o discurso grÁfico-visual no livro patinho surdo1 .resumo o livro infantil constantemente promove

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O DISCURSO GRFICO-VISUAL NO LIVRO PATINHO SURDO1

Yrian Liana Bezerra de Oliveira2

(Universidade Federal do Rio Grande do Norte yrian_liana@hotmail.com)

Joatan David Ferreira de Medeiros3

(Universidade Federal do Rio Grande do Norte joatanfm@yahoo.com.br)

RESUMO

O livro infantil constantemente promove formas de dilogo entre a ilustrao e o texto verbal. Essa

articulao no universo da literatura surda torna-se essencial para o leitor surdo, dada a sua

condio de sujeito visual. A imagem deixa de ser um simples apndice ilustrativo da mensagem

lingustica escrita em lngua portuguesa para incluir a lngua de sinais na representao dos

personagens. Nessa perspectiva, este estudo pretende analisar como se d a organizao do discurso

grfico-visual no livro Patinho surdo (KARNOPP e ROSA, 2011), buscando verificar de que forma

as ilustraes estabelecem um elo de identificao com a criana surda. O livro resultado da

adaptao do clssico da literatura universal infantil O patinho feio e, diferente da maioria dos

livros publicados no contexto da literatura surda, no possui mdia com verso sinalizada. Quanto a

sua construo lingustica, a narrativa est escrita em Lngua Portuguesa. No entanto, a

representao dos sinais da Libras nas ilustraes ao longo da historia expressa uma interao entre

as duas lnguas. O presente artigo surgiu como desdobramento das atividades realizadas na

disciplina de Literatura Surda I, no semestre 2016.1, do curso de Letras-Libras/Lngua Portuguesa

da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e partiu das leituras e discusses realizadas em

sala de aula, entre elas as reflexes de Mouro (2012), Strobel (2013) e Morgado (2011) sobre a

literatura surda e de Palo e Oliveira (1998) e Faria (2004) sobre as especificidades da literatura

Infantil.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura Surda Infantil, Ilustrao, Leitor Surdo, Libras.

INTRODUO

O debate em torno da literatura surda no Brasil novo e ainda embrionrio do ponto

de vista terico. Ele surge vinculado s discusses atuais em torno da lingustica da Libras,

1Artigo apresentado no VI Encontro Nacional de Literatura Infanto-juvenil e Ensino, no Grupo de

Trabalho Literatura Surda, realizado na Universidade Federal de Campina Grande, de 31/08 a 02/09 de

2016. 2Aluna do curso de Letras Libras/Lngua Portuguesa como L2 para Surdo, da UFRN.

3Professor da rea de Estudos Literrios para Usurios de Libras, do curso de Letras Libras/Lngua

Portuguesa como L2 para Surdo, da UFRN.

da escolarizao de alunos surdos, da pesquisa em lngua de sinais, do bilinguismo e da

cultura surda. Merece destaque na ampliao desse debate a criao dos cursos superiores

de formao de intrpretes e de professores, o que tem intensificado a leitura analtica, a

pesquisa, a catalogao, o registro e o julgamento dessa literatura. Nesses novos espaos, as

disciplinas de Literatura Surda, Teoria Literria, Introduo aos Estudos da Literatura, tm

contribudo para a circulao de obras, a formao de um publico leitor, o incentivo

criao do texto literrio e aos estudos que legitimam e divulgam essa produo artstica.

De igual maneira, tm possibilitado a criao de vrios sinais da Libras que, aos poucos,

fortalecem a crtica e a apreciao a ela dedicadas.

Este estudo, desse modo, se insere nessa conjuntura de emerso dessa literatura. A

motivao para a sua elaborao surgiu das atividades realizadas na disciplina de Literatura

Surda I, do curso de Letras Libras/Lngua Portuguesa da UFRN, no semestre 2016.1.

Realiza uma leitura analtica do livro Patinho surdo, de Karnopp e Rosa (2011), atentando

para a seguinte questo: como a articulao entre o texto verbal e a imagem se constitui na

na narrativa para criar representaes do surdo e da cultura surda. O livro, ilustrado pela

desenhista surda Maristela Alano, uma releitura do conto infantil O Patinho Feio, do

escritor dinamarqus Hans Christian Andersen, publicado pela primeira vez em 1843, na

coleo Nye Eventyr (Novos contos de fadas), na cidade de Copenhague, Dinamarca.

Figura 1: Capa da primeira

edio do Nye Eventyr, de

Andersen (1943).

Figura 2: Ilustrao de O Patinho feio, do dinamarqus

Vilhelm Pedersen, primeiro artista a ilustrar as obras de

Andersen.

Fonte: Wikipdia. Disponvel em:

Acesso: 09 nov.

Fonte: Wikipdia. Disponvel em:

Acesso: 09 nov. 2016.

2016.

Com o objetivo de compreender a natureza dos livros produzidos para crianas, em

especial para crianas surdas, realizamos uma pesquisa bibliogrfica sobre a construo da

imagem e suas funes na literatura infantil (PALO e OLIVEIRA, 1998; FARIA, 2004;

LINDEN, 2010), bem como sobre as especificidades da literatura surda voltada para esse

pblico (MORGADO, 2011; MOURO 2012;).

Uma primeira leitura da obra em questo nos permitiu a percepo da importncia

da ilustrao como recurso visual afim condio lingustica da criana surda, assim como

abriu novas perspectivas para entendermos que o equilbrio entre texto e imagem se torna

essencial para a compreenso da narrativa. Conforme assinala Faria (2004, p. 39), [...] a

lgica textual leva a uma forma diferente de leitura em relao leitura da imagem e sua

lgica iconogrfica. No caso da literatura voltada para o pblico surdo, a ilustrao dos

espaos e aes dos personagens inclui, na maioria das vezes, representaes do surdo e da

surdez, a exemplo do desenho de sinais.

2. O conto infantil na literatura surda

Para Antonio Candido, fazem parte da literatura, da maneira mais ampla possvel,

[...] todas as criaes de toque potico, ficcional ou dramtico em todos os

nveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que

chamamos folclore, lenda chiste, ate as formas mais complexas e difceis

da produo escrita das grandes civilizaes.

Vista deste modo a literatura aparece claramente como manifestao

universal de todos os homens em todos os tempos. No h povo e no h

homem que possa viver sem ela, isto , sem a possibilidade de entrar em

contato com alguma espcie de fabulao (CANDIDO, 2011. p. 174)

A comunidade surda, nessa linha de reflexo, tambm possui uma literatura,

diferenciando-se das demais, sobretudo, pelo uso ou aluso lngua de sinais e pela

referncia ao universo da cultura surda. Ela surge da necessidade da prpria comunidade de

narrar suas histrias, assim como de tornar as narrativas da literatura das lnguas orais

acessveis ao surdo.

Para Karin Strobel (2013, p. 71) a literatura surda um dos artefatos da cultura

surda e traduz a memria das vivncias surdas atravs das vrias geraes de surdos.

Segundo a autora, as histrias, transmitidas atravs da lngua de sinais, so, em sua maioria,

parte das experincias das comunidades surdas, que difundem seus valores e orgulho da

cultura surda, reforando vnculos com as geraes mais jovens.

Marta Morgado (2011, p. 21), aprofundando a discusso, chama a ateno para a

necessidade de estabelecer uma diferena entre a literatura sinalizada e a literatura surda.

Para a autora portuguesa, a literatura sinalizada parte da literatura surda. Esta, por sua

vez, mais abrangente e no tem de ser contada exclusivamente em lngua de sinais,

podendo ser escrita, desde que o tema seja sobre surdos.

Uma anlise mais geral desta literatura no Brasil nos permite identificar os seguintes

tipos de publicao:

Livro impresso com narrativa em lngua portuguesa escrita e DVD com verso em

Libras (Ex: As aventuras de Pinquio: em lngua de sinais brasileira Pimenta e

Freitas, 2006);

Livro impresso com narrativa em lngua portuguesa escrita e ilustraes contendo

sinais da Libras (Ex: As luvas mgicas do Papai Noel Klein e Mouro, 2012);

DVD com texto sinalizado em Libras e legenda em lngua portuguesa escrita (Ex:

Seis fbulas de Esopo Pimenta, 2006);

DVD com texto sinalizado em Libras (Ex: Literatura em LSB: poesia, fbula,

histrias infantis Pimenta, 1999);

Livro impresso com narrativa em escrita de sinais e verso em lngua portuguesa

escrita mais ilustraes de sinais da Libras (Ex: Rapunzel Surda Silveira, Karnopp

e Rosa, 2005);

DVD com texto sinalizado em Libras e legendas em lngua portuguesa escrita e em

voz (Ex: Contando Histrias em Libras: clssicos da literatura mundial

INES/MEC, 2008);

Desse modo, a partir das publicaes disponveis, possvel afirmar que a literatura

surda , na maioria dos casos, bilngue. Essa constatao pode ser resultado da condio de

uso de duas lnguas por grande parte dos surdos e do contato com os ouvintes. A esse

respeito afirmam Sutton-Spence e Quadros (2006, p. 111) que:

A identidade e a cultura das pessoas surdas so complexas, j que seus

membros frequentemente vivem num ambiente bilngue e multicultural.

Por um lado, as pessoas surdas fazem parte de um grupo visual, de uma

comunidade surda que pode se estender alm da esfera nacional, no nvel

mundial. uma comunidade que atravessa fronteiras. Por outro lado, eles

fazem parte de uma sociedade nacional, com uma lngua de sinais prpria

e com culturas partilhad