d. 71 Nelson Carneiro, Chefe in Punhados de Vida, Braslia, Centro Grfico do Senado Federal, 1990, p.55 (as nfases so minhas).

  • 57

    inteligncia, leal e de cultura, foram alguns dos principais trunfos mobilizados por

    Antnio Joaquim de Souza Carneiro na tentativa de assegurar melhores posies no interior

    da classe dirigente baiana.

    A morte branca do engenheiro mulato Antnio Joaquim de Souza Carneiro

    Antnio Joaquim, ao que tudo indica, se casou com a mulata Laura Coelho de

    Souza Carneiro logo depois de concluir o curso de engenharia civil, em 1904, uma vez que

    o primeiro filho do casal, Franklin, nasceu em junho de 1907 72. O primeiro de uma leva de

    mais seis: Milton de Souza Carneiro, em abril de 1909; Nelson de Souza Carneiro, em abril

    de 1910; dison de Souza Carneiro, em agosto de 1912; Ivan de Souza Carneiro, em maro

    de 1914; Miriam Stella de Souza Carneiro, em setembro de 1920 e, finalmente, Carmen

    Ldia de Souza Carneiro, em fevereiro de 1922 73. Casamento que tambm coincidiu com o

    incio precoce da carreira universitria de Souza Carneiro que, dando provas de sua

    competncia e de suas boas relaes com Arlindo Fragoso, ento diretor da instituio,

    assumiu a ctedra de Geologia apenas um ano depois de se formar, j em 1905. Isto, numa

    instituio, como lembra Thales de Azevedo nos anos 1950, que antigamente dificultava

    [...] a admisso de alunos de cor 74. Uma situao que no era menos verdadeira para o

    72 Aqui, mais uma vez, valho-me de Edria Carneiro como informante: O pai de dison que casou com uma mulata. Cf. Edria Carneiro, Entrevista concedida ao autor, op.cit. Embora no disponha de qualquer evidncia ou base documental segura, possvel especular sobre a existncia de algum grau de parentesco entre Laura, a esposa de Souza Carneiro, e Arlindo Fragoso, uma vez que ambos carregavam o Coelho como segundo nome o qual Laura manteve mesmo depois de casada. O que talvez explique ainda mais os fortes laos entre Antnio Joaquim e seu mestre Arlindo Coelho Fragoso. 73 Cf. APEBa, Seo Judiciria, Srie Inventrios e Testamentos, Antnio Joaquim de Souza Carneiro, Ano 1943, Documento 05/2300/2800/06. O casal teve ainda mais um filho, poucos anos mais novo que dison, mas que morreu, creio, em 1940, de um colapso cardaco decorrente da sade debilitada pela tuberculose. dison e sua ento recm-esposa, Magdalena Botelho, se fixaram em Brotas, regio afastada de Salvador, para que tentassem cuidar da sade de Philon: alugamos uma casa em Brotas e l passamos trs meses, sem que ele, entretanto, melhorasse, como eu esperava [...] at que [...] ele morreu, alis de colapso cardaco [...] Foi um tempo ruim e voc bem pode calcular os dias e as noites que passamos. Eu quase no podia sair. Cf. Carta de dison Carneiro para Ruth Landes, 24/outubro/1940. Ruth Landes Papers, National Anthropolical Archives, Smithsonian Institution, Letters Received, Box 4. Da talvez o gesto de dison em homenagear o irmo, cuja morte ele acompanhou de perto, dando o nome de Philon ao seu primeiro filho, nascido em 1945. 74 Cf. Thales de Azevedo, As elites de cor numa cidade brasileira: um estudo de ascenso social, Salvador, EdUFBA/EGBA, 1996, p.131.

  • 58

    recrutamento de seu professorado, embora possvel. Ainda que, segundo Thales, teriam

    sido homens de cor mais de um diretor da escola 75.

    Nos anos seguintes sua efetivao na Politcnica, Souza Carneiro se dedicou com

    afinco ao ensino das disciplinas de geologia e reas afins e ao estudo das diversidades

    naturais e minerais do estado da Bahia, que resultariam numa primeira leva de trabalhos

    tcnicos e colocariam seu nome em evidncia na vida pblica e intelectual brasileiras. Entre

    os mais significativos, uma srie de pequenas monografias sobre variedades de mamferos,

    insetos, moluscos, madeiras de construo e toda espcie de plantas oleferas e

    medicinais, e especialmente o volume, Riquezas Minerais do Estado da Bahia (1908),

    estudo que lhe rendeu o Grande Prmio da Exposio Nacional de 1908, realizada no Rio

    de Janeiro como parte das comemoraes do centenrio da abertura dos portos brasileiros 76.

    Professor laureado e de reconhecido saber, a partir de 1912, com a eleio de J. J.

    Seabra e a convocao de Arlindo Fragoso para a Secretaria Geral do Estado, Souza

    Carneiro recebeu as primeiras indicaes para os cargos comissionados que chegou a

    ocupar: engenheiro-chefe da Comisso Geogrfica e Geolgica do Estado, Chefe de

    Estudos da Rede Baiana de Ferro e, por fim, Superintendente dos Servios de Gs e

    Eletricidade de Salvador 77. Mesmo com o acmulo de tarefas, neste mesmo contexto

    Souza Carneiro foi enviado para o Rio de Janeiro, em 1913, como representante da Bahia

    na Exposio Nacional da Borracha, ocasio em que seria novamente recompensado, desta

    vez, com o Grande Prmio do Ministrio da Agricultura por seus trabalhos A borracha no

    estado da Bahia, A indstria da borracha no Brasil e a brochura para a divulgao no

    estrangeiro, Rubber in Brazil (os trs publicados em 1913) 78. Sem dvida, este foi o

    75 Idem, ibidem. Um deles, a quem Thales de Azevedo se refere, certamente o prprio Souza Carneiro que, por volta de 1908, assumiu temporariamente a direo da Escola, enquanto Arlindo Fragoso cuidava dos preparativos para a construo do pavilho da Bahia na Exposio Nacional de 1908, no Rio de Janeiro. Cf. Antnio Joaquim de Souza Carneiro, Arlindo Fragoso, op.cit., p.360. 76 dison Carneiro, Souza Carneiro, Revista Brasileira de Geografia, n2, abril-junho de 1943, p.319. Neste mesmo artigo, afirma dison, que Riqueza Minerais da Bahia bateu um verdadeiro record de vendas na poca de seu lanamento, ganhando edies sucessivas. Idem, ibidem. 77 Idem, p.320. digna de nota a mxima de governo de J. J. Seabra, pronunciada no jantar de posse de seu primeiro mandato como governador: politicamente, governarei com os meus amigos; administrativamente, o farei com as competncias. Apud Mnica dos Santos Quaresma, O salvacionismo na Bahia, op.cit., p.145. Souza Carneiro reunia exemplarmente estas duas condies para que merecesse as indicaes que recebeu. 78 dison Carneiro, Souza Carneiro, op.cit., p.320.

  • 59

    perodo mais vigoroso da carreira acadmica e

    cientfica de Souza Carneiro, resultando em uma

    avalanche de trabalhos, todos produzidos no

    decorrer dos primeiros vinte anos da sua vida

    pblica: Limites intermunicipais; o estudo de

    ecologia, A pesca da baleia; as monografias

    descritivas, A cachoeira de Paulo Afonso e O

    morro de Santo Antnio; e os trabalhos de

    divulgao para os Estados Unidos, Cooper in

    Brazil, Manganese in Brazil e Mineral resources of

    the state of Bahia; e ainda outras monografias e

    relatrios sobre a Bacia do Rio So Francisco e a

    argila plstica do Retiro 79.

    Contudo, mesmo com o posto na Escola

    Politcnica e a atuao nos demais cargos

    comissionados, a famlia numerosa no permitia

    maiores folgas financeiras ao professor. Em parte,

    isso explicaria as tentativas, todas frustradas, de Souza Carneiro de abrir novas frentes de

    renda, especialmente a partir de 1918, quando j havia nascido o quinto filho, sendo trs

    deles em idade escolar. Para este perodo, consegui localizar algumas escrituras de

    contratos firmados por Souza Carneiro relacionados com a explorao e comercializao de

    mangans em territrio baiano. Mas o reconhecido saber tcnico que ele tinha sobre a

    explorao de minrios no devia ser o mesmo para os negcios. Por razes desconhecidas,

    alm de ter rompida sua sociedade com certo senhor Doutor Demtrio Urpia, viu-se ainda

    judicialmente obrigado a ceder os eventuais lucros provenientes da negociao do

    mangans extrado, em razo das dvidas no cumpridas, de montante considervel, que

    alcanava a quantia de vinte contos de ris entre despesas com pessoal, freteiros [e]

    transportadores 80. Desfeitas as expectativas em fazer dinheiro no setor minerador, Souza

    79 Idem, ibidem. O artigo de dison Carneiro no faz meno s datas de especficas de produo ou publicao desses trabalhos do pai. 80 Em escritura de 31 de dezembro de 1918, pode-se ler que Souza Carneiro estava obrigado a penhorar os minrios existentes na dita ilha de (ilegvel) at o suficiente para cobrir o dito dbito de vinte contos. Cf.

    Foto de Antnio Joaquim Souza Carneiro publicada em seu livro, Riquezas Minerais do Estado da Bahia, de 1908, poucos anos depois de ingressar como docente da Escola Politcnica. Reproduzido de Waldir Freitas Oliveira e Vivaldo da Costa Lima. Cartas de dison Carneiro a Arthur Ramos.

  • 60

    Carneiro buscou, sem sucesso, uma colocao como docente no Ginsio da Bahia, em

    1921. Tentaria, ainda, mais uma vez no ano seguinte, repetindo o resultado: apresenta-se

    novamente o Dr. Antnio de Souza Carneiro candidato ao concurso da seo de matemtica

    [...] Em cinco reunies da congregao leu o Dr. [Luis Anselmo da] Fonseca o parecer, de

    que foi relator, inabilitando o candidato. Posto em discusso, o parecer foi aprovado por

    unanimidade 81. Por fim, Souza Carneiro desistiu de buscar novas ocupaes, ficando

    unicamente com o ensino na Escola Politcnica e com as eventuais rendas advindas dos

    cargos por indicao e de suas colaboraes na imprensa.

    Os momentos de dificuldades, no entanto, devem ter se agravado mais seriamente a

    partir de 1924, quando finalmente, aps longos doze anos, os grupos rivais de J. J. Seabra

    conseguiram derrub-lo do poder. Enfraquecido com a derrota de sua candidatura vice-

    presidncia na chapa com Nilo Peanha, em 1922, e j fragilizado internamente pelos

    ataques constantes que vinha sofrendo de uma forte oposio articulada por duas

    tradicionais famlias no mando poltico da regio, os Calmons e os Mangabeiras, Jos

    Joaquim Seabra conheceria no apenas a impopularidade, mas tambm uma derrota

    fulminante que praticamente encerraria sua carreira poltica no estado 82. A reconfigurao

    da poder local, com a ascenso de Francisco Marques de Gis Calmon (1924-1928) ao

    executivo baiano, teria efeitos quase que imediatos na vida de Souza Carneiro e outros

    tantos seabristas de trs geraes 83, lanados em um ambiente hostil que se seguiu

    posse do novo governador. Desde ento, passou a existir:

    Uma dicotomia completa, um maniquesmo absoluto na poltica baiana: ou se seabrista

    ou [...] calmonista [...] E [...] realmente, a partir de 1924 at 1930, o que existe na Bahia [...]

    uma disputa de suas estruturas oligrquicas [que] vai se caracterizar por derrubadas,

    perseguies, perdas de mando, ascenso de valores novos, por mil coisas que vo

    significar a polarizao das foras 84.

    APEBa, Seo Judiciria, Livro de Notas da Capital, Livro 86, folha 14, Ano 1918-1919. Outras referncias sobre a firmao e reciso dos contratos de Souza Carneiro para a comercializao de mangans, podem ser encontradas em APEBa, Seo Judiciria, Livro de Notas da Capital, Livro 230, Ano 1918, folhas 8, 9 e 21. 81 Gelsio de Abreu Farias, Memria histrica do ensino secundrio da Bahia (1837-1937), Bahia, Imprensa Oficial do Estado, 1937, p.287. 82 Cf. Consuelo Novais Sampaio, Partidos Polticos da Bahia na Primeira Repblica, op.cit., pp.164-69. 83 Cf. Nelson Carneiro, Chefe in Punhados de vida, op.cit., p.55. 84 Cid Teixeira, As oligarquias na poltica baiana, op.cit., p.47.

  • 61

    Por esta poca, em virtude das atitudes firmes de Souza Carneiro, agora como

    homem de oposio, [que] no se amedrontava jamais 85, inmeras passaram a ser as

    dificuldades, agruras e privaes que a famlia do velho professor de geologia foi obrigada

    a curtir, por perseguies de um governador que no perdoava os adversrios 86. E para

    piorar a situao, Souza Carneiro enviuvou e, em 1925, ao se casar novamente com

    Georgina Rocha, passou a arcar tambm com as despesas desta segunda relao. Georgina,

    que j era me de dois filhos, no teria boas relaes com os enteados 87. Neste sentido, no

    surpreende que os registros deixados pelos amigos de juventude de dison Carneiro sejam

    pontuados pelas recorrentes referncias s penrias financeiras da famlia, funcionando

    sempre como um contraponto para se evidenciar suas altas qualidades como homem de

    cultura, que fazia da erudio e da cultura o meio e o fim de sua existncia pessoal e

    social. Um homem ilustre que deu de si o mximo sua terra e aos seus contemporneos

    sem nada pedir em troca. Pobre, vivendo com as dificuldades que cercam os que fazem da

    cultura sua meta, jamais se viu triste ou limitado, em torno dele e provindo dele, reinava

    sempre a alegria, o entusiasmo e o sonho 88.

    Os efeitos das oscilaes da poltica baiana s no foram mais drsticos em termos

    do rebaixamento social de Souza Carneiro e seus filhos graas interveno de seu irmo

    mais novo, o advogado Jos Joaquim, que era o rico da famlia e tinha acumulado um

    bom dinheiro em Ilhus, trabalhando para as novas fortunas dos fazendeiros do cacau: foi

    85 Jorge Amado, O professor Souza Carneiro, A Tarde, Salvador, 20 de junho de 1981, s/d. 86 Aydano do Couto Ferraz, Retrato de dison Carneiro, A Tarde, Salvador, 14 de Dezembro de 1972, s/d. 87 Sobre Laura Coelho de Souza Carneiro no consegui obter maiores informaes, mesmo entre os familiares, talvez, por ter morrido muito cedo, em algum momento entre 1922, quando teve seu ltimo filho, e 1925, ano em que Souza Carneiro se casou com Georgina Rocha. Cf. APEBa, Seo Judiciria, Srie Inventrios e Testamentos, Antnio Joaquim de Souza Carneiro, Ano 1943, Documento 05/2300/2800/06. Quanto s relaes pouco amistosas entre Georgina Rocha e os filhos do primeiro casamento de Antnio Joaquim, elas foram mencionadas por Edria Carneiro. Cf. Edria Carneiro, Entrevista concedida ao autor, op.cit. Embora as conversas com o filho de dison Carneiro no tenham sido gravadas, Philon Carneiro tambm confirmou a verso de Edria quanto s pouqussimas simpatias existentes entre Georgina, seu pai e os tios. 88 Jorge Amado, O professor Souza Carneiro, A Tarde, Salvador, 20 de janeiro de 1981. Ainda, em suas memrias, Jorge Amado refora o ambiente de penria na casa de dison: O mais pobre de todos ns seria dison Carneiro, membro de famlia numerosa. O pai, professor Souza Carneiro, catedrtico da Escola Politcnica, mal ganhava para as despesas inadiveis da prole, consta que jamais pagou o aluguel da casa dos Barris [...] O professor Souza Carneiro, uma das figuras mais sedutoras entre quantas conheci: sua vida de pobreza, trabalho e bom humor daria o mais extraordinrio romance. Cf. Navegao de Cabotagem: apontamentos para um livro de memrias que jamais escreverei, Rio de Janeiro, Record, 1992, p.426.

  • 62

    ele quem custeou os estudos desses sobrinhos [...] quem aguentou as pontas 89. De modo

    que, a despeito das dificuldades enfrentadas naquele momento, todos os filhos conseguiram

    finalizar com sucesso as etapas educacionais necessrias para se diplomarem nas

    instituies de ensino superior baianas. Entre os filhos homens, dois seguiram a tradio

    familiar e se formaram engenheiros na Escola Politcnica (Milton e Ivan); enquanto os

    outros trs, bacharis, se diplomaram pela Faculdade de Direito da Bahia (o primognito

    Franklin, Nelson e dison). J as mulheres, Miriam Stella e Ldia, se tornaram professoras,

    aps cursarem as duas nicas instituies pblicas destinadas ao ofcio: o Instituto Normal

    e o Ginsio da Bahia que, desde 1918, oferecia a cadeira de pedagogia, formando

    bacharelas para o ensino primrio 90.

    A situao social e financeira de Souza Carneiro jamais conheceu melhoras

    significativas. Muito pelo contrrio, o seabrismo cada vez mais imoderado do professor

    rendeu-lhe ainda um dos mais fortes golpes sofridos em vida: o desligamento da Escola

    Politcnica, em 1932, aos ser aposentado fora, sem mais nem menos, por motivos

    polticos 91. O desligamento se deu como resultado dos esforos empreendidos pelo ento

    recm-empossado interventor Juracy Magalhes para sufocar quaisquer pretenses de J. J.

    Seabra bem como as de outras foras oligrquicas locais em assumir as rdeas do

    processo revolucionrio na Bahia, perseguindo e prendendo seus principais correligionrios 92. E como o seabrismo era um negcio de famlia entre os Souza Carneiro, naquele mesmo

    ano Nelson Carneiro, j despontando como uma jovem e promissora liderana de oposio

    ao interventor estrangeiro indicado por Vargas, tambm seria acossado e, posteriormente,

    preso e deportado para o Rio de Janeiro. Sem o emprego na Escola Politcnica e com a

    famlia seriamente desestruturada, Souza Carneiro seguiria tambm para o Rio de Janeiro

    para se juntar ao filho Nelson. Ali, dando provas de que seu prestgio acadmico no havia

    89 Cf. Edria Carneiro, Entrevista Concedida ao Autor, op.cit. Ainda, recordando este perodo, diz Edria: Ele escrevia uma...toda semana um sei l o que, uns artigos que o ttulo era isso: Sobre a onda de lama das negociatas e a emitia o nome daqueles polticos todos. Aquilo era um escndalo. Aqueles polticos todos ficaram contra ele. E ele foi demitido, afastaram ele da faculdade e cortaram.... 90 As informaes sobre a formao de dison Carneiro e seus irmos constam em: APEBa, Seo Judiciria, Srie Inventrios e Testamentos, Antnio Joaquim de Souza Carneiro, Ano 1943, Documento 05/2300/2800/06. Sobre o Ginsio da Bahia, ver Gelsio de Abreu Farias, Memria Histrica do Ensino Secundrio Oficial, op.cit., p.273. 91 Cf. dison Carneiro, Souza Carneiro, op.cit., p.320 (as nfases so minhas). 92 Cf. Juracy Magalhes, Minhas memrias provisrias: depoimento prestado ao CPDOC, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1982.

  • 63

    se esvado inteiramente com a poltica, conseguiu obter a ctedra de estatstica na

    Faculdade de Cincias Econmicas, da Universidade do Distrito Federal 93. No entanto, a

    experincia carioca no duraria muito. Por volta de 1937, j estava Souza Carneiro de volta

    Bahia, embora fosse obrigado a esperar mais alguns anos para reaver a vaga na Escola

    Politcnica, ocupada novamente por pouco tempo, antes de sua morte, em 1942, e sem a

    qual ele ficou reduzido a quase nada 94.

    As turbulncias sociais e polticas foram vivenciadas por Souza Carneiro em dois

    momentos: o primeiro, na ocasio da derrota dos grupos oligrquicos que davam suporte s

    suas ambies, e o segundo, com a revoluo de 1930, que desmantelou a prpria estrutura

    do poder baiano que permitia a atuao desses grupos. Ambos evidenciam o campo restrito

    de opes oferecidas a Souza Carneiro para enfrentar as ameaas de desclassificao social

    que foram se mostrando cada vez mais dramticas e irremediveis. Em grande medida, o

    velho professor dependia, de um lado, de condies favorveis para que fizesse valer seus

    servios e suas lealdades polticas e, de outro lado, do investimento em prticas capazes de

    simbolizar sua condio de acadmico e erudito frente boa sociedade baiana. Contudo,

    derrotado politicamente e, por consequncia, diminudas e, mais tarde, bloqueadas as

    chances de mobilizar seu capital de relaes, as possibilidades de reconverso de Souza

    Carneiro ficaram quase que estritamente confinadas s atividades e aos eventuais

    dividendos extrados de suas competncias culturais e intelectuais. E a elas Souza Carneiro

    se lanou de maneira notvel, passando a exercer suas habilidades polivalentes nas mais

    variadas e inusitadas reas, transformando-se numa espcie de livre-atirador de gneros e

    temas. Como registrou um amigo de dison Carneiro e frequentador da casa do professor,

    em fins de 1934, de malas arrumadas para o Rio, o velho Carneiro desdobrava-se numa

    atividade intelectual espantosa. Escrevia que nem um danado: um livro por semana 95. De

    93 Ao que consta, na histria da universidade carioca o primeiro professor de estatstica de que se tem notcia foi Antnio Joaquim de Souza Carneiro [...] Esse professor, em 20 de maro de 1934, assinou o termo de posse de substituto da cadeira de Poltica Comercial e Regime Aduaneiro. Em 27 de novembro de 1934, passou catedrtico de estatstica. Cf. Paulo Pardal, Primrdios do ensino de estatstica no Brasil e na UERJ, Boletim de Associao Brasileira de Estatstica, Ano XVII, n50, 3 quadrimestre de 2001. 94 dison Carneiro, Souza Carneiro, op.cit., p.320. 95 Biblioteca Nacional, Seo de Manuscritos, Arquivo Arthur Ramos, Carta de Clvis Amorim para Arthur Ramos, 9 de outubro de 1937, I-35,21532A.

  • 64

    tal monta que o ecletismo e a produo desvairada de Souza Carneiro resvalaram, por

    vezes, no descrdito e nas acusaes de oportunismo e falta de seriedade intelectual 96.

    O prprio dison Carneiro, com uma lucidez doda, reconheceu a profunda

    subverso que as reviravoltas da poltica baiana produziram na vida do pai. Reviravoltas

    que no somente lhe roubaram o estmulo como lhe estragaram a sade. A seu ver:

    certamente isso explica que tivesse escrito livros que carecem, de certo modo, da estrita

    seriedade cientfica dos primeiros anos, e trabalhos sem base na realidade 97. De meados

    da dcada de 1920 em diante, o que se observa a crescente dedicao de Souza Carneiro

    literatura de fico, atuao na imprensa, ao ensasmo poltico e etnogrfico, aos

    domnios da geometria contemplativa e aos temas (mas tambm prtica) da maonaria, do

    espiritismo, das cincias esotricas e das foras ocultas atuantes na natureza e no homem, a

    exemplo da biografia Jesus! Mistrios das iniciaes de Jesus de Nazareth, escrito em

    1927, fruto de sua filiao ao seio fecundo e benfazejo do Crculo Esotrico 98. No

    mesmo ano em que, como membro de alta graduao, foi um dos responsveis pela

    96 Como ser tratado mais adiante, o mais contundente e forte ataque credibilidade de Souza Carneiro foi feito por Arthur Ramos, em 1937, quando o primeiro tentou se aventurar pelos estudos afro-brasileiros, com o livro Mitos Africanos no Brasil, no exato momento em que dison comeava a realizar seus primeiros empreendimentos no tema. 97 dison Carneiro, Souza Carneiro, pp.319 e 320. Talvez, com isso, o filho estivesse respeitosamente dizendo que, ao final da vida, no apenas a sade fsica do pai foi se deteriorando, mas tambm sua sade e seu equilbrio psicolgico e mental. Na mesma carta de Clvis Amorim para Arthur Ramos, anteriormente citada, o amigo de dison (Clvis Amorim era proveniente de uma famlia de senhores de engenho no Recncavo) pintaria o retrato de Souza Carneiro marcado tanto pelo desgaste fsico quanto pela sua imaginao por demais prodigiosa e inventiva: Furundungo [romance de Souza Carneiro, publicado em 1934] era a obra supimpa como ele dizia, arrebitando o bigode crespo e mostrando o resto de dentes num sorriso vitorioso. Trazia um elucidrio e, nele, oitocentos termos da gria [popular do Recncavo baiano]. Escrevia o romance e inventava os oitocentos termos. Visitando-o sempre, ele me ia lendo o romance, ao tempo em que decifrava o elucidrio. Cada termo novo era um achado. E o romancista sorria [...] Amorim, veja este. Conhece-o? [...] No [....] Mas o termo estava fresquinho ainda. A imaginao de Souza Carneiro, havia poucos minutos, o tinha abortado [...] Diante disso, comecei ento a minha vingana [...] Fosse mentir a outro [...] Pinicando na veia, iniciei as rebatidas. Eu tinha que mentir em minha defesa. E, em cada visita, [...] eu enriquecia o fantstico elucidrio de Furundungo com uma dzia de termos novos. Inventava-os na vspera [...] e os atirava em cima do velho Souza. Cf. Biblioteca Nacional, Seo de Manuscritos, Arquivo Arthur Ramos, Carta de Clvis Amorim para Arthur Ramos, 9 de outubro de 1937, I-35,21532A (as nfases so minhas). 98 Antnio Joaquim de Souza Carneiro, Jesus! Mistrios das iniciaes de Jesus de Nazareth, So Paulo, Ed. O Pensamento, 1927, p.04. Ainda, no livro, h a informao de que o professor era o Delegado Geral da Ordem do Estado da Bahia. A condio de maom foi informada por seus parentes, segundo os quais, inclusive, Souza Carneiro teria alcanado as graduaes mximas na hierarquia. Cf. Edria Carneiro, Entrevista concedida ao autor, op.cit. A maonaria tambm seria seguida por Nelson Carneiro, que igualmente logrou altas posies na confraria. Informao pessoalmente confirmada pelo sobrinho e filho de dison Carneiro, Philon Carneiro. Em 1926, pela mesma editora paulista que lanou Jesus, Souza Carneiro tambm publicaria um livro chamado Cincia esotrica: anlises e confrontos.

  • 65

    fundao da Grande Loja Manica da Bahia, em Salvador, passando a figurar no segundo

    posto da hierarquia da nova Loja 99. Todo esse universo carregado de misticismo e

    esoterismo fazia com que, segundo Jorge Amado, Souza Carneiro assumisse as feies de

    um mago:

    Era um mago, vivia cercado por foras celestes e creio que adivinhava. Exercia poder

    absoluto sobre todos os centros espritas de Salvador, especialista em Allan Kardec e em

    outros mestres da mediunidade. Foi ele quem obteve para as reunies literrias da

    Academia dos Rebeldes, o emprstimo da sala de um centro esprita no Terreiro de Jesus

    [...] Um mago, sem dvida, sonhando com o futuro, incapaz de qualquer mesquinhez, to

    desligado das misrias, da maldade e da feiura que fazia difcil distinguir no velho Souza

    Carneiro a fronteira que separa a realidade da imaginao. Ns o adorvamos, tnhamos

    nele no apenas um mestre, tambm um companheiro 100.

    De fato, seria difcil no se sentir de algum modo tocado pelos lampejos de tragdia

    que brotam desses retratos dos anos finais de vida Souza Carneiro. Um personagem que

    surge revestido de certa nobreza quixotesca e que parece ter se sentido cada vez mais

    desligado da realidade de frustraes e misrias, passando a se encastelar em um

    mundo de sonhos com o futuro, cercado por foras celestes, as quais, quem sabe, ele

    acreditava poder invocar a fim de intervir na srie de transformaes que foram

    gradualmente solapando tudo aquilo que estava na base de sua existncia social, de sua

    autoestima e de sua identidade e orgulho pessoais. possvel imaginar, neste sentido, o

    profundo impacto deste ambiente familiar na sensibilidade do jovem dison Carneiro,

    desenvolvida precocemente e endereada no apenas aos exerccios e s divagaes

    intelectuais e literrias, como tambm socializao com uma profuso inslita de prticas,

    repertrios e smbolos msticos e rituais que, certamente, contriburam na produo de

    disposies intelectuais e afetivas necessrias para uma apreenso relativizada dos

    candombls e das crenas de matrizes africanas. Ou melhor, a convivncia prxima e

    continuada com diversas formas de se relacionar com o plano mstico e extrassensvel que

    no apenas aquela professada pela f catlica dominante na Bahia possibilitou a dison

    99 A ata de fundao de Grande Loja da Bahia, que ainda existe, pode ser consultada no prprio site da Loja, no seguinte endereo: http://www.gleb.org.br/portal/modules/xt_conteudo/index.php?id=1. Acessado em 20 de abril de 2009. 100 Jorge Amado, O professor Souza Carneiro, op.cit.

  • 66

    Carneiro no tom-la como nica ou absoluta 101. Muito pelo contrrio, como atesta um

    amigo (ainda que certamente com exagero), h razes para crer que, durante parte da

    juventude, o prprio dison Carneiro se julgou capaz de manipular as foras mgicas e

    celestiais conclamadas pelo pai:

    dison era um mestiozinho de quase quinze anos, muito feio e muito tmido, que se dizia

    esoterista, meio mgico e meio adivinho, mas que no passava de um menino crente em

    bruxedos e doente de superstio. No fosse ele filho de Souza Carneiro, esse doido de

    cabelos brancos, adepto da goetia, que, num pardieiro da Rua So Bento, organizava uma

    espcie de sabbat, evocando demnios malficos, conjurando espritos, entre o ritual

    sinistro das beladonas e dos meimendros. dison vivia a escrevinhar tolices [...], era de uma

    fecundidade admirvel. Aquele literatinho parecia que escrevia com as mos e com os ps.

    Mal se adivinhava no dison Carneiro de 1929 o escritor de 1937 102.

    No entanto, independente de quais fossem os destinos, as controvrsias, os temas e

    as atividades desenvolvidas em sua vida pblica e intelectual ou privada, o importante a ser

    destacado que Antnio Joaquim de Souza Carneiro conseguiu ser visto como um nome

    que dispensa[va] apresentaes, seja pelo seu talento polimorfo, seja pelos diferentes

    trabalhos de sua lavra 103; reconhecido e apontado como uma das inteligncias mais

    fulgurantes e cultas do nosso meio intelectual 104. Munido pela segura confiana de si e

    pela polimorfia de suas competncias e da erudio adquirida no decorrer de sua vida

    profissional, Souza Carneiro parecia no duvidar das possibilidades de se sobressair em

    reas como a literatura de fico e os estudos etnogrficos: investimentos que, em muito,

    traziam os esforos do velho professor em reagir situao incontornvel de desgraa

    social, acadmica, intelectual e financeira que se seguiu ao movimento de outubro. Na

    101 Para esta frouxa socializao com o universo catlico, muito pode ter contribudo a morte precoce da me. dison Carneiro (e aparentemente os seus irmos) vivenciaria o catolicismo como algo distanciado, cujos contatos se davam unicamente pelo lado de sua tia paterna, Adlia Rosa, celibatria e professora primria, cuja casa era bastante frequentada pelos sobrinhos. A minha tia era bem religiosa: ia pra igreja, a gente que morava l, ia todo domingo tinha que ir pra missa. Depois que eu fui crescendo mais, eu pegava meus irmos, a gente dizia que ia pra missa e ia pra rdio... tinha a rdio sociedade da Bahia e de manh eles faziam um programa e a gente ia...pra Rdio, e voltava pra casa, e dizia que tinha ido pra igreja...mas era daquele jeito. A minha tia tinha... alis l na casa da minha tia [...] tinha um quarto que chamava quarto dos santos, com um altar e aquelas imagens todas. E na minha tia tinha esse quarto onde toda noite se rezava a ladainha. E a ladainha naquele tempo era em latim. Cf. Edria Carneiro, Entrevista concedida ao autor, op.cit. 102 Clvis Amorim, Doidos, Estado da Bahia, Salvador, 15 de junho de 1937. 103 Sem Autor. A atualidade brasileira, Etc, Salvador, n.170, 16/08/1931, p.01. 104 Sem autor, Nota sobre Comunismo, Nacionalismo e Idealismo, Salvador, Dirio da Bahia, 07/10/1931, s/d.

  • 67

    fico, conseguiria lanar dois dos seus romances: Furundungo e Meu Menino, ambos

    publicados em 1934, no Rio de Janeiro, tendo como mote os costumes e a linguagem

    popular 105 baiana e nos quais, em discordncia com o padro da poca, personagens

    negros surgiam como principais 106. Tais temas prendiam a imaginao de Souza

    Carneiro e, de alguma forma, reapareceriam em seus ensaios etnogrficos, a exemplo de

    Mitos africanos no Brasil, de 1937, e em tantos outros manuscritos que, segundo dison,

    ele teria deixado sobre a lngua tupi e as mitologias das sociedades indgenas brasileiras 107.

    Mas igualmente, no seria exagerado afirmar que a falncia social e a percepo

    cada vez mais aguda da irreversibilidade da situao poltica baiana ajudam a entender, ao

    menos em parte, o que pareceu ser o despertar de Souza Carneiro aos radicalismos

    ideolgicos e presena do proletariado na cena poltica brasileira 108. Algo que seria

    explorado em seu livro Comunismo, Nacionalismo, Idealismo, de 1931, produzido

    justamente num momento em que seu desespero era um sentimento crescente, ao assistir s

    foras varguistas tornando cada vez mais remotas as chances do chefe J. J. Seabra em

    retomar o poder no estado. Para tanto, no hesitaria em clamar pela radicalizao do

    nacionalismo revolucionrio e conclamar as classes proletrias a assumir seu papel nos

    destino da Nao: a revoluo no se fez somente para depor um governo e logo montar

    outro com os mesmos cancros [...] Ela est preparando a Nao para a conquista de uma

    nova orientao em que predomine a poltica do trabalho [...] Nenhuma revoluo vence

    sem que [...] triunfe o proletariado 109. Enfim, a convocao do professor Souza Carneiro

    105 Cf. Jorge Amado, O professor Souza Carneiro, op.cit. 106 Waldir Freitas Oliveira, Os estudos africanistas na Bahia dos anos 30 in Waldir Freitas Oliveira & Vivaldo da Costa Lima. Cartas de dison Carneiro a Arthur Ramos de 4 de janeiro a 6 de dezembro de 1938. So Paulo, Corrupio, 1987, p.25. 107 dison Carneiro, Souza Carneiro, op.cit., p.320. 108 No deixa de ser interessante anotar que foi na entronizao de imagens do operrio que Souza Carneiro encontrou um paralelo simblico para dar conta de suas prticas espiritualistas e esotricas. Prticas que no apenas buscavam valores exemplares na sabedoria dos pobres e dos humildes operrios, como tambm se pautavam nas bases dos ensinos sublimes da benemrita Ordem [do Crculo Esotrico] de que somos humildes operrios. Antnio Joaquim de Souza Carneiro, Jesus! Mistrios das iniciaes de Jesus de Nazareth, op.cit., p.10 (as nfases so minhas). 109 Apud Em vez de Nacionalismo, Civilismo, Dirio da Bahia, Salvador, 29/08/1931, p.02. O trecho constitui parte de uma palestra proferida por Souza Carneiro na Escola Politcnica, anexada notcia sobre o evento. A palestra, que marcava o lanamento do livro Comunismo, Nacionalismo, Idealismo, era apenas uma, de vrias, que Souza Carneiro vinha realizando na Escola Politcnica, onde buscava se colocar como uma liderana poltica, incitando a mocidade acadmica a tomar parte na campanha pr-constituinte. Idem, Ibidem. O prprio livro j era o resultado de uma destas palestras: de uma lio inaugural, proferida em abril de 1931, por ocasio da abertura dos cursos acadmicos da nossa Escola Politcnica; destinada a

  • 68

    radicalizao das lutas polticas e ideolgicas frente a qual dison Carneiro dificilmente

    deixaria dison Carneiro imune ou insensvel: ainda mais quando se tratava de lutar contra

    um regime que, aos seus olhos, se confundia to sensivelmente com a prpria

    desestabilizao de seu mundo familiar e com o progressivo debilitamento da sade e dos

    sentidos de viver do pai.

    * * *

    A despeito das instabilidades que assombraram sua vida, o fato de ocupar uma

    posio prestigiada como catedrtico da Escola Politcnica, receber nomeaes diversas,

    acumular prmios e obras que atestavam suas capacidades acadmicas e culturais e garantir

    mesmo que s duras penas o encaminhamento dos filhos s instituies onde as elites

    baianas formavam seus quadros, Antnio Joaquim de Souza Carneiro logrou minimizar os

    efeitos esterilizantes que a raa poderia ter na concretizao de suas aspiraes sociais e

    profissionais, assim como na de seus filhos. De modo que, diante de suas qualidades como

    homem culto, professor universitrio, com trnsito e boas relaes com chefes polticos

    locais, no chega a surpreender o fato de sua certido de bito atest-lo como branco:

    Aos dez dias do ms de Dezembro do ano de mil novecentos e quarenta e dois,

    nesta Capital do Estado da Bahia [...] em meu cartrio compareceu Mrio

    Guimares e exibindo atestado do Doutor Renato Lobo, declarou: que hoje s quatro

    horas e trinta e cinco minutos [...] na casa oitenta e sete Rua Sodr, faleceu por

    colapso crdio-muscular no curso de obstruo intestinal crnica Antnio Joaquim

    de Souza Carneiro, do sexo masculino de cor branca, de profisso Engenheiro, de

    naturalidade Bahia 110.

    Mas preciso ter cuidado na interpretao desta branquitude atribuda ao insigne

    professor: ou melhor, nas formas de se compreender o poder mgico destas cartas de

    branquitude que foram, nos termos de Gilberto Freyre, a farda e o diploma

    todos os espritos verdadeiramente empenhados na regenerao nacional. Cf. Jos Alves Ribeiro, Comunismo, nacionalismo e idealismo, Dirio da Bahia, Salvador, 8 de maro de 1932, p.02. 110 APEBa, Seo Judiciria, Srie Inventrios e Testamentos, Antnio Joaquim de Souza Carneiro, ano de 1943, Documento 05/2300/2800/06 (as nfases so do autor).

  • 69

    universitrio no movimento de ascenso social do mulato no Brasil novecentista 111. Em

    grande medida, a trajetria de Souza Carneiro se mostra um caso eloquente das

    consideraes feitas por Oracy Nogueira, quando afirma que a identificao ou

    classificao de um indivduo quanto cor constitui um complexo mecanismo de

    significao social, relativamente malevel e flexvel, capaz de se modificar conforme

    a associao com outras caractersticas de status, como grau de instruo, a ocupao e

    hbitos pessoais, com tendncia a se atenuar a cor de indivduos socialmente bem

    sucedidos 112. Evidente que isto no significa que a raa e a cor de Souza Carneiro

    foram invisveis aos olhos de seus contemporneos. No entanto, a certido de bito, quem

    sabe, redigida por algum prximo ou por algum admirador de seus talentos, ao classific-

    lo como branco, estava dando feio e expressividade mais a estes sinais caractersticos

    de status do que propriamente raa ou cor fsica. De qualquer forma, um fenmeno

    que, ainda segundo Oracy Nogueira, traz embutido ou implcito o caracterstico

    preconceito brasileiro, com o continuum de valorizao da cor da pele humana, da branca

    preta 113.

    111 Gilberto Freyre, Sobrados & Mocambos, So Paulo, Global Editora, 2003, p.727. 112 Oracy Nogueira, Preconceito de marca: as relaes raciais em Itapetininga. S.P, Ed.USP, 1998, p.147. 113 Idem, Negro poltico, poltico negro, op.cit., p.243. Neste trabalho sobre a trajetria do mdico Alfredo Casemiro da Rocha, Oracy Nogueira evidenciou fenmeno semelhante ao de Souza Carneiro, quando se deparou com classificaes conflitantes quanto cor de Alfredo. Na certido de casamento, ele aparecia como preto, enquanto na de bito, constava como pardo, sendo que ambas foram lavradas na mesma cidade e em perodos no muito distantes uma da outra: em Cunha (So Paulo), entre as trs primeiras dcadas do sculo XX. Diz Nogueira: Comentando a discrepncia com um serventurio aposentado que conheceu os colegas responsveis pelos dois termos, o mesmo explicou que o serventurio do casamento antipatizava com Alfredo, pelo o que o identificou como de cor preta, enquanto que o outro, por condescendncia, lhe atenuou a cor. Idem, Ibidem.

  • 70

    Com os dados e materiais

    disponveis, seria impossvel extrair

    elementos mais substantivos quanto aos

    modos como o professor da Politcnica se

    auto-representou no que diz respeito aos

    componentes tnicos de sua identidade. O

    mesmo pode ser dito com relao s

    eventuais e provveis situaes de

    preconceito racial por ele sofridas,

    percebidas ou no enquanto tais. Contudo,

    parece verossmil afirmar que Souza

    Carneiro e sua famlia dificilmente foram

    vistos como negros numa sociedade como

    a baiana onde, ainda nas primeiras

    dcadas do sculo XX, tal categoria

    buscava instituir simbolicamente dois

    grupos de pertencimento que muitas

    vezes, mas nem sempre, coincidiam: os sujeitos considerados portadores ou praticantes de

    uma cultura africana, com todas as propriedades reificantes a ela associada (barbrie,

    degenerao moral e sexual, violncia etc.), e aqueles alocados na base da hierarquia social,

    especialmente os que vivem do trabalho manual e braal 114. O ponto importante, pois

    retm dois elementos que pela recusa e pelo contraste, funcionavam como sinais de

    distino indispensveis para entendermos a forma como dison Carneiro, notadamente nas

    primeiras poesias de juventude, objetivou sua posio na estrutura racial e de classe de

    Salvador. Uma posio que a antroploga norte-americana Ruth Landes (1908-1991)

    observou de maneira exemplar, ao relembrar de sua surpresa quanto ao fato de a raa de

    114 Cf. Thales de Azevedo, Classes sociais e grupos de prestgio in Cultura e situao racial no Brasil, Rio de Janeiro, Ed. Civilizao Brasileira, 1966, p.36. Sobre a estratificao e os esquemas de percepo racial em Salvador, analisados em diferentes momentos histricos, ver o clssico trabalho de Donald Pierson, Brancos e pretos na Bahia: um estudo de contato racial, So Paulo, Cia. Editora Nacional, 1971 [1942]; o j citado Thales de Azevedo, As elites de cor, op.cit.; e ainda, Ruth Landes, A cidade das mulheres, Rio de Janeiro, Ed.UFRJ, 2002; Jeferson Bacelar, A hierarquia das raas: negros e brancos em Salvador, op.cit.; Lvio Sansone, Negritude sem etnicidade: o local e o global nas relaes raciais e na produo da cultura negra no Brasil, Salvador, Ed.UFBA, 2003; e ngela Figueiredo, Novas elites de cor: estudos sobre profissionais liberais negros em Salvador, So Paulo, Annablume/CEAA, 2002.

    Antnio Joaquim de Souza Carneiro. Sem Data. Coleo Particular de Philon Carneiro.

  • 71

    dison nunca haver sido mencionada nas cartas de apresentao dadas a ela, na ocasio de

    sua chegada Bahia, em 1938:

    Pareceu-me significativo que dison fosse um mulato, da cor trigueira chamada parda no

    Brasil. Era significativo porque as cartas de apresentao vinham de colegas brancos, que

    no haviam mencionado a sua raa ou cor. Para eles isso no importava. Aceitavam-no

    pelo seu provado valor como jornalista e como erudito. Em nenhum momento percebi de

    sua parte, qualquer preocupao especial com minha raa [Ruth Landes fazia referncia

    sua origem judaica]. [Ele] vinha de famlia pobre mas boa, qualificada de fidalga. O pai, de

    tez clara, era professor de engenharia aposentado, de tima reputao por trabalhos

    originais. A tia parecia ndia e era diretora de uma escola. Um dos tios era juiz. Um irmo

    mais velho era advogado conhecido [...] Era o tipo de famlia s vezes chamada de negros

    brancos, por muito respeitada. 115

    Raa, classe e cor nas poesias de juventude

    A leitura das primeiras poesias de juventude de dison Carneiro constitui uma porta

    de entrada interessante para observarmos como esta inscrio fidalga, nas palavras de

    Ruth Landes, rebate no registro de uma sensibilidade com forte senso de colocao social,

    abalado, s vezes, somente pelas incertezas e penrias vivenciadas pela famlia naquele

    momento. A produo potica corresponde a um curto perodo de sua vida, confinado aos

    anos de 1928 e 29, quando o autor tinha apenas 16 e 17 anos. Na poca, dison estava

    finalizando os estudos bsicos no Ginsio da Bahia e, provavelmente, comeava a se

    preparar para o ingresso na Faculdade de Direito: o que, de fato veio a ocorrer em 1930,

    seguindo os mesmos passos dos dois irmos mais velhos, Franklin, o primognito, e Nelson

    Carneiro. Um momento de sua vida, portanto, em que talvez comeasse a sentir os

    primeiros prenncios de uma vocao para homem de letras ou jornalista, embalada no

    apenas pela fora dos exemplos do pai e dos irmos, mas tambm pelas fantasias que

    deviam revestir a vida de um jovem s vsperas de ingressar numa faculdade em que

    115 Ruth Landes, Cidade das Mulheres, op.cit, pp.49-50 (as nfases so minhas).

  • 72

    repontavam, ali, vocaes promissoras para as

    letras, a poltica, o jornalismo, a advocacia, a

    magistratura e a ctedra universitria 116.

    Pode-se dizer, neste sentido, que as

    experincias de dison Carneiro como poeta

    iniciante deram vazo a esta ebulio de fantasias

    juvenis, em muito marcada pelas tenses de seu

    ambiente familiar quela altura amargando o

    ostracismo da faco poltica do pai , bem como

    pela sua condio de quarto filho homem, muito

    feio e muito tmido 117, liberto, em parte, das

    presses de destinao social e profissional que

    recaam sobre os mais velhos, sobretudo em torno de

    Nelson, que era outra coisa, alto, bonito e [...] bom

    orador 118, desde muito cedo encaminhado pelo pai

    e pelo tio paterno, Jos Joaquim, ao convvio

    prximo com Seabra 119. Afinal, como chamou a

    ateno Sergio Miceli, seria importante no

    minimizar os efeitos decisivos da falncia material, da poltica familiar e da posio de

    seus membros na linhagem, relegando as caulas ou os mais novos dessas famlias de

    primos pobres da oligarquia aos trabalhos menos masculinos ou prestigiados: tais

    situaes de relegao punham fora de seu alcance [dos caulas] os investimentos com

    que so brindados os primognitos e os ocupantes das demais posies privilegiadas no

    espao da fratria e da linhagem 120. De modo que dison Carneiro no esteve ileso s

    expectativas e aos investimentos diferenciados que a famlia depositava em cada um de

    seus membros, conforme suas posies na linhagem.

    116 Odalcio Coelho Nogueira, Caminhos de um magistrado, Rio de Janeiro, Jos Olimpio, 1978, p.16. 117 Clovis Amorim, Doidos, op.cit. Era o mais feinho de todos. Era feio que o coitadinho... Quando era adolescente, depois ficou mais velho, engordou mais, ficou melhor. Cf. Edria Carneiro, Entrevista concedida ao autor, op.cit. 118 Edria Carneiro, op.cit. 119 Nelson Carneiro, Punhados de Vida, Braslia, Centro Grfico do Senado Federal, 1990. 120 Cf. Sergio Miceli, Intelectuais e Classes Dirigentes no Brasil (1920-1945) in Intelectuais Brasileira, S.P, Cia das Letras, 2001, p.162.

    dison Carneiro, por volta dos trs anos de idade. Sem Data. Coleo Particular de Philon Carneiro.

  • 73

    Ainda estudante ginasial, dison Carneiro assistia agitao familiar em torno das

    disputas polticas baianas que, graas Aliana Liberal, encontraria a oportunidade

    esperada, desde 1924, de ver seu chefe novamente vencedor. J. J. Seabra retornou a

    Salvador para encabear a campanha aliancista, encontrando forte apoio, principalmente,

    nos grupos de jovens universitrios 121. Entre esses universitrios j se destacava por sua

    liderana estudantil, na Faculdade de Direito, o irmo de dison, Nelson Carneiro, sobre o

    qual recaram as chances de fazer valer as lealdades da famlia em favor de uma carreira

    poltica. Embora no fosse insensvel ao momento, dison contava com um ambiente de

    relativa despreocupao e liberdade para os exerccios das divagaes e inquietaes do

    esprito, podendo contar com a sala cheia de estante de livros 122 do pai e com a presena

    dos amigos de ginsio e da Academia dos Rebeldes que comeavam a frequentar a casa de

    Souza Carneiro para onde, sem dvida, todos esses incipientes literatos afluam na

    certeza de ali gozarem de toda sorte de estmulos e licenas possveis s bagunas

    barulhentas e aos debates acalorados.

    Senhor de imaginao e magia, um mestre da vida [...] Em sua residncia nos Barris,

    alcunhada de Brasil por enorme, desorganizada e entregue s baratas nos abrigamos

    os rebeldes [...] Seu filho, dison [...] figurava entre os mais combativos da novel

    agremiao e o outro filho, o mais velho, Nelson, com ela simpatizava, se bem olhasse com

    certa reserva e alguma suspeita aquela agitao de incipientes literatos: j ento o futuro

    senador Nelson Carneiro participava da vida poltica, lder estudantil de notria atuao.

    O professor Souza Carneiro no nos olhava com suspeita nem com reservas; ao contrrio,

    dava-nos caloroso apoio, compartia de nossas inquietaes, sustentava nossa batalha, em

    sua casa dos Barris, pobre e misteriosa. O professor, segundo afirmava, escondia no quintal

    um avio [...] que lhe serviria para controlar do alto dos cus as prximas eleies s quais

    pretendia concorrer, candidato a deputado pela oposio 123.

    Deste modo, algumas das chaves de leitura que conferem sentido e coordenada para

    aos poemas de dison Carneiro encontram-se nessa longa citao de Jorge Amado.

    Significativamente, os primeiros deles saram, entre os meses de setembro e novembro de

    1928, no jornal A Noite, rgo aparentemente simptico aos interesses dos democratas

    121 Cf. Consuelo Novais Sampaio, Os Partidos Polticos da Primeira Repblica Baiana, op.cit. 122 Edria Carneiro, Entrevista concedida ao autor, op.cit. 123 Jorge Amado, Discurso de Jorge Amado, A Tarde, Salvador, 06/03/1985 (as nfases so minhas).

  • 74

    baianos e de seu cacique J. J. Seabra 124. Em sua maioria, trata-se de poemas cujos temas

    no fogem muito a alguns clichs da poca, prprios a um jovem que comeava a arriscar

    seus primeiros versos: recortes da paisagem local, frustraes amorosas, vises de

    mulheres ideais, flertes e inseguranas afetivas e mesmo taras sexuais. Contudo, em meio

    aos transes amorosos, dison Carneiro no deixa de registrar as fortes incertezas que

    pontuavam suas fantasias de projeo social e intelectual, imprimindo um desnimo ou

    ceticismo realidade que, por vezes, quebra o clima de alegre farra do conjunto dos

    poemas.

    Talvez, do ponto de vista formal, certo ar de novidade ficasse por conta da

    frouxido rtmica e do uso dos versos livres, de feitio humorstico e irnico a valores e

    sensibilidades romnticas, contrastando com a gravidade dos sonetos e dos poemas

    elevados que abundavam os jornais e as revistas literrias de Salvador: o que, em alguma

    medida, pode ser uma evidencia de que a leitura e apreenso das linguagens literrias

    modernas comeavam a surtir efeito entre os intelectuais locais 125. Este expediente irnico

    aos valores romnticos mais ntido, por exemplo, no poema O que falta a uns, no qual o

    poeta concebe tais valores como uma absoluta tolice, mas que no pode ignorar ou

    abandonar sob pena de perder suas amantes:

    Eu, de namoradas,

    tenho trs...

    E, a cada uma

    digo

    uma tolice...

    124 Embora no tenha maiores conhecimentos sobre o jornal A Noite, nele tambm colaboravam jornalistas de reconhecidas ligaes com J. J. Seabra, a exemplo do rbula e jornalista Cosme de Farias (1875-1972): Em grande parte da vida poltica de Cosme de Farias, sua principal aliana era com os seabristas. Segundo Mnica Celestino, Cosme seguia a deciso do ex-governador Jos Joaquim Seabra [...] e do seu grupo de no apoiar os jovens Calmons, Otvio Mangabeira e Simes Filho . Cf. Josivaldo Pires de Oliveira, Pelas ruas da Bahia: criminalidade e poder no universo dos capoeiras na Salvador republicana (1912-1937), (Dissertao de Mestrado), Salvador, UFBA, 2004, p.108. 125 O modernismo de 1922, que se firmava e se diversificava, foi transportado de So Paulo at aqui [Salvador] somente em 1927, cinco anos mais tarde, quando apareceram os poemas de Eugnio Gomes, Moema e A balada do ouro, de Godofredo Filho, grande poeta baiano [...] E foi a que os grupos literrios comearam a surgir. Cf. Jorge Amado apud Alice Raillard, Conversando com Jorge Amado, Rio de Janeiro, Record, 1992, p.34. Dentre estes grupos, a Academia dos Rebeldes, que ser objeto de discusso no prximo captulo.

  • 75

    So trs mulheres

    de quem eu

    ocupo o tempo

    enchendo-lhes os ouvidos

    de pulhices romnticas

    e de juras dum amor

    que eu nunca senti. 126

    Vale chamar a ateno para um elemento importante na leitura dos poemas que

    dison Carneiro publicou em 1928, no jornal A Noite, somando um total de trinta e um. O

    autor os concebeu nos moldes de um folhetim potico 127, formando uma srie nica e

    coerente de poesias intitulada de Musa Capenga 128. Assim, a maioria das poesias foi

    publicada com poucos dias de distncia uma das outras, quando no nenhum. Ao que

    parece, a inteno era de que fossem lidas de modo articulado. Deste modo, parece

    significativo que logo no primeiro poema da srie, Primavera, Carneiro lanasse mo de

    certas coordenadas sociais quanto ao lugar ou a posio a partir da qual a realidade estava

    sendo apreendida. Os elementos mais significativos que conferem uma identidade social

    prpria ao poeta eram, sobretudo, aqueles que o circunscreviam como um estudante. Tal

    126 dison Carneiro, O que falta a uns in Gilfrancisco Santos (org.), Musa Capenga: poemas de dison Carneiro, op.cit., [15/10/1928], p.75. Salvo indicao contrria, todas as poesias citadas encontram-se reunidas no livro de Gilfrancisco Santos. Assim, aps as citaes sero mencionadas apenas a data original da publicao e a numerao da pgina em que o poema se encontra. Alguns dos poemas esto sem dia e ms especificados. Nestes casos sero colocadas apenas a pgina. Por fim, todos os poemas no fogem ao perodo j mencionado de setembro a novembro de 1928. 127 Cid Seixas, A poesia de dison Carneiro redescoberta por Gilfrancisco in Gilfrancisco Santos, (org.), Musa Capenga: poemas de dison Carneiro, op.cit. 128 No saberia precisar as razes ou os sentidos implicados no ttulo Musa Capenga, dado ao conjunto dos poemas. A nica pista que encontrei (ainda assim bastante frgil) poderia indicar se tratar de uma tirada de humor com relao a uma seo diria de poesias que havia existido em Salvador, por volta de 1922, e que se chamava de Musa Baiana. Conforme a autobiografia do magistrado baiano Adalcio Coelho Nogueira (1902-1990), uma seo de poesias empreendida em prol da candidatura presidncia de Arthur Bernardes, podendo da aventar a hiptese de se tratar de poemas de exaltao Salvador, Bahia e ao Brasil: exaltao Bahia que dison Carneiro, talvez, ironizasse com a sua Musa Capenga. Cf. Caminhos de um magistrado, op.cit., p.23.

  • 76

    critrio de localizao decisivo para se entender os tipos de experincias, espaos,

    relaes e sentimentos que se encontram invocados no conjunto dos poemas.

    Os estudantes

    em alegre farra

    passaram cantando [...]

    brincando fingindo

    uma gargalhada

    que

    um manto enorme

    que cobre

    o enfezamento

    desta vida to m...

    eu tambm brinquei,

    eu que, tambm

    sou estudante [...]

    Estavas lindas Cremilda

    Se no fosse

    a grande distncia

    que me separava

    do teu carro

    eu teria

    dado um pulo

    e festejando

    a primavera

    beijando-te na boca (24/09/1928, p.67).

  • 77

    O estudante, portanto, funciona como uma informao projetiva que recobre

    todos os poemas seguintes, construdos em tornos de aventuras, frustraes e episdios que

    se imaginam prprios a esta condio. Ainda, reivindicando para si o direito de

    compartilhar as alegrias, farras e paqueras nas ruas da cidade, o poeta parece se utilizar

    da condio estudantil como uma estratgia de evaso s mazelas da vida. 129. Neste

    sentido, o primeiro poema prenuncia uma tenso que ser constante no restante da srie:

    aquela entre as alegrias e as farras amorosas de um estudante, ainda livre de certos

    compromissos sociais, e as incertezas e as dvidas quanto aos destinos de um jovem

    aspirante a intelectual e escritor, frente a um ambiente percebido como hostil. Ostracismo

    Intelectual, por exemplo, desnuda por inteiro as apreenses e as amarguras do literato

    iniciante, potencializadas ainda mais pela percepo da distncia que separa o intelectual de

    provncia dos grandes centros de consagrao e produo cultural do pas:

    Seu mano,

    estou com vontade

    de escrever uma novela...

    Mas como no quero

    que a crtica me rache

    com a cartola [...]

    Na Bahia, os talentos

    vivem e morrem esquecidssimos

    dos outros intelectuais [...]

    verdade...

    quanto mais

    129 Interessante recuperar as memrias de Jos Silveira, que fora estudante de medicina na Bahia, na dcada de 1920, onde justamente mobiliza a rua como o espao privilegiado da farra e onde os estudantes exerciam seu prestgio: Pode-se dizer que nas ruas da Bahia quem mandava era o estudante. Fazamos coisas incrveis [...] Invadamos cinemas, teatros, fazendo rumores e os porteiros tinham que abrir as portas e ns sempre encontramos uma atmosfera agradvel. Apud Ubiratan Castro de Arajo (org.), Salvador era assim: memrias da cidade, Salvador, IHGBa, 1999, p.133.

  • 78

    o pobre do meu eu!. (sem data, p.82).

    dison Carneiro transpe para o plano ficcional um registro sinttico das

    ambiguidades vivenciadas no plano familiar, em suas possibilidades concretas de

    rebaixamento social: ao receio do ostracismo intelectual, sobrepe-se perfeitamente o

    dramtico ostracismo poltico da faco poltica do pai. Uma situao que, mesmo aos

    olhos de um ginasial muito moo, j se pronunciava traumtica o suficiente, a ponto de

    produzir fissuras na prpria experincia do tempo, como possvel observar em Ontem e

    Hoje, cujos versos foram arranjados na chave de um jogo de contrastes secos entre um

    passado de bonana, porm fantasioso e irreal, e um presente doloroso e triste da

    vida verdadeira imersa em tempestades e sonhos renunciados 130:

    Ontem e hoje,

    alegria e tristeza

    amor e esquecimento

    vida irreal e vida verdadeira

    vida ilusria e vida na prpria vida

    castelo de iluses e realidade esmagadora

    bouquet de rosas e espinhos de outras rosas

    mar de bonana e mar de tempestade

    espectro j morto e entidade ainda viva

    130 Esta percepo de um ambiente social hostil tambm est presente num outro poema, intitulado Idiotas..., falando sobre seu ceticismo perante s coisas: O ceticismo / coisa boa / Muito boa mesmo [...] Por isso eu / que tenho c minhas ideias / j deixei / de acreditar / em todas as pulhices / que andam por a... / E esses trouxas / que no raciocinam [...] dizem: / Coitado! / Alm de pobre / actico e materialista (17/10/1928, p.78). Ainda, com relao s angustias do escritor em terras provincianas e passadistas, dison Carneiro escreveu A Chuva e a S, onde lamenta a chuva no ter sido capaz de por abaixo a igreja da S, smbolo tanto do catolicismo quanto da arquitetura coloniais de Salvador: A nossa pobre cidade, que do Salvador s tem o nome, passou, anteontem, Domingo, algumas horas de verdadeira fria contra a chuva... / As ruas todas um perfeito lago; aqui e ali chuva s; roupas encharcadas; os ps molhados a mais no poder [...] Eu gritei contra a chuva... Dei-lhe eptetos, disse-lhe... / palavradas infmias, misrias... / Mas no fiz isso porque ela tivesse cado to assustadoramente sobre a capital. Gritei com razo... Razo de sobra! / Gritei por ela no ter sido mais forte para derrubar a S! (13/11/1928, p.95). Como veremos no prximo capitulo a Igreja da S e a percepo de uma cidade que, cada vez mais, parecia se tornar refm de suas grandezas pretritas: tema que seria recorrente nas crnicas de dison e de seus colegas de Academia dos Rebeldes.

  • 79

    iluses que morreram e esperanas que nasceram (20/11/1928, p.98).

    Entretanto, um aspecto importante a ser ressaltado que em nenhum momento os

    lamentos sobre a pobreza e as incertezas de reconhecimento que rondam a existncia do

    poeta parecem desestabilizar o senso de colocao e a identidade social do autor. O raio de

    ao das poesias quase no foge dos lugares frequentados pelas elites: as ruas dos

    estudantes, onde passeiam os carros dos afortunados, e aonde acontecem os flertes e

    pedidos de beijos com as moas que [dizem] ser do chic e do bom tom (23/10/1928,

    p.84). Em apenas duas ocasies aparecem elementos nitidamente estranhos e distantes ao

    universo social que o poeta vivencia: intrigantemente elas ocorrem nas duas vezes em que

    dison Carneiro faz referncias explcitas a elementos percebidos como negros naquele

    contexto. Uma estranheza e/ou distncia que se estabelecem, ora pela tirada jocosa, ora

    pela invocao do mstico 131. No primeiro deles, Ameaa, os versos servem como uma

    advertncia do poeta amante, ameaando colocar uma coisa feita na porta da casa dela,

    caso ela no correspondesse ao seus sentimentos:

    Meu anjinho

    no me despreze/

    olhe, veja l:

    se voc no me quiser...

    eu no me mato no!

    Mas vou

    ao Pau Mido

    e trago,

    pra botar na sua porta

    131 Sem dvida, aqui pesava a influencia do pai, levando dison Carneiro a se interessar pelos temas msticos e religiosos, chegando mesmo a anotar em um de seus poemas que a religio era seu tema predileto (17/10/1928, p.78). No conjunto de suas poesias, em mais de uma ocasio dison deixaria emergir esse seu interesse. No poema Horscopo, em que dizia ser o: bicho / nas previses... / E quando tenho qualquer medo / podem escrever / que aquilo / me acontecer (08/11/1928, p.92).

  • 80

    uma coisa feita

    dessas que fazem

    morrer de amor,

    preparada

    minha beleza,

    pelas mos

    do grande mago

    Jubiab!(22/10/1928, p.83).

    Muito antes de Jorge Amado consagrar o nome deste pai de santo com seu romance

    Jubiab, de 1935, o mago j gozava de amplo conhecimento da parte do pblico e das

    autoridades da sociedade soteropolitana e, pelo visto, com clientela endinheirada e

    importante. Contudo, no era de maneira positiva que o famoso Jubiab aparecia nos

    noticirios, mas sim, pela charlatanice e selvageria de suas prticas, somente

    explicveis nos tempos coloniais 132. E, neste sentido, embora no se valesse da categoria

    negro ou outra equivalente para qualificar a cor do mago, dison Carneiro mobilizava

    um nome (Jubiab) e uma prtica (coisa feita), certamente convencido de que, assim como

    ele, seus leitores os entenderiam como associados a negros e africanos 133.

    Ao mesmo tempo, existe uma forte distncia separando o espao que o poeta e a

    amante ocupam e aquele onde se encontra Jubiab: este est l no Pau Mido, regio

    perifrica e pobre de Salvador. Entretanto, tal distncia deve ser lida apenas como um

    132 Os despachos feiticeiros, A Noite, Salvador, 26/03/1925, p.02. Quatro dias antes, no mesmo jornal, noticiava-se o absurdo de rapazes, velhas e mocinhas de boa aparncia frequentarem o famoso Jubiab, um tipo charlato que vivia catando os nqueis dos incautos. Cf. Os domnios de Jubiab, A Noite, Salvador, 22/03/1925, p.03. Vivaldo da Costa Lima tambm faz referncia ao pai de santo Jubiab que, ainda na metade da dcada de 1930, mantinha um terreiro prestigiado, frequentado inclusive por polticos e autoridades policiais do Estado. Cf. O Candombl da Bahia na dcada de 30 in Vivaldo da Costa Lima & Waldir Freitas Oliveira (org.), Cartas de dison Carneiro a Arthur Ramos, op.cit., p.41. 133 Interessante que a ameaa que dison jogava atravs da coisa feita guarde os mesmo termos da promessa que ele fazia pretendente a amante em um outro poema, sem ttulo: nele, ao invs de ameaar colocar uma coisa feita, o poeta prometia, caso a moa finalmente aceitasse a beij-lo, no mais visitar / a caboclinha / de l da S (24/11/1928, p.85). O que, no limite, no deixava de ser uma ameaa, pois caso contrrio, fica-se subentendido que ele iria procurar a caboclinha, que, de alguma forma, sugere estar em oposio social e racial moa que ele queria conquistar.

  • 81

    marcador de outras, mais significativas, de natureza social e cultural. Afinal, so os

    ingredientes mstico, mgico e feiticeiro de Jubiab que, em grande medida, esto

    controlando o significado social da categoria negro no poema, sem perder de vista seu

    sentido cultural de africano (conforme deixam entrever os noticirios dos jornais), ntido

    o suficiente para no ser verbalizado e, mesmo assim, compreendido 134. Portanto, a

    racialidade do poema se assim possvel dizer fica mais por conta da distncia social

    e cultural do poeta do que pela eventual descrio positiva de uma pigmentao de pele.

    Contrrio ao ltimo exemplo o poema Ralhando, no qual as caractersticas

    fsicas de uma mulher negra servem de motivo para um humor depreciativo. Nele, mais

    uma vez flagra-se marcadores socialmente distintivos pontuando a narrativa, garantindo,

    assim, uma margem segura de distncia entre o poeta e a personagem em tela: uma negra

    faceira e sua tolice por ter:

    espichado

    o seu cabelo.

    Para que

    essa beleza

    artificial.

    Afinal,

    de que lhe serve

    andar assim

    com ligas melenas

    se todo mundo sabe

    134 Como lembra Jeferson Bacelar, a categoria negros foi significada de mltiplas formas no contexto da sociedade baiana, acionada para justificar diferentes tipos de problemas sociais: imoralidade, degenerao sexual, criminalidade, violncia e outras coisas mais. Contudo, ele chama a ateno para o fato de que nenhum tema ganhava tanto destaque nos jornais baianos, nos primeiros decnios do sculo XX, quanto os candombls, apreendidos fundamentalmente como entraves culturais e menos raciais, entendidos como um espetculo vergonhoso de atraso numa sociedade que pretendia civilizar-se. Cf. Jeferson Bacelar, A Hierarquia das Raas, op.cit., p.50.

  • 82

    que negra

    nunca teve

    cabelo bom? (sem data, p.87).

    E, na sequncia, os versos elucidam as razes pelas quais se condena a atitude da

    mulher em alisar seus cabelos:

    O governo

    Federal, j se v

    projeta agora

    Construo

    de estradas de ferro

    e de rodagem

    E voc

    bem que podia

    concorrer

    com o pixaim

    para cerc-las

    a farpas de arame! (p.87-88).

    Ora, o poeta tenta tirar proveito irnico do ridculo atribudo ao fato de uma mulher

    negra alisar as melenas, imprimindo a si prpria uma imagem artificial que

    contrastava, afinal, com o que todo mundo sabe, ou seja: com a natureza farpada de

    seu cabelo. A aspereza do cabelo pixaim faz par com a rudeza do esprito da mulher, cuja

    tolice maior seria a de acreditar que uma negra pudesse dissimular os aspectos de sua

    aparncia racial (se aproximar de uma beleza branca e, por isso, artificial?),

    modificando simplesmente seu fsico. Ironicamente, a ironia ganha eficcia cmica e,

    certamente, cida , na justa medida em que mobiliza cdigos semelhantes ao do poema

    sobre a coisa feita. Dito de outra maneira, os elementos deflagradores do cmico e do

    riso no poema, aos olhos de dison Carneiro, bem como aos de seus leitores da elite baiana,

  • 83

    no estariam nesta tentativa infrutfera e vexatria da mulher em negar sua natureza

    racial, alterando a aparncia fsica? E, portanto, na ingenuidade tola de tentar burlar sua

    raa sem estar de posse de certas faculdades sociais e culturalmente distintivas para que

    assim procedesse? 135

    * * *

    Em suas poesias e em particular luz das duas ltimas apresentadas dison

    Carneiro estava objetivando si prprio na vida social baiana a partir do lugar de um no-

    negro, cuja fala flagrantemente pontuada por marcadores que asseguravam distncias

    entre o seu mundo e aquele dos negros por ele retratado. Uma fala socialmente possvel

    por estar lastreada em esquemas de classificao homlogos queles que resultaram na

    branquitude certificada do pai, Souza Carneiro, na ocasio de sua morte. E aqui, tanto pai

    quanto filho nos colocam em face dos dilemas implicados nessas classificaes que

    informaram a existncia e a trajetria social dos Souza Carneiro. O que, trocando em

    midos, podemos traduzir nos termos dos prprios desafios envolvidos na compreenso das

    formas como dison Carneiro operacionalizou a raa como um mediador simblico de

    suas experincias sociais e familiares, bem como nas percepes de si e de suas posies na

    sociedade baiana.

    O que nos revelam, ento, a morte branca de Souza Carneiro e a poesia no-

    negra de dison? Antes de qualquer coisa, o modo como os Souza Carneiro no se viam e

    no foram vistos (pelo menos, na maior parte do tempo e das circunstncias naquele

    contexto), ou seja, como negros. Neste sentido, importante no minimizar toda sorte de

    distines que se estava em condies de, subjetiva e objetivamente, vivenciar a partir deste

    contraste, percebido negativamente e irredutvel a supostas afinidades, identidades ou

    135 Tomo emprestado, aqui, uma reflexo de Heloisa Pontes, quando, realizando uma histria social do teatro brasileiro, desvela as vrias possibilidades das atrizes em burlar, nos palcos, uma srie de constrangimentos impostos pelo tempo e pela natureza imaginria das relaes de gnero. Ou seja, o teatro, como um espao de negociaes de sentidos e convenes sociais e culturais, permite colocar em suspenso certas propriedades corporais que, em outros contextos, seriam facilmente percebidos e marcados. Como o fato, por exemplo, de uma mulher representar, nos palcos, um homem ou personagens com idades distintas da atriz. Cf. A burla do gnero: Cacilda Becker, a Mary Stuart de Pirassununga, Tempo Social. Vol. 16, n1, junho de 2004.

  • 84

    condies de raa que antecedem o uso que as pessoas e os grupos fazem delas em

    contextos e momentos especficos.

    Como procurei mostrar neste captulo, em enorme medida, a posio dos Souza

    Carneiro no sistema de representaes de raa e status foi possvel graas ao sucesso desta

    famlia de mestios baianos em dispor, em variveis propores, de meios sociais,

    econmicos e culturais, investidos por indubitveis sinais de diferenciao com os negros

    baianos: educao formal, diplomas, profisses prestigiadas, capital de relaes etc.. Enfim,

    toda uma srie de elementos que mediavam suas existncias em face das etiquetas de

    tratamento racialmente dispostas pela sociedade baiana, a qual criou sofisticados

    mecanismos de classificao a fim de dar conta, nos termos de Thales de Azevedo, da

    ascenso e presena de suas elites de cor: mulato, mestio, moreno, negro branco, negro

    da terra, pardo, etc. 136. Como j mostrou Norbert Elias, a etiqueta, este clculo a um s

    tempo consciente e inconsciente dos gestos e dos comportamentos, as maneiras sutis de se

    mostrar, fazer ver e referenciar perante a presso da opinio, antes que mera futilidade

    desprovida de razo, era a prpria racionalidade atravs da qual, na corte francesa, se

    expressava o jogo de apostas, posies e coeres exercidas um sobre os outros, por

    indivduos interdependentes. No interior de uma hierarquia de status e chances de poder e

    prestgio: no havia [...] mudana na hierarquia que no se expressasse na mudana da

    etiqueta 137. As formas de se mostrar e se expressar atravs da etiqueta, portanto,

    continham as chances e as apostas de prestgios hierarquizados na boa sociedade de corte

    que, por sua vez, plasmavam partes essenciais das qualidades que os indivduos

    entendiam como constitutivas de sua identidade, de sua honra e de seu orgulho pessoais.

    Tal relao sensvel entre hierarquia e cdigos de comportamentos e distines,

    produtores de qualidades e autoestimas, que em Salvador se expressava e se

    racionalizava racialmente, foi registrada de modo bastante competente por Thales de

    Azevedo nos inmeros exemplos que, na dcada de 1950, pode observar e descrever entre

    seus informantes. Assim, quando algum se dirige a um preto de classe inferior pode, por

    exemplo, compar-lo a outro preto como voc, mas tratando-se de pessoas de classe mais

    136 Cf. As elites de cor, op.cit, pp.33-42. 137 Norbert Elias, A sociedade de corte. Rio de Janeiro, Zahar, 2001, p.105.

  • 85

    alta a etiqueta manda empregar o vocbulo escuro ou mesmo moreno 138; ou ento, o caso

    de um pai indisposto com o termo negro registrado na ficha de atendimento de seu filho

    pelo mdico que o atendera e junto ao qual foi protestar, alegando que preferia escuro ou

    preto; e mesmo o exemplo do intelectual mulato escuro que sabia que, quando queriam

    lhe ofender, chamam-no aquele negro 139. Nestas e nas muitas outras situaes descritas

    por Azevedo, somente o olhar insensvel fora de realidade que as representaes impem

    queles que as vivenciam poderia ignorar as diferenciaes (apenas em aparncia sutis),

    bem como as licenas ou os constrangimentos que categorias como preto, negro,

    escuro ou moreno operavam, em seus contextos de uso, conforme as intenes e as

    posies dos agentes.

    Seja como for, o mais importante nestas consideraes, me parece, no buscar

    nestes vocbulos qualquer espcie de esforo em descobrir, afinal, a qual deles dison

    Carneiro pertenceu ou esteve enquadrado, plastificando de antemo a trajetria social e

    intelectual de dison Carneiro a partir de uma identidade de raa primordial e inclusiva

    (i.e. excludente de outras identidades possveis) 140. At porque, como veremos no

    decorrer da tese (para o bem ou para o mal, se assim posso dizer), a racialidade de dison

    seria o prprio mvel de tenses polticas e ideolgicas em determinados momentos de sua

    vida, no sem consequncias para se entender as lgicas de suas escolhas no campo

    intelectual. Trata-se, sobretudo, de chamar a ateno para a necessidade de no se descolar

    as formas como dison Carneiro percebia a si prprio, bem como o mundo que vivenciava,

    138 Thales de Azevedo, As elites de cor, op.cit., p.36 (nfases minhas). 139 Idem, Ibidem. 140 Clia Maria Marinho Azevedo, Antirracismo e seus paradoxos, So Paulo, Annablume, 2004, p.83. Plastificar e essencializar uma trajetria em uma identidade racial primordial ou, o que d no mesmo, quando aplicadas histria do pensamento social no Brasil, tratar os intelectuais de ascendncia africana na chave enrijecida de uma intelectualidade negra. Como se tudo que eles tivessem fizeram ou pensaram tivesse uma indelvel natureza racial: quando no, tratados como figuras um tanto arrivistas, cujos fins eram o de se filiar ou assimilar uma sociedade e cincia branca dominantes. No que diz respeito a um trabalho expressivo deste tipo de abordagem e no qual o prprio dison Carneiro aparece tangencialmente como objeto, pode-se mencionar o artigo de Ari Lima sobre o lugar do intelectual negro no meio acadmico brasileiro. Projeta-se Carneiro num ambiente assptico, esterilizado de toda sorte de resduos sociais, menos os raciais, reduzindo as escolhas intelectuais do autor nos termos de uma filiao emudecida a uma cincia branca, de modo que o intelectual negro subalterno acaba por invisibilizar-se, apassivar e emudecer sua autoconscincia, seu prprio corpo negro imiscudo no contexto de pesquisa. Ainda, a seu ver, o anseio de filiao a uma cincia branca, objetiva, paternalista e pretensamente imparcial que explica a extrema severidade [...] com que dison Carneiro se refere ao pequeno funcionrio pblico, Manoel Querino, pesquisador orgnico dos cultos afro-brasileiros, contemporneo do mestre e cientista racista e evolucionista, Nina Rodrigues. Cf. Ari Lima, A legitimao do intelectual negro no meio acadmico brasileiro. Afro-sia, n25 e 26, 2001, p.283 e 296.

  • 86

    do quadro mais nuanado e mediado por sua trajetria e experincias familiares.

    Experincias que informaram modalidades particulares de representaes em meio s quais

    ele foi aprendendo a ordenar simbolicamente suas posies na sociedade baiana. Neste

    sentido, suas primeiras poesias e a morte branca do pai so objetivaes eloquentes dessas

    representaes, cujo silncio quanto a uma negritude (auto) atribuda revelador, menos de

    uma simples fidelidade acrtica, emudecida e subalterna classe dominante branca 141,

    e muitos mais das possibilidades de dison Carneiro e sua famlia em investir (e serem

    investidos) de qualidades e distines que colocava a raa em suspenso, com o intuito

    justamente de minimizar o risco de terem suas identidades monopolizadas, atacadas ou

    preferencialmente invocadas nesse registro.

    Para tanto, certamente, puderam contar dison e os Souza Carneiro, assim como

    outras tantas pessoas e famlias que ajudaram a dar feio s elites e s classes mdias

    mestias baianas, alm dos sinais de distines que manipulavam, com um nicho propcio

    para que eles fossem capazes de vivenciar esta negritude sem ser negro naquele contexto;

    ou uma negritude sem etnicidade, para falar nos termos de Lvio Sansone 142. Afinal, como

    assinala Antnio Sergio Guimares, no parece aleatrio que movimentos de afirmao

    141 Como faz Leo Spitzer, por exemplo, com a famlia Rebouas e, em especial, com o pai de Andr, o jurista pardo Antnio Pereira Rebouas que, vivendo no sculo XVIII e XIX, segundo o autor, seria passvel de crticas por sua fidelidade acrtica aos grupos polticos dominantes e s ideologias do embranquecimento, uma vez que no percebeu qualquer necessidade de buscar uma identificao alternativa com o grupo com o qual tinha certa afinidade de cor, mas do qual conseguira se distanciar-se, social e economicamente, com evidente sucesso. Cf. Leo Spitzer, Vidas de entremeio: assimilao e marginalizao na ustria, no Brasil e na frica Ocidental, op.cit., p.143 (nfases minhas). 142 Negritude sem etnicidade na medida em que, aponta acertadamente Sansone, a identidade tnica pode ser [entendida como] relativamente independente da cultura tnica na construo de estratgias de sobrevivncia e mobilidade social. Cf. Negritude sem etnicidade, Salvador/Rio de Janeiro, UFBA/Pallas, 2004, pp.291. Uma identidade etnicamente invocada ou atribuda, mesmo que a contragosto das pessoas ou dos grupos assim classificados, no necessariamente vivenciada na chave de um pertencimento a uma cultura ou comunidade tnica; ou seja, como etnicidade, como marcadores de fronteiras polticas suportadas pela manipulao de traos de ascendncia ou origens comuns. Sobre etnicidade, ver Fredrik. Barth, Grupos tnicos e suas fronteiras in Philippe Poutignat & Jocelyne Streiff-Fenart, Teorias da Etnicidade. So Paulo, Ed. UNESP, 1998; Roberto Cardoso de Oliveira, Identidade, etnia e estrutura social, So Paulo, Pioneira, 1976; Manuela Carneiro da Cunha, Antropologia do Brasil: mito, histria, etnicidade. So Paulo, Brasiliense, 1986; e Negros estrangeiros: os escravos libertos e sua volta frica. So Paulo, Ed. Brasiliense, 1985. Trata-se, portanto, recorrendo mais uma vez ao trabalho de Lvio Sansone, de buscar e investigar a etnicizao e a negritude onde estas podem ser encontradas, em vez de insistir em que elas devem estar em toda parte. Cf. Negritude sem etnicidade, op.cit., p.297. Para uma anlise que, em vrios em vrios aspectos, se afina ao esforo de Lvio Sansone em desvincular analiticamente identidades e culturas ou grupos tnicos, consultar o estudo de Roger Brubaker sobre a situao social e poltica da minoria hngara que vive sob o controle territorial e administrativo do Estado da Romnia. Ethnicity without groups, European Journal of Sociology, vol.43, n2, 2002.

  • 87

    poltica em torno da raa, de uma conscincia de raa, tenham florescido no Brasil com

    maior vigor, especialmente a partir das duas primeiras dcadas do sculo XX, em So

    Paulo, onde a imigrao estrangeira foi mais importante 143. Ali, os esforos em prol da

    elevao moral da raa e da mobilizao dos homens de cor foram ganhando corpo e se

    constituindo politicamente em torno da percepo comum de desalojamento e

    marginalizao, enquanto negros, dos empregos e servios mais valorizados oferecidos

    pela expanso e consolidao de uma sociedade industrial e competitiva ,

    sistematicamente ocupados pela presena macia da mo de obra imigrante branca de

    origem europeia desde finais do sculo XIX. Tal situao de bloqueamento aos empregos

    mais vantajosos e estveis no mercado de trabalho urbano e industrial, articulada aos

    incentivos de cunho moral que provinham da emulao indireta, provocada pelo xito

    econmico e social dos imigrantes, especialmente dos italianos, simplificou enormemente,

    segundo Florestan Fernandes, a escolha de objetivos comuns aos negros e mestios

    paulistas, precipitando o surgimento de jornais, lideranas, movimentos, ideologias e

    formas de conscincias polticas que buscaram se justificar a partir de vinculaes e

    impulses inconformistas especificamente raciais 144.

    Decerto, no vem ao caso aqui estabelecer parmetros mais sistemticos de

    comparao entre as diferentes formas ou estratgias de integrao da antiga mo de obra

    servil e no-branca em face do colapso da escravido e da consolidao do trabalho livre e

    assalariado 145. Contudo, cabe destacar que a Bahia (e os estados do Nordeste, em geral),

    diferentemente de So Paulo e mesmo do Rio de Janeiro, tanto pela ausncia de

    contingentes mais expressivos de imigrao europeia capazes de ameaar a insero,

    desigual, porm contnua de seu contingente no-branco a postos de maior prestgio e

    valorizao no mercado de trabalho local quanto por se mostrar menos afetada pela

    modernizao sbita e intensa 146, tendeu a se mostrar como um nicho em que as

    143 Antnio Sergio Guimares, A modernidade negra, Teoria e Pesquisa, n42/43, janeiro-julho de 2003, p.54. Ver tambm do mesmo autor, Intelectuais negros e modernidade no Brasil. Centre for Brazilian Studies. University of Oxford. Working Paper, n52, 2003. 144 Florestan Fernandes, A integrao do negro na sociedade de classes, So Paulo, Ed. Globo, vol.2, 2008 [1964], pp.15-16. 145 Florestan Fernandes, A integrao do negro na sociedade de classes, v.1 e 2. So Paulo, Globo, 2008 e O negro no mundo dos brancos. So Paulo, Ed. Globo, 2007; Florestan Fernandes & Roger Bastide, Brancos e Negros em So Paulo. So Paulo, Ed. Nacional, 1958. 146 Florestan Fernandes, O negro no mundo dos brancos, op.cit., p.66.

  • 88

    formas de identidade baseadas no isolamento da cor, como ncleo de uma poltica de

    diferenas, no tiveram tanta capilaridade, nem mereceram tanta nfase da parte de sua

    populao negra e mestia 147. De modo que, na Bahia, e particularmente em Salvador, em

    razo der sua demografia cultural africana singular no contexto brasileiro, mobilizar a cor,

    positivar, lanar ou invocar a raa entre suas elites de cor deveria parecer, talvez, to

    improvvel ou ofensivo quanto dizer que eles no passavam de um negro e, de alguma

    forma, de um africano 148.

    147 Aqui, me utilizo da expresso de nicho, inspirado pelo trabalho de Ian Hacking e seu estudo sobre os mad travelers, na Frana de meados do sculo XIX: espcies de loucos andarilhos, caracterizados pelo seu nomadismo patolgico e compulsivo, entre outras coisas. O interessante apontado por Hacking que esta maneira de ser louco, ou de ser socialmente marcado enquanto tal, somente foi possvel em determinados nichos ecolgicos: uma forma de loucura que existiu na Frana, mas no em pases como Estados Unidos e Inglaterra, no mesmo perodo: isto, por exemplo, graas s experincias distintas que estes pases tinham com a emigrao como parte de seus estilos de vida seja com o alistamento militar: na Frana, onde o servio militar era obrigatrio, qualquer homem circulando pelo pas sem o seu livret, onde constassem seus servios s foras armadas, o tornava algum passvel de ser pessoas suspeita de distrbios e, portanto, de ser presa ou internada. Cf. Mad travelers: reflections on the reality of transient mental illnesses. Harvard University Press, 1998. 148 Na Bahia, ao contrrio, a fraca industrializao, a fora demogrfica dos descendentes de africanos, assim como a precariedade do sistema pblico de ensino, parecem ter servido para manter a opo de muitos negros pela preservao de sua tradio cultural como via de integrao. Kim Butler explora muito bem essa dicotomia entre um movimento social negro que, em So Paulo, mobiliza-se em torno da raa e um outro que, na Bahia, mobiliza a cultura africana (Butler 1998). Cf. Antonio Sergio Guimares, Intelectuais negros e modernidade no Brasil, pp.21-22.

  • 89

    CAPTULO II

    ACADEMIA DOS REBELDES: MODERNIDADE E MODERNISMO VISTOS DA

    PROVNCIA

    Formada nos ltimos anos de dcada de 1920, a Academia dos Rebeldes reuniu, em

    Salvador, um grupo de jovens que aspiravam projeo intelectual e literria, cujas idades

    variavam entre 15 e 28 anos. Alm do prprio dison Carneiro, fizeram parte do grupo:

    Jorge Amado (1912-2001), Aydano do Couto Ferraz (1914-1985), Clvis Amorim (1912-

    1970), Joo Cordeiro (1905-1938), Guilherme Freitas Dias Gomes (1912-1943), Jos Alves

    Ribeiro (1909-1968), Sosgenes Costa (1901-1968), Walter da Silveira (1915-1970), Jos

    Bastos (1905-1937) e, por ltimo, o nico com mais de 30 anos, considerado uma espcie

    de lder espiritual do grupo, Pinheiro Viegas (1865-1937). Durante o curto perodo de

    existncia, a academia lanou duas revistas: O Meridiano, em 1929, com um nico nmero,

    e O Momento, que logrou vida um pouco mais longa, com nove nmeros, entre os anos de

    1931 e 32 149. Nestas revistas, o grupo de jovens, quase todos mal sados dos bancos

    ginasiais, invocou a ousada tarefa de colocar Salvador na cena do debate sobre a

    modernizao brasileira e o modernismo literrio que, pelo menos desde a Semana de Arte

    Moderna de 1922, em So Paulo, vinha ganhando forma e substncia nos diferentes

    ambientes intelectuais do pas. Tal debate se arrastou de maneira dispersa por todo o

    decnio de 1920 e encontrou na revoluo de 30, na expresso consagrada de Antonio

    Candido, um eixo e um catalisador: um eixo em torno do qual girou de certo modo a

    cultura brasileira, catalisando elementos dispersos para disp-los numa configurao nova

    [...], projetando na escala da Nao fatos que ocorriam no mbito das regies 150.

    149 O nico nmero de Meridiano foi lanado em setembro de 1929. Os noves nmeros de O Momento circularam entre julho de 1931 e junho de 1932, com uma interrupo entre os meses de fevereiro e maio de 1932. 150 Antonio Candido, A revoluo de 30 e a cultura in A Educao pela Noite e Outros Ensaios, So Paulo, tica, 1989, p.181.

  • 90

    Minha inteno neste captulo no recuperar as atividades da Academia dos

    Rebeldes de um ponto de vista propriamente literrio, tampouco, reclamar qualquer espcie

    de representatividade ou lugar para esses jovens na histria da literatura nacional; ou, ainda,

    equacion-la como parte ou manifestao de uma suposta histria do movimento

    modernista com suas variaes nas diferentes regies onde [ele] ocorreu 151. Antes, os

    aspectos literrios e estticos importam na medida em que servem como evidncias para se

    pensar o espao social e cultural no qual dison Carneiro cumpriu parte de seu aprendizado

    intelectual na virada das dcadas de 1920 e 30. Alm disso, o acompanhamento dos

    empreendimentos editoriais e literrios da Academia dos Rebeldes buscou ressaltar o

    enraizamento de seus membros e de suas atividades no contexto atribulado da poltica

    oligrquica local, face s agitaes e consequente vitria do movimento de 1930. Um

    contexto de tenses e reviravoltas bastante significativo, pois foi nele que se armou o

    cenrio de converso ideolgica de dison Carneiro ao comunismo: fato decisivo que, a

    partir de ento, ofereceria lastro e sentido a muitas de suas tomadas de posio e de seus

    deslocamentos no campo intelectual brasileiro.

    Em sntese, a formao, as prticas, os repertrios e os temas de interesses da

    Academia dos Rebeldes parecem ganhar maior nitidez, quando vistos em registro articulado

    no apenas s dinmicas de um espao intelectual fortemente sujeito s demandas polticas

    e simblicas das faces oligrquicas locais, mas tambm s representaes de uma elite

    regional s voltas com os dilemas do atraso de uma sociedade, como a baiana,

    economicamente arruinada e decadente, bem como temerosa quanto ao seu papel poltico e

    cultural da definio dos rumos da Repblica e da Nao. Temores e dilemas plasmados no

    jogo de apropriaes e recusas estticas, do qual participaram a Academia dos Rebeldes e

    outros grupos de escritores locais, na disputa com as vanguardas e os novos ismos

    literrios. Jogo que, de certo modo, resultava dos esforos destes intelectuais da provncia

    em reivindicar um lugar e sua permanncia no presente literrio imposto por estas

    vanguardas e do qual se sentiam ameaados de expulso ou de relegao ao atraso e ao

    151 ngelo Barroso Costa Soares, Academia dos Rebeldes: modernismo moda baiana, (Dissertao de Mestrado), Feira de Santana-UEFS, 2004, p.15. Ver, tambm, neste sentido, Cid Seixas, Modernismo e tradicionalismo na Bahia: apontamentos. In: Triste Bahia. Oh! Quo dessemelhante, Salvador, EGBA, 1996.

  • 91

    passado literrio 152. De modo que, certamente, no teria sido aleatria a viso

    fundamentalmente ambivalente que os rebeldes tinham em relao s transformaes da

    sociedade brasileira, naquele momento, percebidas por eles como decorrentes da

    mentalidade, da literatura e do mundo modernos. Uma srie de ambivalncias que, no

    surpreendentemente, se materializaram nos prprios partidos formais que adotaram em suas

    revistas, Meridiano e O Momento, marcadas pelo uso e mesmo pela defesa de modelos

    estticos que comeavam a ser combatidos como passadistas e ultrapassados aos olhos

    das vanguardas literrias brasileiras das dcadas de 1920 e 30. Premidos entre o desejo de

    experimentarem todas as aventuras que a modernidade prometia e a percepo sentida da

    incapacidade de vivenci-las tal como eles as imaginavam, a no ser de maneira parcial,

    quase que como uma farsa, esses jovens foram instados a plasmar um discurso sobre o

    moderno que pareceu assumir, muitas vezes, um carter fantstico, como se fossem

    compelidos a se nutrir no da realidade social, mas de fantasias, miragens e sonhos 153.

    * * *

    Os poucos trabalhos e as notas existentes sobre a formao da Academia dos

    Rebeldes so bastante taxativos em abord-la como uma agremiao de feies e pretenses

    exclusivamente literrias. Em parte, tal perspectiva parece ter ganhado forte consenso,

    graas aos numerosos registros deixados pelo ex-rebelde de maior consagrao, Jorge

    Amado, nos quais sempre enfatizou se tratar somente de um grupo de jovens mordidos

    pelo micrbio da literatura 154. No entanto, um olhar mais atento sobre a insero coletiva

    152 Decerto, noes de passado e presente literrios que no devem ser entendidas em termos absolutos ou evolucionistas, mas como marcadores que esto em jogo na prpria disputa entre os diferentes grupos de escritores e suas vanguardas em contestar ou instituir um presente como ultrapassado e defender um presente mais presente, isto , desconhecido, e tornar-se, neste sentido, o ltimo moderno certificado. Sendo, portanto, as noes de modernidade/atraso ou presente/passado intelectual e literrio os objetos de rivalidades e lutas, denegaes, revoltas e rupturas atravs dos quais se busca controlar a prpria produo social e simblica do tempo especfico do campo literrio. Cf. Pascale Casanova, A repblica mundial as letras, So Paulo, Estao Liberdade, 2002, pp.120 e 131. 153 Cf. Marshall Berman, Tudo que slido se desmancha no ar. So Paulo, Cia das Letras, 2007, p.275. 154 Jorge Amado, Alves Ribeiro, A Tarde, Salvador, 29 de junho de 1976, s/d. Ainda, a Academia dos Rebeldes foi mencionada por Jorge Amado nos seguintes trabalhos: Jorge Amado, Navegao de Cabotagem, op.cit., Jorge Amado, Discurso de Jorge Amado, A Tarde, Salvador, 06 de maro de 1985; Jorge Amado, O professor Souza Carneiro, op.cit. e Alice Raillard, Conversando com Jorge Amado, op.cit. Sobre as

  • 92

    desses jovens no mundo intelectual baiano mostra-se revelador das dimenses polticas que

    informaram os sentimentos de solidariedade e as identidades reivindicadas pelo grupo.

    Assim como, em grande medida, o tipo de literatura praticada pela Academia dos Rebeldes

    e por dison Carneiro parece ganhar contornos mais ntidos, quando abordado na chave de

    uma estratgia adotada pelos rebeldes no sentido de evidenciar uma inscrio particular no

    interior dos grupos oligrquicos baianos.

    Um dos argumentos mais invocados para se explicar o surgimento da Academia dos

    Rebeldes era a pretenso desses jovens em se contrapor a um outro grupo de escritores de

    Salvador, conhecido como Arco & Flexa 155. Ou seja, em termos de uma rivalidade

    fundamentalmente esttica e literria entre eles. Formadas em meados de 1928, Arco &

    Flexa e Academia dos Rebeldes disputaram o posto de renovadores da literatura baiana e de

    protagonistas do alinhamento ao cenrio e aos propsitos do esprito novo do

    modernismo 156. No entanto, muitas dessas divergncias eram manifestaes de diferenas

    e oposies que se realizavam a partir das percepes das distncias que cada um dos

    grupos guardava das principais instituies organizadoras e consagradoras do espao

    intelectual e literrio baianos.

    Em boa medida, Arco & Flexa somente se concretizou e conseguiu lanar sua

    revista homnima, graas ao prestgio de seu lder, Carlos Chiacchio (1984-1947): scio

    efetivo do Instituto Histrico e Geogrfico da Bahia, eleito na primeira leva de imortais

    para compor a Academia de Letras da Bahia e, a partir da dcada de 1920, considerado por

    muitos como o mais respeitado crtico literrio atuante no estado, com uma coluna semanal

    primeiras experincias intelectuais de Jorge Amado com a Academia dos Rebeldes, ver tambm Alfredo Wagner Berno de Almeida, Jorge Amado: poltica e literatura, R.J, Campus, 1979. 155 Quanto a trabalhos que analisam (ou ao menos apresentam informaes sobre) a Academia dos Rebeldes e o modernismo baiano, cf. Ivia.Alves. Arco & Flexa: contribuio para o estudo do modernismo, Salvador, Fundao Cultural do Estado da Bahia, 1978; Cid Seixas, Triste Bahia. Salvador, EGBA, 1996; Cristina Maria Teixeira Campello, Pinheiro Viegas e a Academia dos Rebeldes, Universitas: revista de cultura da Universidade Federal da Bahia, n10, setembro/dezembro de 1971; ngelo Barroso Soares, Academia dos Rebeldes: modernismo a moda baiana. (Dissertao de Mestrado). Feira de Santana-BA, UEFS, 2004; Micio Tti, Jorge Amado: vida e obra, Belo Horizonte, Itatiaia, 1961; Alfredo Wagner Berno de Almeida, Jorge Amado: poltica e literatura, Rio de Janeiro, Campus, 1979; Vivaldo da Costa Lima & Waldir Freitas Oliveira (org.), Carta de dison Carneiro a Arthur Ramos, So Paulo, Corrupio, 1987; Monalisa Valente Ferreira, Luva de brocado e chita: modernismo baiano na revista A Luva. (Dissertao de Mestrado), Campinas, Unicamp-IEL, 2004. 156 A Bahia, nico estado do Brasil onde o sentimento de tradio sincero, no podia fechar as plpebras ante esse movimento intenso de nacionalidade de que aceita a orbe [...] o esprito novo, o cunho moderno to vibrante como necessrio. Ramayana Chevalier, Quando se quer lutar, Arco & Flexa, n1, novembro de 1928, p.22.

  • 93

    em A Tarde 157, talvez o maior e mais importante jornal da capital, de propriedade de Hlio

    Simes Filho (1886-1957), ento prestigiado deputado federal e lder da bancada baiana na

    cmara. Muito da rebeldia invocada por dison Carneiro e seus colegas devia

    operacionalizar cdigos de distino que fossem capazes de marcar a distncia relativa que

    seus membros mantinham das instituies oficiais de manuteno da produo cultural

    baiana, ao contrrio de Arco & Flexa. Uma distncia que, inclusive, se expressava nos

    diferentes redutos de sociabilidade que cada um dos grupos frequentava, bem como nos

    prprios estilos de vida que sustentavam. Especialmente reveladora, neste sentido, a

    observao de Luiz de Carvalho Filho (1908-1994), ex-integrante de Arco & Flexa, ao

    relembrar as vantagens mundanas associadas condio de protegidos de Carlos

    Chiacchio:

    No teatro Kursal havia uma francesinha linda, que declamava Mallarm [...] Essas

    mulheres vinham do Rio de Janeiro recomendadas a Chiacchio, que era um tremendo

    bomio e lhes dava proteo. Atravs de Chiacchio nos aproximamos de muitas delas. Da

    no termos muito contato com as mulheres da chamada baixa prostituio primeiro,

    porque a a barra era muito pesada, e depois porque as europeias constituam uma novidade,

    um atrativo maior para ns, rapazes provincianos [...] As nossas diferenas [com relao

    Academia dos Rebeldes] eram em termos de conceito de literatura. E de vida bomia. Ao

    contrrio de ns, eles frequentavam bordis populares, eram grandes farristas, chamavam a

    ateno 158.

    Alm de Carlos Chiacchio, o grupo de Arco & Flexa era composto, em sua maioria,

    por estudantes distribudos pelos cursos de medicina e direito da capital baiana que, como

    157 A trajetria literria de Carlos Chiacchio fortemente ligada aos grupos de poetas parnasianos e simbolistas da Bahia, organizados em torno de duas agremiaes de cruzadores da cultura: a Nova Cruzada, entre 1901 e 1911, a Tvola, entre 1917 e 1927. A partir de 1936, Chiacchio criaria a Alas das letras e das artes, sendo que, segundo Mascarenhas, era uma retomada laudatria de um passado intelectual, cujas reunies se prestavam justamente ao culto da memria desses cruzadistas da cultura. Dois anos depois, em 1938, passou a realizar sales literrios no ms de setembro, como uma forma de recuperar a festa da primavera que Chiacchio havia promovido junto com o grupo da Nova Cruzada. Cf. Dulce Mascarenhas, Carlos Chiacchio: homens e obras, Salvador, Fundao Cultural do Estado da Bahia, 1979, p.79. Entre estes cavaleiros da honra, como se autonomeavam, estavam, por exemplo: o romancista Xavier Marques, os poetas Durval de Salles, Lulu Parola (pseudnimo de Alosio de Carvalho), Roberto Correa, o historiador Braz do Amaral e o poltico Otvio Mangabeira. As atividades do grupo concentravam-se na realizao de saraus literrios no Instituto Histrico e Geogrfico e nos circuitos bomios mais chics de Salvador. Cf. Dulce Mascarenhas, Carlos Chiacchio, op.cit. e Ivia Alves, Arco & Flexa, contribuio para o estudo do modernismo, op.cit.. 158 Luis de Carvalho Filho, Arco & Flexa in Samba, Salvador, Conselho Estadual de Cultura, 1999, p.XXVI.

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    tantos outros em semelhante condio, buscavam espaos e oportunidades para exercerem

    os pendores poticos e literrios. De modo que o apoio e o incentivo do prestigiado crtico

    local na criao da revista Arco & Flexa forneceu-lhes a chance de capitalizarem suas

    ambies, ainda que isso significasse uma participao reduzida na definio das atividades

    do grupo, fortemente controlado pelo seu principal animador e paj da tribo 159, Carlos

    Chiacchio. Na certeza de que, com o nosso anonimato, nada conseguiramos, acertamos

    com Chiacchio [a publicao de uma revista] que [...] nos animava em prosseguir com os

    nossos propsitos 160. E, embora seja difcil sustentar que entre os dois grupos se

    operassem distines mais significativas quanto s suas classes de origem, pode-se dizer

    que a Academia dos Rebeldes acabou aglutinando jovens provenientes de famlias

    remediadas de elite ou em situaes de relativa precariedade financeira. O que, em parte, se

    evidenciava no fato de quase metade deles apresentar trajetrias educacionais irregulares ou

    interrompidas, sem conseguir ingressar ou completar um curso superior (Clvis Amorim,

    Oswaldo Dias da Costa, Joo Cordeiro, Sosgenes Costa e Jos Bastos) ocorrncia no

    encontrada entre os protegidos de Chiacchio 161.

    159 Cf. Nonato Marques, Os poetas da baixinha in Samba: mensrio moderno de letras, artes e pensamento, Ed. Fac-similar, Salvador, Secretria de Cultura e Turismo do Estado/Conselho Estadual de Cultura, 1999 [1928/1929], p.XXXIV. 160 Idem, p.XVIII. Houve cinco nmeros de Arco & Flexa, entre novembro 1928 e, talvez, meados de 1929, j que nos nmeros 4 e 5, lanados em edio conjunta, no constam o ms. Entre os nomes mais constantes do grupo e da revista Arco & Flexa, destacam-se Pinto de Aguiar (1910-1991), Luis de Carvalho Filho, Eurico Alves (1909-1974), Hlio Simes (1910-1987), Ramayana de Chevalier, Jonathas Milhomens, De Cavalcanti Freitas, Jos Queiroz Jnior e Damasceno Filho. O grupo reuniu tambm alguns colegas de longa data de Chiacchio, muitos deles membros do IGHBa, da Academia de Letras e ex-participantes das reunies da Nova Cruzada, agremiao que ele havia ajudado a organizar na dcada de 1910. Arco & Flexa, de certa forma, era uma espcie de reatualizao de um circuito de sales e tertlias literrias j estabelecido, em Salvador, cujo modelo de excelncia potica pautava-se na esttica simbolista e parnasiana. Cf. Monalisa Valente Ferreira, Luva de brocado e chita, op.cit., p.77. Sobre os membros do grupo, ver tambm via Alves, Arco & Flexa, op.cit. 161 Clvis Amorim, natural de Santo Amaro da Purificao (BA), fez somente o curso ginasial em Salvador, ficando em trnsito entre a capital e a cidade natal, onde o pai tinha um engenho que, posteriormente, o filho transformaria em um alambique que no demorou a fracassar, tornando-se um fazendeiro endividado. Sosgenes Costa completou apenas o ginsio no sul da Bahia, em Belmonte, se transferindo mais tarde para Ilhus, onde foi telegrafista e funcionrio da Associao Comercial da cidade. Jos Bastos, de Itabuna, tambm sul da Bahia, realizou seus estudos em Salvador, no Ginsio Ypiranga, mas no conseguiu ingressar na Faculdade de Medicina, como era desejo de seu pai, supostamente por falta de recursos. Joo Cordeiro, um pouco mais velho que os demais rebeldes, a despeito das pouqussimas informaes encontradas, no concluiu o curso superior e j dispunha de emprego pblico nos anos finais de 1920. Todas as informaes foram tiradas de ngelo Barroso Costa Soares, Academia dos rebeldes|: modernismo moda baiana, op.cit. e de Jorge Amado, Navegao de cabotagem, op.cit. A melhor situao financeira dos membros de Arco & Flexa poderia era indicada no fato de que eles prprios bancaram boa parte dos custos da revista que lanaram (que no era vendida, apenas doada pelos autores). Embora Chiacchio, mdico clnico de

  • 95

    Mesmo entre os rebeldes que conquistaram o ttulo universitrio, vale a pena

    mencionar as condies sob as quais muitos deles parecem ter concretizado tal feito, num

    contexto de falncia material e/ou poltica da famlia, tendo que, para tanto, recorrer a

    parentes ou ao capital de relaes de que dispunham no interior das fraes dirigentes a fim

    de garantir aos filhos oportunidades educacionais que, caso contrrio, dificilmente seriam

    possveis. Exemplares, neste sentido, foi o caso do prprio dison Carneiro, cujo sucesso

    em realizar o curso jurdico esteve diretamente relacionado interveno do tio paterno

    endinheirado que custeou seus estudos e dos irmos 162. Mas tambm o de Guilherme Dias

    Gomes (irmo mais velho do dramaturgo e novelista Alfredo Dias Gomes), primognito de

    uma famlia elitista que, em funo da traumtica morte precoce do pai engenheiro, se

    viu relegado a toda sorte de dificuldades para, em 1933, se formar mdico na capital baiana.

    Tais dificuldades foram amortecidas graas aos esforos de sua me: uma mulher de

    educao esmerada e fumaas de nobreza arruinada que, aos 33 anos, no esta[va]

    preparada para lutar sozinha pela educao de dois filhos e que, a partir de ento, passou

    a lutar por um emprego, usando as relaes da famlia [e] munindo-se de pistoles para

    polticos influentes. Os empregos prometidos no se concretizaram, mas a me, Aline

    Freitas Gomes, montaria um pequeno negcio de doces, com meia dzia de vendedores

    e com o qual conseguiu manter a famlia longe de destinos mais inglrios 163. De qualquer

    formao, tivesse conseguido colaboraes financeiras de outros amigos mdicos, tudo indica que a principal fonte foi a pequena herana recebida por Pinto de Aguiar (diretor do mensrio) [...] que subvencionou as edies da revista. Cf. Ivia Alves. Arco & Flexa: contribuio para o estudo do modernismo, op.cit., p.15. Para mais informaes sobre os escritores de Arco & Flexa, ainda que esparsas e com bastantes buracos, ver Raimundo de Menezes, Dicionrio literrio brasileiro, Rio de Janeiro, Livros Tcnicos e Cientficos, 1978; Afrnio Coutinho & Galante de Souza, Enciclopdia de Literatura Brasileira, Rio de Janeiro, F.A.E, 1989; e Alzira Abreu [et al], Dicionrio histrico-biogrfico ps-30, Rio de Janeiro, CPDOC/FGV, 2001. 162 Edria Carneiro, Entrevista concedida ao autor, op.cit. 163 Alfredo Dias Gomes, Apenas um subversivo: autobiografia, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1998, pp.16-23. Sobre os outros membros da Academia dos Rebeldes que completaram o curso superior, no consegui informaes biogrficas substantivas. Porm, alguns deles apresentam fortes indcios de que suas oportunidades educacionais estiveram sensivelmente atreladas a situaes de apadrinhamento e tutelagem diversas. Seja por falncia Seja por origem familiar. Walter da Silveira, nascido em Salvador e filho de um comerciante, chegou a mencionar em seu discurso de posse Academia de Letras da Bahia: E nem sabia, aos dois anos [em 1917], significado da vida ou morte, quando dois episdios dramticos ma apanharam. Um de natureza familiar influiu sobre os rumos de minha casa: a runa comercial de meu pai. O outro, de carter social, atingiu toda a humanidade; a insurreio russa de 1917. Apud Marieta Alves, Escritores baianos, op.cit., pp.146-47 (nfases minhas). Ao ingressar na Faculdade de Direito de Salvador, em 1931, Walter da Silveira constava como um dos trs alunos gratuitos do curso: um indicado pelo Governo do Estado, um pelo Centro Acadmico e outro pela Congregao. Cf. Biblioteca Pblica do Estado da Bahia, Peridicos, Revista da Faculdade de Direito da Bahia, vol.8, 1933, p.183. No caso de Jos Alves Ribeiro, natural de Ipir (BA) e que ingressou no curso jurdico no mesmo ano de Walter da Silveira, o lance decisivo foi o apadrinhamento por um coronel da capital que custeou seus estudos, j que o pai, um modesto

  • 96

    forma, a despeito das energias gastas em sentido contrrio, no deixa de ser interessante

    notar as ambiguidades e os riscos de confuso social a que estavam expostos estas famlias

    remediadas, ao terem de conviver mais proximamente com grupos sociais cujo contato

    repeliam, mas que o empobrecimento tornava inevitvel. Como lembrava o caula Dias

    Gomes, numa famlia de formao elitista e preconceituosa, at certo ponto ridcula na

    situao em que nos encontrvamos, minha me no podia admitir que eu me misturasse a

    negros e mulatos no baba [futebol] de todas as tardes 164.

    Assim, de se reconhecer que, do ponto de vista simblico, essas experincias de

    intimidao social no deixariam de ecoar na sensibilidade intelectual e literria de

    dison Carneiro e seus colegas. Esses deslocamentos bruscos no espao da classe

    dirigente e, sobretudo, os riscos de a famlia ser da desalojada em definitivo tendem a

    enfraquecer os laos com que seus filhos se prendem classe de origem e repercutem nos

    veios expressivos com que apreendem o mundo social 165. E talvez por isso mesmo, tanto

    pelos transes associados s oscilaes sociais e materiais do cacife familiar quanto pela

    carncia de protees mundanas e literrias equivalentes quelas que os moos de Arco &

    Flexa estavam em condies de usufruir, graas ao amparo desta espcie de deus da vida

    cultural local que era Chiacchio 166, parece compreensvel que os rebeldes tenham

    comeado percebido e plasmado suas afinidades a partir de sociabilidades igualmente

    pecuarista do interior da Bahia no tinha condies de arcar. Cf. E. DAlmeida Vitor, O guia de bois; que seria, afinal, um magistrado, A Tarde, Salvador, 11 de maro de 1979, s/d; Jorge Amado, Alves Ribeiro, A Tarde, Salvador, 29 de junho de 1976. Jorge Amado era um dos que gozavam de melhor situao financeira no grupo, a despeito do impacto da crise de 29 nas exportaes baianas e dos desastres naturais que assolaram a produo cacaueira baiana na virada dos anos de 1920 e 30, no sul do estado, onde o pai, o coronel Joo Amado, tinha sua produo. No por acaso, foi o nico dos rebeldes que esteve em condies de sair da Bahia para estudar direito na capital federal, em 1930, podendo contar com as mesadas certamente significativas do pai. Certa vez, o prprio autor chegou a afirmar que a estreia em livro [Pas do Carnaval] custou-me parte considervel das mesadas remetidas de Ilhus pelo coronel Joo Amado. Cf. Navegao de Cabotagem, op.cit., p.183. 164 Alfredo Dias Gomes, Apenas um subversivo: autobiografia, op.cit., p.23. 165 Sergio Miceli, Intelectuais e classe dirigente no Brasil, op.cit., p.163. A passagem faz referncia ao conjunto de experincias de degradao social que marcou a trajetria social dos chamados romancistas de 30 no Brasil, o que, justamente, segundo o autor, seria a primeira condio para que se possam [os romancistas] objetivar as relaes de sentido e as relaes de fora entre os grupos sociais. Experincias de degradao, de outra parte, de que so poupados os detentores de uma posio estvel na hierarquia social, os quais no conseguem vivenciar, nem mesmo no plano simblico, a condio das classes dominadas. Idem, Ibidem. 166 Muito naturalmente, sem que se arrogasse, no entanto, quaisquer veleidades de mentor, mas por um tributo tcito de todos ns, era Chiacchio uma espcie de deus, Jpiter-Tonante ele tambm daquele pequeno Olimpo sem pretenses de governar o universo. Cf. Herman Lima, Poeira do tempo: memrias, Rio de Janeiro, Jos Olympio, 1967, pp.209-210.

  • 97

    travadas em espaos sociais e

    intelectualmente ambguos,

    como frequentadores de uma

    boemia dclass, menos

    seletiva e mais misturada mas

    tambm mais farrista,

    popular e prxima da

    chamada baixa prostituio 167. Espaos e caractersticas

    que at cultivaram com certo

    esmero no sentido de melhor

    marcar negativamente aquilo

    que no estavam em condies

    de ter ou possuir e que,

    portanto, passavam a desprezar e atacar: a afetao das mundanidades chics, as aventuras

    sexuais com francesinhas que declamavam Mallarm, as convenincias, os resguardos e as

    hipocrisias que cercavam a existncia destes escritores acadmicos e elegantes da cidade:

    a elegncia e as mulheres so coisas profundamente ridculas. por isso que eu tenho to

    m impresso dos cronistas elegantes, diria o personagem Nacastro, do conto de Jorge

    Amado, Nacastro e Souza. Cronistas imersos em um mundo visto como o da

    mediocridade dos apertos de mo, da retrica do gesto. Cumprimentos. Elogios.

    Hipocrisia farta 168.

    Em cafs e bares ao lado ou s margens dos clubs mais elegantes do Largo do

    Teatro, ou ento naqueles de feies mais proletrias no por acaso, a meio caminho da

    cidade alta e baixa de Salvador, na regio do Pelourinho 169 , teriam eles a oportunidade

    167 Lus de Carvalho Filho, Arco & Flexa, op.cit. 168 Jorge Amado, Nacastro e Souza, Meridiano, Salvador, n1, setembro de 1920, p.29. 169 Espaos como o Caf das Meninas e o Bar Brunswick, mais bem situados, ou aqueles que se estendiam na direo da cidade baixa, ao p da Ladeira do Pelourinho, como os Cafs Derby, Astrias, Moderno e Progresso. O ltimo, um caf modesto, proletrio, quase sujo, frequentado por gente humilde que ali entrava para tomar uma mdia de caf com po e manteiga. Cf. Nonato Marques, A poesia era uma festa, Salvador, GraphCo, 1994, p.16. bom lembrar que, em Salvador, cidade alta e baixa, termos para designar espaos geogrficos, eram tambm naquela poca (e, em parte, continuam sendo) marcadores de distino e estratificao de lugares ocupados por grupos socialmente desiguais. Como recordava um frequentador das

    Foto dos Rebeldes, em novembro de 1936. Da esquerda para direita: (em p) Aydano do Couto Ferraz e Alves Ribeiro; (sentados) Azevedo Marques, jornalista do Estado da Bahia, Joo Cordeiro, dison Carneiro, Jorge Amado e Clvis Amorim. Fonte: Waldir Freitas Oliveira e Vivaldo da Costa Lima, Cartas de dison Carneiro a Arthur Ramos, op.cit., p.130.

  • 98

    de no apenas travar contato com um universo heterogneo de outros tantos jovens

    desafortunados aspirantes a poeta ou subliteratos desprovidos de toda sorte de capitais, mas

    tambm de vivenciar os prenncios de uma identificao em chave virtual e ambivalente

    com as figuras e personagens do povo, os quais muitos deles, posteriormente, passariam a

    reivindicar como aliados de suas atividades intelectuais, literrias e polticas 170.

    Contudo, este conjunto de distncias, propriedades e marcadores sociais e

    intelectuais distintivos com relao ao grupo Arco & Flexa, parece no ter sido suficiente

    para que os rebeldes tivessem uma coeso e uma identidade enquanto grupo. Para tanto,

    parece ter sido decisivo as solidariedades que eles construram e reforaram no plano de

    suas inscries na cena poltica constituda, bem como a forma como eles foram sendo

    recrutados para exercer certos trabalhos no mundo intelectual baiano. A exemplo da

    trajetria familiar e individual de dison Carneiro, parte expressiva dos membros da

    Academia dos Rebeldes, ao mesmo tempo em que o grupo se moldava, conseguiu as

    primeiras colocaes na imprensa e, portanto, melhores chances de aparies literrias, a

    partir de laos de fidelidade e de apadrinhamento dos setores polticos que se encontravam

    no poder baiano naqueles anos finais de 1920. Ainda que no verbalizada tanto na poca

    quando na produo posterior de alguns dos ex-participantes a relao cifrada da

    rodas de Chiacchio, a rigor, a pessoa da cidade rica [alta] pode nascer, educar-se, trabalhar, casar, ter filhos e netos e morrer sem jamais ter ido cidade pobre [baixa], pois at os cemitrios so diferentes [...] Candombls, terreiros, cerimnias de folclore baiano, eu conhecia mais por ouvir dizer. Era um pouco como turista do nosso prprio burgo. Cf. Hermes Lima, Travessia: memrias, Rio de Janeiro, Jos Olympio, 1974, pp.34-35. 170 O grupo de poetas da baixinha, atuante desde meados da dcada de 1920, expressa bem o universo heterogneo de subliteratos desta baixa boemia de Salvador frequentadora de cafs e bares proletrios, ao reunir em seu interior alfaiates, pequenos funcionrios subordinados e estudantes de origem bastante modesta ou mesmo popular (muitos de baixssima escolaridade), comeando por um de seus lderes (o que bastante significativo), um guarda-civil de nome Samuel de Brito Filho: um autodidata notvel e de inteligncia acima do normal, mas que no fora alm de um alinhavado curso primrio. Sendo que, fato curioso, ele mesmo no escrevia nada. Isto, conforme as memrias de um ex-membro do grupo. Cf. Nonato Marques, A poesia era uma festa, op.cit., p.14. A despeito das pobres credenciais desses poetas, dois dos futuros rebeldes, Jos Alves Ribeiro e Pinheiro Viegas, participaram das atividades do grupo (sendo que este ltimo disputava a liderana com o guarda-civil 85, tal como era chamado Samuel de Brito). Com a participao ativa de Viegas e Alves Ribeiro, os poetas da baixinha lanariam a revista Samba, em novembro de 1928: um mensrio moderno de letras artes e pensamento que, em tentativa de disputar posies na condio de vanguarda na provncia, rivalizando com Arco & Flexa, tambm lanaria o seu mensrio de cultura moderna. Uma rivalidade que, certamente, Viegas e Alves Ribeiro ajudaram a nutrir quando da formao da Academia dos Rebeldes por aquela mesma poca. Algumas das razes da dissoluo do grupo da baixinha seriam o desentendimento de Viegas com os outros membros, assim como a sua maior frequncia por outros cafs de melhor aparncia, na rea da antiga S. Cf. Idem, Os poetas da baixinha in Samba: mensrio moderno de letras, artes e pensamento, Ed. Fac-similar, Salvador, Secretaria de Cultura e Turismo do Estado/Conselho Estadual de Cultura, 1999 [1928/1929], p.XXXVI.

  • 99

    Academia dos Rebeldes com as demandas polticas das faces oligrquicas locais, abre

    outras frentes de questionamento sobre suas atividades, bem como lana luz s feies, aos

    gneros de produo e aos ncleos de interesses especficos que seus empreendimentos

    editoriais assumiram.

    Embora no tenha sido possvel acumular a biografia detalhada de todos os

    membros da Academia dos Rebeldes, o acompanhamento pontual e mais circunstanciado

    de duas delas mostra-se um procedimento bastante eficaz no sentido de desvelar como suas

    trajetrias se cruzam no tocante s suas inscries polticas 171: as de Jorge Amado e

    Oswaldo Dias da Costa. Ainda que se observem diferenas nos tipos de expectativas que

    impulsionavam ou mediavam a presena de cada um deles na capital baiana de meados dos

    anos de 1920, os momentos decisivos das duas trajetrias selecionadas parecem ser aqueles

    em que foram cooptados por figuras bastante prximas do ponto de vista de suas ligaes

    com uma mesma faco poltica. Seja por ex-professores, seja por polticos ou coronis,

    esses rebeldes, alguns ainda no ginsio e no passando de seus 15 anos, dependeram do

    apoio dos setores de oposio para conquistar posies mais vantajosas no trabalho

    jornalstico. O recrutamento no jornalismo, muitas vezes, acompanhado de uma coluna

    prpria, era o percurso privilegiado dos jovens rebentos da elite baiana que, na sequencia,

    buscavam engatar seus cursos de Direito, Medicina ou Engenharia. E com o diploma nas

    mos, quem sabe, o ingresso na carreira poltica [ou a] aprovao em concursos para o

    magistrio secundrio e/ou superior 172.

    Oswaldo Dias da Costa. (1907, Salvador 1979, Rio de Janeiro) 173

    Nascido em 1907, na cidade de Salvador, Oswaldo Dias da Costa era filho de Jos

    Dias da Costa e Arminda de Queiroz, uma portuguesa que supostamente seria prima

    171 As biografias escolhidas foram aquelas que melhor precisavam as inscries polticas dos rebeldes, de modo que complementassem relaes e inscries j observadas, no captulo anterior, na trajetria de dison Carneiro. Para muitos dos membros que fizeram parte da Academia dos Rebeldes, foi difcil encontrar informaes substantivas, como por exemplo: Jos Severiano da Costa Andrade, Clvis Amorim, Jos Bastos, Joo Cordeiro ou Aydano do Couto Ferraz. 172 Paulo Santos Silva, ncoras da tradio: luta poltica, intelectuais e construo do discurso histrico na Bahia (1930-1949), Salvador, Ed. UFBA, 2000, p.86. 173 Sobre Dias da Costa, consultar E. DAlmeida Vitor, Silenciosamente morreu Dias da Costa, A Tarde, Salvador, 21 de junho de 1979 e ngelo Barroso Costa Soares, Academia dos Rebeldes, op.cit.

  • 100

    distante de Ea de Queiroz 174. Em funo da sade frgil do pai, Dias da Costa mudou-se

    constantemente com a famlia por cidades do interior baiano at 1919, quando se fixou na

    capital, onde fez os estudos no Ginsio Ipiranga e, posteriormente no Ginsio da Bahia,

    formando-se Bacharel em Cincias e Letras. Em meados de 1928, apresentado por Jos

    Alves Ribeiro, passou a participar dos encontros da Academia dos Rebeldes. No tendo

    realizado curso superior, data dessa poca a insero e dedicao de Dias da Costa ao

    trabalho jornalstico: primeiro, no jornal seabrista, O Democrata, do Partido Democrtico

    da Bahia, e, a partir de 1930, em O Jornal, um dos principais braos da campanha da

    Aliana Liberal, no estado. poca de seu ingresso, O Jornal era dirigido pelo seu ex-

    professor de matemtica ginasial, Leopoldo Amaral (tambm catedrtico da Escola

    Politcnica, e por poucos meses, o primeiro interventor a assumir o Estado baiano, aps a

    revoluo de 1930) 175. Alis, o mesmo jornal em que Dias da Costa, Jorge Amado e

    dison Carneiro editaram o folhetim, El-Rey, em abril de 1930, publicado em livro no ano

    seguinte, com o ttulo de Lenita 176.

    E, ainda, se quisermos adensar esta trama de confluncias, cabe lembrar que, em

    meados de 1930, ao mesmo tempo em que Dias da Costa, Jorge Amado e dison Carneiro

    comeavam a trabalhar, colaborar e a aparecer nas pginas de O Jornal, Jos Alves Ribeiro,

    outro membro da academia, ali ingressava pelas mos de Joel Presdio, jornalista deste que

    era o rgo da Aliana Liberal na Bahia, e filho do coronel Jos Presdio Figueiredo 177. Foi

    graas ao apadrinhamento deste coronel que Alves Ribeiro conseguiu realizar seus estudos

    174 ngelo Barroso Costa Soares, Academia dos Rebeldes, op.cit., p.100. 175 Em um de seus contos, Trabalho, Dias da Costa parece objetivar uma srie de elementos biogrficos atravs do personagem principal do texto, Amaro, homem de imprensa, cujo incio de carreira dependeu do auxlio de um tio que, por sua vez, trabalhava em um jornal, no por acaso, chamado Liberal. Na fico, Amaro era gerente do [jornal] Liberal; mencionando ali certo tio Gerson, que era o gerente e fizera-o entrar no Liberal como um aprendiz qualquer. Aprendera depressa o ofcio e fora subindo custa do prprio esforo. Estudava sempre que estava de folga, num desejo insacivel de saber tudo [...] De tipgrafo passara a revisor e, quando o tio adoeceu, praticamente j era ele o gerente. Cf. Oswaldo Dias da Costa, Cano do Beco: contos, So Paulo, Editora Rumo, 1939, p.85. Se bem que em outro conto do mesmo volume, Dias da Costa presta tributo ao seu professor Leopoldo Amaral, ao mesmo tempo em que lana pistas sobre uma eventual trajetria familiar declinante e as fragilidades da sade do pai que o obrigara a constantes mudanas de cidade. A morte de meu pai, de um colapso cardaco, no foi nenhuma surpresa para mim [...] O que me surpreendeu foram as dvidas que ele deixou. Sempre o julgara rico. A certeza do contrrio veio me obrigar a arrumar um emprego. Consegui um de quatrocentos mil ris por ms. A proteo de um professor da Escola me permitiu no interromper os estudos. Cf. Idem, p.140. 176 Jorge Amado; dison Carneiro & Osvaldo Dias da Costa, Lenita: novela, Rio de Janeiro, A. Coelho Branco Editor, 1931. 177 Cf. Marieta Alves, Escritores baianos, op.cit., p.130.

  • 101

    colegiais e universitrios (Faculdade de Direito), em Salvador. Filho de um vaqueiro que

    chegou a modesto pecuarista no interior do estado, Alves Ribeiro foi deixado pelo pai na

    capital aos cuidados do coronel, quando tinha apenas treze anos, devendo, portanto, tanto

    sua educao formal quanto literria ao ambiente familiar propiciado pelo padrinho. Os

    anos passados em [sua] companhia [...], onde encontrara um outro lar, tiveram uma

    importncia muito grande na formao de seu esprito e, certamente, em sua orientao

    intelectual posterior [...] Na casa do padrinho encontrara muitos livros, que os devoraria

    com avidez. E ali teve incio sua atividade literria 178, sobretudo, a escrita de poesias.

    Como vrios de seus colegas de Academia dos Rebeldes, Oswaldo Dias da Costa

    muito pouco se aventurou na poesia, concentrando seus esforos na produo de contos:

    uma parte deles na revista Etc, entre os anos de 1930 e 1931, alm daqueles publicados nas

    revistas do grupo. Em geral, trata-se de contos bastante afinados a alguns dos eixos

    temticos que foram caros a outros rebeldes: o ceticismo poltico, as dificuldades de

    ascenso social por mritos prprios, as perspectivas de fracasso e os sentimentos de evaso

    da realidade, frente aos sofrimentos da vida 179. Tambm, tal como alguns de seus colegas

    (dison Carneiro, Jorge Amado e Aydano do Couto Ferraz), nos primeiros anos da dcada

    de 1930, Dias da Costa viria a assumir posies comunistas. Em 1936, transferiu-se para o

    Rio de Janeiro, passando a ocupar o posto que fora de Jorge Amado: agente publicitrio da

    Livraria Jos Olympio. Ainda, no Rio, colaborou como secretrio e membro do corpo

    editorial de uma srie de peridicos literrios, entre eles: revista Pan, Esfera, Leitura, Dom

    Casmurro (quando Jorge Amado assumiu a chefia da redao) e, por maior tempo, em

    Observador Econmico e Financeiro. Dias da Costa manteve uma produo literria

    esparsa e inconstante, trabalhando como funcionrio na Federao Nacional do Comrcio,

    onde ficou at a aposentadoria, em parte, antecipada pela perda gradual da viso. Com a

    exceo de Lenita, Dias da Costa publicou apenas duas obras, ambas de contos: Cano do

    Beco (1939) e, vinte e um anos depois, Mirante dos Aflitos (1960).

    178 Cf. E. DAlmeida Vitor, O guia de bois; que seria, afinal, um magistrado, A Tarde, Salvador, 11 de maro de 1979. De modo que, tambm nesse caso, se evidencia a forma como muitas das afinidades dos rebeldes parecem resultar de posies no espao social e poltico que se antecipavam prpria formao do grupo. Ainda, para algumas informaes biogrficas de Jos Alves Ribeiro, consultar Marieta Alves, Intelectuais e escritores baianos: breves biografias, op.cit., pp.130-31. 179 Cf. Dois Risos, Etc, Salvador, n.126, 19 de maio de 1930; o Anarquista, n. 163, 30 de abril; Elogio da Ignorncia, n.170, 15 de agosto de 1931; A roleta da vida, Etc., n.171, 31 de agosto de 1931; O homem que no sabia mentir, n.175, 31 de novembro de 1931.

  • 102

    Jorge Amado (1912, Itabuna/Bahia 2001, Salvador) 180

    Primognito do casal Joo Amado e Eullia Leal, Jorge Amado recebeu todas as

    atenes familiares no sentido de encaminh-lo para a gesto das fazendas de cacau do pai

    ou mesmo, com um pouco mais de sorte, ao trabalho de representao poltica das

    novas oligarquias do sul baiano que comeavam a acumular suas fortunas com a

    expanso da exportao cacaueira. Ainda que na sua fase aventureira, marcada pela

    violncia das disputas de terras da qual o prprio Joo Amado foi protagonista muitos

    destes cacauicultores j tinham condies de encaminhar os filhos capital, onde, formados

    bacharis ou doutores, poderiam melhor barganhar e fazer valer os interesses dos

    negcios da famlia. Especialmente em razo do fato de que o cacau produzido em Ilhus e

    em toda regio sul da Bahia tinha que ser negociado a partir de intermediadores na

    capital, uma vez que o escoamento da produo para os mercados externos dependia

    exclusivamente do porto de Salvador o que gerava a necessidade de se estabelecer firmas

    comerciais, na capital, a fim de representarem os interesses dos cacauicultores 181.

    Por isso, muito cedo, em 1922, aos 10 anos Jorge Amado foi enviado a Salvador

    para cursar o primrio, com os jesutas do Colgio Antnio Vieira, enquanto a famlia se

    estabelecia em Ilhus. Trs anos depois, deu sequencia aos estudos no Colgio Ipiranga,

    onde permaneceu sob o regime de internato at 1927. Mesmo com todas as vises

    premonitrias que, geralmente, cercam a trajetria de Amado, por esta poca, difcil

    afirmar se o autor j mantinha qualquer espcie de pretenso literria mais articulada. No

    entanto, o que parece certo que tais aspiraes comearam a existir ou ganhar maior

    impulso a partir de 1928, ano que coincide com sua descoberta jornalstica e o incio de

    suas relaes com alguns dos membros da Academia dos Rebeldes. Nesse mesmo ano,

    180 Para informaes biogrficas e literrias de Jorge Amado, ver, Jorge Amado, Navegao de Cabotagem, op.cit., Micio Tti, Jorge Amado: vida e obra, op.cit.; Paulo Tavares, O baiano Jorge Amado e sua obra, op.cit.; Alfredo Wagner Berno de Almeida, Jorge Amado: poltica e literatura, Rio de Janeiro, Campus, 1979; Luiz Gustavo Freitas Rossi, As cores da revoluo: a literatura de Jorge Amado nos anos 30, So Paulo, Annablume/Fapesp, 2009; e Maries Carneiro & Rosane Rubim, Jorge Amado: 80 anos de vida e obra, Salvador, FCJA, 1992. 181 Sobre a formao e consolidao de uma hegemonia da elite do cacau, principalmente, a partir da dcada de 1930, ver Antnio Sergio Guimares, Formao e crise da hegemonia burguesa na Bahia. (dissertao de mestrado). Salvador-BA, UFBA, 1982. Ver, tambm, Consuelo Novais Sampaio, Partidos Polticos da Bahia na Primeira Repblica, op.cit.

  • 103

    inclusive, ele publicou um de seus primeiros e raros poemas, A rua sem alma, na revista

    baiana A Luva 182:

    No comeo eu fazia reportagens de polcia [...] o grau inferior do jornalismo [...] ia ao

    necrotrio para saber quem morrera, em que estado estava o cadver, quantas facadas

    recebera, em que circunstncias, etc., para o registro de fatos diversos, complementado por

    outro reprter, um pouco acima de mim. Durante algum tempo a coisa ficou neste p. At

    que Moniz Sodr, um homem distinto, jurista, poltico, que era ou havia sido senador, j

    no me lembro exatamente, e que era diretor do Dirio da Bahia, um dia se deparou com

    um artigo que tratava da regio do cacau; aquilo o interessou, quis saber quem o

    escrevera, soube que fui eu, um moleque, que fazia polcia. Ele decidiu que a partir de

    ento eu faria parte da redao. Foi assim que me iniciei no jornalismo 183.

    Embora afirme no se lembrar, Jorge Amado, quando jovem, certamente sabia

    quem era aquele homem que o tirara do grau mais baixo do jornalismo e o levara para a

    redao do jornal. De famlia aristocrtica, com longa tradio no domnio poltico do

    estado, Antnio Moniz Sodr de Arago (1881-1940) fora advogado, jornalista e

    catedrtico de Direito Criminal, em Salvador, bem como poltico de carreira expressiva no

    estado: exerceu o mandato de deputado estadual (1909-1912), deputado federal em dois

    mandatos (1912-1920) e, ainda, foi eleito senador da Repblica, cargo que ocupou at

    1926. Construiu sua vida pblica em estreita conexo com a ascenso e consolidao do

    domnio de J. J. Seabra sobre as engrenagens da poltica local, ao qual estava ligado,

    inclusive, por redes de parentesco: era primo de Antnio Ferro Moniz de Arago, uma das

    principais lideranas das faces seabristas e que havia sido governador da Bahia (1916-

    1920) como o candidato do prprio Seabra 184.

    182 Cf. Jorge Amado, A Rua sem alma, A Luva, Salvador, 31 de dezembro de 1928. Poema que, de alguma forma, j alinhavava questes que apareceriam nas revistas da Academia dos Rebeldes, relativas aos aspectos decadentes da capital, Salvador, com suas ruas que, ao invs de casas tm tmulos / onde repousam os que j foram homens. Idem, Ibidem. 183 Jorge Amado apud Alice Raillard, Conversando com Jorge Amado, op.cit., p.32. 184 Cf. Antnio Loureiro de Souza, Baianos ilustres, So Paulo/Braslia, IBRASA/INL, 1979, pp.279-80 e Silvia Noronha Sarmento, A raposa e a guia: J. J. Seabra e Rui Barbosa na poltica baiana na Primeira Repblica, (Dissertao de Mestrado), Salvador, UFBA-FFCH, 2009. Ainda, segundo esta autora, Moniz Sodr foi provavelmente o seabrista mais hostil, quando da candidatura de Rui Barbosa presidncia. Idem, p.51. Algumas das pginas mais eloquentes da fidelidade de Moniz Sodr ao Partido Democrata de Seabra podem ser encontradas no discurso por ele proferido no Teatro So Joo, em Salvador, no ano de 1919. Na condio de deputado federal e lder da bancada baiana na Cmara Federal, Moniz Sodr buscava justificar, com ataques e difamaes, a recusa dos democratas em apoiar a candidatura presidencial do septuagenrio

  • 104

    No importa, aqui, recuperar de modo minucioso a trajetria de Jorge Amado ou

    entender como ela desgua nos anos de 1930, quando comea a dar os primeiros passos

    como romancista e intelectual comunista consagrado no Rio de Janeiro. Embora seja

    interessante observar que, em grande medida, o sucesso de Jorge Amado em se afirmar

    como escritor foi decisivo para a alterao de muitas das expectativas sociais e familiares

    que recaam sobre ele. Afinal, quando se transferiu para a capital federal, em finais de

    1929, era para cursar a Faculdade de Direito, na qual efetivamente se formou, em 1935,

    ainda que preferisse sempre afirmar o contrrio. No fosse a estrondosa recepo de

    pblico e crtica que suas primeiras obras despertaram o que possibilitou uma carreira

    literria bem-sucedida muito precocemente , talvez, Jorge Amado tivesse seguido o

    destino comum a tantos outros escritores de sua gerao (bem como da maioria dos

    rebeldes): funcionrio pblico na capital federal ou em Salvador, ou bacharel em direito a

    servio dos negcios da famlia 185.

    O que se espera ter chamado a ateno, ao recuperar este breve perodo da trajetria

    de Jorge Amado, para a forma como ela se mostra significativa para enfatizar como o

    processo de ingresso e recrutamento dos membros da academia dos Rebeldes no mundo

    intelectual baiano, principalmente atravs do jornalismo, encontrava-se embaraado a

    tramas de interesses que extravasavam, em muito, pretenses ou impulsos meramente

    literrios. medida que foram sendo descobertos e subindo os degraus mais baixos para

    os mais altos, esses jovens passavam tambm (direta ou indiretamente) a assumir

    compromissos junto aos setores em que se encontravam seus protetores ou padrinhos. E tais

    compromissos dificilmente deixariam de interferir nas prticas e nos empreendimentos que

    os rebeldes levaram a cabo aquele contexto.

    patrcio Rui Barbosa, uma vez que Seabra j havia fechado com a chapa concorrente de Epitcio Pessoa (que seria eleito para o mandato de 1919-1922). Cf. Moniz Sodr, Rui Barbosa perante a histria, Salvador, Imprensa Oficial do Estado, 1919. Quando da conturbada eleio que levou Ges Calmon ao executivo baiano, em 1923, a despeito de todas as tentativas de Seabra em invalidar o resultado, foram os primos Moniz Sodr e Antnio Moniz que acompanharam Seabra ao Rio de Janeiro, fugindo das represlias do novo governador eleito. Cf. Waldir Freitas Oliveira, Dez anos da histria poltica do Brasil e da Bahia vistos atravs da presena e atuao de Seabra, Revista do Instituto Geogrfico e Histrico da Bahia, vol.101, jan/dez 2006, p.201. 185 Sobre os escritores-funcionrios no Brasil, ver Sergio Miceli, Intelectuais e classe dirigente no Brasil, op.cit., pp.231 e ss.

  • 105

    Meridiano e O Momento: modernidade, modernismo e imposturas intelectuais

    Ao que tudo indica, uma parte expressiva dos membros da Academia dos Rebeldes

    conseguiu uma colocao na imprensa baiana e, por consequncia, melhores chances de

    desenvolver uma produo literria autoral medida que foram ingressando nas hostes dos

    setores polticos que amargavam, desde 1924, o ostracismo, pelo menos da parte das

    faces que nitidamente se mostraram favorveis campanha aliancista na Bahia. Portanto,

    preciso se levar em considerao os significados polticos que o qualificativo rebeldes

    assumiu quando o grupo comeou a se reunir, a partir de meados de 1928. Reunies que,

    muito bem podem ter sido estimuladas a ganhar feies mais concretas e consistentes, bem

    como princpios mais ntidos e codificados, a partir do momento em que esses jovens

    passaram a trabalhar para os jornais oposicionistas (A Noite, Dirio da Bahia e O Jornal).

    Estas reunies foram consolidadas entre festas partidrias, recepes a chefes polticos,

    reunies em casas de amigos ou parentes, pela agitao no prprio ambiente familiar e por

    toda sorte de encontros e relaes que existiam nesses setores descontentes e seus

    dependentes (encontrando-se entre eles, como vimos no captulo anterior, a prpria famlia

    de dison Carneiro).

    Dito de outra maneira, no parece coincidncia que, embora se encontrassem desde

    1928, os rapazes de Academia dos Rebeldes tenham conseguido concretizar seu primeiro

    empreendimento editorial em finais de 1929, com a revista Meridiano. Assim como no

    aleatrio o fato de que, somente em maro de 1930, os rebeldes tivessem resolvido dar

    existncia efetiva s atividades do grupo, realizando e tornando pblico o ato de fundao

    da academia: notcia veiculada e alardeada por diversos peridicos e jornais da capital e de

    outras cidades baianas:

    Um grupo de intelectuais acaba de fundar, nesta capital, uma agremiao, sob a

    denominao Academia dos Rebeldes [...] Parecer aos que ignoram seus fins que, os

    rebeldes so indivduos perigosssimos [...] com o fito nico de combater as nossas

    instituies poltico-sociais [...] Nada disso, porm, verdadeiro, mesmo porque os

    rebeldes no se propem a combater a sociedade em que vivem, nem tampouco projetam a

    derrocada do regime republicano [...] Educados numa escola que no a da hipocrisia [...]

    pretendem, com esse congraamento, defender as suas ideias, colocando-as acima de

    qualquer sujeio, seja literria ou religiosa [...] Pensando livremente [...], os rebeldes so

  • 106

    inteiramente responsveis pelas suas ideias, pelas suas doutrinas, mesmo porque s uma

    disciplina exige a Academia dos seus membros: a disciplina da lealdade [...] Pretendem

    difundir, entre ns, uma literatura simples, sincera e verdadeira. Por isso, uma das principais

    cogitaes a de fazer publicar uma revista de cultura, onde os nossos homens de letras

    possam colaborar livremente, sem a sujeio de qualquer espcie de programa 186.

    Enquanto grupo, os rebeldes passaram a aparecer e ganhar mais espao na cena

    intelectual e literria baianas justamente no momento em que comeava a repercutir, em

    Salvador, especialmente entre os seabristas e ex-democratas decados, as movimentaes

    polticas em torno da aliana nacional que seria encabeada por Minas Gerais e Rio Grande

    do Sul, tendo Getlio Vargas como candidato presidncia. E, neste sentido, interessante

    que o autor da notcia sobre a fundao da academia mostre-se irnico, ao afirmar que seus

    membros no eram indivduos perigosos e que, tampouco, pretendiam a derrocada do

    regime. Afinal, ainda que a agitao baiana pela candidatura getulista tenha se mostrado

    relativamente discreta, no atraindo a ateno de parte substantiva de suas elites, o

    momento devia parecer bastante favorvel a este tipo de combate poltico-institucional

    (que, ao menos, no era o fito nico da agremiao) 187.

    186 Sem Autor, Academia dos Rebeldes, Etc, n120, 7 de abril de 1930, p.8 (nfases minhas). A fundao da Academia tambm foi noticiada no Dirio da Tarde, de Ilhus, onde constava o nome de Sosgenes Costa como scio correspondente naquela cidade, e no rgo aliancista O Jornal, em 28 de maro daquele ano, com o ttulo A instalao de uma nova sociedade literria na capital. A notcia anunciava a reunio de fundao da academia: Realizou-se anteontem [...] a instalao de uma sociedade literria nesta capital,, subordinada ao ttulo de Academia dos Rebeldes [...] No decorrer da sesso foram tomadas vrias deliberaes de ordem interna, sendo eleito um Diretrio provisrio, composto dos Srs. Pinheiro Viegas, presidente: Da Costa Andrade, secretrio, Joo Cordeiro, tesoureiro [...] A Academia dos Rebeldes tem por objetivo, entre outras resolues, lanar um manifesto literrio aos intelectuais do pas, a criao de uma revista de cultura e a publicao de uma srie de livros dos seus associados. Apud ngelo Barroso Costa Soares, Academia dos Rebeldes: modernismo moda baiana, op.cit., s/d. 187 Em parte, a baixa adeso dos grupos polticos baianos chapa Getlio Vargas/Joo Pessoa explica-se pela relativa coeso de foras entre importantes grupos oligrquicos baianos que se seguiu ao alijamento de Seabra do poder, a partir de 1924, bem como pela conjuntura favorvel que se abria para os baianos recuperarem prestgio e influncia na poltica nacional. Vital Soares, que governou a Bahia entre 1928 e 30, se candidatou e foi eleito vice-presidente da Repblica, tendo o paulista Jlio Prestes como presidente. As expectativas desses grupos no chegaram a ser contempladas, j que este mandato no seria cumprido, aps a deposio de Washington Lus pela junta militar encabelada por Vargas. Cf. Consuelo Novais Sampaio, Partido polticos da Bahia na Primeira Repblica, op.cit.

  • 107

    De um lado, em razo dos efeitos

    dramticos que o crash de 1929 teve sobre a

    sociedade baiana (e brasileira, em geral),

    desequilibrando por completo uma economia j

    fragilizada e quase exclusivamente dependente de

    um mercado externo em refluxo, Salvador vive

    uma crise que resultaria em recorrentes

    manifestaes de insatisfao, greves e quebra-

    quebras, especialmente entre os setores populares 188. Por outro lado e por mais que se possa

    minimizar o impacto da Aliana Liberal na Bahia

    , em funo do prprio ambiente incipiente, os

    debates que a plataforma aliancista ajudava a

    formular tornaram-se cada vez mais intensos,

    sensibilizando os rebeldes. De modo que, em um

    contexto onde se comeava a levantar as bandeiras

    de reformas e moralizao eleitoral, com

    nfases nos imperativos de modernizao social e cultural, bem como de refreamento dos

    poderes das oligarquias rurais e tradicionais, no seria difcil imaginar que esses jovens,

    quase todos em incio de carreira ou em vias de ingressar na universidade, tenham

    vislumbrado na implementao dessas bandeiras sadas para as incertezas e para a

    precariedade social que rondavam suas vidas. Solues que, ao menos em parte, eles

    visualizassem como capazes de livr-los da perspectiva de inrcia e de desprestgio a que

    pareciam condenados por aquele mundo social. Afinal, se perguntava o personagem de um

    dos rebeldes:

    Porque no vencera ele? E porque no vencia os seus amigos? Tinha certeza de ser

    inteligente. Tinha a prova da inteligncia dos amigos. ento, porque fracassavam? Porque

    188 Entre as principais razes para estas manifestaes, encontram-se o aumento do desemprego urbano, arrochos salariais e o aumento de preos de servios e de transporte. Inclusive, no mesmo dia em que estourou a notcia do movimento revolucionrio, em 4 de outubro de 1930, uma multido de populares queimou bondes e destruiu propriedades das companhias Linha Circular e Energia Eltrica da Bahia [...] No curto espao de seis horas, 84 bondes (mais de 2/3 do total) foram queimados. Cf. Consuelo Novais Sampaio, Movimentos sociais na Bahia de 1930: condies de vida do operariado, Universitas, n29, jan/dez 1982, p.99.

    Capa de O Momento, de novembro de 1931: Getlio Vargas, ao centro, mas tambm, a frente de uma nova Repblica: a fugaz euforia dos rebeldes pela vitria aliancista. Acervo Particular de Waldir Freitas Oliveira.

  • 108

    no eram cabotinos [...] Porque no bajulavam? Sim, por tudo isso e porque eram

    inteligentes. Os outros [...] temiam a concorrncia dos valores. E usavam de todos os

    expedientes para lhes impedir a vitria [...] Jamais conseguiria passar de escriturrio interno

    daquela repartio pblica 189.

    Dias da Costa no seria o nico dos rebeldes a transpor literariamente estas

    perspectivas nubladas de ascenso social e reconhecimento intelectual. O prprio dison

    Carneiro, como j abordado no captulo anterior, deixou vazar em suas poesias de

    juventude sentimentos similares, colados ao receio lamurioso do ostracismo a que se

    percebia relegado como escritor de provncia. Joo Cordeiro, em seu romance de estreia,

    Corja, de 1934 (na verdade, seu nico livro, pois morreria quatro anos depois), tambm

    seria instado a condensar no espao ficcional percepes que, em muito, pareciam se nutrir

    de suas experincias como funcionrio pblico remediado e aspirante a romancista, cujas

    posses no lhe permitiam consumir o o luxo dos antros da alta sociedade e frequentar os

    redutos da boemia endinheirada (as penses chics e os clubs do Largo do Teatro),

    recluso s sociabilidades com outros subliteratos nos bailes sifilticos da S com raparigas

    perebentas 190. Narrado sob a forma de memrias, Corja trata dos dramas que enredavam a

    trajetria socialmente declinante de Policarpo Praxedes, de famlia muito rica e

    luxuosa, mas que se viu subitamente arruinado com a morte precoce do pai mdico, tendo

    que se resignar com a posio de modesto funcionrio pblico o mximo que ele e a me

    conseguiram extrair do capital de relaes que dispunham e foram obrigados a usar, a fim

    de minimizar as amarguras de uma vida que tem sido de renncias e mais renncias 191.

    Em sntese, um tipo que no encontraria chances de ascender mais alto do que o emprego

    que um tio remoto lhe arranjara como auxiliar da secretaria de governo, onde podia

    viver a roer seu ossinho, sem nunca precisar frequentar a repartio, uma vez que j

    189 Osvaldo Dias da Costa, A roleta da vida, Etc, Salvador, n171, 31 de agosto de 1931, p.2. 190 Joo Cordeiro, Corja, Rio de Janeiro, Calvino Filho, 1934, p.102. Embora no saiba detalhes mais reveladores sobre a vida de Joo Cordeiro, o prprio Jorge Amado, como prefaciador do romance, que lana luz aos motivos autobiogrficos do romance: Ser este livro uma autobiografia? Pelo menos uma biografia ele . Policarpo Praxedes, revendo os sonetos que escreveu na mocidade, resolveu contar ao pblico a sua vida de bom burgus; cheia de pitoresco e ridculo in Idem, p.XI. Vale ressaltar que Joo Cordeiro fez seu personagem nascer exatamente no mesmo ano que ele, em 1905. 191 Joo Cordeiro, Corja, op.cit., p.44. O empobrecimento decorrente da morte precoce do pai, fazendo com que os destinos dos filhos dependessem do emprego e das possibilidades da me em usar as relaes da famlia, munindo-se de pistoles para polticos influentes, constitui o retrato exato da trajetria de outro rebelde: Guilherme Dias Gomes, cuja trajetria foi mencionada no incio deste captulo. Cf. Alfredo Dias Gomes, Apenas um subversivo: autobiografia, op.cit.

  • 109

    existia gente demais para trabalho de menos. Emprego que, no final das contas, ele

    perderia e s descobriria tempos mais tarde, pois, enterrado nos prostbulos da cidade, no

    soube que a Bahia tinha novo governador [e] o Dr. Gos Calmon, inimigo da situao

    passada, no nos pouparia 192.

    Deste modo, recrutados, apadrinhados ou socorridos pelos setores enfraquecidos da

    poltica baiana, quando no seriamente prejudicados pela ascenso das fices inimigas

    dos seabristas (como foi o caso do prprio dison Carneiro e sua famlia), ou trabalhando

    para os rgos da campanha da Aliana Liberal, no de se espantar que os rebeldes

    tenham se sentido afinados e estimulados a se lanarem, naqueles meados de 1929, como

    reformadores da cena literria local, assim como jovens candidatos a regeneradores de

    suas elites letradas. Buscaram dar feio, para tanto, a um empreendimento que fosse capaz

    de compatibilizar tanto as veleidades da produo literria autoral e moderna quanto o

    momento de agitao poltica liberal no qual se discutiram os obstculos que impediam

    a marcha do progresso e o surto das novas ideias 193. Ao menos, isto o que podemos

    ler no texto manifesto do grupo, produzido para o primeiro e nico nmero da revista

    Meridiano, lanada em setembro de 1929:

    MERIDIANO sugere e inicia o combate a tudo o que retarda a marcha do

    progresso, em todas as manifestaes do esprito humano. E considera o

    rotineirismo como um dos maiores obstculos a vencer. Obra de regenerao moral

    e intelectual. Esprito moderno. Dinamismo. Sculo Vinte [...] Condena os

    convencionalismos idiotas que impedem o surto de todas as ideias novas [...]

    Condena a tagarelice dos filsofos, a tagarelice dos gramticos, a literatice dos

    diletantes, o verbalismo dos retricos e as fronteiras dos poetas do amor e da

    saudade [...] Filosofia prtica, intuitiva, racional. Literatura instrutiva, sadia,

    edificante. Poesia natural, sem artifcios 194.

    192 Joo Cordeiro, Corja, op.cit., p.241. 193 Quem tambm passou a ser visto na redao de O Jornal, a partir de 1929, foi Pinheiro Viegas, apontado pelos rebeldes como lder espiritual do grupo: velho funcionrio pblico que, aps anos de servio no Rio de Janeiro, havia retornado para Salvador, onde se encontrava desde 1924, publicando poemas satricos sobre personagens da vida poltica e literria locais: Em 1929 passou a ser visto no O Jornal onde, justamente com outros companheiros da Academia dos Rebeldes, fazia campanha da Aliana Liberal na Bahia. Cf. Cristina Maria Teixeira Campello, Pinheiro Viegas e a Academia dos Rebeldes, op.cit., p.73. 194 Jos Alves Ribeiro, Itinerrio, Meridiano, n1, setembro de 1929, p.3 (nfases minhas).

  • 110

    Meridiano, neste sentido, buscou contemplar temas que pareciam

    fundamentalmente modernos aos olhos de seus idealizadores: a psicanlise, o feminismo, o

    nacionalismo, o combate aos convencionalismos das ideias e tagarelice literria, o jazz, o

    dinamismo social e a velocidade das cidades e do sculo vinte, ao mesmo tempo em que se

    colocava como veculo de pedagogia social aos novos tempos, propagador de ideias sadias

    e edificantes. O que, em parte, torna inteligvel a colaborao do mdico e pediatra

    Hosannah de Oliveira, com um artigo sobre psicanlise e instruo sexual, no qual chamava

    a ateno para a importncia de se compreender os instintos sexuais infantis, uma vez

    que compete-nos gui-los [...] para a sua finalidade que , ao mesmo passo, o mais elevado

    e nobre destino humano: a perpetuao de espcie 195.

    Naquele momento, o mais importante na revista era a inteno desses rapazes em se

    inventarem modernos, de se mostrarem capazes e altura do papel de reformadores e

    regeneradores da produo cultural baiana, buscando os caminhos de uma literatura sem

    artifcios e imprimindo aos versos e textos todo o dinamismo que a poca exigia:

    Rua Chile. Movimento.

    Mlle. Futurismo passa...

    Os olhos piscos de sagui numa febril agitao,

    toda trejeitos e fingimentos,

    sorri aos ditos da multido.

    Uma pieguice...

    Um rodopio...

    Uma pirueta...

    Uma negaa...

    As pernas tal e qual um arco de violino ,

    vo arrancando estranhas harmonias,

    ao seu passinho fino,

    original.

    195 Hosannah de Oliveira, Educao e instruo sexual, Meridiano, n1, setembro de 1929, p.5.

  • 111

    A ronda dos elegantes,

    junto das vitrines de quinquilharias,

    o cinismo dos semblantes,

    mede-a com olhar sensual

    [...] E ela segue nervosa, bamboleante,

    agitando o corpo esguio,

    [...] por entre a multido, at se perder, adiante,

    o seu perfil de chuvisco 196.

    Eis o futurismo chegando e saracoteando por Salvador. E lgico que ela no se

    apresentava em um espao aleatrio ou para uma plateia qualquer, mas, sim, na Rua Chile,

    naquela que era a passarela da elegncia da cidade: desfile de beleza, de moda, bom

    gosto 197. Assim como no se tratava de qualquer espcie de mulher, ela, o futurismo,

    era uma mademoiselle. Decerto, no poderia ser uma senhora ou uma matrona baiana,

    desprovida de juventude e encantos. A mulher futurismo tinha que ser solteira e

    desimpedida, livre, portanto, para sorrir e bambolear o corpo esguio e sensual pelas ruas, se

    insinuando calculadamente na multido, ainda que sem nunca ceder aos galanteios dos

    pedestres 198. Mas tambm, um tanto obviamente, a mademoiselle em questo no se

    196 Jos Alves Ribeiro, Poema Instantneo, Meridiano, n1, setembro de 1929, p.28. 197 Nonato Marques apud Ubiratan Castro de Arajo (org.), Salvador era assim memrias da cidade, op.cit., p.89. Ou ento, nas palavras de um poeta local, da poca: Eu amo a rua Chile, porque essa rua/ a sala de visitas da Bahia / Por ela passa o turbilho fremente / das mulheres lindas / que me transborda sempre de alegria / Rua sensual, histrica [...] que ela mulher [...] que tem o corao sempre amoroso [...] a maravilha quente de promessas/ nas almas e nas formas femininas [...] um paraso cheio de alegria/ A rua Chile a rua do pecado. Cf. Ea Pessoa, Rua Chile, Renascena, Salvador, n157, dezembro de 1927. 198 Como mostra Tiago de Melo em Gomes, em Um espelho no palco, um dos mais expressivos elementos associados s percepes do moderno, no Rio de Janeiro e no Brasil, a partir da dcada de 1920, dizia respeito no apenas s novidades na rea do lazer e entretenimento (como o cinema, as novas danas, o jazz e mesmo o automvel), mas tambm s reorientaes das relaes de gnero: novos conceitos de moda que pareciam diminuir a diferena entre os sexos, os banhos de mar, e a percepo de uma maior presena no espao pblico, essencialmente atravs da incorporao de elementos das classes mdias e altas. Cf. Um espelho no palco: identidades sociais e massificao da cultura no teatro de revista dos anos de 1920, Campinas, Ed. Unicamp, 2004, p.205. A mulher moderna que passou a ser representada nas crnicas e nos teatros de revista carioca, dos anos de 1920, sobretudo a partir de seus aspectos mais insinuantes, de suas roupas mais ousadas e que melhor desenhavam suas formas, o cabelo curto (ou, como se dizia, la garonne) e a postura mais ativa

  • 112

    encaixava no modelo da donzela resguardada e virginal. Afinal, dizia Jorge Amado, em

    Meridiano, havia acabado o reinado dos poetas de cabeleira ao vento [...] O progresso no

    os comporta mais [...] Versos no matam mais a fome nem conquistam coraes meigos de

    meigas donzelas [...] Mesmo porque as donzelas de hoje no tm mais tempo de ouvir

    versos. Tm mais que fazer. As mulheres do sculo XX trabalham 199.

    Em sntese, aos olhos dos rapazes da revista, o futurismo era bem esta mulher em

    febril agitao que, j cansada de ouvir versos, caminhava pelas ruas com seu passinho

    fino e original, to marcante quanto fugaz, despertando o olhar sensual dos pedestres at,

    por fim, desaparecer em meio multido da cidade. Contudo, para alm desta euforia

    progressista e regenerativa, possvel notar que, de diferentes maneiras e com intensidades

    variveis, a modernidade pensada e representada pelos rebeldes esteve associada a uma

    srie de incmodos e ambiguidades. Ou melhor: ela nunca deixou de ser apreendida como

    um fenmeno essencial e fundamentalmente ambivalente, um tema capaz de gerar os mais

    disparatados sentimentos e reaes. Isto porque, se certo que, nos textos acima, tanto

    Jorge Amado quanto Alves Ribeiro tateavam formas novas para se falar modernamente

    sobre uma determinada paisagem social e urbana, no menos verdade pareciam ser a

    estranheza e as suspeitas que esta modernidade despertava nos autores.

    Se insistirmos um pouco mais nos versos sobre a mademoiselle futurismo, veremos

    que ela encerra algo de perturbador e mesmo de um leve ridculo aos olhos de poeta. Para

    tanto, vrios elementos do poema jogavam para desestabilizar a naturalidade de sua

    presena na Rua Chile. Por exemplo, antes de qualquer coisa, nota-se que seus trejeitos so

    todos fingimentos. E os movimentos, quem sabe, um tanto forados e exagerados

    acabavam por revestir suas piruetas e seus rodopios febris de certa pieguice,

    comprometendo a graa de seu andar. De outra parte, seu trajeto pela rua era todo ele

    acompanhado pelo cinismo dos elegantes que, encabulados ou afrontados, fingiam

    ignor-la, embora no deixassem de se sentirem atrados por aquela figura extravagante,

    e decidida nos flertes e jogos amorosos. Idem, p.221. Ver tambm, neste sentido, Orlando de Barros, Coraes de Chocolat: a histria da Companhia Negra de Revistas (1926-1927), Rio de Janeiro, Livre Expresso, 2005. 199 Jorge Amado, Poetas da lua e da saudades, Meridiano, n1, setembro de 1929, p.12. Ainda segundo Jorge Amado: O escritor do sculo XX, no mais aquele evocador das coisas gregas, ou dos amores de duas crianas de 14 anos, que acabam casando depois [...] No o contador da existncia de uma menina muito religiosa e boa que ama, sofre e morre na santa paz do senhor [...] o escritor de hoje escreve a vida. Idem, p.13.

  • 113

    espreitando-a sensualmente com o canto dos

    olhos. Para completar o quadro, provvel que

    a prpria mademoiselle fosse uma cnica, cujos

    gestos excessivos e dissimulados se

    mostravam um bocado grosseiros ao escrutnio

    pblico local. Da soar levemente ridcula esta

    mulher moderna que, sem deixar de ser

    atraente, desejvel e original, parecia pecar

    pelos abusos e desregramentos na forma de se

    conduzir. A mulher do sculo XX, igualmente

    zombada por Jorge Amado, uma vez que no

    apenas trabalhava, mas assistia assistir s

    lutas de boxes e aos bailes, onde algum

    preto tocador de jazz, recita[va] um poema

    [que] fala[va] em futuro, em cimento armado e

    outras muitas coisas das quais ele mesmo no

    sab[ia] o significado 200.

    Estaria a mademoiselle j um pouco

    alegre, contagiada pelo lcool consumido nos

    cafs, bares e bailes das imediaes da Rua

    Chile? Lgico, trata-se de uma questo

    retrica, pois seria impossvel respond-la. Mas a pergunta no deixa de ser interessante,

    pois chama ateno para o teor fortemente irnico que, a meu ver, a poesia encerrava: uma

    modernidade bamboleante, eufrica e fascinante, mas, no entanto, artificial e meio sem

    rumo. Seja como for, arriscaria dizer que a embriaguez da mademoiselle no devia ser uma

    200 Idem, pp.13-14. Sobre o exagero e os excessos que passam a revestir as representaes da vida social baiana sobre a mulher do sculo XX, interessante registrar um conto publicado na revista Etc, em Salvador. Trata-se de um dilogo entre duas irms, Elza e Nan: Ento Elzita, tua irm no mesmo chic! Elza levantou a cabea e a mo parada sobre a costura censurou: Nan filinha que exagero! s mais lindas sem todos estes artifcios!...Ora! [...] Creio que bem desejavas me ver metida nessa roupagem como tu andas. Qual, tudo mudou, e eu sou moa do sculo XX: que se pinta, vai ao cinema s com o namorado, fuma e gosta dos flirts apimentados. Cf. Flor de Neves, Nana, Etc, Salvador, n170, 15 de agosto de 1931, p.17. Sonhava a irm moderna, que iria para Paris e que, l, seria uma cantora famosa. Mas o desfecho do texto um expressivo: Tende piedade dela Meu Deus!!!. Idem, p.20.

    Capa de O Momento, de junho de 1932: talvez, uma boa amostra de toda a beleza insinuante e cnica de mademoiselle futurismo, com seu olhar sensual, toda trejeitos e fingimentos, e com seu cabelo la garonne. Mas tambm, uma imagem embaada que, com os alpes nevados ao fundo, sugere quase uma imagem irreal e fantasmtica em relao paisagem social objetivada pelos rebeldes

  • 114

    hiptese to improvvel para muitos dos leitores contemporneos ao autor do poema

    analisado, Alves Ribeiro. Isto porque, talvez no tenha sido aleatrio que, logo no ms

    seguinte ao poema instantneo, aparecesse em outra revista loca, A Luva, o sarcstico

    poema O Bbo. Uma stira ao futurismo na qual o autor, sob o pseudnimo de K. Peta,

    associava a iconoclastia da poesia futurista aos devaneios e ao percurso bamboleante de um

    bbado; completada, ainda, com a observao: se framos juiz, por essa produo

    futurista, absolveramos de uma poro de crimes aos dignos cultores da nova escola 201:

    Man do Riachinho

    Bebinho

    ejou

    r

    b

    o

    C

    Se desaprumou

    e

    l ............................................. longe

    Caiu.

    Junto dele tava uma garrafa que

    Esteve cheia mas que ficou

    vazia" 202.

    201 K. Peta, O Bbo, A Luva, ano V, n102, 17 de novembro de 1929, s\d. 202 Idem, Ibidem.

    rodou

    rodou

  • 115

    Tanto num caso como no outro, as poesias mostram-se bastante reveladoras das

    reaes do meio intelectual baiano s mudanas que lhe pareciam advir da modernidade,

    com todas as suas implicaes no mbito da sociedade, da cultura e, em particular, da

    literatura. A diferena que a ironia do poema de Alves Ribeiro, ao contrrio de O Bbo,

    no encerrava uma recusa horrorizada a estas mudanas. Sua ironia era fomentada muito

    mais pelos aspectos afetados e postios que essa modernidade ganhava nas ruas da Bahia,

    resultando numa entidade de feies fantasmticas e desconjuntadas. O que no impede o

    poeta de, ao mesmo tempo, sugerir uma nota de lamrio, uma vez que a mademoiselle

    surgia ali como uma espcie de miragem para perturbar-lhe e, logo em seguida, se

    vaporizar, indo embora sem que ele pudesse possu-la ou curtir seus encantos 203.

    Esta oscilao entre o desejo e a frustrao, entre os excessos e as ausncias que a

    modernidade tornava evidente foi uma constante entre os rebeldes. Como se em vrios

    momentos estes jovens fossem tomados pela dura e angustiante sensao de no serem

    capazes de vivenciar plenamente todo o dinamismo e todas as aventuras que a marcha

    do progresso lhes prometia. Ou melhor: tudo se passava como se eles falassem sobre a

    modernidade como um mundo de sonhos e fantasias irrealizveis; um mundo, neste sentido,

    objetivado no registro de uma tomada de conscincia do descompasso e das ambivalncias

    com relao s experincias e realidade social que enredavam suas vidas em Salvador.

    Decerto, estes poetas, ensastas e cronistas no conseguiriam ignorar, mesmo em

    seus textos mais delirantes e fantasiosos, as imagens e o pesado ambiente de decadncia

    que, desde meados do sculo XIX, rondava a Bahia e sua capital. De uma Bahia opulenta e

    prestigiada durante o Imprio, com a maior representao parlamentar na corte, assistia-se

    ao declnio agonizante de um estado que chegava dcada de 1930, assolado por

    203 Interessante notar que, no poema, a passagem do futurismo pela Rua Chile no consegue se realizar de maneira annima, maneira de um flneur: o que, em boa medida, parece trair o desejo do poeta em faz-la desaparecer na multido, uma vez que ela sempre seria notada e apontada por onde passasse, mesmo quando j distante de seu olhar. Isso, a meu ver, acaba dando a impresso que o futurismo, ao invs de se perder na multido, vai se embora, como se estivesse ali somente de passagem. Como bem lembra Beatriz Sarlo, trata-se de um circuito del paseante annimo", o do flneur, que se constitui como um mundo de valores ou uma categoria ideolgica que se realiza em meio aos jogos de equvocos e ambiguidades sociais que pontuam a circulao nas metrpoles: o que, em parte, tornaria possvel, literariamente verosmil y culturalmente aceptable al flneur que arroja la mirada annima del que no ser reconocido por quienes son observados, la mirada que no supone comunicacin com el outro. Cf. Beatriz Sarlo, Uma modernidad perifrica: Buenos Aires 1920 y 1930, Buenos Aires, Nueva Visin, 2007, p.16.

  • 116

    sucessivas crises de sua economia agroexportadora (acar, tabaco, algodo, cacau, etc.) e

    que, cada vez mais, perdia espao poltico no conjunto da federao 204. E a capital,

    Salvador, a despeito de conhecer um pequeno espasmo modernizante em seu traado

    urbano, com o alargamento e a abertura de avenidas, permanecia praticamente a mesma: a

    topografia colonial e desordenada; as ruas estreitas e sinuosas, pouco funcionais; os espaos

    confusos; o fluxo desorganizado; enfim, aspectos que continuavam a lhe imprimir feies

    de prpria anttese da cidade moderna, com suas avenidas retas, largas e higinicas,

    desobstrudas para a livre circulao de pessoas e mercadorias 205.

    Quando em 1931, a Academia dos Rebeldes lanou a segunda revista, O Momento,

    dison Carneiro escreveu uma pequena crnica na qual descrevia, melhor do que qualquer

    outro dos rebeldes, os ares de decadncia e a desolao que se respirava em Salvador,

    graas aos pesados traos passadistas de sua arquitetura, intocada pelo progresso:

    Dominando tudo l esta a [Igreja da] S, pesada, solene, patriarcal. o bairro pobre que o

    progresso esqueceu. As casas apresentam, logo a primeira vista, a sua certido de idade. So

    velhas, centenrias mesmo. Cada pardieiro alberga uma multido. Cada casa um pas.

    Cem, duzentas pessoas moram ali. E se conhecem todas, e se amam todas. A fraternidade

    da misria! A arquitetura de 1500 tem, ali, o seu mais vivo sinal de existncia. As casas tm

    sempre trs andares, janelas enormes de portas macias [...] salas enormes, quartos

    sombrios e mal arejados...A maior profanao possvel das regras de higiene [...] 1500 em

    pleno sculo XX. A velha cidade de Salvador [...] em toda a sua pureza primitiva [...] as

    casas, as ruas, tudo, tudo parece gritar ainda hoje, com fora: Viva Pedro lvares Cabral 206.

    204 Ktia de Queiros Mattoso, Bahia Sculo XIX: uma provncia no imprio, op.cit; Luiz Henrique Dias Tavares, Histria da Bahia, op.cit e Antnio Sergio Guimares, Formao e crise da hegemonia burguesa na Bahia, op.cit. 205 O tecido urbano do centro de Salvador praticamente no muda [...] aps as intervenes. A abertura da Avenida Sete de Setembro e as intervenes em outras ruas produzem-se por meio do alargamento de vias j existentes, de forma que a malha urbana no sofre alteraes. As novas ruas no so elementos estranhos ao traado urbano, pois j existiam. Cf. Elosa Petti Pinheiro, Europa, Frana e Bahia: difuso e adaptao de modelos urbanos: difuso e adaptao de modelos urbanos (Paris, Rio e Salvador), Salvador, Ed.UFBA, 2002, p.291. 206 dison Carneiro, Lixpolis, O Momento, Salvador, 15 de setembro de 1931. De fato, qualquer semelhana desta caracterizao das moradias dos grupos menos abastados, no centro de Salvador, com aquela que Jorge Amado faria em seu romance Suor (1934) no mera coincidncia. Exatamente nos mesmos termos que Carneiro caracterizou estes pardieiros com centenas de pessoas, Jorge Amado criaria o Casaro 69 de seu romance: um lugar ftido e sem higiene, onde se amontoava uma multido de miserveis de toda ordem. No por acaso, ao final do romance, Amado d a entender que teria sido justamente por volta de 1928,

  • 117

    Paradoxalmente, no intuito de discutir o progresso e o momento afinal, este era

    o nome da revista , dison Carneiro se viu forado a lidar com os transes de uma cidade

    que, cada vez mais, parecia se revelar e definir pelo reverso: como o lugar da tradio, de

    um ambiente imune a qualquer espcie de mudana que desfigurasse sua primitiva e

    patriarcal anatomia colonial, onde o passado se sobrepunha com todo o vigor na realidade

    presente. Como se pode notar, havia flagrantes contradies entre a realidade que Carneiro

    descrevia e os termos que todos estes jovens buscavam usar para caracterizar o novo sculo:

    eufrico, veloz, agitado, febril, tecnolgico, eltrico, etc. De modo que, neste moderno-de-

    provncia, para retomar a expresso de Roberto Schwarcz 207, tais termos pareciam, ao

    menos em parte, trair as experincias sociais e cotidianas dos rebeldes e dos escritores

    locais. Afinal, se a passagem acima uma de suas manifestaes mais eloquentes, apenas

    com alguma dose de cinismo, imaginao ou frustrao, Salvador poderia servir de cenrio

    ao espetculo da nova civilizao daprs guerre, da Alma do Sculo, como

    desejavam dison Carneiro e os rebeldes, j liberta quase completamente da influncia

    ancestral das geraes idas [que] quer viver uma vida aparte, uma vida nova [...]

    construindo ou desconstruindo [...] vivendo sonhos realizveis e matando [...] as utopias

    risveis dos que teimam em ficar de cabeleira e monculo 208.

    Da, talvez, graas s percepes do desencontro entre a fantasia e a realidade, ser

    compreensvel uma recorrente e indisfarvel melancolia que acabava por impregnar os

    smbolos usuais da modernidade: apreendidos ora como frgeis e vacilantes ora como

    inalcanveis. Entre eles o aeroplano, objeto de interesse de dois dos rebeldes, cujas

    poesias so bastante expressivas da forma hesitante como o maquinrio moderno se

    mostrava e afirmava por aquelas plagas: como alegoria dos espritos aflitos dos poetas

    frente inutilidade de seus esforos por participar de uma temporalidade presente e

    moderna que lhes escapava:

    em Salvador, que ele teria comeado a elaborar o plano da obra: ainda que certamente no da forma como acabou realizando, j que Suor esteve totalmente informado por sua recente converso ideolgica. Cf. Jorge Amado, Suor, Rio de Janeiro, Record, 1986. 207 Cf. Roberto Schwarcz, A carroa, o bonde e o poeta modernista in Que horas so?, So Paulo, Cia das Letras, 1987, p.24. 208 dison Carneiro, A alma do sculo, Etc, Salvador, n173, 30 de setembro de 1931, p.5.

  • 118

    Avio 209 O Hidroplano 210

    De sada, vale notar que em ambos os poemas o ponto de observao aquele de

    quem observa o aeroplano do cho: mquinas que, em boa medida, eles podiam apreciar,

    embora no fossem capazes de control-las e tampouco entrar nelas, implicando numa

    distncia que os impedia de vivenciar a experincia eufrica e inusitada de voar 211. De

    outra parte, tal como no poema da mademoiselle, as encarnaes do moderno se inseriam

    nos mesmo objetos bamboleantes e inacessveis, ao mesmo tempo em que evocam riscos e

    apreenses: seja da parte do poeta, com o medo um tanto ridculo de morrer comidos por

    209 Guilherme Dias Gomes, Avio, O Momento, n5, 15 de novembro de 1931, p.7. 210 Jos Severiano da Costa Andrade, O hidroplano, Samba, n1, novembro de 1928. 211 Embora no seja minha inteno cotejar a Academia dos Rebeldes com outros grupos modernistas brasileiros, no deixa de ser curioso apontar a sensvel diferena destas duas poesias em relao a outra, tambm sobre o aeroplano, publicada na revista Klaxon, de 1922 (peridico criado por alguns dos principais expoentes do modernismo paulista, tais como Mrio e Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, Sergio Milliet, Brechret, etc.). Num de seus nmeros, a poesia Aeroplano, de Lus Aranha, funciona quase que como um contraponto perfeito s outras duas dos poetas baianos: A sua roncante sinfonia.../ Oh! Voar sem pousar no espao que se estira / Meu, s meu; / Atravessando os ventos assombrados / Pela minha ousadia de subir / At onde s eles atingiram. Cf. Brasiliana Digital, Peridicos, Lus Aranha, Aeroplano, Klaxon: mensrio de arte moderna, So Paulo, n2, junho de 1922. O avio no somente afirma sua fora e potncia, assombrando o prprio vento, como tambm o poeta fala da perspectiva de quem est voando junto com a mquina. E mesmo uma possvel queda no o amedronta. Muito pelo contrrio, a queda um ato libertador: Se um dia / meu corpo escapasse do aeroplano, / Eu abriria os braos com ardor [...] Riscando o cu na minha queda brusca / Rpida e precisa / Cortando o ar em xtase no espao / Meu corpo cantaria / Sibilando / A sinfonia da velocidade. Idem, Ibidem.

    O avio parece Uma abelha rtila de ao Aflita por pegar fogo, que uma rosa de fogo. Transplantada no espao Zumbe, trepida, na nsia de

    alcanar A corola de luz para sugar. Avio! Pareces bem o corao da gente Lutando para beijar o sol Eternamente. ...Inutilmente.

    O hidroplano passou sobre minha cabea, bem pertinho de mim... Ah! Seu eu pudesse ir nele, Mas...tentar a subida Em hidroplano...no! [...] me arriscar a cair de uma altura imensurvel dentro do mar para ser devorado pelos tubares! Ao menos se voc fosse comigo... Mas eu sei que voc no vai, porque seu pai no deixa... Vai passando, hidroplano, vai-te embora, que eu no quero ir mais dentro de ti!.

  • 119

    tubares, seja em razo do prprio avio que aflito e

    trepidante (e desgovernado?) se movimenta com

    soberba pelo cu, cobiando subir mais alto do que ele

    realmente poderia (pois, no limite, caso conseguisse

    beijar o sol, implicaria na prpria destruio). Mais

    interessante ainda eram as travas sociais e morais que,

    no segundo poema, impediam a consumao de

    qualquer delrio tecnolgico, vaporizado pelo recato

    da realidade local, uma vez que o pai nunca deixaria

    a moa voar junto de um homem.

    A alma do sculo e suas diversas

    manifestaes no estavam ausentes e nem eram

    imperceptveis aos intelectuais baianos, notadamente

    entre os sediados na capital, na virada dos anos de

    1920 e 30. Pelo contrrio, em Salvador, carros

    circulavam e alteravam a paisagem da cidade; a

    iluminao eltrica era uma vitria (como

    anunciava, em O Momento, a propaganda da Cia de

    Energia da Bahia); ruas se pavimentavam; o jazz

    embalava os bailes com suas danas sensuais que desafiavam as etiquetas sociais e de

    gnero 212; e principalmente, o cinema j comeava a se firmar como um importante meio

    de entretenimento e lazer para um pblico diversificado, funcionando como um expressivo

    mvel de imagens, valores e estilos de vida modernos consumidos nas metrpoles,

    despertando, inclusive, reaes pouco amistosas entre os homens do sculo XIX que

    enxergavam na expanso da nova arte uma ameaa alta cultura. Homens como Slio

    Boccanera (1863-1928), membro fundador do Instituto Histrico e Geogrfico baiano, que,

    212 Como dizia um cronista de O Momento, cada dana correspondia a diferentes temperamentos e intenes entre os sexos: a valsa a dana sentimental, romntica [...] tem o ritmo de uma declarao de amor; no fox-trot, porm, j no h romantismo, j no h timidez, h preocupao [...] a dana da boemia [...] a dana que no pensa no dia do amanh...Amor nascido numa valsa amor que casa, amor para sempre. Amor nascido no fox-trot, amor que morre no fox-trot, amor que dura um beijo...O one-step porm a mais perigosa das danas porque o rapto...H mulheres que fogem no one-step, como num automvel. Uma mulher num one-step, uma mulher em viagem.... Antnio Ferro, A psicologia das danas, O Momento, Salvador, n7, janeiro de 1932, s/d (nfases minhas).

    A vitria da eletricidade, em O Momento: a noite, com seus bondes e sua iluminao eltrica, contrastando com o carro de boi e a igreja colonial: aspectos de uma Salvador pretrita que as luzes modernas no deixavam esconder (as igrejas permanecem, com suas inmeras cruzes).

  • 120

    segundo um dos membros da academia, era desses cronistas da histria com o simples

    culto do passado, sem o entendimento e a exigncia de sua projeo contempornea,

    pertenc[endo] a uma gerao provinciana empenhada no ressurgimento cultural da terra,

    mas nem sempre possuidora de informao e mtodo para esse trabalho213.

    No entanto, embora os rebeldes buscassem converter suas revistas numa caixa de

    ressonncia do conjunto de temas do novo sculo, e se distanciassem tanto dos cronistas

    do passado quanto do tipo intelectual orador de sacadas, do acadmico cultor do

    rebuscamento intil e dos compndios indigerveis com suas tortuosidades retricas 214, fica ntida a necessidade que os eles tinham de equacionar suas veleidades como

    escritores modernos s injunes impostas pela forma como se inseriam na vida

    213 Cf. Walter da Silveira, A histria do cinema vista da provncia, Salvador, Fundao Cultural do Estado da Bahia, 1978, p.62. Ainda, segundo Silveira, durante a dcada de 1920, Salvador contou com nove salas de cinemas, quase todas concentradas na regio central, com capacidade total de sete mil lugares, com uma frequncia mdia de 12% da populao da cidade. Entre 1920 e 1924, em Salvador, publicaram-se 153 nmeros de Artes e Artistas, um dos semanrios culturais mais consumidos e disputados na capital, atestando o interesse e a penetrao do cinema junto ao pblico de Salvador. Nele era possvel encontrar um conjunto variado de informaes: os filmes em exibio na cidade, notcias sobre a indstria cinematogrfica, estreias, fofocas sobre as celebridades estrangeiras e os bastidores da indstria de filmes (notadamente, a americana). Artes e Artistas, alm de veicular imagens e modas das estrelas e divas do cinema, bem como a efervescncia das grandes metrpoles mundiais onde os filmes eram produzidos (a vida alegre de seus cabars), funcionava tambm como espao de colunismo social e divulgao dos espaos de sociabilidade dos grupos chiques e elegantes da capital (basicamente, a Rua Chile e seu entorno). Ver Angeluccia Bernardes Habert, A Bahia de outrora, agora, Salvador, Academia de Letras da Bahia/Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, 2002, pp.80 e ss. Habert, tal como Walter da Silveira, tambm aponta para as reaes contrrias que a expanso do cinema despertou em grupos mais antigos da vida intelectual baiana que, cada vez mais, passaram a se utilizar do teatro srio como um smbolo de prestgio e uma insgnia de distino; contraponto ao consumo massificado e popular que o cinema e o teatro de revista ou ligeiro encarnava: um teatro lrico ligado definitivamente ao culto da civilizao, da ilustrao e da cultura europeia. Idem, p.94. Ainda que em escala amplificada, verifica-se uma mesma dinmica de diferenciao, no mesmo perodo, na capita federal, tal como mostra Tiago de Mello Gomes. Cf. Um espelho no palco, op.cit., (especialmente, o captulo 1: Teatro de revistas e cultura de massas no Rio de Janeiro dos anos 1920). 214 Oswaldo Dias da Costa, O momento, O Momento, Salvador, ano I, n1, 15 de julho de 1931, p.03. Certamente, Rui Barbosa (1849-1923) devia servir como o modelo mais bem acabado destas tortuosidades retricas que ali se buscava chamar a ateno. Um tipo, este do poltico-bacharel, orador de palanques, sacadas e sales da oligarquia, que seria ironizado por Jorge Amado em seu romance de estreia, Pas do Carnaval (1931). E aquele que era para ser o seu segundo romance o qual, segundo o autor, seguia a mesma linha do primeiro , talvez no aleatoriamente fosse se chamar Rui Barbosa n2. Cf. Jorge Amado, Navegao de Cabotagem, op.cit., p.182. Figura pblica baiana e de notvel destaque na poltica brasileira imperial e republicana, famoso pela oratria e pelo rebuscamento gramatical, Rui Barbosa fora modelo de excelncia de inteligncia e, a um s tempo, de trabalho poltico e intelectual, cuja influncia e estilo foram lapidarmente descritos por seu conterrneo e admirador Afrnio Peixoto: Os jovens oradores imitariam essa retrica de Rui, que imitava Vieira, que imitava Ccero [...] Nesse tropel de incidncias que acorriam, de integraes que vinham a seus postos, ele, j to distante do seu sujeito, no achava mais o verbo da orao principal... Era uma nsia, uma angstia, uma aspirao apavorada ... Mas o verbo l vinha, na ltima hora, para uma funda respirao entusiasta, vencido o medo, para outro transe que comeava, nova inquietao, outro tormento, a mesma emoo satisfeita ... Ainda um perodo fechado. Cf. Brevirio da Bahia, Rio de Janeiro, Agir Editora, 1945, p.305.

  • 121

    intelectual baiana e brasileira. De um lado, concentrando o grosso de suas prticas literrias

    em crnicas de costumes, contos, os pequenos ensaios e textos de opinio poltica, gneros

    mais prximos do tipo de trabalho que executavam na imprensa aliancista , neste sentido,

    se distanciando dos gneros de maior prestgio (em especial, a poesia), por no disporem

    dos recursos e meios tcnicos [quela] altura necessrios para se sobressarem coletiva ou

    individualmente 215. Por outro lado, conferindo aos seus empreendimentos feies

    diversificadas, j que aparentemente dependiam da publicidade e das vendas, mas

    igualmente informados por repertrios e partidos estticos que, no limite, os prprios

    rebeldes alegavam combater e que, no entanto, nem eles e nem o pblico leitor pareciam

    dispostos a descartar como ultrapassados: as composies lricas e sentimentalides,

    ritmicamente harmnicas e propensas aos surtos elevados, as poesias inspiradas das

    meigas donzelas ou mesmo os versos dos amores idiotas 216. Isso fica particularmente

    evidenciado nas sees da revista O Momento, a exemplo daquelas em que alvejavam o

    pblico feminino de escol social: Jardins das Confidncias ou Para o lbum de

    Mademoiselle (agora, o inverso exato da outra mademoiselle futurismo), nas quais sempre

    editavam textos e poemas prprios s almas sentimentais das mulheres, de preferncia

    no formato soneto:

    Nesses teus olhos divinais, eu leio

    Um poema de graa e esplendor,

    eles resumem toda a minha dor

    toda a esperana e todo o meu receio [...]

    Ver de tua alma os inteiros refolhos...

    E s v-la, fico preso e fascinado.

    215 Sergio Miceli, Intelectuais e classe dirigente no Brasil, op.cit., p.159. 216 Jorge Amado, Poetas da lua e da saudade, Meridiano, op.cit., p.11 e 12.

  • 122

    Ao abismo de amor desses teus olhos 217.

    Neste sentido, significativo que o tipo de

    literatura moderna forjada e veiculada nessas revistas

    se justificasse a partir de definies que comportam

    um passadismo ainda fortemente entronizado no

    gosto do pblico, mas tambm no dos rebeldes 218.

    Estes, ao desejarem ser modernos, tinham que se

    adequar a um modo que fosse capaz de justificar a

    manuteno de recursos e tcnicas literrias que

    comeavam a ser desclassificados como

    ultrapassados, mas que, no entanto, eram os recursos

    mais importantes que tinham em mos. Praticantes de

    sonetos e apreciadores da rima e do ritmo, os rebeldes

    buscaram manejar a insero no debate sobre

    modernidade literria combatendo os ismos

    importados do estrangeiro e suas estticas

    desorientadas, numa referncia crtica linguagem

    dos modernistas de So Paulo, que lhes parecia excessivamente iconoclasta e talvez

    incompreensvel. Afinal, se a grande revoluo do futurismo fora dar a possibilidade

    para que cada artista se tornasse um criador ao seu modo, obedecendo unicamente s

    normas do seu temperamento, 219 era preciso, no entanto, no confundir liberdade com

    217 Antnio Maron, Teus olhos, O Momento, n5, 15 de novembro de 1931, p.15. Sees destinadas aos comportamentos e hbitos considerados femininos constituem elementos tpicos de revistas de mundanidades sociais e literrias de maior veiculao, em Salvador, no mesmo perodo, como A Luva e Etc, ambas com espaos significativos dedicados etiqueta, aos receiturios de boa me, aos comportamentos na vida amorosa e aos problemas modernos com que se defrontavam as mulheres. Cf. Monalisa Valente Ferreira, Luva de brocado e chita, op.cit., p.69 e ss. 218 O fato de O Momento conseguir veicular nove nmeros significativo tanto da maneira como os rebeldes acertaram o gosto dos setores letrados da sociedade baiana, como do relativo sucesso publicitrio, pois chegava a ser espantoso o nmero de propagandas na revista, em sua maioria, de casas comerciais de Salvador, o que certamente ajuda a explicar o esmero e o bom acabamento grfico da revista. 219 Jos Alves Ribeiro, Tendncias do esprito moderno, Etc, Salvador, n111, 3 de fevereiro de 1930, p.07.

    O Momento, agosto de 1931. Uma mademoiselle de escol social e olhos divinais: uma dentre as muitas de suas leitoras com que a revista se corresnpondia e s quais dedicava poemas sentimentais

  • 123

    abuso [...] O verso pode ser livre [e] plstico, porm com certa disciplina. Mesmo porque a

    completa libertao da ideia prosa 220.

    De fato, se mais uma vez lembrarmos do poema da mademoiselle futurismo eram os

    movimentos exagerados e desorientados que desconcertavam o poeta: como se a todo

    instante ele estivesse lutando para disciplinar esteticamente, na forma de rima, harmonia

    rtmica e alguma musicalidade, os passos bamboleantes, desengonados e pouco

    graciosos da futurismo, cujas pernas (tal como um arco de violino) teimavam em

    arrancar uma estridente e estranha harmonia. Ou talvez, uma luta entre o poeta e sua

    prpria indisposio em aceitar os abusos da iconoclastia cabotina modernista, mas

    que, ao mesmo tempo, precisava invoc-la para no soar muito clssico ou prximo dos

    cronistas do passado221. Os rebeldes no queriam usar nem algemas clssicas nem

    pretend[iam] tomar passagem nos hiper-avies futuristas, informam-nos Jorge Amado,

    dison Carneiro e Dias da Costa na introduo do romance Lenita 222. Assim, diante da

    indisposio e mesmo da falta de familiaridade com as poticas de vanguarda, digno de

    nota que, embora todos os rebeldes tivessem, em maior ou menor grau, se dedicado

    poesia na juventude, aqueles que conseguiram ou tiveram melhores chances de desenvolver

    220 Idem, Ritmo Novo, Samba, n4, maro de 1929 in Samba: mensrio moderno de letras, artes e pensamento, Salvador, Ed. Fac-similar. Salvador, Secretria de Cultura e Turismo do Estado/Conselho Estadual de Cultura, 1999 [1928/1929]. 221 Diria Alves Ribeiro, mirando suas referncias em termos de excelncia potica e literria e, em especial, os autores do parnaso e simbolismo franceses (Boileau, Leconte de Lisle e Baudelaire): acho simplesmente irrisria a campanha contra o soneto, movida pelos adeptos da falida escola moderna [...] poetides incapazes de manej-lo com a mesma percia e o mesmo brilho dos que melhor o cultivaram at hoje, nenhuma outra forma potica que se lhe avantaje em beleza e plasticidade. Cf. Jos Alves Ribeiro, Movimento literrio, Etc., n158, 01 de fevereiro de 1931, p.08. Neste sentido, talvez no seja coincidncia que dois dos rebeldes que permaneceram mais comprometidos e fiis poesia, alm de no terem sado da Bahia nos anos de 1930, no seguindo para a capital federal como muitos fariam, mantiveram-se fortemente apegados ao formato soneto em suas produes poticas intermitentes: Alves Ribeiro e Sosgenes Costa. Ainda que, no caso de Sosgenes, sua poesia j venha sendo objeto, pelo menos desde os anos 1970, de uma tentativa de reabilitao (na chave de uma poesia modernista no devidamente avaliada) especialmente a partir dos esforos do crtico Jos Paulo Paes. Cf. Ciro de Mattos & Aleilton Fonseca (org.), O triunfo de Sosgenes: estudos, depoimentos e antologia, Salvador, UFES, 2004 e Gerana Damulakis, Sosgenes Costa: o poeta grego da Bahia, Salvador, Fundao Cultural do Estado da Bahia, 1996. Destino semelhante a uma srie de outros poetas baianos que, entre 1928 e 29, se aventuraram a fazer poesia moderna, na revista Samba, mas que, logo em seguida, retornaram sua poesia parnasiana e especialmente ao soneto: Meti [Brulio de Abreu] o pau na poesia parnasiana, que a minha poesia. Depois, passado aquilo, retornei aos meus velhos versos. Elpdio Bastos sempre foi sonetista, tentou sair do soneto e no conseguiu [...] Depois que a revista acabou, voltamos a publicar sonetos. Cf. Brulio de Abreu, Samba morreu de desgosto in Samba: mensrio moderno de letras, artes e pensamento, Salvador, Ed. Fac-similar. Salvador, Secretria de Cultura e Turismo do Estado/Conselho Estadual de Cultura, 1999 [1928/1929], p.XI. 222 dison Carneiro; Jorge Amado; Oswaldo Dias da Costa, Lenita: novela, Rio de Janeiro, A. Coelho Filho, 1931, p.09.

  • 124

    uma carreira intelectual foram os que reconverteram suas prticas no romance (Jorge

    Amado, Joo Cordeiro e Clvis Amorim), no conto (Dias da Costa) ou nos estudos

    etnogrficos (dison Carneiro): gneros em que, certamente, foram se sentindo encorajados

    a investir por se mostrarem mais ajustveis s posies e ao temas com que lidavam como

    semiprofissionais da imprensa, mas tambm por serem simbolicamente mais rentveis do

    ponto de vista da afirmao de um projeto autoral no restrito Bahia, em parte, graas

    expanso de tais gneros no mercado editorial brasileiro a partir da dcada de 1930.

    Muitos dos rebeldes deviam estar atentos ao sucesso e excelente aceitao do

    romance e dos temas regionalistas, e o amigo Jorge Amado certamente deveria ser o maior

    estmulo neste sentido, pois aps publicar os romances Cacau (1932), Suor (1933) e

    Jubiab (1935), j se firmava como um autor de prestgio nacional, retratando a misria

    dos oprimidos baianos. Isto, ao lado de nomes como Jos Lins do Rego, Graciliano

    Ramos, Rachel de Queiroz. Deste modo, ainda que, muito provavelmente, beneficiados

    pelo sucesso e pela consequente influncia de Jorge Amado junto a editoras e editores

    comerciais ou controladas pelo Partido Comunista, no Rio de Janeiro e em So Paulo,

    muitos dos rebeldes conseguiriam realizar suas estreias no decorrer dos anos de 1930 com

    trabalhos nos quais puderam extrair do povo e da sociedade baiana suas matrias primas

    ficcionais ou etnogrficas: Joo Cordeiro, em 1934, com Corja (romance), pela Editora

    Calvino Filho; Clvis Amorim, em 1934, com Alambique (romance), pela Jos Olympio, e

    Massap, em 1937 (desconheo a editora); Dias da Costa, com Cano do Beco (contos),

    em 1939, pela Editora Rumo; e dison Carneiro, com Religies negras (etnografia), em

    1936, pela Civilizao Brasileira 223.

    Premidos quase todos entre uma vanguarda literria inacessvel (frente a qual

    tentavam reagir, por se sentirem ameaados por ela) e modelos e repertrios literrios dos

    quais no tinham condies de se livrarem inteiramente 224, no de se surpreender que o

    223 Sobre a expanso do mercado editorial e a profissionalizao da carreira do romancista, ver Sergio Miceli, Intelectuais e classe dirigente no Brasil, op.cit.; ver tambm Heloisa Pontes, Retratos do Brasil: editores, editoras e Coleo Brasiliana in Sergio Miceli (org.), Histria das cincias sociais no Brasil, So Paulo, Ed. Sumar, 2002. 224 Quanto ao quadro de referncia e ao apego dos intelectuais e escritores baianos aos padres de gosto parnasianos e simbolistas, interessante registrar as memrias de Nonato Marques (1910-2006), conterrneo e contemporneo dos rebeldes, que participou do grupo dos poetas da baixinha, da qual resultou a revista Samba, tambm de pretenses modernistas: A Bahia, em matria de literatura e tudo mais, era um reduto conservador [...] A nossa formao era toda ela orientada no sentido da prosa e da poesia tradicionais [...]

  • 125

    debate sobre a modernidade e o modernismo tenha despertado no grupo toda sorte de

    sentimentos e posturas ambivalentes: aceitao e recusa, amor e dio, fascinao, medo,

    apreenso, frustrao e, porque no, alguma dose de modesta e consciente resignao

    contida no gesto nobre de se encastelar na torre de sua arte, ainda que sob a condio

    da invisibilidade, da solido e dos apodos nela implicados:

    No te preocupes com a futilidade

    da vida que te cerca em toda parte.

    Vive ignorado em tua soledade,

    encerrado na torre de sua arte

    Se tens um sonho belo que te farte,

    por que viveres na intranquilidade?

    Continua a sonhar, sereno e parte,

    pois o sonho melhor do que a realidade

    Foge da multido, foge de todos.

    No confesses jamais o teu profundo

    e nobre ideal que o cobriro de podos 225.

    Em grande medida, parnasiana e colonial, a modernidade dos rebeldes valia como

    uma chamada conscincia dolorosa daquilo que eles no eram e, quem sabe, percebiam-se

    fadados a no ser, soando como uma espcie de impostura intelectual do poeta e do escritor

    ignorado, insulados na provncia, s margens de um pas e de um mundo em

    transformao, incapazes de experimentar todos os prazeres que o novo sculo prometia.

    No por acaso, dison Carneiro descreveria Salvador como a cidade dos sonhos, mas

    Alguns de ns mais por influncia do que mesmo por convico tentava, vez por outra, um poema com versos livres [...] Resistamos s mutaes que nos pareciam chocantes e continuvamos a ter em Olavo Bilac, Raimundo Corra, Alberto de Oliveira, Cruz e Souza, Olegrio Mariano [...] os nossos maiores paradigmas. Cf. Nonato Marques, A poesia era uma festa, op.cit., pp.19-20 (nfases minhas). 225 Jos Alves Ribeiro, Vida interior, O Momento, Salvador, 15 de julho de 1931, p.10.

  • 126

    sonhos e fantasias que pareciam predestinados ao plano do irrealizvel, pois produzidos em

    um mundo social que passava, cada vez mais, a viver das grandezas polticas e culturais

    desaparecidas. Na sntese de dison,

    a cidade tradio [...] Tudo aqui a histria, a lenda, o mito [...] A Histria da Bahia

    uma histria [...] O respeito pelo passado uma lei, aqui no se pode fugir. A mestra da

    vida no admite insurreies [...] Banca a Santa Inquisio, obrigando [...] a desdizer o que

    disse. Todos aqui tm que curvar a espinha diante S.M a Histria [...] Cidade em que o

    ltimo bonde parte meia-noite, cidade onde a vida noturna, os cabarets, as lindas orgias

    dionisacas, so sonhos irrealizveis. Cidade parada em 1500. Cidade morta. Cidade que

    ficou paraltica e abismada a contemplar a vida dos santos, atravs de suas setentas e

    poucas igrejas [...] Cidade feita com os sujos ps [...] inteis da civilizao da Europa [...]

    Lixpolis 226.

    Nesta Salvador de virada das dcadas de 1920 e 30, intelectual e literariamente

    vocalizada e enxergada a partir de uma periferia perifrica, a modernizao se mostrava

    como algo que justamente parecia no estar acontecendo. Ou melhor, como algo que

    estava ocorrendo distncia, em regies que, embora visitassem, experimentavam mais

    como fantsticos antimundos que realidades sociais; ou ainda, [...] quando ocorresse [...],

    como algo que acontecia das formas mais irregulares, vacilantes, flagrantemente destinadas

    ao fracasso ou estranhamente distorcidas 227. Assim, em meio s transformaes

    dionisacas prometidas, inserir esta Bahia paraltica no tempo presente e moderno se

    revelava tarefa difcil e intrincada: decerto, no apenas para os rebeldes, mas tambm para

    uma srie de outros jovens escritores e intelectuais locais, cujas percepes do atraso social,

    econmico e cultural se misturavam aos ressentimentos e s inseguranas dessas elites

    quanto aos papis secundrios que o estado vinha desempenhando na poltica nacional,

    226 dison Carneiro, A Cidade da Tradio, O Momento, 15 de agosto de 1931, p. s/d (nfases minhas). Se passado e presente se apresentavam em runas, interessante que numa revista de jovens poetas modernos locais, Samba, o futuro tambm aparea como algo incerto e improvvel: um fruto sempre muito verde que apodreceu antes mesmo de amadurecer: E ele [o rapaz] tinha uma fome grande / de comer o verde futuro / Depois de certo tempo / o futuro foi amarelecendo, amarelecendo / at que secou, por completo / Ficou da cor daquela folha seca / e que tambm j foi verde / Morreu sem comer o fruto / to verde e to desejado. Cf. Epaminodas Pontes, O rapaz que via o futuro verde, Samba, Ano I, n3, fevereiro de 1929 in Samba: mensrio moderno de letras, artes e pensamento. Ed. Fac-similar. Salvador, Secretria de Cultura e Turismo do Estado/Conselho Estadual de Cultura, 1999 [1928/1929], s/d. 227 Marshall Berman, Tudo que slido se desmancha no ar, op.cit., p.206.

  • 127

    sombra das oligarquias mineira e paulista 228. Ressentimentos aos quais a revoluo de

    1930 daria contornos ainda mais dramticos, ao alijar do poder seus principais chefes

    polticos tradicionais 229. O que, ao menos aos olhos dos rebeldes (depositrios de alguma

    esperana na campanha aliancista), acabou por converter a nova repblica em mais um

    dos outros tantos sonhos que eles j se sentiam obrigados a amargar, tanto localmente,

    como jovens que enxergavam suas perspectivas de reconhecimento profissional e cultural

    embaadas pela conjuntura poltica desfavorvel, quanto no escopo nacional, como

    postulantes a escritores e intelectuais de uma elite regional desprestigiada e sensivelmente

    humilhada com as intervenes do governo revolucionrio.

    Combinados, tais elementos foram se mostrando decisivos no desenvolvimento dos

    repertrios e temas de interesse de dison Carneiro e dos demais rebeldes: em especial,

    aqueles relacionados crescente descrena no movimento de outubro e nas possibilidades

    de que os apoios prestados por suas famlias, seus padrinhos, seus chefes polticos e por

    eles prprios fossem, de alguma forma, recompensados. Muito pelo contrrio, nada poderia

    ter resultado mais diferente do que imaginavam. Como afirmava o prprio dison Carneiro,

    em junho de 1931: a revoluo de outubro nos tornou bbedos. E, neste sentido, se

    perguntava, de admirar que os bbedos deem cabeadas nos postes de iluminao

    pblica? Eu acho que no [...] E voc, esprito fino, concordar comigo. E ainda mais,

    agora, quando o governo desta interessante RES PBLICA decretou o ensino religioso nas

    escolas o que, alm de ser contrrio a um regime democrtico [...] vir entravar de vez o

    problema do progresso no pas 230.

    Realmente, bbados e atordoados eram os estados e as sensaes que melhor

    deviam representar o estado de esprito de dison Carneiro e sua famlia, assistindo um

    228 Sobre as dificuldades e os resentimentos da classe dirigente baiana em se impor no jogo da poltica republicana, ver, Consuelo Novais Sampaio, Partido polticos na Bahia, op.cit., Wilson Lins (org.), Coronis e oligarquias, op.cit. Monica dos Santos Quaresma, O salvacionismo na Bahia, op.cit.; Lus Dias Tavares, Histria da Bahia, op.cit. 229 Como aponta Paulo Santos Silva, com a indicao do tenente Juraci Magalhes, a tradicional hegemonia dos bacharis na direo poltica do estado cedia em favor de uma liderana no formada nos padres dos grupos dirigentes locais. Pela primeira vez, um indivduo de fora da Faculdade de Medicina, da Escola Politcnica ou da Faculdade de Direito de Recife ou da Bahia era conduzido ao mais elevado posto da poltica baiana. Fato que atingira os brios da elite local, ciosa dos seus mritos e convencida de sua importncia e imprescindibilidade. Cf. ncoras da Tradio: luta poltica, intelectuais e construo do discurso histrico na Bahia, op.cit., p.29. Sendo que contra a nomeao de Juracy Magalhes, ainda lembra Silva, se levantaram especialmente trs objees: ser jovem, militar e cearense. Idem, Ibidem. 230 dison Carneiro, Para a glria do Brasil, Etc, Salvador, n166, 15 de junho de 1931, p.24.

  • 128

    tanto confusos ao regime de sobe e desce de interventores que se seguiu deposio do

    governador Vital Soares, sem que, no entanto, vislumbrassem qualquer sada para o

    ostracismo a que se viam relegados desde que Seabra cara em desgraa. Esta conjuntura de

    falta de perspectivas em relao aos destinos do movimento de outubro somente serviu para

    potencializar as imagens, em dison, de um futuro cada vez mais incerto e fechado aos

    grandes feitos e realizaes, marcando fundo a modelagem de suas representaes quanto

    posio do intelectual e escritor. Ou seja, as representaes de um destino socialmente

    incerto e do literato de subrbio, amarrado aos temas e s glrias menores da provncia e,

    por consequncia, distante dos grandes centros de consagrao intelectual; em especial o

    Rio de Janeiro, visto por dison Carneiro quase que como uma miragem: acendo

    novamente meu cigarro. E cismo. Vou ser isto, aquilo, aquilo outro... Aviador, detetive,

    artista de teatro, advogado, jornalista... Pra qu? No sei, ningum sabe [...] Bah! Serei

    literato...Rio. Que coisa estpida ser-se literato de subrbio, escritor de fim de mundo. E,

    no entanto... 231. E, no entanto, dison Carneiro teria dificuldades de se livrar desta

    miragem da capital federal como uma espcie de representao hiperblica, avessa a toda

    estupidez e ao sentimento de fracasso que ele acreditava enredar sua existncia como

    escritor de subrbio. O Rio de Janeiro simbolizava justamente o mundo de sonho e

    orgia que, em Salvador, parecia relegado ao plano do irrealizvel e do improvvel.

    Mesmo dcadas mais tarde, a partir de 1940, quando dison Carneiro se enraizou

    definitivamente no Rio de Janeiro, a despeito de uma srie de experincias que mostraram o

    contrrio, as projees fantasmticas da capital como terra da promessa e dos devaneios

    consagratrios continuaram, de certo modo, a informar suas tomadas de posio no campo

    intelectual brasileiro. Seja como for, ele certamente no era um caso nico ou isolado entre

    os jovens baianos aspirantes a escritores. Afinal, quase todos nutriam o desejo de aportar,

    fsica ou ao menos simbolicamente, na cidade maravilhosa: centro do poder e da cultura,

    cidade dos poetas.

    Vou para a cidade maravilhosa

    dos poetas, onde longa a primavera!

    Para a cidade onde se goza,

    231 Idem, A mosca na vidraa, Etc, Salvador, n172, 15 de setembro de 1931, p.20 (nfases minhas).

  • 129

    e que me espera

    sorrindo

    com o seu sorriso muito claro e muito lindo 232.

    * * *

    Uma forma interessante de se lastrear os ncleos de sentidos que, em parte,

    amarraram o dison cronista e contista ao etngrafo da cidade de Salvador a de

    justamente vasculhar os desdobramentos desta tomada de conscincia do atraso e da

    paralisia da Bahia implicados em seus esforos e nos dos rebeldes para pensar seus lugares

    e suas condies de insero no novo sculo e na Repblica Nova. As ambivalncias e

    as frustraes de dison, vivenciadas a partir de inseguranas projetadas em vrios nveis

    (pessoal, profissional, familiar e poltico), parecem estar na base de um gradual, porm

    crescente, arremesso na direo do povo. Dito de outra maneira, no depuramento de uma

    sensibilidade cada vez mais afeita s observaes que buscavam contrapor tanto as

    artificialidades e as estridncias da vida moderna quanto as fumaas de um nobreza

    pretrita aos aspectos pr-modernos e mesmo bestiais, porm mais sinceros, espontneos

    e verdadeiros do universo social e cultural dos grupos populares baianos. Um apelo, em

    sntese, para a vida popular que surgia materializada preferencialmente nas representaes

    da populao negra dos bairros distantes da cidade e de sua herana cultural africana, cujos

    vestgios estavam presentes na experincia social e urbana dos soteropolitanos de todas as

    classes 233.

    Um bom exemplo dessa visada pode ser observado em um texto de dison

    Carneiro, cujo sugestivo ttulo, Onde Judas perdeu as botas, sintetizava bem o esprito de

    descobertas, excitao e receios do narrador, implicado no movimento de se lanar na

    232 Damasceno Filho, Poesias de uma Bahia triste, mas adorada, Arco & Flexa, Salvador, n1, outubro de 1928, p.35. 233 Alberto Herclito Ferreira Filho, Desafricanizar as ruas: elites letradas, mulheres pobres e cultura popular em Salvador (1890-1937), Afro-sia, n21-22, 1998-1999. Ver tambm, sobre Salvador e a inscrio de suas fricas internas Jeferson Bacelar, A hierarquia das raas, op.cit., e Wlamyra R. de Albuquerque, A exaltao das diferenas: racializao, cultura e cidade negra (Bahia, 1880-1900), Campinas, (Tese de Doutorado), Unicamp-IFCH, 2004.

  • 130

    escurido e nos mistrios dos subrbios e bairros pobres da capital, enfeitando de

    barro a boca das calas civilizadas. Um deslocamento espacial e social que, no limite,

    parecia se realizar como uma tentativa do narrador de se evadir do prprio mundo burgus

    da cidade, orgulhoso e paraliticamente histrico e sem vida. O oposto da felicidade e da

    agitao festiva da gente pobre e de seus forrobods que o cronista assistia da parte de

    fora da janela da casa: posio bastante expressiva da ambivalncia do narrador com

    relao aos grupos que observava, bem como de seus esforos em controlar os marcadores

    de distino presentes entre ele e a gente pobre.

    Faz calor. As axilas desprendem um suor ftido e insuportvel. Mas todos parecem

    contentes. Riem, cantam, danam. Negras, mulatas, crioulas, roxinhas [...] Ficamos

    olhando, da janela, uma vontade enorme de entrar [...] No podemos entrar. No h mais

    bondes para a Cidade, temos que pegar o auto [...] E despedimo-nos, voltamos sobre o

    caminho andando, desta vez sem susto, a conversar animadamente. Tomamos o auto,

    rodamos [...] a fumar cigarros e a falar da gente dos bairros pobres desta velha Lixpolis. E,

    com as primeiras luzes da rua Dr. SEABRA, sentimos estar de novo no nosso mundo

    burgus da cidade que se orgulha de ser me de Rui Barbosa e teatro das lutas da

    independncia 234.

    provvel que o interesse de dison Carneiro pelas manifestaes culturais e

    religiosas afro-brasileiras tenha comeado a ganhar fora neste momento de seu

    aprendizado e treinamento intelectual cronista e contista da cidade de Salvador, sensvel ao

    registro e apreenso de sua populao negro-africana, suas festas, seus hbitos e tipos

    que, no final das contas, pareciam oferecer o melhor retrato da velha e primitiva Bahia

    em pleno sculo XX. Decerto, preciso no minimizar a importncia que a revoluo de 30

    teve no desenvolvimento de uma postura que, em pouco tempo, resultaria na converso de

    Carneiro ao comunismo e na reivindicao do povo e do proletariado como arrimos de

    suas tomadas de posio intelectual. Tal postura tenderia a se mostrar tanto mais

    pronunciada conforme foi se tornando mais ntido o papel poltico e intelectual diminudo

    234 Cf. dison Carneiro, Onde Judas perdeu as botas. O Momento, Salvador, 15 de outubro de 1931, s/d. Para uma anlise de como as crnicas e o teatro de revista carioca, na dcada de 1920, representaram os afro-brasileiros como a encarnao de valores e comportamentos considerados pr-modernos, consultar o trabalho de Tiago de Melo Gomes, Um Espelho no Palco: identidades sociais e massificao da cultura no teatro de revista dos anos de 1920. Campinas, Ed. Unicamp, 2004.

  • 131

    que as elites baianas teriam na regenerao da Bahia no contexto do novo regime 235.

    Uma diminuio e um contexto de turbulncias que, somados s percepes resignadas do

    escritor provinciano e pobreza familiar, favoreciam o sentimentalismo mrbido [e]

    inatual que levou dison Carneiro a se projetar virtualmente no mundo banal e

    acanhado da gente miservel dos subrbios, e a se questionar Nos seguintes termos:

    porque ser que a gente se sente bem, deslocado da turbulncia da vida da cidade no

    ambiente simples da velha rua morta? 236.

    Contudo, como o prprio Carneiro verbalizava, ele estava consciente da morbidez e

    da inatualidade de tais sentimentalismos, ainda mais em um momento em que a crise e as

    inseguranas destravadas pela revoluo demandavam muito realismo e pragmatismo social

    e poltico para se reconhecer que justamente nos hbitos e na situao cultural desta gente

    miservel se encontravam muitos dos obstculos para o progresso nacional: em

    consequncia da crise atual o brasileiro j propenso a acreditar em todos os fetiches [...] se

    fez mais sentimental ainda e sente a necessidade imperiosa de crer em qualquer coisa

    sobrenatural [...] Perde-se tempo em invocar espritos de luz, em recorrer fora mgica

    dos pais de santo e em cacetear os ouvidos, mesmo surdos, dos santos das igrejas 237.

    Assim, por tudo isso, dison lamentava a popularidade que a jovem Manuelina,

    pobre, cabocla e analfabeta, havia ganhado em Salvador por realizar curas e operar

    milagres at o momento em que fora recolhida pela polcia 238. De qualquer forma, parece

    235 Aqui, certamente Carneiro acabava recebendo a influncia do pai, o professor Souza Carneiro que, na esperana de reverter o quadro poltico francamente desfavorvel s suas pretenses polticas mas sobretido s do filho Nelson Carneiro , passaria a invocar e reconhecer a necessidade de que o proletariado triunfasse como fora poltica. 236 dison Carneiro, A velha rua morta, O Momento, Salvador, n8, 15 de abril de 1932, s/d. Este artigo de Carneiro foi escrito por volta do mesmo perodo em que o pai teve seu emprego cassado na Escola Politcnica e o irmo, Nelson Carneiro, foi preso e deportado para o Rio de Janeiro, ambas as medidas por ordem direta do interventor Juracy Magalhes. Cf. dison Carneiro, Souza Carneiro, op.cit., p.320. 237 Idem, Santa Manuelina, Etc, Salvador, n167, 30 de junho de 1931, p.22. Em fevereiro de 1932, apareceu um pequeno conto de Carneiro, intitulado Histria de gente pobre, constando como parte de um livro de contos no prelo que era para se chamar Chico Linguia, histria curta, mas que d uma boa ideia do que poderia ser o restante do livro: espcie de drama domstico em torno de uma famlia negra e pobre baiana, marcada pela violncia do marido que, depois de perder o emprego, se vicia em lcool, passando a bater na esposa e levando ao vcio o filho de sete anos que tambm se alcoolizava. Cf. dison Carneiro, Histria de gente pobre, Dirio da Tarde, Salvador, 24 de fevereiro de 1932, s/d. 238 Idem, Ibidem. Aqui, acredito ser interessante destacar um trecho que evidencia de maneira exemplar o carter trocista de dison Carneiro, o qual agradeo a Mariza Corra por me chamar a ateno: Um mdico ilustre [...] afirmou que o Brasil um imenso hospital. Estou inteiramente de acordo com o grande cientista, embora no entenda de medicina [...] Aqui, todos esto doentes. Doentes do corpo e, o que pior, tambm da inteligncia. Ns somos o povo mais hospitaleiro do mundo, como ns mesmos (e parece que somente ns)

  • 132

    ter sido atravs de suas qualidades de cronista e jornalista engajado nos dilemas da vida

    social e poltica de Salvador que dison Carneiro comeou suas descobertas, a treinar seu

    olhar e se projetar em suas primeiras viagens a espaos e mundo sociais que, poucos anos

    mais tarde, lhe daria condies de perceber que aquilo que fazia na imprensa baiana poderia

    ser reconvertido em gneros e ferramentas mais nobres de trabalho intelectual: etnografia e

    trabalho de campo.

    Parece-me extremamente significativo, neste sentido, que o primeiro texto (ao

    menos que tenho conhecimento) no qual tratou mais pontual e detalhadamente da

    religiosidade afro-brasileira, Carneiro tenha se valido de recursos e expedientes similares

    aos utilizados, por exemplo, na crnica Onde Judas perdeu as botas: em especial, a ideia de

    que a apreciao destas manifestaes religiosas implicava num longo deslocamento, ou

    mesmo uma viagem, entre bairros e classes, como nos exemplos acima, mas principalmente

    entre mundos, culturas e tempos distintos. Em meio s descries sobre a entrega dos

    presentes Iemanj, o aprendiz de etngrafo, ainda sem conseguir pescar o nag que se

    canta, pontua todos os elementos que evidenciam um mundo fundamentalmente distante

    da cidade e da civilizao: a viagem de bonde, a poeira, os mosquitos nos

    atacam, as calas cheias de carrapichos, os atabaques ensurdecedores e a msica

    brbara. At que, por fim, para provavelmente no perder o ltimo bonde, o autor

    anunciava que estava tarde [e] precis[avam] deixar a frica, regressar ao Brasil 239.

    dizemos. At com o que repudiado pelos outros povos conseguimos fazer camaradagem [...] com a febre amarela, com a gripe, com a varola, com o tifo. Idem, Ibidem. 239 dison Carneiro, Presente a Me dgua, A Batalha, Salvador, 25 de fevereiro de 1934, s\d. Este artigo seria reproduzido, em anexo, no seu primeiro livro Religies Negras, de 1936.

  • 133

    CAPTULO III

    DISON CARNEIRO E OS ESTUDOS AFRO-BRASILEIROS DA DCADA DE

    1930

    Introduo: rebelde e comunista

    Se possvel dizer que o interesse de dison Carneiro pela cultura afro-brasileira

    comeou a se pronunciar a partir de suas atividades junto Academia dos Rebeldes, com a

    sua converso ideolgica ao comunismo, tal interesse praticamente selaria os destinos de

    sua produo intelectual e de suas consequentes tomadas de posio no campo intelectual

    brasileiro. Uma converso que, em parte, foi se construindo gradualmente no apenas para

    dison Carneiro, mas para toda uma leva de jovens universitrios e letrados da Bahia, na

    medida em que foram se dando conta dos rumos que a revoluo de 30 ali tomava. No

    tocante famlia de dison, embora ele prprio nunca tivesse se afirmado seabrista, a

    nomeao do militar cearense, Juracy Magalhes, em setembro de 1931, no poderia ter

    sido mais desoladora. J. J. Seabra havia sido a nica grande liderana baiana a declarar

    apoio campanha varguista e, com a vitria revolucionria, aps ter presidido o tribunal

    especial para julgar os polticos decados, certamente esperava ser brindado com a

    interventoria do Estado. O que, porm, nunca chegou a ocorrer, minando as esperanas de

    ascenso poltica do irmo de dison, Nelson Carneiro, lder da classe acadmica nos

    comcios de Seabra e que podia ser dado como nome certo num eventual governo do

    padrinho 240. E assim como a incipiente carreira poltica de Nelson, ficaram igualmente

    reduzidas a cinzas as chances de Souza Carneiro recuperar para a famlia condies

    similares quelas que, no ltimo vintnio, lhe ajudaram a garantir no apenas a posio

    240 Nelson Carneiro, o pai e o tio, Jos Joaquim, foram nomes constantes nas reportagens sobre os comcios realizados por e para J. J. Seabra no decorrer da campanha da Aliana Liberal e do processo revolucionrio, em Salvador. Em quase todos comcios e eventos, Nelson Carneiro participou na condio de orador representante dos estudantes do curso jurdico da Bahia: enquanto tal, assinaria o manifesto Bahia Oprimida, em resposta nomeao de Juracy Magalhes. Cf. Chegam hoje Bahia os Srs. J. J. Seabra e Moniz Sodr, Diria da Bahia, 22 de agosto de 1931.

  • 134

    como docente da Escola Politcnica, como tambm uma bem sucedida trajetria de prmios

    acadmicos, cargos e servios comissionados atravs da qual acumulou prestgio social e

    intelectual.

    No limite, pode-se dizer que a nomeao do tenente estrangeiro, tal como fora

    recebido o interventor Juracy Magalhes 241, indisps como um todo os grupos oligrquicos

    baianos os quais, suspendendo momentaneamente suas acirradas disputas internas,

    tentariam ainda articular um bloco de oposio que, embora frgil, no deixava de

    expressar o forte ressentimento [de uma] Bahia invadida e violada 242. Afinal,

    encontrava-se a Bahia ineditamente privada de todos os lderes que haviam conduzido a

    poltica local nas ltimas trs dcadas: J. J. Seabra, Antnio Moniz, Gos Calmon, Miguel

    Calmon, Vital Soares, Simes Filho, Pedro Lago e Otvio Mangabeira. E por consequncia,

    fraturavam-se tambm as linhagens naturais de sucesso das novas geraes que chegavam

    cena poltica agrupadas em torno desses antigos chefes 243. Dito de outra maneira,

    com a vitria dos revolucionrios, interrompia-se o movimento de ascenso de uma leva de

    jovens carreiras pblicas no exato momento em que assumiam seus primeiros encargos

    polticos mais significativos como deputados, homens de confiana e chefes ou secretrios

    de gabinete. Carreiras como a do prprio Nelson Carneiro, mas ainda de nomes como Pedro

    Calmon (1902-1982), os irmos Pricles (1908-1975) e Demsthenes Madureira de Pinho

    (1911-1973), Nestor Duarte (1902-1970), Alosio de Carvalho Filho (1901-1970), Lus

    Vianna Filho (1908-1990) e Wanderley de Arajo e Pinho (1890-1967). No por acaso,

    alguns dos personagens que, politicamente rfos a partir de 1930, ao reconverterem

    recursos sociais e pessoais nas profisses intelectuais, seriam responsveis por uma copiosa

    produo historiogrfica comprometida com a restaurao das glrias pretritas da Bahia e

    241 Cf. Cid Teixeira, As oligarquias na poltica baiana, op.cit., p.54. 242 Cf. Paulo Santos Silva, ncoras da tradio, op.cit., p.45. O sentimento de invaso e violao acalentado pela elite local ficou particularmente evidente no lema adotado pela chapa autonomista, na ocasio das eleies estaduais de 1933: a Bahia ainda a Bahia. Contudo, a oposio autonomista, assim chamada por justamente reivindicar o retorno do governo baiano s mos dos antigos lderes locais (contrrios ao tenente invasor), no chegou a se institucionalizar partidariamente. 243 O prprio Juracy Magalhes no demorou a perceber o forte personalismo da poltica baiana, prevendo a frgil unidade da chapa de oposio. Em novembro de 1931, um ms aps sua nomeao como interventor, Juracy j escrevia para Getlio Vargas: H aqui, porm, um fator importante a considerar; no existe um partido poltico, h agrupamentos em torno de pessoas. Apud Juracy Magalhes, Juracy Magalhes: minhas memrias provisrias, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1982, p.223.

  • 135

    de suas elites 244. Na frase lapidar de Demsthenes Madureira de Pinho, ento secretrio

    particular do governador deposto, e que devia expressar a percepo de muitos deles sobre

    aquele momento dramtico da poltica baiana: as nossas preocupaes [...] eram de quem

    sentia que o destino lhes apontava a vida poltica, como uma espcie de fatalidade. E nada

    foi assim. Tudo se transmudaria com a vitria da revoluo 245.

    Para dison Carneiro, seus companheiros de academia e muitos outros jovens que

    se encontravam relativamente distantes da poltica institucional dos partidos oligrquicos,

    em vias de ingressar ou iniciando alguma das faculdades de Salvador quando no, ainda

    cursando o ginsio , a militncia comunista mostrou-se uma opo atraente de oposio ao

    novo governo. Ou melhor, uma forma de oposio sedutora e possvel para esses jovens em

    trnsito entre os bancos escolares e a vida adulta na medida em que lhes permitia

    compatibilizar: de um lado, mocidade e recusa a um regime que, direta ou indiretamente,

    condenava de antemo suas chances de enquadramento poltico, social e profissional e, de

    244 A historiografia baiana produzida nas dcadas de 1930 e 40 foi objeto de uma cuidadosa anlise no trabalho de Paulo Silva Santos, focando particularmente as obras de Lus Vianna Filho, Wanderley de Arajo e Pinho e Nestor Duarte. Cf. ncoras da tradio, op.cit. Segundo Silva, esta historiografia buscou se voltar, sobretudo, para o passado imperial da Bahia numa tentativa de convert-lo em um espao de resistncia simblica ao projeto de centralizao poltica ao sul do pas, encarnado pela Revoluo de 30. Ou seja, atravs do trabalho historiogrfico, pretendia-se contestar e reivindicar uma centralidade para Bahia e suas elites na poltica brasileira que, em grande medida, fora solapada no perodo republicano: uma forma de autoafirmao das elites polticas locais recolocando no lugar das lideranas reais smbolos das glrias polticas passadas. Idem, p.184. Em um mesmo sentido, a recuperao do passado imperial se alinhava a um esforo desses historiadores em converter a Bahia em locus de sntese e formao da Nao e do Estado brasileiros. Alguns dos principais ttulos produzidos por estes historiadores baianos so reveladores do privilgio que eles dispensaram s biografias de indivduos e famlias notveis da poltica imperial (muitas vezes, remetendo s suas prprias genealogias), bem como aos grandes feitos do perodo: de Pedro Calmon: O Marqus de Abrantes (1933), O rei cavaleiro: a vida de D. Pedro I (1933), Esprito da sociedade colonial (1935), O rei filsofo: D. Pedro II (1938), Histria da Casa da Torre: uma dinastia de pioneiros (1939), A Princesa Isabel: a redentora (1941) e Histria da fundao da Bahia (1949); de Wanderley de Arajo Pinho: Poltica e polticos no Imprio: contribuies documentais (1930), A Sabinada: Bahia (1930), Cartas do Imperador D. Pedro II ao Baro de Cotegipe (1933), Cotegipe e seu tempo: primeira fase: 1815-1867 (1937), Sales e damas do segundo reinado (1942) e Histria de um engenho do Recncavo (1946); de Lus Vianna Filho: A Sabinada (a repblica baiana de 1837) (1938), A vida de Rui Barbosa (1943), O negro na Bahia (1946), Rui e Nabuco: ensaios (1949) e A vida do Baro de Rio Branco (1959); de Nestor Duarte, o ensaio histrico-sociolgico, A ordem privada e a organizao da vida poltica nacional (1939). 245 Cf. Demsthenes Madureira de Pinho, Carrossel da Vida: pginas de memrias, Rio de Janeiro, Jos Olympio, 1974, pp.80-81. De qualquer modo, essa decepo poltica [...] distorceu-me o destino, segundo eu pensava, at ali, fadado vida pblica. Essa nunca me veio [...] e isso constituiu, para mim, a grande frustrao da vida [...] Restava-me a profisso [advogado] e os concursos a me desafiarem a coragem. Idem, p.126 (nfases minhas). Situao semelhante narrada por Pedro Calmon, quando se lembrava de sua opo pela cincia e pela carreira como historiador em detrimento da poltica. Tendo participado da reviso constitucional da Bahia, entre 1928 e 29, Calmon estaria, em suas palavras, credenciado para as prximas eleies, se a revoluo no interrompesse o fatigado ciclo do regime [...] Lucrei, sim, a aspirao ctedra [...] optando pela cincia, na medida em que os batentes do poder haviam se fechado para ele e seu padrinho, Miguel Calmon. Cf. Pedro Calmon, Memrias, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1995, p.173.

  • 136

    outro, a acomodao desses jovens entre os grupos e espaos de lutas ideolgicas que

    passavam a estruturar suas experincias na universidade (em especial, entre comunistas e

    integralistas). Isto, em um contexto que seria marcado no apenas pelo gradual

    enrijecimento da interventoria de Juracy Magalhes com relao s manifestaes

    contrrias ao seu governo, mas tambm pela crescente ausncia de lideranas e protees

    polticas capazes de arregimentar esta leva de universitrios e colegiais descontentes.

    Ademais, ao aderirem s ideologias que estavam em condies de oferecer, esquerda ou

    direita, solues e medidas excepcionais para a retomada do Estado, estes jovens davam

    feio ao grito de uma mocidade, que se percebia parte de uma nova gerao e surgia

    para a via social e poltica j desencantada com a Repblica e com a falta de ideias de

    seus antigos e novos representantes, os quais, segundo dison Carneiro, haviam chegado

    velhice depois de uma vida descansadamente improdutiva:

    A realidade dolorosa do Brasil de hoje [dezembro de 1931] nos aparece tal qual ali [se

    referia ao tempo da descoberta do Brasil], sem tirar nem por uma linha. O Brasil presunto

    esquecido do armazm do mundo est todo ali, com a politicagem profissional, o

    favoritismo, o pistolo, o doutoramento, o dficit, o jogo do bicho, a macaqueao do

    estrangeiro e o amarelo [...] O regime discricionrio em que vivemos h mais de um ano

    (sem saber por que nem para qu), o melhor para o caso. Estamos num momento

    excepcional. Logo, as medidas a tomar devem ser excepcionais [...] Essa obra, entretanto,

    deve ficar a cargo da mocidade, da gerao que surge para a vida social e poltica [...] S

    a mocidade capaz de passar por cima de todos os preconceitos e de todas as banalidades

    erigidas em sistema, s ela pode e deve estrangular toda essa rotina e toda essa falta de

    ideais dos que chegaram velhice depois de uma vida descansadamente improdutiva 246.

    O engajamento, portanto, destes aspirantes s carreiras polticas e intelectuais em

    uma instituio como o Partido Comunista Brasileiro (PCB) significava no apenas

    246 Cf. dison Carneiro, O grito da mocidade, O Momento, Salvador, n6, 15 de dezembro de 1931 (nfases minhas). O texto em questo uma resenha do ento recm-lanado livro do intelectual catlico carioca, Octvio de Faria, Maquiavel e o Brasil (1931). Neste texto, ainda que no se afirmasse comunista, dison fazia restries apologia de Octvio de Faria a Mussolini e Plnio Salgado, o suposto homem de virtu de Maquiavel que, na viso de Faria, estava em condies de corrigir o Brasil. De qualquer forma, no parece aleatrio o entusiasmo de dison pelo livro, nele encontrando o mesmo sentimento de urgncia de, no importando quais fossem os meios, comunismo, fascismo ou nacionalismo, se corrigir os nossos erros maiores: Dentre esses erros, o maior deles seria o prprio regime republicano: A repblica um exemplo vivo. Faliu. Faliu miseravelmente, quarenta anos seguidos. A revoluo para nada serviu. A repblica continuar falhando sempre [...] Para quem apelar, ento?. Idem, Ibidem.

  • 137

    garantias de participao em campo poltico inacessvel pelas vias tradicionais dos partidos

    e chefes oligrquicos, mas tambm o ingresso em um mercado de jornais e revistas de

    acesso reservado, que funcionava como um canal de estmulo, difuso e prestgio s suas

    produes 247. Joo Falco (1919) que dedicaria parte substantiva de sua trajetria poltica

    como quadro do PCB , ao relembrar os tempos de estudante em Salvador, em meados da

    dcada de 1930, registrou de maneira bastante reveladora as baixas expectativas que a

    conjuntura oferecia para um jovem carregado de humanismo e vocacionado ao direito e

    vida pblica. Seu relato, neste sentido, pode ser lido como um retrato expressivo dos

    dilemas que enredavam as converses comunistas de muitos dos jovens recm-chegados ao

    campo poltico e intelectual, num momento de suas vidas em que as descobertas e agitaes

    associadas ao mundo novo da universidade pareciam se fundir s inquietaes de

    afirmao de uma maioridade social de fato e de direito.

    Convenci-me, de imediato, que devia me engajar naquele movimento, a nica porta aberta,

    e pela qual entrei, para juntar-me queles que lutavam contra o fascismo e pela restaurao

    da democracia [...] O incio das aulas contribuiu para tornar memorvel aquele dia [de

    ingresso na militncia], pois o sonho de cursar a faculdade estava se concretizando.

    Vocacionado para o Direito, enquanto a servio da justia e das liberdades humanas, adquiri

    uma formao cultural e poltica aberta para a nossa vida acadmica e a preparao

    adequada profisso que escolhera e na qual acreditava [...] Abria-se, assim, aos meus

    olhos, um mundo novo. Ao mesmo tempo ingressei na faculdade, obtive meu primeiro

    emprego e estava me incorporando a um movimento de resistncia ditadura, na

    clandestinidade! Trs acontecimentos significativos na vida de um jovem que assumia, aos

    18 anos, a sua plena maioridade de fato e de direito 248.

    A exemplo de Joo Falco, no decorrer dos anos de 1930, muitos outros estudantes

    ginasiais e universitrios encontrariam um ambiente propcio para engrossar as fileiras da

    militncia comunista, dando feies ao que seria um dos mais importantes ncleos do PCB

    247 Cf. Marcelo A. Camura, Intelectualidade rebelde e militncia comunista: a adeso dos intelectuais ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) 1922-1960. Locus: revista de histria, Juiz de Fora, vol.4, n1, 1998, pp.69-70. Ainda, sobre a rede cultural organizada pelo PCB e sua importncia para as estratgias de interveno do partido no campo poltico e intelectual, ver Antnio Albino Canelas Rubim, Marxismo, Cultura e Intelectuais no Brasil, Salvador, Centro Editorial e Didtico da UFBA, 1995. 248 Joo Falco, O Partido Comunista que eu conheci (20 anos de clandestinidade), Salvador, Contexto & Arte Editorial, 2000, pp.30 e 31 (nfases minhas).

  • 138

    na poca 249: especialmente aps 1937, quando, em consequncia do decreto do Estado

    Novo, parte significativa da direo nacional do PCB foi presa, tendo recado sobre os

    comunistas da Bahia a responsabilidade de rearticular o Partido em nvel nacional 250. Junto

    a esta leva de estudante e militantes inflamados quem sabe, igualmente desejosos em

    afirmar sua maioridade poltica e intelectual, lutando contra uma revoluo a qual,

    outrora, haviam desejado , estavam os membros da Academia dos Rebeldes que

    rapidamente se debandaram para o lado do comunismo (ou ao menos do engajamento

    esquerdista e antifascista), formando, inclusive, um grupo de referncia para os militantes

    mais novos da capital: tanto na Faculdade de Direito, instituio em que boa parte deles

    estudava, quanto nos redutos bomios nas intermediaes da S, onde frequentavam o

    Bahia-Bar: cuja clientela constitua-se de jornalistas, estudantes, polticos e literatos, em

    geral antifascistas e esquerdistas, como Walter da Silveira, Emanuel Assemany, Reginaldo

    Guimares, dison Carneiro, Aydano do Couto Ferraz, Clvis Amorim, Alves Ribeiro,

    249 O agrupamento de militantes que foi tomando forma na Bahia e mais particularmente em Salvador chamou bastante a ateno da direo nacional do PCB que chegou a enviar quadros para o treinamento ttico e ideolgico dos comunistas locais: aulas em que aprenderam, entre outras coisas, tcnicas de fabricao de bombas caseiras (decerto, preparando os militantes para um confronto armado que, em teoria, estava sempre em vias de acontecer). Cf. Antnio Risrio, Adorvel Comunista: histria poltica, charme e confidncias de Fernando SantAnna. Rio de Janeiro, Versal, 2002, p.102. Uma srie de elementos parece ter estimulado converses e aglomeraes de comunistas em territrio baiano no decorrer da dcada de 1930. Dentre alguns deles, mencionam-se: a preocupao muito maior de Juracy Magalhes em combater os integralistas que, gozando de existncia legal, se organizaram e avanaram como uma fora poltica expressiva de oposio ao governo do interventor baiano (especialmente nas cidades do interior do estado). De outra parte, teria contribudo tambm o fato da intentona comunista de 1935, segundo o prprio Juracy, ter tido efeitos mnimos na capital e no estado da Bahia, no se seguindo por prises ou perseguies massivas de militantes locais (o que teria levado, inclusive, comunistas de outros estados a buscar refgio em Salvador). E por fim, em razo de Juracy Magalhes, na campanha presidencivel de 1937, ter se colocado contrrio candidatura de Getlio Vargas, declarando seu apoio ao escritor Jos Amrico de Almeida (candidato tambm apoiado pelo Partido Comunista). Cf. Antnio Risrio, Adorvel Comunista: histria poltica, charme e confidncias de Fernando SantAnna, op.cit., p. 102; Joo Falco, O Partido Comunista que eu conheci, op.cit. e Juracy Magalhes, Juracy Magalhes: minhas memrias provisrias, op.cit. 250 Uma rpida meno aos nomes desta leva de estudantes que compunham o ncleo baiano bastaria para nos deparamos com alguns dos personagens-chaves da cpula dirigente do PCB nas dcadas de 1940 e seguintes: Carlos Marighela (1911-1969), Rui Fac (1913-1963), Digenes Arruda Cmara (1914-1979), Milton Cares de Brito (1915-1985), Fernando SantAnna (1915), Armnio Guedes (1918), Mrio Alves (1923-1970), e, ainda, Giocondo Dias (1913-1987) e Jacob Gorender (1923). Parte do grupo criou, em 1938, a revista Seiva, que se tornou uma das principais, seno a nica revista do Partido, no contexto imediato instaurao do Estado Novo. Nela contriburam com ensaios polticos, contos e poesias muitos dos membros da Academia dos Rebeldes: dison Carneiro, Walter da Silveira, Sosgenes Costa, Aydano do Couto Ferraz, Jorge Amado e Dias da Costa. Cf. Marly de Almeida Gomes Vianna, O PCB: 1929-43 in Daniel Araro Reis e Jorge Ferreira, A formao das tradies (1889-1945), Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 2007, p.355. Ver, tambm, neste sentido, o trabalho de Ana Paula Palamartchuk, Os novos brbaros: escritores e comunismo no Brasil (1928-1948), (Tese de Doutorado), Campinas, Unicamp-IFCH, 2003. Para biografias sumrias de alguns destes comunistas, ver Alzira Abreu [et.al]. Dicionrio histrico-biogrfico ps-30. Rio de Janeiro, CPDOC/FGV, 2001.

  • 139

    Dias da Costa, Joo Cordeiro, Luiz de Pinho Pedreira, Fernando Jatob, Armnio Guedes,

    Arruda Cmara e outros 251.

    Embora no tenha tomado partido em prol do comunismo, quase certo que o

    professor Souza Carneiro, alm de no se opor, devia ainda emprestar seu entusiasmo e

    oferecer toda sorte de incentivos s atividades polticas conspiratrias e clandestinas do

    filho. Afinal, o prprio Souza Carneiro vinha se mostrando um dos mais ardorosos

    opositores ao novo interventor, usando como podia de sua condio de docente de todas as

    atuais sries da Escola Politcnica para incitar os alunos em tomar parte do nacionalismo

    revolucionrio e da campanha pr-constituinte 252. De modo que a busca de dison por

    novas referncias de conduta ideolgica no deixava de ser um esforo de sua parte em

    reagir a uma situao de crise poltica que era vivenciada, igualmente, como uma crise

    familiar, intelectual e pessoal. A oposio intransigente da famlia ao novo regime; a perda

    do emprego na Politcnica e o debilitamento da sade do pai, de cuja presena seria

    privado; a priso e o afastamento forado do irmo mais velho; a deteriorao social e

    financeira no mbito domstico; as incertezas que pesavam sobre seu futuro profissional e

    sobre suas veleidades como escritor de subrbio, todos esses elementos pareciam ir se

    acumulando e dando molde s convices cada vez mais acentuadas de dison quanto

    falncia do modelo republicano, ineficcia de seu sistema representativo e decadncia

    de toda a ideologia que lhes dava sustentao. A comear pelos valores apodrecidos do

    individualismo e liberalismo burgueses, cujas razes mais remotas [se encontram em]

    Rousseau e nos filsofos e idealistas da Revoluo Francesa, derivando na egolatria e no

    egocentrismo modernos [que] fizeram tudo: ou seja, eles eram os responsveis diretos

    [pela] desgraa em que se encontrava o Brasil e o mundo. E na viso de dison Carneiro,

    251 Joo Falco, O Partido Comunista que eu conheci, op.cit., pp.24-25. Talvez, por frequentarem o Bar-Bahia, o grupo tenha ficado conhecido entre os comunistas locais, segundo Falco, como o grupo da Bahia. Idem, p.46. Grupo que praticamente reunia os rebeldes e alguns outros personagens que, no aleatoriamente, em 1937, envolveram na realizao do II Congresso Afro-Brasileiro de Salvador, organizado por dison Carneiro e Aydano do Couto Ferraz. 252 Sem autor, Em vez de nacionalismo, civilismo. Dirio da Bahia, 29 de agosto de 1931, p.2. Ainda, o texto trazia as informaes de que tcnicos, industriais e representantes das classes trabalhistas do sul do pas, escolhendo o Dr. Souza Carneiro como MESTRE DO NACIONALISMO, lhe pediram [que] redigisse PROLETRIOS VITRIA, livro retumbante que [...] j se acha em impresso da capital de repblica. Idem, Ibidem (nfases no original). Foi em meio a esta campanha de Souza Carneiro, na Politcnica, que ele escreveu o livro Comunismo, nacionalismo e idealismo, recomendado nos noticirios da poca como uma leitura que se destinava a todos os espritos verdadeiramente empenhados na luta pela regenerao nacional. Cf. Jos Alves Ribeiro, Comunismo, nacionalismo, e idealismo, Dirio da Bahia, 8 de maro de 1932.

  • 140

    esse tudo que [era] preciso destruir, na medida em que no haveria mais condies

    histricas para a existncia do homem autodidata, do homem livre, pensando e agindo

    por si mesmo, insensvel aos interesses mais amplos das massas e da Nao 253.

    Deste modo, a converso ideolgica de dison esteve to sensivelmente atrelada

    ebulio poltica assim como desintegrao de seu ambiente familiar que, decerto, no

    surpreende que a sala da casa do professor Souza Carneiro tenha servido de palco, mais

    uma vez, para as bagunas e agitaes polticas e intelectuais do filho e seus amigos. Seria

    seno na enorme e desorganizada casa Brasil 254, a reunio que resultou na criao da

    clula comunista do curso jurdico de Salvador, sob a coordenao do camarada

    Stanislaw: a primeira reunio da clula comunista da Faculdade de Direito, que marcou a

    sua criao, foi na casa de dison Carneiro, no Barris. Era uma casa imensa, uma casa

    muito engraada, havia galinhas passando pela sala. E quem foi o instrutor do Partido que

    foi organizar a reunio? Foi o camarada Stanislaw. E quem era o camarada Stanislaw? Era

    Carlos Marighella 255.

    Contudo, se na esfera domstica quase tudo parecia conduzir dison Carneiro,

    naturalmente, radicalizao de suas posies ideolgicas, no mbito escolar, na

    Faculdade de Direito, onde estudava desde 1930, seus estmulos ao enfrentamento e s

    distenses polticas no foram menores, tendo em vista a forte penetrao do integralismo

    entre os estudantes do curso jurdico e demais instituies de ensino de Salvador 256. E

    ainda que se desconheam pormenores de sua experincia universitria, quase impossvel

    253 dison Carneiro, Problemas da Burguesia, O Momento, Salvador, n9, junho de 1932 (nfases no original). Trata-se de um dos primeiros textos em que Carneiro afirma com mais propriedade a profisso de f na revoluo do proletariado como meio de salvao poltica do Brasil: no adianta o apostolado em favor de uma classe moral, intelectual e fisicamente podre. No adianta, nem vale a pena [...] Ela [a burguesia] ter de cair como deve miseravelmente. No se pense que eu queria crer, com todos os tolos, que a ditadura do proletariado seja o ideal. Acredito, porm, que seja o melhor. Idem, ibidem. 254 Diria Jorge Amado: um de ns [da Academia dos Rebeldes] apelidara a casa [de Souza Carneiro] de Brasil, por ser enorme e bagunada. Cf. O professor Souza Carneiro, op.cit. 255 Armnio Guedes apud Antnio Risrio, Adorvel Comunista, op.cit., p.152. Talvez, o prprio Marighella fosse ou tenha sido aluno do professor Souza Carneiro, uma vez que se matriculou na Escola Politcnica em 1929. Cf. Alzira Abreu [et. al.]. Dicionrio histrico-biogrfico ps-30, op.cit. 256 O ncleo provincial da Ao Integralista da Bahia seria criado em junho de 1933, sendo que, em agosto daquele mesmo ano, Plnio Salgado faria uma visita Faculdade de Direito de Salvador, causando forte impresso entre os alunos. Sobre integralismo na Bahia, ver Las Monica Reis Ferreira, Integralismo na Bahia: gnero, educao e assistncia social em O Imparcial (1933-1937), Salvador, Ed. UFBA, 2009. Segundo, a autora, durante os cinco anos que atuou no estado a AIB fundou ncleos em vrias instituies de ensino como: Carneiro Ribeiro, Salesiano, Ginsio da Bahia e Ginsio Ypiranga, este ltimo considerado um reduto da juventude integralista. Nas instituies de ensino superior, existiam ncleos integralistas nas Faculdades de Medicina e de Direito. Idem, p.24.

  • 141

    imaginar que dison no tenha se dedicado com afinco s fortes disputas que existiam pelo

    controle ideolgico dos espaos, jornais e rgos de representaes acadmica da faculdade 257, os quais, em enorme medida, passariam a funcionar como prerrogativas para que ele

    fosse gradualmente se despojando das antigas e apenas parcialmente bem-sucedidas

    veleidades literrias para abraar uma produo intelectual cada vez mais ajustada, de um

    lado, s urgncias de suas tarefas polticas e, de outro, s percepes de um mundo social e

    cultural cindido pela luta de classes e pelos conflitos entre exploradores e explorados. Mas

    tambm, um mundo onde cada dia mais se [acentuava] a sensao de insegurana, graas

    ascenso do nazismo e do fascismo na Europa e persistncia do julgo imperialista na

    frica (que tanto sangue tem custado) e na sia (onde funcionrios roubam dos templos

    os objetos de culto) 258.

    257 Em 1935, o rebelde Aydano do Couto Ferraz consta como membro da comisso executiva do Centro Acadmico Rui Barbosa, organizando em setembro daquele ano o Congresso Jurdico Universitrio. Cf. Revista da Faculdade de Direito, Salvador, v.10, 1935, p.237. Vale lembrar, que Aydano viria a ser, j no Rio de Janeiro, editor de A voz operria (um dos principais rgos de imprensa do PCB) na dcada de 1950. Em agosto de 1935, dison Carneiro proferiu uma palestra no centro acadmico da universidade, intitulada Resultados intelectuais do sculo XIX. Cf. Idem, 234. Embora no tenha conhecimento do contedo integral dessa palestra, parte dela foi publicada logo no ms seguinte, no Rio de Janeiro, na forma de um artigo no qual Carneiro discutia as contribuies da dialtica materialista de Marx com relao filosofia idealista de Hegel e Feuerbach. Cf. Hegel, Feuerbach, Marx, Boletim de Ariel, Rio de Janeiro, setembro de 1935. Tambm eram a partir das agremiaes e rgos de representao universitrios que se organizavam mutires de assistncia s populaes mais pobres da capital e do serto, bem como caravanas polticas, tal como a realizada por estudantes baianos e cariocas, em 1937, para acompanhar a passagem do ento candidato presidncia Jos Amrico de Almeida pelo interior da Bahia. Cf. Joo Falco, O Partido Comunista que eu conheci, op.cit., p.25. 258 dison Carneiro, Adeus s armas, A.U.B, Salvador, 26 de maio de 1934. Por esta poca de sua converso ideolgica, dison Carneiro tambm demonstrou particular interesse pela discusso, ento pulsante na dcada de 1930, sobre as possibilidades e as funes de uma arte proletria e revolucionria. Essencialmente poltica, utilitria e protagonizada por personagens que expressassem coletividades, a arte proletria era discutida nos termos de uma espcie de contraponto aos elementos considerados pelos comunistas como tpicos da literatura burguesa, a exemplo do individualismo, o psicologismo e a frmula mais geral da arte pela arte. No caso dos romances modernos, dison Carneiro os compreendia a partir de uma diviso entre objetivos e subjetivos: ou ento, respectivamente, romance de sentido proletrio e romance autobiogrfico [...] O romance burgus, autobiogrfico, no pode abandonar o personagem em torno do qual gira toda a ao, refletindo a concepo estreita, individualista, da burguesia agonizante. O romance revolucionrio tem ensaiado com xito a viso geral da classe trabalhadora, no j representada por um nico personagem, mas por vrios ao mesmo tempo, sem que nenhum, entretanto, ocupe maior lugar do que os outros. Cf. Fronteiras, Boletim de Ariel, fevereiro de 1935. Em vrios outros artigos dison Carneiro retomaria questes de natureza semelhante. Alguns deles: Deus lhe pague, Boletim de Ariel, janeiro de 1934; Caets, Boletim de Ariel, junho de 1934; Aderbal Jurema e Odorico Tavares, Literatura, Rio de Janeiro, 20 de junho de 1934; Escritores da Bahia, Dirio da Tarde, Recife, 8 de agosto de 1934; Extra-real, Rumos, julho-agosto de 1934; Os libertos, Boletim de Ariel, setembro de 1934; O Alambique: romance do recncavo baiano, A Bahia, 3 de dezembro de 1934; e Sancho Pana, Dirio de Pernambuco, Recife, 2 de dezembro de 1934. Ainda, para uma discusso sobre o romance proletrio na dcada de 1930 e, em particular, na obra de Jorge Amado da dcada de 1930, ver Luiz Gustavo Freitas Rossi, As cores da revoluo, op.cit., e Alfredo Wagner Berno de Almeida, Jorge Amado: literatura e poltica, op.cit.

  • 142

    Pelo menos desde 1933, portanto, comea a ser quase impossvel dissociar as

    atividades intelectuais de dison Carneiro dos encargos polticos e simblicos que ele

    comeou a assumir como quadro de clula comunista e, mais tarde, membro do ncleo da

    Aliana Nacional Libertadora (ANL). Entre alguns destes encargos estavam aqueles de

    representao e liderana da juventude estudantil baiana, cujos esforos em muito se

    voltavam para a organizao de reunies e eventos com finalidades de propaganda e

    doutrinamento ideolgicos junto aos grupos de potenciais interesses ao raio de ao do

    Partido: notadamente, nos bairros, sindicatos e associaes proletrias ou populares,

    onde disputavam espao com a Ao Integralista e a igreja catlica que ali tambm se

    faziam presentes atravs de empreendimentos educacionais e assistenciais 259. Deste modo,

    talvez no fosse exagerado dizer que muitas das lgicas de sentido que orientavam as aes

    de dison Carneiro em Salvador, naquele momento, revelavam as pretenses de um

    militante buscando se projetar como uma jovem liderana na vida intelectual e poltica

    baiana, ao mesmo tempo em que comeava a se firmar como um escritor e jornalista

    combativo na imprensa local e mesmo nacional 260. Uma liderana que, a despeito da pouca

    idade, no mais do que 25 anos, dison parecia exercer com bastante eficcia entre os

    militantes mais moos, em parte graas ao reconhecimento da abrangncia e segurana de

    seus conhecimentos que, segundo Armnio Guedes, o alavam condio de intelectual

    mximo do grupo 261. E, talvez, como sugere o depoimento de outro comunista baiano,

    259 Cf. Las Monica Reis Ferreira, Integralismo na Bahia, op.cit., p.121. Em maio de 1935, dison Carneiro e Aydano do Couto Ferraz organizaram, na Associao dos Empregados do Comrcio, o 1 Congresso da Juventude Proletria, Estudantil e Popular da Bahia. Nesta ocasio, dison seria escolhido como representante da juventude estudantil para compor a delegao que, junto com os outros dois representantes da juventude proletria e popular, seria enviada para o Rio de Janeiro, no 1 Congresso da Juventude Brasileira (evento que no chegou a acontecer). Interessante notar que uma das medidas votadas no congresso era a criao de um clube de cultura popular a ser instalado na sede do sindicato da Tramway (companhia de bondes da cidade de Salvador). Cf. Jacira Cristina Santos Primo, Tempos vermelhos: a Aliana Nacional Libertadora e a poltica brasileira (1934-1937), (Dissertao de Mestrado), Salvador-UFBA, 2006, pp.70-71. 260 A partir de 1933, talvez com auxlio de Jorge Amado e mesmo do pai ou do irmo Nelson, que se encontravam no Rio de Janeiro, alm das redes de relaes propiciadas pelo Partido Comunista, dison Carneiro ampliou significativamente o escopo de sua atuao, passando a colaborar em importantes peridicos culturais e literrios da capital federal e de outros estados; a exemplo de Boletim de Ariel, Literatura, Revista Acadmica, Rumos etc. Em sua maioria, notas ou resenhas crticas de acentuado carter ideolgico voltadas produo ensastica e literria que estava surgindo naquele momento. 261 Armnio Guedes apud Antnio Risrio, Adorvel Comunista, op.cit., p.153. Diz Aydano do Couto Ferraz que, em decorrncia do profundo respeito que a inteligncia e as competncias intelectuais despertavam entre os estudantes da faculdade e demais companheiros de boemia, dison Carneiro ganhou o apelido de mestre antigo: essa poca havia lido quase tudo e, por isso, sabia de muita coisa, sendo capaz de atender tarde, em sua mesa do Bahia-Bar, as variadas consultas dos mais jovens contemporneos da faculdade, diante dele

  • 143

    Fernando SantAnna, se valendo desta proeminncia junto militncia, dison pode ter

    sido o responsvel por apresentar a alguns destes jovens comunistas uma realidade que

    muitos deles no deviam conhecer ou sequer considerar relevante, ainda que ela fosse

    central ao universo de smbolos e representaes que revestiam a existncia das classes

    pobres e negras de Salvador: os candombls, a religiosidade e a cultura afro-brasileira.

    Em Irar, no havia candombl. Quer dizer, existia, mas muito distante da cidade [...] Mas

    eu no o frequentava. Aqui na cidade da Bahia foi que comecei a frequentar, junto com

    dison Carneiro e Estcio de Lima, que eram homens que estudavam o assunto. E passei a

    ver o candombl como uma religio, a crer que aquelas pessoas acreditavam naquilo que

    estavam fazendo. Mas ia mais por curiosidade, para saber como as coisas se passavam,

    como eram os rituais, as reas dos candombls [...] De qualquer modo, frequentava esses

    lugares como Fernando, no apenas como comunista 262.

    A passagem acima me parece extramente significativa, pois ela condensa uma srie

    de elementos que lanam luz inscrio de dison Carneiro na vida intelectual baiana e,

    por consequncia, s condies de sua insero no campo dos estudos afro-brasileiros da

    dcada de 1930. Isto porque, antes de qualquer coisa, o depoimento de Fernando SantAnna

    registra o quanto as prticas de dison como comunista e intelectual interessado nos

    destinos da cultura negra eram sensivelmente articuladas. Dito de uma melhor maneira: na

    medida em que passava a justificar as tomadas de posio intelectuais e polticas como

    efeitos de sua vinculao aos interesses dos explorados e do proletariado, dison ajustou

    tambm seu olhar ao problema das raas oprimidas na Bahia e no Brasil: o qual, sob o

    disfarce da luta das culturas desiguais, se afirmava, antes de qualquer coisa, como a

    expresso das relaes de dominao mais abrangentes que a sociedade de classes impunha

    ao negro, assim como do antagonismo entre os opressores e os oprimidos 263. No entanto,

    o olhar de dison sobre a questo da raa, a despeito de seu pragmatismo poltico, no

    colocados na condio de discpulos. Veio da seu apelido de Mestre Antigo. Cf. dison Carneiro, o Mestre Antigo, A Tarde, Salvador, 12 de agosto de 1980. 262 Fernando SantAnna apud Idem, Ibidem. Segundo Antnio Risrio, foi o prprio dison [que] cooptou Armnio Guedes para o PCB. Cf. Adorvel comunista, op.cit., p.151. De fato, no saberia quantificar nmeros ou nomes de outros comunistas que dison poderia ter apresentando ou acompanhado ao candombl. De qualquer forma, significativo que Jorge Amado tambm tenha atribudo a dison a responsabilidade de lev-lo a travar contato com as casas de santo: Diz ele: Todos ns fomos levados s casas de santo por sua mo de iniciado [de dison]. E complementa: por ter sido o primeiro, marcou com as cores polticas de esquerda o mistrio dos axs. Cf. Navegao de cabotagem, op.cit., p.236 (nfases minhas). 263 dison Carneiro, Santa Simplicidade, A Bahia, Salvador, 18 de outubro de 1934.

  • 144

    resultou insensvel importncia de se resguardar e lutar pelo direito dos grupos afro-

    brasileiros em cultivar e perseverar suas seitas e seu universo mstico e religioso (tema que

    ele, de alguma forma, se sentia prximo desde a adolescncia, graas s prticas esoteristas

    do pai). Decorrendo-se da, como veremos adiante, o empenho de sua parte em

    compatibilizar engajamento ideolgico, marxismo e anlise cultural das crenas de origem

    africana. Mas igualmente, um empenho que se depreendia como tentativa de se apropriar

    simbolicamente de uma categoria social (o negro) que se tornava, a um s tempo, sujeito

    e objeto de disputas no apenas da cincia como tambm da poltica e dos grupos

    ideolgicos atuantes naquela dcada 264.

    Contudo, em uma outra direo, ao registrar as disposies de dison em apresentar

    os candombls a essa militncia um tanto incrdula quanto ao fato de que, nos terreiros, as

    pessoas realmente acreditavam naquilo que faziam, a fala de SantAnna fornece tambm

    um flagrante revelador da posio e atuao de dison Carneiro em Salvador, as quais lhe

    colocaram em condies de pleitear, sob circunstncias favorveis, um lugar como

    estudioso e pesquisador do negro brasileiro. A saber, a posio de uma espcie de

    mediador, exercida em diferentes nveis: de um lado, localmente, entre o povo de santo e as

    elites baianas, se convertendo gradualmente em porta-voz e mandatrio das demandas

    polticas e simblicas dos candombls baianos, que dison encaminhava a um pblico

    abrangente na forma de artigos, notcias e reportagens 265. De outro lado, em sensvel

    264 Talvez, a investida de dison Carneiro no sentido de se apropriar da raa negra como objeto de estudo e reflexo possa ser lida, por exemplo, como um movimento similar quele que, nos anos de 1930, com o intuito de invocar os explorados como partido e buscar aliados virtuais causa, impulsionou os comunistas baianos na direo do cangao, fantasiando a possibilidade de arregimentar Lampio e seu grupo para a luta revolucionria: seguindo orientao estranhamente fantasiosa, alguns membros da Juventude Comunista fizeram uma tentativa de contato com o bando de Lampio, visando atra-lo para o movimento revolucionrio [...] Seguiram para o interior em busca do famoso e temvel bandoleiro. Logo foram detidos em Alagoinhas, a 100 quilmetros de Salvador. Na cadeia local, visitou-os o interventor Juracy Magalhes, que passava pela cidade em viagem ao interior. Juracy ordenou que os recambiassem para Salvador. Poucas semanas depois, foram soltos. Joo Falco apud Antnio Risrio, Adorvel comunista, op.cit., p.102. 265 Embora extrapole os limites da pesquisa, importante chamar a ateno para o fato de que este mandato de dison Carneiro como um defensor dos praticantes dos candombls baianos (que, segundo Ruth Landes, era visto enquanto tal pelos prprios lderes religiosos) no se construiu, decerto, a partir de uma postura passiva ou inerte da parte do povo de santo. Tratava-se, lgico, ao que tudo indica, de uma relao de interesses, presses e benefcios que funcionava numa via de mo dupla: os lderes religiosos usavam dison (se assim posso dizer) para que seus interesses gozassem de maior legitimidade pblica na imprensa na exata medida em que, desta relao de alianas e cumplicidades, eles fossem usados por Carneiro para que ele extrasse dessa relao acesso privilegiado aos cultos e aos terreiros e apoios essenciais para seus empreendimentos intelectuais na Bahia. E, por consequncia, certamente, resultando em melhores condies de se posicionar frente ao tema afro-brasileiro naquela dcada. Tudo isto em um momento, como lembra

  • 145

    conexo com o primeiro, atuando nacionalmente como um atravessador ou facilitador ao

    acesso de intelectuais de diferentes regies do Brasil e do mundo a objetos e dados

    etnogrficos que, naquela poca, comeavam a se tornar paradigmticos para o estudo das

    relaes raciais e da cultura africana no Brasil e no novo mundo, como foi o caso da Bahia 266. Tal situao, em enorme medida, possibilitou a dison Carneiro travar ou estreitar

    contatos com pesquisadores e modelos de trabalho intelectual na rea em questo que, de

    outra forma, talvez no lhe fosse possvel, como por exemplo: Gilberto Freyre, Arthur

    Ramos, Donald Pierson e, especialmente, Ruth Landes, cuja parceria intelectual e amorosa

    parece ter destravado importantes inflexes no modo como Carneiro passou a representar o

    campo de possibilidades e as ambies de sua carreira intelectual.

    Seja como for, de ambas as circunstncias, no sem tenses, distenses e efeitos de

    assimetrias e hierarquias, dison Carneiro nelas encontrou parmetros para nortear seus

    movimentos e aquilatar suas chances de insero no campo de estudos afro-brasileiros,

    extraindo tambm certos lucros simblicos que, muito provavelmente, serviram para

    incrementar prestgio no apenas como comunista e escritor combativo, ao se plasmar

    como um defensor ou uma espcie de intelectual quase orgnico do povo de santo de

    Salvador 267, como tambm para desenvolver seus trabalhos na temtica em questo,

    contando, para tanto, com uma conjuntura intelectual e editorial favorvel ao aparecimento

    de etnografias e ensaios compreensivos sobre as culturas de origem africana no Brasil 268.

    Costa Lima, de forte expanso e de um depreendimento de esforos significativos em termos de organizao poltica e associativa, bem como de capitalizao dos candombls soteropolitanos que cresciam em nmero e afirmavam-se com a apropriao de valores da sociedade inclusiva. Capitalizavam-se. Compravam trreos nos limites do centro urbano. Construam terreiros que se tornariam centros comunitrios [...] Criavam-se sociedades dentro dos terreiros, com diretorias executivas que se encarregavam das relaes efetivas de cada grupo com o sistema de poder do Estado e, sobretudo, estendiam a rede de parentesco ritual para alm das fronteiras tnicas e de classe. Cf. Vivaldo da Costa Lima, O candombls da Bahia na dcada de 1930 in Vivaldo da Costa Lima & Waldir Freitas Oliveira, (org.). Cartas de dison Carneiro a Arthur Ramos, So Paulo, Corrupio, 1987, p.40. Ver, tambm, Stefania Capone, A busca da frica no candombl: tradio e poder no Brasil, Rio de Janeiro, Pallas/Contra Capa, 2004; e Beatriz Gis Dantas, Vov Nag e Papai Branco, Rio de Janeiro, Graal, 1988. 266 Cf. Lvio Sansone, Um campo saturado de tenses: o estudo das relaes raciais e das culturas negras no Brasil, op.cit. 267 Tomo emprestada a expresso quase-orgnico de Ordep Serra, que a utilizou para qualificar a atuao de dison Carneiro junto aos terreiros, citada, por sua vez, em Jeferson Bacelar, O legado da escola baiana in A hierarquia das raas, op.cit., p.130. Sobre a atuao dos intelectuais junto aos candombls, ver Beatriz Gis Dantas, Vov Nag e Papai Branco, op.cit. 268 Cf. Mariza Corra, Antroplogas & antropologia, Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2003. Lembra a autora, sem pretenso de esgotar os trabalhos sobre o negro que sairiam naquela dcada: Os africanos no Brasil (1932), Os alienado no direito civil brasileiro (1933), O animismo fetichista dos negros baianos (1935) e

  • 146

    * * *

    Estas consideraes sobre a posio, a converso e a militncia comunista de

    Carneiro so importantes, pois lanam luz a um aspecto sistematicamente desconsiderado

    na produo de dison Carneiro e no campo dos estudos afro-brasileiros da dcada de

    1930: a militncia poltica. E, por consequncia, uma produo que buscou incorporar o

    marxismo como chave de anlise das religies e das culturas afro-brasileiras. Trata-se de

    um elemento central de sua prtica intelectual, sem o qual se obscurecem muitos dos

    dilemas e conflitos que marcaram a atuao e as relaes de dison Carneiro junto aos

    estudiosos do problema negro do perodo, a exemplo de Gilberto Freyre e Arthur Ramos.

    Mas tambm, pode-se dizer que, ao formatar a questo racial num registro marcadamente

    ideolgico, o trabalho de dison Carneiro auxilia a empreender um olhar mais nuanado e

    politizado sobre a dcada dos chamados estudos culturalistas.

    Como se espera mostrar mais adiante, sua atuao condensa uma srie de pistas

    capazes de desvelar um cenrio mais matizado das disputas internas nesse campo de

    estudos. Sob o manto homogneo do culturalismo (como se convencionou evocar esta

    dcada dos estudos afro-brasileiros) parece se esconder uma srie de clivagens,

    elucidativas das distintas estratgias de intervenes cientficas e polticas de que o negro

    foi objeto. Estratgias que, embora convergentes nos esforos de deslocar os determinismos

    biolgicos associados raa, buscaram enquadrar as populaes negras em anlises e

    diagnsticos expressivos dos vnculos partidrios, doutrinrios ou institucionais destes

    pesquisadores e ensastas da raa 269.

    Coletividades anormais (1938), de Nina Rodrigues; Casa-grande e senzala (1934) e Sobrados & mocambos (1936), de Gilberto Freyre; O negro brasileiro (1934), O folclore negro do Brasil (1935) e As culturas negras no novo mundo (1937), de Arthur Ramos; As religies negras (1936) e Negros bantos (1937), de dison Carneiro; mais ainda os volumes que organizaram os trabalhos apresentados nos dois congressos afro-brasileiros realizados, em 1934, em Recife, e, em 1937, em Salvador: Estudos afro-brasileiros, organizado por Gilberto Freyre, do primeiro congresso, lanado em dois livros em 1935 e 1937, e O Negro no Brasil (1940), organizado por dison Carneiro e Aydano do Couto Ferraz, relativo aos trabalhos do segundo congresso. Idem, p.239. 269 Ou ento, parece igualmente recorrente a apreenso da dcada de 1930 na chave de um momento de substituio da raa pela cultura. Algo que, apenas parcialmente aconteceu: a religiosidade brasileira deixou de ser entendida como manifestao da inferioridade dos negros, e por meio dela se criticou o prprio conceito de raa substituindo-o pelo de cultura. Cf. Vagner Gonalves da Silva, Religies afro-brasileiras: construo e legitimidade de um campo do saber acadmico (1900-1960), Revista USP, n55,

  • 147

    No entanto, antes de chegar dcada de 1930, cabe recuperar rapidamente os pontos

    mais substantivos do pensamento de um autor, cujo esplio simblico foi um dos grandes

    mveis de disputa entre os estudiosos da questo racial: Raimundo Nina Rodrigues (1862-

    1906). Isto porque, o comunismo e a leitura materialista de dison Carneiro sobre a

    situao do negro no Brasil, invocada especialmente a partir do evolucionismo de Lewis

    Henry Morgan (1818-1881), informaram formas particulares de como o autor se apropriou

    deste espolio no sentido de justificar sua atuao intelectual e poltica. Certamente, no se

    trata de reivindicar um lugar de pertencimento de Carneiro escola Nina Rodrigues,

    liderada notadamente por Arthur Ramos naquela dcada. Mas sim, mostrar como o

    marxismo de dison resultou em leituras e nfases sobre a obra de Nina Rodrigues,

    justamente para tentar construir uma posio prpria em face desta escola e do campo de

    estudos que ela representava.

    As Lies do Mestre: Nina Rodrigues

    Alguns dos aspectos mais significativos que pontuaram e deram sentido reflexo

    de Nina Rodrigues sobre o problema negro do Brasil devem ser buscados no contexto de

    transio entre a Monarquia e a Repblica, no final do sculo XIX. Isto, sem esquecer,

    setembro/novembro 2002, p.89. Sobre os estudos afro-brasileiros dos anos 1930 e o culturalismo reinante naquela dcada, h farta bibliografia na qual foram abordados ou repertoriados obras, autores e projetos intelectuais, com maior ou menor nfase nas relaes desses estudos com o campo poltico da poca. Menciono a bibliografia sem qualquer pretenso de ser exaustivo: Maria Jos Campos, Arthur Ramos: luz e sombra na antropologia brasileira, Rio de Janeiro, Edies Biblioteca Nacional, 2004; Hermano Vianna, O mistrio do samba, Rio de Janeiro, Ed. UFRJ, 1995; Vagner Gonalves da Silva, Os orixs na metrpole, Rio de Janeiro, Vozes, 1995; Thomas Skidmore, Preto no branco: raa e nacionalidade no pensamento social brasileiro, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976; Waldir Freitas Oliveira, As pesquisas na Bahia sobre os afro-brasileiros, Estudos avanados, So Paulo, v.18, n50, jan/abr 2004; Antnio Sergio Guimares, Comentrios correspondncia entre Melville Herskovits e Arthur Ramos in Fernanda Peixoto; Heloisa Pontes; Lilia Schwarcz, Antropologias, Histrias, Experincias. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2004; Jeferson Bacelar, A hierarquia das raas, op.cit.; Mariza Corra. As Iluses da Liberdade. Bragana Paulista, Univ. So Francisco, 2001, e, da mesma autora, Os traficantes do excntrico: os antroplogos no Brasil dos anos 30 aos anos 60, Revista Brasileira de Cincias Sociais, n6, fevereiro de 1988; Ricardo Benzaquen de Arajo, Guerra e Paz: Casa-Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30, Rio de Janeiro, Ed.34, 1994; Olvia Gomes da Cunha, Sua alma em sua palma: identificando a raa e inventando a nao in Dulce Pandolfi (org.), Repensando o Estado Novo, Rio de Janeiro, Ed. FGV, 1999; Lourdes Martinez-Echazbal, O culturalismo dos anos 30 no Brasil e na Amrica Latina: deslocamento retrico ou mudana conceitual? in Marcos Chor Maio & Ricardo Ventura Santos (org.), Raa, Cincia e Sociedade, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996; Renato Ortiz, Cultura Brasileira & Identidade Nacional, So Paulo, Editora Brasiliense, 1994; Roberto Ventura, Casa-Grande & Senzala, So Paulo, Publifolha, 2000; Josildete Gomes Consorte, Culturalismo e educao nos anos 50: o desafio da diversidade, Cadernos CEDES, v.18, n43, dez 1997.

  • 148

    neste nterim, a abolio da escravatura em 1888 que impunha novos dilemas s nossas

    elites polticas e intelectuais. Afinal, como incorporar os ex-escravos sociedade brasileira,

    no mais como mquina de trabalho, mas como cidados? Como recriar um sistema de

    categorias explicativas que, j permeadas pela retrica liberal e republicana, dessem conta

    de certos preceitos de igualdade no plano individual e, ao mesmo tempo, justificassem

    teoricamente as evidentes desigualdades entre os homens?

    Pode-se dizer que neste momento de mudanas profundas, com a abolio da

    escravatura e a instaurao da Repblica, que aparece intelectualidade brasileira o

    problema da raa negra, central aos olhos da cincia mdica e antropolgica da poca:

    O momento em que o negro se tornou livre no Brasil coincidiu no s com a emergncia

    de uma elite profissional que j incorporava os princpios liberais sua retrica, como

    tambm com o surgimento de um discurso cientfico, etnolgico, que tentava instituir para

    ele uma nova forma de inferioridade [...] Os intelectuais daquele momento tratavam de

    transformar escravos em negros, isto , de constitu-los enquanto categorias de anlise 270.

    Do escravo, jurdica e concretamente inferior, passava-se a encarar o negro-africano

    liberto como um estrangeiro em sua prpria terra, passvel de uma igualdade formal, mas

    certamente desigual do ponto de vista de sua existncia enquanto grupo racial.

    Aparentemente paradoxais, o liberalismo e o racismo cientfico se viabilizaram como

    discursos bastante prximos na explicao da sociedade brasileira. Como lembra Lilia

    Schwarcz, ambos foram os modelos privilegiados para se pensar uma nova organizao

    para o Brasil, uma nova representao da nao republicana, onde se deixava de existir

    escravos e sditos para dar lugar a cidados ricos, pobres, brancos, negros e mestios. E,

    neste sentido, para alm dos problemas mais prementes relativos substituio da mo de

    obra [escrava] ou mesmo conservao de uma hierarquia social bastante rgida, parecia

    ser preciso estabelecer critrios diferenciados de cidadania 271. Ou seja, definir, sob a

    270 Mariza Corra. As Iluses da Liberdade, op.cit., pp.49-50. 271 O Espetculo das Raas. So Paulo, Cia das Letras, 1993, p.18. Sobre os paradoxos do liberalismo e racismo, ainda diz Schwarcz: Paradoxo interessante, liberalismo e racismo corporificaram, nesse momento, dois grandes modelos explicativos de sucesso total e equivalente e no entanto contraditrio: o primeiro fundava-se no indivduo e em sua responsabilidade pessoal; o segundo retirava a ateno colocada no sujeito para centr-la na atuao do grupo entendido enquanto resultado de uma estrutura biolgica singular. Idem, p.14. Ver, tambm, sobre os dilemas do liberalismo no Brasil frente s gritantes desigualdades da sociedade brasileira no sculo XIX, Jos Murilo de Carvalho, A Formao das Almas: o imaginrio da repblica no Brasil, So Paulo, Cia das Letras, 1990; em especial o primeiro captulo sobre as Utopias Republicanas.

  • 149

    chancela rigorosa da cincia, os critrios de incluso e excluso de quem seriam os

    grupos social e culturalmente preparados para exerc-la e influenciar nos destinos da

    repblica nascente.

    Aqui, interessa especialmente recuperar as respostas que os trabalhos de Nina

    Rodrigues deram aos dilemas deste perodo, buscando evidenciar os pontos substantivos de

    seus argumentos sobre os africanos no Brasil. Isto porque, j adiantando uma hiptese

    que ser elaborada mais a frente, o marxismo de dison Carneiro parece,

    surpreendentemente, conduzi-lo a posies mais prximas das ideias do mestre Nina

    Rodrigues do que de seu auto-consagrado discpulo Arthur Ramos. Entretanto, para que

    essa proximidade ganhe sentido, e melhor nitidez, importante no perder de vista as

    pesquisas do prprio mestre. Implicado nesta hiptese est a tentativa de mostrar que

    dison Carneiro realizou uma apropriao criativa e original de Nina Rodrigues, forjando

    abordagens que no constituram mero desdobramento daquelas produzidas por Arthur

    Ramos sobre a cultura afro-brasileira.

    Diferente de muitos pensadores do sculo XIX que acreditavam no

    embranquecimento do Brasil ou mesmo na possibilidade de que os negros seriam

    integrados ou civilizados de maneira lenta e gradual ao contingente branco da populao,

    Nina Rodrigues entendia que qualquer tentativa de impor uma cultura civilizada e estranha

    ao substrato orgnico e cultural dos negros resultaria em fracasso. Para o mdico

    maranhense, a aposta assimilacionista dos ex-escravos era uma postura ingnua e calcada

    em percepes de fundo emocional que no resistiam anlise objetiva dos fatos: os

    destinos de um povo no podem estar merc das simpatias ou dos dios de uma gerao

    [...] Para a cincia no [a] inferioridade mais do que um fenmeno de ordem

    perfeitamente natural, produto da marcha desigual do desenvolvimento filogentico da

    humanidade nas suas diversas divises 272.

    Ao abordar a aclimatao das distintas culturas negras no pas, Nina Rodrigues,

    como mostra Mariza Corra, se interessou especialmente pelo problema da capacidade civil

    e da responsabilidade penal do brasileiro, indo at os seus alicerces mesmos, isso ,

    272 Raimundo Nina Rodrigues, Os Africanos no Brasil. So Paulo, Cia Editora Nacional, 1932, p.14.

  • 150

    investiga[ndo] as consequncias da interao racial 273. Parecia-lhe que a loucura e os

    desajustamentos psquicos forneciam casos paradigmticos para se pensar os efeitos da

    mistura racial nas disposies psicolgicas do povo brasileiro. Afinal, como julgar

    criminalmente um louco se ele no responde aos princpios lgicos normais do grupo

    social e racial ao qual ele pertence? Como dar conta juridicamente de um crime, caso no

    pudssemos afirmar com segurana a sanidade do indivduo?

    justamente a partir de seu interesse pelos estados patolgicos da mente que Nina

    Rodrigues, cada vez mais, estreitaria suas pesquisas com as populaes negras baianas, j

    que os loucos e os primitivos, em tese, apresentariam um quadro de profunda similaridade

    psicolgica. No entanto, ainda segundo Corra, a loucura do branco civilizado e do negro

    primitivo deveria ser pensada dentro de certas especificidades morais e culturais,

    associadas aos diferentes estgios evolutivos em que cada um deles se encontrava:

    No era problema a comparao entre os costumes de povos em diferentes estgios de

    civilizao desde que se procurasse entender esses costumes dentro de seu contexto

    especfico, entendimento que levaria, invariavelmente, demonstrao da superioridade dos

    povos brancos. O que lhe parecia problemtico, e o que ele [Nina Rodrigues] criticava [...]

    era o deslocamento da anlise de alguns desses costumes, superados pela civilizao, para

    a caracterizao de todo um grupo primitivo como anmalo 274.

    Ou seja, embora todo louco fosse um primitivo em potencial, o primitivo no era

    um louco. As atitudes e os comportamentos dos negros, ainda que socialmente reprovveis

    ou brbaros do ponto de vista das raas superiores, como era o caso dos candombls, no

    deveriam ser repreendidos pela opinio pblica e pelos rgos do Estado. A violncia

    dispensada pela sociedade baiana e, em geral, brasileira, aos cultos africanos, segundo Nina

    Rodrigues, apenas revelaria a desorientao no modo de tratar o assunto, bem como a

    supina ignorncia do fenmeno sociolgico [...], pois o culto estaria destinado a persistir,

    por longo prazo ainda, propaganda da imprensa e violncia da polcia 275. Para o autor,

    os negros no demonstravam uma incapacidade orgnica cultura ou civilizao. Eram

    sim aptos a uma civilizao futura, ainda que extremamente morosa com relao aos

    brancos. Qualquer tentativa de impor uma cultura superior aos negros e seus descendentes

    273 Mariza Corra, As Iluses da Liberdade, op.cit., p.112. 274 Idem, p.123. 275 Raimundo Nina Rodrigues. Os Africanos no Brasil. Op.cit., p.363.

  • 151

    resultaria em fracasso, na medida em que no estavam biolgica e culturalmente,

    preparados para compreend-la. E, portanto, ele foi radicalmente contrrio existncia de

    um cdigo penal universal, que julgassem negros e brancos de uma mesma maneira.

    licito pensar numa persistncia do estado da evoluo jurdica, em que no h

    responsabilidades individuais nos crimes praticados contra os representantes das gentes ou

    tribos distintas [...] Os atos s so sentidos como criminosos [...] quando praticados contra

    os membros da mesma comunidade [...] Ora, era esta a fase da evoluo jurdica em que se

    achava o grande nmero dos povos negros, quando deles foram retirados os escravos

    vendidos para a Amrica 276.

    Atrasado e inferior, porm no anmalo ou destitudo de cultura, eis como deveria

    ser tratado o negro. De fato, o problema no estava na persistncia de suas instituies e

    mentalidades africanas no interior da sociedade nacional. Aos olhos de Nina Rodrigues, o

    perigo estava na possibilidade do negro, inferior, vir a transformar o branco. A mestiagem,

    tanto no plano biolgico ou cultural, ao invs de embranquecer, resultaria no enegrecimento

    da populao: pode-se dizer que na Bahia todas as classes, mesmo a dita superior, esto

    aptas a se tornarem negras. O nmero dos brancos, mulatos e indivduos de todas as cores

    e matizes que vo consultar os negros feiticeiros nas suas aflies [...] seria incalculvel se

    no fosse mais simples dizer de um modo geral que a populao em massa, a exceo de

    uma pequena minoria de espritos superiores e esclarecidos 277. Nesta chave de leitura,

    Nina Rodrigues entende que a mistura entre povos de diferentes graus evolutivos colocaria

    em xeque a sade mental da sociedade brasileira como um todo.

    Aqui, importante chamar a ateno para forma como Nina Rodrigues defende,

    ainda que pelo caminho enviesado do racismo, um respeito antropolgico s prticas

    276 Idem, p.409. Os mesmos limites e persistncias evolutivas estariam implicados na possibilidade dos mestios em compreender ideias e novas formas de governo que no aquelas que sua capacidade mental estava em condies de aceitar: o que, segundo Nina Rodrigues, explicaria o monarquismo de Antnio Conselheiro e de seus sertanejos na revolta contra a Repblica: a populao sertaneja e ser monarquista por muito tempo, porque no estado inferior de evoluo social em que se acha, falece-lhe a precisa capacidade mental para compreender e aceitar a substituio do representante concreto do poder pela abstrao que ele encarna pela lei. Ela carece instintivamente de um rei, de um chefe, de um homem que a dirija [...] e por muito tempo ainda o presidente da Repblica, os presidentes dos Estados, dos chefes locais sero o seu rei [...] Sero monarquistas como sero fetichistas, menos por ignorncia, do que por um desenvolvimento intelectual, tico e religioso, insuficiente ou incompleto. Cf. As coletividades anormais, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1939, pp.69-70. 277 Idem, O Animismo Fetichista dos Negros da Bahia (edio fac-similar dos artigos publicados na Revista Brasileira em 1896 e 1897). Rio de Janeiro, Fundao Biblioteca Nacional, 2006, p.116 (nfases no original).

  • 152

    culturais negras, na medida em que constituem enclaves africanos no interior do territrio

    nacional, pois acredito que ser neste ponto que dison Carneiro melhor aproveitar as

    ideias do mestre para modular seu olhar sobre a situao do negro no pas. Em particular,

    ao tentar estabelecer uma ponte entre anlise cultural e materialismo histrico, Carneiro

    mantm uma forte tendncia a tratar a evoluo das raas como linhas paralelas e desiguais

    no tempo, tal como fizera Nina Rodrigues. Contudo, se para o mdico maranhense esta

    evoluo estava determinada por razes de ordem racial, para o jornalista baiano o ponto

    chave residia na desigualdade de desenvolvimento econmico, condicionada pelas

    possibilidades tcnicas da raa no momento histrico 278 em que ela se encontrava. Mas

    tambm, interessante observar que dison Carneiro tentar explorar justamente os flancos

    da obra de Nina Rodrigues que parecem ter passado ao largo das disputas travadas pelos

    dois principais rivais na liderana dos estudos afro-brasileiros, na dcada de 1930:

    Gilberto Freyre e Arthur Ramos, ambos reivindicando o esplio de Nina Rodrigues. Em

    particular, Carneiro buscou redefinir os argumentos de Nina Rodrigues em favor da

    liberdade religiosa luz de sua atuao como intelectual comunista. O que para Nina

    depunha contra a suposta civilidade das elites governantes, para Carneiro ser a

    expresso candente de uma opresso de classe sofrida pelos negros na sociedade burguesa e

    capitalista: a violncia social e policial contra os candombls. Como possvel perceber na

    citao a seguir de Os africanos no Brasil que, embora um tanto longa, se mostra altamente

    expressiva do entendimento de Nina Rodrigues sobre a represso s manifestaes culturais

    negro-africanas:

    Em que direito se baseia, pois, a constante interveno da polcia na abusiva violao dos

    templos ou terreiros africanos, na destruio dos seus dolos e imagens, na priso, sem

    formalidades legais, dos pais de terreiros e diretores de candombl? [...] Esses atos, que no

    podem deixar de revoltar os espritos educados no sentimento da justia, [...] revelam

    apenas um estado rudimentar de senso jurdico, tomado diretamente s raas inferiores que

    colonizaram o Brasil e cujo sangue corre ainda quente e abundante nas veias de muitos

    executores de tais violncias [...] Delas, o mvel mais imediato o estpido terror do feitio

    e das prticas cabalsticas; mas a forma do atentado, essa nasce da incapacidade em que

    278 dison Carneiro. A situao do negro no Brasil in Gilberto Freyre [et.al.] Estudos Afro-Brasileiro: trabalhos apresentados ao 1 Congresso Afro-Brasileiro do Recife, Recife, FUNDAJ/Ed. Massangana, 1988 [1935], p.238.

  • 153

    est a nossa polcia judiciria de sentir o respeito aos direitos individuais e do seu

    menosprezo inconsciente pelas formas reguladoras do processo que, nos povos civilizados,

    desposa a interveno da lei, dos caracteres de uma violncia pessoal dos seus executores,

    como ela ainda se conserva nas gentes incultas [...] A ao da nossa polcia no faz mais do

    que reproduzir, com todo o rigor, a prepotncia cega, apaixonada e violenta dos pequenos

    potentados e rgulos africanos 279.

    Arthur Ramos e Gilberto Freyre: os donos de assunto

    Gilberto Freyre e Arthur Ramos constituram os dois polos aglutinadores dos

    estudos afro-brasileiros no decnio de 1930. Tanto um, quanto outro, embora com

    abordagens sensivelmente distintas, expressaram em suas obras os dilemas e as dificuldades

    de se deslocar os sentidos biolgicos da raa para uma anlise do negro nucleada em chaves

    culturais. Gilberto Freyre, com Casa-Grande & Senzala (1933), projetava os

    ensinamentos da antropologia de Franz Boas (1858-1942), quanto ao critrio de

    diferenciao fundamental entre raa e cultura para entender o negro escravo no seio da

    famlia patriarcal 280. Enquanto Arthur Ramos, a partir de O Negro Brasileiro (1934),

    buscava ajustar a psicanlise de Freud (1856-1939) e a ideia da pr-logicidade primitiva

    de Lvi-Bruhl (1857-1939) para colocar o problema negro no mbito de uma defasagem

    cultural que acometeria no propriamente raas, mas sobretudo as classes atrasadas:

    consequncia do pensamento mgico e pr-lgico, independentes da questo

    antropolgico-racial, porque podem surgir em outras condies e em qualquer grupo

    tnico nas aglomeraes atrasadas de cultura, classes pobres da sociedade, crianas,

    adultos neurosados [...] Esses conceitos de primitivo, de arcaico, so puramente

    psicolgicos e nada tem que ver com a questo da inferioridade racial 281.

    Contudo, em que pese as divergncias entre tais trabalhos, tanto em termos de

    anlise quanto de tradies tericas, Arthur Ramos e Gilberto Freyre acabam por rivalizar

    279 Raimundo Nina Rodrigues. Os Africanos no Brasil, op.cit., pp.365-66 (as nfases so minhas). 280 Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala. Rio de Janeiro, Record, 2000, p.45. Sobre o significado da raa na obra de Gilberto Freyre e seu sentido neolamarckiano, pois com capacidade de adaptao e de transmisso das caractersticas adquiridas, consultar o trabalho de Ricardo Benzaquen de Arajo, Guerra e Paz: Casa-Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30, Rio de Janeiro, Ed.34, 1994. 281 Arthur Ramos, O Negro Brasileiro: etnografia religiosa e psicanlise. Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1934, p.23 (nfases minhas).

  • 154

    em torno da posse de um mesmo esplio intelectual: o de Nina Rodrigues 282. E os mveis

    polticos e intelectuais desta disputa, como j mostrou Mariza Corra, giravam menos em

    torno de saber qual deles teria continuado as ideias de Nina Rodrigues e, sim, muito mais,

    sobre como ambos reclamavam a prioridade ora da Bahia, ora de Pernambuco, para o

    renascimento dos estudos sobre o negro no Brasil, reclamando-a tambm para si prprios 283.

    Uma via interessante para apreender o cenrio no qual se desenvolveram essas

    disputas a dos Congressos Afro-Brasileiros realizados em 1934 e 1937, respectivamente,

    em Recife e Salvador. O primeiro, orquestrado por Gilberto Freyre, e o segundo, por

    dison Carneiro, ao lado de seu companheiro de Academia dos Rebeldes e militncia

    comunista, Aydano do Couto Ferraz. Particularmente importantes no processo de

    consolidao do campo de estudos das relaes raciais no Brasil, curioso observar que os

    congressos afro-brasileiros ainda no mereceram uma anlise mais atinada com as suas

    articulaes com a vida intelectual e poltica da poca. Em geral, quando abordados,

    desprezam-se muitos dos sentidos polticos ento em jogo na realizao desses certames,

    em detrimento das contendas mais evidentes entre os donos do assunto negro, Gilberto

    Freyre e Arthur Ramos 284. Ou melhor, foca-se excessivamente os seus significados

    282 Para uma discusso exaustiva entre as diferentes abordagens das relaes raciais brasileiras nos trabalhos de Ramos e Freyre o primeiro, interessado nos padres de continuidade das culturas africanas no comportamento dos negros no Brasil; e o segundo, buscando entender as contribuies do negro em meio s relaes entre dois regimes sociais, o patriarcalismo e a da escravido (onde o negro impostava pela sua condio de escravo) , ver Maria Jos Campos, Arthur Ramos: luz e sombra na antropologia brasileira, op.cit., pp.45-56. 283 Mariza Corra, As Iluses da Liberdade, op.cit., p.223. 284 No tomei conhecimento de trabalhos que tenham feito esses congressos objetos de uma anlise sistemtica. Alguns autores os recuperaram, mas apenas de maneira tangencial: Marcos Chor Maio, A Histria do Projeto UNESCO: estudos raciais e cincias sociais no Brasil. Rio de Janeiro, (Tese de Doutorado), Iuperj, 1997; Guillermo Giucci & Enrique Rodriguez Larreta, Gilberto Freyre: uma biografia cultural, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 2007 e Jeferson Bacelar, A hierarquia das Raas op.cit.; Lvio Sansone, Um campo saturado de tenses: o estudo das relaes raciais e das culturas negras no Brasil, Estudos afro-asiticos, vol.24, n1, 2002. Ainda, Beatriz Gis Dantas dispensa relativa ateno aos congressos afro-brasileiros, contudo, interessada em destacar o papel dos intelectuais na divulgao de noes de pureza e degradao dos cultos afro-brasileiros. Cf. Vov Nag e Papai Branco. Rio de Janeiro, Graal, 1988. Abordagem aproximada de Stefania Capone, A busca da frica no candombl: tradio e poder no Brasil, Rio de Janeiro, Pallas/Contra Capa, 2004. Mariza Corra amplia o escopo de anlise sobre os dois congressos afro-brasileiros, ao tom-los como signos de diferenciao entre baianos e pernambucanos em um campo de estudos em pleno processo de formao, chamando a ateno, inclusive, para a evidente nfase dos baianos numa atuao poltica. Cf. Antroplogas e Antropologia. Belo Horizonte, 2003, p.167. Contudo, Corra no chega a abordar a modalidade ou o contedo poltico dos trabalhos do grupo baiano. Em particular, sobre o I Congresso Afro-brasileiro do Recife, analisado como um evento expressivo da transio entre os paradigmas racialistas e culturalistas, ver Anadelia A. Romo, Rethinking Race and Culture in

  • 155

    cientficos (as eventuais rupturas que vinham sendo empreendidas com os paradigmas

    racistas e organicistas), enquanto se minimiza o modo como este elemento recm-

    valorizado na formao da nao, o negro, se convertia num mvel de disputa entre

    distintos modelos de interveno: no apenas aqueles modelos formalizados por

    intelectuais, cujos trabalhos traziam a chancela do Estado e de suas instituies mdicas,

    educacionais, correcionais e policiais, mas tambm modelos que passavam a reivindicar os

    segmentos afro-brasileiros, ainda que no plano simblico, como objetos de interesse

    doutrinrio e ideolgico por parte dos grupos da cena poltica da poca, a exemplo dos

    comunistas, integralistas e do prprio movimento negro nascente.

    Ainda que a ideologia integralista no estivesse particularmente representada nos

    trabalhos apresentados nos dois congressos afro-brasileiros, ela parece ter oferecido um

    discurso bastante atraente s associaes e aos movimentos negros da dcada de 1930,

    resultando em um nmero expressivo de participaes simultneas na Ao Integralista

    Brasileira (AIB) e na Frente Negra Brasileira (FNB) esta ltima, a maior e mais

    importante organizao poltica em prol da ascenso moral e material da gente negra

    do perodo, com especial fora de persuaso e atuao em So Paulo, onde foi fundada em

    1931. O que, decerto, no a impediu de lograr seguidores e filiais em numerosas cidades e

    capitais esparramadas pelo pas 285. Eloquente, neste sentido, era o fato do jornal A Voz da

    Raa, rgo noticioso e informativo da FNB, trazer estampado no subttulo o lema: Deus,

    Ptria, Raa e Famlia. Ou seja, uma analogia literal, com o incremento da raa, ao mote

    integralista Deus, Ptria e Famlia. E a despeito do fato de que AIB e FNB nunca tenham

    chegado a oficializar qualquer espcie de coligao mais sistemtica, uma srie de

    bandeiras comuns a ambos os movimentos serviram para garantir regulares trocas de

    apoios e mtuas demonstraes de simpatia: o nacionalismo exacerbado; o combate anti-

    imperialista; as manifestaes de orgulho em torno de uma raa brasileira una e

    Brazils First Afro-Brazilian Congress of 1934, Journal of Latin American studies, n39, fev., 2007 e tambm, Clinton Silva Paz, Um monumento ao negro: memrias apresentadas ao Primeiro Congresso Afro-Brasileiro do Recife, 1934, (Dissertao de Mestrado), Rio de Janeiro, UFRJ-IFCS, 2007. 285 Sobre a Frente Negra Brasileira e a histria do movimento negro no Brasil, ver Florestan Fernandes, A integrao do negro na sociedade de classes, op.cit., Maria Anglica Motta Maus, Negro sobre negro: a questo racial no pensamento das elites negras brasileiras, (Tese de Doutorado), Rio de Janeiro, IUPERJ, 1997; Petrnio Rodrigues, A nova abolio, So Paulo, Selo Negro, 2008; George Michael Hanchard, Orfeu e o poder: movimento negro no Rio e So Paulo, Rio de Janeiro, Ed. UERJ, 2001; e Andr Crtez de Oliveira, Quem a gente negra nacional? Frente Negra Brasileira e a Voz da Raa (1933-1937), (Dissertao de Mestrado), Campinas, IFCH, 2006.

  • 156

    indivisvel, onde o papel do negro na construo da ptria podia ser celebrado e

    glorificado; a retrica em favor de uma segunda abolio do povo brasileiro, atravs das

    qual vislumbrava-se a efetiva redeno e integrao dos negros nao brasileira por meio

    da educao e da restaurao moral 286; o acirrado fervor anticomunista; e, por fim, o

    rgido patrulhamento aos valores e comportamentos que ferissem os princpios catlicos de

    conduta e moralidade, todos esses elementos combinados pareciam infundir substncia e

    sentido s aproximaes entre a militncia negra da dcada de 1930 e os projetos

    nacionalistas autoritrios de inspirao fascista 287. Uma aproximao, portanto, que

    arrebataria parcelas substantivas do movimento negro brasileiro, como atesta o itinerrio de

    Abdias do Nascimento (1914) no sem consequncias para as suas posies futuras no

    Teatro Experimental do Negro, como j mostrou Mrcio Jos de Macedo 288 , mas que,

    entretanto, ganharia feies mais bem acabadas nas posies de uma liderana negra como

    a de Arlindo Veiga dos Santos (1902-1978). Primeiro presidente da FNB, entre 1931-1934,

    em So Paulo, Arlindo Veiga, no esforo de radicalizar e converter a luta pela assimilao

    social da raa negra na defesa da prpria unidade racial e nacional brasileiras, acabou

    paradoxalmente encampando um discurso de elogio Alemanha hitlerista, vista ento como

    286 Antnio Sergio Guimares & Mrcio Macedo, Dirio Trabalhista e democracia racial negra dos anos 1940, Dados, vol.51, n1, 2008, p.170. 287 Pelo que mostram as fotos das manifestaes pblicas em diferentes regies do Brasil e testemunhos da poca, havia uma razovel presena de negros dentro do movimento [...] Na maior parte dos artigos da revista Anau! que tm o negro como objeto de anlise h uma nfase na sua participao como o elemento central do processo de escravido: a vtima e, ao mesmo tempo, o rebelde que lutou contra o cativeiro. O discurso integralista em torno do negro sempre revela um paternalismo no qual o Chefe Nacional exerceria um papel de libertador, pois a doutrina [integralista] do sigma seria to importante quanto a Lei urea. Cf. Rogrio Souza Silva, A poltica como espetculo: a reinveno da histria brasileira e a consolidao dos discursos e das imagens integralistas na revista Anau!, Revista Brasileira de Histria. So Paulo, n25, 2005, pp.84-85. Ainda, lembra Andr Cortez de Oliveira que a conduta dos negros nos espaos pblicos foi alvo de vrios artigos [em A Voz da Raa] preocupados em separar a Gente Negra Brasileira salva pela FNB e pelos seus valores daqueles a serem salvos: negros degenerados pelo uso excessivo de lcool, pela falta de princpios cristos, pelo analfabetismo, pela falta de trabalho ou pela procura desenfreada pelos prazeres da carne. A eugenia dos discursos sanitaristas da poca serviu, na FNB, como ferramenta para um horizonte possvel de civilizao. A disciplina cobrada advinha dessa preocupao educadora, higienizadora e, portanto, redentora do patrcios negros. A FNB pretendia salvar o negro ao elev-lo verdadeira civilizao, criando uma unio harmnica e orgnica da Gente Negra Nacional. Cf. Quem a gente negra nacional?, op.cit., pp.62-63. 288 A militncia conjunta de Abdias do Nascimento na FNB e na AIB na dcada de 1930, segundo Macedo, teria se mostrado decisiva na sua formao poltica e intelectual com relao temtica racial e nacional. Cf. Marcio Jos de Macedo, Abdias do Nascimento: a trajetria de um negro revoltado, (Dissertao de Mestrado), So Paulo, USP-FFCHL, 2005.

  • 157

    um modelo a ser seguido pelo Brasil no que tangia poltica racial 289. Afinal, dizia o

    presidente da FNB:

    Que nos importa que Hitler no queira, na sua terra, o sangue negro? Isso mostra

    unicamente que a Alemanha Nova se orgulha da sua raa. Ns tambm, ns brasileiros,

    temos RAA. No queremos saber de ariano. QUEREMOS BRASILEIRO NEGRO E

    MESTIO que nunca traiu nem trair a Nao. Ns somos contra a importao do sangue

    estrangeiro que vem somente atrapalhar a vida do Brasil, a unidade da nossa Ptria, da

    nossa raa e da nossa lngua. Hitler afirma a raa alem. Ns afirmamos a Raa Brasileira,

    sobretudo no seu elemento mais forte: O NEGRO BRASILEIRO 290.

    Seja como for, a questo aqui no a de entender as provveis causas dessas

    convergncias, mas sim evidenciar que no era apenas a cincia que estava interessada nos

    grupos e nos movimentos negros na dcada de 1930. E, em enorme medida, foi em meio a

    estas clivagens entre cincia, poltica e disputas ideologias que dison Carneiro no apenas

    deu molde aos termos de sua insero na seara dos estudos afro-brasileiros, atento aos

    arroubos conservadores dos movimentos negros, como tambm formatou as posies

    contrrias aos modelos de interveno mdicas que, mesmo no I Congresso Afro-Brasileiro

    de Recife, ainda ofereciam uma das abordagens privilegiadas para os problemas raciais

    brasileiros 291. No que essas abordagens fossem prprias do trabalho de seu principal

    idealizador, Gilberto Freyre, cuja produo intelectual especialmente a partir de Casa-

    Grande & Senzala se mostrava muito mais empenhada com a prtica de uma sociologia

    gentica da sociedade brasileira, em tudo devedora de sua formao em cincias sociais e

    de seus prolongados estgios acadmicos em universidades norte-americanas 292. Contudo,

    289 Sobre as relaes e proximidades de projetos e concepes de Brasil entre a FNB e a AIB, ver Petrnio Rodrigues, O messias negro: Arlindo Veiga dos Santos (1902-1978), Varia Histria, Belo Horizonte, vol.22, n.33, jul/dez, 2006 e, do mesmo autor, Os descendentes de africanos vo luta em terra brasilis: Frente Negra Brasileira versus Teatro Experimental do Negro in A nova abolio, op.cit., Andr Cortez de Oliveira Quem a gente negra nacional?, op.cit. 290 Arlindo Veiga dos Santos apud Petrnio Rodrigues, O messias negro: Arlindo Veiga dos Santos (1902-1978), op.cit., pp.528-29. 291 Os trabalhos apresentados ao Congresso de Recife foram organizados em dois volumes, lanados, respectivamente, em 1935 e 1937. Ambos organizados por Gilberto Freyre. Cf. Estudos afro-brasileiros, Recife, FUNDAJ/Massangana, 1988 [1935] e Novos estudos afro-brasileiros, Recife, FUNDAJ/Massangana, 1988 [1937]. 292 Uma sociologia gentica, evidentemente, como esclarece o prprio Gilberto Freyre, entendida como a prtica de uma histria social que fosse capaz de fixar e s vezes interpretar alguns dos aspectos mais significativos da formao da famlia brasileira. Cf. Casa-Grande & Senzala, op.cit., p.61. Sobre os perodos de estudos de Gilberto Freyre na Universidade de Baylor, no Texas, e depois, como estudante de mestrado em

  • 158

    se os saberes mdicos e psiquitricos importavam apenas secundariamente para a

    consecuo de seus projetos autorais, estavam, no entanto, no centro das investigaes

    desenvolvidas pelo staff de pesquisadores que, em Recife, Gilberto Freyre convocaria para

    ajud-lo na organizao do I Congresso Afro-Brasileiro. Em sua imensa maioria,

    pesquisadores alocados na Faculdade de Medicina e nos institutos de sade pblica e

    mental do estado e que tinham como um de seus principais lderes e animadores o primo

    paterno de Freyre, o mdico-psiquiatra Ulysses Pernambucano: ento diretor da Assistncia

    aos Psicopatas de Recife, aonde, junto Diviso de Higiene Mental, desde os incios de

    1930, vinha orientando uma srie de estudos sobre as seitas africanas e outras formas de

    espiritismo popular que tinham em comum as possesses e os transes religiosos.

    O interesse de Ulysses Pernambucano pela face social da psiquiatria no era

    aleatrio, assim como no foi fortuito que suas principais inquietaes recassem sobre o

    estudo dos fatores sociais e biolgicos capazes de produzir os estados patolgicos do transe

    e dos delrios rituais, os quais, uma vez esclarecidos, trariam solues para os prementes

    problemas de higiene mental 293. Vinculadas Assistncia aos Psicopatas do estado e

    linhagem de estudos mdicos preocupada com a capacitao penal e civil dos indivduos, as

    pesquisas de Ulysses Pernambucano sobre os cultos afro-brasileiros eram a contrapartida de

    uma prtica cientfica fundamentalmente comprometida com a elaborao de polticas de

    profilaxia e controle de determinadas doenas mentais que se acreditavam potencialmente

    ameaadoras s garantias da normalidade e manuteno da ordem pblica e social. Um

    comprometimento que, por sua vez, se expressou de modo particularmente eloquente na

    Antropologia, em Nova York, na Universidade de Columbia, ver Guillermo Giucci & Enrique Rodriguez Larreta, Gilberto Freyre, uma biografia cultural, op.cit. 293 Cf. Beatriz Gis Dantas, Vov nag papai branco, op.cit., p.175. Ulysses Pernambucano se formou em medicina, em 1912, no Rio de Janeiro, se especializando na rea psiquitrica quando trabalhou, ainda na capital federal, no Hospital Nacional de Alienados, sob a superviso de Juliano Moreira, um ex-professor da Faculdade de Medicina da Bahia, discpulo e contemporneo de Nina Rodrigues. Retornando para Recife, em 1918, assumiu a cadeira de psicologia do Ginsio Pernambucano, sendo mais tarde indicado pelo governador do estado para a direo da Escola Normal Oficial do Estado, ao mesmo tempo em que passou a lecionar na cadeira de psiquiatria na Faculdade de Medicina de Recife, a partir de 1920. Ver Clinton Silva Paz, Um monumento ao negro: memrias apresentadas ao Primeiro Congresso Afro-Brasileiro do Recife, 1934, (Dissertao de Mestrado), Rio de Janeiro, UFRJ-IFCS, 2007. Ao apreender a possesso ritual como uma sndrome patolgica associada a fatores biolgicos e raciais, Ulysses Pernambucano no deixava de se colocar como um continuador das interpretaes j consagradas de Nina Rodrigues sobre os cultos fetichistas da Bahia: as quais, em grande medida, no Congresso Afro-Brasileiro, o prprio Gilberto Freyre iria buscar contrapor e relativizar. Cf. Mariza Corra, As iluses da liberdade, op.cit. e Stefania Capone, A busca da frica no candombl: tradio e poder no Brasil, Rio de Janeiro, Pallas/Contra Capa, 2004.

  • 159

    prpria trajetria de Pernambucano, uma vez que, desde os incios de 1930, tomara como

    luta e projeto poltico pessoal a implantao de um manicmio judicirio no estado: um

    lugar de sequestrao dos psicopatas, dos alienados civis, dos incorrigveis e dos amorais

    constitucionais 294.

    Tendo exercido papel decisivo na realizao do I Congresso Afro-Brasileiro,

    aclamado inclusive seu presidente de honra, evidente que Ulysses Pernambucano

    acabaria por imprimir na formatao do evento as marcas dessa luta, assim como no

    deixaria de convocar os seus pares de profisso que, decerto, eram solidrios s

    preocupaes mdico-psiquitricas a ela subjacentes 295. A comunicao, As doenas

    mentais entre os negros de Pernambuco, condensava por inteiro as preocupaes

    reformistas e curativas que revestiam a abordagem de Pernambucano sobre a temtica

    racial. Ele se valeu da ocasio no apenas para expor os resultados dos exames clnicos que

    apontavam para a fragilidade manifesta dos negros, em nosso meio, em relao s doenas

    mentais, como tambm para vaticinar os graves prejuzos ao progresso da cincia e da

    sociedade nacionais advindos da ausncia de um rgo federal que fosse capaz de

    racionalizar e orientar a criao de polticas pblicas voltadas profilaxia de certas

    doenas entre a populao 296.

    Igualmente expressivo, neste sentido, por conferir maior nitidez atuao do grupo

    de Recife que provia suporte poltico e intelectual a Gilberto Freyre, foi o depoimento

    prestado ao congresso por Pedro Cavalcanti, um antigo assistente de Ulysses

    Pernambucano: revelador, entre outras coisas, dos mveis de interesses que mediavam as

    294 Cf. Mariza Corra, As iluses da liberdade, op.cit., p.228. Ainda, no trabalho de Corra, vale destacar as memrias de Gonsalves Fernandes, ex-assistente de Ulysses Pernambucano na Diviso de Higiene Mental, onde se registra a atuao sempre prxima de Gilberto Freyre nos trabalhos desenvolvidos na Assistncia aos Psicopatas do Recife: E os estudos que se foram realizando depois no Servio de Higiene Mental, desde os seus primeiros passos, tinham no professor Gilberto Freyre [...] o seu consultor, sempre presente a todas as reunies do staff, onde se discutiam a valorao dos trabalhos, as normas a seguir, a correo dos erros cometidos. Apud Idem, Ibidem. 295 A informao de que Ulysses Pernambuco foi aclamado, com toda justia, presidente de honra do I Congresso Afro-Brasileiro se encontra em Gilberto Freyre, O que foi o congresso afro-brasileiro do Recife in Gilberto Freyre [et.al.] Novos estudos afro-brasileiros, op.cit., p.349. 296 Ulysses Pernambuco, As doenas mentais entre os negros de Pernambuco in Gilberto Freyre [et.al.] Estudos Afro-Brasileiros. Recife, FUNDAJ, Ed. Massangana, 1988 [1935], p.95. As reunies preparatrias com os pais e as mes de santo que participaram do congresso aconteceram na Diretoria Geral da Assistncia a Psicopatas. Ainda, atestando o forte apelo biomdico do congresso, pode-se mencionar algumas das atividades ali realizadas: conjuntamente aos banquetes com quitutes afro-brasileiros, visitas a instituies como o Salo da Assistncia a Psicopatas e o Gabinete de Biometria e Biotopologia da Brigada Militar. Cf. Guillermo Giucci & Enrique Rodriguez Larreta, Gilberto Freyre, op.cit., p.509.

  • 160

    condutas dos pesquisadores locais com relao s seitas africanas, ao mesmo tempo em

    que explicitava seus esforos em reivindic-las como objetos de um tipo particular de

    fiscalizao que se pretendia menos policial e mais mdico e clnico:

    Por influncia do professor Ulysses Pernambucano, pusemo-nos em contato com algumas

    seitas africanas existentes nesta cidade. Tais seitas viviam at ento de certa maneira

    escondidas. Ou porque a polcia no permitia o livre funcionamento. Ou porque os jornais,

    vez por outra traziam reclamaes [...] Assim que em fins de 1932, reuniram-se na

    Diretoria Geral da Assistncia a Psicopatas os pais e mes de terreiros do Recife, e a foram

    acertadas medidas sobre o livre funcionamento das seitas. Ns nos comprometamos a

    conseguir da polcia licena para tal. Os pais dos terreiros nos abririam as suas portas e nos

    dariam os esclarecimentos necessrios para que pudssemos distinguir os que faziam

    religio e os que faziam explorao 297.

    Ou seja, ao abrir suas portas observao rigorosa e aos exames clnicos e

    mentais aplicados por Ulysses Pernambucano e sua equipe de alunos e assistentes da

    Faculdade de Medicina e da Assistncia aos Psicopatas entre os quais, j destacavam

    alguns futuros antroplogos e folcloristas, a exemplo de Ren Ribeiro (1914-1990),

    Gonalves Fernandes (1909-1986) e Waldemar Valente (1908-1992) , encontravam os

    Xangs e seus praticantes a oportunidade de se verem parcialmente livres das investidas e

    da ao opressora da polcia 298. Ademais, sob o controle pericial e seguro dos tcnicos do

    Servio de Higiene Mental do Estado, e no mais dos agentes policiais, poderiam tambm

    as seitas africanas serem melhor controladas no que dizia respeito manuteno da

    ordem e dos interesses pblicos, uma vez que a cincia mdica estaria apta a distinguir os

    verdadeiros lderes religiosos, portadores da tradio e dos saberes africanos autnticos,

    daqueles que, j degradados pelo sincretismo e por valores sociais modernos, no passariam

    de exploradores insinceros da credulidade do povo: estes ltimos, sim, passveis de

    represso e policiamento 299.

    297 Pedro Cavalcanti. As seitas africanas do Recife in Gilberto Freyre [et.al.] Estudos Afro-Brasileiros, op.cit., p.244. 298 Cf. Beatriz Gis Dantas, Vov nag papai branco, op.cit., pp.176-77. 299 Idem, p.181. Embora, lgico, seja importante assinalar que as invocaes de pureza ou as acusaes de deturpao das tradies verdadeiramente africanas no eram invenes dos mdicos e intelectuais, se tratando, antes, de parte indissocivel das disputas polticas por poder entre terreiros e lideranas religiosas. Ver, alm do j citado trabalho de Beatriz Gis Dantas, Jeferson Bacelar, O legado da Escola Baiana: para uma antropologia da reafricanizao dos costumes in A hierarquia das raas, op.cit., e Stefania Capone, A

  • 161

    Deste modo, no bastassem os exemplos eloquentes dos pesquisadores

    pernambucanos, uma rpida meno a alguns dos ttulos apresentados no congresso de

    Recife, com seus respectivos espaos institucionais, reveladora da centralidade ainda

    desfrutada pela medicina como um dos saberes, por excelncia, autorizado a se pronunciar

    sobre a temtica racial e todos os demais problemas relacionados capacitao social, civil

    e jurdica dos negros e dos mestios brasileiros 300: Contribuio ao estudo dos ndices de

    Lapicque e O negro em nosso meio escolar, de Bastos de vila (do Instituto de

    Pesquisas do Departamento de Educao do Distrito Federal); Longevidade: sua relao

    com os grupos tnicos e O recm-nascido branco, negro e mulato, de Robalinho

    Cavalcanti (assistente na Clnica Neurolgica do Hospital de Psicopatas do Rio de Janeiro);

    Grupos sanguneos da raa negra, de Abelardo Duarte (Faculdade de Medicina da Bahia);

    Estudo biotipolgico de negros e mulatos normais e delinquentes, de Leondio Ribeiro

    (do Instituto de Identificao da Polcia Federal). Em resumo, trabalhos que, a despeito da

    tentativa em conferir alguma nfase s causas de natureza social e ambiental na explicao

    busca da frica no candombl, op.cit. Ainda, ao reivindicar a transferncia da tutela e do poder de licenciamento do funcionamento dos Xangs da polcia para o Servio de Higiene Mental do Estado, Ulysses Pernambucano, certamente, buscava garantir o acesso irrestrito a fontes regulares de dados etnogrficos, mdicos e psicolgicos a fim de prover o Estado com informaes consideradas relevantes para a implantao de polticas e diretrizes de correo eugnica e psiquitrica. Waldemar Valente, um dos ex-alunos de Ulysses Pernambucano na Faculdade de Medicina de Recife, descreveu nos seguintes termos a atuao de seu professor nos terreiros: de um lado, Ulysses submeteria os praticantes das religies africanas a exame mental e, de outro, comprometer-se-ia a polcia a permitir o funcionamento, sujeito a calendrios e horrios indicados previamente pelos grupos de culto. Graas ao diplomtica de Ulysses, passaram os Xangs a funcionar, embora sob certo controle. Apud Idem, p.177. Ren Ribeiro, que anos mais tarde faria seu doutorado sobre as religies afro-brasileiras sob a orientao de Melville Herskovits, nos Estados Unidos, tambm se aproximou desse tema no incio da dcada de 1930, como aluno da Faculdade de Medicina no Recife e assistente de Ulysses no Servio de Assistncia aos Psicopatas do Recife, ocasio em que investigou estados de possesso e transe msticos. Ali, iniciou seu contato com as religies fetichistas e [com] os centros de magia e cartomancia, assistindo a suas sesses pblicas e privadas e relatando as cerimnias e prticas mgicas, alm de examinar clnica e psicologicamente [os] chefes, auxiliares e mdiuns, procurando desvendar os mecanismos sociopsicolgicos da possesso e dos estados de xtase. Cf. Ren Ribeiro apud Marcos Chor Maio, A histria do projeto UNESCO, op.cit., pp.205-206. 300 Sobre a medicina legal e os estudos raciais no sculo XIX, ver Mariza Corra, As iluses da liberdade, op.cit. Para os anos 1930, ver Olvia Gomes da Cunha, Sua alma em sua palma: identificando a raa e inventando a nao, op.cit. Lembra Olvia Gomes da Cunha que, na mesma poca em que acontecia o I Congresso Afro-Brasileiro, no Rio de Janeiro, um discpulo de Nina Rodrigues, Afrnio Peixoto (1876-1947), ao lado de seu aluno dileto da Faculdade de Medicina carioca, Leondio Ribeiro (1893-1976), concebiam e coordenavam desde 1932, o Instituto de Identificao e o seu centro de pesquisas (o Laboratrio de Antropologia Criminal), visando implantar uma poltica cientfica para os problemas eugnicos decorrentes da mistura racial brasileira. Suas expectativas eram de que, a partir da anlise de determinados tipos biolgicos, solues pudessem ser encontradas para a preveno de doenas e crimes. Medidas de classificao e controle populacionais que visavam fundamentalmente impedir que os indivduos considerados sos e sadios fossem contaminados pelos doentes que proliferavam nas prises e nos manicmios. Cf. Sua alma em sua palma, op.cit., p.276.

  • 162

    de nossa aparente inferioridade enquanto povo 301, estavam longe, no entanto, de decretar

    como superados os receios com os dficits decorrentes da miscigenao biolgica da

    sociedade brasileira.

    Decerto, no ficaria o congresso restrito s teses mdicas e etnognicas, sendo

    importante ressaltar a considervel energia gasta por Gilberto Freyre no sentido de

    convert-lo em um espao de ressonncia para ideias e vises renovadas acerca das

    contribuies do escravo e do africano na formao da sociedade e da cultura brasileiras

    muitas delas, inauguradas e desenvolvidas em territrio nacional pelo prprio Gilberto

    Freyre em seu, ento, recm-lanado, porm nascido-clssico, Casa-Grande & Senzala 302. E apesar da presena expressiva dos tradicionais estudos mdicos e de antropologia

    fsica, pode-se dizer que Freyre foi bastante bem sucedido em transformar o congresso em

    um evento de autores e perspectivas diversas. Entre eles, aqueles empenhados em

    reapropriar a temtica negra em chaves mais propriamente culturais, sensveis a uma nova

    viso de Nao mestia, plasmada luz das contribuies civilizatrias dos distintos grupos

    tnicos que se misturaram no curso de nossa colonizao. Por essa razo, nas palavras do

    prprio Freyre, o Congresso teria dado novo feitio e sabor aos estudos afro-brasileiros, ao

    reunir gente que afinal se voltara para o assunto e descobrira nessas coisas de negros

    mais do que simples pitoresco, passando a apreend-las a partir de variadas e

    multifacetadas formas de manifestao: histrica, religiosa, folclrica, intelectual,

    lingustica, poltica, artstica etc. 303. Um feito notvel que, impulsionado pela excelente

    301 A. Austregsilo, A mestiagem no Brasil in Gilberto Freyre [et.al.], Novos estudos afro-brasileiros, op.cit., p.327. 302 Casa-Grande & Senzala nasceu obra clssica. Ningum dar mais um passo em matria de sociologia referente a este pas, sem consultar o volume, a menos que deseje andar errado. Cf. Edgar Roquette-Pinto, Casa-Grande & senzala, Boletim de Ariel, Rio de Janeiro, n5, fevereiro de 1934, p.116. 303 Gilberto Freyre, O que foi o 1 congresso afro-brasileiro do Recife in Gilberto Freyre [et.al.] Novos estudos afro-brasileiros, op.cit., p.351. Ao que parece, o escopo inicial do congresso focava uma discusso mais pontual sobre a religiosidade de origem africana em Pernambucano, envolvendo as lideranas de cultos e os intelectuais ligados a Ulysses Pernambucano, cujas pesquisas foram uma das causas do congresso. Cf. Guillermo Giucci & Enrique Rodriguez Larreta, Gilberto Freyre, op.cit., p.503. Muito provavelmente, a atuao de Gilberto Freyre na comisso organizadora fora decisiva para que se ampliasse o rol de temas e intelectuais presentes no evento. Mas talvez, o prprio ambiente ideolgico da poca tenha pesado para que o congresso se comprometesse com abordagens mais abrangentes sobre a temtica racial, que no apenas a religiosa. Seria importante no minimizar os significados polticos que certamente acabaram por revestir o congresso afro-brasileiro de Recife, ao estimular uma srie de debates sobre os aspectos positivos da mestiagem brasileira em um momento no qual o nazismo e o antissemitismo comeavam a despertar preocupao, pelo menos desde a ascenso de Hitler na Alemanha, em 1933. E embora no tenha sido objeto de especial discusso no desenrolar do congresso, este ponto chegou a ser ressaltado por um de seus

  • 163

    recepo crtica de Casa-Grande & Senzala, de pronto, projetaria o jovem socilogo

    pernambucano como uma liderana e um orientador nas reformulaes tericas da temtica

    racial, mesmo levando-se em conta a relativa distncia que Freyre mantinha dos principais

    centros de consagrao cultural e intelectual brasileiros. O que, em boa medida, dado o

    alcance nacional e internacional do congresso, evidenciava o slido capital de relaes que

    ele acumulara no curso de suas experincias intelectuais no Brasil e nos Estados Unidos 304.

    Prova disso, e sinalizando a importncia crescente das cincias sociais norte-

    americanas entre os meios intelectuais brasileiros daquela dcada, eram os trabalhos

    enviados ao congresso por um personagem como Melville Herskovits (1895-1963), na

    poca, j um antroplogo de renome internacional por suas pesquisas originais sobre o

    negro nos Estados Unidos. Onde, no por acaso, ainda nos anos de 1920, havia ajudado a

    consolidar o debate sobre as relaes entre raa e cultura que, no Brasil, Gilberto Freyre e o

    Congresso Afro-Brasileiro representavam justamente o seu comeo. Tal como Freyre,

    Herskovits tambm fora aluno de Franz Boas na Universidade de Columbia, e aps

    empreender uma srie de pesquisas no Suriname, Haiti e Daom iniciava seus primeiros

    contatos com o Brasil a fim de expandir e dar sequncia ao projeto de investigao

    participantes, quando afirmava que o arianismo alemo atingiu um pouco a esfera do misticismo. Cf. A. Austregsilo, A mestiagem no Brasil in Gilberto Freyre, Novos estudos afro-brasileiros, op.cit., p.325. 304 Decerto, muito contribuiu para o alcance internacional do congresso, as relaes de Freyre com antigos colegas e conhecidos das universidades norte-americanas, os quais divulgaram notas e artigos sobre os anais do evento em revistas especializadas dos Estados Unidos, como por exemplo: Percy Alvin Martin, na The Hispanic American Historical Review (mesma revista que Freyre, em 1922, publicou sua tese de mestrado defendida em Columbia, Social life in Brazil in the middle of the 19th century) e Richard Pattee, no The Journal of Negro History. Contudo, antes do Congresso Afro-Brasileiro, vale lembrar que Freyre j havia organizado o Congresso Regionalista do Recife, em 1924: evento decisivo para que Freyre, ento desconhecido e recm-chegado dos Estados Unidos, ganhasse notoriedade nacional e assumisse posies de liderana entre grupos de intelectuais e artistas de Pernambuco e dos estados vizinhos, a exemplo de Jos Lins do Rgo, Ascenso Ferreira, Odilon Nestor, Anbal Fernandes e outros. Dois anos mais tarde, em 1926, passaria um ms e meio na capital federal, tendo a oportunidade de estreitar laos e frequentar os redutos de sociabilidade modernistas cariocas, especialmente na companhia de Srgio Buarque de Holanda, Manuel Bandeira e Prudente de Moraes Neto. Inclusive, foi durante sua estadia carioca que Freyre tomou contato com a msica de Pixinguinha e as peas da Companhia Negra de Revista: grupo de teatro formado exclusivamente por atores negros e mulatos que, orquestrado ao som de samba, encenou uma srie de apresentaes nas quais se veiculavam imagens e smbolos associados ideia de um Brasil mestio. Uma experincia que causou forte impacto em Freyre e na forma como percebeu a brasilidade daquelas peas. Sobre as experincias de Freyre no Rio, consultar Guillermo Giucci & Enrique Rodriguez Larreta, Gilberto Freyre, op.cit., pp.290 e ss. e Hermano Viana, O mistrio do samba, op.cit. Com relao Companhia Negra de Revistas, o mercado de entretenimento carioca e a produo e difuso de smbolos de uma nao mestia, consultar os excelentes trabalhos de Tiago de Melo Gomes, Um Espelho no Palco: identidades sociais e massificao da cultura no teatro de revista dos anos de 1920, Campinas, Ed. Unicamp, 2004 e Orlando de Barros. Coraes de Chocolat: a histria da Companhia Negra de Revistas (1926-1927), Rio de Janeiro, Livre Expresso, 2005.

  • 164

    comparativo sobre as sobrevivncias e a aculturao africana nos pases do Novo Mundo 305.

    Do lado dos congressistas nacionais, ainda que igualmente empenhados nas

    anlises que buscassem destacar o justo valor histrico e cultural do negro, sobressaa-se

    uma leva bastante diversificada e desigual de trabalhos que contrastavam flagrantemente

    com o estilo de pesquisa acadmica e metodologicamente orientanda de Herskovits,

    denunciando, entre outras coisas, o alto grau de incipincia de nossas cincias sociais.

    Grosso modo, pode-se dizer que o congresso revelava a heteronomia e os discursos difusos

    de um campo de estudos que, dando os primeiros passos na direo de uma desvinculao

    com as cincias mdicas e biolgicas, se via preso ao constrangimento de convocar toda

    sorte de curiosos e autodidatas, cujos interesses pela cultura africana e popular se

    ajustavam, em maior ou menor medida, s suas atividades como escritores, jornalistas,

    militantes polticos, romancistas e historiadores amadores ou regionais. Assim, no que dizia

    respeito aos autores que se debruaram com maior nfase nos aspectos histricos, polticos,

    sociolgicos e/ou etnogrficos, o congresso de Recife dava feio profuso de demandas

    sociais, ideolgicas e pessoais que orientavam as abordagens e a atuao destes letrados

    autodidatas na rea dos estudos afro-brasileiros. E talvez, a possibilidade e o recrutamento

    precoces de dison Carneiro em se pronunciar (com apenas 22 anos) como um

    especialista em negro subjects possam ser entendidos como uma das provas mais

    eloquentes neste sentido. No somente pela pouca idade e pelo pouco que ele tinha

    produzido sobre o assunto at ento apenas algumas notas ou comentrios crticos

    intermitentes quase que perdidos em meio a sua produo como cronista, contista e

    comentador literrio e poltico , mas tambm, como veremos adiante, pelo sentido pouco

    305 Melville Herskovits enviou dois trabalhos para serem lidos pelos organizadores do congresso. Um que versava sobre a procedncia e a preponderncia da cultura iorubana entre os grupos de negros africanos que foram escravizados e importados para o continente americano, realizando ainda uma reflexo metodolgica sobre a importncia das abordagens histricas e etnolgicas comparativas das permanncias ou sobrevivncias ou adaptaes dos africanos em meios aos processos aculturativos no novo mundo. E um segundo, sobre os padres culturais de estilo e representao totmicas encarnadas na manipulao artstica do bronze e do pano entre os grupos da regio de Daom, no oeste africano. Ambos os textos eram os resultados das pesquisas de campo ali realizadas por Herskovits em 1931. Cf. Cf. Melville Herskovits, Procedncia dos negros do novo mundo e A arte do bronze e do pano em Daom, ambos em Gilberto Freyre [et.al.] Estudos afro-brasileiros, op.cit. Para uma anlise particularizada do projeto intelectual de Herskovits e suas ambies comparativas com relao aculturao dos africanos no continente americano, ver Walter Jackson, Melville Herskovits and the search for afro-american culture in George W. Stocking Jr. (org.), Malinowski, Rivers and Others, Wisconsin, University of Wisconsin Press, 1986.

  • 165

    cientfico e muito ideolgico de sua prtica intelectual, tal como foi acusada na poca 306.

    Mas se no fosse suficiente o exemplo de dison, alguns dos outros nomes convocados por

    Gilberto Freyre so igualmente capazes de ilustrar o estado nascente de nossa cincia do

    social, na qual as pesquisas afro-brasileiras se desenvolviam de modo desbaratado e mesmo

    contingencial. Veja-se, neste sentido, o caso de Mrio de Andrade (1893-1945), cuja

    comunicao sobre as reminiscncias do fetichismo africano no maracatu nordestino

    remetia por inteiro s suas pesquisas etnogrficas e aos seus investimentos literrios como

    escritor modernista 307. Ou Cmara Cascudo (1898-1986), escritor de provncia ligado a

    Mrio, que de cronista dos costumes regionais comeava a esboar os contornos de sua

    produo folclrica, registrando a obra do sincretismo cultural nas prticas e crenas

    mgicas do Nordeste 308. Ou ainda, o ento jovem romancista Jorge Amado que,

    interessado na influncia das religies africanas e do gosto negro na produo e na

    literatura de cordel, a bem da verdade, coletava material para o romance Jubiab (1935) 309.

    306 dison Carneiro foi classificado como um especialista na carta-convite enviada pela comisso organizadora do congresso a Melville Herskovits, ao lado dos pesquisadores mdicos pernambucanos, assim como de Arthur Ramos: we would be very glad to have your valuable contribution to the 1th. Afro-Brazilian Congress. There will be contribution from the Brazilian specialists on Negro subjects Arthur Ramos, Ulysses Pernambuco, Renato Mendona, Edson Carneiro (sic), Mrio Marroquim and others.Cf. Carta de Jos Valadares para Melville Herskovits, 20 de setembro de 1934. Melville J. Herskovits Papers, Northwestern University Archives, Box 1, Folder 11. Gostaria de tornar pblico meus sinceros agradecimentos a Christiano Tambascia que, durante sua temporada de pesquisas nos arquivos da Northwestern University, nos Estados Unidos, teve a generosidade de fotocopiar a correspondncia entre Herskovits, Freyre e os organizadores do Congresso Afro-Brasileiro de Recife, entre outros itens. 307 Cf. Mrio de Andrade, Calunga dos Maracatus in Gilberto Freyre (org.), Estudos afro-brasileiros, op.cit. Ainda que as pesquisas e os interesses de Mrio de Andrade pela etnografia, pela linguagem popular e pelo folclore fossem indissociveis de seu itinerrio literrio no interior de movimento modernista, lembra Sergio Miceli que, na poca da realizao do Congresso, Mrio buscava ampliar significativamente suas frentes de atuao, tanto por conta de sua proximidade com as misses de professores estrangeiros que haviam chegado para fundar a Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras da Universidade de So Paulo, quanto em razo dos papis como condutor de poltica cultural que estava em vias de assumir, na condio de diretor do Departamento Municipal de Cultura de So Paulo. Cf. Feio e circunstncia de Mrio de Andrade. Revista IEB, n47, setembro de 2008. 308 Cf. Notas sobre o catimb in Gilberto Freyre (org.), Novos estudos afro-brasileiros, op.cit. Mrio de Andrade e Cmara Cascudo mantiveram uma massiva correspondncia entre os anos de 1924 e 1943, na qual trocaram trabalhos, ideias, impresses e crticas sobre os escritos e interesses de ambos por literatura e cultura popular. Quando da viagem etnogrfica de Mrio pelo nordeste, entre 1928 e 29, ele foi recebido e ciceroneado por Cascudo durante o tempo em que esteve no Rio Grande do Norte. Enfim, Mrio de Andrade teria exercido forte influncia sobre Cascudo no transcorrer desta troca de cartas, sempre convidando-o a folclorizar seus temas e seus textos. Cf. Vnia Vasconcelos Gico, Cmara Cascudo e Mrio de Andrade: uma seduo epistolar, Revista do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional, n30, 2002, p.122. 309 Cf. Jorge Amado, Biblioteca do Povo e Coleo Moderna in Gilberto Freyre (org.), Novos estudos Afro-Brasileiros, op.cit., pp.262-63. Jubiab foi o primeiro romance de sua carreira a tratar ficcionalmente os candombls e o universo simblico afro-baiano. Pode-se ainda mencionar que um dos mveis centrais para a apropriao ficcional da temtica negra na obra de Jorge Amado foi a militncia comunista e seus

  • 166

    E tambm, Alfredo Brando (1874-1944), historiador regional que, atendendo s demandas

    do congresso, apresentaria um texto sobre a escravido em seu estado natal, Alagoas 310. De

    outra parte, no menos significativa em relao s abordagens que tensionavam o debate

    racial da poca foram as investidas dos intelectuais comunistas: alm de Jorge Amado e

    dison Carneiro, jovens militantes como Aderbal Jurema (1912-1986), para quem as

    insurreies escravas se prestavam como provas do instinto de liberdade e, por

    consequncia, do potencial revolucionrio do negro para a derrocada do capitalismo311, e

    Jovelino M. de Camargo, autor de duas anlises marxistas sobre o trfico de escravos e a

    Abolio no Brasil, nas quais denunciava o fracasso da liberdade legal em livrar os

    negros das posies subalternas na sociedade burguesa e de classes 312. Um fracasso que,

    como ser visto, foi tambm objeto de ateno do prprio dison Carneiro.

    Contudo, se, por um lado, ao reunir em um nico evento autores e pesquisas que se

    realizavam de modo relativamente isolado e fragmentado, o Congresso Afro-Brasileiro de

    Recife tornava ntido os numerosos esforos que estavam sendo feitos no sentido de se

    minimizar e relativizar as explicaes biologizantes das relaes raciais no Brasil, de outro

    lado, explicitava tambm as dificuldades de se desvincular dessas explicaes, assim como

    das vises e representaes do negro em que, mesmo quando pensado em chave cultural,

    ele no deixava de aparece como integrante de um grupo fiscalizvel. Ou melhor dizendo,

    um setor da populao nacional, cujas prticas, crenas e comportamentos associados s

    heranas culturais africanas, no deveriam existir fora da ao vigilante do Estado e,

    portanto, das ingerncias de toda espcie de polticas de interveno de natureza cientfica,

    investimentos no sentido de se plasmar como um romancista proletrio na dcada de 1930. Ver Luiz Gustavo Freitas Rossi, As cores da revoluo, op.cit. 310 Cf. Os negros na histria de Alagoas in Gilberto Freyre (org.) Estudos afro-brasileiros, op.cit. Uma situao semelhante a do escritor paraibano Adhemar Vidal (1900-1986) que reportou ao congresso um texto sobre o perodo escravista em seu estado natal. Cf. Trs sculos de escravido na Paraba in Idem. 311 O resumo apresentado por Aderbal Vidal, Potencial revolucionrio do negro, no chegou a ser publicado nos dois volumes dos anais do congresso. No entanto, em 1935, publicou em livro, um ensaio que era o desdobramento de sua fala em Recife: Insurreies negras no Brasil, Recife, Edies Mozart, 1935. 312 Cf. Jovelino M. de Camargo Jr., A Inglaterra e o trfico in Gilberto Freyre (org.) Novos estudos afro-brasileiros, op.cit., p.183. A carncia de especialistas igualmente se expressava, por exemplo, no recrutamento dos dois filhos de Ulysses Pernambucano, Jos Gonsalves de Mello Neto e Jarbas Pernambucano, que, respectivamente, com apenas 17 e 16 anos, apresentaram trabalhos ao evento, certamente estimulados e influenciados por Gilberto Freyre. Mello Neto, um ensaio histrico sobre o perodo da dominao holandesa no Recife, enquanto Jarbas Pernambuco, um texto sobre a origem e o uso da maconha entre os negros escravos e os grupos indgenas no Brasil. Cf. Guillermo Giucci & Enrique Rodriguez Larreta, Gilberto Freyre, op.cit., pp.524-25

  • 167

    mdica, educacional e mesmo policial potencialmente capazes de acelerar o

    desaparecimento das sobrevivncias culturais primitivas que os negros eram portadores. E

    embora o I Congresso Afro-Brasileiro representasse o incio da reivindicao simblica do

    negro como um objeto de reflexo mais sociolgica e cultural do que biolgica, sua

    organizao e formatao marcavam com cores fortes a manuteno de um modelo mdico

    de tutelamento dos grupos afro-brasileiros que, lembra Mariza Corra, se traduzia na

    prtica de uma antropologia aplicada, recorrentemente invocada e defendida por Gilberto

    Freyre a fim de reclamar a primazia dele, do congresso e do grupo de Recife no trabalho

    de retomada e reformulao dos estudos raciais daquela dcada 313. Uma antropologia que,

    segundo Freyre, teria encontrado na obra pioneira de Ulysses Pernambucano um de seus

    mais felizes exemplos, na medida em que conjugava as atividades de:

    estudo e fiscalizao das religies negras em Pernambuco, [representando] uma das

    intervenes mais felizes da cincia e da tcnica antropolgica orientada por um psiquiatra

    social, na vida de uma comunidade brasileira, para facilitar por meio de possvel

    contemporizao, a soluo de um problema que a violncia policial e o dio teolgico s

    fazem dificultar e retardar. Foi o que mais insistiu o sbio africanologista [...], a obra de

    fiscalizao branda por psiquiatras, em vez da proibio violenta, por delegados e

    soldados de polcia 314.

    Parece-me significativo sublinhar as orientaes que revestiram a organizao do

    evento em Recife, assim como a relativa dependncia de Freyre em face das instituies e

    dos pesquisadores mdicos de Recife para legitimar suas pretenses de liderana a partir da

    provncia, pois elas fornecem alguns dos parmetros importantes para se entender muitos

    dos significados investidos por dison Carneiro na realizao do II Congresso Afro-

    Brasileiro, em 1937, e em sua tentativa de organizar a Unio das Seitas Afro-Brasileiras.

    Ambos empreendimentos levados a cabo por Carneiro como forma de se contrapor ao

    modelo de controle cientfico e a certo jeito paternal que, segundo dison Carneiro,

    seriam prprios dos trabalhos no apenas de Gilberto Freyre, mas tambm do mdico

    alagoano Arthur Ramos 315 igualmente um entusiasta da fiscalizao e da tutela mdica-

    psiquitrica dos negros e demais grupos de cultura considerados por ele como primitivos

    313 Mariza Corra, As iluses da liberdade, op.cit., pp.227-228. 314 Gilberto Freyre apud Idem, pp.228-29 (nfases minhas). 315 Cf. dison Carneiro, A explorao do negro, A Manh, Rio de Janeiro, 14 de novembro de 1935.

  • 168

    e pr-lgicos, a exemplo dos selvagens, das crianas-problema, dos delinquentes, dos

    esquizofrnicos e dos psicopatas 316.

    Afinal, para Arthur Ramos, se a raa j no representava um fator de apreenso

    para que se continuasse a alimentar um complexo de inferioridade que tanto nos tem

    atravancado nos anseios de um verdadeiro progresso, o mesmo no podia ser dito com

    relao ao substrato emocional e cultural da psique do povo brasileiro que, imerso no

    pleno domnio de um mundo mgico e impregnado pela religio negro-fetichista

    transportada da frica para c, revelava a urgente tarefa dos intelectuais e do Estado em

    submeter os segmentos negros e atrasados da populao ao trabalho lento da verdadeira

    cultura, tornando vivel a substituio dos elementos pr-lgicos em elementos mais

    racionais de concepes de mundo 317. De modo que, registra Anadelia Romo, a rejeio

    ao determinismo racial parecia conduzir a um outro, agora, lastreado nas diferenas e das

    desigualdades culturais: substituam-se os termos, but the role ascribed to African culture

    was still bound by the same concepts of superiority and inferiority. Blacks, now re-labelled

    as Africans, retained an inferior position in a hierarchy of cultural influence and worth 318.

    dison Carneiro, decerto, no esteve em desacordo quanto existncia dessa

    hierarquia entre as culturas de matrizes africanas e europeias. No entanto, uma srie de

    316 Cf. Olvia Gomes da Cunha. Sua alma em sua palma: identificando a raa e inventando a nao, op.cit. e Mariza Corra, As iluses da Liberdade, op.cit. 317 Arthur Ramos, O negro brasileiro, op.cit., pp.295-96. Como lembrava o prprio Ramos na introduo de O negro brasileiro, foi em virtude de minha profisso de mdico legista e clnico que me pus em contato, na Bahia, com as classes negras e mestias e, depois, no Rio de Janeiro, como empregado do Servio de Ortofrenia e Higiene Mental, ligado Secretria de Educao do Distrito Federal, a partir de 1933, com o estudo da populao proletria dos morros, das macumbas e dos centros de feitiarias cariocas. Idem, pp.22-23. Mesmo perodo em que tambm assumiu a cadeira de Psicologia Social, na Universidade do Distrito Federal, e iniciou suas pesquisas, inspiradas na psicanlise, em escolas primrias cariocas acerca da delinquncia infantil. Ou seja, crianas, delinquentes e negros, no por acaso, trs objetos de especial interesse nos trabalhos de Arthur Ramos, os quais ele tendia a aglutinar como pertencentes a uma nica categoria em termos de mentalidade: a de primitivo, pois todos eles julgariam poder agir sobre as coisas que o rodeiam, acreditando que os seus desejos seriam ordens. Pensamentos tpicos, segundo Ramos, daquela fase da evoluo sexual em que a libido se dobra sobre o eu, onde a magia surgiria da convico inconsciente de poder influenciar as foras exteriores. Idem, p.211. Os ttulos dos primeiros trabalhos de Arthur Ramos so reveladores das sensveis relaes entre as atividades mdicas, o interesse pela psicanlise e o estudo de grupos ou categorias sociais entendidos como pr-lgicos e, portanto, passveis de polticas higinicas, educacionais e correcionais, pois incapazes de governarem os prprios atos de maneira lgica e racional: Freud, Adler e Jung (1933), Psiquiatria e psicanlise (1933), Educao e psicanlise (1934), O negro brasileiro: etnografia religiosa e psicanlise (1934), O folclore negro do Brasil: demopsicologia e psicanlise (1935), Introduo psicologia social (1936), Loucura e crime (1937), e A criana problema: a higiene mental na escola primria. 318 Anadelia A. Romo, Rethinking Race and Culture in Brazils First Afro-Brazilian Congress of 1934, op.cit., p.33.

  • 169

    fatores contribuiu para que moldasse chaves de entendimento diferenciadas e mesmo

    originais no que tangia s noes de inferioridade e superioridade entre as culturas, assim

    como aos problemas pertinentes integrao do negro e do elemento africano no conjunto

    da sociedade nacional. De outra parte, fosse pelo seu marxismo difuso, fosse pelos sentidos

    polticos e ideolgicos investidos em seu engajamento nos estudos afro-brasileiros

    dosados, por vezes, pelos rompantes contidos de agenciar a prpria etnicidade em prol de

    uma liderana virtual da gente de cor , dison acabaria por adotar posies que, em boa

    medida, se mostraram na contramo das orientaes intelectuais e polticas hegemnicas da

    poca. Elas resultaram na luta no apenas pela liberdade de manifestao das religies de

    origem africana, mas tambm pelos direitos de seus praticantes se organizarem civil e

    politicamente, de modo que pudessem ser os nicos e legtimos responsveis pelo

    funcionamento dos cultos e pelo (auto)controle das prprias tradies, por meio da

    associao ou federao de cultos afro-brasileiros capaz de torn-los autnomos e

    independentes dos rgos policiais, das instituies mdicas e dos servios de higiene

    mental de qualquer espcie.

    Tema dos prximos passos da tese, uma das consequncias mais interessantes da

    alta voltagem poltica e ideolgica da atuao de dison Carneiro no campo dos estudos

    raciais foi a posio ambivalente que ele assumiu em face dos dois donos do assunto

    naquela dcada: Gilberto Freyre e Arthur Ramos. Com relao a Freyre, essa ambivalncia

    ganhou foros de discusso pblica no momento em que o socilogo pernambucano colocou

    em questo a seriedade e tambm, quem sabe, as credenciais cientfica de dison

    Carneiro para que ele, auxiliado por colegas remanescentes da Academia dos Rebeldes,

    estivesse testa da organizao do II Congresso Afro-Brasileiro de Salvador, levado a

    termo em janeiro de 1937. Algo que Freyre deixou bem claro em uma entrevista publicada

    poucos meses antes do evento, no Estado da Bahia, na qual acusaria de demaggicos os

    esforos dos organizadores baianos: no me parece que os congressos afro-brasileiros

    devam resvalar para a apologia poltica ou demaggica da gente de cor. Seria sacrificar

    todo o seu interesse cientfico de esforo de pesquisa e de colheita e interpretao honesta

    de material 319. Quanto a Arthur Ramos, dison Carneiro desenvolveu uma relao mais

    319 Gilberto Freyre apud Waldir Freitas Oliveira & Vivaldo da Costa Lima, Cartas de dison Carneiro a Arthur Ramos, op.cit., p.129 (as nfases so minhas). Um participante do congresso de Recife teria

  • 170

    prxima e intensa, porm igualmente atravessada por toda sorte de atitudes e situaes

    ambguas, truncadas e, por vezes, embaraosas: as quais, em enorme medida, estiveram

    atreladas ao delicado jogo de trocas e interesses envolvidos nessa relao e no que ela

    representou para o desenvolvimento de suas carreiras. As tenses desse relacionamento

    atingiriam seus nveis mais crticos no final da dcada de 1930, quando Arthur Ramos

    sentiu que, de alguma forma, suas posies e pesquisas poderiam ser contestadas em

    decorrncia da parceria intelectual e amorosa travada por dison com a antroploga norte-

    americana Ruth Landes. Antes disso, porm, pode-se dizer que a posio ambivalente de

    dison Carneiro em relao ao trabalho e atuao de Arthur Ramos se anunciou desde o

    incio, no momento mesmo em que o mdico alagoano estreou nos estudos etnogrficos do

    negro, com o livro O negro brasileiro. Ao resenhar o livro, em 1935, dison deixaria

    bastante ntida sua posio, no apenas criticando os arroubos psicanalticos de Ramos,

    como tambm marcando seu distanciamento dos discpulos de certa escola

    antropolgica de Nina Rodrigues que estava sendo inventada:

    A interpretao dos fatos sociais exige outros mtodos. No servia para o caso dos negros

    brasileiros, a escola antropolgica de Nina Rodrigues, como tambm no serve a psicanlise

    de mestre Freud, mesmo atravs de um discpulo como o Sr. Arthur Ramos. Somente a

    concepo materialista da histria pode resolver de uma vez por todas, a questo [...] A

    consequncia (a psique individual) no pode explicar a consequncia (a religio, a

    superestrutura ideolgica). Somente o estudo das transformaes econmicas a que a raa

    negra se submeteu e se submete ainda, no habitat originrio e no Brasil, junto aos estudos

    das relaes entre o homem negro e o meio natural e social [...] pode levar interpretao

    exata das concepes religiosas dos negros 320.

    Mas afinal, como o materialismo histrico interpretaria as concepes culturais e

    religiosas dos negros brasileiros? Esta resenha me parece extramente significativa, pois

    evidencia a chave de leitura mais geral que informou o olhar de dison Carneiro sobre os

    grupos afro-brasileiros na dcada de 1930, de resto, ignoradas na apreenso da produo

    comentado sobre as tentativas de controle ideolgico da parte dos comunistas: No posso negar que no tivesse havido tentativas de infiltrao por parte dos comunistas todas repelidas por Gilberto Freyre. Cf. Jos Antnio Golsalves de Mello, Uma reedio necessria in Gilberto Freyre [et.al] Estudos Afro-Brasileiros, op.cit., s/d. 320 dison Carneiro. Nota sobre O negro Brasileiro, Boletim de Ariel, Rio de Janeiro, n7, abril de 1935, p.185.

  • 171

    intelectual do autor naquele contexto. Deste modo, para que possamos avanar e entender

    como tais concepes se expressaram na formatao poltica que dison Carneiro deu ao II

    Congresso Afro-Brasileiro de Salvador, antes, seria interessante recuperarmos a forma

    como o autor construiu e concebeu a ponte entre a anlise da cultura negra, o materialismo

    histrico e as pendncias de sua militncia ideolgica.

    dison Carneiro: o discpulo vermelho

    Um dos primeiros ensaios de dison Carneiro em que possvel notar um esforo

    de anlise marxista do negro no contexto das lutas e da sociedade de classes A situao

    do negro no Brasil, publicado em 1935. Talvez, seu primeiro ensaio analtico mais

    consistente sobre o negro, descontando-se as resenhas, as crnicas e os contos nas quais a

    temtica j havia aparecido um tanto tangencialmente. E no por acaso, tratava-se do texto

    que dison havia preparado especialmente para o Congresso Afro-Brasileiro de Recife,

    ocasio que, em grande medida, marcava no apenas seu dbut nos estudos

    africanologistas, como se costumava dizer na poca, mas tambm o incio de sua insero

    num cenrio de debates e interlocues que seria decisivo para infundir alguma estabilidade

    s ambies de se projetar intelectualmente para alm dos limites da provncia.

    Em termos gerais, o ensaio de dison Carneiro pretendia esboar um panorama

    amplo da histria do Brasil com o intuito de evidenciar como, desde a escravatura at

    aquele momento, veio mudar somente a forma de explorao e domnio sobre o negro

    brasileiro, uma vez que, legalmente liberto, ele se viu forado a sofrer [com] as flutuaes

    do mercado, onde ia buscar comprador para a nica mercadoria de que podia dispor a sua

    fora de trabalho 321. Em sntese, diz o autor, o negro se proletarizou [e] foi forado a

    descer ainda mais do que com a escravido, sob essa outra escravido que era o

    capitalismo 322.

    321 Idem. A situao do negro no Brasil in Gilberto Freyre [et.al] Estudos Afro-Brasileiros, op.cit., p.237. dison Carneiro, em outro texto apresentado no congresso de Recife, faz um trocadilho entre as linguagens dos candombls e da militncia. Ao falar sobre Ogun, deus das guerras e das lutas, Carneiro afirma: donde veio a Leon Trotsky, chefe da corrente internacionalista no movimento comunista, o ttulo de Ogun, que lhe do, em famlia, os camaradas do Rio de Janeiro. Cf. Xang in Gilberto Freyre [et.al]. Novos Estudos Afro-brasileiros, Recife, FUNDAJ/Ed. Massangana, 1988 [1937], p.139 (nfase no original). 322 Idem, A situao do negro no Brasil, op.cit., p.237.

  • 172

    Portanto, no registro de uma continuidade entre a condio de explorados, outrora

    como escravos e agora como negros e proletrios, que dison Carneiro procura entender o

    fenmeno de interpenetrao das culturas no Brasil como o resultado da imposio de

    uma superestrutura poltica (expresso direta dos valores das classes dominantes),

    atravs da qual se iniciou o processo de aculturao dos grupos africanos. Contudo, o

    movimento inverso tambm seria verdadeiro. Afinal, diz o autor, bastaria notar que a lngua

    simples do negro-africano, onomatopeica, ainda em formao, reproduzindo apenas o

    trabalho produtivo realizado em comum nas aldeias natais, estropiou a lngua oficial 323.

    Aqui, dison Carneiro toma a suposta simplicidade e pobreza de linguagem da raa negra

    como a expresso sensvel do grau de desenvolvimento do trabalho produtivo, coerente

    com as etapas de um comunismo primitivo. Esta ideia de determinao das formas culturais

    e simblicas pelos modos de produo e pelas condies materiais de existncia, cara a

    Marx e ao marxismo, teria importncia na maneira como o autor tratou seus dados

    etnogrficos. E, por mais que possam parecer deslocadas, estas linhas de argumentao em

    torno das determinaes dos fatores econmicos e produtivos no entrariam em confronto

    com as abordagens e categorias de um culturalismo de matriz boasiano que passaria a dar a

    tnica dos estudos afro-brasileiros da dcada de 1930.

    Neste sentido, um dos pontos que mais se destaca no ensaio de dison Carneiro o

    modo como ele entende existir um descompasso entre as formas de conscincia do negro,

    ainda ajustada a etapas produtivas arcaicas da humanidade, e sua inscrio numa realidade

    social superior em termos tecnolgicos e culturais. No entanto, ao serem escravizados e

    forados a entrar em contato com grupos socialmente mais evoludos, Carneiro acreditava

    que os africanos no haviam progredido ou mesmo absorvido eficazmente a cultura

    superior do branco. Muito pelo contrrio, as condies nas quais se travaram a

    interpenetrao das culturas somente contriburam para que se refreasse e retardasse o

    desenvolvimento histrico-social dos negros africanos.

    A falta de condies que o ajudassem eficazmente, humanamente, fez com que o problema

    de absoro, por parte dos negros, da cultura superior do branco, sofresse um

    ralentissement, que redundou ainda contra o negro. Nada fizemos de verdadeiramente til

    pela incorporao do negro comunidade brasileira. Agora mesmo quando a Sade Pblica

    323 Idem, Ibidem, p.238 (as nfases so minhas).

  • 173

    aborrece a populao das cidades com milhares de imposies [...] o trabalhador negro [...]

    morre sem cuidados mdicos 324.

    De modo que, sado da escravido e lanado no novo sistema de explorao

    capitalista, sendo incorporado pela via da imposio violenta de uma superestrutura

    jurdica, poltica e religiosa estranha s possibilidades tcnicas da raa no momento

    histrico, o negro no pde (e nem poder) aumentar de muito [sic] o seu nvel

    intelectual e moral, donde a permanncia do animismo, da criminalidade, etc. 325. Se

    notarmos bem, percebemos que Carneiro substitui a noo de inferioridade de Nina

    Rodrigues, produto da marcha desigual do desenvolvimento filogentico 326, pela frmula

    de sociedades inferiores e superiores, conforme o ponto ou o estgio em que elas se

    encontravam em uma linha nica e sucessiva da evoluo humana. E para um comunista

    interessado em apreender o negro brasileiro sob uma tica marxista, no parece aleatrio

    que o jornalista baiano buscasse justificar teoricamente suas crticas aos paradigmas

    racistas e organicistas a partir das ideias do antroplogo norte-americano Lewis Henry

    Morgan (1818-1881) e, em particular, de sua obra Ancient Society (1877) 327.

    Por vrias razes, algumas mais aparentes do que outras, dison encontrou no

    evolucionismo de Morgan um ponto de ancoragem significativo para as discusses sobre as

    relaes raciais e a presena da cultura africana no Brasil. Talvez, uma das mais evidentes

    delas coerente com as concepes de histria e sociedade que dison absorvia da leitura

    324 Idem, p.239-40 (nfase no original). 325 Idem, p.239. 326 Raimundo Nina Rodrigues, Os Africanos no Brasil, op.cit., p.14 327 Sabe-se do profundo impacto que a obra Ancient Society, de Morgan, causou tanto em Karl Marx quanto em Friedrich Engels, especialmente pela forma como Morgan teria sido capaz de conferir densidade histrica e etnolgica aos supostos de uma concepo materialista de histria: uma histria calcada em princpios gerais de desenvolvimento, cujos nexos causais eram construdos a partir das potencialidades tecnolgicas e produtivas das diferentes sociedades, dando especial nfase s formas de propriedade assumidas em cada um dos estgios do desenvolvimento social e histrico. Sendo que, para Morgan, a propriedade privada era o elemento responsvel por fundar o prprio estgio da civilizao e retirar o homem das etapas pregressas da barbrie, estruturando-se a partir da a famlia monogmica e as regras de sucesso de bens e propriedades. E por consequncia, diz Morgan, o governo e as leis instituram-se essencialmente para consagrar, proteger e garantir a sua fruio [da propriedade privada]. Cf. Lewis Henry Morgan, A sociedade primitiva, Lisboa/So Paulo, Martins Fontes/Presena, v.2, 1978, p.249. Sobre as relaes e interfaces entre o marxismo e o evolucionismo de Morgan, ver Emanuel Terray, O marxismo diante das sociedades primitivas, Rio de Janeiro, Ed. Graal, 1979. Em carta para o terico e socialista alemo Karl Kautsky, Engels, em 1884, teria afirmado: Sobre a origem da sociedade existe um livro decisivo, to decisivo quanto Darwin o para a biologia e, naturalmente, ele foi descoberto, uma vez ainda, por Marx: trata-se de Morgan, Ancient Society [...] Morgan redescobriu espontaneamente [...] a concepo materialista da histria de Marx e suas concluses relativas sociedade atual so postulados absolutamente comunistas. Cf. apud Emanuel Terray, O marxismo diante das sociedades primitivas, op.cit., p.29.

  • 174

    dos livros e resumos de Marx e Engels, assim como de Lnin, Stlin, Plekhanov, Bukharin

    e outros divulgadores do marxismo, sobretudo, leninista 328 , era o fato de Morgan

    praticamente anular o papel dos indivduos na produo da histria, pois efmeros, em

    detrimento do trabalho global da sociedade, fonte de todo progresso 329. Uma viso

    que, de resto, se mostrava bastante condizente com os critrios que dison Carneiro

    utilizava para classificar e avaliar a prpria produo intelectual, cultural e literria de seu

    tempo 330. De outra parte, uma vez que para Morgan o progresso da raa humana (atravs

    dos estgios necessrios da selvageria, barbrie e civilizao) se fazia em uma linha nica e

    acumulvel de experincias comuns, separadas no espao e no tempo, [mas articuladas]

    logicamente entre si 331, foi em Ancient Society que dison Carneiro parece ter encontrado

    os argumentos que, ao menos aos seus olhos, melhor esvaziavam de sentido no apenas a

    possibilidade de se realizar qualquer distino entre raas normais e raas anormais 332

    328 Antnio Canelas Rubim mostra que a educao terica e poltica dos comunistas brasileiros nos anos de 1930 se realizou em um mercado editorial que dificultava o acesso a uma literatura marxista mais abrangente, contando com poucas tradues disponveis: sem contar, ainda, se tratar um contexto poltico bastante desfavorvel, marcado por fortes perseguies ao Partido e s ideias comunistas. Lia-se, em menor medida, as obras de Marx e Engels, com exceo, talvez, do Manifesto Comunista, e, em maior, os resumos e as vulgatas sobre o pensamento de Marx, a exemplo de Os Princpios do Comunismo, de Engels; ABC do Comunismo, de Bukharin; Histria do Socialismo e das lutas Sociais e Marx, de Max Beer; e ainda escritos esparsos de outros autores do marxismo internacional, como Lnin, Stlin, Trotsky, Kaustky, Plekhanov e outros. Cf. Antnio albino Canelas Rubim, Marxismo, cultura e intelectuais no Brasil, op.cit., pp.40-43. 329 Cf. Lewis Henry Morgan, A sociedade primitiva, vol.2, op.cit., p.35. Difcil dizer com mais preciso o cardpio de tericos marxistas que dison Carneiro consumia naquele momento. Ele os cita muito pouco em seus artigos. 330 Esta viso comprometida com a anulao do indivduo como ncleo de reflexo da vida social e avaliao da produo literria foi bastante marcada nos escritos de dison naquela dcada, preocupados, sobretudo, em pensar e fazer ressaltar a luta de classes e a atuao das massas. Um dos melhores exemplos, neste sentido, a resenha que o autor escreveu sobre o romance Os Libertos (1934), do escritor russo Daniel Fibitch: criticado por ser um romance que poderia ter por cenrio qualquer outro pas, menos a Unio Sovitica, pois um romance burgus, com personagens burgueses, explorando um tema burgus. Da todo seu valor negativo. A massa, essa grande fora annima que impulsiona o progresso na Unio Sovitica no existe. O trabalho produtivo no entra em linha de conta. Cf. Os libertos, Boletim de Ariel, setembro de 1934 (Acervo Pessoal de Waldir Freitas Oliveira). Os mesmo critrios que, em outra ocasio, aplicou na resenha em que Carneiro saudava o aparecimento de Evoluo poltica do Brasil (1933), de Caio Prado Jnior, considerado um dos primeiros, seno o primeiro esforo de interpretao marxista da colonizao e da histria poltica brasileira. Na resenha, dison anotava que um dos principais mritos do trabalho de Caio Prado era o de ter confrontado uma prtica histrica no somente episdica, como tambm burramente verde-amarela que entre ns se formou: uma histria simplesmente episdica toma lugar da histria social que , sem dvida, a nica fecunda. Da certo fetichismo patritico por alguns indivduos-tteres (dos acontecimentos, j se v), Pedro I, Pedro II, a Princesa Isabel etc. e certo orgulho nacional por figuras polticas do passado e do presente que, separadas assim dos movimentos que determinaram a sua atuao, passam, naturalmente, categoria dos semideuses ou, pelo menos, dos vrios super-homens. Cf. Evoluo poltica do Brasil, Momento do Recife, agosto de 1934 (Acervo Pessoal de Waldir Freitas Oliveira). 331 Lewis Henry Morgan. A Sociedade Primitiva, Lisboa, Presena/Martins Fontes, 1980, vol.1 p.299. 332 Idem, A sociedade primitiva, vol.2, op.cit., p.251.

  • 175

    como tambm a ideia de que a raa fosse determinante da vida social, cultural ou

    intelectual. Nas palavras do prprio dison Carneiro:

    Sabemos hoje que a raa no tem a importncia que se lhe quer dar no desenvolvimento

    social. Nem h raas superiores, nem inferiores. As raas se formaram nos primeiros

    estgios da civilizao, sob a influncia do meio natural, e a sua marca ascensional se faz,

    como quer Morgan, por caminhos uniformes, devido similaridade da inteligncia humana

    e dos obstculos que tm que vencer para chegar dominao da natureza. O que h,

    portanto, no inferioridade ou superioridade racial fixa [...] mas desigualdade de

    desenvolvimento econmico 333.

    Estribado, portanto, nesta leitura cruzada entre o evolucionismo de Morgan e um

    marxismo apreendido de maneira difusa e autodidata, dison Carneiro construiria sua

    crtica teoria da inferioridade biolgica associada raa, compreendendo-a

    fundamentalmente como um artifcio ideolgico de natureza de classe, criado e utilizado

    para fins de dominao entre os povos 334. O mito da inferioridade da raa negra teria

    nascido da necessidade de justificao, por parte da burguesia europeia, dos crimes

    cometidos na frica e na sia, contra o direito dos povos disporem de si mesmos, sendo

    que na verso desse mito, o negro seria qualquer coisa como um autmato incapaz de

    organizar-se por si mesmo e de caminhar a passos seguros para a civilizao seno com

    a interferncia do branco 335. E embora trabalhasse com os termos de inferioridade e

    333 dison Carneiro, A situao do negro no Brasil, op.cit., p.239. 334 possvel que, alm de Morgan, dison Carneiro tivesse tomado conhecimento de Engels e sua obra, A origem da famlia, da propriedade privada e do Estado, publicado em 1884. Grosso modo, um livro que pode ser tomado como uma espcie de fichamento caprichado do Ancient Society, a partir do qual Engels recupera as principais linhas da argumentao de Morgan para provar que as instituies e as formas de relaes capitalistas correspondiam a etapas precisas da marcha do progresso humano, no sendo, portanto, estticas e eternas. Ou em outras palavras, Engels recuperava Morgan com o intuito de provar a escatologia da sociedade comunista, destino inevitvel e final do progresso humano: as classes vo desaparecer, e de maneira to inevitvel quanto no passado surgiram. Com o desaparecimento das classes, desaparecer inevitavelmente o Estado. Friedrich Engels, A origem da famlia, da propriedade privada e do Estado, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1979, pp.195-96. Seja como for, embora dison Carneiro fizesse referncia a Engels em alguns poucos textos seus, nenhum deles mencionou especificamente essa obra de Engels. Contudo, dison citava suas leituras de Plekhanov, um autor marxista que se preocupou em utilizar os dados etnogrficos de Morgan e mesmo do antroplogo britnico, igualmente evolucionista, Edward Tylor, para fazer valer, segundo o autor, o que teria sido a ideia fundamental de Marx para a compreenso de uma concepo materialista da histria, reduzida ao seguinte: as relaes de produo determinam todas as outras relaes que existem entre os homens na sua vida social. As relaes de produo so determinadas, por sua vez, pelo estado das foras produtivas. Cf. Gueorgui Plekhanov, Da filosofia da histria in O papel do indivduo na histria, So Paulo, Expresso Popular, 2000 [1926], p.47. 335 dison Carneiro, As raas oprimidas no Brasil, A Bahia, Salvador, 12 e 13 de novembro de 1934 (Acervo Pessoal de Waldir Freitas Oliveira).

  • 176

    superioridade culturais, Carneiro buscou neutraliz-los dos julgamentos morais que,

    eventualmente, justificassem a necessidade de se dominar os povos menos evoludos em

    prol de um processo civilizatrio. Segundo o autor, a sociedade brasileira, ao dispensar s

    raas oprimidas, o negro e o indgena, a mesma violncia empregada pelas potncias

    europeias imperialistas na atividade colonizadora da frica ou da sia, somente teria

    gerado efeitos nefastos do ponto de vista de seu desenvolvimento e progresso autnomos

    enquanto grupos.

    No Brasil, em particular, o indgena teria sido a raa oprimida mais prejudicada

    pela obra civilizatria destravada pela colonizao. Para Carneiro, a catequizao dos

    ndios pelos jesutas no poderia ter sido mais do que epidrmica e superficial, dada a

    incapacidade do nativo em compreender e incorporar os conceitos abstratos demandados

    pelo cristianismo e pelas novas relaes econmicas em que ele estava sendo inserido:

    forado ao pulo a um estgio econmico superior, somente o ndio perdeu.... 336 O

    resultado deste processo seria a criao de tipos falsos, no mais indgenas, mas

    tampouco brancos.

    Trata-se do mal que ele [Anchieta] e a Companhia de Jesus fizeram indiada [...]

    matando-lhe toda a manifestao de via independente, substituindo os seus deuses e os seus

    costumes por outros que de nada lhes serviriam, desde que no os podia compreender, e

    tornando-a (sic) simples autmatos, igualmente distanciados do portugus e do ndio, sem

    capacidade de chegar altura do branco e j um bocado mais alto para descer de novo at o

    ndio o que preparou seu desaparecimento, como raa e como povo 337.

    Tal como Nina Rodrigues, dison Carneiro revelava-se sensivelmente ctico

    quando s possibilidades de infundir formas superiores de cultura aos povos situados em

    distintos momentos histricos na linha evolutiva. Eis o que Nina Rodrigues chamou de a

    iluso da catequese e que, mesmo o seu mais ardoroso discpulo, Arthur Ramos, teria que

    abandonar a fim de enquadrar o elemento africano no escopo de sua atuao mdica e

    curativa da vida social, depositando todas as suas fichas na assimilao aperfeioadora do

    negro atravs do trabalho da verdadeira cultura: o trabalho da cultura consegue modificar

    336 Idem, Sobre dois livros novos, Hoje. So Paulo, novembro de 1934. 337 Idem, Ibidem.

  • 177

    e aperfeioar tipos de mentalidades, substitui categorias psicolgicas, transforma uma

    representao coletiva em formas mais adiantadas de pensamento 338.

    Deste modo, ainda que a dialtica materialista ensinasse a dison Carneiro o

    carter transitrio de todas as coisas 339, era explcito o ceticismo por ele alimentado, ao

    menos na dcada de 1930, quanto viabilidade e a possibilidade de se adiantar as formas

    de conscincia, o universo cultural e as categorias de percepo da realidade prprios dos

    grupos inferiores. Desdobrava-se, talvez, dessa incredulidade catequtica de Carneiro, seu

    entendimento de que muitas das patologias detectadas nos negros pudessem ser

    atribudas aos maus ajustamentos e conflitos gerados pela destruio sistemtica de suas

    concepes de vida e religio que, embora inferiores, eram legtimas e corretas do ponto de

    vista dos estgios evolutivos em que estavam quando deixaram a frica: a vida intelectual

    do negro aparece, s classes dominantes, como qualquer coisa de brbaro e imoral [...]

    Toda a vida do negro material, social e poltica tem sido sistematicamente destruda [...]

    por meio dessa incorporao forada do elemento negro massa da populao nacional. Os

    resultados desse mtodo draconiano a esto na criminalidade, no analfabetismo, no

    raquitismo e na mortalidade infantil do negro 340.

    Pode-se dizer que de maneira difusa e um tanto desprovida de mtodo e teorias mais

    bem articuladas, dison Carneiro est mobilizando uma chave bastante original de

    338 Arthur Ramos, O Negro Brasileiro, op.cit., p.114. Ainda, a aposta assimilacionista est expressa no seu livro seguinte, O Folclore Negro no Brasil, visto como uma expresso provisria, que o trabalho dos sculos apagar. H elementos negros do folclore brasileiro, hoje ainda identificveis, a ponto de podermos falar ainda em folclore negro. Depois no. Tudo isso ser legtimo patrimnio folclrico, como as supersties das religies europeias. Cf. Arthur Ramos, O Folclore Negro no Brasil, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1935, p.36-37. 339 dison Carneiro, Hegel, Feuerbach, Marx, Boletim de Ariel, setembro de 1935 (Acervo Pessoal de Waldir Freitas Oliveira). 340 dison Carneiro, As raas oprimidas no Brasil, op.cit. (a nfase minha). Aqui, mais uma vez, possvel flagrar a sensvel afinidade de dison com Nina Rodrigues, na medida em que ambos acreditavam que uma srie de patologias sociais poderiam ser explicadas em razo das disjunes de determinados comportamentos e valores culturais com os seus lugares e tempos corretos. Cf. Mariza Corra, As iluses da liberdade, op.cit. Algo que, em Nina Rodrigues, se expressou com bastante clareza ao analisar a violncia e os atos criminosos do cangaceiro Lucas da Feira. Afirmava Nina Rodrigues que Lucas da Feira no tinha caracteres de criminoso nato, sua violncia no era congnita, mas sim clnica. Como verdadeiro selvagem, a vila e seus habitantes representavam para ele sua ptria, sua tribo, seu cl: os outros no eram mais do que estrangeiros em face dos quais ele no se julgava obrigado a ter consideraes [...] Logo, Lucas bem um criminoso para ns outros brasileiros, que vivemos sob a civilizao europeia. Na frica, ele teria sido, ao contrrio, um valente guerreiro, um rei afamado. Era um selvagem domesticado que retomou entre ns toda a liberdade de suas atitudes [...] No era um criminoso nato; no mximo um criminoso de hbito. Cf. As coletividades anormais, op.cit., pp.162-63 (nfases so minhas).

  • 178

    tratamento ao problema negro no Brasil, ao buscar entend-lo a partir das categorias raa e

    classe social. Fato debatido na histria brasileira que esta forma de tratamento analtico

    do negro, a partir da raa e da classe, foi inaugurada em nossas cincias sociais pelos

    trabalhos produzidos no mbito do Projeto UNESCO, na dcada de 1950. Em especial, nas

    pesquisas realizadas por Florestan Fernandes, em So Paulo, e Luis de Aguiar Costa Pinto,

    no Rio de Janeiro 341. Decerto, no se trata de dizer que dison Carneiro antecipa a

    instituio de linguagens modernas na prtica sociolgica e antropolgica brasileiras, tendo

    em vista o significado dessas pesquisas na consolidao de uma nova dico intelectual e

    acadmica. No entanto, o fato desta chave de leitura (raa e classe) j aparecer de maneira

    persistente no trabalho de Carneiro revela que a dcada de 1930 foi bem mais rica e

    diversificada em termos de propostas de anlise sobre negro brasileiro do que,

    recorrentemente, os estudos apontam 342.

    A linguagem, o recorte e os ncleos de interesses dispensados por dison Carneiro

    ao entendimento da situao social e cultural do negro no Brasil podem ser lidos, portanto,

    como derivaes de uma dupla ordem de investimentos: pessoal e coletivo. Pessoal, de um

    lado, pois diz respeito aos prprios esforos de dison em fazer valer as leituras e os

    repertrios que embasavam sua militncia poltica de modo a justificar sua presena na

    cena dos debates raciais que ento se consolidava. Coletivo, por outro lado, na medida em

    que expressam as requisies simblicas dos negros como agentes virtuais das bandeiras e

    diretrizes encampadas pelos intelectuais de esquerda e do Partido Comunista, aglutinados

    naqueles meados de dcada em torno da Aliana Nacional Libertadora (ANL) 343:

    341 Florestan Fernandes & Roger Bastide, Brancos e Negros em So Paulo. S.P, Ed. Nacional, 1958 e Luis de Aguiar O negro no Rio de Janeiro: relaes de raa numa sociedade em mudana. Rio de Janeiro, Ed.UFRJ, 1998. 342 Para uma anlise abrangente da histrica do Projeto UNESCO e sua importncia para as cincias sociais no Brasil, ver Marcos Chor Maior, A Histria do Projeto UNESCO: estudos raciais e cincias sociais no Brasil. Rio de Janeiro, (Tese de Doutorado), Iuperj, 1997. Sobre a histria das cincias sociais e suas linguagens e mtodos modernos, ver Sergio Miceli, Condicionantes do desenvolvimento das cincias sociais. In: Sergio Miceli. (org.). Histria das Cincias Sociais no Brasil. So Paulo, Ed. Sumar, vol. 1, 2001; Maria Arminda do Nascimento Arruda, Metrpole e Cultura. Bauru, EdUSC, 2001; Heloisa Pontes, Destinos Mistos: os crticos do grupo Clima em So Paulo (1940-1968). So Paulo, Cia das Letras. 1998; Luis Rodolfo Vilhena, Projeto e misso: o movimento folclrico brasileiro, Rio de Janeiro, Funarte/FGV, 1997; Fernanda Peixoto. Dilogos Brasileiros: uma anlise da obra de Roger Bastide, So Paulo, Edusp, 2000 Mariza Corra, "A antropologia no Brasil (1960-1980)", Histria das Cincias Sociais no Brasil. (Org.). Sergio Miceli, S.P, Sumar/FAPESP, vol. 2, 1995. 343 Fundada em maro de 1935, a Aliana Nacional Libertadora reuniu intelectuais, lideranas polticas e populares de diferentes tendncias polticas e ideolgicas com o intuito de compor uma frente nica de

  • 179

    A ANL precisa utilizar o mais possvel, no momento atual, a grande vontade de luta dos

    negros, despertada pela guerra imperialista contra a Abissnia. Para isso devem ser enviados

    os maiores esforos e empregados todos os mtodos e recursos [...] Nos lugares onde

    houver organizaes negras, cham-las frente com a ANL contra a guerra, o imperialismo

    e contra o fascismo pela defesa dos interesses especficos dos negros em cada localidade

    [...] Nas localidades e principalmente nas capitais nas quais no existem organizaes

    negras como a Frente Negra, os aliancistas devem imediatamente tomar iniciativa de sua

    organizao, sem fazer questo de programas radicais, nem de imediata adeso formal a

    ANL 344.

    E apesar da circular da ANL ser muito pouco precisa na afirmao de quais eram

    esses direitos especficos, parecia ntido, no entanto, que a presena e as reivindicaes

    dos grupos e movimentos negros ganhavam fora e visibilidade na cena pblica da poca, a

    ponto deles emergirem como alvos de discursos particularizados no interior dos projetos

    nacionais dos partidos e organizaes polticas 345. Em um campo intelectual cindido e que

    tendia a se representar como cindindo-se dentro dos mesmos cortes que assinalavam as

    contendas polticas 346, a produo incipiente de dison Carneiro nos assuntos afro-

    oposio ao governo de Getlio Vargas, ao mesmo tempo em que invocava o combate ao fascismo e ao imperialismo como uma de suas diretrizes principais. Entre os temas que constavam no programa da ANL, pode-se destacaram-se o cancelamento das dvidas externas e das dvidas agrcolas internas, a entrega dos latifndios s classes laboriosas, a defesa da pequena e mdia propriedade e a defesa do capital nacional. Sobre a ANL, com nfase na atuao do Partido e dos intelectuais comunistas, ver Ana Paula Palamartchuck, Os novos brbaros: escritores e comunismo no Brasil, op.cit. e Francisco Carlos Pereira Cascardo, A Aliana Nacional Libertadora: novas abordagens in Jorge Ferreira e Daniel Aaro Reis (org.), A formao das tradies (1889-1945), Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 2007. 344 A citao em questo de um trecho de uma das circulares lanadas pela ANL na poca de sua fundao. Apud Jacira Cristina Santos Primo, Tempos vermelhos: a Aliana Nacional Libertadora e a poltica brasileira, op.cit., p.64. A autora ainda recupera uma circular do PCB, de 1935, na qual era mencionada a importncia da ANL se transformar no paladino das lutas pela igualdade de direito das massas negras, visando no apenas atrair as organizaes revolucionrias locais negras, mas tambm firmar uma luta conjunta com a chamada frente negra. Apud Idem, p.65. Certamente, estavam as lideranas da ANL conscientes da crescente capacidade de organizao e mobilizao da Frente Negra Brasileira movimento que, inclusive, chegou a se organizar em partido poltico, em 1937, embora tivesse tido sua licena caada to logo se instaurou o Estado Novo. 345 Evidentemente, importante lembrar que o prprio Estado brasileiro ps-1930 passaria a dispensar ao negro um lugar particular nas suas manifestaes cvicas e comemorativas. Representaes de um negro desafricanizado e, em parte, embranquecido comeariam a ser apropriadas e manipuladas pelo Estado brasileiro no sentido de dar corpo a um discurso de congraamento e unio das trs raas/culturas formadoras da sociedade e da cultura brasileiras. Um discurso que ganharia destaque na poltica cultural do governo Vargas e, especialmente, no Estado Novo, ao promover uma srie de iniciativas com o intuito de resgatar uma autntica identidade nacional, no negra, mas, sobretudo, mestia e popular. Cf. Renato Ortiz, Cultura Brasileira & Identidade Nacional, op.cit. e Lilia Moritz Schwarcz, Complexo de Z Carioca: notas sobre uma identidade mestia e malandra, Revista Brasileira de Cincias Sociais, n29, outubro de 1995. 346 Alfredo Wagner Berno de Almeida, Jorge Amado: poltica e literatura, op.cit., p.105.

  • 180

    brasileiros era o retrato candente destes esforos de reprocessamento analtico das energias

    liberadas no espectro das disputas ideolgicas. Ou melhor dizendo, sua prtica e sua

    produo intelectual figuravam como partes expressivas desse movimento mais abrangente

    de apropriao simblica de um segmento especfico da sociedade brasileira, cujas

    aspiraes e interesses os comunistas queriam atrelados s suas representaes como

    mandatrios do proletariado e dos grupos oprimidos.

    Certamente no foi por acaso ou por razes unicamente associadas ao

    redescobrimento cientfico da temtica racial que, tal como dison, outros jovens escritores

    e militantes do PCB se mostraram igualmente dispostos a construrem seus retratos do

    negro brasileiro, convertendo-o, em maior ou menor medida, numa espcie de cavalo de

    santo ideal para a incorporao ou personificao das fices sociais que amparavam a

    luta revolucionria 347. E embora fossem poucos, no deixaram de ser extremamente

    significativos e dignos de nota ensaios como Insurreies negras no Brasil, de Aderbal

    Jurema, e romances, como Jubiab, de Jorge Amado, e O quilombo de Manoel Congo, de

    Carlos Lacerda (1914-1977). Todos os trs publicados no ano de 1935, no momento em

    que seus autores, vinculados ao PCB, passavam a canalizar o melhor de seus esforos para

    a viabilizao da ampla frente popular preconizada pela ANL; sendo que os dois primeiros

    haviam participado, no ano anterior, do congresso afro-brasileiro de Recife 348.

    347 Ou nos termos de Bourdieu, os esforos em tornar eficaz a magia social das delegaes de representao e de instituio de porta-vozes. Magia atravs da qual se disputa a legitimidade e a eficcia simblica do poder de se identificar com e de falar em nome de outros grupos ou entidades sociais (o povo, a nao, o Estado, os negros, os proletrios etc.): o porta-voz dotado do pleno poder de falar e agir em nome do grupo e, em primeiro lugar, sobre o grupo pela magia da palavra de ordem, o substituto do grupo que somente por esta procurao existe; personificao de uma pessoa fictcia, de uma fico social, ele faz sair do estado de indivduos separados os que ele pretende representar. Cf. Espao social e gnese das classes in O Poder Simblico, Lisboa, Difel, 1989, p.158 (nfases minhas). 348 O livro de Carlos Lacerda, O Quilombo de Manoel Congo, por razes que desconheo, foi originalmente publicado sob o pseudnimo de Marcos. Contudo, pode-se aventar a hiptese de que Carlos Lacerda estivesse seguindo alguma orientao partidria. Algo que, por exemplo, ocorreu com a escritora e ento militante do PCB Patrcia Galvo, Pagu (1910-1962) que, em funo da no concordncia dos dirigentes partidrios com as ideias de seu romance proletrio, Parque Industrial (1932), se viu constrangida a lanar o livro com o pseudnimo de Mara Lobo. Cf. Geraldo Ferraz, Prefcio in GALVO, Patrcia (Pagu), Parque Industrial: romance proletrio, Porto Alegre/So Paulo, Mercado Aberto/Ed.UFSCAR, 1994[1933]. Para uma anlise da prtica poltica, literria e cultural de Pagu luz das inflexes de gnero no campo intelectual brasileiro, ver Heloisa Pontes, Crtica de cultura no feminino, Mana, vol.14, n2, outubro de 2008. Carlos Lacerda e Jorge Amado eram colegas de turma na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, onde estudavam desde 1930 e atuavam como lderes da Juventude Comunista da instituio. Vale dizer que, no ato de fundao da ANL, coube a Carlos Lacerda a leitura do manifesto que props o nome de Lus Carlos Prestas (ento em Moscou) como seu presidente de honra. Cf. Francisco Carlos Pereira Cascardo, A Aliana Nacional Libertadora:

  • 181

    Apreendidos como expresso de uma posio duplamente oprimida, como negro e

    como proletrio, os escravos africanos e seus descendentes resultavam ser, aos olhos desses

    autores, as encarnaes exemplares de certa pedagogia da revolta que teria se manifestado

    constantemente atravs de sua literatura de smbolos, santos e deuses afro-americanos 349.

    Afinal, como afirmava Carlos Lacerda, se a histria do Brasil tem sido a histria das

    classes dominantes, recuperar os gestos de insurgncia dos escravos contra seus senhores,

    organizados em quilombos e tomando em armas para lutar pela sua liberdade,

    significava uma tentativa de olhar essa histria pelo seu inverso, de buscar, na luta dos

    dominados do passado, ensinamentos que poderiam ser aproveitados pelas geraes

    futuras 350. Tudo se passava como se, ao lutar contra a escravido e a condio de cativo, os

    negros, guiados pelo instinto de liberdade to apurado em todas as suas manifestaes

    culturais 351, estivessem tambm virtualmente lutando, ao lado dos comunistas brasileiros,

    contra o governo Vargas, o fascismo, o capitalismo e a burguesia. De modo que, uma das

    consequncias mais marcantes desses trabalhos era que o negro estaria quase fatalmente

    destinado a transformar seu legado e seu esplio histrico como raa escravizada em

    conscincia revolucionria de classe:

    O negro vai compreendendo que o seu problema no simplesmente um problema de raa.

    antes um problema de classe [...] Em determinado momento histrico, o sentimento

    revolucionrio em potencial que o negro possui e nos transmitiu h de se transformar em

    conscincia revolucionria de classe. Com o desenvolvimento dos acontecimentos

    novas abordagens, op.cit., p.466. Em grande medida, as posies de Lacerda e Amado eram homlogas s de dison Carneiro e Aderbal Jurema, nos respectivos estados, Bahia e Pernambuco. 349 Cf. Aderbal Jurema, Insurreies negras no Brasil, op.cit., p.65. 350 Carlos Lacerda (Marcos), O Quilombo de Manoel Congo, Rio de Janeiro, Lacerda Ed, 1998 [1935], p.9. A escravido representaria, segundo o autor, o remate em cmara lenta de uma luta que era dos prprios escravos, insurgidos contra os seus senhores, e organizados em quilombos [...] tomando armas para lutar pela sua liberdade. E complementa: o quilombo guarda ensinamentos [...] A questo saber aproveit-los. Idem, Ibidem. Assim, pela analogia direta entre escravido e capitalismo, era como se as insurreies e os quilombos promovidos pelos negros escravos ainda estivessem em curso na sociedade moderna, ecoando como o grito de uma liberdade no consumada de fato. A antiga voz das senzalas seria, no capitalismo, a voz das fbricas: teus gritos sero ouvidos porque a tua voz no morreu. Dentro dos tempos ela estalar como um eco. Ela a voz dos oprimidos, dos explorados de todo o mundo. a voz das senzalas, a voz das fbricas, a voz dos torturados e dos humildes [...] A voz que vai crescendo e h de ensurdecer os opressores. Idem, p.47. 351 Cf. Aderbal Jurema, Insurreies negras, op.cit., 67.

  • 182

    econmicos, polticos e sociais no Brasil e nas Amricas, este potencial ser a fora viva de

    um novo mundo 352.

    O trecho acima, mesmo no sendo, poderia perfeitamente servir de epgrafe ao

    romance Jubiab, de Jorge Amado, sem qualquer prejuzo compreenso de seu projeto

    literrio e poltico. Ao narrar a trajetria do negro Balduno, escolhendo como cenrio a

    Roma africana, a cidade de Salvador, Amado pretendia dramatizar justamente este

    processo de transformao explosiva do potencial revolucionrio do negro brasileiro

    quando reconvertido na fora viva e criadora da luta e da conscincia de classe 353. Para

    tanto, dando provas de um conhecimento muito mais vigoroso do simbolismo afro-

    brasileiro, sensivelmente precrio ou ausente nos trabalhos de Aderbal Jurema e Carlos

    Lacerda, Amado plasmava na fico as etapas de um aprendizado poltico concretizado,

    sobretudo, graas socializao do personagem principal com o universo mtico e religioso

    dos candombls, o qual, menos do que se opor ao poltica revolucionria, seria o seu

    elemento catalisador: fonte de uma solidariedade racial propiciatria daquela mais ampla e

    libertadora, pautada nas reivindicaes de classe 354.

    Seja como for, apenas a amizade ou as afinidades ideolgicas de dison Carneiro

    no explicariam o entusiasmo e a recepo calorosa dele ao romance de Jorge Amado. Em

    seu olhar, Jubiab parecia dosar, com equilbrio, militncia e arte poltica com o registro

    honesto da realidade social e cultural do negro, sem trair a verdade dos fatos e das

    coisas. Tal como os negros pem em tudo uma grande dose de imaginao, a ao do

    romance se divide entre a realidade ambiente e o mundo interior, mas, ao contrrio do que

    se poderia pensar, esses dois mundos no se opem, no lutam. Penetram-se, desconhecem

    fronteiras que os limitem 355. O vigor e a fora de Jubiab estariam, ento, no fato dele ter

    conferido um tratamento supostamente verossmil ao modo como os negros tendiam a

    perceber e apreender a realidade. O mundo intelectual e mental da raa emergia ali em

    352 Idem, pp.67-69. 353 A designao de Salvador como a Roma africana foi registrado por dison Carneiro, a partir da fala da me-de-santo Aninha, ento lder de um dos candombls mais tradicionais de Salvador: o Ax Op Afonj. Cf. dison Carneiro, Negros bantos in Religies negras/Negros Bantos, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1991 [1937], p.130. 354 Para uma discusso mais vagarosa e detalhada dos significados implicados no tipo de tratamento que Jorge Amado dispensou questo racial e aos dados etnogrficos da cultura afro-brasileiro no conjunto de sua literatura proletria da dcada de 1930, ver Luiz Gustavo Freitas Rossi, As cores da revoluo, op.cit. Especialmente, o captulo 3, O grito negro da revolta. 355 dison Carneiro, Uma toada triste vem do mar. O Jornal. Rio de Janeiro, 24 de novembro de 1935, s/d.

  • 183

    toda sua profundidade e complexidade culturais, com o mstico penetrando e

    impulsionando a ao dos personagens; onde a luta de classes surgia conscincia do

    negro sempre por vias difusas e indiretas: nos abc, nos sambas, no sentimento do

    antagonismo das raas, no sofrimento ainda resignado, mas onde j desponta a revolta

    pelo presente, e no valor de smbolo que a greve tinha para o personagem principal,

    inteligvel na medida em que ele a associava ao colar de contas usado nos candombls e

    nas macumbas 356 pois tudo junto mesmo bonito, [mas] cai uma conta, as outras caem 357. Tanto que, notava Carneiro, embora Balduno fosse um negro salvo e educado pela

    greve, o processo de revoluo [nem mesmo chegava] conscincia da [grande

    maioria] dos negros simples e bons que povoam o romance 358. Eis ento o realismo da

    cidade e da populao negra de Salvador, narradas por Jorge Amado: ambas pobres, negras

    e marcadamente africanas, dando feio a uma vida social e cultural onde as explicaes de

    ordem mgica e msticas afro-brasileiras penetravam e se fundiam realidade concreta

    e objetiva. Uma vida social, por fim, imersa em certa urea de otimismo sentimental

    prpria de uma cidade onde a industrializao capitalista no conseguiu ainda matar o

    carter pacfico e alegre da populao trabalhadora 359.

    Em meio guinada de interesses que passavam a revestir e impulsionar o debate

    racial no Brasil, no surpreende, neste sentido, que dison Carneiro buscasse mostrar como

    o negro comeava a ser objeto de uma outra forma de explorao, alm da econmica: a

    intelectual. Uma explorao, nas palavras do prprio autor, talvez, inconsciente, mas ainda

    assim [uma] explorao, atravs da qual o interesse pelo irmo negro [se] degenera em

    falsidade patente [com relao sua] psique e em exibicionismo literrio ao gosto dos

    blass das ruas elegantes 360. O artigo, de ttulo forte e direto, Explorao do negro, lana

    muitas pistas sobre as motivaes que levaram Gilberto Freyre a acusar Carneiro, na

    356 Idem, Ibidem. significativo, neste sentido, que dison Carneiro tenha repreendido o trabalho de Aderbal Jurema, Insurreies negras, justamente por uma suposta falta de profundidade no tratamento do negro, transformado unicamente em bandeira para a revoluo proletria, desprovido de psicologia e cultura prprias: h muita pouca profundidade [...] muita vontade de pregar a revoluo proletria, usando como bandeira o exemplo do negro...O negro, em Aderbal Jurema, no um fim, um meio. Nestas condies, o estudo do negro vira demagogia, no arma de combate srio e honesto. Idem, Explorao do negro, op.cit. 357 Jorge Amado, Jubiab, op.cit., p.287. 358 dison Carneiro, Uma toda triste vem do mar, op.cit. 359 Idem, Ibidem. 360 Idem, Explorao do Negro, A Manh, Rio de Janeiro, 14 de novembro de 1935, s/d. (Acervo Particular de Waldir Freitas Oliveira).

  • 184

    condio de organizador do Segundo Congresso Afro-Brasileiro, de resvalar na apologia

    poltica e demaggica da gente de cor 361. Mas tambm, o artigo nos ajuda a tornar

    ainda mais ntidas a prtica intelectual e as representaes de dison sobre sua posio no

    conjunto dos estudiosos e estudos afro-brasileiros.

    Afinal, se perguntava o autor: quais os homens que levaram a srio o problema do

    negro no Brasil? Nina Rodrigues, Arthur Ramos. E s. No podendo esquecer outros

    pesquisadores tais como Manuel Querino, Gilberto Freyre e, mesmo, Roquette-Pinto. Mas

    somente Nina Rodrigues e Arthur Ramos fizeram do estudo do negro, seno o nico, pelo

    menos o objetivo principal da sua vida. Isto porque, somente os dois teriam efetivamente

    entrado em contato com o mundo espiritual da raa, guiados por um tipo de simpatia

    fraternal pela grande raa oprimida que valia por todos os compndios cientficos. No

    importando, para tanto, que o primeiro tivesse repetido as tolices de Lombroso e Ferri e o

    segundo, utilizado a engrenagem psicanaltica de mestre Freud. Importava, antes, que,

    mesmo com intenes ou vias tericas enviesadas, Nina Rodrigues e Arthur Ramos teriam

    sido os responsveis por despertar o interesse pelas coisas ligadas vida do irmo mais

    escuro 362.

    Entretanto, a despeito de tais mritos, dison no deixava de coloc-los no mesmo

    nvel de todos os outros pesquisadores do assunto, no que dizia respeito a certo jeito

    paternal de tratar o negro. Algo que seria particularmente evidente no velho Nina que,

    supondo-se ingenuamente superior ao negro, [...] ensina[va] mtodos para domestic-los.

    Enquanto na obra de seu discpulo, Arthur Ramos, o negro se despersonaliza[va],

    vale[ndo] apenas como objeto de estudo. Ora, cad o irmo negro? 363. Embora estudado

    e pesquisado, para dison, o irmo negro continuava a ser apenas um motivo de

    retrica: alvo de um discurso vazado por toda sorte de preconceitos, ideologias e

    pruridos classistas que o reduzia quase exclusiva a condio de matria-prima

    cientfica ou literria, e nunca como parte de um grupo portador de direitos e interesses

    particulares. E ainda que presente nos trabalhos de Nina Rodrigues, de Arthur Ramos e

    mesmo de Manoel Querino, um negro que aderiu ideologicamente a burguesia, essa

    361 Apud Waldir Freitas de Oliveira e Vivaldo da Costa Lima, Cartas de Arthur Ramos a dison Carneiro, op.cit. 362 dison Carneiro, A explorao do negro, op.cit., s/d. 363 Idem, Ibidem.

  • 185

    forma de explorao do negro aparece com mais fora em Gilberto Freyre, cuja obra

    resguardava muito do sadismo do senhor de escravos, do prazer pelo sofrimento

    annimo da raa e de uma nostalgia mal disfarada dos tempos da escravido 364.

    A verdade nua e crua que todos esses escritores no tm a capacidade de se porem na

    pele de um negro... Todos eles sentem como brancos, como indivduos alheios raa.

    Mesmo Manuel Querino, negro autntico dos princpios do sculo XIX [...] No podendo

    sentir como negros, eles o utilizam animados da melhor das intenes do mundo,

    reconheo, apenas como matria-prima. Ora, era nessa mesma qualidade que os

    escravagistas o iam caar nas florestas da frica. A tarefa difcil e, parece, nenhum dos

    atuais pesquisadores a realizar na prtica. Fica, apenas, a esperana de que futuramente, a

    prpria raa negra fornea o grande intelectual que lhe interprete as aspiraes

    autodeterminao, liberdade 365.

    Aqui, talvez, estaria dison Carneiro mobilizando de forma ambivalente sua prpria

    etnicidade para pleitear o papel do grande intelectual capaz de interpretar as aspiraes

    da raa negra? Muito provavelmente, sim. Como ser retomado adiante, dison parece no

    ter desprezado a possibilidade de se projetar como um tipo de liderana dos direitos e da

    liberdade dos irmos de cor, ainda que tais pretenses no fossem o resultado de um

    sentimento de pertencimento a uma comunidade tnica, nos termos de Max Weber 366.

    Pode-se dizer que dison Carneiro continuava a mobilizar em seus estudos afro-brasileiros

    esquemas de percepo e classificao raciais similares queles que informaram seu

    aprendizado social e intelectual, os quais, como visto no primeiro captulo, tendiam a

    marcar o ser negro nos espaos africanos e/ou pobres e proletrios da sociedade baiana. E

    dison no era nem um e nem outro. O que, certamente, no impediu que dison fosse

    visto ou aprendido enquanto tal em outras situaes ou sistemas de relaes, ou ento, que

    ele buscasse se valer da cor em contextos e momentos de sua trajetria em que esse

    marcador pudesse ter alguma rentabilidade simblica: seja, por exemplo, nesse registro

    cifrado e contido, quando pleiteava uma posio como porta-voz das aspiraes do irmo

    364 Idem, Ibidem. 365 Idem, Ibidem (as nfases so minhas). 366 Ou seja, um grupo, uma comunidade ou uma raa negra qual dison Carneiro se sentisse subjetivamente ligado por laos de pertencimento, pautados em discursos de origem ou destinos comuns, em oposio a outra raa ou grupo. Cf. Max Weber, Comunidades tnicas in Economa y Sociedad, Mxico, Fondo de Cultura Econmica, 2002, p.315.

  • 186

    de cor, buscando se distinguir daqueles intelectuais que apreenderam o negro apenas como

    matria-prima, pois incapazes de se porem na pele de um negro, seja na forma sutil de

    se construir cumplicidades e relaes de confiana com o povo de santo, frente ao qual a

    cor de dison podia contar a seu favor 367.

    Seja como for, a linguagem de forte apelo demaggico em torno do irmo de cor,

    a crtica cida aos paternalismos dos estudiosos da poca e a abordagem interessada nas

    diversas formas de explorao econmica e intelectuais do negro, todos esses elementos

    davam bem a tnica da viso ideolgica que dison Carneiro projetava sobre os grupos

    afro-brasileiros. Afinal, embora alimentasse um sensvel ceticismo quanto efetiva

    integrao do negro-africano na sociedade brasileira, em funo de sua recente

    proletarizao, j comeavam a surgir alguns negros conscientes, que se adaptaram, bem

    ou mal, superestrutura poltica da sociedade brasileira [e] sabem perfeitamente que os

    seus interesses imediatos e futuros no so em nada diversos dos do proletariado em geral

    [...] Os negros comeam a tomar papel ativo na conquista desse objetivo. Sabe-se que o

    negro tem fornecido um grande contingente para as fileiras do Partido Comunista do

    Brasil 368.

    Contudo, apenas alguns negros, por razes no muito explicadas por Carneiro,

    lograram esta adaptao superestrutura poltica da sociedade brasileira. Enquanto

    coletividade, o negro, no singular, continuou a ser visto pelo autor como um forte enclave

    africano no corpo e na alma da nao. Talvez agora comece a ganhar contornos mais firmes

    um ponto que venho ressaltando no decorrer do captulo e que diz respeito ao modo como o

    marxismo de dison Carneiro o aproximou, de vrias maneiras, de Nina Rodrigues. Em

    particular, destacam-se as reflexes relacionadas durabilidade e persistncia das

    instituies africanas no conjunto da sociedade. Instituies e mentalidades que, para

    Nina Rodrigues, seriam sempre um fator de nossa inferioridade enquanto povo, e para

    dison Carneiro significavam os ritmos desiguais na marcha evolutiva. Mas instituies e

    367 Algo que se encontra sugerido, por exemplo, em uma reportagem sobre o antigo informante de Nina Rodrigues, Martiniano Eliseu do Bonfim, publicada no Estado da Bahia, em 1936, quando dison l trabalhava. Dizia o reprter: Fomos ouvi-lo [a Martiniano]. Como todo negro africano desconfiado. V no branco um inimigo tradicional, no acredita jamais em suas boas intenes. As experincias tm sido muitas. As traies incontveis [...] Sabedor disso nos fizemos acompanhar de dison Carneiro, um antigo amigo do velho do professor. Cf. APEBa, Jornais Raros, No mundo cheio de mistrio dos espritos e pas de santo, Estado da Bahia, Salvador, 14 de maio de 1936 (as nfases so minhas). 368 dison Carneiro, A situao do negro no Brasil, op.cit., p.340 (as nfases so minhas).

  • 187

    mentalidades que, para ambos, deviam ser lidas e compreendidas em seus tempos e espaos

    prprios. O II Congresso Afro-Brasileiro de Salvador e os esforos de dison Carneiro em

    decretar a autonomia civil e jurdica das religies de origem africanas, temas dos prximos

    tpicos, foram algumas das materializaes mais expressivas de sua atuao como

    africanologista.

    A democracia operria, que vem de baixo para cima [...] das massas para o Partido e para

    os rgos dirigentes da sociedade, no pode opor s aspiraes populares o tabu da unidade

    da ptria ou qualquer coisa igualmente estpida. A democracia operria tem que cumprir

    seu dever, dando s raas e s nacionalidades oprimidas a oportunidade de se governarem

    por si mesmas, reconhecendo-lhes [...] at mesmo o direito de se separarem e formarem

    Estados independentes mesmo burgueses [...] Talvez o negro, sob o regime comunista,

    no deseje se separar do proletariado branco. Ele, forado vida civilizada, conhece, bem

    ou mal, os benefcios que podero resultar de uma aplicao mais humana das conquistas

    materiais e intelectuais da humanidade. Por outro lado, no se deve esquecer que o

    proletariado negro concorrer brilhantemente para o prprio sucesso poltico do

    proletariado brasileiro em geral. Prevendo, porm, o caso, no de todo improvvel, de que o

    negro no se sinta totalmente satisfeito com a colaborao do branco na sociedade

    comunista, o proletariado ter de reconhecer-lhe, desde j, o direito de governar por si

    mesmo e de formar, caso queira, o seu Estado independente 369.

    Camarada Nina Rodrigues e So Ramos: posies em falso do intelectual feiticeiro

    Eis, ento, a utopia proletria plasmada por dison Carneiro: a de um futuro

    passvel de comportar, tolerar e at mesmo garantir o desenvolvimento autnomo das

    desiguais marchas do progresso que, no conjunto, deveriam conduzir a humanidade para o

    seu inevitvel desfecho da sociedade comunista, como previam Marx e Engels 370. Ou,

    369 dison Carneiro, As raas oprimidas no Brasil, op.cit. Ainda, Carneiro retoma sobre o direito dos grupos ou das minorias raciais e nacionais se autogovernarem em A situao do negro no Brasil, op.cit. e A explorao do negro, op.cit. 370 Cf. Friedrich Engels, A origem da famlia, da propriedade privada e do Estado, op.cit., e Karl Marx & Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista, op.cit. Embora Lewis Henry Morgan no tenha decretado o comunismo como o destino social inevitvel da histria humana, interessante notar que as leis histricas por ele estabelecidas em Ancient Society funcionavam perfeitamente como uma crtica ao liberalismo norte-americano e aos valores utilitaristas e individualistas associados consolidao do modelo de propriedade privada, os quais teriam levado os homens a uma busca desenfreada pela acumulao de

  • 188

    quem sabe, no esteio das reflexes de Carneiro sobre a questo racial brasileira, um futuro

    que parecia projetar uma espcie de Quilombo dos Palmares redivido, desentranhando

    alguns dos antigos temores de Nina Rodrigues, quando, dcadas antes, conjecturava sobre

    os perigos para o desenvolvimento do pas, caso aquele Estado Negro de Palmares no

    tivesse sido destrudo: seria a maior das ameaas civilizao do futuro, nesse novo Haiti

    [...] que Palmares vitorioso teria plantado no corao do Brasil 371. Mas, ento, poderamos

    nos perguntar: vislumbrava dison Carneiro a retomada deste projeto palmarino,

    interrompido no passado? Ao constatar a vitalidade das instituies e das crenas

    africanas, acreditava dison estar tateando os alicerces potenciais de um Estado negro

    autnomo, poltica e culturalmente independente da sociedade brasileira? Enfim, apostava o

    autor numa secesso tnica como soluo poltica ao problema da opresso de raa no

    pas?

    Ora, de algum modo, pode-se dizer que sim. Afinal, como visto h pouco, o prprio

    dison Carneiro admitia como vlida e no de todo improvvel a hiptese de que

    aspiraes separatistas pudessem vicejar entre o contingente negro da populao brasileira.

    Aspiraes que o autor considerava to legtimas quanto compreensveis especialmente

    luz da condio de estrangeiros indesejveis vivenciada pelos negros desde a escravido e

    a qual, mesmo aps quase cinco dcadas de extino do cativeiro e de conquista da

    cidadania jurdica brasileira, teria se mantido praticamente inalterada: fosse em razo da

    manuteno das condies de desigualdade econmica e cultural que ainda impediam a sua

    efetiva integrao massa da populao nacional, fosse em decorrncia do preconceito

    e do desprezo sem reservas que recaam sobre suas manifestaes intelectuais e

    religiosas de origem africana, condenadas pelas classes dominantes e, inclusive, pelos

    trabalhadores brancos e at mestios como qualquer coisa de brbara e imoral 372.

    Aos olhos de Carneiro, portanto, no seria surpreendente que, talvez, os negros

    desejassem se desenvolver separadamente da ptria e do branco brasileiros, uma vez

    riqueza. Uma crtica que se fazia bastante perceptvel quando Morgan, por exemplo, tentava prever as futuras etapas da evoluo social: chegar o dia em que a inteligncia do homem conseguir dominar a propriedade e definir a relao entre o Estado e a propriedade que este protege [...] O destino da humanidade no pode ser a mera acumulao de riqueza, se verdade que o progresso continuar a ser a lei do futuro como o foi do passado. Cf. A sociedade primitiva, vol.2, op.cit., p.308. 371 Raimundo Nina Rodrigues, Os Africanos no Brasil, op.cit., p.121. 372 Cf. dison Carneiro, As raas oprimidas no Brasil, op.cit.

  • 189

    que perdurava quase intacto o regime de carncias que os faziam se sentir to

    organicamente estrangeiros, assim como apegados s prticas que trouxeram de sua terra

    original. O meio social diverso no qual foi introduzido fora, o mundo intelectual [do

    branco] que no podia compreender plenamente, os castigos corporais, as limitaes

    sua liberdade [...], a m alimentao, enfim, a opresso racial mais desenfreada e mais

    ignbil, tudo isso devia determinar no negro o banzo, a saudade da frica a ilu-aiy das

    florestas colossais, prenhes de vida, de seiva e de liberdade... Saudades que persiste at

    hoje 373.

    Contudo, em que pesassem suas disposies em reconhecer de pronto a legitimidade

    das eventuais aspiraes autonomistas da raa negra, no me parece que a ideia de uma

    secesso fosse aquela que melhor expressava a forma como o prprio dison Carneiro

    entendia e justificava sua militncia intelectual e ideolgica junto aos grupos e ao campo de

    estudos afro-brasileiros daquela dcada. Ao invocar o direito das raas e nacionalidades

    oprimidas de governarem a si prprias e mesmo de criarem seus estados

    independentes, menos do que defender separatismos tnicos ou posies pan-

    africanistas para o negro no Brasil, dison estava, antes, interessado em chamar a ateno

    para os impasses particulares envolvidos na implantao do socialismo em pases de

    populao heterognea como o Brasil 374. Dito de uma melhor maneira, nosso autor

    chamava a ateno para a necessidade de se discutir de modo claro e honesto o quanto as

    raas oprimidas do pas estavam histrica, intelectual e evolutivamente aptas a

    compreenderem a sociedade moderna e revolucionria e, por consequncia, a tomarem

    parte na construo de uma nova etapa da humanidade, superior, que se anunciava: a do

    comunismo. Da a urgncia de se conhecer, de fato, as mltiplas manifestaes de

    373 Idem, Religies negras, op.cit., p.23. Ilu-aiy, segundo explicao do prprio dison Carneiro, era a expresso com a qual os negros sudaneses, na Bahia, designavam a frica. Idem, Ibidem. Em outro momento, mas com a mesma inteno de evidenciar a adaptao precria do negro ao meio social do Brasil, dison afirmava: o negro tem sido, e continua sendo, um ser parte, quase um bicho que as prefeituras consentem apenas passear pelas ruas e trabalhar para o branco. E nada mais [...] Nem escola por onde poderia se principiar a adaptao do negro ao meio social do Brasil , podia mandar os filhos [...] porque [os seus] servios muito cedo eram necessrios para a economia familiar. Cf. Idem, A situao do negro no Brasil, op.cit., pp.238-39. 374 Idem, As raas oprimidas no Brasil, op.cit.

  • 190

    vida da raa negra e da raa vermelha, tornando possvel um diagnstico sobre os

    papis e a importncia que, na nossa vida de povo, elas so chamadas a ter 375.

    Estribadas em noes de direitos de evoluo e desenvolvimento racialmente

    especficos, essas posies revelavam, entre outras coisas, os esforos de dison Carneiro

    em aplicar realidade brasileira abordagens e chaves de leitura sobre a questo tnica que

    lhe chegavam via militncia partidria. Em especial, dison demonstrava ter tomado

    contato com as teses da III Internacional Comunista, cujo sexto congresso, em 1928,

    buscou oficializar diretrizes mais bem acabadas para os partidos comunistas do mundo

    quanto ao problema da opresso de raa, em geral, e a negra, em particular. Dentre

    essas diretrizes, moldadas luz das discusses sobre a questo colonial, aquela na qual se

    definia a minoria negra nos [Estados Unidos] como uma nacionalidade oprimida,

    aplicando-se, ento, s populaes negras [...] a mesma poltica de autodeterminao que

    vinha sendo adotada a outras nacionalidades oprimidas do mundo, poltica e/ou

    economicamente subjulgadas pelo colonialismo e pelo imperialismo 376. A manipulao

    destas ideias ganharia seus resultados mais expressivos justamente nos Estados Unidos,

    onde o Partido Comunista do pas defendeu tenazmente, na dcada de 1930, a realizao de

    uma revoluo agrria, a partir da qual os negros sulistas criariam sua prpria repblica

    autnoma no Black Belt americano 377.

    375 Idem, Ibidem. Era, portanto, a construo deste quadro compreensivo dos aspectos econmicos, culturais e intelectuais das raas oprimidas, bem como dos papis que elas estavam em condies de desempenhar na nossa vida de povo incipiente, que, no entender de dison Carneiro, justificava como necessrio e indispensvel a realizao de estudos etnogrficos e antropolgicos minuciosos da populao brasileira. Naquela dcada, referindo-se ao estado da arte dos conhecimentos sobre a realidade racial do pas, dizia dison: estamos no escuro sobre o assunto, na mais deplorvel das cabras-cegas [...] Nada sabemos, de concreto, sobre as mltiplas manifestaes de vida dessas raas, nem tampouco podemos, por uma imperdovel falta de estatsticas, dizer o nmero aproximado de representantes puros da raa negra e da raa vermelha que povoam o territrio nacional. Idem, Ibidem (nfase minha). Com representantes puros da raa, no caso da negra, dison certamente estava fazendo meno aos remanescentes de negros africanos legtimos, nascidos e, quem sabe, educados na frica. 376 Pedro Caldas Chadarevian, Os precursores da interpretao marxista do problema racial, Crtica Marxista, n24, 2007. 377 Como mostra Wilson Record, dando sustentao terica s teses dos comunistas americanos sobre a criao de uma repblica autnoma no sul do pas, estava a definio da populao negra sulista como uma comunidade nacional, nos termos que Stlin assim a definia: Negroes in the United States were a separate and distinct nation. They were under the heel of an imperialist power. They met all the requirements of a nation as defined by Stalin, being a historically evolved, stable community of language, territory, economic life, and psychological make-up manifested in a community of culture. They should therefore be approached in the same terms and with the same program as any other oppressed colonial nation. The doctrine of self-determination, with the right to secession and the establishment of an independent Negro nation, was declared applicable to Negroes in the southern United States. Cf. Wilson Record, The Development of the

  • 191

    dison Carneiro, como visto h pouco, muito embora percebesse no negro brasileiro

    muito de um elemento estranho, estrangeiro e mal integrado massa da populao

    nacional, no incorporou por completo tais diretrizes, a ponto de advogar, no Brasil, a

    secesso tnica como soluo poltica s desigualdades raciais. Ou melhor, pelo menos no

    para o negro. Isto porque, no que dizia respeito ao martrio do ndio, Carneiro tinha

    plenas convices de que a raa vermelha se encontrava, ainda, em um estgio de

    evoluo histrica to primrio que tornava impossvel uma obra em comum, em

    igualdade de condies com o branco: o desenvolvimento econmico inferior do ndio,

    que nem chegou fixidez ao solo, determina toda a sua religio, a sua organizao de

    famlia [e] os seus hbitos comunistas [...] em tudo diferentes do branco, de modo que,

    tudo est a indicar [...] que o ndio no se submetera a nenhum governo estranho e

    formar, com certeza, seu Estado aparte 378. Diferente, portanto, do negro-africano, cujo

    problema se apresenta[va] de uma outra forma, uma vez que, trazido ao Brasil para

    substituir a mo de obra indgena, teria sido incorporado de maneira irreversvel

    estrutura social e produtiva do pas, construindo com suas prprias mos a sociedade que o

    havia de explorar e de oprimir 379. Deste modo, acreditava Carneiro, pelo prprio fato da

    transformao dos antigos escravos nos modernos proletrios, transformao esta que se

    processou custa do negro, para conservar-se fiel a si mesmo e sua raa, o grande homem

    negro no pode[ria] ser seno um revolucionrio 380.

    Communist Position on the Negro Question in the United States, The Phylon Quarterly, vol.19, n3, 1958, pp.321-22. De outra parte, a poltica de autodeterminao negra que ganhou flego entre os comunistas norte-americanos funcionava tambm como uma tentativa deles se apropriarem e de lanarem apelos a um tipo de nacionalismo tnico que, nos Estados Unidos, encontrava respaldo na prpria atuao de intelectuais e lideranas negras do pas: em movimentos pan-africanistas como o de Marcus Garvey (1887-1940), propondo o retorno frica, nas ideias pan-negristas de um W. E. B. Du Bois (1868-1963), e sua crena na existncia de uma alma negra particular, defendendo uma evoluo cultural autnoma para os negros americanos; e de muitos outros escritores, poetas, artistas e ensastas que, especialmente no Harlem, desde 1920, se empenharam em vocalizar uma sensibilidade cultural e intelectual prprias ao negro americano. Conferir, neste sentido, Antnio Sergio Guimares, A modernidade negra, op.cit., e Mark Helbling, Carl Van Vechten and the Harlem Renaissance. Negro american literature forum, vol.10, n2, summer 1976 Ainda, sobre o Partido Comunista norte-americano e o tratamento da questo racial, ver tambm: John W. Van Zanten, Communist Theory and the American Negro Question. The review of politics, vol.29, n4, oct. 1967; Bryan D. Palmer, Race and revolution, Labour/Le travail, vol.54, Fall 2004; Haim Genizi. V. F. Calverton, a Radical Magazinist for Black Intellectuals, 1920-1940. The journal of negro history, vol.57, n3, jul. 1972; e Amy E. Carneiro, Ghosts of the Harlem Renaissance: negrtarians in Richard Wrights Native Son. The journal of negro history, vol.84, n3, summer 1999. 378 dison Carneiro, As raas oprimidas no Brasil, op.cit. 379 Idem, Ibidem. 380 Idem, Possibilidades poticas da raa negra, op.cit.

  • 192

    Apesar de fortemente interessado em vincular os destinos da raa negra aos do

    proletariado brasileiro, pode-se dizer que Carneiro esteve longe de se mostrar insensvel s

    demandas polticas particulares acalentadas pelos grupos afro-baianos. Demandas que

    remetiam a um debate sobre os direitos desses grupos em organizar e preservar suas

    prticas culturais e religiosas de origem africana, o qual passava no largo da atuao tanto

    dos estudiosos da questo racial quanto do movimento negro daquela poca, materializado

    na Frente Negra Brasileira: ambos comprometidos com uma viso, como vimos pginas

    atrs, tutelar e/ou correcional sobre a africanidade de tais prticas. Se, de um lado,

    Carneiro no se mostrou pessoalmente disposto a defender uma repblica ou um estado

    negro autnomo, por outro, revelou-se bastante afinado com a perspectiva de decretar a

    autonomia do negro e suas crenas africanas do monitoramento do Estado, das

    instituies mdicas e policiais. Talvez, dizendo de uma melhor maneira, assim como os

    operrios e as classes trabalhadoras tinham seus sindicatos, dison Carneiro acreditava que

    os praticantes e adeptos da religio e da cultura negras tambm deveriam ter seus espaos

    e rgos de representao prprios, onde teriam condies de se organizarem civil e

    politicamente em prol de seus interesses religiosos: crena que ele levaria para o mbito

    do II Congresso Afro-Brasileiro e a qual o inspiraria criar uma Federao de seitas

    africanas. Na filigrana das posies do autor, portanto, encontrava-se a viso, por que no

    dizer, inusitada de africanizar os negros justamente num momento em que eles estavam,

    cada vez mais, sendo tomados como parte integrante da sociedade nacional 381. Afinal, a

    existncia do fetichismo negro na Bahia (e no Brasil) vinha dar, acreditava Carneiro,

    razo a Nina Rodrigues, quando constatava a grande vitalidade nas crenas religiosas dos

    negros, que resistem apesar de tudo apesar da estupidez das batidas policiais, apesar

    dos sorrisos irnicos dos blass das avenidas... 382.

    Curiosa ou compreensivelmente no foram as posturas marcadamente polticas e

    ideolgicas de dison Carneiro em prol da maioridade civil dos povos de santo, os aspectos

    que levaram Arthur Ramos a se interessar pela produo do jovem letrado. Mas sim, a

    atuao destacada que dison Carneiro, desde 1934, vinha exercendo na cena intelectual

    baiana, assim como o trnsito livre que ele comeava a ter entre alguns dos mais

    381 Mariza Correa, As Iluses da Liberdade, op.cit., 222. 382 dison Carneiro, Religies negras, op.cit., p.32.

  • 193

    importantes candombls da cidade de Salvador. E embora, para Ramos, a atividade poltica

    de Carneiro no soasse relevante, no fosse ela, dison e, no limite, Ramos no teria

    acesso s informaes e dados que, talvez, apenas dison conseguia obter junto aos povos

    de santo baianos. Assim, mesmo no chancelando a militncia de dison, Ramos acabou

    sendo diretamente beneficiado por ela. De outra parte, de olho nas perspectivas que a

    relao com Arthur Ramos poderia lhe render em termos de reconhecimento e prestgio

    intelectual, dison se viu instado a diluir e esvaziar muito da voltagem ideolgica que

    informava seus interesses e suas abordagens sobre o negro brasileiro, a fim de atender s

    demandas do mdico alagoano.

    A correspondncia trocada por ambos a partir de 1936 revelava justamente os

    interesses e as expectativas que um depositava no outro, desvelando tambm, como j

    apontou Mariza Corra, uma relao assimtrica: o jovem mulato baiano procurando o

    apoio do professor de medicina, branco, j consagrado, cuja produo [de Carneiro], no

    entanto, parecia ser importante para o professor na medida em que trazia dados etnogrficos

    de um cenrio local do qual este estava afastado, mantendo tambm acesa a atuao poltica

    regional e, nela, a importncia do nome de Ramos para essa atuao 383. Jorge Amado foi

    o intermedirio dessa relao: ciente, talvez, tanto das condies que Carneiro tinha de

    lograr melhores posies como estudioso da cultura afro-brasileira, quanto das

    necessidades de Ramos de dar seguimento aos seus trabalhos, tendo em mos

    documentrio indito 384. A primeira carta e talvez por isso mesmo de Carneiro para

    Ramos expressiva no apenas da dinmica das relaes que se estabeleceriam entre os

    dois, mas, sobretudo, das condies em que se dava o trabalho intelectual do primeiro.

    Caro amigo Sr. Arthur Ramos [...] O meu amigo Jorge Amado ganhou. Afinal, sempre me

    decidi a escrever o livro sobre negros que ele reclama insistentemente h coisa de trs anos.

    Estou a escrev-lo aqui no Mar Grande [...] j tendo mesmo escrito dois captulos. No

    pasme! (Estou desocupado...). Naturalmente, V. ser mais do que citado neste O Fetichismo

    Negro na Bahia, V., o velho Nina e esse incrvel Man Quirino... Estou trabalhando apenas

    com isso, sendo que, sobre os candombls de caboclo, estou absolutamente desajudado [...]

    383 Mariza Correa, Antroplogas e Antropologia, op. cit., 173. 384 Este foi o termo usado por Jorge Amado, quando enviou para Arthur Ramos os originais do que seria o primeiro livro de Carneiro, Religies Negras. Dizia: Eu gostei do livro, especialmente devido ao documentrio indito. Cf. Biblioteca Nacional, Arquivo Arthur Ramos, carta de Jorge Amado para Arthur Ramos, 8 de maro de 1936. I-35, 21, 525.

  • 194

    Vou fazer o possvel para no citar o velho Marx. Se lhe dou todos esses pormenores sobre

    o monstrengo foi porque o Jorge Amado me falou no seu provvel interesse por este livro,

    para a Biblioteca de Divulgao Cientfica. Ser que esse interesse existe mesmo? [...] Mas

    afinal, so Ramos, quando saem os Estudos Afro-Brasileiros? E que diz V. sobre o segundo

    Congresso Afro-Brasileiro na Bahia? 385.

    A carta, neste sentido, um registro contido e econmico dos termos sobre os quais

    se construiria essa parceria Ramos/Carneiro, j aparecendo nela um assunto que seria

    persistente em parte substantiva da correspondncia que mantiveram at meados de 1938: a

    realizao do II Congresso Afro-Brasileiro. Contudo, de sada, o que chama a ateno a

    forma como ali estavam explicitados muitos dos constrangimentos intelectuais e polticos

    em meio aos quais ele viabilizava sua atuao no campo de estudos afro-brasileiros. Em

    primeiro lugar, as precrias condies de trabalho. No podendo contar com bibliotecas ou

    bibliografia especializada sobre a cultura africana no Brasil, dison se via obrigado a

    trabalhar um tanto no escuro, apenas com isso: os livros de Nina Rodrigues, de Manoel

    Querino e do prprio Arthur Ramos. Uma situao que, constantemente, levou Carneiro a

    pedir livros para Ramos, que, por sua vez, nem sempre se mostrava disposto a enviar 386.

    Em segundo lugar, a instabilidade financeira e poltica de sua vida naquele momento:

    desempregado e, portanto, desocupado, empenhado em escrever o trabalho que poderia

    lhe render uma remunerao extra, aproveitando o tempo livre de seu exlio no Mar Grande,

    na Ilha de Itaparica, onde se encontrava, muito provavelmente, para escapar das possveis

    perseguies policiais que sofria em Salvador 387. Por fim, uma espcie de autocensura, na

    385 Carta de dison Carneiro a Arthur Ramos, 4 de janeiro de 1936 in Waldir Freitas Oliveira & Vivaldo da Costa Lima, Cartas de dison Carneiro a Arthur Ramos, op. cit., p. 79 (grifo meu). 386 Infelizmente, o volume no qual foram publicadas as cartas de Carneiro para Ramos, no possui as respostas deste para o primeiro. Mesmo no acervo de Arthur Ramos na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, pouqussimas cartas de Ramos para Carneiro podem ser encontradas. Contudo, mesmo sem ter essas respostas, possvel depreender das missivas de Carneiro uma postura no muito empenhada de Ramos em atender aos pedidos dele, especialmente por livros sobre a frica, como podemos ver em carta de 27 de janeiro de 1936: Porque voc no me manda os livros que vo aparecendo na Biblioteca [de Divulgao Cientfica, dirigida por Ramos, na editora Civilizao Brasileira, no Rio de Janeiro]. Alm dos que voc me mandou os seus e os do Nina, no tenho nem-um. Cf. Carta de dison Carneiro para Arthur Ramos, 11 de maio de 1936 in Waldir Freitas Oliveira & Vivaldo da Costa Lima, Cartas de dison Carneiro a Arthur Ramos, op. cit., p.90. E, ainda, nesta outra, de 11 maio de 1936: Pena que voc no possa me mandar livros sobre os negros do sul da frica. Aqui no difcil, impossvel encontrar livros assim.... Idem, p.113. 387 A penria financeira e a vida instvel, em razo de sua militncia poltica (talvez, ainda sob o clima de perseguies que se seguiu Intentona Comunista, nos meses finais de 1935), deve ter pesado na deciso de dison Carneiro de investir mais seriamente na atividade de pesquisas nos candombls, as quais ele realizava tudo leva a crer apenas de maneira intermitente. Na j mencionada carta de Jorge Amado para Arthur

  • 195

    qual dison comunicava Arthur Ramos de antemo que faria o possvel para no citar o

    velho Marx, buscando com isso no borrar as chances de publicar aquele que poderia ser

    seu livro etnogrfico de estreia: sabido, decerto, que sua ideologia e sua militncia

    partidria no agradavam a Arthur Ramos 388.

    O resultado final da juno de todos estes elementos um quadro matizado dos

    aspectos que construam a posio intelectual de Carneiro naquele momento, assim como

    das foras que, em larga medida, contriburam para que seus dois primeiros livros de

    etnografia religiosa fossem esvaziados de uma abordagem autoral que ele estava em

    condies de oferecer sobre o problema negro no Brasil, mas que, no entanto, se assentava

    em bases ideolgicas que no interessavam a Ramos. Mas tambm, um bom indicador do

    cuidado de Ramos em permitir um tipo de guinada controlada da carreira intelectual de

    Carneiro, sem deixar que ele se vinculasse simbolicamente a figura de Nina Rodrigues,

    cujo esplio o mdico alagoano se esforava em tomar para si, foi a mudana de ttulo do

    livro: de O fetichismo negro na Bahia, como, em princpio pensava dison, para Religies

    negras, simbolicamente mais distante daquele que fora um dos mais importantes trabalhos

    de Nina Rodrigues sobre os candombls baianos, O animismo fetichista dos negros da

    Bahia (1900).

    Contudo, mais revelador ainda dos termos que guiavam a encomenda de dados

    etnogrficos da parte de Ramos foi o carter absolutamente descritivo dos dois livros que

    Carneiro lanaria pela Biblioteca de Divulgao Cientfica, sob a chancela de Ramos: alm

    do Religies negras, em 1936, o Negros bantos, no ano seguinte. Ou seja, trabalhos

    desprovidos das ambies analticas, particularmente expressivas nos artigos que publicava

    nos jornais e peridicos da poca, nos quais imprimia uma dico prpria interpretao da

    situao do negro no Brasil numa perspectiva marxista 389. De modo que no surpreende

    Ramos, o romancista baiano refora a importncia de se agilizar a finalizao e a publicao do livro de Carneiro: Isso porque eu sei das condies financeiras do autor. Cf. Biblioteca Nacional, Arquivo Arthur Ramos, carta de Jorge Amado para Arthur Ramos, 8 de maro de 1936. 388 Alis, como j mencionado neste captulo, foi luz do marxismo que dison j havia dirigido uma crtica dura ao primeiro livro de Arthur Ramos, O negro brasileiro, criticando a psicanlise que o mdico alagoano buscava se valer para analisar os cultos afro-brasileiros. Cf. dison Carneiro, O negro brasileiro, Boletim de Ariel, n7, abril de 1935. 389 O interesse de Ramos em apostar em Carneiro em termos estritamente relacionados sua posio como traficante de dados etnogrficos ficou, tambm, bastante ntido aps a publicao de Religies negras e Negros Bantos. Alegando dificuldades financeiras, dison props a Arthur Ramos a publicao de mais um livro, o qual deveria se chamar A Saudade da frica. Nele, Carneiro pretendia reunir os artigos que havia

  • 196

    que o autor ideologicamente explosivo e de opinies contundentes dos artigos tenha cedido

    lugar, em Religies negras, ao escritor modesto e sem maiores pretenses que nem mesmo

    se sentia autorizado a dar ao volume sobre fetichismo negro na Bahia o carter de ensaio.

    Prefiro consider-lo simples caderno (primeiro caderno, talvez) de notas de etnografia

    religiosa... E como tal o entrego a publicidade 390.

    Para dison, a possibilidade de ter dois livros publicados por uma editora de

    reconhecimento nacional, como era a Civilizao Brasileira, infundindo, assim, maior

    substancia s representaes de si como um estudioso, um pesquisador da cultura negra,

    certamente contribua para que ele se mantivesse fiel ao mdico alagoano: mesmo a

    despeito de Ramos ter, inclusive, encabeado uma campanha de difamao pblica contra o

    pai de dison, o professor Souza Carneiro, e seu trabalho Mitos africanos no Brasil 391 . De

    alguma forma, seno em suas notas de etnografia, dison conseguiria imprimir as marcas

    autorais de sua atuao e de seus interesses no II Congresso Afro-Brasileiro de Salvador,

    em 1937, podendo contar, para tanto, com os trunfos advindos da publicao de seus livros,

    mas tambm com o prestgio de Arthur Ramos, interessado em transformar o evento em

    palco para sua liderana frente escola baiana de antropologia Nina Rodrigues.

    A partir do congresso, Carneiro iria conseguir articular e lograr melhores chances de

    dar cabo ao que, no final das contas, era o que mais lhe interessava: organizar uma entidade

    civil entre os pais e mes de santo da Bahia, a fim de conseguir a liberdade religiosa dos

    candombls. Algo a que, se Arthur Ramos no se ops, deixando que dison se utilizasse

    publicado ao longo da dcada de 1930. Dentre eles, justamente aqueles mais expressivos de sua ideologia: Explorao do negro, Possibilidades poticas da raa negra, O problema das raas, Situao do negro no Brasil etc. Ramos, ao que tudo indica, ignorou a proposta de Carneiro, e o livro nunca seria publicado. Ele fizera e proposta para Ramos em janeiro de 1938 e, ainda em junho, cobrava uma resposta: At hoje voc nada me disse sobre A saudade da frica, cuja incluso na B. D. S [Biblioteca de Divulgao Cientfica] lhe propus h alguns meses. Cf. Carta de dison Carneiro para Arthur Ramos, 13 de junho de 1938 in Waldir Freitas Oliveira & Vivaldo da Costa Lima, Cartas de dison Carneiro a Arthur Ramos, op.cit., p.176. 390 dison Carneiro, Religies negras, op.cit., p.17. 391 Arthur Ramos pediu para que Carneiro tentasse impedir a publicao do livro do pai, que, segundo o mdico, seria uma confuso infernal nos estudos sobre o negro, pelas informaes errneas que Souza Carneiro traria no mencionado livro. Ainda, Ramos acusaria o trabalho de Souza Carneiro de atingir as fronteiras do delrio da imaginao; um documentrio do mais alto interesse da fabulao simples, tal como foi destacada por Durp, isto , a afirmao gratuita de acontecimentos fictcios, de situaes quimricas, a narrao de romances e aventuras. Cf. Biblioteca Nacional, Arquivo Arthur Ramos, Mitos Africanos, outubro de 1937. 38, 2, 020. O texto foi publicado no peridico carioca Boletim de Ariel. dison, como dito, no interviu, e ainda demonstrou apoio a Ramos: O seu artigo sobre o velho est muito bom. Pena que voc me tivesse citado. Ele vai compreender que fui eu quem escreveu aquele trecho. Cf. Biblioteca Nacional, Arquivo Arthur Ramos, Carta de dison Carneiro para Arthur Ramos, 5 de outubro de 1937. I, 35, 25, 894.

  • 197

    de seu nome para dar respaldo poltico e intelectual a tal intento, tambm no apoio ou

    demonstrou maior interesse pelo seu sucesso 392. Decerto, Ramos, um intelectual que se via,

    antes de qualquer coisa, comprometido com o trabalho de dinamizar e infundir a

    verdadeira cultura nos segmentos negros e atrasados da populao nacional, no devia

    encarar com bons olhos a organizao de uma federao de cultos atravs da qual, como

    bem anota Josildeth Gomes Consorte, se promovia, ento, o que mais se temia: o estmulo

    criao ou preservao de formas organizadas de vivncia afro-brasileira 393.

    A Unio das Seitas Afro-Brasileira, criada por dison Carneiro na esteira da sua

    bem sucedida organizao do 2 Congresso Afro-Brasileiro, aplicava conceitos homlogos

    aos que ele havia usado para estruturar a sua frmula algbrica do problema das raas

    oprimidas no Brasil. Uma entidade civil, composta em sua esmagadora maioria pelos

    prprios pais e mes de santo, que deveriam ficar encarregados de autorregularem seus

    interesses e destinos, tornando-se a nica responsvel pelos cultos que nelas fossem

    praticados 394. Inclusive, caberiam aos prprios membros da Unio, e no mais aos

    mdicos e psiquiatras, exercer o autocontrole sobre os verdadeiros centros de culto e

    religio e aqueles outros de charlatanice e explorao.

    Logicamente, Carneiro no foi um observador alheio a este processo. Ele prprio

    tomava como parmetro para suas anlises os modelos consagrados, desde Nina Rodrigues,

    passando por Arthur Ramos e outros, de noes de pureza e degradao dos candombls,

    baseados na mtica geg-nag, considerada a mais africana, em contraposio aos

    candombls de caboclo que degradam-se cada vez mais, adaptando-se ao ritual esprita

    [...] Falta-lhes a complexidade dos candombls de nag ou de africano [...] A extrema

    simplicidade do ritual possibilita o mais largo charlatanismo 395. Seja como for, oscilando

    392 Em carta, inclusive, Carneiro questionou: Porque voc esqueceu a Unio [das Seitas] no artigo sobre o esprito associativo do negro?. Carta de dison Carneiro para Arthur Ramos, 5 de agosto de 1938 in Waldir Freitas Oliveira & Vivaldo da Costa Lima, Cartas de dison Carneiro a Arthur Ramos, p.178. 393 Cf. Culturalismo e educao nos anos 50: o desafio da diversidade, op.cit., s/d. 394 Vivaldo da Costa Lima. nota 2 in Waldir Freitas Oliveira & Vivaldo da Costa Lima, Cartas de dison Carneiro a Arthur Ramos, p.155. Em notcia de jornal da poca, ao que parece, dison Carneiro consta como o nico membro da Unio das Seitas que no era praticante de algum candombl. Ele aparece como secretrio geral. Cf. Unio das Seitas Afro-Brasileiras, Estado da Bahia, Salvador, 4 de setembro de 1937, s/d. 395 dison Carneiro, Religies Negras. Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1991, p.70 (nfase no original). Ruth Landes foi testemunha do interesse de dison Carneiro pela moralizao dos cultos. Na ocasio, em 1938, quando realizava sua pesquisa de campo em Salvador, a antroploga americana havia sido pressionada a pagar por servios de uma me de santo de caboclo, gerando o seguinte comentrio de

  • 198

    entre dilogos tensos e negociados entre os donos do assunto da questo racial, Gilberto

    Freyre e Arthur Ramos, dison Carneiro buscou plasmar para si posies e abordagens

    prprias sobre o problema negro brasileiro, resultando tambm em uma apropriao

    criativa daquela pedra angular do campo intelectual da poca que foi Nina Rodrigues. Ao

    seu modo, sem estar plenamente afinado com so Ramos, ele tambm reivindicou seu

    direito de sucesso nesta escola, reinventando, tal como seus outros autonomeados

    discpulos, um Nina Rodrigues imagem e semelhana de si prprio: o camarada de luta

    do intelectual comunista, conforme deixa entrever a homenagem prestada por ele ao

    mestre na ocasio do congresso de Salvador:

    Nina Rodrigues, com Os Africanos no Brasil, tentou a minha inteligncia para a grande

    aventura do descobrimento da psiqu do negro no Brasil, e em especial da Bahia, negro

    incompreendido, explorado, esmagado pelo branco, sem direito a um lugar ao sol no quadro

    na sociedade oficial [...] Se estivesse vivo [Nina Rodrigues] estaria conosco na trincheira,

    como um camarada, como um dos nossos, sem falsas atitudes na defesa da raa negra. 396

    Ruth Landes e Cidade das Mulheres: dison Carneiro na encruzilhada e sob o

    incmodo olhar estrangeiro

    O livro de Ruth Landes, Cidade das Mulheres, oferece uma oportunidade

    privilegiada para as amarraes finais deste captulo, pois retratou com vigor as

    propriedades sociais e simblicas que informavam e davam sustentao s posies de

    dison Carneiro no espao intelectual baiano e brasileiro. Cidade das Mulheres uma fonte

    das mais interessantes, em especial, por duas razes: de um lado, com uma narrativa aberta

    a toda sorte de surpresas e estranhamentos decorrentes de sua condio estrangeira

    sociedade baiana, Ruth Landes registrou uma srie de impresses a partir das quais o

    prprio dison Carneiro lhe serviu como uma espcie de material emprico suplementar

    para pensar as relaes raciais brasileiras; por outro lado, as impresses de Landes ganham

    dison, narrado por Landes: No me admiraria. Mas estou surpreendido com a presso que ela exerceu sobre voc! positivamente contra a tica! [...] As mes caem no santo de repente para saber como solucionar problemas desesperados como doenas fatais, violaes de tabu, despachos. Mas pra ganhar voc! E tanto dinheiro! Ele esbravejava Eis por que organizamos a Unio com os templos de boa reputao para proscrever essa charlatanice. Cf. Cidade das Mulheres, Rio de Janeiro, 2003, p.249. 396 dison Carneiro, Homenagem a Nina Rodrigues in dison Carneiro & Aydano do Couto Ferraz (org.) O Negro no Brasil, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1940, pp.331-32.

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    certo vigor histrico, uma vez que resultaram de um tempo prolongado de convivncia

    quase diria com Carneiro, durante o perodo em que permaneceu no Brasil: cerca de um

    ano, entre 1938 e 1939. Uma relao que, como j foi ressaltado em outros estudos sobre a

    estadia de Ruth Landes no Brasil, estabeleceu uma parceria intelectual e amorosa entre

    Landes e Carneiro, cujos efeitos puderam ser sentidos nas trajetrias de ambos mesmo

    depois de se separarem 397.

    dison Carneiro, como se sabe, desempenhou um papel fundamental nas pesquisas

    de Ruth Landes sobre os cultos afro-brasileiros. Ele foi no apenas sua chave de acesso

    aos candombls e terreiros, valendo-se de seu prestgio junto aos lderes dos cultos, mas

    tambm, seu informante inseparvel, explicando-lhe os valores, significados e problemas

    da sociedade baiana e brasileira. 398

    Contudo, se, em determinados momentos Ruth Landes invoca dison Carneiro

    como um profundo conhecedor da religiosidade afro-brasileira, em outros, a antroploga

    norte-americana parece convert-lo na prpria condio de objeto estudado e analisado.

    Aqui, trata-se de um ponto de extremo interesse, pois dison Carneiro ocupa uma posio

    oscilante na etnografia de Landes sobre os candombls: ora como um parceiro, um

    cientista e mesmo, como ela diz na introduo de Cidade das Mulheres, um etnlogo

    Dr. 399, que lhe ensina sobre a realidade local, ora como prova emprica do quadro mais

    397 Cf. Mariza Corra, Antroplogas e Antropologia, Belo Horizonte, Ed.UFMG, 2003, Sally Cole, Ruth Landes: a life in anthropology, University of Nebraska Press, Lincoln & London, 2003 e Olvia Maria Gomes da Cunha. (2004). Tempo imperfeito: uma etnografia do arquivo. Mana. vol. 10, n2, outubro de 2004. 398 O prestgio de dison Carneiro juntos aos terreiros, em muito, deveu-se em muito sua militncia pela criao da Unio das Seitas Afro-Brasileiras, numa tentativa de retirar a fiscalizao e regulao do funcionamento dos candombls das atribuies policiais, sendo autorregulado por seus prprios lderes, e tambm da insero do autor, poca, como jornalista do Estado da Bahia. As frequentes reportagens de Carneiro sobre as festas e liturgias, em diferentes terreiros, serviam como expediente de negociao entre ele e as lideranas dos cultos. Sobre as relaes de Carneiro com as lideranas religiosas, nos candombls, ver Vivaldo da Costa Lima. O Candombl da Bahia na dcada de 30 in Vivaldo da Costa Lima & Waldir Freitas Oliveira (org.), Cartas de dison Carneiro a Arthur Ramos, op.cit. 399 No Brasil, todas as pessoas que encontrei ensinaram-me muito. Os mais constantes tutores, sem os quais me perderia e cuja indulgente pacincia sempre recordarei foram o etnlogo Dr. dison Carneiro..... Ruth Landes, Cidade das Mulheres, op.cit., p33. Ainda, do ponto de vista das convenes sociais e de gnero, na Bahia, a companhia de dison permitiu a Ruth Landes minimizar os efeitos incmodos que sua presena gerou: mulher, branca, solteira e jovem. At certo ponto, ele [Carneiro] anulava o mal-estar que sentiam na presena de estrangeiros. Ainda que eu no fosse to obviamente uma gringa [...] os negros teriam hesitado em falar comigo sozinha, para o meu prprio bem. Uma mulher deve ser extremamente jovem ou muito velha para estar a vontade naquelas partes do Brasil. Mas dison, que vivera entre eles toda a sua vida e os descrevia na imprensa diria, apresentava-me e era considerado meu protetor. Idem, p.50. Sobre a natureza imaginria das relaes de gnero na histria da antropologia e, em particular, sobre Ruth Landes, ver Mariza Corra, Antroplogas & Antropologia, op.cit.

  • 200

    amplo das relaes raciais brasileiras, entendidas por Landes, como mais harmoniosas e

    livres de conflitos mais agudo, quando pensadas em contraponto sociedade norte-

    americana. Esta oscilao da posio do autor, como parte da etnografia, ganha contornos

    mais gritantes quando Landes coloca em questo o modo como marcadores raciais e de

    classe projetavam uma imagem, muitas vezes, ambgua, sobre dison Carneiro, no que

    dizia respeito sua condio de mulato.

    Dentre os vrios aparentes incmodos que Ruth Landes teria causado a Carneiro,

    encontra-se o episdio em que a antroploga exps a razo pela qual o autor no poderia

    realizar seus planos de uma viagem de estudos, no sul dos Estados Unidos. A cena

    descrita como se, pela primeira vez, dison Carneiro tivesse sido exposto a algum tipo de

    interdito em funo de sua cor. Num contexto em que recuperava a inscrio fidalga da

    famlia de Carneiro, Ruth Landes descrevia a seguinte cena:

    [dison] no ligava a raa a assuntos pessoais ou sociais, pois planejava, ento, uma

    viagem para o Sul dos Estados Unidos, para estudar as condies locais. Quando lhe disse:

    No, voc no pode fazer isso ele protestou -: E por que no? insistiu. Tive de

    explicar: L [nos Estados Unidos] eles o incomodaro com o pretexto de sua cor. O seu

    rosto se contorceu como se eu o tivesse chicoteado sobre os olhos. Pensei, agoniada, que

    um americano no devia ter de fazer tais coisas a outros seres humanos 400.

    Decerto, o importante aqui no questionar se o rosto de Carneiro, realmente, se

    transfigurou, sob o efeito do comentrio de Landes. Mas sim, de maior relevncia, a

    impresso de que dison no buscava operar ou mobilizar marcadores raciais para dar

    conta de sua existncia social. O que, em parte, parece confirmar certas disposies de

    dison Carneiro em se apropriar e justificar sua presena no espao social nos termos de

    400 Idem, p.50 (as nfases so do autor). Pode-se dizer que a parceria intelectual e amorosa entre dison Carneiro e Ruth Landes no foi aleatria. Muitos elementos da biografia de ambos pareciam criar laos e afinidades. Landes vinha de uma famlia de judeus de Nova York, onde cresceu em um ambiente marcado pelas atividades polticas do pai, um lder sindical, engajado no apenas com as lutas operrias mas tambm pelos direitos das minorias tnicas nos Estado Unidos dos anos de 1920 e 30. Atravs das redes de sociabilidade do pai e, mais tarde, daquelas que travaria como estudante da New York School, em finais de 1920, Landes pde vivenciar e conhecer de perto o contexto de efervescncia do Harlem, reduto do novo negro norte-americano. Foi ali que realizou, em 1928, realizou sua primeira pesquisa antropolgica entre os grupos de judeus negros, que resultaria em sua tese de mestrado. Cf. Sally Cole, Ruth Landes: a life in anthropology, op.cit., pp.42-43. Na Bahia, talvez, dison Carneiro, um comunista, jornalista poltico e combativo, defensor dos direitos dos negros e do operariado baianos materializasse, em verso brasileira, valores, interesses e disposies polticas e culturais que remetiam ao seu contexto de socializao familiar e intelectual, em Nova York.

  • 201

    sua natureza de classe e de seu status como jornalista e certamente doutor, diplomado

    pela Faculdade de Direito da Bahia desde 1936: e a sua produo, como vimos no correr

    dessa tese, deu provas eloquentes da maneira sempre ambivalente como sua etnicidade foi

    mobilizada. Em uma outra oportunidade ficava igualmente visvel a dificuldade

    demonstrada por Landes em tomar a cor de dison Carneiro como um dado primrio, no

    vulnervel aos efeitos de outros marcadores sociais. Se aos olhos da estrangeira parecia

    pouco questionvel a negritude do autor, na perspectiva das relaes de simpatia e

    solidariedade de dison Carneiro com os praticantes dos candombls, a raa ou a cor

    eram minimizadas por Landes, como operadores dessas relaes: Gostavam dele porque

    era um aristocrata 401. E, ainda, complementava:

    Uma coisa a que nunca me acostumei foi ao sentimento de classe da sociedade

    brasileira. Suponho que jamais o levei a srio. Ele tem apenas uma ligao indireta com a

    raa ou a riqueza e est associado mais intimamente a ideias de que so algumas vezes to

    distintivas quando a noblesse oblige e outras vezes simplesmente pretensiosas. Em dison

    encontrei um dos melhores exemplos da chamada classe alta [...] Era um liberal, e at

    mesmo o consideravam radical em certos crculos: mas absolutamente no era um homem

    do povo. A sua natureza de classe pertencia a um sistema de pensamento diferente da sua

    ideologia [...] No estava absolutamente cnscio disso e talvez achasse graa nesta minha

    opinio 402.

    Ou seja, a raa de Carneiro no era estvel ou nica, somente fazia sentido

    quando inserida ou vista em relao a outros grupos ou classes sociais naquele contexto. No

    tringulo de relaes estabelecidas, em Cidade das Mulheres, entre Landes, Carneiro e o

    povo de santo, os operadores raciais tendiam a ser enfatizados ou minimizados conforme

    as inscries distintas dos personagens envolvidos. Para Ruth Landes, dison Carneiro, tal

    como o povo de santo, era uma pessoa de cor; ao contrrio, para o povo de santo, o

    marcador decisivo na relao com Carneiro, segundo Landes, seria o de classe e status:

    aristocrata, jornalista e intelectual. Tais qualidades de dison emergiriam e ganhariam

    401 Idem, p.100. 402 Idem, Ibidem.

  • 202

    maior efeito, justamente, nas suas relaes com os negros, para quem ele era o seu

    protetor e eles desejavam que fosse seu protetor 403.

    Ruth Landes, neste sentido, no estava apenas flagrando as qualidades sociais que

    possibilitavam as burlas tnicas de Carneiro naquele espao. Ela conseguiu captar tambm

    muitos dos elementos que davam sustentao e sentido s posies intelectuais de Carneiro

    no campo dos estudos afro-brasileiros. Muito da magia e do feitio que investiram fora

    carreira de dison, em Salvador, estavam estribadas nesta sua capacidade de manipular

    distncias e sinais diferenciais entre ele e seus objetos de estudo, de um lado, e de

    intermediar distncias entre estes objetos e outros espaos intelectuais, num momento em

    que a situao racial baiana comeava a se tornar objeto de ateno mundial para o estudo

    da presena da cultura africana no novo mundo. A parceria entre Landes e Carneiro, neste

    sentido, era a representao mais bem acabada do quanto a posio de Carneiro foi

    ganhando maior consistncia e envergadura, conforme ele foi se mostrando capaz de atuar

    como um traficante de dados etnogrfico, tal como fizera para Ramos, ou como um

    facilitador para a entrada de pesquisadores entre os grupos afro-baianos, como procedera

    pessoalmente, alm da prpria Landes, com Donald Pierson, e Lorenzo Turner (1890-

    1972). Mas, talvez, um trfico de dados etnogrficos que, indiretamente, circulou e

    alimentou espaos e redes intelectuais muito maiores, na medida em que muniu de

    materiais uma obra como a de Arthur Ramos que, anos mais tarde, conseguiria expresso

    antropolgica internacional, aps sua viagem de estudos e especializao nos Estados

    Unidos, em 1941 404.

    403 Idem, Ibidem. Assim como intrigante observar que sobre Ruth Landes os efeitos foram reversos: a pesquisadora sofreu um enegrecimento simblico no contexto da antropologia norte-americana, nos anos de 1930 e 40, ao ser estigmatizada como uma nigger lover, por seus casos amorosos com homens negros: primeiro nos Estados Unidos e, depois, no Brasil. Ver, neste sentido, Mariza Corra, Antroplogas & Antropologia, op.cit., pp.176-177 e Sally Cole, Ruth Landes, op.cit. Trinta anos depois, em carta a Hildegardes Vianna, uma antiga amiga baiana, dison Carneiro no deixaria de registrar seus constrangimentos diante dos curtos-circuitos entre raa, cor e classe nas observaes de Landes: estou associado a ele [o livro Cidade das Mulheres] um tanto a contragosto, e muitas vezes numa situao muito chata, ora como boboca, ora como orgulhoso no sei de qu, ora como snob. Cf. Hildegardes Vianna, O amigo dison Carneiro, Revista da Academia de Letras da Bahia, n42, maro de 1996, s/d. 404 Sobre os preparativos e a estadia de Ramos em instituies acadmicas norte-americanas, ver Maria Jos Campo, Arthur Ramos: luz e sombra na antropologia brasileira, op.cit., e Antnio Sergio Guimares, Comentrios correspondncia de entre Melville Herskovits e Arthur Ramos 1935-1941 in Fernanda Peixoto; Heloisa Pontes & Lilia Schwarcz. Antropologias, Histrias, Experincias, op.cit.

  • 203

    Em grande medida, dison Carneiro extraa de sua proximidade e de seu mandato

    como protetor dos candombls e seus praticantes uma das bases de sustentao mais

    importantes para concretizar projetos e ambies que, de outra forma, dificilmente seriam

    possveis de serem viabilizados no espao intelectual baiano. Foi tambm nesse espao

    social que dison Carneiro teve a capacidade de estabelecer uma proximidade distanciada

    com o universo negro baiano atravs da qual podia converter sua cor em trunfo poltico e

    intelectual, sem, no entanto, se objetivar como parte daquele universo, sem borrar as

    fronteiras simblicas entre eles, os negros, e ele prprio. Tanto num caso quanto no

    outro, sua transferncia para o Rio de Janeiro, em finais de 1939, implicaria uma espcie de

    rompimento com estas representaes e situaes sobre as quais se assentavam o trabalho e

    a produo de dison. Uma transferncia que, decerto, mudaria os destinos e anularia os

    efeitos da magia que revestia a trajetria do jovem feiticeiro, o qual Jorge Amado soube

    descrever com argcia e vigor, na ocasio da estreia etnogrfica de dison Carneiro.

    Noutra poca menos angustiosa que a nossa, dison Carneiro no seria ensasta. Seria o

    poeta desta Cidade da Bahia [...] Estranho dison Carneiro. Calado, feio e dobrado sobre si

    mesmo, eterno cicerone que leva os amigos aos pais de santo [...] A imaginao o levou aos

    meios africanos, ao mistrio das macumbas, beleza dos candombls. O desespero da

    poca fez com que ele produzisse ensaios em vez de poemas [...] Observaes reunidas pelo

    autor, documentao notvel, erros de outros corrigidos [...] eis o que Religies Negras

    [...] Livro de quem conhece o assunto no s por leitura, no s pelo que leu nos outros,

    mas de quem conhece de contato direto. Ele ogan, ele viveu naqueles meios [...] alm de

    tudo um estudo feito por um homem da mesma raa que os estudados [Ele] nada tem de

    diletante [...] Com a raa africana da Bahia, ele sofreu, ele riu em grandes gargalhadas [...]

    um deles e assim esse estudo, esse depoimento, ganha em fora e verdade [...] Fala um

    membro das religies negras que ao mesmo tempo um dos sujeitos mais cultos do Brasil 405.

    405 Jorge Amado, O jovem feiticeiro, Estado da Bahia, 5 de maro de 1937.

  • 205

    BIBLIOGRAFIA

    1). Fontes e Acervos Consultados

    Acervo Particular de Vivaldo da Costa Lima. Salvador.

    Acervo Particular de Waldir Freitas de Oliveira. Salvador.

    Arquivo Pblico do Estado da Bahia (APEBa). Salvador.

    - Seo Republicana (Srie Inventrios e Livros de Notas da Capital).

    Biblioteca Pblica do Estado da Bahia. Salvador.

    - Seo de Jornais e Peridicos Raros.

    Fundao Casa de Jorge Amado (FCJA).

    Fundao Clemente Mariani (Salvador)

    - Centro de Documentao e Informao Cultural sobre a Bahia (CEDIC BA).

    Instituto Histrico e Geogrfico da Bahia (IHGBa). Salvador

    - Seo de Peridicos.

    Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro.

    - Arquivo Arthur Ramos (Diviso de Manuscritos).

  • 206

    Museu do Folclore dison Carneiro. Rio de Janeiro.

    - Fundo dison Carneiro (Caixa 1, correspondncia; Caixa 2, Correspondncias; Caixa 3, diversos).

    - Hemeroteca.

    National Anthropolical Archives (NAA), Smithsonian Institution. Washington.

    - Ruth Landes Papers.

    2). Bibliografia de dison Carneiro consultada

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    CARNEIRO, dison. Noturno de Amor. A Luva. Salvador, n91, 20 de maio de 1929.

    CARNEIRO, dison. Uma alma branca. Etc. Salvador, 31 de maio de 1931.

    CARNEIRO, dison. Para a glria do Brasil. Etc. Salvador, 15 de junho de 1931.

    CARNEIRO, dison. Santa Mamelina. Etc. Salvador, 30 de junho de 1931.

    CARNEIRO, dison. O ltimo recurso. O Momento. Salvador, 15 de julho de 1931.

    CARNEIRO, dison. Sosgenes Costa. Etc. Salvador, 31 de julho de 1931.

    CARNEIRO, dison. A Cidade da Tradio. O Momento. Salvador, 15 de agosto de 1931.

    CARNEIRO, dison. Fim de novela. Etc. Salvador, 15 de abril de 1931.

    CARNEIRO, dison. A divina escultura. Etc. Salvador, 15 de maio de 1931.

    CARNEIRO, dison. Lixpolis. O Momento. Salvador, 15 de setembro de 1931.

    CARNEIRO, dison. Moca na vidraa. Etc. Salvador, 15 de setembro de 1931.

    CARNEIRO, dison. A alma do sculo. Etc. Salvador, 30 de setembro de 1931.

    CARNEIRO, dison. Feminismo. Etc. Salvador, 15 de outubro de 1931.

  • 207

    CARNEIRO, dison. Onde Judas perdeu as botas. O Momento. Salvador, 15 de outubro de 1931.

    CARNEIRO, dison. Uma histria para senhorita. Etc. Salvador, 31 de outubro de 1931.

    CARNEIRO, dison. O feiticeiro de Menlo-Park. O Momento. Salvador, 15 de novembro de 1931.

    CARNEIRO, dison. O grito da mocidade. O Momento. Salvador, 15 de dezembro de 1931.

    CARNEIRO, dison. Fotgrafo amador. Dirio da Bahia. Salvador, 22 de dezembro de 1931.

    CARNEIRO, dison. O Conselho de Kanovalov. Dirio da Tarde. Ilhus, 05 de janeiro de 1932.

    CARNEIRO, dison. O Pas do Carnaval. O Momento. Salvador, 15 de janeiro de 1932.

    CARNEIRO, dison. Histria de Gente Pobre. Dirio da Tarde. Ilhus, 24 de fevereiro de 1932.

    CARNEIRO, dison. Problema da Burguesia. O Momento. Salvador, junho de 1932.

    CARNEIRO, dison. Nota sobre Cobra Norato e Jlio Jurenito. Dirio da Bahia. Salvador, 7 de agosto de 1932.

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    CARNEIRO, dison. Deus lhe Pague. Boletim de Ariel. Rio de Janeiro, n4, janeiro de 1934.

    CARNEIRO, dison. Corja. Literatura. Rio de Janeiro, 05 de fevereiro de 1934.

    CARNEIRO, dison. Presente a Me-dgua. A Batalha. Salvador, 25 de fevereiro de 1934.

    CARNEIRO, dison. Gandhi, traidor das massas. Boletim de Ariel. Rio de Janeiro, maro de 1934.

    CARNEIRO, dison. Sinh Dona. Literatura. Rio de Janeiro, 05 de abril de 1934.

    CARNEIRO, dison. Konovaloff. Dirio de Notcias. Salvador, 08 de abril de 1934.

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    CARNEIRO, dison. Adeus s armas. A.U.B. Salvador, 26 de maio de 1934.

    CARNEIRO, dison. Caets. Boletim de Ariel. Rio de Janeiro, n4, junho.

    CARNEIRO, dison. Joaquim Ribeiro. Literatura. Rio de Janeiro, 20 de junho.

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    CARNEIRO, dison. Escritores da Bahia. Dirio da Tarde. Recife, 08 de agosto (republicado em O Imparcial. Salvador, 18 de fevereiro de 1935).

    CARNEIRO, dison. Extra-real. Rumo. Rio de Janeiro, julho-agosto de 1934.

    CARNEIRO, dison. Monte Serrate. O Jornal. Rio de Janeiro, 26 de agosto de 1934.

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    CARNEIRO, dison. Cnticos do mar. Hoje. So Paulo, agosto de 1935.

    CARNEIRO, dison. Hegel, Feuerbach, Marx. Boletim de Ariel. Rio de Janeiro, setembro de 1935.

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    CARNEIRO, dison. O sentinela de fontes. Estado da Bahia. Salvador, 27 de novembro de 1936.

    CARNEIRO, dison. O ministro da guerra. Estado da Bahia. Salvador, 03 de dezembro de 1936.

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    CARNEIRO, dison. Satans plantou a cruz da Igreja de Oliveira. Estado da Bahia. Salvador, 13 de maro de 1937.

    CARNEIRO, dison. Retrato do fascismo. Estado da Bahia. Salvador, 01 de abril de 1937.

    CARNEIRO, dison. A conveno coletiva do trabalho. Estado da Bahia. Salvador, 10 de junho de 1937.

    CARNEIRO, dison. Homenagem aos heris annimos de 1822-1823. Estado da Bahia. Salvador, 02 de julho de 1937.

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    CARNEIRO, dison. Souza Carneiro. Revista Brasileira de Geografia. n2, abril-junho de 1943.

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