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AGIER, Michel. 2000. Anthropologie du Carnaval: La Ville, la Fête et l'Afrique à Bahia. Marseille/Paris: Parèntheses Eds. 253 pp. Hermano Vianna Doutor, PPGAS-MN-UFRJ Para quem abre pela primeira vez es- te livro, o título Anthropologie du Carna- val pode parecer enganoso. Mesmo o subtítulo – La Ville, la Fête et l’Afrique à Bahia – sugere uma abordagem muito mais abrangente do que aquela que se apresenta de imediato ao leitor. Apa- rentemente, não estamos diante de um tratado geral sobre rituais carnavales- cos, como a capa indica, mas sim de uma cuidadosa e densa etnografia so- bre as atividades de um único grupo carnavalesco soteropolitano, o Ilê Aiyê. Porém, quem chega ao final da leitura compreende a pertinência do título. Na verdade, o livro é uma importante lição de como, do detalhe etnográfico de fe- nômenos muito particulares das socie- dades complexas contemporâneas, po- demos chegar à teoria mais “abstrata”, iluminando no caminho questões cen- trais para o trabalho de qualquer antro- pólogo. Em Anthropologie du Carnaval, teoria e “empiria” – e também minu- dência e generalidade – combinam-se de maneira elegante e enriquecedora. Todos os aspectos principais da or- ganização do Ilê Aiyê são detalhados em diferentes capítulos. O capítulo 3 co- meça com uma descrição da Liberdade (o bairro onde surgiu esse grupo carna- valesco), em seguida apresenta os fun- dadores do bloco e termina narrando seu primeiro desfile de carnaval. No ca- pítulo 4, encontramos a história do Ilê Aiyê dividida em três períodos, nos quais o bloco passa a se definir – e ser definido – primeiro como movimento cultural e depois como empresa. O ca- pítulo 5 é dedicado a uma análise das “posições sociais” dos membros do Ilê Aiyê, sobretudo a partir de suas trajetó- rias profissionais e relações de paren- tesco. O calendário anual de festas, a “mitologia” inventada pelo grupo e o desfile de carnaval propriamente dito são estudados no capítulo 6; seu estilo musical e poético no capítulo 7 e, final- mente, sua inserção política nos movi- mentos negros baiano e brasileiro no capítulo 8. O restante do livro é forma- do por dois capítulos introdutórios, uma conclusão e um posfácio teórico. Fiz questão de enumerar todos es- ses assuntos para dar uma idéia do grau de comprometimento do autor com o pormenor etnográfico, do peso que os “fatos” têm na organização do livro. Na- da escapa ao seu olhar: o padrão gráfi- co das vestimentas dos foliões; o núme- ro de tocadores de cuíca entre os per- cussionistas; as relações de gênero atua- lizadas no desfile e nos ensaios; a cone- xão com o candomblé; a economia e os conflitos administrativos do bloco; a RESENHAS MANA 7(1):165-190, 2001

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AGIER, Michel. 2000. Anthropologie duCarnaval: La Ville, la Fête et l'Afriqueà Bahia. Marseille/Paris: ParènthesesEds. 253 pp.

Hermano ViannaDoutor, PPGAS-MN-UFRJ

Para quem abre pela primeira vez es-te livro, o título Anthropologie du Carna-val pode parecer enganoso. Mesmo osubtítulo – La Ville, la Fête et l’Afriqueà Bahia – sugere uma abordagem muitomais abrangente do que aquela que seapresenta de imediato ao leitor. Apa-rentemente, não estamos diante de umtratado geral sobre rituais carnavales-cos, como a capa indica, mas sim deuma cuidadosa e densa etnografia so-bre as atividades de um único grupocarnavalesco soteropolitano, o Ilê Aiyê.Porém, quem chega ao final da leituracompreende a pertinência do título. Naverdade, o livro é uma importante liçãode como, do detalhe etnográfico de fe-nômenos muito particulares das socie-dades complexas contemporâneas, po-demos chegar à teoria mais “abstrata”,iluminando no caminho questões cen-trais para o trabalho de qualquer antro-pólogo. Em Anthropologie du Carnaval,teoria e “empiria” – e também minu-dência e generalidade – combinam-sede maneira elegante e enriquecedora.

Todos os aspectos principais da or-ganização do Ilê Aiyê são detalhados

em diferentes capítulos. O capítulo 3 co-meça com uma descrição da Liberdade(o bairro onde surgiu esse grupo carna-valesco), em seguida apresenta os fun-dadores do bloco e termina narrandoseu primeiro desfile de carnaval. No ca-pítulo 4, encontramos a história do IlêAiyê dividida em três períodos, nosquais o bloco passa a se definir – e serdefinido – primeiro como movimentocultural e depois como empresa. O ca-pítulo 5 é dedicado a uma análise das“posições sociais” dos membros do IlêAiyê, sobretudo a partir de suas trajetó-rias profissionais e relações de paren-tesco. O calendário anual de festas, a“mitologia” inventada pelo grupo e odesfile de carnaval propriamente ditosão estudados no capítulo 6; seu estilomusical e poético no capítulo 7 e, final-mente, sua inserção política nos movi-mentos negros baiano e brasileiro nocapítulo 8. O restante do livro é forma-do por dois capítulos introdutórios, umaconclusão e um posfácio teórico.

Fiz questão de enumerar todos es-ses assuntos para dar uma idéia do graude comprometimento do autor com opormenor etnográfico, do peso que os“fatos” têm na organização do livro. Na-da escapa ao seu olhar: o padrão gráfi-co das vestimentas dos foliões; o núme-ro de tocadores de cuíca entre os per-cussionistas; as relações de gênero atua-lizadas no desfile e nos ensaios; a cone-xão com o candomblé; a economia e osconflitos administrativos do bloco; a

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personalidade dos membros da direto-ria. O resultado é uma das mais comple-tas descrições do intricado conjunto demecanismos que produz o carnaval bra-sileiro a partir do ponto de vista e dasatividades de um único grupo. A profu-são de detalhes pouco a pouco vai sejustificando em teses ousadas que mo-dificam nossa compreensão da festa equestionam o alcance das “teorias docarnaval” mais conhecidas.

Para Michel Agier, o carnaval é“uma instituição-chave para falar dasociedade e seu conjunto” (:7), produ-zindo o “duplo da cidade” que o abri-ga, e instaurando nela “uma fábrica deidentidades”. Muitos estudiosos da fo-lia carnavalesca já escreveram coisasparecidas, mas com intuitos diferentes.O carnaval também seria um duplo li-minar que inverteria ou reforçaria a or-dem da “vida ordinária”, da vida nãocarnavalesca. Michel Agier propõe umamaneira mais complexa de pensar essa“duplicidade” da folia, em que a festanão tem o mesmo significado (seja in-versão ou reafirmação) para todos osgrupos e indivíduos que dela partici-pam, nem o conjunto da sociedade évisto como um todo homogêneo organi-zado em torno de uma única “ordem”que pode ser “invertida” ou “reforça-da” em apenas um sentido.

Na história do carnaval de Salva-dor, o aparecimento do Ilê Aiyê, em me-ados dos anos 70, foi um fenômeno de-cisivo. É quase possível pensar a foliaem dois tempos: antes e depois do IlêAiyê. Michel Agier denomina o proces-so, do qual o Ilê Aiyê é elemento cen-tral, de “reafricanização” da folia baia-na. Realmente: foi para designar o tipode grupo carnavalesco criado pelo IlêAiyê que se criou a expressão blocoafro. Muitos blocos afros surgiram emoutros bairros, seguindo o exemplo daLiberdade, buscando também temati-

zar e cultuar a “herança africana” e o“orgulho negro”. Alguns deles se tor-naram conhecidos nacionalmente, co-mo o Olodum ou o Ara Ketu (um blococom trajetória muito peculiar – sendoconhecido hoje mais como um grupo depagode – e pouco presente neste livro).

Uma das características mais polê-micas do Ilê Aiyê é a de permitir ape-nas a participação de negros em seusdesfiles. Sua definição de quem é negroe quem não é não tem a ver com a re-gra do “one-drop-of-blood” popular nosEstados Unidos e que é adotada por al-guns setores do movimento negro bra-sileiro para se livrar das tendências“conformistas” do “elogio da mestiça-gem”. Ouvi várias histórias de mulatosescuros a quem foram negados seus pe-didos de ingresso no bloco. Nunca con-segui entender a lógica dessas negati-vas, já que via gente de pele mais claradesfilando. Esta Anthropologie du Car-naval vem esclarecer vários pontos daminha questão: não basta ser “bem”negro para fazer parte do Ilê Aiyê, épreciso ter outros vínculos com seu“universo relacional e afetivo denso”(:109), sempre dirigido a um segmentosocial específico entre os negros de Sal-vador, aquele que possui “uma real in-serção socioprofissional nos diferentessetores do trabalho urbano” (:188) eque quer “se elevar socialmente” (:197).Em resumo: “A distância étnica, de apa-rência atemporal, é, nesse caso, umaforma de distinção social.” (:193)

Michel Agier faz outra observaçãointeressante, que deve causar surpresapara aqueles que pensam que o carna-val é um ritual homogêneo – usado portodos os foliões para atingir os mesmosobjetivos – ou que, pelo menos, o car-naval dos blocos afro de Salvador sejaum ritual homogêneo – usado por todosos foliões soteropolitanos, negros e po-bres para atingir os mesmos objetivos.

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A partir de entrevistas e da aplicação deum questionário, descobriu que a maio-ria dos componentes do Ilê Aiyê nuncadesfilaria no Olodum, por exemplo, e is-to não por uma rivalidade competitivaentre blocos afro, e sim por causa deuma diferença social: os negros quedesfilam no Olodum pertencem a umoutro segmento social; o Olodum é criti-cado pelo pessoal do Ilê Aiyê como umbloco afro descaracterizado, comerciale não tão “africano” e “negro” como de-veria ser ou como o Ilê Aiyê “é”.

Portanto, a definição de quem é ne-gro “o suficiente” para entrar para o IlêAiyê deve ser vista mais como “umamodalidade de posicionamento soci-al” do que como “um retorno à etnia”(:197), sendo melhor compreendida co-mo “uma retórica identitária atual” enão como o resgate do passado, ou co-mo “a conservação da memória africa-na”. Em outras palavras: “o africanismonão depende de uma ligação direta coma África, ele se transformou num instru-mento de posicionamento social moder-no.” (:197) Nesse sentido, o tradiciona-lismo do Ilê Aiyê é, na verdade, um“neotradicionalismo urbano” (:141), é ainvenção de uma nova tradição, de umanova identidade para um grupo con-temporâneo, que só poderia existir emuma cidade contemporânea, que talvezaté já tivesse existência como grupo,mas que não tinha autoconsciência des-sa existência, e a criação dessa auto-consciência vai acontecer no carnaval.

Nesse sentido, também, é que o car-naval pode ser pensado como “fábricade identidades”, território que tem uma“capacidade suplementar de criar iden-tidade” (:87), de exibir um “excesso ouabundância de identidade” (:53). En-tão, a folia não abole as fronteiras queordenam a vida ordinária da cidade ouda sociedade, mas ela também não for-tifica os limites grupais já existentes.

Seu “trabalho” é mais ambíguo; é comoum espelho que distorce a ordem pree-xistente, deslocando fronteiras, des-truindo alguns limites e inventandooutros. É um travestissement da reali-dade, que a “deforma”, manifestando astensões e ao mesmo tempo permitindotransformações, que, por sua vez, terãoconseqüências muitas vezes profun-das na vida não carnavalesca, que se-rão reprocessadas novamente pela má-quina identitária do carnaval e assimpor diante.

Toda essa produção carnavalescaesfuziante faz Michel Agier nos lem-brar do “paradoxo atual” (:226) revela-do por um número cada vez maior detrabalhos de campo, realizados entretodos os tipos de culturas, em todo oplaneta: ao mesmo tempo que os antro-pólogos desconstroem as noções deidentidade, revelando seu processo de“invenção” e seu caráter fluido/não es-sencialista, as sociedades as recons-troem e a elas se apegam com maior vi-gor e criatividade. Pode ser “conve-niente” que seja assim, e assim conti-nue por muito tempo. Ao contrário doque pensavam os “pais” de nossa dis-ciplina, seu “objeto” não está desapa-recendo. Temos cada vez mais diferen-ças e tradicionalismos para saciar nos-sa sede de conhecimento. Mas lançouma razão mais pragmática para mealegrar com tal paradoxo: se todo mun-do fosse antropólogo antiessencialistae anticulturalista, é bem capaz que nãoexistisse mais carnaval.

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BARTH, Fredrik. 2000. O Guru, o Ini-ciador e Outras Variações Antropo-lógicas (organização de Tomke Lask).Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria.243 pp.

Eliane Cantarino O’DwyerProfessora, UFF

A publicação de uma coletânea de tex-tos do antropólogo Fredrik Barth no Bra-sil vem brindar-nos com uma obra ins-tigante, crítica dos dogmas e pressu-postos teóricos da disciplina, que abrenovos horizontes para a prática da pes-quisa antropológica em outros univer-sos sociais e culturais reconhecidamen-te complexos, diferenciados e sincréti-cos como o nosso. Autor de uma produ-ção internacionalmente consagrada,Barth tem sido lido e divulgado no Bra-sil, basicamente, através da “Intro-dução” ao livro Grupos Étnicos e suasFronteiras, contribuição inestimável aospesquisadores que trabalham com so-ciedades indígenas e outros grupos ét-nicos e minorias. Principalmente, noscasos em que a fraca diferenciação cul-tural desses grupos, imersos em umaestrutura de interação com outros sub-grupos de fortes marcadores regionais(como no Nordeste), desqualifica, doponto de vista do observador externo,as identidades étnicas assumidas comoindígenas ou comunidades de afro-des-cendentes que reivindicam do Estadobrasileiro, na atualidade, o reconheci-mento do território que ocupam e deum status étnico distinto, de acordocom determinados preceitos constitu-cionais. Desse modo, a problemática dadefinição de um grupo étnico, de acor-do com as reflexões de Barth, tem sidolargamente empregada pelos antropó-logos que estão envolvidos com a ela-boração de laudos periciais nesse con-

texto de aplicação dos direitos consti-tucionais.

A edição em português dessa cole-tânea permite, igualmente, sua divul-gação para um público mais amplo, deestudantes e de especialistas que atu-am em outras áreas do saber em suasinterfaces com a antropologia, como ocampo disciplinar do direito. Para osantropólogos profissionais, o título do li-vro faz jus a seu autor, mesmo que gurue iniciador tenham sido termos original-mente empregados por Barth no con-texto de uma reflexão comparativa en-tre duas grandes regiões etnográficas, oSudeste da Ásia e a Melanésia, sobre as“noções de uma sociologia do conheci-mento que ajudam a esclarecer o modopelo qual as idéias são moldadas pelomeio social em que se desenvolvem”(:143). As categorias nativas de guru einiciador são usadas, respectivamente,para indicar formas distintas de com-partilhar idéias e tradições de conheci-mento, através da falação ou do ocul-tamento, e podem ser pensadas comoequivalentes ao papel assumido porBarth no campo do saber antropológi-co de “enfrentar novos desafios teóri-cos” (:207) e participar do debate a par-tir do material etnográfico coligido nassuas pesquisas em diferentes regiões,como a Ásia, Oceania e parte da Áfri-ca, que serviram igualmente de ancora-gem às teorias e aos grandes temas dadisciplina.

Nos estudos sobre grupos étnicos noBrasil, inclusive nas condições de pro-dução do laudo antropológico, privile-giar o trabalho de campo tem permitidoromper, a partir da investigação dos fa-tos empíricos, ao se levar em conta osargumentos e conceitos comuns pro-postos por Barth, com a “premissa doraciocínio antropológico de que a varia-ção cultural é descontínua” (:25). É pos-sível, igualmente, abandonar a “visão

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simplista de que os isolamentos social egeográfico foram os fatores cruciais pa-ra a manutenção da diversidade cultu-ral” (:26). Na concepção do autor não sedeve “considerar como característicaprimária dos grupos étnicos seu aspectode unidades portadoras de cultura”(:29). Para Barth, “ao se enfocar aquiloque é socialmente efetivo, os grupos ét-nicos passam a ser vistos como uma for-ma de organização social” (:31). Nessecaso, “a característica crítica” na defi-nição desses grupos passa a ser a atri-buição de uma identidade ou “catego-ria étnica” (:32) determinada por umaorigem comum presumida e destinoscompartilhados.

A organizadora da coletânea, Tom-ke Lask, na apresentação do livro (:7-23), faz referência às tomadas de posi-ção de Barth, ao seu empenho pessoal“em promover o papel do antropólogona vida pública” (:15). Sugere aindaque isso se aplicaria ao papel que os an-tropólogos no Brasil têm assumido emrelação ao reconhecimento dos direitosindígenas como grupos étnicos diferen-ciados. Pode-se considerar igualmenteilustrativo, no contexto desta resenha,pensar as implicações teóricas e meto-dológicas do pensamento de Barthquando aplicado ao reconhecimento dosdireitos constitucionais de outra mino-ria étnica, os chamados “remanescen-tes de quilombos”, termo de origem ju-rídica que a princípio parece mais afeitoàs definições historiográficas e compro-vações arqueológicas. Afinal, até recen-temente, o termo quilombo era de usoquase restrito a historiadores e demaisespecialistas que, através de documen-tação disponível ou inédita, procura-vam construir novas abordagens e in-terpretações sobre o nosso passado co-mo nação. A partir da Constituição de1988, quilombo adquire uma significa-ção atualizada, ao conferir direitos cons-

titucionais aos remanescentes de qui-lombos que, segundo o texto constitu-cional, estejam ocupando suas terras.Como não se trata de uma expressãoverbal que denomine indivíduos, gru-pos ou populações no contexto atual,seu emprego na Constituição levantauma questão de fundo: quem são os cha-mados remanescentes de quilombosque têm seus direitos atribuídos pelodispositivo legal?

Pode parecer paradoxal que os an-tropólogos, justamente eles que marca-ram suas distâncias e rupturas com ahistoriografia ao definirem seu campode estudos por um corte sincrônico no“presente etnográfico”, tenham sido co-locados no epicentro dos debates sobrea conceituação de quilombo e a identifi-cação daqueles qualificados como re-manescentes de quilombos para fins deaplicação do preceito constitucional.Acontece, porém, que o texto constitu-cional não evoca apenas uma “identida-de histórica” que pode ser assumida eacionada na forma da lei. É preciso, so-bretudo, que esses sujeitos históricospresumíveis existam no presente. O fatode o pressuposto legal estar referido aum conjunto possível de indivíduos ouatores sociais organizados segundo suasituação atual, permite conceituá-los,segundo a teoria antropológica mais re-cente, como grupos étnicos que existemou persistem ao longo da história comoum “tipo organizacional”, através deprocessos de exclusão e inclusão quepermitem definir os limites entre os con-siderados de dentro e os de fora.

A persistência dos limites entre osgrupos deixa de ser colocada por Barthem termos dos conteúdos culturais queencerram e definem suas diferenças.No capítulo “Grupos Étnicos e suasFronteiras” (:25-67), o problema da con-trastividade cultural passa a não depen-der mais de um observador externo, que

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contabilize as diferenças ditas objeti-vas, mas unicamente dos “sinais diacrí-ticos”, isto é, as diferenças que os pró-prios atores consideram como significa-tivas. Embora as diferenças possammudar, permanece a dicotomia entre“eles” e “nós”, marcada pelos seus cri-térios de pertencimento. Barth enfatiza“que grupos étnicos são categorias atri-butivas e identificadoras empregadaspelos próprios atores; conseqüentemen-te, têm como característica organizar asinterações entre as pessoas” (:27).

A centralidade dos conceitos de gru-po étnico e de etnicidade na leitura daobra de Barth, não esgota a novidadede suas contribuições, que possibilitamdesnaturalizar o mundo social, mas tam-bém os instrumentos do fazer antropo-lógico. É o que ocorre com as concep-ções antropológicas convencionais decultura. No capítulo inicial do livro, ve-mos que os pressupostos implícitos nouso desse conceito são transgredidos narelação de não-correspondência esta-belecida por Barth entre os limites so-ciais das unidades étnicas e o comparti-lhamento de uma cultura comum, quedeixa de ser considerada uma caracte-rística primária e definitiva na organi-zação de um grupo. A necessidade pa-ra a antropologia de “remodelar suasafirmações” é explicitamente colocadano capítulo “A Análise da Cultura nasSociedades Complexas” (:107-139). Os“pressupostos do holismo e da integra-ção” (:105) da maioria dos conceitos an-tropológicos, como sociedade e cultura,são questionados. O uso equivocado dotermo cultura deve ser testado “na aná-lise da vida real tal como ela ocorre emdeterminado lugar do mundo” (:108). Ailha de Bali passa a ser o local escolhidopara refletir sobre a “práxis antropoló-gica”. A diversidade de atividades, as-sim como a mistura do novo com o ve-lho em um cenário cultural sincrético,

permite questionar a linguagem do es-truturalismo com sua ênfase nas cone-xões e o pressuposto de uma coerêncialógica generalizada. Para Barth, na me-dida em que “as realidades das pessoassão culturalmente construídas […], oque os antropólogos chamam de cultu-ra de fato torna-se fundamental paraentender a humanidade e os mundoshabitados pelos seres humanos” (:111).Mas, em vez de focar a análise no inte-rior de universos fechados e de culturasdistintivas, é preciso explorar a varie-dade de fontes dos padrões culturais,que podem ser resultado de processossociais específicos. Em lugar de descar-tarmos as incoerências observadas ànossa volta, devemos confrontar o queé problemático e realizar a “tradicionaltarefa naturalista da antropologia deconstituir uma cuidadosa e meticulosadescrição de uma ampla gama de da-dos” (:114). A visão da cultura como flu-xo e correntes simultâneas de tradiçõesculturais (:123) defendida por Barth,não recoloca a questão das culturas“feitas de retalhos e remendos” do di-fusionismo. O que importa nesse argu-mento são as interpretações e os esque-mas de significação que só podem serentendidos corretamente quando rela-cionados “ao contexto, à práxis e à in-tenção comunicativa” (:131).

Ao ziguezaguear entre as seções dolivro, sem obedecer à ordem de sua ex-posição, seguimos outra possibilidadede leitura, sugerida pela própria reu-nião dos textos na coletânea, que nãopedem para ser compreendidos atra-vés de uma disposição linear do menosao mais inclusivo. Trata-se, ao contrário,de diferentes e variados planos de te-mas e questões que se entrecruzam nainterseção dos seus argumentos e refle-xões críticas.

As possibilidades criativas e os usosinovadores de Barth podem ainda rom-

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per fronteiras entre disciplinas e tra-dições de conhecimento. No posfácio(:239-243), escrito pelo cientista políticoMarco Martiniello, a questão da etnici-dade como problema social a ser en-frentado na atualidade, ao reverter acrença de que raça e etnicidade desa-pareceriam no contexto da moderniza-ção e pós-colonialismo, convida os ci-entistas políticos a colocar a obra deBarth na agenda de sua disciplina. Ou-tras fronteiras internas à antropologia,que separam o conhecimento produzi-do de outras formas de saberes aplica-dos, têm sido rompidas através da pro-blemática proposta por Barth – no Bra-sil, mediante a noção de uma antropo-logia da ação em que, diferentementeda chamada “antropologia aplicada”,menos comprometida com as popula-ções às quais se refere, o antropólogonão perde sua base acadêmica, comoportador de sólida formação na discipli-na, avaliado e reconhecido pelos seuspares da comunidade científica.

Em entrevista publicada na coletâ-nea (:201-228), Barth concorda que “fa-çamos uso de nossos insights para agirno mundo e transformá-lo” (:218), masadverte que “devemos deixar de enfati-zar tanto a etnicidade, pois ela pode re-presentar apenas um pequeno setorda herança cultural de uma pessoa”(:217). Por outro lado, “participamos deoutras comunidades de cultura que nãopodem ser descritas como étnicas”(:217). Sobre a politização desmedidadas identidades étnicas, Barth critica oschamados “empreendedores étnicos”,pois “eles utilizam de maneira inade-quada uma idéia excessivamente unidi-mensional de cultura e de identidadeadvogando-a para seus próprios finspolíticos” (:219).

FAUSTO, Carlos. 2000. Os Índios antesdo Brasil. Rio de Janeiro: Jorge ZaharEditor. 93 pp.

Francisco NoelliProfessor, Universidade Estadual de Maringá

Este pequeno livro, voltado para a di-vulgação da arqueologia e etnologiaindígenas, apresenta com brilhantismoe erudição as linhas gerais da últimagrande síntese do campo, assim comoas perspectivas mais contemporâneassobre os povos situados na América doSul e no Brasil. Muito bem redigido, OsÍndios antes do Brasil não está centradona descrição, mas em modelos e proble-máticas, proporcionando a interessadose iniciantes um resumo da espinha dor-sal das teorias e debates que regerama heterogênea comunidade americanis-ta nas últimas cinco décadas. CarlosFausto parte do princípio de que “Tudosomado, é possível dizer que vivemosem uma ilha de conhecimento rodeadapor um oceano de ignorância. Sabemosmenos do que deveríamos, mas feliz-mente ainda podemos saber mais. Paraavançar, cumpre fazer as perguntascertas” (:9).

O livro apresenta as perguntasatualmente consideradas “certas”, con-trapostas às perguntas “erradas”. Estas,em parte, foram formuladas durante operíodo colonial e elaboradas definiti-vamente no grandioso modelo de JulianSteward no Handbook of South Ameri-can Indians, a partir de 1946.

A obra de Fausto é uma compactahistória das idéias americanistas, poisdisseca as estruturas teóricas e expõe asprincipais questões em debate nas últi-mas décadas. Revelando como Stewarde seus discípulos formularam hipóteses,desenvolveram suas pesquisas e chega-ram a determinadas conclusões, Fausto

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mostra como aqueles que não seguiramo determinismo ecológico stewardianoconseguiram, a partir de outras pergun-tas, abordagens e metodologias, ques-tioná-lo e torná-lo obsoleto ou, pelo me-nos, expor suas fragilidades, contribuin-do para barrar diversas simplificaçõesreproduzidas na academia.

Dentre os temas enfocados por Faus-to, destaca-se a crítica da tipologia evo-lucionista das populações indígenasdesde uma visão continental. É mostra-do como Steward elaborou sua classifi-cação de cima para baixo a partir domodelo do império Inca, exemplo do“ápice do desenvolvimento no conti-nente”, definindo as demais populaçõesda América do Sul pela “carência, le-vando à caracterização dos povos dasterras baixas pela negativa” (:15). Des-sa forma, segundo Fausto, “restringi-ram-se os problemas a serem enfrenta-dos pela arqueologia a duas perguntasbásicas: será que todos os povos das ter-ras baixas, de fato, não tinham aquiloque os incas tinham? E por que não ti-nham?” (:15)

Baseado em pesquisas recentes, oautor apresenta contrapontos às con-cepções de Steward no que se refere ademografia, desenvolvimento da agri-cultura, subsistência, exploração/mane-jo dos recursos naturais, criação da cul-tura material, tipos de sociedade e deorganização política. Traça, assim, umpanorama sugestivo da variabilidadedos povos indígenas, superando cha-vões em torno de sua falaciosa unifor-midade sociopolítica, econômica, cultu-ral e demográfica.

Fausto revela como a relação entreambiente e níveis de “desenvolvimentocultural”, tão cara a Steward, foi trata-da de modo superficial e apriorístico,através dos simplificados conceitosde “área marginal” e “área de florestatropical”, elaborados em função de uma

suposta (mas não investigada naquelemomento) predominância de solos po-bres para a agricultura, bem como deum imaginário falacioso sobre a escas-sez de proteínas longe dos cursos d’água.Essas deficiências, tal como acredita-ram erroneamente Steward e muitosoutros, especialmente Betty Meggers,levariam as populações a uma constan-te procura por comida em ambientespouco produtivos e não permitiriam odesenvolvimento cultural, social e polí-tico, forçando-as a permanecer nos es-tágios mais baixos da imaginada cadeiaevolutiva das populações da Américado Sul. Apesar de algumas noções cen-trais do determinismo ecológico teremsido testadas e criticadas por RobertCarneiro menos de uma década após olançamento do Handbook, em tese de-fendida em 1957, a influência das idéiasde Steward permaneceu forte no Brasilaté os anos 90. Mesmo com as novasidéias e fatos de Carneiro, a revisãodo determinismo ecológico só ganhouadeptos no final dos anos 60, com as pu-blicações nessa linha tornando-se visí-veis após 1975.

Outro aspecto de Os Índios antes doBrasil é o debate sobre a expansão dospovos tupi. Aqui cabe um comentário,pois Fausto faz uma discussão em con-traponto a um estudo meu publicadoem 1996, na Revista de Antropologia,intitulado “As Hipóteses sobre os Cen-tros de Origem e as Rotas de Expansãodos Tupi”. Fausto segue parcialmente aargumentação de Eduardo Viveiros deCastro, apresentada em comentário àsteses do meu artigo. O foco da discussãoé a validade de certos aspectos da “teo-ria da pinça” de José Brochado, basea-da na hipótese de que parte das expan-sões tupi, especificamente as dos povosfalantes do tupinambá, teria colonizadoa costa brasileira rumo ao Sul, partindoda foz do Amazonas. Fausto e Viveiros

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de Castro entendem, olhando para osdados presentes, que, dada a falta deinformações arqueológicas entre a fozdo Amazonas e o Rio Grande do Norte,bem como a existência de datações an-tigas no Rio de Janeiro, “fica difícil crerque tenha havido uma expansão doNorte para o Sul (a não ser que recue-mos muito a cronologia desse movi-mento)” (:74). Fausto reconhece que is-to está “longe de ser resolvido” (:74),afirmando contudo que o centro de ex-pansão “pode ter sido a bacia do rioTietê” (:74).

Concordo que a questão está “lon-ge de ser resolvida”. Quanto à sugestãode Fausto, porém, há tão poucos dadossobre a bacia do Tietê quanto sobre aregião entre a foz do Amazonas e o RioGrande do Norte (sendo que ele nãomenciona os dados do interior do Piauí,Pernambuco, Alagoas...). Fausto defen-de a primeira hipótese sobre a expan-são dos Tupi, sugerida por von Martiusna década de 1830 e reciclada váriasvezes até a sua mais influente formula-ção por Alfred Métraux (1928). Comomostrei em 1996, estes veneráveis pes-quisadores não dispunham dos dadosarqueológicos, lingüísticos e etnológi-cos obtidos a partir dos anos 60. Apesardessas novidades, muitos pesquisado-res atuais, como Fausto, reproduziramacriticamente a hipótese original e asreciclagens feitas até Métraux sem rea-lizar uma síntese complexa e crítica queintegrasse todos os dados disponíveis.Enfim, posso repetir que houve poucaspesquisas no Nordeste brasileiro, com-parando-se com a situação no Sudestee Sul, resultando em um mapa arqueo-lógico desigual, forçosamente distorci-do, vulnerável à “confirmação” de umaexpansão do Sul para o Norte. Repeti-rei, resumidamente, conclusões minhase de outros pesquisadores já publicadasque reforçam a “teoria da pinça”, ques-

tionando conclusivamente a hipóteseda origem dos Tupinambá na bacia doParaná-Tietê: 1) o horizonte arqueoló-gico nos atuais estados de São Paulo,Mato Grosso do Sul e Paraná, bem co-mo no Paraguai, não apresenta deta-lhes característicos da cerâmica tupi-nambá que são comuns, por outro lado,no baixo Amazonas. Nessa área meri-dional só existe, considerando povos tu-pi, evidências históricas e arqueológi-cas dos Guarani, Guarayo, Xetá e Gua-yaki; 2) é possível e seguro estabelecera continuidade histórica entre o registroarqueológico e os povos historicamentedescritos como tupinambá na costa e in-terior, assim como no caso dos Guarani;3) lingüisticamente, o tupinambá é dis-tinto do guarani. A hipótese da origemmeridional ignora a relação da línguatupinambá com as línguas faladas porpovos situados apenas na Amazônia,assim como desconsidera a área de ori-gem do tronco tupi proposta e, até ago-ra, não questionada.

A questão do sentido da rota dos Tu-pinambá será respondida quando exis-tirem novos dados arqueológicos entrea foz do Amazonas e o Piauí. O desafioé realizar isto sem cair em explicaçõessuperadas, como aquelas do culturalis-mo germânico e do difusionismo aplica-dos aos povos indo-europeus. É neces-sário banir as conclusões baseadas ape-nas na lógica ou na tradição estabeleci-da por Martius, pois elas apenas consi-deram deslocamentos no espaço emfunção da posição historicamente de-terminada dos povos tupi.

Finalmente, há esperança de queeste livro de Carlos Fausto seja a se-mente de um atualizado e completo ma-nual em língua portuguesa sobre as po-pulações indígenas no Brasil, tão neces-sário para substituir os clássicos que jácumpriram sua tarefa e agora merecemir para o rol dos livros úteis à pesquisa

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da história da etnologia e da arqueolo-gia americanista. Sem dúvida, com a es-crita desse outro livro, teremos uma obracom os mais novos conhecimentos e, es-pecialmente, a possibilidade de suscitarmais e necessários debates.

FELDMAN-BIANCO, Bela e CAPINHA,Graça (orgs.). 2000. Identidades. Estu-dos de Cultura e Poder. São Paulo: Hu-citec. 175 pp.

Giralda SeyferthProfessora, PPGAS-MN-UFRJ

Esta coletânea apresenta resultados depesquisas que focalizam populações emdiáspora, enfatizando as relações entreprocessos de globalização e reconfigu-rações de identidade. Alguns dos traba-lhos que a compõem foram original-mente apresentados na mesa-redonda“Globalização, Estado e Embates deIdentidades” – I Conferência Interna-cional sobre Identidade Étnica e Rela-ções Raciais, realizada simultaneamen-te com a XX Reunião Brasileira de An-tropologia (Salvador, abril de 1996). Olivro é uma reedição, no Brasil, do volu-me temático sobre identidades da Re-vista Crítica de Ciências Sociais (no 48,junho de 1997) – publicação do Centrode Estudos Sociais da Faculdade deEconomia da Universidade de Coimbra(Portugal). Contém uma introdução, in-titulada “Identidades”, de Bela Feld-man-Bianco, e cinco textos, resultantesdo diálogo entre pesquisadores do Bra-sil, de Portugal e dos Estados Unidos,precedidos por um artigo de Boaventu-ra de Sousa Santos dedicado ao temados direitos humanos. Esses textos têmem comum, conforme registrado na in-trodução, “o desafio teórico-metodoló-gico de examinar criticamente a produ-

ção contemporânea de políticas cultu-rais e das identidades como política, nocontexto das (múltiplas) interseções en-tre processos de reestruturação do ca-pitalismo global e reconfigurações dacultura e da política” (:14). Apesar daabrangência sugerida nessa definiçãode objetivos, os autores, valendo-se deuma perspectiva comparativa, procura-ram apreciar as tensões subjacentes aosprocessos de formação e reconfiguraçãode identidades (de raça, de classe, degênero etc.), especialmente no contextodo Estado-nação transnacional, bem co-mo os significados e limites das políti-cas identitárias, apontando para formasde resistência e contestação às ideolo-gias hegemônicas de dominação.

O ensaio de Boaventura de SousaSantos, “Por uma Concepção Multicul-tural de Direitos Humanos”, aparece naantologia como introdução de naturezateórica, por problematizar algumas te-máticas analisadas no demais textos, no-tadamente a questão da globalização esuas diversas dimensões, o multicultu-ralismo, os direitos humanos e seu po-tencial emancipatório. Identifica as ten-sões dialéticas que informam a moder-nidade ocidental – basicamente, a ten-são entre regulação social e emancipa-ção social, entre o Estado e a sociedadecivil, e entre o Estado-nação e a globa-lização – para chegar a uma propostade reconceitualização multicultural dosdireitos humanos, partindo do princípioda incompletude das culturas singula-res. O autor afasta-se de uma definiçãohegemônica de globalização, usando otermo no plural para afirmar que, comoprocesso, nada mais é do que a imposi-ção bem-sucedida de um determinadolocalismo – localismo globalizado (pro-cesso pelo qual um fenômeno local églobalizado com sucesso) e globalismolocalizado (o impacto das práticas e dosimperativos transnacionais nas condi-

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ções locais). Nesse sentido, os direitoshumanos concebidos como universaissão impositivos, daí a sugestão de trans-formá-los em um projeto cosmopolitaque leve em conta o multiculturalismoenquanto “pré-condição de uma rela-ção equilibrada e mutuamente poten-ciadora entre a competência global e alegitimidade global” (:26). A dignidadehumana condicionadora da transforma-ção cosmopolita requer o reconhecimen-to das incompletudes culturais mútuas.

O problema da dominação, subja-cente à discussão sobre os direitos hu-manos, está presente nos demais textos,que abordam construções identitáriasda perspectiva transnacional. Sob esteaspecto, o trabalho de Nina Glick Schil-ler e Georges Fouron, “Laços de San-gue: Os Fundamentos Raciais do Esta-do-Nação Transnacional”, aponta parauma identidade racial assente na su-posta relação entre raça e nação, elabo-rada por imigrantes haitianos nos Esta-dos Unidos e legitimada em um Haitiredefinido como Estado-nação transna-cional. Os autores fazem um estudo docaso haitiano, mas sugerem que dirigen-tes políticos de alguns países de emi-gração – México, Portugal, Colômbiaetc. – têm procurado definir os respecti-vos Estados como transnacionais, parapoder incorporar suas populações dadiáspora.

O conceito de raça simbolizando aidentidade nacional, bem como o seuuso na arena transnacional envolvendopopulações migrantes, não é novidadeda pós-modernidade, conforme mostramos numerosos estudos sobre o naciona-lismo. O jus sanguinis que embasa a ci-dadania em muitos Estados nacionais éa contrapartida legal dessa premissabiológica de natureza primordialista. Anão ser por uma breve incursão históri-ca ao desenvolvimento das idéias denação e raça, os autores não se preocu-

param com a continuidade desse tipode ideologia, presente em muitos con-textos imigratórios desde o século XIX.No entanto, com base em dados de mi-nuciosa pesquisa realizada em NovaIorque com imigrantes do Haiti, defini-ram um modelo de identidade nacionalconformado pela idéia de raça enquan-to traço distintivo suficiente na situaçãotransnacional. Mostram que a reconcei-tualização do Estado-nação através daidéia de transnacionalidade – umaconstrução ideológica da qual partici-pam tanto as lideranças dos imigrantesna diáspora, quanto políticos e detento-res de cargos oficiais – teve como resul-tado a formulação de uma identidadenacional especificamente racial, basea-da em linha de descendência e laços desangue, na qual outros atributos da na-cionalidade, tais como língua comum,história compartilhada, território oumesmo cultura, desaparecem da simbó-lica constitutiva da nação. Apesar daspossibilidades de construir múltiplas in-ter-relações da vida cotidiana dos imi-grantes, visto que as redes transnacio-nais produzem importantes relações so-ciais entre os que emigram e os que fi-cam, esse tipo de nacionalismo raciali-zado que produz identidade é critica-mente analisado como forma problemá-tica de resistência ao preconceito e à do-minação.

O trabalho de Angela Gilliam, “Glo-balização, Identidade e os Ataques àIgualdade nos Estados Unidos: Esboçode uma Perspectiva para o Brasil”,aborda alguns aspectos das atuais re-presentações sobre raça nos EstadosUnidos e no Brasil, bem como as diver-sas reformulações do conceito de affir-mative action e as tensões relacionadasà identidade racial. Explora as implica-ções da globalização da economia so-bre o princípio de igualdade, o proble-ma do trabalho não remunerado nas pri-

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sões dos Estados Unidos, a retórica do“daltonismo cultural” (vinculada à su-peração do racismo) reapropriada peladireita americana para neutralizar aquestão racial, o debate sobre quem énegro no Brasil, para mostrar as atuaisdisputas relacionadas à igualdade dedireitos e cidadania envolvendo classi-ficações raciais e o programa de affirma-tive action. No caso brasileiro, enunciao “apadrinhamento neoliberal”, contra-ditório, da affirmative action que, poressa razão, não é identificada com a lu-ta dos negros pela cidadania e contra oracismo.

A questão da affirmative action ser-ve de mote para criticar algumas análi-ses acadêmicas relativas à identidaderacial, especialmente aquelas que re-correm às ambigüidades de um sistemaclassificatório “multipolar” vinculado àmestiçagem. Comete alguns excessosretóricos – como o uso dos termos “ne-grólogos” e “porteiros da academia”(:99-100) para referir-se à posição hege-mônica de brancos falando de relaçõesraciais nos meios acadêmicos brasilei-ros – mas, indubitavelmente, sua críticaà perspectiva multipolar ajuda a pensarsobre políticas públicas e racismo.

Em um trabalho extremamente in-teressante sobre a poesia produzida porimigrantes portugueses no Rio de Ja-neiro e São Paulo, intitulado “A Poesiados Imigrantes Portugueses no Brasil:Ficções Críveis no Campo da(s) Identi-dade(s)”, Graça Capinha analisa o pro-cesso de contínua reelaboração da iden-tidade portuguesa na diáspora, em umasituação subjetivada e contraditória defronteira cultural indiferenciada. Tratada identidade (cultural) como um pro-cesso de articulação e representação,simultaneamente lingüístico e literário,através da análise textual, para mostraras ambigüidades predominantes nascategorizações identitárias em que os

portugueses aparecem ora como coloni-zadores (e parte da história formativado Brasil), ora como imigrantes. Nessecontexto mais propriamente literário, aidéia de raça não tem importância, pre-valecendo a retórica da “irmandade lu-so-brasileira” e da língua compartilha-da que, supostamente, deveriam igua-lar, mas que o sotaque e outros indica-dores da nacionalidade diferenciam naconfiguração do lugar subalterno doimigrante na situação pós-colonial.Conforme registra a autora, na poesiasão encontradas as “identidades queresultam da interseção de culturas que,mesmo quando definidas pelo ‘Mesmo’que é a Língua, teimarão sempre em tra-zer o ‘Outro’ e a Diferença” (:112).

O artigo trata da poesia como veícu-lo para externalizar configurações iden-titárias mutáveis, cujos referenciais são,por um lado, a terra pátria, muitas ve-zes definida pela região e não pela na-ção, a saudade, a grandeza passada dePortugal (a retórica do Império), e, poroutro, a “irmandade”, a integração Por-tugal-Brasil, a própria identidade luso-brasileira eventualmente abalada pelosestereótipos que desqualificam o “por-tuga” como ambicioso, burro, inculto, ea colonização portuguesa como causado atraso brasileiro. A poesia como for-ma de expressão da nacionalidade (ou,nos termos de Herder, do “espírito na-cional”) é um importante reflexo daquestão étnica no âmbito dos processosmigratórios desde os tempos do roman-tismo, observável em outras situaçõeshistóricas. É o caso, por exemplo, da po-esia produzida por imigrantes alemãesno sul do Brasil desde meados do sécu-lo XIX, através da qual se afirmou umaidentidade teuto-brasileira simultanea-mente a uma vinculação, pela língua epelo jus sanguinis, à nação alemã. Co-mo no caso dos portugueses, a celebra-ção da língua é o elemento central des-

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sa poesia, assim como a nostalgia, nãopropriamente do Estado-nação, masdo local de proveniência (a província,a aldeia, a terra no seu sentido mais res-trito).

No último artigo, “Transidentidadesno Local Globalizado. Não Identidades,Margens e Fronteiras: Vozes de Mulhe-res Latinas nos E.U.A”, Mary GarciaCastro aborda o debate sobre poder esubalternidade na situação transnacio-nal, enfocando, especialmente, textosproduzidos por mulheres identificadascomo “latinas” e/ou “negras” nos Esta-dos Unidos. A escolha dessas “vozes”permitiu à autora lidar com subalterni-dades múltiplas – de raça, de classe, degênero, de opção sexual –, problemati-zando o conceito de identidade “latina”na medida em que a literatura em ques-tão, produzida por escritoras e militan-tes de diferentes movimentos, algumasfeministas, negras e/ou homossexuais,vai além das fronteiras identitárias, emum desafio à discriminação e opressão.Investiga temas menos explorados nassituações de diáspora, presentes nostextos dessas mulheres: o corpo e a se-xualidade, por exemplo, ou combina-ções entre políticas de classe, raça, et-nicidade, gênero, nacionalismo etc., quelevam à recusa do enquadramento empolíticas de identidades unívocas.

Os artigos reunidos na antologiadão subsídios importantes para o enten-dimento das contradições, subjetivida-des, simbolismos e paradoxos subjacen-tes às concepções de identidade nas si-tuações de transnacionalidade marca-das pela redefinição do modelo de Es-tado-nação. São estudos que focalizamprocessos atuais de reconfiguração iden-titária; não obstante, seria útil a compa-ração com processos imigratórios de ou-tros períodos históricos, sobretudo por-que o Estado-nação transnacional estálonge de ser um fenômeno recente – so-

bretudo quando acionado um princípiodo nacionalismo cuja premissa é pri-mordialista em um sentido biológico.Por outro lado, o multiculturalismo nãoestá suficientemente problematizado.Segundo alguns dos seus críticos, espe-cialmente aqueles identificados com osinteresses de minorias, a distintividadecultural pode ser transformada em novametáfora da desigualdade, através dodiscurso de legitimação da diferença.As controvérsias são muitas e, certa-mente, as contribuições contidas no li-vro ajudam a elucidar os meandros dasidentidades enquanto política, em ummundo globalizado onde persiste o lo-cal na forma do Estado-nação.

GOLDMAN, Marcio. 1999. Alguma An-tropologia. Rio de Janeiro: Relume Du-mará. 178 pp.

Pablo SemánDoutor, CONICET/Universidad Nacional de General San Martín

Os treze artigos que compõem AlgumaAntropologia recobrem mais de vinteanos de uma trajetória diversificada emobjetos e perspectivas. Por isso, cadaum deles apresenta rendimentos pró-prios e específicos. O conjunto, todavia,encadeia um argumento em três nú-cleos: com a discussão das noções depessoa e de antropologia das socieda-des complexas, propõe-se a antropolo-gia como história; com a discussão decertos conceitos-chave nas obras deDeleuze, Descartes, Foucault, Lévi-Strauss, e com a identificação de algu-mas falácias no raciocínio antropológi-co, elaboram-se as determinações doobjeto da antropologia; o estudo dosprocessos eleitorais, o terceiro núcleo,será um campo de verificação das con-

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cepções e debates precedentes. Exami-narei cada um desses núcleos na ordemaqui enunciada.

No artigo “Uma Categoria do Pen-samento Antropológico: A Noção de Pes-soa”, afirma-se: “É curioso que os an-tropólogos aceitem a idéia de um indi-vidualismo ocidental e, ao mesmo tem-po, dediquem todos os seus esforços aencontrar entre nós representações quenão obedecem a esse modelo suposta-mente dominante” (:25). Tal contradi-ção depende da fusão indevida entre anecessária desnaturalização do agentee sua concepção em termos da intera-ção indivíduo-sociedade. Esta, suben-tendendo o indivíduo em vez de colocá-lo entre parênteses, duplica o imaginá-rio ocidental que pretende interpretar.Todavia, preservar a problematizaçãodo agente não significa buscar, em umaregressão ad infinitum, o efeito de ideo-logias constituintes, mas investigar oplano de articulação contingente de re-gras, discursos e objetos no qual asideologias são derivadas e se tornameficazes. É por isso que se sustenta que“às teorias que buscam captar a subs-tância de ideologias englobantes, seriapreciso opor uma analítica dos proces-sos imanentes às múltiplas práticas”(:35). Abrindo-se à contingência, torna-se central o elemento histórico que oautor tenta realçar na prática e no obje-to da antropologia. Essa operação seprolonga e esclarece com o giro que seefetua em “Antropologia Contemporâ-nea, Sociedades Complexas…”. Socie-dade “complexa” é uma noção onipre-sente na prática dos antropólogos, quea opõe às “simples”, objeto próprio daantropologia, ou a define delimitandoas condições e aspirações do exercícioantropológico nas sociedades ociden-tais modernas. Em ambos os casos, aantropologia clássica e moderna, corpode saberes derivados da constância de

uma prática, consagra essa constânciana ilusão de correspondência com umobjeto. Este constitui especularmente aantropologia como ciência dos objetosde pequena escala. A alternativa é pen-sar que qualquer sociedade é, ontológi-ca e epistemologicamente, história. Nãose trata de apostar no conhecimentoidiográfico ou de afiliar-se ao pólo ro-mântico da tensão constitutiva das ciên-cias sociais, mas sim de distinguir entreo plano da geração social das institui-ções e o plano que configura o conjuntodelas, já instituídas, privilegiando o pri-meiro. A distinção refere-se a lógicas deanálise diferentes e, se é óbvio que ageração social de instituições recicla opreviamente cristalizado, também o éque o dispositivo não é a mesma coisaque o já disposto, que não será a mes-ma coisa estudar criadores e criaturas.Essa noção, tributária de Veyne e Fou-cault, entende como história o estudo ea produção de tramas que se tecemaquém da necessidade, do tempo e doespaço transcendentais. Na interseçãode temporalidades conflitivas que nun-ca serão a História e de espaços preca-riamente fixados que nunca serão subs-tância, são decididas e condensadas assingularidades: ponto de articulação deproveniências e emergências, terrenode engendramento dos universais queesses mecanismos de geração tornamsempre precários. Assim a antropolo-gia, prática transversal às ciências for-malizadas, transita em âmbito “sublu-nar” que não implica miniaturização,mas delimitação de um plano em queoperam variáveis diferentes das quereinam no campo em que os objetos sãoengendrados.

Essa mudança de perspectiva, porsua vez, conduz a uma reflexão crucialsobre o método. O objeto “sociedadescomplexas” ilumina um problema que,já presente nas sociedades simples, era

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ativamente desconhecido pela suposi-ção de que estas últimas eram passíveisde cognições totais. A complexidade dequalquer forma social se impõe a qual-quer pretensão de registro total, asso-ciada ilusoriamente às aspirações dalonga duração das observações e à su-posta imediatez das mesmas. Não setrata de abandonar o rigor da etnogra-fia: o treinamento próprio da disciplinanão caduca, mas suas aspirações sevêem dimensionadas pela elucidaçãoda ontologia do social que estava sendoencoberta.

A problematização dessa ontologiase realiza de duas maneiras. Primeiro,como crítica das maneiras de conhecer;segundo, como elaboração das determi-nações teóricas do objeto. A primeira,desenvolvida em “Como se Faz umGrande Divisor?” (em co-autoria comTânia Stolze), assinala um produto con-traditório das análises antropológicas: arecusa à oposição “nós/eles” desconhe-ce a lógica que a sustenta e a reproduzem outros níveis ao postular as separa-ções entre, por exemplo, mundos holis-tas e individualistas, oralidade e escrita.Em primeiro lugar, é preciso entenderque a pergunta “o que, em geral, nosaproxima e/ou distingue dos outros”(:85), supõe a realidade de unidades ediferenças cuja existência deveria serobjeto de suspeita. Em segundo lugar,chama-se a atenção para as condiçõeslógicas sob as quais se realizam os ra-ciocínios comparativos. Como demons-tram os autores, um verdadeiro arsenalde falácias pesa sobre os raciocínios an-tropológicos e volta a colocar perguntasgeneralizantes sem necessidade deenunciá-las.

A segunda linha de análise é desen-volvida em “As Lentes de Descartes,Razão e Cultura”, “Lévi-Strauss e osSentidos da História” e “Objetivação eSubjetivação no Último Foucault”. Nes-

tes artigos, explora-se a idéia da antro-pologia como história através do examede obras-chave da antropologia e filoso-fia. De Lévi-Strauss extrai-se uma liçãoprecisa, pertinente e muitas vezes elu-dida com a acusação de anti-historicis-mo. Se a História é nosso mito, é porqueessa tem sido nossa forma de reagirdiante da temporalidade. Esse raciocí-nio sustenta, mais do que uma relativi-zação do saber histórico, a afirmação daexistência de historicidades diferentesjunto a distintas formas de refletir sobreelas e de constituí-las. Assim, a separa-ção da historicidade em relação à His-tória e às filosofias da história não signi-fica negação da primeira mas sim, pelocontrário, abertura de um “caminho pa-ra uma reflexão histórica afastada dasarmadilhas de todos os evolucionismose de todas as ideologias celebratórias”(:63). Se a intervenção de Lévi-Straussdepura o acontecimento das pré-noçõesque buscam cingi-lo, o recurso a Fou-cault pode ser introduzido na tentativade conceitualizá-lo positivamente. As-sim, ressalta da leitura deste último araridade dos fatos humanos, sua emer-gência em um espaço de transformaçãoe fratura, sua derivação no cruzamentode campos de saber e de normatividadee de formas de subjetividade. Neste cru-zamento, o resultante não é o único pos-sível, porque toda raridade está habita-da de politicidade, de capacidade dedecidir, em um campo de possibilida-des, por uma atualização que bem po-deria ter sido outra. Essa raridade im-plica, ademais, o privilégio da singula-ridade (como combinatória local de li-nhas de força difusas à distância dequalquer universalidade e não como di-ferença irredutível), em vez da oscila-ção entre os particularismos insondáveise as universalizações etnocêntricas.

Essas posições têm conseqüênciaspara a definição e a prática do relativis-

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mo. De um ponto de vista epistemológi-co, trata-se de compreender que a su-bordinação da semelhança à diferençanão supõe uma diferença metafísica,absoluta e transcendente. Castoriadis,entre outros, entendia a instituição maiscomo verbo que como substantivo. Damesma maneira, deve entender-se a di-ferença: como trabalho de constituiçãode certas singularidades a partir de ou-tras, como movimento de distinção a serestabelecido a cada momento. Para es-se objetivo, o criticismo cartesiano cons-titui um modelo de pensamento maispróximo da antropologia do que se po-deria supor: mais do que ceticismo cog-nitivo ou moral, é a atitude que permi-te tornar histórico e singular o que seapresenta como natural e universal. Doponto de vista ético, as conseqüênciasnão são menos importantes. O relativis-mo emergente não surge do contrasteentre parâmetros absolutamente outrosopostos a parâmetros absolutamentepróprios. Equivale a contrastar o queem um campo de possibilidades é atua-lizado com outras atualizações dessemesmo campo, a assumir que essas pos-sibilidades poderiam comutar-se. A in-terpretação de Clastres por Deleuze es-clarece esse ponto: se as sociedades pri-mitivas não eram sem Estado e sim ca-racterizadas pela presença de podero-sos mecanismos contra o Estado, é pre-ciso admitir que essas sociedades regis-travam o funcionamento de mecanismosde Estado que foram inibidos, e que asnossas não bloquearam por completo osmecanismos que a ele resistem. Isto émais que um exercício epistemológico:há um valor ético que se agrega ao epis-temológico e o subordina. Vejamos emdetalhe: a antropologia como história,como ciência de dispositivos, encontranos outros “primitivos”, mais que o pas-sado de nossa contemporaneidade,atualizações, modos de operar a contin-

gência, que abalam a segurança comque praticamos nossas vidas. Na alteri-dade pode patentizar-se o que nossassociedades escondem com relativo su-cesso, o naturalizado ao longo de bata-lhas cujo rastro se perdeu, o que apren-demos a deixar de tomar em conta. Se éisto o que está em jogo na relação coma alteridade, é justo concluir que a ati-vidade da antropologia ganha sentidoético contribuindo para relativizar atua-lizações ligadas à politicidade que deci-de nossa contingência histórica.

A análise das práticas eleitorais, en-focando eleitores e candidatos, consti-tui um excelente campo de teste paraas intenções declaradas e elaboradasnos artigos já citados. Tomemos comoexemplo um dos artigos que desenvol-vem essa perspectiva. “Teorias, Repre-sentações e Práticas” mostra que a su-posta irracionalidade dos eleitores sedissolve se contemplamos simultanea-mente a dispersão, a integração instá-vel e a hierarquização de motivaçõesque eles realizam (motivações que in-cluem uma leitura do jogo eleitoral di-ferente da que sustentam descritiva ounormativamente as análises científicas).Mas essa demonstração tem um valorsuplementar. Ali onde os desenvolvi-mentos dominantes da análise políticasupõem correspondências entre sujei-tos e partidos, ou constatam desajustesque incitam a esperar evolução ou a de-mandar pedagogia, se empreende umaanálise que, como se se tratasse do ladoescuro da lua, dá conta do ponto cegodos conceitos da sociologia eleitoral eda ciência política. Ali onde essas disci-plinas projetam o cidadão, o partido, aracionalidade do votante, a análise his-tórica desnaturaliza o eleitor e recuperao fato de que é uma “ortopedia social”o que, no quadro das liberdades da erado individualismo, o institui. Mais queisso, torna manifesto que os atos dos

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eleitores não constituem o resultado doencontro entre essa institucionalizaçãoe uma tábula rasa, mas um ponto de en-contro conflitivo entre lógicas culturaisem disputa em uma equação cujos ter-mos são incertos, mas que, certamente,excluem o partido, o cidadão e a elei-ção, como formas universais e como ter-mos unívocos.

LUSTOSA, Isabel. 2000. Insultos Im-pressos. A Guerra dos Jornalistas naIndependência (1821-1823). São Paulo:Companhia das Letras. 497 pp.

Candice Vidal e SouzaDoutoranda, PPGAS-MN-UFRJ

A magnífica história dos personagensvanguardeiros da imprensa no Brasil ede sua presença decisiva nas lutas polí-ticas da Independência está recompos-ta de modo inédito neste livro de IsabelLustosa. Seu texto distingue-se do esti-lo narrativo tradicional das obras dehistória da imprensa para o período –mais preocupadas com a citação linearde jornais e publicistas – porque colocao leitor no centro dos debates do tempoao refazer o enredo da interlocução en-tre aquelas figuras notáveis do mundodo jornalismo na primeira metade doséculo XIX. As contendas registradasem jornal entre a partida do rei D. JoãoVI (abril de 1821) e o fechamento daAssembléia por D. Pedro I (novembrode 1823) são a marca preservada da-quela efervescência política. No relato,ao mesmo tempo em que se mantém ocalor dos discursos, colocando-os noseu contexto original de enunciação,também se resguarda o vínculo entre osautores e seu estilo de escrita caracte-rístico. Esses senhores das artimanhasretóricas criam uma linguagem jorna-

lística que combina expressões revolu-cionárias de 1789, adágios portugue-ses, humor apurado e ofensas pessoais.Acompanhamos o destino de jornalistase de posições políticas por eles abraça-das com fervor (genuíno ou oportunis-ta); o leitor ainda é bem amparadoquanto aos detalhes de fatos históricosnecessários à compreensão do eventodescrito e todos os nomes mencionadosrecebem notas biográficas.

O relato de Lustosa descreve comrara minúcia o enlace entre jornalismoe política no período da Independência.Nesse cenário, é o retrato da vida inte-lectual brasileira no seu nascedouro,quando se constitui a figura do intelec-tual compromissado com o lugar ondevive, que sobressai da história contadapela autora. Homens que se vêem coma missão pedagógica de formar e orien-tar politicamente o povo, ou melhor, aselites coloniais, daquele Brasil em viade assumir a condição de nação inde-pendente. Para tanto, “a imprensa foi omeio privilegiado de sua ação” (:33).

Trata-se, afinal, de um texto suges-tivo além das fronteiras da história daimprensa propriamente dita. Nele hádados para a caracterização sociológicado jornalismo brasileiro – os atores e asposições ideológicas e sociais a partirdas quais opinavam – em seu instanteformativo, aquele em que o público lei-tor passa a ser pensado como brasileiroe as posições dos jornalistas se definemem relação a ser ou não ser pelo Brasil.Nesses anos, articulou-se de forma deci-siva o empenho da palavra escrita – epor extensão, dos intelectuais – com acausa da Independência ou da existên-cia do Brasil como nação.

Admiração é o sentimento freqüen-te entre historiadores que se aproxi-mam da imprensa contemporânea daIndependência. Convergem na consta-tação de uma transformação nacionalis-

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ta aí acontecida. Como diz Lustosa, “eraa imprensa brasileira que nascia, com-prometida com o processo revolucioná-rio, no momento em que, de um dia pa-ra outro, deixávamos de nos considerarportugueses para nos assumirmos comobrasileiros” (:25-26). Neste ponto ela co-munga com outras obras de história daimprensa brasileira (para citar apenasautores renomados atualmente, NelsonWerneck Sodré, Barbosa Lima Sobrinhoe Juarez Bahia) nas quais a adjetivação“brasileira” está condicionada às con-dições políticas da Independência. É,pois, uma premissa interpretativa queidentifica o surgimento do “timbre bra-sileiro” (expressão de Nelson WerneckSodré) nos jornais circulantes. Por esseraciocínio, não é o local de impressãoque define primariamente a condição“gentílica” de um jornal, mas o seugrau de consciência e compromisso na-cional. Não seria descabido dizer que aregra geral nas narrativas em questão éa adesão dos autores ao ímpeto nacio-nalista de seus personagens. InsultosImpressos mantém esse espírito de ad-miração para com nossos antepassadosintelectuais. Com uma diferença funda-mental: este livro não possui o tom nor-mativo das histórias da imprensa, às ve-zes indistinguível da sucessão factualde jornalistas e jornais.

Isabel Lustosa revela desacordospontuais em relação aos argumentos decertos autores da bibliografia de refe-rência e não se intimida ao desconstruiropiniões assentadas sobre figuras comoJosé Bonifácio. Entretanto, característi-cas reveladoramente “nacionalistas”desse acervo de obras sobre história daimprensa no Brasil passam despercebi-das pela autora. A pergunta sobre comoaconteceu a imprensa da Independên-cia, certamente, não vem recebendouma resposta unívoca dos estudiososbrasileiros que propuseram versões dos

primórdios da imprensa brasileira. Casoas escolhas bibliográficas viessem acom-panhadas de um mapa básico das opi-niões acerca dos “fatos” da imprensana transição da Colônia para o Império,teríamos uma indicação satisfatória doteor das interpretações disponíveis so-bre o período. Como tantas outras his-tórias, a da imprensa brasileira tambémé uma narração com efeitos performati-vos, o que resiste à percepção arguta deLustosa. A meu ver, esta é a razão pelaqual a seleção de textos de referêncianessa área – com preferência acentua-da por trabalho de Carlos Rizzini – me-receria explicações.

Em que tipo de jornais, afinal, circu-lavam os “insultos”? No geral, eramedições fugazes, impressas em tiragensreduzidas e cujo alcance geográfico decirculação não costumava ultrapassar acidade de publicação. Além disso, a dis-tribuição se fazia diretamente aos assi-nantes, pois não se usava, ainda, o ex-pediente da venda avulsa nas ruas. Aquase totalidade das fontes trabalhadaspela autora pode ser nomeada como“jornais cariocas da Independência”(:32). A qualificação “nacional” dirigidaa essas folhas não se refere propriamen-te à realidade de sua distribuição empraças além-Corte, e sim à “nação” co-mo referente do escritor.

O grupo de redatores que coabitavano Rio de Janeiro raramente dialogoucom jornalistas das províncias. Uma ex-ceção importante foi Cipriano Barata,jornalista baiano radicado em Pernam-buco, responsável pela Sentinela da Li-berdade na Guarita de Pernambuco.Protestava contra as ações de governoempreendidas “a fim de se tornarem asprovíncias colônias do Rio de Janeiro”(:319). As reações à posição de Barataforam veementes e alguns jornalistasde proa, como os Andradas, acusaram-no de pretender amotinar as províncias.

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Podemos perceber, nas citações expos-tas pela autora, que os termos da con-tenda entre favoráveis e opositores aBarata convergiam para a definição dapostura de brasileiro ou de antibrasilei-ro. Dar existência às diferenças entreprovíncias e Corte significou uma novainserção semântica para o nacional noquadro dos debates sobre o Brasil. Con-tudo, naquele momento os jornalistas seempenhavam com fervor na querelaentre lusitanos e brasileiros. Este foi ogrande alvo das disputas retóricas emjornal, relegando para depois a viradado olhar de jornalistas e políticos paradentro do Brasil, já anunciada por Bara-ta no cenário dos periódicos da Inde-pendência.

É bem demonstrado no trabalho queo horizonte de leitores imaginado pelosredatores era restrito a emissários bas-tante específicos. Os outros colegas deofício do jornalismo e da política e o im-perador resumiam bem a composiçãodo público-alvo dos jornais daquela ho-ra. Somente as folhas que traziam o ser-viço de anúncios atingiriam a pequenaclasse média do Rio de Janeiro. Daí por-que o livro traz inúmeras situações deinterlocução entre jornais, quando senota que uma das ocupações centraisdos jornalistas é ler as demais publica-ções e proferir opinião sobre o que seandou dizendo.

A percepção clara da composição edas disposições da audiência é uma ca-racterística forte dessa imprensa, sobre-tudo porque a eficácia retórica dependeda correta adequação do discurso às ex-pectativas e valores do seu destinatário.Os redatores queriam persuadir seu lei-torado, convencendo-o da pertinênciade seus argumentos e juízos sobre pes-soas e conjunturas, mas igualmente pre-tendendo orientar a ação política, mo-vendo-a numa ou noutra direção. Sobreesses temas das formas de linguagem e

da enunciação das polêmicas na escritajornalística da Independência, a autoraconstrói o ponto de vista analítico dotrabalho, detalhado na conclusão cha-mada “Injúrias não são razões, nem sar-casmos valem argumentos”. Assim éque em todos os sete capítulos – intitu-lados com saborosas expressões “nati-vas” – há o cuidado com o dito, o autor,a forma de locução e os receptores ima-ginados pelo escritor, sem abdicar daexposição minuciosa do contexto políti-co maior do proferimento.

A conseqüência bem-vinda da preo-cupação com a retórica em papel é aapresentação do léxico político corren-te no período. Epítetos como marotos,chumbeiros, marinheiros, pés-de-chum-bo, corcundas e descamisados povoa-vam os jornais e compunham um vastorepertório de acusações, também curio-so quanto à descrição de aspectos físi-cos e de caráter dos personagens da mi-ra jornalística. As classificações do cam-po da política são localizadas em suaacepção própria do século XIX, fazen-do-nos ver quão compensadora é a his-tória das categorias do vocabulário po-lítico. Outros temas jornalísticos são asfiguras do compadre da roça e do com-padre da cidade, ocasião discursiva pa-ra que a imprensa vocalize e estabeleçaquadros interpretativos do Brasil parasua elite leitora.

A inexistência de fronteiras entrejornalismo, política e literatura é a mar-ca do contexto oitocentista. Os homensde jornal se viam como escritores e re-corriam à desqualificação estilística deseus oponentes – desejando-lhes a ex-clusão da “república das letras” – atémais que à contestação ideológica. Re-side aí uma das facetas instigantes dotrabalho, qual seja, o documento parauma sociologia do mundo jornalísticoque só poderá surpreender jornalistastout court muito depois. Carlos Drum-

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mond de Andrade já se referiu a um“jornal jornalístico”. Poderíamos desig-nar os periódicos lidos por Lustosa, emuitos outros que os seguiram, como“jornais não jornalísticos”. O “jornaljornalístico” será um produto de outrosdesdobramentos de nossa vida intelec-tual a produzirem autonomia relativade três “culturas”: a literatura, as ciên-cias universitárias e o jornalismo. Insul-tos Impressos, cuidadosa edição deuma tese de doutorado defendida em1997 no IUPERJ, clareia o percurso da-queles interessados na sociologia dojornalismo brasileiro, na etnografia domundo dos jornalistas ou na história dosintelectuais no Brasil, e naturalmenteregala os historiadores do século XIX.

MAIO, Marcos Chor e VILLAS BÔAS,Glaucia (orgs.). 1999. Idéias de Mo-dernidade e Sociologia no Brasil. En-saios sobre Luiz de Aguiar Costa Pin-to. Porto Alegre: Editora da UFRGS.351 pp.

Héctor Fernando Segura-RamírezDoutorando, Unicamp

Idéias de Modernidade e Sociologia noBrasil contém um rico e variado conjun-to de ensaios organizados em partes te-máticas, que constituem uma referên-cia de leitura obrigatória para pensartanto os processos de desenvolvimentoe modernização no Brasil, quanto asciências sociais e sua história e o papeldestas e do cientista social na constru-ção de uma sociedade democrática noBrasil contemporâneo. A obra é umatentativa bem-sucedida de “resgatar” aatualidade do pensamento de Luiz deAguiar Costa Pinto, um dos principaispersonagens da sociologia brasileira eimportante liderança acadêmica das

ciências sociais praticadas no Rio de Ja-neiro em meados do século XX.

Na abertura da obra, um texto dopróprio Costa Pinto em que ele atualizasua condição de filho do Iluminismo eda Modernidade e reafirma sua crençatanto na razão e na ciência como instru-mentos fundamentais para analisar, en-tender e construir um mundo melhor,quanto nas idéias de que a ciência so-cial é fundamentalmente crítica da so-ciedade e de que o cientista social devedesempenhar um papel ativo na cons-trução de uma sociedade mais justa. Pa-ra Costa Pinto o racismo e a guerra sãolamentáveis características da moderni-dade que não deveriam ter lugar emum mundo pós-moderno mais humano.

Na primeira parte, “Depoimentos”,é abordada a trajetória intelectual deCosta Pinto por pesquisadoras que con-viveram com ele em diferentes momen-tos do seu itinerário intelectual. MariaStella Amorim mostra aspectos relevan-tes do percurso social e da atuação aca-dêmica do sociólogo, entre 1939-1963,e evidencia traços da sua personalidadee do estilo de seus trabalhos, que fize-ram dele um pioneiro na pesquisa so-cial brasileira. Josildeth Gomes Consor-te oferece um testemunho cálido e hu-mano do autor, e descreve brevementeo papel por ele desempenhado em al-guns projetos e centros de pesquisa.

Na segunda parte, “Mudança So-cial e Idéias de Modernidade”, são dis-cutidas, através da obra de Costa Pinto,questões centrais do pensamento socio-lógico, a saber: as concepções de socio-logia, crise, mudança social, desenvol-vimento e transição. O texto de GlauciaVillas Bôas revisita a pesquisa feita porCosta Pinto no Recôncavo, e mostra quehá neste autor uma concepção instru-mental da sociologia comprometidacom um paradigma universalista, queprivilegia o estudo dos fenômenos so-

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ciais em transformação. Leopoldo Waiz-bort reconstrói as concepções e o signi-ficado dos conceitos de crise, do moder-no, da sociologia, da realidade e do pa-pel do cientista social, e evidencia algu-mas das mudanças e nuanças termino-lógicas experimentadas no sistema con-ceitual de Costa Pinto. José MaurícioDomingues estabelece um diálogo críti-co com Costa Pinto sobre o desenvolvi-mento econômico, a nova dependência,as relações internas à sociedade brasi-leira, a construção da cidadania e o pa-pel do intelectual, à luz das discussõescontemporâneas sobre modernidade eos processos de modernização no Bra-sil. O projeto de Costa Pinto e suasidéias de planificação e “ciência do de-senvolvimento” descansariam sobrefundamentos da modernidade: a mobi-lização de toda a sociedade e a contri-buição racional e planificadora do Esta-do cumprindo papel decisivo. E, EnnoDagoberto Liedke apreende os concei-tos e as hipóteses utilizadas pelo soció-logo baiano no tratamento teórico dasproblemáticas da mudança social, damodernidade e do desenvolvimento. Aquestão da mudança social teria sidotratada mediante a distinção conceitualentre desenvolvimento social e moder-nização, enquanto o problema do de-senvolvimento social brasileiro teria si-do explicado utilizando a hipótese damarginalidade estrutural. A obra do so-ciólogo teria significado uma tomada deposição militante em favor da contribui-ção da sociologia para mudanças so-ciais democratizantes.

Na terceira parte, “Cor, Discrimina-ção e Identidade Social”, é discutidauma questão cara ao pensamento socialbrasileiro: as relações raciais. Os textostratam do papel da escravidão na inter-pretação das desigualdades raciais, daatuação dos movimentos negros, da es-tratificação e do lugar dos negros na so-

ciedade, e da luta anti-racista contem-porânea. Angela Figueiredo focaliza otratamento dado por Costa Pinto ao pro-blema da ascensão social dos negros noBrasil. Enquanto Azevedo (1955), Pier-son (1971), Fernandes (1971) e Hasen-balg (1979) teriam percebido negros as-cendendo individualmente através dorecurso ao branqueamento, ao casa-mento inter-racial e ao apadrinhamentopor famílias brancas, Costa Pinto teriadistinguido um grupo de negros em as-censão, caracterizados por querer as-cender como “elites negras”. O ensaiode Flávio dos Santos Gomes aborda aidéia de escravidão nos estudos do pro-jeto UNESCO realizados por Costa Pintoe Florestan Fernandes. Tentar explicara escravidão através da sua herança (adesigualdade e a discriminação para osnegros) e a quase denúncia da discrimi-nação racial no Brasil seriam as carac-terísticas comuns a esses trabalhos. Nãoobstante, essas explicações sociológicassobre a escravidão na constituição doracismo contemporâneo teriam feito de-saparecer uma parte da história, o pe-ríodo 1888-1950. Já Monica Grin abor-da o tema das relações raciais nos tra-balhos de Costa Pinto e Florestan Fer-nandes, e determina que a diferençasubstantiva entre eles radica nas “for-mulações propositivas” para superar oproblema racial no Brasil. Costa Pinto,diferentemente de Florestan Fernan-des, previu uma racialização crescenteda sociedade brasileira: a raça transfor-mar-se-ia em critério de organizaçãosocial e de expectativas por direitos.Mais do que uma “acomodação” ouuma “desejável democracia racial” de-corrente da modernização, ele vê nasrelações raciais brasileiras uma tendên-cia para a “tensão racial” ou o conflito.Maria Angélica Motta-Maués focaliza apolêmica entre Costa Pinto e a intelli-gentsia do Teatro Experimental do Ne-

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gro, representada pelo sociólogo Guer-reiro Ramos, e oferece elementos para acompreensão da dinâmica e da lógicado campo das relações raciais no Rio deJaneiro. Na mesma coletânea há duasposições a respeito da interpretação do“movimento negro” carioca feita porCosta Pinto: Flávio dos Santos Gomesqualifica-a de desrespeitosa e pre-conceituosa, enquanto Maria AngélicaMotta-Maués considera-a acertada. Dis-putas recentes em torno do programa-convênio Fundação Ford/Centro de Es-tudos Afro-Asiáticos também atualizamessa polêmica.

Na quarta parte, “Pensamento So-cial Brasileiro: O Debate Intelectual dosAnos 50”, os ensaios focalizam o papeldos intelectuais e algumas das afinida-des e tensões temáticas, metodológicas,disciplinares e ideológicas que infor-mam a constituição dos campos disci-plinares das ciências sociais no país.Maria Laura Viveiros de Castro Caval-canti salienta a relação intelectual eafetiva entre Donald Pierson e OracyNogueira, e examina a construção doconceito de “preconceito de marca”.Importante para a compreensão do ra-cismo no Brasil, este conceito teria sidoproduto de uma rica tradição de pesqui-sa ligada à Universidade de Chicago,cuja característica seria combinar dadosestatísticos com pesquisa de camposensível à dimensão simbólica, aquiloque Pierson denominava “o aspecto hu-mano de nossos dados”. Marcos ChorMaio aborda o debate entre antropolo-gia e sociologia e determina alguns dosposicionamentos desses cientistas emrelação ao enfoque das relações interét-nicas pelas ciências sociais. As críticascontundentes de Costa Pinto aos estu-dos afro-brasileiros teriam como alvoNina Rodrigues e Arthur Ramos, nãoobstante essas críticas não levarem emconta os deslocamentos em direção à

antropologia social na produção inte-lectual de Arthur Ramos. O autor afir-ma que o projeto UNESCO seria a con-cretização do “programa da antropolo-gia brasileira” proposto por Arthur Ra-mos. Bila Sorj defende a idéia de queapesar da instabilidade das instituiçõesuniversitárias de pesquisa no Rio de Ja-neiro nos anos 50 e 60, houve nesta ci-dade importantes contribuições paraestabelecer os parâmetros de uma so-ciologia moderna. Assim, o esforço deCosta Pinto em definir as fronteiras dasociologia tanto em relação às outrasciências quanto em relação aos discur-sos políticos e ideológicos produzidospor intelectuais nesse período, confereao sociólogo um lugar central como fun-dador da sociologia no Brasil. HelenaBomeny evidencia as principais carac-terísticas do pensamento e da trajetóriaintelectual de um importante represen-tante da Escola Nova, Fernando deAzevedo, no que diz respeito ao seuempenho em melhorar o sistema edu-cacional brasileiro para a construção deuma “nação brasileira livre, educada egenerosa”. Os escolanovistas teriam seservido da sociologia como ferramentapara diagnosticar os problemas educa-cionais nacionais e propor reformas. Fi-nalmente, Nísia Trindade Lima mostra,a partir da análise comparativa dos tra-balhos de Costa Pinto e Florestan Fer-nandes, que a abordagem dos temas damudança social dirigida e das resistên-cias à mudança é a principal referênciada produção intelectual dos dois soció-logos entre 1950 e 1960. Além disso,eles compartilhariam o otimismo quan-to à capacidade de predição e direçãoatribuída à ciência em geral e à ciênciasocial em particular.

Na quinta parte, intitulada “As Ins-tituições de Ciências Sociais: Persona-gens, Trajetórias e Controvérsias”, osartigos tratam do processo de institucio-

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nalização das ciências sociais no Brasile das diversas orientações que ali con-fluíram. Assim, por exemplo, no Rio deJaneiro, a dita institucionalização nãoteria obedecido ao paradigma metódicoe regular de ensino e pesquisa, mas aum processo no qual várias gerações seintegrariam pelas relações de comuni-cação pedagógica e pelas experiências eidéias comuns. As missões culturais fran-cesas no Brasil, particularmente aquelasque participaram na fundação dos cur-sos de história no Rio de Janeiro, são fo-calizadas por Marieta de Moraes Fer-reira para mostrar o perfil diferenciadodos professores, a diversidade de in-fluências que eles trouxeram e comoatuavam como intermediários dos inter-câmbios culturais. Segundo a autora, ainfluência desses professores se mos-trou limitada no que diz respeito à novamaneira de fazer história no Brasil. Nãoobstante, sua presença teria sido impor-tante com relação à atualização biblio-gráfica dos alunos, à forma de estrutu-ração dos cursos, ao desenvolvimentodos canais de intercâmbio entre as co-munidades universitárias francesa e bra-sileira e à maior divulgação da culturabrasileira na França. Manuel Palaciosda Cunha e Melo analisa o campo dasciências sociais com sofisticadas técni-cas de análise quantitativa. A partir dasreferências bibliográficas de um con-junto significativo de teses em antropo-logia, sociologia e ciência política, de-fendidas em onze centros de ensino epesquisa do Brasil entre 1991 e 1993, oautor constrói um conjunto de diagra-mas e mapas referidos às linhagens na-cionais e estrangeiras e à estrutura dasposições dos cientistas nas ciências so-ciais brasileiras. Aparecida Maria Abran-ches mostra, a partir dos escritos de He-lio Jaguaribe e Guerreiro Ramos, queos intelectuais do ISEB se identificavamcom o conceito de intelligentsia, isto é,

a concorrência entre vocação política ecientífica na produção de um saber po-liticamente relevante para a comuni-dade à qual está referido, atuando co-mo norteadores das políticas públicasnacionais.

Finalmente, na Bibliografia de Cos-ta Pinto aparecem inventariados fatosrelevantes de sua trajetória acadêmicae os trabalhos que publicou entre 1943e 1987. Certamente, a publicação destelivro constitui uma importante contri-buição para o estudo das ciências so-ciais brasileiras e suas lutas.

NAEPELS, Michel. 1998. Histoire deTerres Kanakes: Conflits Fonciers etRapports Sociaux dans la Région deHouaïlou (Nouvelle-Calédonie). Paris:Éditions Belin. 380 pp.

David FajollesDoutorando, EHESS

Para escrever este livro, originalmenteuma tese de doutorado em antropologiadefendida na EHESS sob a orientaçãode Jean Bazin, Michel Naepels obser-vou rigorosamente um princípio meto-dológico: nunca usar, no corpo do texto,o termo “sociedade”. É possível ler nes-sa aposta a preocupação teórica desen-volvida por Jean Bazin e Alban Bensa,baseada em uma forte crítica do estru-turalismo e do culturalismo, e que tentaimportar para a pesquisa antropológicauma postura teórica ligada à filosofiaanalítica da ação.

Michel Naepels fez sua pesquisa decampo no centro-norte da Nova-Cale-dônia, na costa leste da Grande Terre (ailha principal). O município de Houaï-lou apresenta um condensado de todasas características mais óbvias da socie-dade (com perdão pelo uso do termo)

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caledoniana: uma terra de colonizaçãoeuropéia dispersa, baseada na criaçãode gado; uma exploração mineira já an-tiga, dada a riqueza da região em ní-quel; a presença, desde os anos 1870,de uma fazenda penitenciária no muni-cípio; a distância e a importância da es-trada para Nouméa, a capital; a força daimplantação das missões. No início doséculo, Houaïlou foi o campo de pesqui-sa privilegiado de Maurice Leenhardt,pastor da religião reformada e etnólo-go, autor do grande clássico etnológicosobre o mundo kanak: Do Kamo. Ape-sar do caráter relativamente arbitrário –comentado por Naepels – da escolha docampo de pesquisa, em função de limi-tes lingüísticos e administrativos, sua ri-queza é óbvia. Os conflitos de terra emHouaïlou não constituem, porém, o ob-jeto em si do autor: o que ele nos ofere-ce é uma análise geral das relações so-ciais kanak, retraçada sob o prisma dosconflitos de terra.

O livro começa com uma imersão nahistória colonial desse município da No-va-Caledônia. Essa parte não se apre-senta como um mero preâmbulo; asanálises históricas retornam regular-mente até o final do texto, de maneiratal que torna difícil definir o gênero dolivro: história ou antropologia? Uma dascaracterísticas dessa postura teórica ésuperar esse dilema, que se inscreve,afinal, mais na própria história internada academia e das delimitações disci-plinares do que em diferenças teóricase metodológicas. Histoire de Terres Ka-nakes pode ser lido também como umlivro de historiador.

Como em toda história colonial, aanálise confronta-se com a relatividadedas fontes disponíveis: sejam estas aadministração francesa ou os missioná-rios, o poder do texto escrito está nasmãos dos europeus. Nessas fontes, osKanak aparecem mais como traças da

história do que como agentes. Uma des-colonização dessa história seria possí-vel? É o que tenta Naepels, tomando emconta fontes orais, e partindo de uma hi-pótese que nos faz pensar nos debatespolítico-teóricos da escola historiográfi-ca dos subaltern studies: os Kanak nãopermaneceram na postura de coloniza-dos passivos, espectadores da história;tiveram um papel ativo no processo decolonização, seja como intermediáriosde acolhimento dos colonos e dos admi-nistradores, seja como os atores princi-pais da evangelização da região.

Para apoiar esta hipótese, Naepelsfaz referência às análises de A.G. Hau-dricourt sobre a “civilização do inha-me”: segundo Haudricourt, uma das ne-cessidades da economia kanak pré-co-lonial era a obtenção da maior varieda-de possível de tubérculos (inhame e ta-ro, bases da alimentação kanak) parareprodução e clonagem, de modo a pre-venir-se contra as incertezas climáticas.Essa razão econômica pode ser associa-da à freqüência das adoções e dos in-tercâmbios de crianças na Oceania emgeral, assim como à freqüência das nar-rativas kanak do dom da chefia para umestrangeiro, configuração que valorizamuito quem vem do exterior. Seguindoessa intuição de Haudricourt, e estabe-lecendo um vínculo com a famosa inter-pretação que Marshall Sahlins fez docontato entre James Cook e os Hawaii,Naepels propõe a seguinte hipótese: ocolonizador e a religião foram integra-dos (sem saber) nos caminhos do costu-me e da aliança kanak.

A história colonial poderia ser inter-pretada como a passagem do costume àlei (e à perspectiva da independênciakanak socialista). Esses momentos nãosão entidades históricas estáveis: são oque Naepels chama de “épocas subjeti-vas dominantes”, que servem geral-mente de quadro implícito de análise

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nas narrativas orais kanak sobre o fatocolonial. É essa presença do passado,esse papel política e socialmente ativoda história, que Naepels vai investigar.

A importância social do saber histó-rico no desenvolvimento dos conflitosatuais em Houaïlou deve ser associadaao seguinte fato: todos os patronímicoskanak são topônimos. Assim, as narra-tivas de origem clânica têm um papelcentral na legitimação política e fun-diária de cada um dos clãs, particular-mente desde que uma entidade admi-nistrativa (a ADRAF) foi encarregada daredistribuição de terras, em 1978. Acondição que a ADRAF impõe é a ne-cessidade de acordo quanto à legitimi-dade da pessoa ou da família que vaireivindicar essa ou aquela terra, dondeas divergências e a concorrência entrenarrativas de origem. Duas caracterís-ticas dessas narrativas devem ser des-tacadas:

A complexidade das reivindicaçõesestatutárias possíveis. Trata-se, para oindivíduo diante da ADRAF, do etnólo-go ou no quadro de uma preocupaçãopessoal, de recuperar as razões históri-cas das alianças ou das tensões atual-mente existentes entre o seu próprioclã e um outro qualquer, de retraçar otrajeto do seu clã. A guerra, a antropo-fagia e as mudanças freqüentes tor-nam-se quase impraticáveis com a or-dem colonial e a sedentarização força-da dos Kanak nas “reserves”; é, prova-velmente, por isso que as narrativas deorigem se tornaram a forma dominantede formulação e regulação dos confli-tos. Há vários níveis de legitimidadepolítica, inclusive as que foram criadaspela administração francesa, como astribos e seus “chefes administrativos”.Além disso, depois de 1945, o estabele-cimento das listas eleitorais enrijeceu aatribuição dos nomes e criou novas con-testações.

O caráter “rapsódico” das narrati-vas de origem torna impossível preten-der reconstituir a verdade sobre a pro-priedade fundiária pré-colonial. Assim,o papel do etnólogo deve se restringir acompreender as razões sociais e históri-cas dessas divergências. Apesar disso,a situação de entrevista e as demandasdo etnólogo fazem com que este seja di-retamente envolvido nesse trabalho co-letivo de produção de narrativas, até co-mo fonte de legitimidade. Disso derivaa complexa casuística do anonimato notexto de Naepels: alguns entrevistadossão citados pelo nome verdadeiro; emoutros casos, figuram sob um nome dis-farçado ou um X, para não prejudicar ointerlocutor.

Todos esses elementos conduzemNaepels a definir sua posição: o saberhistórico/etnológico inscreve-se sempreem uma conjuntura determinada (talnarrativa foi produzida em tal momen-to, em função da situação social em queo interlocutor estava envolvido e deseus interesses); o etnólogo está impli-cado nas condições de produção dessasnarrativas. Conseqüentemente, e con-tra a antropologia lévi-straussiana, nãose pode pretender a construção de umsaber mitológico descontextualizado. Osmitos de origem devem ser compreen-didos nos seus contextos de produção,no seu ser social e político.

É a mesma perspectiva que permitea Naepels propor uma análise originaldo parentesco: a afinidade e a co-resi-dência não são mais percebidas comoprincípios estruturantes de uma ordemsocial objetiva, mas como princípios re-ferenciais para ações e interpretaçõessubjetivas. Do mesmo modo, a segmen-taridade deve ser concebida não comouma instituição, mas como uma possibi-lidade, submetida à ambigüidade daidentidade política de cada um, em fun-ção dos vários pertencimentos que se

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pode reivindicar: o clã, a casa, a fratria,a tribo, o clã materno etc. Essa indeter-minação da ação constitui um dos cen-tros teóricos da análise antropológicaque Naepels propõe; é possível ler emfiligrana nos trabalhos dessa linha teó-rica a distinção, estabelecida por Witt-genstein no Caderno Azul, entre a or-dem dos motivos (razões) e a ordem dascausas. Não se pode pressupor os laçosque vão ser utilizados por um indivíduoem uma determinada situação. Os mo-tivos dos comportamentos conservamuma dimensão obscura: não se trata deuma partitura já escrita, nem da reali-zação de uma estrutura por um atormais agido do que agente. A ordem lo-cal e a ordem do parentesco não for-mam princípios estruturantes das rela-ções sociais, mas o quadro de um equi-líbrio de forças, o lugar estrutural dodesdobramento de interesses divergen-tes: poderíamos falar também de umagramática dos conflitos.

Em 1978, o Estado francês lançouuma política de redistribuição fundiáriaem favor dos Kanak. Paralelamente, areivindicação fundiária tornou-se tam-bém uma reivindicação cultural para aUnião Caledoniana e para a Frente deLibertação Nacional Kanak Socialista(FLNKS), os dois principais movimentosindependentistas kanak. A partir doseu estudo da história colonial de Hou-aïlou e das linhas principais de dinâmi-ca social, Naepels oferece um quadrogeral do que ele chama de “casuísticafundiária”, da qual se destacam pelomenos dois elementos:

Um dos paradoxos da reivindicaçãofundiária é o seguinte: ela tem por obje-tivo o restabelecimento de uma ordemfundiária que existia antes da criaçãocolonial das reservas; houve, todavia,desde então, transformações sociais es-senciais (desaparecimento de algunsclãs ou “casas”, ou, ao contrário, cresci-

mento demográfico de alguns linhagensetc.) que fazem com que a reconstruçãohipotética dessa ordem pré-colonial se-ja inapropriada sem as adaptações ne-cessárias.

As medidas de reforma fundiáriatêm uma outra dimensão: elas possibili-tam aos interessados escapar ao contro-le social local. Como os que migram pa-ra Nouméa, os que querem instalar-seem um sítio próprio podem livrar-se,parcialmente, do peso de relações so-ciais tensas que provocam conflitos, bri-gas, bruxaria, ciúme etc. A recriação docostume, com suas finalidades sociais,fundiárias e políticas, pode também fun-cionar como uma saída individual ou fa-miliar.

A leitura do livro de Naepels podeaté deixar uma impressão estranha: ahumildade ou o rigor nominalista do au-tor (nunca usa entidades essencializa-das como princípios explicativos) fazemcom que a análise pareça a descrição deum contexto, mesmo que complexo.Sente-se falta de descrições de casosespecíficos de conflito ou de criação deconsenso, que permitam entender me-lhor como as forças descritas e essa gra-mática dos conflitos se articulam. Mas éessa exigência, essa apresentação “ho-rizontal” de forças não hierarquizadas,que permite ao leitor compreender co-mo se constroem os conflitos sociais ka-nak. O (re)ordenamento desses fatoresé outra coisa: seria uma tarefa do políti-co, que poderia utilizar esse livro, comopropõe o autor na conclusão, para res-ponder a uma das necessidades atuaisda Nova-Caledônia: criar um direitofundiário ad hoc.

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