o diário de anne frank

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  1. 1. DADOS DE COPYRIGHT Sobre a obra: A presente obra disponibilizada pela equipe da Biblioteca do Exilado e distribuida atravs do Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer contedo para uso parcial em pesquisas e estudos acadmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. expressamente proibida e totalmente repudavel a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente contedo Sobre ns: O Le Livros e seus parceiros disponibilizam contedo de dominio publico e propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educao devem ser acessveis e livres a toda e qualquer pessoa. Voc pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.Info ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link. Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e no mais lutando por dinheiro e poder, ento nossa sociedade poder enfim evoluir a um novo nvel.
  2. 2. CRCULO DO LIVRO So Paulo, Brasil Edio integral Ttulo do original: "Het achterhuis" Traduo: Elia Ferreira Edel E-book: Digitalizao: SCS
  3. 3. APRESENTAO H quarenta anos, no perodo de ocupao da Holanda pelos nazistas, as famlias Frank e Van Daan, alm do dr. Dussel, todos de origem judaica, refugiaram-se nos fundos de um estabelecimento comercial no centro da cidade de Amsterdam. Nesse esconderijo, essas pessoas permaneceram de julho de 1942 at agosto de 1944, quando foram descobertas. Durante esse perodo, Anne, a filha mais nova dos Frank, redigiu um dirio em alguns cadernos que levara consigo. Neles, registrou todo o tempo que ali viveram. Anne estava, no incio de seu dilogo com Kitty nome que deu ao dirio , com treze anos, momento importante para todo mundo; para o papel foram, ento, todas as suas observaes e preocupaes com a vida e consigo mesma, o contato com o mundo, com a histria e com o outro. Descoberto o Anexo Secreto, seus ocupantes foram presos, deixando no local seus pertences, que foram resgatados por amigos depois de algum tempo. Dentre os objetos ali deixados, encontrou-se o dirio de Anne. Aps o trmino da guerra, transformado em livro, o dirio foi traduzido e divulgado ao mundo todo. O Editor
  4. 4. "Espero poder confiar inteiramente em voc, como jamais confiei em algum at hoje, e espero que voc venha a ser um grande apoio e um grande conforto para mim." Anne Frank, 12 de junho de 1942.
  5. 5. O DIRIO Domingo, 14 de junho de 1942 Na sexta-feira, 12 de junho, acordei s seis horas. Pudera! Era dia do meu aniversrio. claro que eu no tinha permisso para levantar quela hora, e por isso tive de refrear a minha curiosidade at as quinze para as sete. A ento no agentei mais e corri at a sala de jantar, onde recebi as mais efusivas saudaes de Moortie (a gata). Logo depois das sete fui dar bom-dia mame e ao papai, e, depois, corri sala de estar para desembrulhar meus presentes. O primeiro que me saudou foi voc, possivelmente o melhor de todos. Sobre a mesa havia tambm um ramo de rosas, uma planta e algumas penias; durante o dia chegaram outros. Ganhei uma poro de coisas de mame e papai e fui devidamente presenteada por vrios amigos. Entre outras coisas, deram-me um jogo de salo chamado Cmara Escura, muitos doces, chocolates, um quebra-cabea, um broche, os Contos e lendas dos Pases Baixos, de Joseph Cohen, Daisy e suas frias nas montanhas (um livro espetacular) e algum dinheiro. Agora posso comprar Os mitos da Grcia e Roma que legal! Lies veio ento apanhar-me para irmos escola. No recreio, distribu biscoitinhos doces para todo mundo, e ento tivemos de voltar s aulas. Agora preciso parar. At logo. Acho que vamos ser grandes amigos. Segunda-feira, 15 de junho de 1942 Minha festa de aniversrio foi no domingo de tarde. Passamos um filme de Rin-Tin-Tin, O faroleiro. Meus amigos e eu adoramos. Divertimo-nos a valer. Vieram muitos meninos e meninas. Mame est sempre querendo saber com quem vou me casar. Nem de longe suspeita que com Peter Wessel; um dia sem corar nem pestanejar consegui tirar definitivamente essa idia da cabea dela. Durante anos, Lies Goosens e Sanne Houtman foram minhas melhores amigas. Mas depois conheci Jopie de Waal, na Escola Secundria Israelita. Passamos a andar juntas, e ela , agora, minha melhor amiga. Lies fez amizade com outra menina, e Sanne freqenta outra escola, onde arranjou novos amigos. Sbado, 20 de junho de 1942 Faz alguns dias que no escrevo porque eu quis, antes de tudo, pensar neste dirio. estranho uma pessoa como eu manter um dirio; no apenas por falta de hbito, mas porque me parece que ningum nem eu mesma poderia interessar-se pelos desabafos de uma garota de treze anos. Mas que importa? Quero escrever e, mais do que isso, quero trazer tona tudo o que est enterrado bem fundo no meu corao.
  6. 6. H um ditado que diz: "O papel mais paciente que o homem". Lembrei-me dele em um de meus dias de ligeira melancolia, quando estava sentada, com a mo no queixo e to entediada e cheia de preguia que no conseguia decidir se saa ou ficava em casa. Sim, no h dvida de que o papel paciente, e como no tenho a menor inteno de mostrar a ningum este caderno de capa dura que atende pelo pomposo nome de dirio a no ser que encontre um amigo ou amiga verdadeiros , posso escrever vontade. Chego agora ao xis da questo, o motivo pelo qual resolvi comear este dirio: no possuo nenhum amigo realmente verdadeiro. Vou explicar isso melhor, pois ningum h de acreditar que uma menina de treze anos se sinta sozinha no mundo. Alis, nem esse o caso. Tenho meus pais, que so uns amores, e uma irm de dezesseis anos. Conheo mais de trinta pessoas a quem poderia chamar de amigas e tenho uma poro de pretendentes doidos para me namorar e que, no o podendo fazer, ficam me espiando, na classe, por meio de espelhinhos. Tenho parentes, tios e tias, que tambm so uns amores, alm de um lar agradvel. Aparentemente, nada me falta. Mas acontece sempre o mesmo com todos os meus amigos: gracejos, brincadeiras, nada mais. Jamais consigo falar de algo que no seja a rotina de sempre. O problema que no conseguimos nos aproximar uns dos outros. Talvez me falte autoconfiana; seja como for, o fato esse, e no consigo mud-lo. Da, este dirio. A fim de destacar na minha imaginao a figura da amiga por quem esperei tanto tempo, no vou anotar aqui uma srie de fatos corriqueiros, como faz a maioria. Quero que este dirio seja minha amiga e vou chamar esta amiga de Kitty. Mas se eu comeasse a escrever a Kitty, assim sem mais nem menos, ningum entenderia nada. Por isso, mesmo contra minha vontade, vou comear fazendo um breve resumo do que foi minha vida at agora. Meu pai tinha trinta e seis anos quando conheceu minha me, que na ocasio contava vinte e cinco. Margot, minha irm, nasceu em 1926, em Frankfurt. A 12 de junho de 1929, nasci eu, e, como somos judeus, emigramos para a Holanda em 1933, onde meu pai foi designado para o cargo de diretor-gerente da Travies N. V. Esta firma mantm estreitas relaes com outra firma, a Kolen & Co., que funciona no mesmo edifcio e da qual meu pai scio. O resto de nossa famlia, entretanto, sofreu todo o impacto das leis anti-semitas de Hitler, enchendo nossa vida de angstias. Em 1938, depois dos pogroms, meus dois tios (irmos de minha me) fugiram para os Estados Unidos. Minha av, j contando setenta e trs anos, veio morar conosco. Depois de maio de 1940, os bons tempos se acabaram: primeiro a guerra, depois a capitulao, seguida da chegada dos alemes. Foi ento que, realmente, principiaram os sofrimentos dos judeus. Decretos anti-semitas surgiam, uns aps outros, em rpida sucesso. Os judeus tinham de usar, bem vista, uma estrela amarela; os judeus tinham de entregar suas bicicletas; os judeus no podiam andar de bonde; os judeus no podiam dirigir automveis. S lhes era permitido fazer compras das trs s cinco e, mesmo assim, apenas em lojas que tivessem uma placa com os dizeres: loja israelita. Os judeus eram obrigados a se recolher a suas casas s oito da noite, e, depois dessa hora, no podiam sentar- se nem mesmo em seus prprios jardins. Os judeus no podiam freqentar teatros, cinemas e
  7. 7. outros locais de diverso. Os judeus no podiam praticar esportes publicamente. Piscinas, quadras de tnis, campos de hquei e outros locais para a prtica de esportes eram-lhes terminantemente proibidos. Os judeus no podiam visitar os cristos. S podiam freqentar escolas judias, sofrendo ainda uma srie de restries semelhantes. Assim, no podamos fazer isto e estvamos proibidos de fazer aquilo. Mas a vida continuava, apesar de tudo Jopie costumava dizer-me: A gente tem medo de fazer qualquer coisa porque pode estar proibido. Nossa liberdade era tremendamente limitada, mas ainda assim as coisas eram suportveis. Vov morreu em janeiro de 1942. Ningum pode imaginar o quanto ela est presente em meus pensamentos e o quanto eu ainda gosto dela. Em 1934 fui para a escola, o Jardim de Infncia Montessori, e l continuei. Ao terminar o 6B, tive de despedir-me da sra. K. Foi uma tristeza! Ambas choramos. Em 1941, fui com Margot, minha irm, para a Escola Secundria Israelita. Ela, para o quarto ano, eu, para o primeiro. Por enquanto, tudo vai bem para ns quatro, e, assim, chego ao dia de hoje. Sbado, 20 de junho de 1942 Querida Kitty Vou principiar j. Tudo est tranqilo neste momento. Mame e papai saram, e Margot foi jogar pingue-pongue com alguns amigos. Eu tambm tenho jogado um bocado de pingue-pongue, ultimamente. Ns, jogadores de pingue-pongue, adoramos sorvete, principalmente no vero, quando sentimos mais calor por causa do jogo. Assim, quase sempre, ao final do jogo, vamos todos para a sorveteria mais prxima a Delphi ou a Osis , onde so permitidos judeus. A Osis geralmente est cheia, e em nosso grande crculo de amigos sempre h algum cavalheiro generoso ou namorado que nos oferece uma quantidade de sorvete muito maior do que a que conseguiramos devorar em uma semana. Voc deve estar admirada por eu estar falando de n