o direito fundamental À proteÇÃo e ?· que a liga ao constitucionalismo de cunho...

Download O DIREITO FUNDAMENTAL À PROTEÇÃO E ?· que a liga ao constitucionalismo de cunho democrático-social…

Post on 08-Oct-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Ano 2 (2013), n 4, 3183-3255 / http://www.idb-fdul.com/ ISSN: 2182-7567

    O DIREITO FUNDAMENTAL PROTEO E

    PROMOO DA SADE NA ORDEM JURDICO-

    CONSTITUCIONAL: UMA VISO GERAL

    SOBRE O SISTEMA (PBLICO E PRIVADO) DE

    SADE NO BRASIL1

    Ingo Wolfgang Sarlet*

    Mariana Filchtiner Figueiredo**

    Resumo: o presente artigo versa sobre o contedo do direito

    fundamental proteo e promoo da sade na perspectiva do

    1 O presente artigo consiste em verso revista, atualizada, parcialmente reestruturada

    para a presente coletnea (ampliada quanto a alguns pontos, reduzida quanto a

    outros) do trabalho originalmente publicado sob o ttulo Algumas consideraes

    sobre o direito fundamental proteo e promoo da sado nos vinte anos da

    Constituio Federal de 1988, na Revista de Direito do Consumidor n 67, 2008, p.

    125-172, objeto de traduo para o espanhol e publicao sob o ttulo Algunas

    consideraciones sobre el derecho fundamental a la proteccin y promocin de la

    salud a los 20 aos de la Constitucin Federal de Brasil de 1988 (trad. Maruja

    Cabrera de Varese) in: COURTIS, Christian y SANTAMARA, Ramiro vila

    (Editores), La proteccin judicial de los derechos sociales, Ministrio de Justicia y

    Derechos Humanos, Quito: Equador, 2009, p. 241- 299. * Doutor em Direito do Estado pela Universidade de Munique. Estudos em nvel de

    Ps-Doutorado em Munique (bolsista CAPES/DAAD e Max-Planck) e Georgetown.

    Professor Titular de Direito Constitucional da Faculdade de Direito e dos Programas

    de Mestrado e Doutorado em Direito e Cincias Criminais da PUCRS.

    Representante brasileiro e correspondente cientfico junto ao Instituto Max-Planck

    de Direito Social Estrangeiro e Internacional (Munique). Professor Visitante e

    Orientador de Teses no Doutorado em Direitos Humanos da Universidade Pablo de

    Olavide (Sevilha), Professor Visitante e Pesquisador pelo Programa Erasmus

    Mundus na Universidade Catlica Portuguesa (Lisboa). Professor da Escola

    Superior da Magistratura do Rio Grande do Sul (AJURIS). Pesquisador-visitante na

    Harvard Law School. Juiz de Direito em Porto Alegre. ** Mestre e Doutoranda em Direito pela Pontifcia Universidade Catlica do Rio

    Grande do Sul (PUCRS). Especialista em Direito Municipal pelo Centro

    Universitrio Ritter dos Reis (UniRITTER). Integrante do Grupo de Estudos e

    Pesquisas em Direitos Fundamentais (GEADF), vinculado PUCRS e ao CNPq.

    Advogada da Unio.

  • 3184 | RIDB, Ano 2 (2013), n 4

    marco jurdico-constitucional brasileiro, buscando identificar e

    avaliar, a partir do direito positivo, da literatura e da jurispru-

    dncia, quais so os seus titulares e qual o seu objeto, bem co-

    mo quais so e como so compreendidos e implementados os

    princpios estruturantes do sistema de sade no Brasil.

    Palavras-chave: direito sade titulares contedo princ-

    pios estruturantes do sistema de sade

    Abstract: this paper analyses the content of the fundamental

    right to protection and promotion of health in the light of the

    Brazilian legal and constitutional system trying to identificate

    and evaluate considering the positive Law, the literature and

    the judicial precedents, who are the rightholders and what is

    the content of the right, besides showing which are the struc-

    tural principles of the health systhem in Brazil and how are

    they understood and implemented.

    Keywords: right to health rightholders content structual

    principles of the health system

    I - O DIREITO FUNDAMENTAL SADE NO MBITO

    DA EVOLUO CONSTITUCIONAL BRASILEIRA E OS

    PRINCIPAIS INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS PARA

    SUA REGULAO.

    consagrao constitucional de um direito fun-

    damental sade, juntamente com a positivao

    de uma srie de outros direitos fundamentais

    sociais, certamente pode ser apontada como um

    dos principais avanos da Constituio da Rep-

    blica Federativa do Brasil de 1988 (doravante designada CF),

    que a liga ao constitucionalismo de cunho democrtico-social

    desenvolvido, sobretudo, a partir do ps-II Guerra. Sem que

  • RIDB, Ano 2 (2013), n 4 | 3185

    ainda se pudesse falar de um direito fundamental sade, a

    proteo constitucional existente antes de 1988 limitava-se a

    normas esparsas, valendo referncia a garantia de socorros

    pblicos, prevista na Constituio de 1824 (art. 179, XXXI), e

    a garantia de inviolabilidade do direito subsistncia, estabele-

    cida pela Constituio de 1934 (art. 113, caput). De modo ge-

    ral, contudo, no se pode falar de uma efetiva proteo da sa-

    de como tal, j que os textos constitucionais anteriores cingi-

    am-se a incluir a sade como objeto das normas de atribuio

    de competncias, legislativas e executivas2, ou a outorgar uma

    proteo apenas indireta, dentre os direitos do trabalhador e

    normas de assistncia social3. Nesse contexto, ademais, cabe

    assinalar a inexistncia de disposies acerca da participao

    da iniciativa privada na proteo ou prestao de sade o que

    tambm se explica pela contemporaneidade dos planos de sa-

    de como fenmeno social, cujo recrudescimento ocorreu a par-

    tir do final dos anos de 1990 e j de um modo diverso daquele

    encontrado nos institutos de assistncia e caixas de penses.

    A atribuio de contornos prprios ao direito fundamen-

    tal sade, correlacionado, mas no propriamente integrado

    nem subsumido garantia de assistncia social, foi exatamente

    um dos marcos da Constituio Federal de 1988, rompendo

    com a tradio anterior, legislativa e constitucional, e atenden-

    do, de outra parte, s reivindicaes do Movimento de Reforma

    Sanitria, consolidadas, especialmente, nas concluses da VIII

    Conferncia Nacional de Sade4. A explicitao constitucional

    2 Nesse sentido: Constituio de 1934, art. 5, XIX, c, e art. 10, II; Constituio de

    1937, art. 16, XXVII, e art. 18, c e e; Constituio de 1946, art. 5, XV, b e

    art. 6; Constituio de 1967, art. 8, XIV e XVII, c, e art. 8, 2, depois

    transformado em pargrafo nico pela Emenda Constitucional n 01/1969. 3 Por exemplo: Constituio de 1934, art. 121, 1, h, e art. 138; Constituio de

    1937, art. 127 e art. 137, item 1; Constituio de 1946, art. 157, XIV; Constituio

    de 1967, art. 165, IX e XV. 4 Como informa Ana Paula Raeffray, as Conferncias Nacionais de Sade foram

    institudas em 1937, pela Lei n 378, tendo por escopo facilitar o conhecimento, por

    parte do Governo Federal, acerca das atividades relativas sade no pas, assim

  • 3186 | RIDB, Ano 2 (2013), n 4

    do direito fundamental sade, assim como a criao do Sis-

    tema nico de Sade (SUS) decorrem, portanto, da evoluo

    dos sistemas de proteo antes institudos em nvel ordinrio5,

    assim como algumas das principais caractersticas do regime

    jurdico-constitucional do direito sade so tambm reflexos

    desse processo, dentre as quais: a) a conformao do conceito

    constitucional de sade concepo internacional estabelecida

    pela Organizao Mundial da Sade (OMS), sendo a sade

    compreendida como o estado de completo bem-estar fsico,

    mental e social; b) o alargamento do mbito de proteo consti-

    tucional outorgado ao direito sade, ultrapassando a noo

    meramente curativa, para abranger os aspectos protetivo e

    promocional da tutela devida; c) a institucionalizao de um

    sistema nico, simultaneamente marcado pela descentralizao

    e regionalizao das aes e dos servios de sade; d) a garan-

    tia de universalidade das aes e dos servios de sade, alar-

    gando o acesso at ento assegurado somente aos trabalhadores

    com vnculo formal e respectivos beneficirios; e) a explicita-

    o da relevncia pblica das aes e dos servios de sade; f)

    a submisso do setor privado s normas do sistema pblico de

    sade6.

    Alm de consideraes mais especficas acerca do regime

    jurdico do direito sade, a serem desenvolvidas nos tpicos

    subseqentes, importa ainda lembrar que o delineamento cons-

    titucional do direito sade guarda relao e uma constante

    abertura ao Direito Internacional. Nesse aspecto, e apenas a

    ttulo ilustrativo, podem ser destacadas as seguintes normas:

    Declarao Universal de Direitos Humanos da Organizao das

    como orientar a execuo dos servios locais o que ficou muito evidenciado na

    VIII Conferncia, em 1986. Cf. RAEFFRAY, A. P. O. de. Direito da Sade de

    acordo com a Constituio Federal. So Paulo: Quartier Latin, 2005, p. 260-262. 5 Cabe lembrar, como primeiras tentativas de sistematizao do setor da sade, o

    Sistema Nacional de Sade, criado pela Lei n 6.229/1975 e, j em 1987, o Sistema

    Unificado e Descentralizado de Sade (SUDS). 6 RAEFFRAY, A. P., op. cit., 262 e ss.

  • RIDB, Ano 2 (2013), n 4 | 3187

    Naes Unidas (DUDH/ONU), de 1948, arts. 22 e 25 (direitos

    segurana social e a um padro de vida capaz de assegurar a

    sade e o bem-estar da pessoa); Pacto Internacional de Direitos

    Econmicos, Sociais e Culturais (PIDESC), de 19667, art. 12

    (direito ao mais alto nvel possvel de sade); Conveno Ame-

    ricana de Direitos Humanos, conhecido como Pacto de So

    Jos da Costa Rica8, arts. 4 e 5 (direitos vida e integrida-

    de fsica e pessoal); Protocolo Adicion